domingo, 5 de junho de 2011

Penhas do Marmeleiro - Um sítio de excelência com página no Facebook

Criada, há um ano, por Luís Filipe, antigo aluno salesiano do Estoril, essa página – http://www.facebook.com/home.php#!/group.php?gid=112985108738014 – tem hoje 631 membros e visa incitar a população cascalense – e não só! – a que vá «descobrir este Paraíso perdido em Cascais»!
Parece, porém, que este «aproveitamento ideal do espaço», nascido para «recuperar a área degradada em zona limite do Parque Natural de Sintra-Cascais (PNSC)» necessita de alguma atenção mais!


A razão do nome
Chama-se de «penhas», porque, na verdade, a vista se alarga e se demora no caprichoso recorte e alinhamento das formações calcárias que vigiam do alto das quebradas o Rio Marmeleiro, lá ao fundo, nome que tem, ali, o curso de água que, mais abaixo, se designará Ribeira das Vinhas.
«Do Marmeleiro», porque, decerto, essa era a árvore mais comum nas margens da ribeira. Mais uma vez, erraram os técnicos camarários ou os projectistas, ao chamar-lhe «de Marmeleira», porque não souberam colher informação onde deviam. Acontecera o mesmo com o Centro de Interpretação Ambiental da Pedra do Sal, a que primeiro chamaram de ‘Ponta do Sal’ e foi precisa uma duradoura luta do Núcleo de Amigos de S. Pedro do Estoril para que emendassem a mão. Aconteceu o mesmo no Parque Urbano do Rio dos Mochos, a que chamaram de «Ribeira dos Mochos», quando a designação popular (ainda que tecnicamente incorrecta, mas em questões de toponímia – como noutras… – o Povo tem sempre razão!) é Rio dos Mochos e esperamos que venha a ser corrigido.
De facto, uma leitura atenta do livro Monografia de Cascais, de Ferreira de Andrade (CMC, 1969), teria sido útil, pois que, na pág. 273, se transcrevem as respostas dadas pelo prior de Alcabideche, Fortunato Lopes de Oliveira, ao inquérito lançado pelo Marquês de Pombal, onde se fala do ribeiro e da povoação:
«Marmeleiro é um ribeiro, que consta de quatro azenhas de trigo e um lagar de azeite. Seca-se de Verão. Vem de outro ribeiro, a que chamam de Porto Covo […]. Tem homens oito e sete mulheres».

O que é o parque
Na página do FB se dão logo algumas luzes aliciantes para uma visita.
Inaugurado oficialmente a 5 de Setembro de 2009, por iniciativa da Câmara Municipal com o apoio da SANEST, situa-se em Murches, na sua ponta mais oriental. Não tem nada que enganar: é entrar em Murches e, depois da capelinha de Santa Iria, seguir em direcção ao nascer do Sol até à encosta sobranceira às colinas que dali se estendem para os lados do Zambujeiro, do Pisão, do Cabreiro, de Carrascal de Alvide…
Adregará dar-nos as boas-vindas o galo do vizinho, a introduzir-nos num outro mundo! Deste anfiteatro natural, um panorama deslumbrante, com o Cabo Espichel ao fundo e, mais perto, o variegado manto rasteiro da vegetação, pleno de colorido nesta época de Primavera.
Saúdam-nos à entrada (deviam saudar-nos…) seis bicas, quatro a correr para o espelho de água norte e duas para o meridional. Um toque de frescura inicial.
Depois, um pavilhão aberto, de estruturas metálicas (agora oxidadas) com quatro ilustrados painéis explicativos. Trata o 1º do que é o Parque Natural (História, Património Arquitectónico). O 2º destruíram-no e ainda não voltou recuperado da maldade. Refere-se o 3º ao Património Natural de que se pode usufruir a partir dali: os habitats, os animais – os anfíbios, a raposa, a bufo-real, o musaranho-de-dentes-vermelhos, o tritão-de-ventre-laranja… – a flora e o seu valor. Apontam-se, no 4º, as sugestões de actividades de natureza a praticar, desde os passeios pedestres à observação de aves.
Resultou este Centro Interpretativo da colaboração entre o PNSC, a CMC, o Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade, a Cascais Natura e a Sanest.
Uma encosta artificial plantada de rosmaninho, alecrim, medronheiros… abriga a escadaria que dá acesso à plataforma inferior, do parque infantil com os habituais aparelhos de balancé e um recinto em jeito de forte apache, com escadas, passadiço, amuradas, postigos…
Para norte, ajustado trajecto de escadarias de madeira convida a um percurso em íntima comunhão com o mato, na observação cuidada e pormenorizada daquela vegetação misto de mediterrânica e atlântica, um verdadeiro hino à biodiversidade, tantas são as variedades de pequenas plantas e inesperadas flores que por ali vamos encontrar… A riqueza do carrascal casada com o cinzento dos afloramentos calcários, salpicada pela magnificência amarela das umbrelas dos funchos, subtilmente ornada pelo morrião-azul ou pela discreta brancura do sargaço… Maravilha!

O necessário ressurgir
Visitei de novo Penhas do Marmeleiro no passado dia 5 de Maio. E fiquei triste com o que vi.
Ainda que a encosta recém-roçada de ervas incómodas me desse sinal de que por ali passara alguém responsável pela manutenção, o certo é que queimaram o forte apache e um letreiro assinado com os logótipos da CMC e da EMAC informa que está «proibida a entrada», pois o conjunto se encontra “em requalificação»; agradece-se a «compreenção» [sic] e acrescenta-se promessa de «ser breves». Pelo estado em que a tabuleta se apresenta, já lá se encontrará há bastante tempo.
Para além disso – e apesar de eu ter chamado a atenção da EMAC para o assunto no passado Outono – ainda se não logrou pôr mãos à tarefa de conseguir a drenagem das águas pluviais, pelo que o campo do Parque Infantil está inoperacional, encharcado, e os aparelhos metidos em poças de água.
Se os bebedouros ainda funcionam mais ou menos, os espelhos de água da entrada não são seguramente um bom cartão de visita no estado em que ora se encontram, com três das bicas inactivas e os focos de iluminação estragados.

Uma visita… impõe-se!
As Penhas do Marmeleiro merecem, pois, uma visita. De todos e, de modo especial, da população escolar em jeito de visita de estudo.
Com um arranjo de arquitectura paisagístico deveras original – aqui e além moroiços de lioz de tonalidades várias com tufos de flores pelo meio, chão de gravilha junto ao Centro Interpretativo, o serpentear das escadarias… – é convite a um saborear de ar puro em plena intimidade com o que a Natureza ainda nos pode dar de mais bonito, numa larga extensão sem casario irritante…
Chega-nos o eco dum ladrado distante. Um melro assobia alegre, algures num pinheiro próximo. Um bando de pardais brinca em algazarra num telhado mais além. Até o viaduto da A5, os carros passam a espaços, não incomoda; e o mar, ao fundo, é convidativo também a mais meditação.

Publicado na revista Sekreta (Cascais), Abril 2011, p. 14 e 15 – ver em seguida a reprodução.


Ir à praça - um ritual que vai reviver

Ir à praça a Cascais, nas décadas de 60 e 70, era um dos rituais semanais a que os vizinhos não faltavam. Ia-se comprar legumes, peixe e até carne; à quinta (nessa altura, era à quinta), tinha-se a feira onde se comprava de tudo. Todavia, a ida não era apenas por questões de mercancia: a praça era ponto de encontro, onde se sabiam as novidades, num mundo – apesar de tudo – ainda muito pequeno, em que quase todos se conheciam.

Era o mercado saloio. A freguesia de Cascais não conhecera o surto urbanístico que viria a ocupar os muitos terrenos de cultivo, nomeadamente hortas nos vales irrigados, por exemplo, pelo Rio dos Mochos. Couves, nabos, cenouras, árvores de fruto e flores, muitas rosas… faziam parte integrante de uma paisagem, em que o rio, transbordando no Inverno, generosamente a fecundava.
Aos saloios de Birre, Torre, Areia e Cobre se juntavam, naturalmente, os da Malveira da Serra e de Almoçageme, numa época (explicite-se) em que essa era a única praça existente.
Acompanhei minha mãe muitas vezes. Cheguei mesmo a ir com ela ao que funcionou no local onde mais tarde se fez o Pavilhão do Dramático e os feirantes se aninhavam junto ao muro da Parada… Mas aquele de que mais me lembro é o da Ribeira das Vinhas.
E aí encontrava minha mãe as amigas. Iam e vinham nas mesmas camionetes (como se dizia) – e os responsáveis da Palhinha sabiam bem que, nesses dias, haviam de fazer desdobramentos quer de manhã cedo quer a partir das onze horas. Comprava as batatas sempre à mesma senhora, creio de Almoçageme, conhecida de longa data; a carne no talho de sempre (o dono já sabia bem de que é que ela gostava); os alhos num vendedor, as laranjas noutro… Enfim, dava a volta à praça toda e perguntava pelos preços (não estavam nunca marcados, não havia esse hábito) e regateava, naquele jeito de algarvia com costela de moira, sempre pronta a não ficar na mó de baixo…
Um mar de gente – o rico e o pobre, a senhora e a criada, o forasteiro e o cascalense…

O peixe
O peixe merece lugar à parte.
Era sobretudo ao sábado que mais se pensava nele. E também na ‘praça do peixe’ havia varinas preferidas: para o berbigão, a caldeirada, o patarroxa (para a sopa de cação), a sardinha, a sarda…
Dizia-se, há pouco, da Palhinha. Nessa altura, as varinas que, durante a semana, demandavam os lugares rurais serviam-se da carreira para lá levarem a canastra. Era a «menina Sara» que fazia o giro da Torre e Birre; a Carolina que depois passou a ir para a Malveira (salvo o erro)... Carreiras havia a da Torre, uma das primeiras que se criou para os arredores da vila, após a construção do «bairro», que, na década de 60, trouxe para ali muita gente e a abertura do prolongamento da Rua Joaquim Nunes Ereira desde o vale do Rio dos Mochos até à Torre, porque, antes, nós íamos por atalhos matos fora. E havia a do Guincho, mais rara, mas a única que servia Birre e Areia.
Peixe tinha-se sempre de comprar na praça e a garantia de ser fresquinho sabia-se, porque a lota no-la dava. (Hoje, as vendedeiras queixam-se, porque o projectista se esqueceu de… ir ver como era e calculou mal a altura das bancadas… Acontece – a quem cria em gabinete fechado!...).

As cheias
Foi o mercado novo, nesta sua configuração circular, inaugurado em 1952.
Não havia, nessa altura, a forte consciência que hoje se tem da preservação do meio ambiente, da necessidade de não ocupar o leito de cheia, porque… não se ocupava, pronto! Não era preciso e as pessoas ainda ouviam a voz da razão e a dos antepassados. Vozes que se reergueram contra a localização numa baixa, nomeadamente por se ter encanado ainda mais a Ribeira das Vinhas. Na verdade, não haveria grande problema se se mantivessem permeáveis os solos a montante…
Tal não viria a acontecer e as cheias de Novembro de 1983 mostraram que a opção não fora, de facto, a melhor.

A nova face do mercado

Em Dezembro de 2005, atendendo a que importava renovar estruturas, a Câmara lança, para esse efeito, um concurso público de ideias, a nível internacional, com vista a obter propostas para a requalificação do mercado e sua zona envolvente, de forma a se proceder, assim, «à sua valorização e animação, numa perspectiva turística e cultural».
Refere-se – e muito bem – a «perspectiva turística», porque, na verdade, em todos os desdobráveis da assassinada Junta de Turismo da Costa do Estoril o mercado saloio era apresentado como um dos ex-libris da vila.
A 28 de Junho de 2006, dava a Câmara a conhecer os resultados desse concurso, destinado (repetia-se) a revitalizar «uma área nobre do centro histórico da vila, cuja reconversão tem um forte potencial». Declarando que «os critérios de avaliação dos projectos assentaram em factores como a qualidade, a complementaridade face aos objectivos indicados e a exequibilidade da proposta», o resultado do concurso, homologado em 30 de Maio de 2006, colocou em 1º lugar Marco Neri; em 2º, a empresa Arkibyo – Arquitectura e Urbanismo, Lda; e, em 3º, Bernardo Almeida Lopes. Em Setembro, fez-se no edifício do antigo quartel dos bombeiros a exposição do projecto ganhador – e aí se fala também em «Parque Urbano da Ribeira das Vinhas»!…
Em finais de Abril de 2009, já o mercado se apresenta «de cara lavada» – para usarmos a expressão de um dos periódicos locais – com nova pintura, novo pavimento e, sobretudo, embelezado com grande painel de azulejos encomendado à Cerâmica de Bicesse.
São esses azulejos – concebidos por Teresa Posser de Andrade, que os pintou juntamente com Susana Bretes e Carlos Ramiro – que hoje podem constituir também um dos motivos de superior encanto do mercado, ainda que, na verdade, se nos afigure que poderiam ser mais publicitados.
Há, na sua concepção, um misto de ingenuidade e de cor local, pois não se objectivou ser rigoroso do ponto de vista histórico ao conceber as cenas e os edifícios aí representados: por exemplo, o vendedor de castanhas está numa esquina do edifício dos Paços do Concelho, mas vêem-se, do lado esquerdo (e devia ser por detrás), os edifícios sobranceiros à ‘muralha’ da Praia dos Pescadores. Mas há cor local: o palácio dos Condes de Castro Guimarães; o farol de Santa Marta e a Casa de Santa Maria; a Praça 5 de Outubro; uma panorâmica idealizada da vila, porventura a partir da Rua Marques Leal Pancada. E a leiteira, o vendedor de perus, o saloio da Malveira e o seu burrico e os moinhos de vento de velas enfunadas nas colinas…
Se o ritual da ida à praça vai reviver? Claro que vai! Os tempos que correm suscitam cada vez mais esse retorno à compra e venda directamente ao produtor. E as hortas vão renascer!

Publicado na revista Sekreta (Cascais), Janeiro 2011, p. 8-9 [ver reprodução a seguir]


quarta-feira, 1 de junho de 2011

Escrever nos cacos, antes de o serem!...

Até não há muito tempo, numa escavação, os arqueólogos recolhiam apenas os cacos mais significativos, nomeadamente aqueles que, pelo seu recorte, ainda poderiam – mediante cuidada reconstituição – vir a dar uma ideia da forma original. Analisava-se essa forma, que meticulosamente se comparava com outras conhecidas; fazia-se um exame da pasta, com vista a determinar possível origem quer da oficina quer do barreiro donde a matéria-prima proviera. Estranha actividade, esta, de facto, que se preocupa com os cacos que sobraram do vasilhame partido há já milénios atrás!...
É que esses cacos permitem observações de vida quotidiana; dão azo, inclusive, a razoáveis conjecturas sobre correntes comerciais…
Assim, na asa de uma ânfora, no fundo de um pratinho ou de uma lucerna… vê-se, por vezes, cartela resultante de impressão com uma espécie de sinete. Exacto: é a marca do oleiro! Não em cerâmica comum, de todos os dias, que essa não trazia dividendos sociais ou económicos e não carecia, pois, de publicidade veiculada por meio de assinatura; mas a cerâmica mais fina, de ir à mesa só de quando em vez, porque não?
Tal como hoje, em dia de particular relevância na família, decidimos ir ao armário da sala e fazer uso do ‘serviço’, aquele que já vem de nossos pais ou avós ou foi oferta de casamento, também em tempo de Romanos havia loiça especial para dias especiais!
E com essas marcas se deliciam os arqueólogos, na sua decifração, na comparação com outras achadas aqui e além! Geralmente rectangulares, podem ostentar a fórmula EX OF, que significa EX OF(icina), «da oficina», seguida do nome do proprietário em siglas ou pelo nome com que era habitualmente identificado.
Outras vezes, essa primeira parte subentende-se e fica apenas a identificação, nem sempre passível de uma interpretação única, porque… estamos fora do contexto e, sem contexto, torna-se difícil saber ao certo o nome que ali se pretendeu perpetuar.

Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 571, 01-06-2011, p. 13.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Andarilhanças 2

Parque do Rio dos Mochos
Vale a pena publicitá-lo, que o espaço merece ser saboreado, ali por entre a vegetação do leito deste ribeiro que o povo chama de «rio» e que brota no Mato Romão, ali onde se exploraram pedreiras.
Dificuldade se tem, no entanto, para abrir a entrada norte. Para um leigo no assunto, o que aconteceu foi que o arquitecto paisagista não se terá apercebido da dificuldade que o declive impunha e há que remodelar aí o percurso.
Demora.

Parque Penhas do Marmeleiro
Mais um em que os serviços camarários não quiseram estudar nos livros. Teriam facilmente visto que é Marmeleiro e não Marmeleira. Também aqui, tal como aconteceu na Pedra do Sal, em S. Pedro, vai demorar tempo a corrigir a grafia.


Aliás, aí o tempo pára quando vamos de visita. E a criançada continua a não poder utilizar os aparelhos: foram implantados num… charco! E a casinha do ‘forte apache’ houve energúmenos que a queimaram.


SOS Animal
Inauguração oficial no passado sábado, 21. Fica na Praceta D. João I, em Caparide, Clínica / Sede da SOSAnimal, uma das associações que mais tem pugnado pelos animais de companhia, nomeadamente na busca de adoptantes para animais abandonados [ver www.sosanimal.com].
Um «projecto, muito sonhado e sofrido, que é, finalmente, uma realidade»!
Parabéns, votos do maior êxito e… que os sócios apareçam!
Contactos: telefone, 218044981; e-mail: clinica@sosanimal.com

Tardanças…
Dava tanto jeito que o empreiteiro se apressasse, sobretudo agora que a estrada Alcoitão – Manique só tem sentido ascendente por causa das obras! Há quanto tempo se engonha no troço entre a Quinta do Patinho e o cruzamento da Luta!... Os engarrafamentos para a rotunda no centro de Alcoitão contribuem eficazmente para exagerado consumo de combustível. Era um presente que a autarquia nos poderia dar se lutasse para que as obras andassem mais velozes!
Dava tanto jeito!

Travessa Fernão Lopes, na Pampilheira
Eu percebo a intenção, mas a realidade não corresponde ao que artificialmente os técnicos camarários quiseram fazer crer.
Não, não é verdade que essa travessa, frente à Clínica CUF Cascais, seja… um beco sem saída! Tem saída e até nem seria mal que a placa fosse retirada. Aliás, não tem indicação de resolução camarária no verso, pelo que, decerto, foi ali plantada por alguém que lhe deu na veneta pôr. Sem mais nem menos!

Publicado em Jornal de Cascais, nº 268, 25-05-2011, p. 6.

Andarilhanças

O uso de «antigo»
A propósito do que escrevi sobre o uso do ex-, relembrou-me um vizinho que eu deveria também explicar o uso errado da palavra ‘antigo’. É estranho, de facto, dizer-se que António Capucho é o antigo presidente da Câmara!... Pode afirmar-se de alguém que é o ex-provedor da Misericórdia; no entanto, o melhor será sempre dizer-se «que foi provedor da Misericórdia». Antigo ‘cheira’ a velho; ‘ex’ sabe a excluído!

Recados à Finlândia e ao Reino Unido
De parabéns a Câmara Municipal de Cascais por, nas Conferências do Estoril, ter apresentado um delicioso documentário – que está a correr mundo, graças a Deus e à Internet (o Senhor que me perdoe!) – a ensinar aos Finlandeses um pouco de história de Portugal. E, ao que parece, também se antoja a hipótese de fazer outro, expressamente dedicado aos senhores ingleses, os tais da «velha aliança» que não perderam a oportunidade de nos lançar um ultimato e que, quando para cá vieram ajudar-nos a lutar contra o Napoleão (em função dos seus interesses, pois que só chegaram depois de lhes abrirmos os portos do Brasil…), foi preciso fazermos uma revolta para eles se irem embora… Faça-se o documentário, embora eu ache que não vale a pena! O chá eles aprenderam, mas foi só o das cinco!
E, já agora que estamos em maré de vídeos, não se poderia fazer um para candidatos a deputados, a ensinar-lhes os dados mais salientes da História de Portugal?

Bairro José Luís
O Relatório de Contas – Exercício de 2010 da EMGHA – Gestão da Habitação Social de Cascais, EM, SA ocupou 4,5 páginas de publicidade, que muito jeito irão dar aos cofres de Jornal de Cascais. Bom exemplo. Virá a ser seguido por outras empresas municipais?
A propósito: os moradores do Bairro José Luís, vulgo «Bairro Operário», que é da jurisdição da EMGHA, interrogam-se, preocupados, acerca do seu futuro.
Recorde-se que se trata de um dos primeiros bairros sociais de Cascais (1933), devido à benemerência do Conde de Monte Real, que para aí projectou um empreendimento social ímpar, que se estenderia até ao Cobre (pela actual Pampilheira oriental), num total de 238 fogos, de que só se fizeram 11 e de que apenas subsistem 8 (os 3 mais perto da avenida foram demolidos e, em seu lugar, crescem as ervas…).
Para, de certo modo, manter o espírito benemerente do doador, a Câmara, depois de o terreno ter sido mato durante cerca de 30 anos, optou por o vender em lotes, que destinou a cooperativas de habitação (as moradias) e a prédios de rendimento em regime de renda condicionada, com a condição de se dar prioridade de arrendamento a funcionários administrativos do concelho e, também, aos operários e técnicos da Standard Eléctrica, a primeira grande unidade fabril instalada no concelho, no Mato Romão (hoje, S. Gabriel). No canto sudeste, houve lugar para as «pequenas indústrias»: o estaleiro naval, oficinas, uma fábrica de malhas; mais recentemente, o centro de distribuição postal, a inspecção automóvel e a Clínica CUF. Bom negócio!

A newsletter da Residência Sénior
Mais uma cedência aos hábitos vindos de fora, quando, em português vernáculo, temos tantas palavras: boletim informativo, notícias, informações… Mas não: optou-se pela… newsletter, que até enche a boca ao pronunciar!
Saúde-se, pois, o aparecimento desta folha informativa electrónica da Residência Sénior Doutora Maria Ofélia Leite Ribeiro, em Alcoitão, da Santa Casa da Misericórdia de Cascais. Chama-se «Serviços Sénior» e o nº 00 data de Março/Abril, uma «edição muito especial», como escreve o seu responsável, Luís Lopes: «Em primeiro lugar, porque disponibilizamos para os nossos amigos, voluntários e colaboradores e clientes informação em primeira mão sobre o muito que fazemos e como fazemos»; em segundo lugar, porque «pretendemos dar informação útil para a melhoria da qualidade de vida com temas escritos pelos nossos técnicos e que o podem ajudar no dia-a-dia».
Votos, pois, de continuidade!

Publicado em Jornal de Cascais, nº 267, 18-05-2011, p. 4.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Uma campanha eleitoral limpa... nos tempos romanos!

Amiúde, as forças partidárias ou os candidatos proclamam que não vão perturbar o ambiente, quer do ponto de vista da poluição sonora quer, sobretudo, visual. Prometem não mandar fazer muitos cartazes, porque, assim, se poupa papel e, indirectamente, menos árvores precisarão no futuro de vir a ser abatidas. Prometem não sujar as paredes, respeitar a propriedade alheia.
Tudo muito boas intenções. O que talvez se não imagine é que já no tempo dos Romanos era assim!
Numa inscrição mandada gravar, aí pelos finais do século I da nossa era, por Caius Pompeius Meidugenus em honra da divindade pré-romana Bormânico, encontrada em Caldas de Vizela, lêem-se, no final, estes dois versos latinos:

Quisquis • honorem • agitas • ita • te • tua gloria • servet praecipias puero • ne linat • hunc lapidem.

As traduções até agora apresentadas não têm tido em devida conta, a meu ver, os comentários feitos pelos epigrafistas do século XIX, designadamente Leite de Vasconcelos e o alemão Emílio Hübner.
Na verdade, estamos perante frase retirada claramente dum contexto de propaganda eleitoral, onde se declara poder redundar em prestígio do candidato o facto de ele chamar a atenção dos seus colaboradores, nomeadamente os jovens escravos encarregados de pintarem propaganda, de que não devem sujar esta inscrição.
Uma tradução, ainda que não exactamente à letra, do citado texto pode ser a seguinte:
«Tu, quem quer que sejas, que anseias por honras, que deste modo te sirva para tua glória que ordenes ao escravo que não suje esta lápide».
Por aqui se vê como já em tempo de Romanos havia bons e maus hábitos, no que concerne aos comportamentos políticos. E já poderia reverter em glória de um candidato a cargos públicos («honras») o facto de ele dar ordens expressas aos seus boys (perdoe-se-me o anglicismo, mas… é essa, no plural, a tradução em inglês da palavra latina puer… já então!...) para respeitarem inscrições alheias!

Publicado no quinzenário de Mangualde, Renascimento, 15-05-2011, nº 570, p. 13.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Fomos por aí…

Canteiros
Cumpriu-se o ritual. Em Trajouce, num barracão que cheira a museu, tantos são as antiguidades expostas, os canteiros de S. Domingos de Rana atacaram o Maio, na caldeirada da tradição, no dia 1º. Evocaram-se tempos idos, em que a exploração e o trabalho da pedra era actividade principal no concelho, depois da lavoura; fizeram-se juras de a continuarem a manter… Que lhes não falte coragem nem incentivos!

Ribeira de Trajouce
O almoço foi ao lado da Ribeira de Trajouce,. Em plena povoação. A ribeira fede. Não é limpa há vários anos.

Equipamentos para o lazer
É deveras surpreendente a panorâmica dos equipamentos disponibilizados, ao longo dos últimos anos, pelos executivos da Câmara e das freguesias do concelho de Cascais para actividades de lazer. Aliás, o mesmo está a acontecer por todo o País, tanto nos núcleos urbanos do litoral como nos do interior – o que muito apraz registar.
Espaços ajardinados e com bancos; parques infantis; campos para a prática de jogos; pistas para aqueles malabarismos em patins, de sobe-e-desce; o circuito de manutenção no paredão; pequenos anfiteatros aqui e além, a sonharem com concertos ou espectáculos; os chamados ‘parques urbanos’… Enfim, rosário longo de coisas boas, a que só falta… utilização!
Mentalizemos novos e velhos para de tudo isso usufruírem. Não hesitem! E que a maravilha que acontece no Parque Marechal Carmona, sempre a abarrotar de povo, tenha eco noutros locais!

Parque gratuito
No parque de estacionamento subterrâneo à entrada do Parque Palmela, o letreiro indica «Parque gratuito». No dia 1; perguntei à ESUC, sua gestora, se era para continuar, com o que, naturalmente, muito nos congratularíamos, pois, dada a sua localização, ele serve em exclusivo para os utilizadores do Parque Palmela e do paredão, ou seja, para actividades não-comerciais. Não recebi resposta até ao momento em que escrevo (dia 7, às 16.30 horas).
[Post-scriptum: A ausência de resposta mantém-se (12.10 h. de 12-05-2011)].

Largo dos tanques (Cobre)
Já existe o projecto para a sua reabilitação. A praça de táxis está mal instalada. A paragem do autocarro, junto ao ecoponto. Os tanques – estes – já não têm a serventia para que foram pensados, têm… outras! O chafariz não está no local primitivo…
Demorará muito para que o bonito projecto se concretize no terreno?

Areia – falta ainda sinalização
Depois de muitas insistências, lá se conseguiu que a povoação da Areia (freguesia de Cascais) fosse mencionada numa das placas da Av. A. Amaro da Costa. Mas, ao que parece, ao artífice só encomendaram uma placa e eram precisas mais. Na saída norte da Torre, por exemplo, pela estrada que bordeja a Marinha.


Publicado em Jornal de Cascais, nº 266, 11-05-2011, p. 6.