quarta-feira, 19 de maio de 2010

Capitão de Abril são-brasense em entrevista

O Almirante Martins Guerreiro, um dos «capitães de Abril», são-brasense ilustre que a autarquia homenageou o ano passado dando o seu nome a uma das artérias da vila, reside em Algés (concelho de Oeiras) desde os anos 70. Mais um aniversário do 25 de Abril foi motivo para que um jornal local, O Correio da Linha, lhe dedicasse integralmente, em extensa entrevista, as páginas centrais (p. 11-13) do seu número de Abril deste ano, profusamente ilustrada com fotos do seu álbum de família, a documentarem aspectos mais salientes da actividade deste nosso patrício.
Depois de historiar o que foi a sua carreira como militar antes do 25 de Abril, Martins Guerreiro deu particular ênfase à sua actuação no quadro das operações da Revolução dos Cravos e nas funções que depois veio a desempenhar antes da passagem à reserva.
Interrogado sobre se estava «desiludido com a actual democracia portuguesa», declarou que desiludido não estava, mas sim insatisfeito, acrescentando:
«Enquanto os candidatos forem nomeados pelas direcções dos partidos teremos sempre uma democracia muito limitada. Quem escolhe os deputados não é o povo português, este apenas confirma alguns mas quem os escolhe são as direcções dos partidos. Esta é uma limitação grave».
Agraciado com a Medalha de Mérito Grau Ouro do Município de Oeiras, Martins Guerreiro referiu-se desta forma à homenagem que a autarquia de S. Brás lhe prestou:
«Foi uma situação curiosa mas embaraçosa ao mesmo tempo», porque «na altura da cerimónia eu era a única pessoa viva entre os vários homenageados. Encarei-a como uma homenagem aos militares de Abril e não tanto ao Martins Guerreiro».

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 162, 20-05-2010, p. 7.

domingo, 9 de maio de 2010

Na despedida do Círio


Rala vegetação salpica as encostas. Sente-se a aridez da terra, acarinhada pelo Sol deste Agosto de 71…
A caminhada é lenta, solene, na comunhão dos ritos, dos trajes ancestrais, dos pendões significativos, do Círio (ah! o Círio!...), na ligação – que se quer perene – entre o Divino e o Humano…
Há um silêncio de meditação, a recordar os dias de prece:
«Senhor Deus, olhaste por estas gentes, viste os nossos desconfortos. Palpámos contigo a efemeridade da vida e, agora, colorindo-nos de novo com as vestes simbólicas duma entrega, estamos a despedir-nos… Na certeza, porém, Senhor, de que vais continuar connosco!».

E, embevecido pela beleza singular do ritual, irmanado também ele na dimensão sagrada do momento, o Etnólogo… esteve lá!

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Publicado como legenda à foto em anexo, na pág. 108 do catálogo da exposição Giacometti – 80 anos, 80 imagens, patente no Museu da Música Portuguesa de 1-10-2009 a 17-04-2010. O catálogo teve a coordenação de António Carvalho, Carla Varela Fernandes e Maria da Assunção Júdice; edição da Câmara Municipal de Cascais, 2009; ISBN: 978-972-637-213-4.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A factura da electricidade

Na edição do passado dia 20 de Abril, Rui Rama da Silva manifestava a sua surpresa por ter recebido a factura da electricidade com um quantitativo invulgarmente alto. Claro que relacionou esse facto com os chorudos prémios atribuídos aos gestores da EDP – empresa pública – por terem ultrapassado os objectivos, ou seja, por haverem conseguido mais lucros que os esperados. Obviamente que o comentário do Povo não poderia ser outro: «Assim também nós, os comuns mortais, conseguíamos! Basta obter autorização para engordar a factura!...».
No meu caso, também fiquei, naturalmente, surpreendido e vieram-me à mente todos aqueles palavrões adequados à circunstância, mormente quando, em letras miudinhas, vi que se explicitava que os 119,99 euros da factura de Abril incluíam «os custos relativos ao uso das redes e os custos de interesse económico geral que decorrem de medidas de política energética, no valor de € 71,14 (Valor independente do comercializador de energia eléctrica)». Ou seja, ainda que eu não perceba lá muito bem a frase: a EDP deixou de ter o monopólio do fornecimento de energia eléctrica e, por isso, independentemente de nós continuarmos a ser seus clientes, temos de pagar a ligação à rede, qualquer que seja o comercializador. É assim?
E perguntei-me: «Que tenho eu a ver com isso?». Quem tem de pagar essa ligação – isto é, se bem compreendo, a possibilidade de um operador usar a rede já estendida pela EDP – é o consumidor? Não seria essa empresa? Não percebo.
O que percebo é que oficialmente se proclama que se não aumentam impostos. Nem é preciso! Basta ir à factura da electricidade, do telefone, da água – bens essenciais que o Estado tem obrigação de facultar a preço justo aos seus contribuintes (que para isso pagamos impostos) – e acrescentar-lhe lá umas quantas alcavalas. Assim, como quem não quer a coisa e o Zé Povinho que se dane.
Dizia, com a graça que o caracteriza, Jô Soares: «Olá, estão mexendo no meu bolso!».
Oh se estão, Jô! E muito! O que eles não percebem, coitados, é que esses bolsos estão já bem delidos e não têm nada dentro! E quando apenas os bolsos dos senhores gestores tiverem recheio, haverá multidão de bolsos vazios ou… nem bolsos haverá! E quem estudou História sabe o que isso significa.

Publicado no Jornal de Cascais, nº 218, 04-05-2010, p. 4.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

«Damnatio memoriae»



No tempo dos imperadores romanos, quando um deles, após a morte, era amaldiçoado devido aos maus serviços que prestara à «república», havia ordem para que o seu nome fosse picado em tudo quanto era monumento. O mesmo acontecia a personagens célebres sobre quem, por pertencerem a uma facção vencida, recaía idêntica maldição, e a sua memória, gravada sobre o mármore, era destruída, para que deles nada restasse: «damnatio memoriae»…
O estratagema passou a ser, de resto, habitual em todas as épocas e, agora que se comemoram os cem anos da implantação da República, chama-se a atenção para o facto de, por exemplo, uma Praça do Comércio ter passado a designar-se Praça 5 de Outubro; como, após a Revolução de Abril, a Ponte Salazar deu lugar à Ponte 25 de Abril.
É, de resto, esse um tópico de pesquisa assaz curioso e, no que se refere à Antiguidade Clássica, o desafio é tentar descobrir, nos raros vestígios que restam das letras primitivas, que nome fora ali escrito originalmente.
Surgiu-me este conceito, retirado da minha veia de epigrafista, ao ler a nota incluída na agenda cultural da Câmara Municipal de Cascais nº 43 acerca da Casa das Histórias Paula Rego, cuja exposição mereceu o Prémio da Melhor Exposição de Artes Plásticas 2009. É que já na cerimónia, transmitida em directo pela RTP, em que o prémio foi recebido, nada se disse sobre quem estivera por detrás dessa exposição e esperava eu que, pelo menos na Agenda Cultural, houvesse um, ainda que mínimo, eco dos muitos louvores que ouvi, antes e depois da inauguração da Casa, da boca do Senhor Presidente da Câmara e de responsáveis do Pelouro da Cultura, à Professora Doutora Dalila Rodrigues, que, na Agenda Cultural nº 40 assinara (p. 5-7) um texto com a programação prevista, na sua qualidade de «Directora da Casa das Histórias Paula Rego».
Dizem que, por vontade exclusiva da artista, Dalila Rodrigues foi simplesmente posta no olho da rua, de um momento para o outro e… a sua memória completamente irradiada de tudo quanto era escrito sobre a Casa que com tanto esforço, saber e desmesurada dedicação (não sou eu que o digo, mas os responsáveis camarários) conseguiu erguer em tempo recorde.
Dalila Rodrigues «morreu». Haviam-na elevado aos píncaros; caiu às profundezas dos abismos. Demorou a ser substituída. Vamos lá ver por quanto tempo a nova responsável estará nas graças da pintora.


Publicado no Jornal de Cascais, nº 217, 27-04-2010, p. 10.

domingo, 25 de abril de 2010

Epigrafia no feminino na Lusitânia romana

RESUMO
Remeto para a bibliografia referências que poderão ser ponto de partida para quem deseje aprofundar o tema. E, portanto, das muitas inscrições passíveis de exemplificar a «epigrafia no feminino» na Lusitânia romana, escolho, quase ao acaso, uma que considero deveras elucidativa.



Reza assim este epitáfio da civitas Igaeditanorum:

AVNIAE ARANTONI(i) / CELTIATICI F(iliae) LANC(iensi) OPPIDANAE / COCCEIA SILONIS F(ilia) AVITA / NAEVIA SILONIS F(ilia) CLARA MATRI / F(aciendum) C(uraverunt)

A Áunia, filha de Arantónio Celtiático, lanciense opidana – Coceia Avita, filha de Silão, Névia Clara, filha de Silão, mandaram fazer à mãe.

Como se sabe, a mulher era, no Império Romano, identificada com dois nomes: o gentilício (nomen), que herdava do pai, e o cognome (cognomen), escolhido habitualmente de acordo com uma circunstância concreta ligada à família, elemento, portanto, identificativo da pessoa no seio familiar e social.
E o que vemos aqui?
A homenagem a uma mulher, destinada a ser colocada sobre a sua sepultura, ainda que, aparentemente, nada deixe transparecer um carácter funerário. E essa é a primeira reflexão a fazer. Trata-se de uma ambiguidade que interessa: Áunia, afinal, com o seu nome assim bem patente em lugar público, permanece no mundo dos vivos!
E não terá sido, na verdade, uma dama qualquer, pois há dois aspectos excepcionais: o pai vem identificado por dois nomes, quando o habitual é referi-lo apenas com um, o praenomen (assaz vulgar, como é o caso dos nossos primeiros nomes), e em sigla, quando a aculturação se encontra em estado avançado; ou com o nome indígena, nos primórdios dessa aculturação. No caso vertente, as filhas seguem esse esquema identificativo indígena: «de Silão»; mas do pai se aponta o nome de família – Arantonius – e o cognomen, Celtiaticus. No entanto, para além disso, está expressa a sua naturalidade, como que para dizer «Áunia não nasceu aqui, aqui se radicou e notabilizou!». As gentes de Lancia Oppidana, sua terra natal, mantiveram, de facto, relações privilegiadas com a população da civitas Igaeditanorum, a darmos crédito à circunstância de outras personagens terem querido deixar exarada essa sua naturalidade em epígrafes. Em suma, logo a forma como vem identificada se revela do maior interesse.
Atente-se, por outro lado, que o monumento é mandado erigir pelas duas filhas. Áunia, pertencente a uma família importante de Lancia Oppidana, a referida gens Arantonia, casou, pois, com um membro da elite local, decerto protegido («cliente», diríamos, para usarmos uma linguagem mais ‘técnica’) de duas famílias notáveis, que tinham, mui provavelmente, participado na ‘criação’ da civitas: a Cocceia e a Naevia. Estes dois gentilícios identificam, na verdade, famílias de renome na Lusitânia; e o que é, neste caso, assaz estranho à primeira vista, é que, filhas do mesmo pai, Avita e Clara hajam recebido gentilícios diversos – como que a mostrar o estrito relacionamento do pai com essas duas famílias influentes.
Por consequência, singelas quatro linhas detêm um significado invulgar. Para os historiadores que os analisam, mas também – e principalmente – para a população de então, porque pais e filhos, mães e filhas, se passeariam por entre epígrafes e curiosidade não lhes faltaria: «Mãe, pai, que diz aqui? Quem foram estas pessoas? E porque lhes escreveram aqui os seus nomes?»... Uma lição de vida, instantâneos de um quotidiano, em que o feminino, não podendo oficialmente ‘falar’ na respublica, sabia muito bem ‘falar’... em público, através de uma mensagem duradoura. Mais duradouras, aliás, que os discursos dos políticos!...


Anexo bibliográfico
Apenas duas ou três menções, susceptíveis de deixar perceber quanto o tema vem despertando, nas últimas quatro décadas, a atenção dos investigadores:

– ALBERTOS (M. de Lourdes), «La mujer hispanorromana atraves de la epigrafia», Revista de la Universidad Complutense, vol. XXVI, nº 109, 1977, 179-198.
– DEL HOYO (Javier), «El sacerdocio femenino, medio de integración de la mujer en las estructuras municipales de gobierno», Epigrafía y Sociedad en Hispania durante el Alto Imperio: Estructuras y Relaciones Sociales (ed. de S. ARMANI, B. HURLET-MARTINEAU e A. U. STYLOW), Alcalá, 2003,
– ENCARNAÇÃO (José d’), «Mães e filhos passeando por entre epígrafes», in Mª Carmen SEVILLANO SAN JOSÉ et alii (edits.), El Conocimiento del Pasado. Una Hierramienta para la Igualdad, Salamanca, 2005, 101-113.
– FERNANDES (Luís), «A presença da mulher na epigrafia do conventus Scallabitanus», Portugalia 19-20 1998-1999 129-228.
– MELCHOR GIL (Enrique), «Mujer y honores pÚblicos en las ciudades de la Bética», in BERRENDONER (Clara), CÉBEILLAC-GERVASONI (Mireille) et LAMOINE (Laurent) [dir.], Le Quotidien Municipal dans l’Occident Romain, Presses Universitaires Blaise-Pascal, Clermont-Ferrand, 2008, 443-457.
– NAVARRO CABALLERO (Milagros), «Mujer de notable: representación y poder en las ciudades de la Hispania imperial», Epigrafía y Sociedad en Hispania durante el Alto Imperio: Estructuras y Relaciones Sociales (ed. de S. ARMANI, B. HURLET-MARTINEAU e A. U. STYLOW), Alcalá, 2003, 119-127.
– SÁ (Ana Marques de), «Mulheres da civitas Igaeditanorum», Lusitanos e Romanos no Nordeste da Lusitânia (Actas das 2as Jornadas de Património da Beira Interior), Guarda, 2005, 207-213.

Publicado em Philía (Jornal Informativo de História Antiga, Núcleo de Estudos de História Antiga da UERJ, Rio de Janeiro), ano XII, nº 34, Abril/Maio/Junho 2010, p.6.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Postais antigos


Está patente até 30 de Junho, no Espaço Memória dos Exílios, no Estoril, a exposição «O passado nunca passa», postais ilustrados da colecção de José Santos Fernandes, que a legou ao Município de Cascais.
Devidamente tratada e inventariada no Arquivo Municipal, a colecção – de que ora se apresenta uma selecção – proporciona eloquente viagem pelo que tem sido o concelho desde os finais do século XIX até à actualidade, mostrando os aspectos mais significativos, a nível de imóveis, paisagens e costumes…
Têm os municípios dedicado cada vez mais atenção a este tipo de espólio cultural assim como às fotografias antigas, pelo que isso representa como património aos mais diversos níveis: arquitectónico, paisagístico e, até, imaterial. E se os dois primeiros aspectos são facilmente compreensíveis – fotografava-se o que era bonito, original… – ao último nem sempre se dá, à primeira vista, a relevância que ele, na verdade, detém. É que, por detrás de um postal, está uma ideia, uma mentalidade e, inclusive, uma ideologia: divulga-se o que interessa, naquele momento, divulgar. E é bem sabido que, hoje, damos atenção a aspectos da paisagem e das modas a que, noutras eras, se não ligava a menor importância.
Por outro lado, revela-se imprescindível o estudo destas colecções por parte dos técnicos camarários, nomeadamente os responsáveis pelos pareceres em termos de urbanismo e licenciamento de obras de restauro ou requalificação de espaços, pois há memórias a preservar. E mal andará um Município quando os seus responsáveis disso não estiverem conscientes.
Louve-se, por conseguinte: 1º) o exemplo dado por José Fernandes, ao ceder ao Município a colecção; 2º) o excelente trabalho de gabinete levado a efeito pelos técnicos Helena Xavier e João Miguel Henriques, sob orientação de António Carvalho; 3º) a iniciativa da exposição; 4º) o magnífico catálogo (430 páginas!...), que, além de, em miniaturas, reproduzir todos os postais expostos, agrupa geograficamente os mais eloquentes, apresenta significativo prefácio do Professor João Medina e sugestiva autobiografia do doador (nascido em 1952), a recordar os Estoris do seu passado.

Publicado no Jornal de Cascais, nº 216, 20-04-2010, p. 6.

De novo, a casa comum


Já houve ocasião de, na edição de Novembro passado, se chamar a atenção para a importância da casa comum, pelo que ela significa de boa adaptação ao meio e de reflexo de identidade local.
Permita-se-me que volte ao assunto, para assinalar dois aspectos que, se não constituem tipicidades de S. Brás, em S. Brás existem e há que valorizá-los.
Refiro-me, em primeiro lugar, ao telhado de canas. Achei, por exemplo, que teria sido interessante no Centro Museológico do Alportel, que visa reconstituir uma casa das nossas, ter-se feito, num dos ângulos, esse tipo de telhado. Ainda se vai a tempo, aliás, quando forem necessárias obras de conservação.
Mas, para além das cantarias que ornam portas e janelas um pouco por toda a parte, a mostrar a paciência e o saber dos nossos canteiros, chamaria a atenção, como historiador, para as datas gravadas nos lintéis dessas portas e em cartelas nas chaminés. No Corotelo, a casa da Maria Catarina tem, na chaminé, a data de 1895, que assinala a data da primeira construção do casal; todavia, no lintel da porta do acrescento, está 1904! E no portão do que me dizem ter sido o espaço da antiga escola do sítio, a cartela ostenta, a meio do arco:
27
1885
10
para significar 27 de Outubro de 1885.
Dados que não se podem perder e que o Departamento de Cultura camarário necessita de continuar a inventariar, de modo a cotejarem-se depois com as informações do Arquivo Histórico, quando se quiser fazer a história da evolução urbanística dos lugares.

Publicado em «VilAdentro», de S. Brás de Alportel, nº 135 (Abril 2010) p. 10.