E essa fundura prefixada do furo era fruto da experiência. O cabouqueiro estudara o banco donde pretendia, agora, destacar uma porção; analisara bem a consistência, o conjunto e… tomara a decisão: 1 m, 80 cm, 70...
Chegados, pois, ao fundo, importava orientar o corte.
Entrava, pois, em acção, a arraiadeira, de ponta achatada e cortante, mais larga do que o furo, que, cirurgicamente (diríamos), ia fazer dois sulcos nas paredes do furo, um de cada lado, tornando-a, pois, mais fraca; era nessa direcção que se queria que a fractura se desse. Trabalho meticuloso, esse, em que importava o bater certeiro do maçacopas e a firmeza do trabalhador que segurava a arraiadeira; por isso, as duas mãos agarravam firmes uma pega de aço, com buraco a meio, bem ajustada, para que nem um milímetro se desviasse da prumada.
Não vem nos dicionários a palavra arraiadeira com este significado. Compreende-se, porém, a sua formação: servia para rasgar os raios ou estrias nesse furo cilíndrico; raiar quer dizer isso mesmo: «fazer estrias»; e o «a» inicial (‘protético’, como se denomina em gramática) faz parte da linguagem quotidiana: arraiar, arraiadeira...
De novo se procedia à limpeza do pó de pedra molhado que, entretanto, fora caindo no furo. Tinha de ficar tudo muito bem seco. Um trapo fixado em vareta de aço (dessas de que se faz o cimento armado) ia e vinha quantas vezes fossem necessárias.
A operação seguinte era ainda mais melindrosa e requeria um ‘saber de experiências feito’, como se verá.
[Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 145 (Fevereiro 2011) p. 10.]
sábado, 12 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Ser mobília!
Custa-me voltar a escrever sobre este assunto, por ele ser por de mais conhecido e haver – por parte do Povo – a consciência generalizada de que este movimento tem, inevitavelmente, a continuar assim, um fim bem complicado de gerir.
Fui aos «assuntos pendentes» a que me agarro de quando em vez, aquele rol de temas que nunca perdem actualidade, e deparei com uma nota de imprensa de 8 de Abril do ano passado que reza assim:
«O secretário de Estado do Orçamento, Emanuel dos Santos, admitiu ontem que a corrida às reformas na função pública está a criar problemas de falta de pessoal em alguns sectores do Estado, como é o caso da "classe dirigente". No ano passado, o Estado perdeu 310 dirigentes em relação ao ano anterior, depois de os cargos de chefias já terem sido significativamente emagrecidos com a reforma do Estado, no início da legislatura anterior».
Outro dia, um colega meu, no meio da conversa sobre a nossa actividade, disse-me do seu espanto por uma das técnicas do seu serviço – um serviço público – lhe ter retorquido que não poderia marcar as provas para as quinze horas, porque a sua hora de saída era às dezasseis e não poderia, assim, secretariar (como habitualmente fazia).
Razão da inesperada informação: o extremo rigor que as suas chefias estavam a impor, coarctando liberdade de acção que dantes havia para «desenrascar» (palavra comum nas nossas vidas, em que não se ligava muita importância aos horários quando havia serviço a fazer e nem se reclamavam horas extraordinárias, porque a ‘elasticidade’ e o sentido de responsabilidade imperavam). «Se é assim que querem, assim se faz, pois então!...» – perorou ela.
Outra das ideias engendradas pelos teóricos da desumanizada tecnocracia imperante é a chamada rotatividade: todos os técnicos devem saber de tudo e, por isso, de vez em quando, até para não criarem maus hábitos, há que ir mudando neles. Assim como quem muda o móvel para dar outro ar à sala!... E a Josefa respondeu-me, quando eu, admirado, lhe perguntei porque saíra da secção onde ela sabia mais de olhos fechados que todos os outros de olhos bem abertos:
‒ Não saí, mudaram-me!... Olhe, professor, mas é por pouco tempo, não se preocupe! No dia a seguir em que me fizeram isso, sem terem, antes, sequer falado comigo, eu também nem falei com eles e… pus os papéis para a aposentação!
Publicado no Jornal de Cascais, nº 252, 02-02-2011, p. 6.
Fui aos «assuntos pendentes» a que me agarro de quando em vez, aquele rol de temas que nunca perdem actualidade, e deparei com uma nota de imprensa de 8 de Abril do ano passado que reza assim:
«O secretário de Estado do Orçamento, Emanuel dos Santos, admitiu ontem que a corrida às reformas na função pública está a criar problemas de falta de pessoal em alguns sectores do Estado, como é o caso da "classe dirigente". No ano passado, o Estado perdeu 310 dirigentes em relação ao ano anterior, depois de os cargos de chefias já terem sido significativamente emagrecidos com a reforma do Estado, no início da legislatura anterior».
Outro dia, um colega meu, no meio da conversa sobre a nossa actividade, disse-me do seu espanto por uma das técnicas do seu serviço – um serviço público – lhe ter retorquido que não poderia marcar as provas para as quinze horas, porque a sua hora de saída era às dezasseis e não poderia, assim, secretariar (como habitualmente fazia).
Razão da inesperada informação: o extremo rigor que as suas chefias estavam a impor, coarctando liberdade de acção que dantes havia para «desenrascar» (palavra comum nas nossas vidas, em que não se ligava muita importância aos horários quando havia serviço a fazer e nem se reclamavam horas extraordinárias, porque a ‘elasticidade’ e o sentido de responsabilidade imperavam). «Se é assim que querem, assim se faz, pois então!...» – perorou ela.
Outra das ideias engendradas pelos teóricos da desumanizada tecnocracia imperante é a chamada rotatividade: todos os técnicos devem saber de tudo e, por isso, de vez em quando, até para não criarem maus hábitos, há que ir mudando neles. Assim como quem muda o móvel para dar outro ar à sala!... E a Josefa respondeu-me, quando eu, admirado, lhe perguntei porque saíra da secção onde ela sabia mais de olhos fechados que todos os outros de olhos bem abertos:
‒ Não saí, mudaram-me!... Olhe, professor, mas é por pouco tempo, não se preocupe! No dia a seguir em que me fizeram isso, sem terem, antes, sequer falado comigo, eu também nem falei com eles e… pus os papéis para a aposentação!
Publicado no Jornal de Cascais, nº 252, 02-02-2011, p. 6.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Exercer cidadania
Cansamo-nos, por vezes. Focamos um assunto, ninguém liga ou, se ligam, não reagem. Tanto o Povo como os governantes, entendendo por estes todos aqueles que, aos mais diversos níveis, detêm poderes de decisão. Não, não me refiro aos governantes que integram o chamado «Governo» duma Nação, porque esses, como um escritor sublimemente pôs na boca de uma criança, «Mãe, os que estão demasiado alto não ouvem a voz da Razão».
É verdade.
Refiro-me aos que estão mais chegados a nós. Àqueles que até gostam de ver o seu nome em letra de forma, não precisa de ser em tom de louvor, basta em jeito de notícia – para que fique para a posteridade, com nomes e tudo.
Tem a quase totalidade dos concelhos portugueses jornais locais, rádios locais, por onde são veiculadas as notícias que interessam directamente aos habitantes e que não têm ‘estatuto’ para interessar um canal de televisão, a não ser que haja sangue, cena de pancadaria…
Há, nesse jornalismo de proximidade, a necrologia, uma das secções mais lidas, porque se trata de uma das que mais consolida a comunidade, saber dos nossos que partiram…
E há as colunas de opinião, onde se procura exercer cidadania, por exemplo no que ao património diz respeito, nos termos da legislação em vigor. Na verdade, não é necessário que o cidadão pertença a uma associação cívica ou cultural para fazer ouvir a sua voz e para que – como a dos membros de uma associação legalmente constituída – ela seja devidamente tida em consideração pelas entidades competentes.
Aliás, em relação concretamente a esses temas do património, a Lei nº 107/2001, de 8 de Setembro – Lei de Bases da Política e do Regime de Protecção e Manutenção do Património Cultural, é bem clara no seu artigo 10.º, porque começa por se referir aos «contributos individuais» no que concerne à participação dos cidadãos interessados «na gestão efectiva do património cultural». E, nos diversos pontos do artº 11º («Dever de preservação, defesa e valorização do património cultural») claramente salienta que tal dever a todos incumbe, individual ou colectivamente.
Gostaria que nos concelhos do País tal efectivamente acontecesse e assim fosse entendido.
Publicado no Jornal de Cascais, nº 251, 26-01-2011, p. 6.
É verdade.
Refiro-me aos que estão mais chegados a nós. Àqueles que até gostam de ver o seu nome em letra de forma, não precisa de ser em tom de louvor, basta em jeito de notícia – para que fique para a posteridade, com nomes e tudo.
Tem a quase totalidade dos concelhos portugueses jornais locais, rádios locais, por onde são veiculadas as notícias que interessam directamente aos habitantes e que não têm ‘estatuto’ para interessar um canal de televisão, a não ser que haja sangue, cena de pancadaria…
Há, nesse jornalismo de proximidade, a necrologia, uma das secções mais lidas, porque se trata de uma das que mais consolida a comunidade, saber dos nossos que partiram…
E há as colunas de opinião, onde se procura exercer cidadania, por exemplo no que ao património diz respeito, nos termos da legislação em vigor. Na verdade, não é necessário que o cidadão pertença a uma associação cívica ou cultural para fazer ouvir a sua voz e para que – como a dos membros de uma associação legalmente constituída – ela seja devidamente tida em consideração pelas entidades competentes.
Aliás, em relação concretamente a esses temas do património, a Lei nº 107/2001, de 8 de Setembro – Lei de Bases da Política e do Regime de Protecção e Manutenção do Património Cultural, é bem clara no seu artigo 10.º, porque começa por se referir aos «contributos individuais» no que concerne à participação dos cidadãos interessados «na gestão efectiva do património cultural». E, nos diversos pontos do artº 11º («Dever de preservação, defesa e valorização do património cultural») claramente salienta que tal dever a todos incumbe, individual ou colectivamente.
Gostaria que nos concelhos do País tal efectivamente acontecesse e assim fosse entendido.
Publicado no Jornal de Cascais, nº 251, 26-01-2011, p. 6.
domingo, 23 de janeiro de 2011
O núcleo urbano antigo
Não sei, confesso, se ainda existe e onde a placa que ilustrou a nota anterior. Poderei garantir, contudo, que o Automóvel Clube de Portugal, na sua campanha de identificar as localidades, levada a efeito na primeira metade do século XX, a mandou colocar no primeiro prédio relevante, à entrada de Mangualde. Teoricamente, deveriam existir duas, porque decerto pelo menos duas entradas importantes haveria.
E porque é de chamar a atenção para o interesse histórico dessas placas e para a necessidade da sua manutenção na parede do prédio onde foram incrustadas?
Primeiro, porque, se mereceu identificação, era aglomerado populacional de passagem e visita obrigatórias.
Segundo, porque a cidade cresceu nas décadas seguintes e essas placas mostram o que era o núcleo urbano dessa época.
Conclusão?
Para além de se fotografarem e preservarem (mesmo quando os prédios são remodelados, é fácil retirarem-se com cuidado os pequenos azulejos um a um e recolocá-los depois), o desafio aqui fica: que terras do concelho de Mangualde estão assim identificadas? E todos vêem nesses singelos letreiros um testemunho da sua antiguidade?
Publicado no quinzenário de Mangualde, Renascimento, nº 562, 15-1-2011, p. 13.
E porque é de chamar a atenção para o interesse histórico dessas placas e para a necessidade da sua manutenção na parede do prédio onde foram incrustadas?
Primeiro, porque, se mereceu identificação, era aglomerado populacional de passagem e visita obrigatórias.
Segundo, porque a cidade cresceu nas décadas seguintes e essas placas mostram o que era o núcleo urbano dessa época.
Conclusão?
Para além de se fotografarem e preservarem (mesmo quando os prédios são remodelados, é fácil retirarem-se com cuidado os pequenos azulejos um a um e recolocá-los depois), o desafio aqui fica: que terras do concelho de Mangualde estão assim identificadas? E todos vêem nesses singelos letreiros um testemunho da sua antiguidade?
Publicado no quinzenário de Mangualde, Renascimento, nº 562, 15-1-2011, p. 13.
Tirar areia das dunas

«Crismina em regime florestal. Decreto de 20-06-1906. É proibido caçar».
Aprendi de cor, desde as bancos da Instrução Primária, o que diziam as placas colocadas em sítios estratégicos do areal junto ao Guincho. Era assim. E gostava de ver aqueles pinheirinhos agachados, como que a fugir do vento, de tal modo que, no meu primeiro livro, o já bem longínquo Devagar, Coração! (Edições Salesianas, Porto, 1966, p. 36), a eles tive de me referir, porque faziam parte do magnífico mundo da minha infância: «pequeninos, rastejantes, como querendo fugir do mar»…
Tive agora a curiosidade de procurar o significado de crismina. Nada envontrei
Em todo o caso, vi há dias – e a acção já foi noticiada – que andaram a plantar sebes pelo areal, a fim de reter as areias.
E voltei à Instrução Primária, onde Zulmira Fialho Faria, saudosa professora, me ensinara que el-rei D. Dinis mandara plantar os pinhais de Leiria e de Azambuja para deter o avanço das areias sobre os terrenos de cultivo. Acabou-se, mais tarde, por aproveitar também a madeira para fazer barcos; mas reter as areias era primordial.
Conversando, porém, com amigo de longa data, que ali viveu desde sempre, há 70 anos, ele que conhece as dunas como as suas próprias mãos e o regime dos ventos e as noutes de temporal…
– Estás a ver isto? – perguntou-me.
Que sim. É para as areias não virem por aí adentro.
– E já viste como está grande a duna grande? E como a areia avança para o parque de campismo?... Isto não vai com estacazinhas, não! É preciso voltar a tirar areia das dunas!
– Eu lembro-me de ver camiões, com autorização da Câmara. A Câmara até vendia as carradas, não era?
– Precisam de areia para a outra banda; precisam de areia para as praias da vila… porque não vêm buscá-la aqui? Quanto maior for a duna, mais a areia avança!...
Acho que o meu amigo tem razão.
Publicado no Jornal de Cascais, nº 250, 19-01-2011, p. 6.
Falar com os nossos velhos
No momento em que, ao pensar no novo ano, meditamos no que, doravante, deveremos modificar para vivermos mais em plenitude, a vontade de visitar quem já se encontra no Outono da vida pode ser forte. Este ano foi, para mim. E senti que importa, amiúde, voltar a essas visitas, para darmos à vida a relatividade enorme que ela tem, os altos e baixos, as glórias e os esquecimentos – para, afinal, verificarmos que somos grãos de areia num infindável deserto.
Falei com Isolina Alves Santos, a poetisa que tivemos oportunidade de dar a conhecer. 89 anos. No Lar de S. Vicente, em Alcabideche. Já com alguma dificuldade de locomoção, mas ainda a fazer versos e a contar como foi a sua ida à Escola Ibne Mucana e a ternura que os meninos tiveram por ela. Fez versos para este Natal e disse-os na festa do Lar. Um exemplo.
Falei com uma tia adoptiva que tenho no Lar da Misericórdia, nas Fisgas. Também a rondar os 90. Já baralha um pouco os tempos, alterna a lucidez com o sonho, reconheceu-me, estava na sala da televisão e… foi bom receber dela um beijinho, na recordação de tanta caminhada desde os longínquos anos 40…

Falei com Cruzeiro Seixas, o nosso último pintor surrealista vivo. Completou 90 anos no passado dia 3. Vive num lar no Estoril, com alguns dos seus quadros, livros, esculturas indígenas d’África… Recordámos os tempos heróicos (!) em que esteve à frente da Galeria da Junta de Turismo. Heróicos porque, mesmo após o 25 de Abril, se prosseguiu na política de Serra e Moura de apoiar os artistas, reconhecendo-se que a oferta turística não passa exclusivamente pela hotelaria e pelas «praias de areia fina»; heróicos, porque se fez frente à galeria do Casino e se mostrou que poderiam coexistir; heróicos, porque, com pouco dinheiro e duas ou três pessoas, se montava uma exposição digna e dela se fazia catálogo para a posteridade; heróicos porque se ousou, por exemplo, propor uma exposição de pintura erótica – e caiu o Carmo e a Trindade!... Recordámos. Ora a perder paulatinamente a visão, «só vejo vultos», Cruzeiro Seixas vai recebendo os amigos, no conforto de ter procurado deixar rasto na pintura portuguesa – arauto de uma geração que agitou as águas e que perdurará.
Falei com os velhos. E continuei a aprender muito com eles. Mormente esta reflexão sobre a nossa caminhada – que tem começo, meio e fim. Altos e baixos, glória e… esquecimento! Bem hajam, Amigos!
Publicado no Jornal de Cascais, nº 249, 12-01-2011, p. 6.
Falei com Isolina Alves Santos, a poetisa que tivemos oportunidade de dar a conhecer. 89 anos. No Lar de S. Vicente, em Alcabideche. Já com alguma dificuldade de locomoção, mas ainda a fazer versos e a contar como foi a sua ida à Escola Ibne Mucana e a ternura que os meninos tiveram por ela. Fez versos para este Natal e disse-os na festa do Lar. Um exemplo.
Falei com uma tia adoptiva que tenho no Lar da Misericórdia, nas Fisgas. Também a rondar os 90. Já baralha um pouco os tempos, alterna a lucidez com o sonho, reconheceu-me, estava na sala da televisão e… foi bom receber dela um beijinho, na recordação de tanta caminhada desde os longínquos anos 40…

Falei com Cruzeiro Seixas, o nosso último pintor surrealista vivo. Completou 90 anos no passado dia 3. Vive num lar no Estoril, com alguns dos seus quadros, livros, esculturas indígenas d’África… Recordámos os tempos heróicos (!) em que esteve à frente da Galeria da Junta de Turismo. Heróicos porque, mesmo após o 25 de Abril, se prosseguiu na política de Serra e Moura de apoiar os artistas, reconhecendo-se que a oferta turística não passa exclusivamente pela hotelaria e pelas «praias de areia fina»; heróicos, porque se fez frente à galeria do Casino e se mostrou que poderiam coexistir; heróicos, porque, com pouco dinheiro e duas ou três pessoas, se montava uma exposição digna e dela se fazia catálogo para a posteridade; heróicos porque se ousou, por exemplo, propor uma exposição de pintura erótica – e caiu o Carmo e a Trindade!... Recordámos. Ora a perder paulatinamente a visão, «só vejo vultos», Cruzeiro Seixas vai recebendo os amigos, no conforto de ter procurado deixar rasto na pintura portuguesa – arauto de uma geração que agitou as águas e que perdurará.
Falei com os velhos. E continuei a aprender muito com eles. Mormente esta reflexão sobre a nossa caminhada – que tem começo, meio e fim. Altos e baixos, glória e… esquecimento! Bem hajam, Amigos!
Publicado no Jornal de Cascais, nº 249, 12-01-2011, p. 6.
Cortar as pedras
Prosseguimos na evocação do trabalho nas pedreiras, como ele ainda se realizava em meados do século passado.
Chamava-se «banco» o afloramento rochoso que os trabalhadores, roçando o mato e retirando a camada superior de húmus e terra, haviam posto a descoberto. Observavam-se-lhe a textura, as eventuais falhas… e, de acordo com as encomendas em carteira, tiravam-se as medidas e optava-se pelo corte, estudando-se o ponto mais adequado para abrir o furo.
Sentava-se um dos trabalhadores sobre uma pedra a jeito ou sobre desajeitado banco (tábua pregada em pedaço de tronco de pinheiro), com resto de manta velha em cima, para não fazer doer as nádegas; segurava no pistolo a preceito, bem na vertical, enquanto outro, empunhando o maçacopas (= maçacopla), ritmado ia batendo. E o de baixo rodava o pistolo e alevantava-o sempre após cada batidela, para se obter furo circular. Ao lado, púcaro velho com água, que se ia deitando aos poucos, a fim de facilitar o corte. Parava-se de quando em vez, não só para o descanso mas também para – com uma vareta que o ferreiro espalmara na ponta em jeito de pequena concha – se retirar o pó de pedra molhado que se acumulava no fundo. Bate que bate, um som metálico pela tarde, até atingir a fundura prefixada…
(continua)
[Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 144 (Janeiro 2011) p. 10.]
Ilustração
Instantâneo do trabalho do cabouqueiro na cova de uma das pedreiras de Birre (Cascais) na década de 60. Note-se, no bloco, o rasgo do furo feito para o tiro. A pedreira estava no começo da laboração, pois os blocos ainda estão quase à superfície e não são grandes os montes de terra (em segundo plano) que foi necessário retirar para os pôr a descoberto. O cabouqueiro usa boina basca, muito comum nessa altura.
Chamava-se «banco» o afloramento rochoso que os trabalhadores, roçando o mato e retirando a camada superior de húmus e terra, haviam posto a descoberto. Observavam-se-lhe a textura, as eventuais falhas… e, de acordo com as encomendas em carteira, tiravam-se as medidas e optava-se pelo corte, estudando-se o ponto mais adequado para abrir o furo.
Sentava-se um dos trabalhadores sobre uma pedra a jeito ou sobre desajeitado banco (tábua pregada em pedaço de tronco de pinheiro), com resto de manta velha em cima, para não fazer doer as nádegas; segurava no pistolo a preceito, bem na vertical, enquanto outro, empunhando o maçacopas (= maçacopla), ritmado ia batendo. E o de baixo rodava o pistolo e alevantava-o sempre após cada batidela, para se obter furo circular. Ao lado, púcaro velho com água, que se ia deitando aos poucos, a fim de facilitar o corte. Parava-se de quando em vez, não só para o descanso mas também para – com uma vareta que o ferreiro espalmara na ponta em jeito de pequena concha – se retirar o pó de pedra molhado que se acumulava no fundo. Bate que bate, um som metálico pela tarde, até atingir a fundura prefixada…
(continua)
[Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 144 (Janeiro 2011) p. 10.]
Ilustração
Instantâneo do trabalho do cabouqueiro na cova de uma das pedreiras de Birre (Cascais) na década de 60. Note-se, no bloco, o rasgo do furo feito para o tiro. A pedreira estava no começo da laboração, pois os blocos ainda estão quase à superfície e não são grandes os montes de terra (em segundo plano) que foi necessário retirar para os pôr a descoberto. O cabouqueiro usa boina basca, muito comum nessa altura.
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