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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Na prateleira - 14

A selecção do usado
            Na casa do Manel (e os netos já se habituaram a isso) é assim:
            – os jornais vão para casa da Dulce, que tem um cão necessitado de letras para ‘casa-de-banho’ (!);
            – o papel liso (salvo o cartão canelado e afins, destinados ao papelão) entrega-se na Fundação S. Francisco de Assis, que tem protocolo com uma empresa; o dinheiro auferido com a venda ajuda as despesas da benemérita instituição;
            – as rolhas vão para o rolhão (hábito que se iniciara na terra da cortiça, S. Brás de Alportel, pioneira nesse tipo de aproveitamento);
            – as tampas de plástico destina-as a vizinha, D. Carmo, a uma outra instituição que as ajunta para a cadeira de rodas;
            – o outro plástico segue para o respectivo contentor no ecoponto, para onde também se encaminham, naturalmente, todos os vidros;
            – as migalhas acareiam-se e põem-se no murete do jardim, para a passarada;
            – os ossos são petisco apreciado pelo canito do vizinho;
            – o lixo de jardim, claro, recolhe-o a Cascais Ambiente, sempre que solicitada, assim como os ‘monstros’ que já não servem para nada, porque os que servem entregam-se a uma instituição que os trata e distribui por famílias necessitadas; aliás, idêntico destino aguarda as roupas usadas ainda em bom estado;
            – há bidões para recolha da água da chuva, bem apreciada pelas plantas dos vasos sob o telheiro;
            – pilhas para o pilhão, óleos para o oleão da estação de serviço ao pé; cápsulas de café para o recipiente que as aguarda na ‘grande superfície’ aonde vão fazer as compras e onde também há depósito para electrodomésticos sem reparação que valha a pena;
            – Radiografias antigas seguem para a delegação da AMI ou para a farmácia do costume, que também acolhe os medicamentos fora de prazo (e agora as escolas de Sintra até têm um concurso de ‘corrida de sacos’, a ver qual a escola que arranja um saco mais pesado!).
            Compostagem de lixo orgânico não faz, mas guarda o que é possível quer para a vizinha do lado, que tem, ou para o irmão que ora se dedica à pequena horta que recuperou. No entanto, as cascas das laranjas, além de poderem servir para doce, estão agora, à experiência, a arder na salamandra, para espalhar um cheiro bom pela casa.

«Vou mandar o trailer»
            Ouvi a informação e fiquei a pensar comigo mesmo: «O que é que a senhora me vai mandar? O trailer? Trólei sei o que é, havia muitos em Coimbra (e ainda há alguns) quando fui para lá dar aulas. Agora, trailer!... «Googlei» (pronto, esta eu tenho de usar, porque não há outra possível!) e… li: «Um "trailer" de filme costuma apresentar as cenas escolhidas com frases de efeito superpostas às cenas ou com um narrador motivando o espectador a assisti-lo». Desculpa-se a tradução automática do «assisti-lo» e fica-se a saber o que é, em linguagem cinematográfica. No entanto, no caso em apreço, o que a senhora se comprometera a enviar era assim como que a modos de um esboço, um projecto (esta, sim, palavra de moda!), um apanhado aliciante do que pretendia realizar.
            Creio, porém, que o envio ficou pela intenção. E a proposta ainda não chegou! Não é assim do pé prá mão que se faz um trailer, não acham?

Como identificar?
            Confesso que não sei como hei-de explicar-me para anunciar as actividades a realizar na galeria do que foi a sede da antiga Junta de Freguesia do Estoril. Soa-me mal o «antiga», porque o edifício continua a ter as mesmas funções de outrora, ainda que – por uma obediência (por muitos considerada ‘cega’) aos ditames do ‘Governo Central’ de Lisboa, que do resto do País pouco parece perceber – agora a freguesia seja Cascais-Estoril, a mais populosa e maior em extensão de todo o Portugal. Se calhar, aí está a razão: tínhamos que ser os maiores!
            E cá fico à espera que me esclareçam como deve agora identificar-se o sítio.

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 27, 18-12-2013, p. 12.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Duas exposições e uma peça, em Cascais!

             Primeira nota, muito positiva: a exposição de Maria Keil nos baixos do Palácio Cidadela, em Cascais, numa parceria do Museu da Presidência da República com a Câmara Municipal. Estará patente apenas até domingo, 27, e será uma pena que alguém que esteja verdadeiramente interessado em Arte a não vá ver.
            O espaço foi muito bem preparado para receber, num tom intimista (diríamos!) este inolvidável conjunto de trabalhos de toda uma vida dedicada à Arte, nos seus mais variados temas e suportes. Sim, os azulejos, sem dúvida! Aqueles a que, sem querer, nos roçamos em estações do metro de Lisboa e nem sequer suspeitamos de que são de uma grande Artista, algarvia de Silves, que o ano passado nos deixou, quando estava prestes a completar 98 anos! Mas os seus trabalhos de ilustração de obras, mormente para crianças… de encantar! E as tapeçarias?
            Exímia no desenho, acutilante na crítica quando tinha de o ser (que a pintura é uma arma também!...), plena de uma serenidade que encanta! Passaríamos ali umas horas!...
            Chama-se de propósito… a obra artística de Maria Keil. E a razão do título resulta – como ali se explica – da oportuna apropriação de uma expressão utilizada pela artista, por ocasião do seu 80.º aniversário: “Faço 80 anos, sim e é de propósito” – embora, antes, tenha dito que… não era de propósito!... E, na verdade, essa frase pode consubstanciar todo o seu percurso de vida e toda uma forma de encarar a existência, em trabalho incessante e profícuo até que… as mãos deixaram de lhe obedecer! A tela final é, por isso, deveras sugestiva: «Tenho trabalhado pouco, não é? Peço desculpa… não soube fazer mais».
            Acrescenta-se na apresentação:
            «A ironia subjacente em grande parte dos seus trabalhos, a desconstrução, a diversidade de abordagens e de suportes e a fuga a categorizações espelham bem a personalidade de Maria Keil e a reivindicação da sua liberdade criativa».
            Horário: de quarta a sexta-feira, das 14 às 20 h.; sábado e domingo, das 11 às 20.

O teatro e os teatros
            No Mirita Casimiro, expõe Fernanda Carvalho, até ao próximo dia 3, «Percursos Teatrais», série de fotografias, a preto e branco, que têm por tema o teatro. Não o teatro-espectáculo mas teatros-edifícios, mormente o seu interior. O teatro de Évora (é capaz de não se saber que Évora tem teatro antigo…), o de Milão, alguns de Lisboa…
            Um olhar quase indiscreto, a realçar ângulos inesperados, de luz invulgar. Deixam-nos pensativos: tudo isto está por detrás de um espectáculo teatral! Por aqui se agarram mãos, na prossecução de um objectivo: para que o espectáculo resulte e a mensagem passe!
            Escreve o encenador José Peixoto, no catálogo:
            «Ignoramos até que o Teatro vive não só na cena mas em todo o espaço teatral que determina a leitura e a recepção do espectáculo».
            E é esse «olhar sensível e revelador da beleza dos teatros» que Fernanda Carvalho pretende – e consegue! – mostrar. E não ficamos indiferentes.

O Tempo e a Ira, de John Osborne
            E, no teatro municipal de Cascais, como se anunciou, «o texto mais controverso do séc. XX inglês»: O Tempo e a Ira, de John Osborne (1929-1994), com André Nunes, Dalila Carmo, Joana Seixas e Renato Godinho.
            Acrescenta-se que a peça «transformou o teatro no país de Shakespeare e não deixa ninguém indiferente». Isso não deixa, porque, no final, acabamos por verificar que, de uma forma ou doutra, ali estamos retratados nalgum dos momentos da nossa vida.
            Uma chatice as tardes de domingo sem programa definido e uma tábua de engomar sempre ali à espera e até nos assusta pensar que há toda uma catrefada de roupa para passar. Vai e vem o ferro («movimentos minimais repetitivos, tão modernos de tão vazios e desconcertantes», anota Martim Pedroso); respira ofegante; uma peça e outra. E… já acabaste de ler o jornal? Estes jornais que dizem todos a mesma coisa. Inferno de vida. O horizonte parece que acaba ali, num torvelinho de ideias desencontradas, de traumas, de... Há o amor que já se tornou monotonia; há a criança gerada, não partilhada e, por isso, ocultada e… abortada. Há o amor-ódio, violência que se amansa.
            Os actores olham-nos nos olhos, amiúde. Querem fazer-nos participantes do que sentem, do que pensam. Sim, porque eles pensam – o que já não é nada comum nos nossos dias! E importava que fosse, neste tempo que sub-repticiamente se nos vai escoando por entre os dedos, em cima de bem arreliante tábua de engomar. Consciencialização é, sem dúvida, a palavra de ordem!
            Todos os actores servem às mil maravilhas esta versão de Renato Godinho (de certo modo, o protagonista, Guido, magnífica criação sua), um dos ‘filhos’ do Teatro Experimental de Cascais. Dalila Carmo (Helena), que nos habituámos a ver nas telenovelas e foi galardoada, este ano de 2013, com o Globo de Ouro de Melhor Actriz, entra de permeio, a baralhar todo o esquema convencional e dá a bofetada (real e simbólica) num ramerrão fastidioso. Joana Seixas (a doce Alice) impõe-se-nos na cena final, olhos fitos nos espectadores, de negro vestida, sentindo cair sobre ela vitupérios a juntar aos horrores por que passou, imóvel, densa, escultura!... André Nunes solta-se, por exemplo, naquela excelente negaça-espectáculo de cantor que, se calhar, um dia até gostávamos de ter sido, para saborear um palco menos frio que este, condimentado apenas a sucessivas xícaras de chá…
            Foi Martim Pedroso que encenou. E é dele o texto principal do singelo programa. Aí escreve, a dado passo, a propósito das atitudes de Guido: refugia-se o protagonista «na culpabilização de tudo e de todos e nem mesmo ele consegue lavar a sua alma a não ser quando recua ao tempo das fábulas com ursos e esquilos».
            Brincar aos ursos e aos esquilos, encher de fantasia o nosso quotidiano será, porventura, uma forma de ultrapassarmos a dureza esquelética e disforme de uma realidade feia, sem graça nenhuma, porque despojada da imaginação e do sonho!
            A peça vai estar em cena no Mirita Casimiro até 3 de Novembro, de 5ª a sábado às 21h30 e domingo às 17h!
            A não perder!

Publicado em Cyberjornal, 20-10-2013:

 Nota: As fotos de 'O Tempo e a Ira' são de Ana Lopes Gomes. Reproduzimo-las com a devida vénia. 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Proximidade precisa-se!

            A revista Visão, na sua edição do passado dia 20 de Junho, trouxe (p. 66-67) uma reportagem que se me afigura do maior interesse pelo seu significado, ainda mais premente na actual conjuntura. Intitula-se «Aqui Rádio Família» e relata a história do Bom Dia, Tio João, “uma espécie de Facebook rural”, rubrica que diariamente unia todo o pessoal de Bragança, na medida em que funcionava como elo de ligação de toda a comunidade através da Rádio Bragança, rádio local daquela cidade transmontana.
            Como todas as rádios locais e todos os jornais locais, a sua missão deveria ser – e é-o normalmente – a de criar comunidade, noticiando o que se passa, o que se precisa, as reivindicações, as necessidades, os melhoramentos, as iniciativas… na localidade.
            Então, o que é que aconteceu?
            A Rádio Bragançana (RBA) foi comprada pela Média Capital e assim se «calaram 24 anos de combate ao isolamento», como se lê na reportagem de Miguel Carvalho. A estupefacção do povo foi enorme: «Agora, a RBA retransmite na região a emissão da M80, urbana e sofisticada, em piloto automático desde Lisboa» e acrescenta-se:
            «A rádio, dir-se-á, é o universal sem paredes. Excepto, claro, quando a animadora da capital saúda o lindo dia de sol e, em Bragança, chove»!...
            Recordo, por exemplo, o que me dizia, aqui há tempos, o meu amigo João, que trabalha em Bruxelas e ouve a Antena 1: «Eh pá, vocês aí estão sempre trompicados com o trânsito de manhã: ele é engarrafamento no IC 19, na A5 desde Porto Salvo, na A2 desde a 2ª ponte do Feijó… E eu, sossegadinho, a ir a pé, daí a pouco, para o emprego»…
            Claro, as rádios ‘vivem’ nos centros urbanos e, de manhã e à noite, o trânsito e o tempo são os pratos fortes… em Lisboa e no Porto. O resto do país é… paisagem, como sói dizer-se!
            E só para terminar o caso de Bragança: a questão resolveu-se e já outra rádio se prontificou a continuar a missão de ‘criar comunidade’, deixando para outros ouvidos as emissões do piloto automático gerido a partir da capital.
            Não precisamos, porém, de ir de abalada até Bragança: onde há aqui, no concelho de Cascais, uma rádio local a que estejamos permanentemente ligados? Perdoar-me-á o leitor se evoco os tempos do Rádio Clube de Cascais, em que procurávamos ser efectivamente locais. Perdoar-me-á se lhe digo que também por estas bandas o tempo climatérico não é o de Lisboa e até achamos piada quando esse tal de Instituto do Mar e da Atmosfera (acho o nome giro, quem teria sido o sábio que o inventou?...) fala de alterações «a norte de Cascais»! A «norte de Cascais»? O que é isso? Do outro lado da serra de Sintra? E quando dizem que é a norte do Cabo Raso?!... Não percebo. Aliás, desafio alguém a perceber, mormente os que moramos em Cascais e desde sempre nos habituámos, pela manhã, a olhar pela janela para a serra a ver se tem «barrão» ou se está limpa, sinais que todos compreendemos bem em relação a vento, a chuva ou a calor.
            Está aí em força a campanha eleitoral para as autarquias. Cartazes mais ou menos vistosos, frases mais ou menos para ficar no ouvido, partidos mais ou menos ‘escondidos’, de cores ligeiramente alteradas, porque se compreendeu que o Povo já não vai nessa dos partidos… Pois aqui fica o apelo: pensem, senhores candidatos, em – sem intromissões político-partidárias – promover uma real comunidade, mediante sadia utilização dos meios de comunicação ao dispor. Precisamos de mais comunicação e de menos publicidade.
            E, já agora que estamos em maré de sugestões e na perspectiva de, afinal, esse tal Instituto do Mar e da Atmosfera se enganar nas previsões e virmos a ter um Verão «à maneira», com boas possibilidades de irmos, por exemplo, até ao Guincho e de outros nos virem visitar para usufruir das nossas praias bafejadas com bandeiras azuis e bonitos títulos de «as mais acessíveis»… trate-se, , de tornar a zona ocidental de Cascais mais acessível: abra-se aos dois sentidos, com carácter de urgência, a Rua das Violetas, em Birre, já que não se consegue acabar de forma airosa o final da A5. Não haverá perturbações ambientais nem riscos de insegurança e dará muito jeito a quem, da auto-estrada, quiser ir para Birre, Torre, Guia, Areia e Guincho seguir pela Rua das Violetas, em vez de se infernizar na sempre engarrafada «rotunda de Birre».
            Se houvesse uma rádio local, por isso pugnaríamos a todo o momento!

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 5, 03-07-2013, p. 6.

 

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Pessoas têm nomes e alcunhas… em S. Domingos de Rana!

             Foi apresentado no sábado, dia 20, a partir das 18 horas, na sede do Grupo de Instrução Musical e Desportivo de Abóboda (S. Domingos de Rana), o livro Os nomes e as alcunhas das pessoas dos meus livros, da autoria de Celestino Costa.
            Trata-se de um livro de cordel, de 40 páginas, editado por Apenas Livros, de Lisboa, e pela Associação Cultural de Cascais, com o patrocínio da Junta de Freguesia de S. Domingos de Rana.
            Aberta a sessão, perante mais de três dezenas de pessoas, a Dra. Fernanda Frazão manifestou o seu contentamento por, mais uma vez, a Apenas ter podido dar voz a um autor cascalense, pois já são vários os que tem publicado. Jorge Castro disse alguns poemas dos anteriores livros do autor, tendo seleccionado aqueles em que são mencionadas pessoas cujos nomes constam no livro ora editado, terminando com um em que o autor estabelece um diálogo entre o alfacinha e o saloio, aquele tentando menosprezar a pouca sabedoria deste, respondendo-lhe o saloio dando conta do bom vinho de Colares e de Carcavelos de que o alfacinha bem gosta e, de modo especial, dizendo-lhe das obras escultóricas que alindam a capital e em que o canteiro saloio interveio eficazmente e com saber.
            Tive ocasião de salientar, depois, que não estávamos simplesmente perante o mero rol de 175 pessoas de que Celestino Costa foi falando ao longo dos três livros que escreveu ou em que colaborou: A Minha Terra e Eu (livro que já teve duas edições), Filosofia Saloia, Cinzelar as Palavras como as Pedras em S. Domingos de Rana.
            É que, se da maior parte apenas diz quem foram e quais as suas relações familiares, explicitando, aqui e além, a razão da alcunha atribuída, certo é que, de vez em quando, ao correr da pena, lá vem a história inesperada que fez rir e ainda hoje nos obriga a boas gargalhadas, como aquela em que a mulher se esqueceu de pôr sal na açorda de alho e, ao ser interpelada pelo marido, lhe deu a entender que isso era porque ele não pusera a blusa pelas costas, como era habitual. Ele levantou-se e foi buscá-la; e ela, entrementes, pôs o sal que faltara. «Parece mentira! Tinhas razão… Tem outro gosto!» – reconheceu o Adragão, já de blusa pelas costas…
            «Era assim a vida!» – exclama amiúde o autor. Ou: «Era assim a minha avó!», ao explicar que, costureira de calças de homem, a «Malveiroa» lia até de madrugada o jornal O Século, que pedia emprestado ao irmão Luís, que o assinava.
            E há a homenagem ao Armando «Caracol», na evocação do seu ‘museu’, criado «para lembrar aos vindouros com foi a vida dos nossos avós»: «O curso do Armando é o curso tirado na universidade da vida. O Armando faz parte daquele grupo de portugueses que muitos anos depois de partirem é que são valorizados. Já visitei várias vezes o museu do Armando, e, quando acabo a visita, eu, que gosto muito do passado, sinto aquilo que sentimos quando nos dói a cabeça e tomamos uma aspirina… Sinto-me melhor! Obrigado, Armando!».
            Homenageou-se também João da Mata, natural de Polima, por quem Celestino Costa nutre particular afeição. Foi João da Mata fadista notável, de que ouvimos, em gravação, o fado «Por morrer uma andorinha», famosa quadra de sua autoria, pela voz do saudoso Francisco Stoffel. E no livro se reproduzem páginas de jornais do fado de então.
            Manuel Mendes, presidente da Junta de Freguesia de S. Domingos de Rana evocou os livros que, nomeadamente em colaboração com a Associação Cultural de Cascais a Junta tem editado, dando a conhecer as gentes da freguesia, designadamente os seus poetas.
            A encerrar a sessão, a Dra. Ana Clara Justino, vereadora da Cultura, salientou também a importância de iniciativas deste género, na medida em que elas em muito contribuem para criar a comunidade viva que se deseja.

 Publicado em Cyberjornal, 2013-04-22:

sexta-feira, 29 de março de 2013

Espólio do «Jornal da Costa do Sol» dá entrada no Arquivo Municipal

            Para além de outras, uma das primeiras preocupações que tive, após o inesperado encerramento do Jornal da Costa do Sol (última edição publicada a 14 de Janeiro de 2010), foi a de procurar acautelar o seu espólio.
            Na verdade, nascido a 25 de Abril de 1964, Jornal da Costa do Sol continha no seu arquivo toda a história de Cascais e também de Oeiras, quer em textos, quer em documentação, quer em imagens, desde essa época, porque acompanhava semanalmente o que de significativo se passava nesses concelhos.
            Toda a colecção dos jornais está, é certo, disponível na biblioteca municipal; contudo, para além da notícia que se faz, há as imagens que se guardam e se seleccionam, a correspondência… Infelizmente, porém, parte bem volumosa desse espólio já levara descaminho antes de – por deferência do proprietário do imóvel, Vilar Gomes – os funcionários da Câmara terem metido ombros à tarefa de juntar o que havia.
            Logo após o 25 de Abril, haviam desaparecido, por exemplo, as provas de censura, que era um dos arquivos mais interessantes de que se dispunha, por mostrarem, na realidade, como funcionava o «lápis azul» – e Jornal da Costa do Sol era, nas vésperas do 25 de Abril, juntamente com o Jornal da Madeira, o Jornal do Fundão, o Notícias da Amadora, obrigado a mostrar aos censores provas de página, porque… ‘eles’ não confiavam em nós!...
            Recorde-se que, na altura da chamada «Primavera marcelista», escrevia no Jornal da Costa do Sol Magalhães Mota, que fazia o relato das sessões da Assembleia Nacional, amiúde censurado, como o seriam também os textos, também sobre a Assembleia, saídos da pena de Viriato Dias em 1972. Aliás, por ser feito na mesma tipografia – a Mirandela – em que se começou a fazer o Expresso, houve sempre uma grande ligação entre as equipas e Francisco Pinto Balsemão chegou a assumir a direcção do jornal, de Março a Julho de 1976, uma experiência ‘profissionalizante’ que acabaria por não dar resultado e os membros da equipa anterior houveram por bem regressar e recomeçar a publicação a 10 de Dezembro desse ano.

Um observador atento da actividade autárquica
            Foi habitualmente «semanário dos concelhos de Cascais e de Oeiras», à excepção de 1981, em que, por dificuldades financeiras, se publicou quinzenalmente.
            Exerceram os seus redactores, sem peias, uma função de cidadania, o que nem sempre quadrava bem ao poder autárquico instituído, com o qual o relacionamento – como frequentemente acontece, por esse Portugal além, entre as autarquias e a Comunicação Social local – se procurou manter isento de partidarismos, mas difícil. Por exemplo, com Georges Dargent e, nomeadamente, com António Capucho, a tensão foi constante, indo ao ponto de haver ordem expressa para ao jornal não ser proporcionada publicidade, mesmo a institucional.
            Asfixiado, encerrou portas, como se disse, sem mais nem menos, no princípio de 2010. Os accionistas de Publigráfica, SARL, a empresa proprietária, não tiveram possibilidade de agir, dados os fortes condicionalismos económicos a que se chegara e, desde então, o nosso receio era de que, de um momento para o outro, entrassem por ali adentro os agentes judiciais e despejassem, sem tir-te nem guar-te, um espólio histórico-documental ímpar.
            Moveram-se influências e, felizmente, podemos agora informar que, mercê delas, a documentação ainda disponível acaba de dar entrada no Arquivo Municipal, onde será devidamente tratada, a fim de vir a ser colocada ao alcance dos investigadores, porque – sem receio de errar o afirmo – não pode fazer-se a história de Cascais (e de Oeiras) nas últimas cinco décadas, sem uma leitura atenta das páginas do Jornal da Costa do Sol, do que nelas se escreve e do que nelas não se pôde escrever e se subentende.
            E eu (perdoe-se-me a primeira pessoa), que (quase ininterruptamente) fiz parte do ‘projecto’ (como hoje se diz), desde Outubro de 1967 até final (mais de quarenta anos!...), particularmente me congratulo, como jornalista e como historiador, por as negociações terem obtido o resultado que ora – pela pronta informação que me foi disponibilizada pelo Dr. António Carvalho, irmanado comigo nestas preocupações histórico-patrimoniais – tenho o gosto de anunciar.

Publicado em Cyberjornal, 2013-03-29:

sábado, 29 de setembro de 2012

Andarilhanças 55

Saber Geografia
            Pasmo quando, ao falar com um(a) operador(a) de centrais telefónicas de empresas implantadas a nível nacional, me perguntam, por exemplo, Cascais em que distrito fica? Ou me sugerem, como mais perto, a loja que está nas avenidas novas em Lisboa, quando sou capaz de ter uma num dos centros comerciais que pululam por este concelho…
            Compreende-se: a menina ou o menino estão, mui provavelmente, nos arredores do Porto, não têm acesso, no seu computador, a mapas hoje tão facilmente consultáveis…
            Em nota enviada à imprensa pela Divisão de Comunicação e Relações Publicas, a 6 de Julho, p. p., informou-se que o Senhor Presidente iria estar presente na inauguração da Unidade de Cuidados Continuados Maria José Nogueira Pinto. Para a localizar, seguindo certamente informação veiculada pelos serviços da Misericórdia de Lisboa, que pouco saberão de Cascais, escreveu-se que o empreendimento estava «na Aldeia do Juzo de S. Gabriel, na Rua Chesol, em Alcabideche»!...
            Era difícil cometer mais asneiras em frase tão curta!
A Unidade – que, por sinal, ao que consta, foi inaugurada mas não funciona – está localizada em plena freguesia de Cascais, onde foi a Standard Eléctrica, ou seja, no Mato Romão (como o Povo conhece a zona) ou em S. Gabriel (como foi chamado depois da instalação da fábrica, em homenagem, quiçá, ao arcanjo das comunicações…). A entrada faz-se pela Rua Chesol, já no Bairro da Chesol, que pertence à Aldeia de Juso.

«Já encontraste o teu amor?»
            14 de Setembro, sexta-feira, 12.15 horas. Carruagem quase vazia. A senhora inicia o telefonema logo após o comboio partir:
            – Então, já encontraste o teu amor?
            Assim. A matar!
           Ouvia-se perfeitamente a conversa toda. Claro, a do lado de cá. A do lado de lá imaginava-se. Drama sentimental de todo o tamanho. «Tu é que andas atrás dele!». Depois desta frase fiquei baralhado: pensara tratar-se de amor não correspondido por parte de um homem e, se calhar, era: ela teria sido trocada por um ele? Deste lado, frases de despeito, de incitamento a uma resolução que tardava, apesar das muitas juras de amor. Antes de Parede, já a conversa acabara. Abruptamente. Um drama mesmo!

«Serviços prestados»?
            Fui um dos que sofreram na bolsa com a ordem governamental de caçarem multas a todo o custo, nos 50 metros antes dos semáforos na subida de Cascais para o Monte. Cidadão comum não percebe porque há-de haver ali aquela limitação de velocidade, a não ser para, de vez em quando, se armar caça à multa.
Passou-me recibo o senhor agente. Recibo de «pagamento serviços prestados»! «Serviços prestados» uma ova! Multa é o que foi! A mim não me prestou serviço nenhum, a não ser o de me multar e esse ‘serviço’ bem o dispensava eu! Mas… se me prestou serviço, também vai descontar para a Segurança Social?

Direcção centro
            Ainda que mal pergunte: por que razão, em Cascais, na Rotunda Dr. Canas da Mota, se sugere a direcção do centro da vila pela Avenida Infante D. Henrique, quando seria mais directo descer a Joaquim Ereira? Ou poderiam indicar-se as duas alternativas, não?

Jornais em Cascais
Ao rever a minha colecção de números 1 é que me dei conta da quantidade de títulos de jornais em Cascais, nas últimas décadas.
O primeiro Jornal de Cascais, por exemplo, nasceu a 29 de Setembro de 1929 e foi seu director o Dr. Alberto Madureira; manteve-se em publicação até 1939. O 2º nasceu quase 40 anos depois, a 11 de Setembro de 1969, quando o seu proprietário, o Dr. Evaristo Farelo, teve um conflito com Rui Mendes, então director do jornal A Nossa Terra. Nuno Vasco, jornalista que também começou no A Nossa Terra, acompanhou-o e quando Evaristo Farelo, por não ter garantido a publicação durante um ano, perdeu legalmente o título, Nuno Vasco chamou-o a si bastante mais tarde: o seu primeiro número saiu com data de 1 a 15 de Dezembro de 1981. Esse foi, por conseguinte, o 3º Jornal de Cascais, que teve vida efémera. Tem, pois, entre mãos, amigo leitor, o 4º Jornal de Cascais!

O novo empreendimento trará reconciliação?
            Prosseguem, a ritmo lento, as obras de demolição do vetusto Hotel Atlântico, no Monte Estoril, cujas paredes ressumam histórias e tradição. Já vi maqueta do novo projecto que, a exemplo, das Três Parcas que lhe ficam a poente, vai ter nome pomposo: «Atlântico Estoril Residence», ora toma! Não fica no Estoril mas é como se ficasse. Garantem vozes autorizadas do Município que está prevista «a possível inclusão de uma rotunda em frente ao edifício», «com o objectivo de fazer fluir o trânsito da Marginal e facilitar as entradas e saídas para a nova unidade e também para o Monte Estoril». Não gosto muito do «possível», mas… será desta vez que os técnicos camarários optam pela reconciliação? É que, senhores, há muito que de Cascais se não pode ir até ao Monte, de carro, pela marginal! Uma vingançazinha para que o Monte não suplantasse Cascais?!... Mas isso foi polémica de casinos, meninos, já lá vai um século! Que temos nós a ver com isso agora? Vá lá, sejam coerentes!

Publicado em Jornal de Cascais, nº 322, 26.09.2012, p. 6.

 

 

 

sábado, 1 de outubro de 2011

Andarilhanças 17

Jornais, fontes para a história
Tive ocasião de, a propósito do 6º aniversário de Jornal de Cascais, salientar a importância da imprensa como fonte primordial para a História Local. Creio, pois, interessante que, uma vez por outra, se dê conta dos órgãos de informação que servem o concelho de Cascais.
Não vou ser exaustivo, bem no sei, porque, hoje, a distribuição é feita aqui e além, sem dias certos ou, pelo menos, sem uma informação adequada, a não ser que se disponha de Internet e se consultem as edições on line. Creio, porém, não errar se afirmar que o mais antigo jornal agora em publicação é O Correio da Linha, de Paulo Pimenta; tem sede em Oeiras, é mensal e assume-se mais no formato de revista; «nasceu no mês de Março de 1989, com o nome de “Correio da Costa do Estoril”, ou seja, está no 23º ano de publicação ininterrupta. Virá depois o semanário Jornal da Região – Cascais, distribuído com os exemplares do Expresso que se vendam no concelho; na edição nº 279, de 30 de Agosto, está consignado que esta é a sua III série e que está no seu 15º ano. O nosso Jornal de Cascais completou agora 6 anos de publicação, também ininterrupta. Criado em Outubro de 2008, O Correio de Cascais, sediado em Mem Martins, afirma-se, na página do face book como ‘Jornal Regional Quinzenal do Concelho de Cascais’; ultimamente é mensal; o nº 45 (Agosto) está disponível no blogue http://correiodecascais.blogspot.com/p/edicoes-online-2011.html
Outras iniciativas têm surgido, de que GoldenNewsCascais pode ser exemplo. Quinzenário, de distribuição gratuita, como todos os demais, teve o seu 1º número em 16 de Outubro de 2009. Disponível on line e distribuído aqui e além, na versão papel, vai no nº 29 (Junho/Julho 2011). É provável que haja mais.
Acaba a Câmara de Cascais de criar um jornal, assim à maneira dos jornais locais, não exclusivamente de teor camarário. Isso vai, pois, merecer, um comentário maior. A inserir num texto sobre as publicações camarárias.

Aviões
Desde há muito que os habitantes de Cascais se habituaram ao barulho dos motores dos aviões. Não apenas dos que aterram ou levantam voo na Portela, mas sobretudo das avionetas do aeródromo de Tires. Sentimos, este ano, porém, a falta de publicidade, mormente ao fim-de-semana, por sobre as praias: as avionetas com as longas faixas atrás foram raríssimas. E, para além do festival aéreo de 10 de Julho, tivemos direito, pouco antes do meio-dia de 7 de Setembro, a apreciar de novo, sobre a baía, os loopings e outros malabarismos da cascalense Diana Gomes da Silva. Maravilha!

40 dias é… muito dia!
Agora, já serão bem mais! Corta-nos, porém, o coração ver aqueles trabalhadores duma corticeira em Santa Maria da Feira, que, dia e noite, há mais de 40 dias, velam diante das instalações, para que o recheio não leve sumiço!
A cena repete-se, repete-se e continuará a repetir-se noutros locais, noutras empresas, noutras fábricas, no decorrer deste último trimestre de 2011. E, ao que parece, dada a passividade reinante, não há nada a fazer. Os proprietários desapareceram, sem aparentemente deixarem rasto; os trabalhadores ficaram de mãos e pés atados e – isso, sim, que vorazmente se faz… – bem depressa terão pela frente as exigências implacáveis (sim, im-pla-cá-veis!) do «paga a electricidade», «paga a prestação», «paga a água»!... Com ameaças certas de cortes no fornecimento, de imediata penhora de bens… Essas, sim, não se fazem rogadas! Abutres à espera que a vítima venha, inanimada, a sucumbir!

Esquerda radical
No passado dia 17, Mário Soares, em entrevista a uma estação de televisão, alertou para a forte possibilidade de, prosseguindo o Mundo neste caminho, se deve preparar para assistir ao aparecimento, a nível global, de uma esquerda radical.
Mário Soares licenciou-se em História antes de tirar Direito!

Um livro sobre a guerra de África
Já aqui tive oportunidade de me referir ao livro, de António de Almeida Marques, À Espera de um Domingo em Terras de Angola. O autor, que reside na Parede, foi um dos muitos capitães milicianos que, após ter feito o serviço militar e já regressado à vida civil, foi chamado para comandante de companhia e como tal esteve no teatro da guerra.
Assume-se o livro, e bem, como testemunho para oferecer aos amigos e, de modo especial, a quantos partilharam consigo esses longos meses, de 1970 a 1972. Sem nenhumas pretensões literárias e, também, sem dar grande importância ao rigor da escrita – que o que interessava era a mensagem. A alocução, que fez num reencontro de todos, em 2006, assume-se precisamente como tocante confidência de estados de espírito.
Penso que são depoimentos destes, inclusive com dados estatísticos, narrativas entremeadas de reflexões sobre a actualidade, o parecer do cidadão comum, e o contexto em que a guerra surgiu, que interessa dar a conhecer – para que não voltem a cometer-se os mesmos erros.

Publicado em Jornal de Cascais, nº 283, 28-09-2011, p. 6.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Comunicação de proximidade

A circunstância de Jornal de Cascais comemorar, com este número, o seu 6º ano de publicação, regozija-me, enquanto seu colaborador desde os primeiros tempos; acho que estamos a cumprir uma das funções mais importantes da comunicação social local: criar comunidade. Precisaríamos de potenciar a distribuição em papel, para que chegue a toda a gente; mas essa é uma questão a merecer outros apoios. Para já, Jornal de Cascais implantou-se, é lido, comentado e procurado – e isso particularmente nos interessa.
Aniversário é também ensejo para reflexão acerca precisamente dessa função do jornal local – e aqui a minha ‘costela’ de jornalista prende-se com a de ‘historiador’!
A palavra ‘independente’ surge, amiúde, como epígrafe na imprensa local e regional. Postula-se que, para melhor servir a comunidade, o órgão de comunicação esteja isento de ligações políticas, religiosas, económicas, para poder ser o mais possível isento, criticar quando aos seus jornalistas parecer necessária a crítica, louvar quando o louvor se apresente oportuno.
Entra, neste domínio, a publicidade, que é, na maioria dos casos, a principal fonte da sua subsistência. Uma publicidade que nunca deveria envolver condições ou favores. Uma publicidade que, por outro lado, as entidades autárquicas e empresariais deveriam privilegiar, designadamente porque é através da Comunicação Social que se registam actividades e o eco que elas tiveram. E assim se fica a saber, anos mais tarde, o que aconteceu e como – cá está a História a fazer-se!...
Em suma, se os responsáveis pelos órgãos de comunicação não devem ater-se apenas aos comunicados que lhes servem as entidades e limitar-se a transcrevê-los, também se preconiza que os responsáveis autárquicos e empresariais vejam na imprensa local e regional – escrita e falada – o veículo mais adequado para darem a conhecer o que fazem e que gostariam que ficasse perpetuado para o futuro.
Uma última consideração: é ainda muito reduzido, por parte da população, o acesso à Internet e, como as dificuldades económicas vão substancialmente agravar-se (inclusive, e sobretudo, para a classe média), esse acesso será cada vez menor. Ou seja: dado que estamos todos em maré de jornais gratuitos, versões em papel, distribuídas porta a porta ou colocadas em pontos-chave de cada bairro é medida a que urge recorrer.

Publicado em Jornal de Cascais, nº 281, 14-09-2011, p. 6.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Notas avulsas… de um cidadão olheiro!

Quando criaram os tutores de bairro pela EMAC, disseram que nós seríamos uma espécie de olheiros. Acho que o jornalista – nomeadamente o que escreve nos jornais locais – deve ser também esse olheiro, a informar o que lhe parece menos bem (e a aplaudir o que está bem, claro!), porque aos responsáveis autárquicos nem todas as informações chegam, em tempo oportuno. Até porque também a imprensa local é fonte de informação histórica e, se nada se disser, quem mais tarde o saberá?
Demos, pois, uma ajudinha, mudando, desta feita, o estilo da nossa crónica de hoje.

Camarim Eunice Muñoz
Em singela, mas mui tocante cerimónia, o TEC – por iniciativa de João Vasco – decidiu dar o nome de Eunice Muñoz ao camarim ora ocupado pela actriz para a peça «O Comboio da Madrugada». Foi no Dia Mundial do Teatro, 27 de Março.



Uma surpresa após a cerimónia evocativa que se desenrolou no final do espectáculo, na companhia de um pequeno grupo de amigos. Eunice emocionou-se e garantiu que o TEC era uma companhia única, pela forma como se trabalhava, em entreajuda, em comunhão de ideais… E, também emocionados, todos aplaudimos, nessa comunhão.

Parque de estacionamento do Gandarinha
Está quase pronto o parque de estacionamento do Gandarinha e creio que irá ser seguida, em parte, a proposta que ousei fazer de ser um parque diferente no que concerne a custos, atendendo aos dois locais que serve – a Casa das Histórias Paula Rego e o Parque Marechal Carmona. Equipamento cultural, um; equipamento social, o outro, grandemente procurado pelas famílias para aí passarem uma ou duas horas com as suas crianças, quer ao fim-de-semana quer ao final da tarde. Tenho-o frequentado assiduamente e, em dias bons, o parque infantil regurgita de criançada, que aí tem como motivo de atracção não apenas os equipamentos (parabéns pela sua manutenção cuidada!) mas também a presença de patos e patinhos, pavões e galos (impantes das suas plumagens...) e outras aves…
Um custo moderado – com, por exemplo, a primeira hora gratuita – seria bem-visto e o Município mostrava-se, mui louvavelmente, servidor dos interesses da população.

Parque de estacionamento Palmela
Boa surpresa também terem-nos facultado gratuitamente até aos primeiros dias deste mês de Abril o parque de estacionamento subterrâneo à entrada do Parque Palmela, cuja gestão – tal como a do estacionamento junto ao Parque Gandarinha – foi entregue à ESUC.
Serve às mil maravilhas para quem, do lado poente do concelho queira usufruir de saudável caminhada no paredão. E só quem não anda no paredão é que nem sabe o que perde, mormente no que concerne a exercício físico, a contacto com o mar… O paredão, nos dias bons, tem gente a todas as horas do dia e constitui, sem dúvida, um dos locais mais aprazíveis do concelho de Cascais.
No momento em que escrevo, ainda não disponho de informação de quando é que começa (ou começou) a ser pago e quais os montantes previstos. Mas também aqui, creio eu, o Executivo Municipal deverá pensar-se como… «serviço público». Seria, quiçá, uma forma de se redimir do escândalo (consentido) que continua a ser ter de se pagar – e quanto!... – no estacionamento do hospital, num momento em que esse equipamento, em termos de espera para atendimento, raia o inacreditável (pelas notícias que diariamente nos chegam), num concelho que, também no campo da Saúde, garantia que, com o novo equipamento, iria ser pioneiro. É-o. No mau sentido.

Publicado em Jornal de Cascais, nº 262, 13-04-2011, p. 6.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Exercer cidadania

Cansamo-nos, por vezes. Focamos um assunto, ninguém liga ou, se ligam, não reagem. Tanto o Povo como os governantes, entendendo por estes todos aqueles que, aos mais diversos níveis, detêm poderes de decisão. Não, não me refiro aos governantes que integram o chamado «Governo» duma Nação, porque esses, como um escritor sublimemente pôs na boca de uma criança, «Mãe, os que estão demasiado alto não ouvem a voz da Razão».
É verdade.
Refiro-me aos que estão mais chegados a nós. Àqueles que até gostam de ver o seu nome em letra de forma, não precisa de ser em tom de louvor, basta em jeito de notícia – para que fique para a posteridade, com nomes e tudo.
Tem a quase totalidade dos concelhos portugueses jornais locais, rádios locais, por onde são veiculadas as notícias que interessam directamente aos habitantes e que não têm ‘estatuto’ para interessar um canal de televisão, a não ser que haja sangue, cena de pancadaria…
Há, nesse jornalismo de proximidade, a necrologia, uma das secções mais lidas, porque se trata de uma das que mais consolida a comunidade, saber dos nossos que partiram…
E há as colunas de opinião, onde se procura exercer cidadania, por exemplo no que ao património diz respeito, nos termos da legislação em vigor. Na verdade, não é necessário que o cidadão pertença a uma associação cívica ou cultural para fazer ouvir a sua voz e para que – como a dos membros de uma associação legalmente constituída – ela seja devidamente tida em consideração pelas entidades competentes.
Aliás, em relação concretamente a esses temas do património, a Lei nº 107/2001, de 8 de Setembro – Lei de Bases da Política e do Regime de Protecção e Manutenção do Património Cultural, é bem clara no seu artigo 10.º, porque começa por se referir aos «contributos individuais» no que concerne à participação dos cidadãos interessados «na gestão efectiva do património cultural». E, nos diversos pontos do artº 11º («Dever de preservação, defesa e valorização do património cultural») claramente salienta que tal dever a todos incumbe, individual ou colectivamente.
Gostaria que nos concelhos do País tal efectivamente acontecesse e assim fosse entendido.

Publicado no Jornal de Cascais, nº 251, 26-01-2011, p. 6.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Informar pela positiva

Recebo diariamente as primeiras páginas dos jornais.
Num deles, a primeira página traria, a 27 de Outubro, os seguintes títulos:

– Morre a caminho de assinar divórcio
– Felgueiras: Jogo fatal para jovem
– Gaia: Colhido à porta da escola
– Lisnave: Homem electrocutado

E no mesmo jornal, no dia seguinte:
– Covilhã: Furtava em residências
– Faro: Queda mortal de idoso
– Porto: Fogo em casa intoxica
– Lever: Acidente fere quatro
– Ermesinde: Agredido em assalto

E pensei de mim para comigo: que país este, onde, em primeira página, só desgraças acontecem? Daí a deduzir que, primeiro, eram as desgraças que chamavam os leitores (adoramos sentir as dores alheias!...) e, segundo, que poderia haver, por detrás de toda essa chamada de atenção, uma maquinação diabólica lançada no sentido de cada vez mais nos menosprezarmos como país, como comunidade vivendo – como dantes se dizia – num jardim à beira-mar plantado...
Acho que há maquinação. Acho que devemos lutar contra ela. E aplaudo, por isso, os programas televisivos que estão a ser passados ultimamente, em que se fala do regresso ao campo, em que se mostram exemplos de optimismo e de mui válidas iniciativas.
E certamente também não foi indiferente a essa onda de pessimismo desenfreado (telecomandado, não tenhamos dúvidas!...) que recebi uma outra mensagem, intitulada «Eu conheço um país», veiculando (anotava-se) um texto de Nicolau Santos, director-adjunto do Expresso, em que se mostrava muito do que Portugal tem de bom. Dou apenas quatro exemplos:

«Eu conheço um país que tem uma das mais baixas taxas de mortalidade mundial de recém-nascidos, melhor que a média da UE.
Eu conheço um país onde tem sede uma empresa que é líder mundial de tecnologia de transformadores.
Eu conheço um país que é líder mundial na produção de feltros para chapéus.
Eu conheço um país que tem uma empresa que inventa jogos para telemóveis e os vende no exterior para dezenas de mercados.»

Somos nós, os Portugueses!

Publicado no Jornal de Cascais, nº 242, 9-11-2010, p. 6.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Rimas pensadas no longo caminho…


Contando mais de oito dezenas de primaveras – não, não podemos dizer que noutra estação da vida se encontre… – João Baptista Coelho perfaz apenas as bodas de prata da sua actividade literária como poeta, pois que por essas veredas lhe apeteceu singrar em 1984, quando se aposentou de secos números e mui fastidiosas contas.
E fala-se de bodas porque de feliz casamento se trata: paixão, enlevo, êxtase, namoro prolongado com a serena Beleza das letras, dos ritmos, do embalar remansoso das rimas pensadas…
Presença obrigatória em tudo quanto é jogo floral, de norte a sul do País, numa investigação aturada que lhe doira os versos e lhes confere o adequado sentido, João Baptista Coelho constitui, pelas centenas de prémios já conquistados, um dos casos sérios do panorama poético português. Não paira, todavia, no mundo dos que, de nome feito, aparecem nos jornais e nas canções televisivas – que nesse mundo, aliás, muita feira de deslumbrantes vaidades também se descobre… Mais recatado, outros horizontes o rodeiam, próximos das gentes, das vidas, da… Vida!
«Havia na terra de Hus um homem chamado Job, íntegro e recto, que temia a Deus e fugia do mal» (Job, 1, 1). Incitado por Satanás, Deus não hesitou em o pôr à prova: dum pedestal de riqueza, criadagem muita, prestígio social relevante, fê-lo descer ao charco enlameado da ignomínia, do pão que se tem de esmolar, da lepra maligna até: «E Job raspava o pus com um caco de telha e assentava-se sobre a cinza» (Job, 2, 8). Exemplar foi num estádio e noutro, provações muitas, palavras insidiosas de amigos e de familiares chegados – e Deus o premiou:
«Depois disto, Job viveu ainda cento e quarenta anos e viu os seus filhos e os filhos dos seus filhos até à quarta geração. Depois morreu velho e cheio de dias» (Job, 42, 16-17).
Muitos jobs se cruzam hoje no nosso caminho, nem sempre, porém, com esse brado de gratidão: «Sei que podes tudo e nada Te é impossível» (Job, 42, 2). Amiúde nós próprios jobs nos sentimos – e difícil nos é imitá-lo.
Job se sentiu João Baptista Coelho e, por isso, em 30+1 sonetos (uma das formas poéticas que mais aprecia e que bem sabe burilar), contou-nos de si, dos seus vagueares, altos e baixos, sonhos, quimeras, oiros, cálices de inebriante medronho, tragos de fel bem amargo… «Uma história igual à de mil outros cidadãos», «de grandes, de pequenos, de meãos». Grão que se torna gente; que teve hora de brincar; que plantou «a velha árvore do pecado»; vagabundo; a dureza do pão-trabalho e a incandescência do pão-amor; a Poesia, «bálsamo na vida tão cinzenta», «oração que me atavia»…
E, decididamente, João Baptista Coelho, viagem feita, jaz escravo ganhador:

… neste cais da fantasia,
atado, mãos e pés, à Poesia,
tão pobre, mas tão rico, como Job.


Nisto se distinguem os Poetas: no olhar perspicaz para a realidade envolvente. Em décimas se passeiam os (ditos) poetas populares (alentejanos e algarvios, sobretudo) pelas terras do nosso País, pela história de reis e de rainhas que aprenderam de cor nos bancos da Instrução Primária – e é um encanto segui-los. João Baptista Coelho optou, aqui, por uma outra viagem, a do seu tempo de Homem, a do nosso tempo de Homens. E, como ele, afinal, todos bem nos sentimos na nossa pele de jobs. Milénios decorridos, o Homem permaneceu igual a si mesmo, em hino magnífico ao privilégio de… estar vivo!
«Depois disto, Job viveu ainda cento e quarenta anos…».

Cascais, 13 de Março de 2010

Prefácio do livro Um Outro Livro de Job (30 Retratos de uma Peregrinação), de João Baptista Coelho, Câmara Municipal de Cascais, 2010, p. 3-5. [ISBN: 978-972-637-236-3].

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Dois vultos, duas memórias

Na assembleia geral da Misericórdia de Cascais, foi votado, no dia 27 de Maio, um voto de pesar pelo falecimento de Inácia França Félix, irmã da Santa Casa. Foi só aí que soube do infausto desaparecimento e elevei uma prece pelo seu eterno descanso. Soube depois que o Senhor Presidente da Câmara mandara distribuir pela Comunicação Social, a 30 de Abril, data do funeral da munícipe, uma mensagem – que, ao que parece, não terá sido publicada – onde, nomeadamente, referiu que Inácia França Félix «deixa na Vila de Cascais uma imensa saudade, sobretudo pela sua presença afável e simpatia irradiante», acrescentando:
«Há muito que nos havíamos habituado às suas oportunas intervenções em praticamente todas as reuniões públicas da Câmara Municipal, pugnando invariavelmente pela melhoria das condições de vida dos munícipes e da qualidade do espaço público. Foi uma verdadeira porta-voz do Povo da Vila de Cascais. A sua acção foi, aliás, reconhecida em 1997 pela Câmara Municipal de Cascais com a atribuição da Medalha Municipal de Mérito e Dedicação. A sua memória será também recordada no futuro com a atribuição do seu nome a uma rua da Vila.»
Aliás, idêntica atitude teve na sessão camarária de 3 de Maio, em que foi por unanimidade formulado um voto de pesar, com intervenções concordes de seis vereadores.
No dia 7, após a sessão de entrega de medalhas de mérito, perguntei a Toni Muchaxo pelo comum Amigo João Soares, do Hotel Baía (nestas ocasiões, sentimo-nos ‘mais Cascais’ e damos mais pela falta deste ou daquele, membros activos da nossa comunidade…). «Já partiu!», respondeu-me. Também de nada soubera. Vi agora na Internet a comunicação da ADHP – Associação dos Directores de Hotéis de Portugal, datada de 10 de Fevereiro, dia do seu passamento.
Nada vi escrito nos jornais locais (aqueles a que vou tendo acesso, mormente quando me desloco a sítios públicos da vila…). Certamente o funeral foi sentida manifestação da tristeza que todos sentimos pela perda de mais um homem bom da vila. Que também ele descanse em paz!
Mas estes dois casos fazem-me perguntar: será que as entidades que nos regem ainda não repararam no vazio que se está a criar com a falta de informação que rapidamente circule e ajude a cimentar a indispensável comunidade?

Post-scriptum: Já foi substituída a placa informativa do Parque Natural Sintra-Cascais, que se encontrava partida junto à Boca do Inferno e a que nos referimos a 23 de Março e 25 de Maio.

Publicado no "Jornal de Cascais" nº 224, 15-06-2010, p. 6.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Os meios de comunicação locais

No dia de Carnaval, durante perto de uma hora, ao final da manhã, Cascais esteve sem energia eléctrica.
Hoje, boa parte dos aglomerados familiares têm o seu telefone fixo ligado a um dispositivo eléctrico (moden) que activa a televisão, o telefone e o acesso à Internet. Isso significa que, se não houver telemóvel, se fica sem possibilidade de contacto. Aliás, a falha de energia eléctrica também pode afectar os postos retransmissores de telecomunicações.
Foi uma simples falta de energia em dia, embora frio e chuvoso, mas sem prenúncio de tempestade ou de catástrofe. Mas… se catástrofe houvera? Se inundações acontecessem?... Numa circunstância dessas, agarrava-se, naturalmente, no velhinho rádio transístor, a pilhas, que porventura ainda houvesse em casa, a fim de saber o que se passava, como agir… Esquecemos rapidamente a grande revolução que foi a invenção do transístor, que permite ao pastor perdido pelas encostas saber das notícias do mundo ou ao velhinho do lar acompanhar, ao ouvido, o relato de futebol da sua equipa favorita.
E é nessas circunstâncias que volto a recordar-me daquela cena em que o director de uma rádio local, em reunião para formação de uma espécie de «comissão de catástrofe», sugeriu que a rádio deveria ter um gerador próprio e o solicitou, por isso, à Protecção Civil. A resposta? Claríssima: «Quer um gerador? Compre-o!». Coitado do interlocutor, que de protecção civil pouco devia perceber e, se calhar, estava ali porque o partido lhe fizera o jeitinho…
Não há rádio de proximidade no concelho de Cascais, também porque nem os que ‘dão cartas’ nos órgãos autárquicos nem os agentes económicos alguma vez se importaram com isso; nunca perceberam – ou parecem não ter percebido… – a importância de uma rádio de proximidade. Nem rádio nem jornais.
E é pena! Se calhar, é o único concelho do País que não se interessa com isso. Está próximo de Lisboa, julga que vive à sombra da capital. Quanto se engana!

Publicado no Jornal de Cascais, nº 208, 23-02-2010, p. 4.

Post-scriptum: Esta crónica foi preparada muito antes da tragédia que se abateu sobre a Madeira. Infelizmente, a tragédia veio confirmar a nossa razão; e também se mostrou que não foi maior, por aí existirem ainda muito vivas as relações de vizinhança.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Perspectivas...

Neste dealbar de 2010, na medida em que - ao longo destes anos - tenho deixado dispersas por jornais e outras publicações notas e comentários ao que, no dia-a-dia, nos vai acontecendo, afigurou-se-me que poderia vir a ser-me útil ir guardando aqui esses escritos (e, porventura, outros) que correm o risco de ficar... dispersos!
Tentarei, pois, ir actualizando este espaço etéreo, com utilidade para mim e, se calhar, também para outros.

Cascais, aos onze dias de Janeiro do ano da graça de 2010.