terça-feira, 15 de março de 2011

Cortar as pedras (3)

Dentro dum pedaço de jornal colocava-se a porção de pólvora em grão considerada suficiente. Descarnava-se a ponta do rastilho (um cordão preto, que se comprava em rolo); aconchegava-se com jeito dentro do punhado de pólvora; apertava-se muito bem e procedia-se à operação de levar tudo, mui cautelosamente, até ao fundo.
Atacava-se depois o tiro, ou seja, torranitos de argila bem secos, esfarelados à mão, eram calcados com a ajuda da tal vareta que dantes servira para tirar o pó; o rastilho aninhava-se num dos rasgos feitos pela arraiadeira. Importava que a compressão ficasse maciça.
Ficava de fora pouco mais de um palmo de rastilho. Uma chapa de zinco, uns taipais, ramagens de pinheiro estavam, agora, ali, à mão de semear, para rapidamente se porem em cima. Os trabalhadores haviam-se retirado. Os canteiros, avisados, largam as ferramentas e aproveitam para um púcaro de água ou o cigarrito de mortalha no alpendre. O cabouqueiro fica. Olha derredor. Puxa do isqueiro e… «Foooogo!».
Tem quase um minuto para acamar as tábuas, a chapa, as ramagens e foge para o abrigo. O estoiro ecoa pelos bancos; saltam as ramagens, num susto fumacento; há estilhaços de pedra pelos ares…
Serenamente, vai observar-se o resultado: se rachou como se pensara, se não houve um veio a estragar tudo, se o bloco se irá aproveitar bem. E, de esboço das encomendas na mão, já se combina como vai agora esquartejar-se – qual lombo de animal abatido para a melhor refeição!...

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 146 (Março 2011) p. 10.

Carlos Avilez


O facto de acompanhar o Teatro Experimental de Cascais desde o primeiro ano da sua existência, em Cascais, no ano de 1965, levou-me inúmeras vezes a falar de Carlos Avilez e a entrevistá-lo. Senti, porém, nestes dias, a necessidade de voltar a falar dele, porque me impressionou o conteúdo do programa da peça ora em cena no Mirita Casimiro, O Comboio da Madrugada, a que me referi na passada edição.
É que, sob o título «Eunice», Carlos Avilez começa por dizer que «trabalhar com esta grande Senhora do teatro é uma experiência inesquecível e maravilhosa» e agradece-lhe, agradecimento que torna extensivo a todos e a cada um dos que mais directamente intervêm no espectáculo.
Até aqui, nada de especial. Carlos Avilez é um Senhor e, como tal, sabe quanto o trabalho em equipa é cada vez mais importante e exemplar nos tempos de egoísmo em que vivemos. Acontece, todavia, que, na conversa entre ele, Eunice Muñoz, Pedro Caeiro e Miguel Graça, Carlos Avilez termina assim:
«A mim dá-me vontade de perguntar: o que é que se faz depois disto? Não me importava de não fazer mais teatro e ficar como a senhora Goforth, fechado numa montanha a viver momentos como os que passámos nestes ensaios, e a recordá-los».
Que é lá isso?... E nós? E os alunos da Escola Profissional de Teatro de Cascais, que ainda tanto esperam de si? Lembra-se d’«As Criadas»? De «Fuenteovejuna», de «Ivone, Princesa da Borgonha», do «Balcão»… e tantas outras maravilhas? Também não lhe apeteceu, nessas alturas, ficar a reviver, mormente antes do 25 de Abril, com a adrenalina toda que era tentar enganar os esbirros da Censura?...
Permita-me que lhe recorde que, na edição de 9 de Novembro de 1965 (eu sei, já lá vão quase 46 anos, já vivemos muito, Carlos!...), o jornal A Nossa Terra enviou à estreia – foi a Esopaida, de António José da Silva, o Judeu, lembra-se? – dois repórteres: um do contra; outro, não.
O do contra escreveu: «(…) Não é o teatro do TEC que nos interessa. (…) Queremos (…) um grupo que nos proporcione momentos de distracção, que nos estimule o gosto pela arte, (…) em suma, que eleve o nosso nível cultural. Não é isso o que o TEC nos proporciona, infelizmente».
E o outro:
«E, ao abrir do pano, cada espectador era um derrotista e um pequeno crítico em potencial. Sentia-se nos camarins a sensação de pânico; havia no público um ambiente de descrença, gelo e apatia como preâmbulo dum espectáculo!
O final da 1ª cena foi sublinhado com prolongada salva de palmas. O público estava surpreendido, confuso, no constrangimento dum espectáculo que se lhe impunha; no inesperado duma arte de que se ia apercebendo.
E quando Esopaida chegou a seu termo, esse mesmo público não regateou aplausos calorosos e enternecidos, aplausos amigos e sinceros, tardia penitência da descrença e cepticismo».
E concluía: «O Teatro Experimental de Cascais é uma incontestável realidade e uma página escrita na história do teatro nacional».
Meu caro Carlos, acredite: vale a pena! E os ensaios do porvir trarão maior consolo ainda! Que os píncaros de Capri são frios, há uma neblina cortante e, lá em baixo, o mar morde, implacável, os rochedos, não sossega!...

Publicado no Jornal de Cascais, nº 257, 09-03-2011, p. 6.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O comboio da madrugada

Nos últimos anos do seu reinado, o imperador romano Tibério fugiu de Roma e refugiou-se na Villa Jovis, palácio-fortaleza alcandorado num dos pontos mais altos da ilha de Capri. Vai-se de funicular até meia encosta e depois, por serpenteantes carreiros de cabras (diríamos!), chega-se lá, ao fim de quase uma hora de caminho. Soberbo, o panorama que de lá se avista. E mete medo o desfiladeiro imenso, a pique, o mar sussurrando lá no fundo, qual mastim a morder canelas de gigante. Corria uma neblina agreste e fria quando lá estive e compreendi porque, assim isolado, sobre a vida do imperador se houvessem tecido as mais estranhas fantasias.
Pensei em Tibério, ao ver O Comboio da Madrugada, de Tennessee Williams, a peça que o Teatro Experimental de Cascais estreou no dia 18, porque é por ali, nesse golfo de Nápoles, cenário de todas as elucubrações e muitos sonhos, que se passam os últimos dias de Flora Goforth, a protagonista, vivida aqui numa das mais portentosas interpretações de Eunice Muñoz. E qualificar de «portentosa» é pouco, diga-se desde já, porque Eunice está em palco do princípio ao fim e incarna a personagem com tal ‘naturalidade’ (!) que nos extasia.
O silêncio, o marulhar das ondas, a brisa forte e fresca… essa solidão em que, para fugir dos outros e de si, Flora se refugiou, guardada por mastins e uma segurança feroz – que «os passaportes expiram e os convites também!»… Ali poderia reflectir melhor sobre o significado da vida e o significado da morte… Realidade difícil de enfrentar: «Tens uns belos dentes… São postiços?»…
‒ De que anda à procura?
‒ Gostaria tanto de umas torradas com açúcar para acompanhar o meu café!...
O café, porém, tem de tomar-se simples, «porque o comboio da madrugada, que traz o leite, já não pára mais aqui»…
Flora Goforth pressente, contudo, que está bem perto do fim. Christopher Flanders (Pedro Caeiro, outra magnífica interpretação) é, afinal, não um amante mais a seduzir mas o beijo do anjo da morte. Ela suspeita-o. E tudo se passa, afinal, nesta luta entre dar esse beijo inexorável agora, mais tarde, e em que circunstâncias… Que «a verdade é uma coisa muito frágil, muito perigosa… É nitroglicerina, deve-se manejá-la com muito cuidado!...». Um jogo, esse, o da Verdade, mui arriscado, portanto: precisas de apanhar um barco que te leve daqui…
Transcreve-se, no programa, a conversa entre Eunice Muñoz, Pedro Caeiro e Carlos Avilez, uma conversa dirigida por Miguel Graça, que teve a seu cargo a dramaturgia da peça. Elucidativa. A ler. Fixei-me sobretudo numa palavra: os ensaios. A força e o importante papel que eles desempenharam. É que interpretações assim – do encenador, dos actores, do cenógrafo, de toda a equipa… – constituem desafio único, inesquecível. Inesquecível para quem as viveu; inesquecível para quem teve a dita de os apreciar.
Seguramente – e temo estar a segurar-me a um lugar-comum, que o não é… – uma das mais bem conseguidas realizações do TEC. Dar os parabéns é muito pouco! Aplauda-se de pé durante longos minutos!

Publicado no Jornal de Cascais, nº 256, 02-03-2011, p. 6.

Proximidade e vizinhança

O macabro achado, nos primeiros dias de Fevereiro, do cadáver duma idosa, falecida há nove anos, no seu apartamento da Rinchoa (Sintra), onde vivia com o seu cão – que também foi encontrado morto –, veio pôr o dedo na grave ferida de que padece o mundo actual: a solidão da velhice.
Já há alguns meses atrás, a RTP passara a reportagem «Este País não é para velhos», a abordar esse tema lancinante da quebra de laços familiares e de vizinhança.
Por incrível que pareça, há filhos que, tendo sido criados e sustentados pelos pais, os deixam viver e morrer ao abandono. Se calhar, não será tão incrível assim, quando, no dia-a-dia, vemos quem muito deve aos seus professores, tenta legislar (e legisla!) para deitar abaixo essa classe profissional. É a vida!...
O que falhou na Rinchoa? Tudo, já se disse. Houve, porém, uma falha que – até ao momento em que redijo estas linhas – não vi apresentada: falhou a Comunicação Social de proximidade!
Aquela vizinha, em vez de ir apenas ao posto da GNR e aos correios (e muito ela fez, coitada, sem que lhe dessem ouvidos e até zombassem dela!...), deveria ter posto a boca no trombone, como sói dizer-se, e bater a tudo quanto era redacção de jornal, de rádio, de televisão! E não desgrudava enquanto a notícia não saísse, enquanto a opinião pública não fosse alertada e se mexesse!
Para isso serve a rádio local, o jornal local: para cimentar comunidade, para insistir, insistir, como água em pedra dura!... De certeza que, alerta dado, duas semanas só passadas que fossem, o caso da Rinchoa não teria chegado aonde chegou.
Que a lição seja aprendida!

Publicado no quinzenário de Mangualde, Renascimento, nº 565, 01-03-2011, p. 13.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Ir à praça - um ritual que vai renascer




Publicado na revista Sekreta, de Cascais, II série, nº 6, Janeiro 2011, p. 8 e 9.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

De génese ilegal


Foram solenemente apresentadas, no passado dia 3, no auditório do Centro Cultural de Cascais as actas da conferência, realizada a 13 e 14 de Março de 2009, sobre Áreas Urbanas de Génese Ilegal – projectos para a legalização de um sonho.
Realçou o presidente, Dr. Carlos Carreiras, que presidiu à sessão, quanto esta «legalização de um sonho» assumia importância fundamental, porque dava à pessoa o lugar que ela merece, num tempo em que (digo eu) impera a tirania dos números, sempre manipulados. Aliás, como salientou, Carlos Carreiras fez questão em manter sob sua directa tutela este pelouro, que sempre tem acompanhado com desvelo, até porque com essas áreas tem sempre vivido paredes-meias e compreende bem o que isso representa.
Cerimónia, pois, prenhe de significado porque, se então se discutiram projectos e essa discussão ora foi passada escrito – para que perdure! – o certo é que, nos últimos meses, largos passos se deram em Cascais para reordenar um território ocupado a trouxe-mouxe e dar, assim, mais qualidade de vida ao interior do concelho.
Graficamente muito bem apresentado, com muita ilustração a cores, o livro – que foi coordenado pela Arq. Paula Cabral (Directora do Departamento de Requalificação Urbana, verdadeira alma e motor de todo este projecto) e pela Dra. Maria João Monteiro (Chefe da Divisão de Áreas Urbanas Degradadas) – dá conta de como, na conferência, o tema foi abordado pelos mais variados especialistas. As causas, a evolução e as cicatrizes que deixaram na paisagem os loteamentos ilegais do espaço rural em torno da Grande Lisboa; a construção clandestina e a auto-construção como consequências também dos movimentos migratórios de gentes da província para aqui; as desvantagens e as vantagens do caos urbano; os instrumentos jurídicos aplicáveis à reconversão e reestruturação desses espaços… O Arq. Francisco Keil do Amaral moderou a mesa-redonda «O lugar do outro» (significativo tema) cujo conteúdo pode ler-se nas páginas 212-244.
Completa o volume um CD, «documentário» de 25 anos de reflexão sobre assunto bem premente nos nossos dias.
E, como arqueólogo, foi-me grato rever, em letra de forma, o plano gizado pelo Arq. José Alves Bicho (p. 164-181) com vista ao correcto enquadramento da villa romana de Freiria, um dos processos mais exemplares e mais sofridos, que dura há mais de 20 anos; e também o Plano de Salvaguarda de outra villa romana, a do Alto do Cidreira, em Carrascal de Alvide (p. 263).
Um volume que constitui – inclusive pelo acervo de documentação gráfica que apresenta – um vade-mécum para profunda reflexão e memória a não perder!

Publicado no Jornal de Cascais, nº 255, 23-02-2011, p. 6.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

As Casas da Zona B de Conimbriga


Em mais uma edição (a segunda oficialmente inscrita) do CEAUCP – Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e do Porto (2010), encontra-se em distribuição a obra As Casas da Zona B de Conimbriga, da autoria de Jorge de Alarcão, com ilustrações de José Luís Madeira, que também se encarregou do design gráfico do (diga-se desde já) excelentemente apresentado volume. 64 páginas, ilustradas com 26 estampas e seguidas de dez folhas com 53 fotos a preto e branco. ISBN: 978-989-95954-1-5.
A designação «Zona B» vem na planta das ruínas publicada pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentais Nacionais [DGEMN], em 1948, compreendendo duas casas, a o mosaico das suásticas e a dos esqueletos, assim como as chamadas Termas da Muralha. Toda a zona, portanto, que fica à mão esquerda de quem entra na cidade, deixando à sua direita a conhecida Casa dos Repuxos.
Escavadas essas duas casas por Vergílio Correia entre 1939 e 1941 (o que, no final, viria a permitir um levantamento topográfico, mas não deu origem a nenhum relatório), aí foram efectuados restauros pela DGEMN entre 1945 e 1948. Jorge de Alarcão teve, pois, ensejo de nessa área retomar os trabalhos de escavação sistemática, de 1963 a 1972 (a escavação da casa dos esqueletos decorreu, por exemplo, entre 1962 e 1964, tendo sido alvo de intervenções pontuais de esclarecimento até 1968), concluindo a escavação das termas, só parcialmente descobertas por Vergílio Correia. O presente volume assume-se, pois, de certo modo, como o circunstanciado relatório desses trabalhos.
Está ainda por estudar o espólio cerâmico exumado e, por conseguinte, o Autor procura interpretar a estruturação espacial que detectou, desde as tabernae que identificou ao longo da via de acesso à porta da muralha (p. 21-27), até à análise miúda de cada uma das casas, no sentido de se perceber como os seus vários espaços se articulavam entre si. São apresentadas plantas e cortes estratigráficos. Recorde-se que Jorge de Alarcão escreveu, em 1985, uma Introdução ao Estudo da Casa Romana, tema que sempre muito lhe agradou; e aqui, mediante a preciosa ajuda de José Luís Madeira, que apresentou bonitas reconstituições (algumas delas aguareladas – vejam-se, nomeadamente, as que têm os números 11, 21 e 24), pôde explicitar a descrição de dois casos concretos e, inclusive, descobrir como era feito o abastecimento de água não só a essas casas como também às termas, interpretando como «aqueduto», digamos assim, uma estrutura até agora de obscura funcionalidade (p. 42).
Mais: pôde concluir-se que estamos perante um «projecto urbanístico da época dos Flávios», pois que «tabernae e casa do mosaico das suásticas poderiam ter sido construídas na imediata sequência da edificação do fórum flaviano» (p. 39). Já as Termas da Muralha – que estão a ser alvo de estudo aprofundado por parte de M. Pilar Reis – «poderão ter sido edificadas antes da demolição das Termas de Augusto, para que a população não ficasse privada de edifício tão necessário», enquanto se erguiam as termas de Trajano, cujo monumental projecto «deixaria prever um longo prazo de construção» (p. 39).
E se, na Introdução (p. 7-19), o Autor traçou breve e exacta panorâmica do que foi a existência da cidade romana de Conimbriga, importa frisar que os indícios ora identificados apontam para que a destruição das tabernae e a construção da muralha hajam ocorrido «em período pré-constantiniano, eventualmente no tempo de Constâncio Cloro, tempo em que se terá edificado a muralha tardo-romana da vizinha cidade de Aeminium», mais concretamente por volta do ano 305 (p. 22-23). Este é um dado que se me afigura assaz interessante, pois que, desta sorte, se releva a atenção dada por este imperador à Lusitânia: a civitas Aeminiensis presta-lhe homenagem, salientando, numa epígrafe (CIL II 5239), que é o seu dilectus princeps, nado para conseguir o «aumento da República»; e identificámos como igualmente dedicada a este imperador uma das inscrições oficiais de Eburobrittium (a publicar no volume de 2010 da revista Conimbriga).
Uma obra, por conseguinte, em que ao rigor do arqueólogo se alia a perspicácia do historiador e a sensibilidade do esteta – é um livro também bonito de folhear!