sábado, 11 de dezembro de 2010

Não ao fim-de-semana, sim à semana de trabalho!

A necessidade aguça o engenho – reza o adágio popular, consubstanciando uma filosofia ancestral. Provam-no, hoje, as inúmeras iniciativas impensáveis há uma década atrás: o regresso ao campo, o estreitamento das relações de vizinhança, as hortas urbanas, a luta contra o desperdício alimentar…
E, concomitantemente, a mentalidade vai mudando.
Assim, não era raro desejarem-me «bom fim-de-semana!» à quinta-feira. Tenho no computador dois desenhos animados. Num, um ratinho levanta-se, boceja, espreguiça-se e, de repente, grita «What? It’s not friday yet?» (“O quê? Ainda não é sexta-feira?» e… deita-se de novo. No outro, é um caracol que caminha, arrasta-se, arrasta-se, sempre no mesmo sítio… e a legenda diz «Continua! É quase fim-de-semana!».
Nas mensagens de telemóvel ou mesmo de correio electrónico, a palavra fim-de-semana já não se escreve por extenso, mas em siglas, e eu próprio já inseri fds nas opções de correcção automática do computador, tão banal é o seu uso diário. «Diário», escrevi bem – porque se vive para o fim-de-semana!
Também esta mentalidade, portanto, vai mudar. E, confesso, já hesito em desejar bom fim-de-semana sem acrescentar algo como «boa semana de trabalho!», pois, na verdade, o fim-de-semana não pode ser um fim, mas um meio para recuperar energias a despender com eficácia durante a semana!
Lê-se no Génesis (2.2): «Deus descansou, no sétimo dia, do trabalho por Ele realizado». Essa, a mensagem que ora ganha novo sentido e que poderá vir a reflectir-se, doravante, no teor do que escrevemos: desejo-lhe a si, prezado leitor, uma boa semana de trabalho!

J. d’E.

Publicado no Jornal de Cascais, nº 246, 8-12-2010, p. 6.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Todos a vêem e… ninguém a lê!

Estuda a ciência epigráfica as inscrições que, ao longo dos tempos, os homens foram deixando sobre materiais duradouros. Mensagem sucinta, pensada, destinada ao futuro, tem, para além do que vem nela explícito, uma mensagem implícita, que se prende com as razões que a determinaram.
Homenageou a Junta de Freguesia de Cascais, no passado dia 5, três pessoas, atribuindo o seu nome a arruamentos. E houve cuidado de se dar conta, através da Comunicação Social, dos motivos que levaram o Executivo a fazer essa proposta, aceite pela Câmara. De César Guilherme Cardoso se escreveu: «Fotógrafo que, ao longo de cerca de 60 anos, registou parte muito relevante da história local em documentos hoje integrados no espólio do Arquivo Municipal de Cascais». Na placa toponímica apenas vem o nome e «(Fotógrafo 1922-2006)». Quem o não conheceu, se apenas se ativer ao que está gravado, fica muito aquém da realidade, como, em relação a outro nome de rua que lhe fica perto, perguntará porque é que um «retratista», António da Silva de seu nome, foi merecedor de perpetuação, pois nada o fará suspeitar das circunstâncias trágicas em que ocorreu a sua morte, no mar da Boca do Inferno quando tentava salvar turista arrebatada por onda traiçoeira.
Urge, pois interrogarmo-nos. E isso não fazem, por exemplo, os autarcas e os munícipes que diariamente transpõem a porta dos Paços do Concelho de Cascais, em relação à placa azulejada ali bem visível. Se nela houvessem reparado…

Não, a ordem das línguas está correcta: corresponde a um período em que essa era a ordem de importância (numérica) dos turistas visitantes: depois do português, o espanhol, o francês, o inglês e o alemão.
Mas…
… que está escrito na placa? Que significa mairie? E town hall? E… “Município de Cascais”? Para já: «de Cascais»? Pois donde houvera de ser, de Sintra?!... E… «município»? Que é que significa «município»? Não é um território e as suas gentes? Não são «município de Cascais» Malveira da Serra, S. Domingos de Rana, Carcavelos?... Pois. O que se deveria ter escrito era… PAÇOS DO CONCELHO!
Está mal.
Há que corrigir!

Publicado no Jornal de Cascais, nº 245, 30-11-2010, p. 6.

sábado, 27 de novembro de 2010

Todos vêem e… ninguém vê!

A educação para a atenção, para a curiosidade é, sem dúvida, de uma relevância que não sofre contestação. Amiúde, nos confrontamos com a frase «Tem graça, nunca tinha pensado nisso!», dita por nós e pelos nossos interlocutores. Ou seja: nunca nos tínhamos posto a questão e, afinal, com muita frequência, o mais importante não é resolver os problemas, é tomar consciência deles, equacioná-los correctamente; assim, a solução virá com mais facilidade.
Chamei a atenção da Câmara de Cascais para a placa identificativa de direcções, plantada numa das rotundas da Av. A. Amaro da Costa, que o vento vira com a maior das facilidades. Os técnicos foram lá e puseram-na direita; assim se manteve até à primeira rabanada. Isto é, não se puseram a questão: «Porque é que a placa vira?». Porque, se a tivessem posto, verificariam, com a maior das naturalidades, que uma haste vertical com quatro pesadas sinalizações de direcção de um só lado e sem frestas tem, forçosamente, de funcionar como… cata-vento! E, por isso, há que pôr duas hastes em vez de uma só. Nada mais simples!
Brinco, de vez em quando, em tertúlias, sobre o significado do e que aparece nas embalagens de líquidos e outras – veja-se a imagem. Pois ninguém, até esse momento, tinha reparado nele! E eu pergunto: «E que significa?». Claro que me dizem de imediato «Europa». E eu: «Quer dizer que são 33 cl… na Europa?». Cá está: toda a gente, algum dia, viu esse estranho e e nunca se pôs a questão «Que é que isto quer dizer?».
Significa «estimado», uma noção equivalente ao antigo ‘peso líquido’; isto é, dá uma indicação do volume ou do peso aproximado do que essa embalagem contém. Tal informação resulta da directiva comunitária – “Council Directive of 20 January 1976 on the approximation of the laws of the Member States relating to the making-up by weight or by volume of certain prepackaged products (76/211/EEC)” – onde se prescreve a colocação da letra e nas embalagens para indicar o estimated value do conteúdo: «A small "e", at least 3 mm high, placed in the same field of vision as the indication of the nominal weight or nominal volume, constituting a guarantee by the packer or the importer that the prepackage meets the requirements of this Directive» (ponto 3.3 do anexo I).

Publicado no Jornal de Cascais, nº 244, 23-11-2010, p. 6.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Carta aberta ao Sr. Presidente da Freguesia de Cascais

Perdoar-me-á, meu caro Amigo, se uso deste processo par fazer ouvir a minha voz, já que tantas outras vezes o tentei, debalde, junto dos serviços camarários. Mas, ao ler o anúncio do simulacro de incêndio «no posto da Galp | Cobre», para hoje, dia 16, achei que deveria voltar à carga sobre a necessidade de identificação do Bairro da Pampilheira, através da correcta colocação de placas na Avenida Adelino Amaro da Costa, tanto do lado norte como sul.
Ora vejamos a informação divulgada pelo Gabinete de Comunicação e Relações Públicas da Câmara no dia 8. O título era o que indiquei; depois, escreveu-se que era no “desvio para o Cobre”, acrescentando-se que «o exercício implica o corte da circulação rodoviária na Av. Adelino Amaro da Costa entre as 11h30 e as 12h30, entre a rotunda junto ao Externato Europa e o triângulo de desvio para a Pampilheira».
Senhor Presidente: verificará que o Centro de Distribuição Postal, que está no coração da Pampilheira, tem oficialmente a indicação de que é no Cobre; verificará que a Clínica CUF, sita ao lado, também oficialmente está no Cobre (aliás, no talão do Multibanco, até vem que está em… Carnaxide!...). Nada tenho contra o Cobre, um lugar cuja população muito estimo e que já vem nos livros antigos, enquanto que Pampilheira é topónimo recente, depois do mais vulgar «Barraca de Pau» dos anos 40 e 50. Mas, Amigo, o posto da Galp está… na Pampilheira!
Dificilmente haverá na sua freguesia um bairro que esteja tão bem delimitado (apesar de a incompetência dos técnicos camarários e a impotência dos serviços manterem o impedimento de passar directamente do lado oriental para o lado ocidental em viatura). A poente, é a Rua Joaquim Ereira; a sul, a Av. Raul Solnado; a norte, a Rua do Cobre; a noroeste, a R. Dr. Manuel Costa Matos (com as pedreiras adjacentes que ainda lhe pertencem); a nascente, a Ribeira do Cobre, afluente da Ribeira das Vinhas, e a sua margem esquerda em declive.
Amigo Presidente: vá lá, que lhe puseram na Pampilheira a nova creche e infantário, que eu até estava com medo de malandragem também aí!... E, agora, é de usar a sua influência para repor o que está mal ou, parafraseando Pedro Abrunhosa, «vamos fazer o que ainda não foi feito!».

Publicado no Jornal de Cascais, nº 243, 16-11-2010, p. 6.

sábado, 13 de novembro de 2010

Sentar-se diante da Beleza…


Acto prosaico, dir-se-ia. Sentar-se!... Numa época em que se luta pela máxima rapidez, convidar alguém a sentar-se soará a escandalosa ignomínia, a passividade anacrónica, quando, à nossa volta, tudo gira em turbilhão…
Acontece, porém, que sentar-se, por exemplo, à beira-mar, ouvindo o incessante marulhar das ondas, mirando o suave deslizar das gaivotas e aquele barco, na linha do horizonte, a demandar outras paragens… constitui, no meio do quotidiano frenesim, pausa reconfortante e salutífera. E a admiração das flores no jardim?!...
Luta-se por ter um curso, a aprender e a apurar as técnicas; luta-se, depois, não menos intensamente, para as ensinar aos estudantes, para lhes mostrar como se reproduz Beleza, se misturam cores, se anotam subtis pormenores pejados de simbolismo. Anos a fio!... Até que, um dia, terminada a canseira de reuniões e de currículos e de serões e de programas a cumprir, nos podemos, finalmente, sentar – a saborear, também nós, a Beleza que aos outros em borbotões dispensámos.
Assim Maria Adélia Coelho, professora, artista – em mais uma exposição da sua criatividade, simbiose plena das influências hauridas ao longo da vida.
Flores em botão, singulares, em dádiva: rosa fogo, rosa amarela, azul, flor-poder!... O nu, desprendido, furtivamente captado, diário gesto banal mas elegante. Sofrido grito feminino – «Dor!» – a perguntar porquê, em eco pelas quebradas… que, mais além, a intimista pensadora há-de escutar e tornar consciente.
Seduz-me «O Sonho da Flor»:
gérmen, óvulo azul de seios úberes sob uma jóia de embelezar mulher que se esconde… No ventre, botões de rosa em jeito de mui apetecida oferenda. Extasio-me, comungo!...
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Admiro o pescador sentado na humidade da fraga, à espera que o peixe morda o isco. Admiro por igual os pintores: diante do cavalete, todo um percurso se convoca, em serena explosão de cor, de sentimentos, de ternura… Tudo convocam, tudo nos oferecem!
Assim Maria Adélia Coelho: professora, artista… Mulher! No convite a que nos sentemos diante da Beleza!

Cascais, 7 de Novembro de 2010

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Os ofícios, as pessoas!

Sob a eficiente coordenação da Dra. Marlene Guerreiro, iniciaram, aqui há tempos, os responsáveis pela agenda cultural do concelho – seguramente, uma das mais selectas e bem organizadas agendas culturais municipais que se publicam por esse Portugal – a rubrica a que deram o título de «À descoberta dos ofícios tradicionais». O último apontamento terá sido o de Dezembro de 2009, em que se falou de Tonico da Caldeira e os segredos da aguardente.
Durante muitos meses tivemos, pois, a oportunidade de ver enaltecidas pessoas e os seus saberes ancestrais, que, em boa hora também, o Centro de Artes e Ofícios acabaria por parcialmente consubstanciar na exposição ali patente até Fevereiro do ano corrente.
Temos ideia de que será, sem dúvida, intenção da Câmara, através do seu pelouro da Cultura, vir a reunir em livro essas bem elucidativas reportagens, independentemente de elas continuarem a estar disponíveis na página camarária da Internet. Um livro é sempre um livro, mais palpável, e, neste caso, será um livro «com pessoas dentro», pessoas nossas conhecidas, com quem nos cruzamos na rua e que guardavam segredos únicos que, desta forma, acabaram por amavelmente nos transmitir.
Um património imaterial assim mui sabiamente posto em relevo!


Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 142 (Nov. 2010) p. 10.

Informar pela positiva

Recebo diariamente as primeiras páginas dos jornais.
Num deles, a primeira página traria, a 27 de Outubro, os seguintes títulos:

– Morre a caminho de assinar divórcio
– Felgueiras: Jogo fatal para jovem
– Gaia: Colhido à porta da escola
– Lisnave: Homem electrocutado

E no mesmo jornal, no dia seguinte:
– Covilhã: Furtava em residências
– Faro: Queda mortal de idoso
– Porto: Fogo em casa intoxica
– Lever: Acidente fere quatro
– Ermesinde: Agredido em assalto

E pensei de mim para comigo: que país este, onde, em primeira página, só desgraças acontecem? Daí a deduzir que, primeiro, eram as desgraças que chamavam os leitores (adoramos sentir as dores alheias!...) e, segundo, que poderia haver, por detrás de toda essa chamada de atenção, uma maquinação diabólica lançada no sentido de cada vez mais nos menosprezarmos como país, como comunidade vivendo – como dantes se dizia – num jardim à beira-mar plantado...
Acho que há maquinação. Acho que devemos lutar contra ela. E aplaudo, por isso, os programas televisivos que estão a ser passados ultimamente, em que se fala do regresso ao campo, em que se mostram exemplos de optimismo e de mui válidas iniciativas.
E certamente também não foi indiferente a essa onda de pessimismo desenfreado (telecomandado, não tenhamos dúvidas!...) que recebi uma outra mensagem, intitulada «Eu conheço um país», veiculando (anotava-se) um texto de Nicolau Santos, director-adjunto do Expresso, em que se mostrava muito do que Portugal tem de bom. Dou apenas quatro exemplos:

«Eu conheço um país que tem uma das mais baixas taxas de mortalidade mundial de recém-nascidos, melhor que a média da UE.
Eu conheço um país onde tem sede uma empresa que é líder mundial de tecnologia de transformadores.
Eu conheço um país que é líder mundial na produção de feltros para chapéus.
Eu conheço um país que tem uma empresa que inventa jogos para telemóveis e os vende no exterior para dezenas de mercados.»

Somos nós, os Portugueses!

Publicado no Jornal de Cascais, nº 242, 9-11-2010, p. 6.