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sábado, 29 de setembro de 2012

Andarilhanças 55

Saber Geografia
            Pasmo quando, ao falar com um(a) operador(a) de centrais telefónicas de empresas implantadas a nível nacional, me perguntam, por exemplo, Cascais em que distrito fica? Ou me sugerem, como mais perto, a loja que está nas avenidas novas em Lisboa, quando sou capaz de ter uma num dos centros comerciais que pululam por este concelho…
            Compreende-se: a menina ou o menino estão, mui provavelmente, nos arredores do Porto, não têm acesso, no seu computador, a mapas hoje tão facilmente consultáveis…
            Em nota enviada à imprensa pela Divisão de Comunicação e Relações Publicas, a 6 de Julho, p. p., informou-se que o Senhor Presidente iria estar presente na inauguração da Unidade de Cuidados Continuados Maria José Nogueira Pinto. Para a localizar, seguindo certamente informação veiculada pelos serviços da Misericórdia de Lisboa, que pouco saberão de Cascais, escreveu-se que o empreendimento estava «na Aldeia do Juzo de S. Gabriel, na Rua Chesol, em Alcabideche»!...
            Era difícil cometer mais asneiras em frase tão curta!
A Unidade – que, por sinal, ao que consta, foi inaugurada mas não funciona – está localizada em plena freguesia de Cascais, onde foi a Standard Eléctrica, ou seja, no Mato Romão (como o Povo conhece a zona) ou em S. Gabriel (como foi chamado depois da instalação da fábrica, em homenagem, quiçá, ao arcanjo das comunicações…). A entrada faz-se pela Rua Chesol, já no Bairro da Chesol, que pertence à Aldeia de Juso.

«Já encontraste o teu amor?»
            14 de Setembro, sexta-feira, 12.15 horas. Carruagem quase vazia. A senhora inicia o telefonema logo após o comboio partir:
            – Então, já encontraste o teu amor?
            Assim. A matar!
           Ouvia-se perfeitamente a conversa toda. Claro, a do lado de cá. A do lado de lá imaginava-se. Drama sentimental de todo o tamanho. «Tu é que andas atrás dele!». Depois desta frase fiquei baralhado: pensara tratar-se de amor não correspondido por parte de um homem e, se calhar, era: ela teria sido trocada por um ele? Deste lado, frases de despeito, de incitamento a uma resolução que tardava, apesar das muitas juras de amor. Antes de Parede, já a conversa acabara. Abruptamente. Um drama mesmo!

«Serviços prestados»?
            Fui um dos que sofreram na bolsa com a ordem governamental de caçarem multas a todo o custo, nos 50 metros antes dos semáforos na subida de Cascais para o Monte. Cidadão comum não percebe porque há-de haver ali aquela limitação de velocidade, a não ser para, de vez em quando, se armar caça à multa.
Passou-me recibo o senhor agente. Recibo de «pagamento serviços prestados»! «Serviços prestados» uma ova! Multa é o que foi! A mim não me prestou serviço nenhum, a não ser o de me multar e esse ‘serviço’ bem o dispensava eu! Mas… se me prestou serviço, também vai descontar para a Segurança Social?

Direcção centro
            Ainda que mal pergunte: por que razão, em Cascais, na Rotunda Dr. Canas da Mota, se sugere a direcção do centro da vila pela Avenida Infante D. Henrique, quando seria mais directo descer a Joaquim Ereira? Ou poderiam indicar-se as duas alternativas, não?

Jornais em Cascais
Ao rever a minha colecção de números 1 é que me dei conta da quantidade de títulos de jornais em Cascais, nas últimas décadas.
O primeiro Jornal de Cascais, por exemplo, nasceu a 29 de Setembro de 1929 e foi seu director o Dr. Alberto Madureira; manteve-se em publicação até 1939. O 2º nasceu quase 40 anos depois, a 11 de Setembro de 1969, quando o seu proprietário, o Dr. Evaristo Farelo, teve um conflito com Rui Mendes, então director do jornal A Nossa Terra. Nuno Vasco, jornalista que também começou no A Nossa Terra, acompanhou-o e quando Evaristo Farelo, por não ter garantido a publicação durante um ano, perdeu legalmente o título, Nuno Vasco chamou-o a si bastante mais tarde: o seu primeiro número saiu com data de 1 a 15 de Dezembro de 1981. Esse foi, por conseguinte, o 3º Jornal de Cascais, que teve vida efémera. Tem, pois, entre mãos, amigo leitor, o 4º Jornal de Cascais!

O novo empreendimento trará reconciliação?
            Prosseguem, a ritmo lento, as obras de demolição do vetusto Hotel Atlântico, no Monte Estoril, cujas paredes ressumam histórias e tradição. Já vi maqueta do novo projecto que, a exemplo, das Três Parcas que lhe ficam a poente, vai ter nome pomposo: «Atlântico Estoril Residence», ora toma! Não fica no Estoril mas é como se ficasse. Garantem vozes autorizadas do Município que está prevista «a possível inclusão de uma rotunda em frente ao edifício», «com o objectivo de fazer fluir o trânsito da Marginal e facilitar as entradas e saídas para a nova unidade e também para o Monte Estoril». Não gosto muito do «possível», mas… será desta vez que os técnicos camarários optam pela reconciliação? É que, senhores, há muito que de Cascais se não pode ir até ao Monte, de carro, pela marginal! Uma vingançazinha para que o Monte não suplantasse Cascais?!... Mas isso foi polémica de casinos, meninos, já lá vai um século! Que temos nós a ver com isso agora? Vá lá, sejam coerentes!

Publicado em Jornal de Cascais, nº 322, 26.09.2012, p. 6.

 

 

 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Cascais em meados do século XX

             Propõem os puristas que só pode fazer-se História, no sentido científico do termo, passado bastante tempo sobre os acontecimentos ocorridos. Não deixam de ter razão, porque os anos ajudam a sedimentar ideias e também motivações de outrora amiúde permanecem ocultas até ao dia em que alguém se decide a revelá-las ou um investigador topa inesperado documento elucidativo.
            Há, pois, alguma relutância em fazer a História de Cascais em meados do século XX. Teremos pulsões escondidas ainda por vir ao de cima; há, contudo, uma História dos acontecimentos que pode escrever-se, embora nem sempre se compreenda por que determinada decisão camarária se tomou num rumo quando se estava mesmo a ver que poderia ter sido tomada noutro. E nem para isso nos servem as actas das sessões!...
            Penso que, para fazer essa história, assume papel relevante a imprensa local e regional. Em Cascais como em Arruda dos Vinhos ou em Castelo Branco. Nessa época, os jornais eram mais da comunidade, até contavam de casamentos, baptizados e falecimentos. E os autarcas não se amofinavam quando o correspondente de uma localidade clamava contra o mau estado dos caminhos ou a falta de água ou o cheiro nauseabundo dos esgotos. Tudo isso se interpretava como exercício de cidadania e era bem aceite. E a imprensa fazia-se eco não apenas das deliberações camarárias ou das propaladas intenções de autarcas mas também do que se passava nas colectividades, dos bailes de benefício em prol do vizinho que estava para ser operado e não dispunha de meios para o efeito...
            Por conseguinte, não há, a meu ver, possibilidade de fazer uma história real da Cascais dos anos 50 e 60 sem o recurso miúdo aos jornais, que eram, na altura, o A Nossa Terra, propriedade do Grupo Dramático e Sportivo de Cascais, e, a partir de 25 de Abril de 1964, o Jornal da Costa do Sol.
            Direi que foram de grande efervescência na vila os anos 60, como, de resto, o foram por essa Europa Ocidental, porque o Maio de 68 não apareceu do nada, compreende-se. Designadamente no âmbito da Cultura, Cascais deu cartas no Teatro (criou-se o Teatro Experimental de Cascais), nas exposições de Arte (por exemplo, na Junta de Turismo da Costa do Sol, por clarividente iniciativa de Serra e Moura, e na galeria do Casino), nas manifestações musicais (quem há aí que não lembre os festivais de jazz, no Pavilhão dos Desportos, pela sabedora mão de Luís Villas-Boas?)… E também os jornais da capital mui gostosamente se faziam eco desses acontecimentos.
            Há, todavia, um outro meio a não menosprezar: os livros. Não apenas os livros de Cultura propriamente ditos – e nunca será de mais realçar a importância da chamada «Colecção do Centenário», em boa hora lançada pelo Município, para comemorar os 600 anos de elevação de Cascais a vila – mas os livros de ficção que têm Cascais como cenário.
            Um nome tem de se referir: o de Correia de Morais. As suas delirantes crónicas sociais publicadas e muito lidas nos jornais lisboetas acabaram por ser reunidas em volume. E eu não posso deixar de salientar dois: O Meu Dono e Eu (1989) e O Céu Precisa de Gente (1990). Ainda não se pensava por i em relatar o dia-a-dia através do sentir de um animal doméstico e já o Corgo escalpelizava a sociedade que o dono frequentava. Por outro lado, O Céu Precisa de Gente, sob a aparência de um livro religioso, é a deliciosa descrição das noites cascalenses, porque S. Pedro encarregara o Diabo de descer a Cascais para carrear almas para o Céu e o Diabo mete-se por tudo quanto é sítio na vila e não há ninguém que almeje repousar no Paraíso!...
            Perguntar-se-á a razão destas evocações. A motivação próxima – e disso haveremos de falar – foi a recente edição, a 3ª (Junho de 2017), bastante renovada, do livro de Júlio Conrado, As Pessoas de Minha Casa. Aí não é apenas a Carcavelos da sua infância e juventude, nos anos 40, mas também a Cascais dos anos 60 e, até, da actualidade, que, com cruas e bem acertadas frechas, o autor se deleita em escalpelizar.
            A imprensa e os livros – mananciais de uma história quotidiana, onde homens e mulheres concretos se movimentam. A descobrir!
                                                        José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal [Cascais], nº 221, 14-02-2018, p. 6.

 

quinta-feira, 31 de março de 2016

Escrever sobre Cascais

     Confesso-me perturbado. E peço desculpa por, num momento em que as perturbações deveriam ser pelos motivos muito mais graves que afectam a Europa e o mundo, eu ouse perturbar-me também com uma aparente ninharia. Cedo meus pais me ensinaram, porém, que é das pequenas coisas que acabam por se fazer as grandes.
      E volto, por isso, àquela dissertação de mestrado, sobretudo por o seu autor residir no concelho e até fez voluntariado em programa da Geração C. Não saber que o presidente da União de Freguesias Cascais – Estoril é conhecido como Pedro Morais Soares e chamar-lhe António Soares?! Um pormenor de somenos, dir-se-á; mas creio ser sintoma de uma distracção que dificilmente se aceita. Como a de haver obtido o grau de Mestre em Administração Pública, mediante a análise do papel exercido pelas freguesias do concelho de Cascais em relação ao Estado e à Sociedade, e não referir no seu trabalho um único livro sobre esse concelho!...
      Pasmei.
      E dei comigo a interrogar-me, sabendo que Cascais se situa, seguramente, entre os dez concelhos do país com mais publicações sobre todos os aspectos da actividade dos seus habitantes e instituições: será que o aconchego da sala de leitura do Museu-Biblioteca dos Condes de Castro Guimarães não foi substituído a contento? As publicações não estão acessíveis? Não há divulgação?
      Sim, já não temos a Livraria Municipal e o recanto que ora há com essa função na loja da Casa das Histórias Paula Rego passa despercebido; mas tanto a Livraria Galileu como a Livraria RG pugnam por ter livros sobre Cascais! E não há as bibliotecas?
      Eram dúvidas a mais e, por isso, quis saber como está o processo de disponibilização ao público, em geral, e aos estudiosos, em particular, o muito que sobre Cascais já se estudou, consubstanciado em muitos milhares de páginas impressas!

Aí vai o que logrei saber
      Primeiro, na Biblioteca da Casa da Horta, há uma sala expressamente dedicada ao Fundo Local, onde estão acessíveis esses livros e, de modo especial (convém não esquecer!), as colecções dos órgãos de comunicação local e regional. Sim, os jornais! O autor daquela dissertação teórica queixou-se de que nada ficara a saber, por exemplo, do que se fazia em Cascais, limitando-se a observar que havia exposições “para a população sénior”. Só para a população sénior? E não há publicações? Caso lhe tivessem dito que, para conhecer a vida local, precisava de folhear a imprensa local e regional, certamente a sua visão teria sido bem diferente!...
      Depois, a outra biblioteca municipal, a de S. Domingos de Rana, disponibiliza, igualmente, informação adequada sobre a freguesia e o concelho.
      Finalmente, enquanto se aguarda a abertura da Casa Sommer, em frente à igreja matriz, que vai funcionar como verdadeiro centro de investigação, a dar azo à elaboração de muitas dissertações e teses de real valia, há a página do município na Internet: www.cm-cascais.pt . Aqui vão, desde já, algumas pistas, dado que, à primeira vista, uma pessoa pode perder-se no emaranhado de janelas que ali se lhe abrem.
      Até é simples: seis temas à escolha apontados logo ao cimo – município, território, família, cidadania, cultura e lazer, emprego. Interessa-nos ‘cultura e lazer’. E essa janela abre-nos novas perspectivas: Arquivo Histórico, Bibliotecas, Museus, Património Histórico e Cultural, por exemplo. A hipótese História constitui brevíssima síntese; a Livraria Municipal, ainda que proporcione já algumas pistas, está a reservar-se para o que poderá vir a fornecer na Casa Henrique Sommer, com a Livraria Digital on line, a ser realidade a partir do Dia Mundial do Livro, 23 de Abril; e no campo Bibliotecas será, de futuro, assaz significativo o papel a desempenhar pela Biblioteca Digital de Cascais, em fase de instalação.
      Dir-se-á também, e esse é um aspecto nada despiciendo, que a equipa de técnicos adscrita a todas essas tarefas trabalha com entusiasmo e inteira disponibilidade, o que muito nos apraz registar.
      Meios, portanto, não faltam. Assim os potenciais utentes os queiram agarrar!

                                          José d’Encarnação
 
Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 133, 30-03-2016, p. 6.

sábado, 1 de outubro de 2011

Andarilhanças 17

Jornais, fontes para a história
Tive ocasião de, a propósito do 6º aniversário de Jornal de Cascais, salientar a importância da imprensa como fonte primordial para a História Local. Creio, pois, interessante que, uma vez por outra, se dê conta dos órgãos de informação que servem o concelho de Cascais.
Não vou ser exaustivo, bem no sei, porque, hoje, a distribuição é feita aqui e além, sem dias certos ou, pelo menos, sem uma informação adequada, a não ser que se disponha de Internet e se consultem as edições on line. Creio, porém, não errar se afirmar que o mais antigo jornal agora em publicação é O Correio da Linha, de Paulo Pimenta; tem sede em Oeiras, é mensal e assume-se mais no formato de revista; «nasceu no mês de Março de 1989, com o nome de “Correio da Costa do Estoril”, ou seja, está no 23º ano de publicação ininterrupta. Virá depois o semanário Jornal da Região – Cascais, distribuído com os exemplares do Expresso que se vendam no concelho; na edição nº 279, de 30 de Agosto, está consignado que esta é a sua III série e que está no seu 15º ano. O nosso Jornal de Cascais completou agora 6 anos de publicação, também ininterrupta. Criado em Outubro de 2008, O Correio de Cascais, sediado em Mem Martins, afirma-se, na página do face book como ‘Jornal Regional Quinzenal do Concelho de Cascais’; ultimamente é mensal; o nº 45 (Agosto) está disponível no blogue http://correiodecascais.blogspot.com/p/edicoes-online-2011.html
Outras iniciativas têm surgido, de que GoldenNewsCascais pode ser exemplo. Quinzenário, de distribuição gratuita, como todos os demais, teve o seu 1º número em 16 de Outubro de 2009. Disponível on line e distribuído aqui e além, na versão papel, vai no nº 29 (Junho/Julho 2011). É provável que haja mais.
Acaba a Câmara de Cascais de criar um jornal, assim à maneira dos jornais locais, não exclusivamente de teor camarário. Isso vai, pois, merecer, um comentário maior. A inserir num texto sobre as publicações camarárias.

Aviões
Desde há muito que os habitantes de Cascais se habituaram ao barulho dos motores dos aviões. Não apenas dos que aterram ou levantam voo na Portela, mas sobretudo das avionetas do aeródromo de Tires. Sentimos, este ano, porém, a falta de publicidade, mormente ao fim-de-semana, por sobre as praias: as avionetas com as longas faixas atrás foram raríssimas. E, para além do festival aéreo de 10 de Julho, tivemos direito, pouco antes do meio-dia de 7 de Setembro, a apreciar de novo, sobre a baía, os loopings e outros malabarismos da cascalense Diana Gomes da Silva. Maravilha!

40 dias é… muito dia!
Agora, já serão bem mais! Corta-nos, porém, o coração ver aqueles trabalhadores duma corticeira em Santa Maria da Feira, que, dia e noite, há mais de 40 dias, velam diante das instalações, para que o recheio não leve sumiço!
A cena repete-se, repete-se e continuará a repetir-se noutros locais, noutras empresas, noutras fábricas, no decorrer deste último trimestre de 2011. E, ao que parece, dada a passividade reinante, não há nada a fazer. Os proprietários desapareceram, sem aparentemente deixarem rasto; os trabalhadores ficaram de mãos e pés atados e – isso, sim, que vorazmente se faz… – bem depressa terão pela frente as exigências implacáveis (sim, im-pla-cá-veis!) do «paga a electricidade», «paga a prestação», «paga a água»!... Com ameaças certas de cortes no fornecimento, de imediata penhora de bens… Essas, sim, não se fazem rogadas! Abutres à espera que a vítima venha, inanimada, a sucumbir!

Esquerda radical
No passado dia 17, Mário Soares, em entrevista a uma estação de televisão, alertou para a forte possibilidade de, prosseguindo o Mundo neste caminho, se deve preparar para assistir ao aparecimento, a nível global, de uma esquerda radical.
Mário Soares licenciou-se em História antes de tirar Direito!

Um livro sobre a guerra de África
Já aqui tive oportunidade de me referir ao livro, de António de Almeida Marques, À Espera de um Domingo em Terras de Angola. O autor, que reside na Parede, foi um dos muitos capitães milicianos que, após ter feito o serviço militar e já regressado à vida civil, foi chamado para comandante de companhia e como tal esteve no teatro da guerra.
Assume-se o livro, e bem, como testemunho para oferecer aos amigos e, de modo especial, a quantos partilharam consigo esses longos meses, de 1970 a 1972. Sem nenhumas pretensões literárias e, também, sem dar grande importância ao rigor da escrita – que o que interessava era a mensagem. A alocução, que fez num reencontro de todos, em 2006, assume-se precisamente como tocante confidência de estados de espírito.
Penso que são depoimentos destes, inclusive com dados estatísticos, narrativas entremeadas de reflexões sobre a actualidade, o parecer do cidadão comum, e o contexto em que a guerra surgiu, que interessa dar a conhecer – para que não voltem a cometer-se os mesmos erros.

Publicado em Jornal de Cascais, nº 283, 28-09-2011, p. 6.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Proximidade precisa-se!

            A revista Visão, na sua edição do passado dia 20 de Junho, trouxe (p. 66-67) uma reportagem que se me afigura do maior interesse pelo seu significado, ainda mais premente na actual conjuntura. Intitula-se «Aqui Rádio Família» e relata a história do Bom Dia, Tio João, “uma espécie de Facebook rural”, rubrica que diariamente unia todo o pessoal de Bragança, na medida em que funcionava como elo de ligação de toda a comunidade através da Rádio Bragança, rádio local daquela cidade transmontana.
            Como todas as rádios locais e todos os jornais locais, a sua missão deveria ser – e é-o normalmente – a de criar comunidade, noticiando o que se passa, o que se precisa, as reivindicações, as necessidades, os melhoramentos, as iniciativas… na localidade.
            Então, o que é que aconteceu?
            A Rádio Bragançana (RBA) foi comprada pela Média Capital e assim se «calaram 24 anos de combate ao isolamento», como se lê na reportagem de Miguel Carvalho. A estupefacção do povo foi enorme: «Agora, a RBA retransmite na região a emissão da M80, urbana e sofisticada, em piloto automático desde Lisboa» e acrescenta-se:
            «A rádio, dir-se-á, é o universal sem paredes. Excepto, claro, quando a animadora da capital saúda o lindo dia de sol e, em Bragança, chove»!...
            Recordo, por exemplo, o que me dizia, aqui há tempos, o meu amigo João, que trabalha em Bruxelas e ouve a Antena 1: «Eh pá, vocês aí estão sempre trompicados com o trânsito de manhã: ele é engarrafamento no IC 19, na A5 desde Porto Salvo, na A2 desde a 2ª ponte do Feijó… E eu, sossegadinho, a ir a pé, daí a pouco, para o emprego»…
            Claro, as rádios ‘vivem’ nos centros urbanos e, de manhã e à noite, o trânsito e o tempo são os pratos fortes… em Lisboa e no Porto. O resto do país é… paisagem, como sói dizer-se!
            E só para terminar o caso de Bragança: a questão resolveu-se e já outra rádio se prontificou a continuar a missão de ‘criar comunidade’, deixando para outros ouvidos as emissões do piloto automático gerido a partir da capital.
            Não precisamos, porém, de ir de abalada até Bragança: onde há aqui, no concelho de Cascais, uma rádio local a que estejamos permanentemente ligados? Perdoar-me-á o leitor se evoco os tempos do Rádio Clube de Cascais, em que procurávamos ser efectivamente locais. Perdoar-me-á se lhe digo que também por estas bandas o tempo climatérico não é o de Lisboa e até achamos piada quando esse tal de Instituto do Mar e da Atmosfera (acho o nome giro, quem teria sido o sábio que o inventou?...) fala de alterações «a norte de Cascais»! A «norte de Cascais»? O que é isso? Do outro lado da serra de Sintra? E quando dizem que é a norte do Cabo Raso?!... Não percebo. Aliás, desafio alguém a perceber, mormente os que moramos em Cascais e desde sempre nos habituámos, pela manhã, a olhar pela janela para a serra a ver se tem «barrão» ou se está limpa, sinais que todos compreendemos bem em relação a vento, a chuva ou a calor.
            Está aí em força a campanha eleitoral para as autarquias. Cartazes mais ou menos vistosos, frases mais ou menos para ficar no ouvido, partidos mais ou menos ‘escondidos’, de cores ligeiramente alteradas, porque se compreendeu que o Povo já não vai nessa dos partidos… Pois aqui fica o apelo: pensem, senhores candidatos, em – sem intromissões político-partidárias – promover uma real comunidade, mediante sadia utilização dos meios de comunicação ao dispor. Precisamos de mais comunicação e de menos publicidade.
            E, já agora que estamos em maré de sugestões e na perspectiva de, afinal, esse tal Instituto do Mar e da Atmosfera se enganar nas previsões e virmos a ter um Verão «à maneira», com boas possibilidades de irmos, por exemplo, até ao Guincho e de outros nos virem visitar para usufruir das nossas praias bafejadas com bandeiras azuis e bonitos títulos de «as mais acessíveis»… trate-se, , de tornar a zona ocidental de Cascais mais acessível: abra-se aos dois sentidos, com carácter de urgência, a Rua das Violetas, em Birre, já que não se consegue acabar de forma airosa o final da A5. Não haverá perturbações ambientais nem riscos de insegurança e dará muito jeito a quem, da auto-estrada, quiser ir para Birre, Torre, Guia, Areia e Guincho seguir pela Rua das Violetas, em vez de se infernizar na sempre engarrafada «rotunda de Birre».
            Se houvesse uma rádio local, por isso pugnaríamos a todo o momento!

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 5, 03-07-2013, p. 6.

 

quinta-feira, 2 de julho de 2015

A celebração do 10 de Junho!

            Uma sensação estranha, de facto. Quando não há o papel que a gente agarra, tem-se a impressão de que tudo se esvai num ápice, alojado como está (dizem!) nessa quase inexplicável ‘nuvem’. Sabemos que fica lá, porque – por enquanto – vamos tendo as chaves para entrar; ocorre, por vezes, interrogar-nos: «E se eles mudarem a fechadura?». É que, na verdade, mesmo num mundo muito mais real como é o das cassetes de vídeo, nós temo-las, sabemos que há fados dentro, mas… já não há os instrumentos para de lá arrancarmos as vozes!...
            Assim, alguém me dizia: «Não há jornais em Cascais, nada se sabe, não há notícias!». O certo é que as há, minuto a minuto, nas chamadas ‘redes sociais’, inacessíveis, porém, a muito mais gente do que aquela que nos querem fazer crer.
            Vêm estas considerações a propósito das muitas iniciativas que por Cascais ocorrem e que ora passam para a posteridade apenas através das formais ‘informações à imprensa’. Quero, pois, hoje, evocar o que foram as celebrações do 10 de Junho.

Uma tradição da Propaganda
            «Foi no ano de 1980, faz agora 35 anos, que esta Sociedade iniciou a sua presença junto da estátua do Poeta, celebrando aquele dia com a deposição de coroas de flores e convidando para estarem ao nosso lado entidades oficiais e particulares, os nossos sócios e a população em geral», escreveu Joaquim Aguiar, presidente da Sociedade Propaganda de Cascais, no convite enviado.
            Um ritual. E, nessa qualidade, há que cumpri-lo.
            Acorreram ao chamamento, além do Povo, algumas entidades e foi significativo (não se pode pedir muito!...) o número de estandartes que emolduraram o quadro.

A cerimónia na Praça 5 de Outubro
            À Praça 5 de Outubro, onde se situam os Paços do Concelho, foram chegando as bandas: a da Sociedade Musical Sportiva Alvidense, a da Sociedade de Instrução e Recreio de Janes e Malveira, a da Sociedade Recreativa e Familiar da Malveira da Serra e a da Sociedade Recreativa e Musical de Carcavelos. Como que vieram dos quatro cantos da vila e foi emocionante a parada, nomeadamente porque chegaram e tocaram uma peça à sua escolha.
            Ao som do hino nacional, lá subiram as três bandeiras (a portuguesa, a do concelho e a da União Europeia) nos mastros do edifício camarário, cuidadosamente içadas pelo Sr. Presidente da Câmara, por uma senhora e por um senhor, cada um a sua. O Sr. Presidente, o Povo conhece; os outros dois ouvimos ao nosso lado perguntar quem eram. Eu explico: foi o senhor presidente da Assembleia Municipal, Jaime Roque de Pinho d'Almeida, do Grupo Municipal do CDS-PP (poucos cascalenses se terão apercebido que esse cargo já não é exercido por António Pires de Lima); e a senhora é Paula Alexandra Alves Mateus Ferreira Dias Gomes da Silva, vereadora pelo PPD/PSD.
            Melhor se andou (permita-se-me o comentário) na noite do dia 7, em que se evocou a ‘Cascais fadista’ de há 50 anos e tudo foi anunciado a preceito para se saber. Se calhar, para o próximo 10 de Junho, talvez não fosse mau dar trabalho aos nossos sempre atenciosos e mui eficazes elementos das Relações Públicas, que até têm boa voz para se fazerem entender, e eles explicavam tudo tintim por tintim.

A cerimónia no Largo Camões
            Fez-se caminhada depois, atrás da fanfarra dos Bombeiros da vila, para o Largo Camões, ora bem recheadinho de esplanadas…

            A bandeira já se içara noutro lado (dantes, era mesmo junto à estátua que se içava, porque a homenagem era a Camões); por isso, perfiladas as entidades e os estandartes, tocou a fanfarra um alerta (parece que é assim que se diz) e foi a ritual deposição de coroas de flores: avançou a senhora presidente da Freguesia de S. Domingos de Rana, a direcção da Propaganda e, por fim, o Sr. Presidente da Câmara.
            Verifiquei mais tarde que se fizera, de seguida, pequeno concerto no «largo da Câmara». Nunca sou previsto nestas andanças e perdi, inclusive, a oportunidade de saber quem tinha tocado, quanto mais o que tocara! Sei que houve música e assim se celebrou o nosso épico, que, reza a tradição, terá dito, ao morrer, a 10 de Junho de 1580, «ao menos morro com a Pátria», pois os Espanhóis invadiram-nos, precisamente desembarcados ali para as bandas da Guia e por cá ficaram 60 aninhos. Dizem os entendidos que a História se repete; não enxergo, porém, nenhuma perspectiva de virmos a ser dominados de novo pelos nossos vizinhos, ainda que, de facto, em muitos dos pacotes de géneros alimentícios que compro hajam pespegado rótulo em castelhano e o português em segundo lugar e eu nunca sei se é para português pôr o pezinho lá ou para espanhol manter o dele cá dentro. Logo se verá!
                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 99, 01-07-2015, p. 6.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Homenagem a José Júlio de Carvalho

            Vai ser descerrada, no próximo dia 15, na Areia, a placa toponímica que perpetua o nome de José Júlio de Carvalho, «homem bom cascalense».
            Concretiza-se, assim, por parte da Junta de Freguesia de Cascais e Estoril, com o apoio camarário, a proposta veiculada por dois dos assíduos colaboradores do nosso jornal: Rui Rama da Silva, na sua qualidade de presidente da direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Cascais, e eu próprio, como membro que fui da equipa de Jornal da Costa do Sol.
            «Homem bom cascalense». Optou-se por esta designação – aparentemente insípida e, porventura, tida como de mínimo significado – porque, em nosso entender, ela sintetiza o que, na vida de José Júlio de Carvalho, foi mais relevante.
            Assumiu-se, primeiro, como cascalense de gema, aqui nado e criado, residindo sempre no coração da vila (02.04.1913 – 08.09.2008). Só as contingências das ‘vagas’ toponímicas determinaram, pois, que a «sua» rua ficasse nos confins da freguesia, bem perto do marulhar das vagas do Guincho, o que também não deixa de ser uma coincidência feliz, pois José Júlio de Carvalho, quer como dirigente associativo quer como responsável de jornais locais – primeiro A Nossa Terra e, depois, o Jornal da Costa do Sol –, sempre pugnou por uma visão abrangente do concelho. Tanta atenção lhe mereciam os problemas a resolver na vila como os do mais remoto lugar.
            E é também por esse motivo que lhe quadra à perfeição a outra qualificação que propusemos: a de homem bom. Pretendeu-se, desde logo, uma relacionação explícita com o passado: não longe da casa onde viveu, há, à porta do castelo, uma placa que explica: «À porta deste castelo se reuniam os juízes, vereadores, o alcaide e outros homens bons do concelho de Cascais», no século XIV. Eram os homens bons, na Idade Média, aqueles que superintendiam, de certo modo, à vida de uma localidade. A eles se recorria em caso de emergência ou na busca das melhores soluções para as controvérsias quotidianas. E José Júlio de Carvalho seria, em tempos medievais, um desse homens bons, como o foi no seu tempo. Inquebrantável nas suas convicções, que mui ponderadamente defendia, ainda que no respeito total por quem diversamente pensava, José Júlio de Carvalho pode, por conseguinte, apontar-se como exemplo do cidadão atento e empenhado.

Amizade e competência
            Quando, no Outono de 1964, entrei para a redacção do jornal A Nossa Terra, já não estava lá a equipa que, durante largos anos, mantivera o jornal como activa tribuna – a única então no concelho. Um diferendo insanável com a direcção do Dramático (de que A Nossa Terra era propriedade) levara a que João Martinho de Freitas e seus mais directos colaboradores pedissem a demissão. Contudo, a reconhecida dedicação em prol da melhoria da vida local fez com que os empresários locais se cotizassem e rapidamente se compraram as acções necessárias para se construir o capital necessário para a criação de Jornal da Costa do Sol, cujo primeiro número viria a sair a 25 de Abril de 1964. Nunca, porém, enquanto mantive colaboração em A Nossa Terra, ouvi uma palavra sequer de crítica a José Júlio de Carvalho, cuja personalidade se situava, de facto, bem acima dessas quezílias ‘domésticas’. E quando, em Outubro de 1967, ingressei na redacção do Jornal da Costa do Sol, José Júlio de Carvalho (o «senhor José Júlio»!) acolheu-me de braços abertos e logo ali nasceu uma indefectível e sólida Amizade – e até cumplicidade, porque não? – que só a morte veio quebrar.
            Embora já com alguma prática, dava eu, como se imagina, os primeiros passos na bem espinhosa missão de ser jornalista local em tempo de censura. E tive o bom senso de adoptar o procedimento seguinte: escrevia os textos, dactilografava-os ou não, e ficava com o rascunho. Era o tempo (e aí começou um hábito que mantenho) em que se aproveitava para esse efeito o verso em branco dos comunicados e noticiários que nos chegavam!... Quando o jornal saía, eu confrontava o que escrevera com o que saíra: a pontuação, as palavras, as maiúsculas, os hífenes e os travessões, o título… Não compreendia a razão dalguma diferença? Ia ter com o «senhor José Júlio» para a explicação – que nunca regateou!
            Trabalhava ele, então, como revisor de Publicações Europa América, depois de se haver aposentado da Imprensa Nacional. Esse era, por conseguinte, o trabalho imprescindível – a revisão – que não se negou a fazer. Mesmo antes de ir para casa, passava pela redacção e lá ficava, diligentemente, a catar gralhas, tarefa tanto mais importante e aborrecida se nos lembrarmos que era na imprensa local que se faziam as «publicações legais», que deviam sair sem mácula: um dos nós lia em voz alta e José Júlio de Carvalho… catava!
            Mesmo já professor catedrático, não deixei amiúde de o consultar acerca de questões da língua em que, de facto, o Catedrático era ele!

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 67, 29-10-2014, p. 6.

 

 

 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Duas exposições e uma peça, em Cascais!

             Primeira nota, muito positiva: a exposição de Maria Keil nos baixos do Palácio Cidadela, em Cascais, numa parceria do Museu da Presidência da República com a Câmara Municipal. Estará patente apenas até domingo, 27, e será uma pena que alguém que esteja verdadeiramente interessado em Arte a não vá ver.
            O espaço foi muito bem preparado para receber, num tom intimista (diríamos!) este inolvidável conjunto de trabalhos de toda uma vida dedicada à Arte, nos seus mais variados temas e suportes. Sim, os azulejos, sem dúvida! Aqueles a que, sem querer, nos roçamos em estações do metro de Lisboa e nem sequer suspeitamos de que são de uma grande Artista, algarvia de Silves, que o ano passado nos deixou, quando estava prestes a completar 98 anos! Mas os seus trabalhos de ilustração de obras, mormente para crianças… de encantar! E as tapeçarias?
            Exímia no desenho, acutilante na crítica quando tinha de o ser (que a pintura é uma arma também!...), plena de uma serenidade que encanta! Passaríamos ali umas horas!...
            Chama-se de propósito… a obra artística de Maria Keil. E a razão do título resulta – como ali se explica – da oportuna apropriação de uma expressão utilizada pela artista, por ocasião do seu 80.º aniversário: “Faço 80 anos, sim e é de propósito” – embora, antes, tenha dito que… não era de propósito!... E, na verdade, essa frase pode consubstanciar todo o seu percurso de vida e toda uma forma de encarar a existência, em trabalho incessante e profícuo até que… as mãos deixaram de lhe obedecer! A tela final é, por isso, deveras sugestiva: «Tenho trabalhado pouco, não é? Peço desculpa… não soube fazer mais».
            Acrescenta-se na apresentação:
            «A ironia subjacente em grande parte dos seus trabalhos, a desconstrução, a diversidade de abordagens e de suportes e a fuga a categorizações espelham bem a personalidade de Maria Keil e a reivindicação da sua liberdade criativa».
            Horário: de quarta a sexta-feira, das 14 às 20 h.; sábado e domingo, das 11 às 20.

O teatro e os teatros
            No Mirita Casimiro, expõe Fernanda Carvalho, até ao próximo dia 3, «Percursos Teatrais», série de fotografias, a preto e branco, que têm por tema o teatro. Não o teatro-espectáculo mas teatros-edifícios, mormente o seu interior. O teatro de Évora (é capaz de não se saber que Évora tem teatro antigo…), o de Milão, alguns de Lisboa…
            Um olhar quase indiscreto, a realçar ângulos inesperados, de luz invulgar. Deixam-nos pensativos: tudo isto está por detrás de um espectáculo teatral! Por aqui se agarram mãos, na prossecução de um objectivo: para que o espectáculo resulte e a mensagem passe!
            Escreve o encenador José Peixoto, no catálogo:
            «Ignoramos até que o Teatro vive não só na cena mas em todo o espaço teatral que determina a leitura e a recepção do espectáculo».
            E é esse «olhar sensível e revelador da beleza dos teatros» que Fernanda Carvalho pretende – e consegue! – mostrar. E não ficamos indiferentes.

O Tempo e a Ira, de John Osborne
            E, no teatro municipal de Cascais, como se anunciou, «o texto mais controverso do séc. XX inglês»: O Tempo e a Ira, de John Osborne (1929-1994), com André Nunes, Dalila Carmo, Joana Seixas e Renato Godinho.
            Acrescenta-se que a peça «transformou o teatro no país de Shakespeare e não deixa ninguém indiferente». Isso não deixa, porque, no final, acabamos por verificar que, de uma forma ou doutra, ali estamos retratados nalgum dos momentos da nossa vida.
            Uma chatice as tardes de domingo sem programa definido e uma tábua de engomar sempre ali à espera e até nos assusta pensar que há toda uma catrefada de roupa para passar. Vai e vem o ferro («movimentos minimais repetitivos, tão modernos de tão vazios e desconcertantes», anota Martim Pedroso); respira ofegante; uma peça e outra. E… já acabaste de ler o jornal? Estes jornais que dizem todos a mesma coisa. Inferno de vida. O horizonte parece que acaba ali, num torvelinho de ideias desencontradas, de traumas, de... Há o amor que já se tornou monotonia; há a criança gerada, não partilhada e, por isso, ocultada e… abortada. Há o amor-ódio, violência que se amansa.
            Os actores olham-nos nos olhos, amiúde. Querem fazer-nos participantes do que sentem, do que pensam. Sim, porque eles pensam – o que já não é nada comum nos nossos dias! E importava que fosse, neste tempo que sub-repticiamente se nos vai escoando por entre os dedos, em cima de bem arreliante tábua de engomar. Consciencialização é, sem dúvida, a palavra de ordem!
            Todos os actores servem às mil maravilhas esta versão de Renato Godinho (de certo modo, o protagonista, Guido, magnífica criação sua), um dos ‘filhos’ do Teatro Experimental de Cascais. Dalila Carmo (Helena), que nos habituámos a ver nas telenovelas e foi galardoada, este ano de 2013, com o Globo de Ouro de Melhor Actriz, entra de permeio, a baralhar todo o esquema convencional e dá a bofetada (real e simbólica) num ramerrão fastidioso. Joana Seixas (a doce Alice) impõe-se-nos na cena final, olhos fitos nos espectadores, de negro vestida, sentindo cair sobre ela vitupérios a juntar aos horrores por que passou, imóvel, densa, escultura!... André Nunes solta-se, por exemplo, naquela excelente negaça-espectáculo de cantor que, se calhar, um dia até gostávamos de ter sido, para saborear um palco menos frio que este, condimentado apenas a sucessivas xícaras de chá…
            Foi Martim Pedroso que encenou. E é dele o texto principal do singelo programa. Aí escreve, a dado passo, a propósito das atitudes de Guido: refugia-se o protagonista «na culpabilização de tudo e de todos e nem mesmo ele consegue lavar a sua alma a não ser quando recua ao tempo das fábulas com ursos e esquilos».
            Brincar aos ursos e aos esquilos, encher de fantasia o nosso quotidiano será, porventura, uma forma de ultrapassarmos a dureza esquelética e disforme de uma realidade feia, sem graça nenhuma, porque despojada da imaginação e do sonho!
            A peça vai estar em cena no Mirita Casimiro até 3 de Novembro, de 5ª a sábado às 21h30 e domingo às 17h!
            A não perder!

Publicado em Cyberjornal, 20-10-2013:

 Nota: As fotos de 'O Tempo e a Ira' são de Ana Lopes Gomes. Reproduzimo-las com a devida vénia. 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Mato Romão, um mato deveras apetecido!

            Ainda sou do tempo em que o Mato Romão era mesmo mato, como o nome dizia, e tudo eram pedreiras onde, a 28 de Junho de 1968, viria a ser inaugurada, com pompa e circunstância, a Standard Eléctrica e, mais acima, bastantes anos depois, a Cooperativa Chesol, destinada primordialmente a trabalhadores da Estoril Sol.
            Ainda sou do tempo em que o Mato Romão era mui alegremente batido nos primeiros dias de caça pelos caçadores das redondezas, que, ao final do dia, dali traziam bons coelhos pendurados ao cinturão!
            Ainda sou do tempo em que, pelo Verão, para o Mato Romão se faziam fogos reais da artilharia de costa e eu ouvia os obuses (não sei se era assim que se chamavam…) zunir por cima de minha casa em Birre, e no Mato Romão abriam crateras, enquanto os aviões também faziam fogo para a ‘gurita’. E troava, façanhudo, o «canhão de Alcabideche» e tínhamos de deixar as janelas abertas para os vidros se não estilhaçarem com o forte sopro do tiro!
            Ainda sou do tempo em que um autarca quis planear para ali uma ‘cidade do cinema’ e o Povo se alevantou, porque (argumentou-se veementemente) aquilo é Reserva Ecológica Nacional, Reserva Agrícola Nacional, aquilo é dos poucos nichos ecológicos da freguesia de Cascais, onde a passarada nidifica, as aves de migração se acoitam, cobras e lagartos prosperam, nasce o Rio dos Mochos e onde, devido à sua permeabilidade e aos carrascais que tem, se retêm as águas pluviais que vão alimentar o nível freático e assim não vêm por aí abaixo a inundar Birre e a bacia hidrográfica desse «rio» (assim o Povo lhe chama) até ao Parque Marechal Carmona.
            Ainda sou do tempo em que, por via da tal ‘cidade do cinema’ e dando ouvidos a astutos interesses imobiliários, até se quis prolongar a A5 até ao Guincho e o Povo alevantou-se, gritou e o Executivo Municipal meteu a viola no saco e deixou o caso a aboborar e até se esqueceu que precisava de pôr um termo condigno à auto-estrada, depois de ter procedido, até, a uma série de expropriações dos terrenos derredor.
            Ainda sou do tempo em que uma candidatura à Câmara ganhou a maioria por ter garantido ao Povo que estancaria rapidamente e em força (para usar uma expressão bem conhecida…) essa cegueira de construir, construir, construir e transformar o território cascalense em mar de cimento armado, porque não havia água que chegasse, ecologia que o permitisse, clima que o proporcionasse e até casas se tinham já de sobejo!…
            E estou a ser do tempo em que, mais uma vez, olhos cobiçosos se lançam sobre o Mato Romão, ali mesmo à saída da auto-estrada, com os ares da serra tão por perto e o mar do Guincho assaz apetitoso… E até se poderia dar ali guarida a uma entidade humanitária e cultural e respeitar índices previstos no Plano Director Municipal e musealizar uma pedreira (!)…
            Dizem-me que há forças políticas que estão contra. Dizem-me que há mesmo uma petição a correr na Internet; que já se escreveram artigos nos jornais, já se ouviram opiniões pró e contra; que a discussão se mantém tão viva como aquela da Quinta dos Ingleses; mas… argumentos há muito fortes!
            E o Mato Romão da minha infância e de minha velhice vai mesmo deixar de existir.
            Guardarei saudades do tempo em que, numa tarreta de cortiça, ali, por veredas e atalhos, levava o almoço a meu pai.
            Lembrarei os tempos em que a rapaziada até ali ajudava a apascentar rebanhos de ovelhas e de cabras.
            Ficar-me-á na memória o cheiro acre a trovisco, onde armava as ratoeiras às felosas brancas Setembro afora.
            Recordarei o aroma das sacadas de bagas de zimbro que por ali apanhei e cujos tostões nos serviam para um pirolito na taberna do Torretas ou na mercearia do David.
            Sentirei, de quando em vez, o sabor dos murtinhos silvestres de um cinzento arroxeado que nos deliciavam…
            Guardarei saudades, lembrarei os tempos, recordarei os aromas… E estou a ser desse tempo dos olhos cobiçosos…

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 53, 09-07-2014, p. 6.

 Nota:  As fotos foram retiradas do livro «Cascais e os Seus Cantinhos». 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

As dificuldades do aprender português

             Pasmei, a 14 de Março passado, quando, no Castro de S. Lourenço (Vila Chã – Esposende), vi dois painéis explicativos. Num, o título era ‘setor’; noutro, ‘sector’. No primeiro, o texto era em língua portuguesa; no segundo, em inglês. Nunca como nesse momento me apercebera do disparate que é – em minha opinião, de septuagenário, entenda-se! – obrigar a escrever segundo as normas do chamado «Novo Acordo Ortográfico».
            Setor em português, sector em inglês. Pasmei! E perguntei-me a mim mesmo como será doravante ainda mais difícil ensinar a nossa língua, se essas novas regras vierem a ser efectivamente tornadas ainda mais obrigatórias do que ditatorialmente hoje já são.
            A reflexão impôs-se no meu espírito, ao receber o livro Português, Meu Amor, apresentado em Hamburgo – a cidade alemã mais portuguesa – a 1 de Abril.
            Reúne o volume 49 artigos publicados ao longo dos últimos anos pelo Dr. Peter Koj no boletim da Associação Luso-Hanseática, de Hamburgo, Portugal-Post [Correio Luso-Hanseático].
            Peter Koj veio para Portugal, em comissão de serviço, ao abrigo do acordo cultural existente entre os dois países, como docente do Instituto Alemão, de Lisboa. Instalou-se, em 1976, no Estoril e, por sugestão de uma amiga comum, bateu-me à porta com a seguinte proposta: eu ensino-te alemão e tu ensinas-me português. Recordo-me que lhe disse que isso venha mesmo a calhar, porque acabara de receber uma carta inteiramente redigida em alemão e aproveitava para lhe pedir a tradução, mesmo por alto. Verifiquei, porém, que, para compreender o princípio, Peter tivera que ler até ao fim; eu, que, embora tivesse aprendido latim e soubesse que a do alemão era uma estrutura frásica semelhante, retorqui-lhe, pois, com um provérbio: «Sabes, burro velho não aprende línguas!».
            Recusei a aprendizagem, não a leccionação. E, ao longo de todo o período em que Peter Koj esteve connosco, com ele fui aprendendo muito, porque, aluno extraordinariamente diligente, me punha questões que me obrigavam a estudar. Uma aprendizagem mútua, que, por vezes, nos deu enorme ‘gozo’, quando, por exemplo, decidimos fazer o rol (imenso!) das palavras e expressões que têm o significado de bebedeira ou, ainda, os sinónimos de «fugir». Quando vimos as múltiplas formas de dizer «fugir» até pensámos: se calhar, é essa uma característica portuguesa!...
            A odisseia das formas verbais; este hábito horrendo de comer tudo (não se diz ‘têlêfôná’, como os brasileiros, mas ‘telfuná’!...); os idiotismos; os provincianismos e as diferentes pronúncias locais… – tudo foram escolhos a ultrapassar, até porque Peter Koj, além de ter percorrido o país de Norte a Sul, fazia questão em ler os jornais e estar ao corrente dos livros mais ‘badalados’. Repito: foi para mim uma grande aprendizagem.
            Aliás, em Cascais, incrementou largamente o intercâmbio entre estudantes: alunos de escolas alemãs estavam uma temporada em casas dos pais de alunos portugueses e, depois, eram os portugueses que iam a Hamburgo.
            No livro, Peter Koj debruça-se sobre as diferenças – para os estrangeiros, deveras curiosas – de identificação da ‘imperial’, da ‘bica’…; o universo das siglas; os particípios activos e passivos (há muita gente que não sabe que se diz ‘ter matado’, ‘ter aceitado’ – e não ‘ter aceite’…); a diferença entre ‘ser e ‘estar’; os aumentativos que têm valor de diminutivo; o uso constante do «mais ou menos»; o amplo significado do advérbio «oportunamente»; a história da presidenta...
            Creio, por conseguinte, que mesmo para os «portuguêsfalantes» (!) o livro constituirá uma aventura curiosa, até porque, nesse jeito de ‘saber sorrir’ que Peter Koj de nós aprendeu, há dispersas pelo volume caricaturas de… «partir o coco!».
            Também na medida em que fui parte dessa aprendizagem, não posso deixar de me regozijar com a iniciativa, sobretudo, no momento em que a invasão dos anglicismos ameaçava afundar a enorme riqueza de uma língua falada por mais de 240 milhões de pessoas (há que repeti-lo!), a 5ª língua europeia mais falada no Mundo.
            Acrescente-se que a Peter Koj, hoje com a bonita idade de 76 anos, foi atribuído, em 1996, o Prémio da Fundação da Casa da Cultura de Língua Portuguesa, pelo seu dinamismo em divulgar a nossa língua. E se ora lhe não posso eu dar um prémio, aqui fica o meu enorme aplauso por este livrinho de 164 páginas – que depressa carecerá de nova edição, estou certo!

                                                                        José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 87, 08-04-2015, p. 6.

 

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Pessoas têm nomes e alcunhas… em S. Domingos de Rana!

             Foi apresentado no sábado, dia 20, a partir das 18 horas, na sede do Grupo de Instrução Musical e Desportivo de Abóboda (S. Domingos de Rana), o livro Os nomes e as alcunhas das pessoas dos meus livros, da autoria de Celestino Costa.
            Trata-se de um livro de cordel, de 40 páginas, editado por Apenas Livros, de Lisboa, e pela Associação Cultural de Cascais, com o patrocínio da Junta de Freguesia de S. Domingos de Rana.
            Aberta a sessão, perante mais de três dezenas de pessoas, a Dra. Fernanda Frazão manifestou o seu contentamento por, mais uma vez, a Apenas ter podido dar voz a um autor cascalense, pois já são vários os que tem publicado. Jorge Castro disse alguns poemas dos anteriores livros do autor, tendo seleccionado aqueles em que são mencionadas pessoas cujos nomes constam no livro ora editado, terminando com um em que o autor estabelece um diálogo entre o alfacinha e o saloio, aquele tentando menosprezar a pouca sabedoria deste, respondendo-lhe o saloio dando conta do bom vinho de Colares e de Carcavelos de que o alfacinha bem gosta e, de modo especial, dizendo-lhe das obras escultóricas que alindam a capital e em que o canteiro saloio interveio eficazmente e com saber.
            Tive ocasião de salientar, depois, que não estávamos simplesmente perante o mero rol de 175 pessoas de que Celestino Costa foi falando ao longo dos três livros que escreveu ou em que colaborou: A Minha Terra e Eu (livro que já teve duas edições), Filosofia Saloia, Cinzelar as Palavras como as Pedras em S. Domingos de Rana.
            É que, se da maior parte apenas diz quem foram e quais as suas relações familiares, explicitando, aqui e além, a razão da alcunha atribuída, certo é que, de vez em quando, ao correr da pena, lá vem a história inesperada que fez rir e ainda hoje nos obriga a boas gargalhadas, como aquela em que a mulher se esqueceu de pôr sal na açorda de alho e, ao ser interpelada pelo marido, lhe deu a entender que isso era porque ele não pusera a blusa pelas costas, como era habitual. Ele levantou-se e foi buscá-la; e ela, entrementes, pôs o sal que faltara. «Parece mentira! Tinhas razão… Tem outro gosto!» – reconheceu o Adragão, já de blusa pelas costas…
            «Era assim a vida!» – exclama amiúde o autor. Ou: «Era assim a minha avó!», ao explicar que, costureira de calças de homem, a «Malveiroa» lia até de madrugada o jornal O Século, que pedia emprestado ao irmão Luís, que o assinava.
            E há a homenagem ao Armando «Caracol», na evocação do seu ‘museu’, criado «para lembrar aos vindouros com foi a vida dos nossos avós»: «O curso do Armando é o curso tirado na universidade da vida. O Armando faz parte daquele grupo de portugueses que muitos anos depois de partirem é que são valorizados. Já visitei várias vezes o museu do Armando, e, quando acabo a visita, eu, que gosto muito do passado, sinto aquilo que sentimos quando nos dói a cabeça e tomamos uma aspirina… Sinto-me melhor! Obrigado, Armando!».
            Homenageou-se também João da Mata, natural de Polima, por quem Celestino Costa nutre particular afeição. Foi João da Mata fadista notável, de que ouvimos, em gravação, o fado «Por morrer uma andorinha», famosa quadra de sua autoria, pela voz do saudoso Francisco Stoffel. E no livro se reproduzem páginas de jornais do fado de então.
            Manuel Mendes, presidente da Junta de Freguesia de S. Domingos de Rana evocou os livros que, nomeadamente em colaboração com a Associação Cultural de Cascais a Junta tem editado, dando a conhecer as gentes da freguesia, designadamente os seus poetas.
            A encerrar a sessão, a Dra. Ana Clara Justino, vereadora da Cultura, salientou também a importância de iniciativas deste género, na medida em que elas em muito contribuem para criar a comunidade viva que se deseja.

 Publicado em Cyberjornal, 2013-04-22:

quinta-feira, 10 de julho de 2014

«Divinas Palavras» pelo TEC – um espectáculo!

            Está em cena no Mirita Casimiro (Monte Estoril), até final deste mês de Julho, a peça «Divinas Palavras», de Ramón del Valle-Inclán.
            É um espectáculo, sim, mas note-se, antes de mais, que se trata simultaneamente – e acima de tudo! – da PAP (Prova de Aptidão Profissional) dos 39 finalistas do curso de interpretação da Escola Profissional de Teatro de Cascais. Daí que haja, por exemplo, três elencos, a obrigar os estudantes a desempenhar mais do que um papel e, por outro lado, a contracenarem com oito actores profissionais da companhia, na presença (também em palco) de estudantes do 2º e do 1º ano da escola, que se disponibilizaram para integrar o numeroso grupo de figurantes. Uma prova, portanto, e um exercício – sob o olhar atento de um júri expressamente nomeado para o efeito.
            Dir-se-á, por isso e em primeiro lugar, que só a experiência e o génio de Carlos Avilez – bem secundado por Fernando Alvarez (cenografia e figurinos), Natasha Tchitcherova (coreografia) e Nicolau Esteves (movimento) – poderiam lograr pôr em cena, rigorosamente, tantas personagens, cada uma com seu jeito especial e sua função bem específica no conjunto.
            E o júri aí esteve, todo olhos e ouvidos, de lápis na mão a fazer as suas anotações para a nota final.

A história
            Mais uma vez foi Miguel Graça quem assinou a dramaturgia e fez a sua versão da obra, a partir da tradução do original castelhano feita por Jorge Silva Melo.
            A história em si é, aparentemente, muito simples: quando fica órfão de mãe, Laureano – um anão idiota que passa o tempo metido numa reles caixa, exposto à comiseração e, sobretudo, à esmola dos transeuntes, nomeadamente em recintos de feira – é disputado como ‘preciosa herança’ pelos tios: o velho sacristão Pedro Gailo, casado com a jovem Mari-Gaila, e a irmã da mãe, Marica. São, afinal, os Gailos que levam a melhor e vão ganhando algum dinheirinho, até porque Mari-Gaila não deixa de usar também os seus dotes sedutores… E, um dia, no meio dessas grandes embrulhadas, é ela, porém, quem abandona o idiota e acaba por ‘fugir’ com um vagabundo, diz-se; e o pessoal, levado da breca, encharca o pobrezinho do anão em aguardente (vamos, amigo, dá lá mais um urro, para a gente se rir!...) e assim ele acaba por entregar a alma ao Criador. Quem o sepulta quem não o sepulta, agora que já não rende mais? E nova embrulhada se gera; Marica não se coíbe de lançar imprecações contra a família e o mundo (é, seguramente, um dos momentos altos da interpretação de Teresa Côrte-Real) e Mari-Gaila, qual a mulher adúltera do Evangelho, acaba por ver-se exposta, desnudada, apedrejada sem dó nem piedade – quiçá venha daí a razão de ser do título, pois na narração evangélica se diz que Cristo, quando lhe apresentaram uma adúltera e lhe perguntaram que se lhe havia de fazer, escrevendo serenamente com um dedo no pó do caminho, retorquiu: «Quem de vós estiver sem pecado que lhe atire a primeira pedra!».
            O dramaturgo galego Ramón del Valle-Inclán (1866-1936) escreveu Divinas Palabras em 1919, peça que, no entanto, só seria levada à cena, pela primeira vez, em Madrid, no Teatro Español, a 16 de Novembro de 1933. Pertence, pois, à última fase da sua produção literária, aquela a que ele chamou do «esperpentismo», assim uma forma de grotescamente distorcer a realidade, que, já nesses primeiros tempos do século XX, se lhe antojava difícil de observar a não ser em jeito de tragicomédia.
            «Em jeito de tragicomédia»… foi, porventura, conscientemente ou não, o intuito de Carlos Avilez ao propor agora a representação desta peça, porque se, por um lado, não há «palavras divinas» que se oiçam, por outro, há os que as ouvem muito à letra – e os jornais dão conta amiúde de mortes por apedrejamento nesta plena 2ª década do século XXI. E ainda: que vemos por aí de exploração em relação a quem nasce estropiado ou como tal ousa fingir-se?...
            As pedras rolam no palco. Deveriam rolar também nas consciências!...

Uma dedicatória
            Por razões de saúde, João Vasco tem-se mantido afastado das luzes da ribalta e fazemos votos para que rapidamente melhore, pois do seu talento muito ainda há a esperar. Contudo, não quis Carlos Avilez de, em breve nota, aludir ao facto de ter sido com João Vasco, em 1964, figurante nesta mesma peça, encenada então por José Tamayo e representada pela Companhia Rey Colaço – Robles Monteiro.
            «Um dos espectáculos que mais me impressionou e mais influenciou o meu trabalho como encenador», confessa. Por isso, dado que, no ano seguinte, ambos acabariam por fundar o TEC, Carlos Avilez fez questão em, «para além de agradecer a todos os que me ajudaram neste trabalho», agradecer a João Vasco «esta maravilhosa viagem e dedicar-lhe este espectáculo».
            Dois representantes dos alunos quiseram também dar o seu testemunho: uma pessoa «com uma humildade tão própria de todos os que são grandes»; João Vasco, um «Mestre», «um homem que nos trouxe o melhor que sabia e, sobretudo, nos transmitiu o que é a paixão pelo teatro, a razão principal para o fazer: um acto de amor».

À saída
            Não resisto a dar conta do que senti à saída, após ter assistido ao desfilar de tantas personagens – há o mariconço, há o sacristão que parece viver noutro mundo, há a cadela Coimbra, o pássaro Colorín, um sapo anónimo, um bode… Toda a Natureza e toda a aldeia parece que ali se ajuntaram para ver como é que tudo se passava, com o pobre diabo, com a beleza explorada de uma, também ela simbólica, Mari-Gaila!...
            Ficaram-nos os urros da criatura encaixotada e rendosa, a algazarra dos foliões, o pranto silencioso de quem se vê obrigado a, mesmo sem o querer, ter de baixar os braços. Até quando?

Publicado em Cyberjornal, edição de 09-07-2014: