domingo, 4 de setembro de 2011

Escoural - Uma Gruta Pré-Histórica no Alentejo


Foi apresentada, no passado dia 30 de Julho, a monografia Uma Gruta Pré-Histórica no Alentejo – Escoural, da autoria de António Carlos Silva, acto que assinalou também o fim de diversas obras de melhoramento na gruta e sua envolvente promovidas pela Direcção Regional de Cultura do Alentejo (DRCALEN).


De mui excelente concepção gráfica, é edição daquela Direcção Regional e o autor teve também a colaboração de António Martinho Baptista. Fotografias (a cores e a preto e branco), magníficas; os desenhos, mui elucidativos! 143 páginas densas de informação, mas que se devoram num ápice!

Após um primeiro capítulo em que se dá conta do que foram os difíceis e titubeantes passos desde a descoberta da gruta até ao seu reconhecimento internacional, historia-se miudamente o que foram cinco décadas de investigação, nas suas três fases: as escavações do Museu Etnológico (1963-1968); o reconhecimento do santuário rupestre exterior e as escavações no povoado calcolítico (1977-1984), a cooperação luso-belga e o projecto de valorização (1989-1993).

O capítulo seguinte constitui o fulcro do volume, pois que aí se assinala o que, do ponto de vista científico, o achamento desta gruta e os trabalhos nela desenvolvidos permitiram conhecer acerca dos caçadores neandertais, da sua arte parietal, e o caminho para a primeira utilização da agricultura como forma de subsistência, e o que nos conta o espaço exterior…

Finalmente, a colaboração de A. Martinho Baptista para oportunas considerações de comparação entre esta arte rupestre e o que se encontrou no Vale do Côa, concluindo:

«Não sendo uma gruta com uma grande decoração pictórica, mas com muitas gravuras incisas e até algumas picotagens, o Escoural integra-se bem no grande ciclo da arte paleolítica ocidental, trazendo outra luz ao melhor conhecimento da nossa arte paleolítica de ar livre».

Ficamos, assim, mais ricos. E estão de parabéns o Autor e a DRCALEN!

A Gruta do Escoural situa-se na freguesia de Santiago do Escoural, concelho de Montemor-o-Novo.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Andarilhanças 13

Caixa Geral de Depósitos, Cascais
Agência principal, no Edifício S. José, em pleno coração da vila. 1 de Agosto. Tirei a senha às 10.34 h para fazer um depósito que não podia ser feito na Caixautomática. Indicou-me que tinha 15 pessoas à minha frente. Sentei-me quando tive um lugar livre e ocupei o meu tempo a escrever, a planear e..a ouvir as queixas repetidas dos clientes diante dos 10 guichés de que apenas 5 tinham funcionários e, destes, só 4 atendiam o público. Só uma caixa, porém, para depósitos. Fui atendido às 11.20 h.
Uma inteligência normal saberia aplicar a máxima dos senhores ingleses: «Tempo é dinheiro». Mas… de inteligências normais andamos mui necessitados!

Festas do Mar
Grande êxito de afluência, a demonstrar, pelo menos, duas razões: programação do agrado da população; presença de muita gente em Cascais, os residentes que optaram por não demandar outras paragens e muitos turistas também. Num momento em que, por todo o País, se festejou – este ano mais do que nunca e sabe-se bem porquê… – um «Agosto a gosto», Cascais não deixou, assim, os seus créditos por mãos alheias. E o parque de estacionamento do Marechal Carmona (agora já pago) foi, mui louvavelmente, aberto à população.
Houve também a Feira do Artesanato. Dessa, porém, não posso falar, porque não conseguiram os responsáveis aliciar-me a isso e provarem-me, por exemplo, que seria diferente dos anos anteriores. Aliás – e que se me perdoe se estou errado – não vi por aí publicidade nem o dia da inauguração teve aquela pompa d’outrora, que bom pretexto era sempre para reencontro dos que velam e zelam pelo turismo local.

Novo logótipo da Câmara Municipal de Cascais
Sem alardes, sofreu leve modificação o logótipo da Câmara Municipal de Cascais: o C (que tanto pode ser de Cascais como de Carreiras como já o pudera ser de Capucho) tem novo desenho e acrescentou-se o dístico «Elevado às Pessoas».
Parece-me bem, num momento em que os poderes instituídos e os senhores que mandam (porque podem) de um modo geral não ligam importância às pessoas, que tratam como números. Queixava-se alguém que soubera pela Comunicação Social que não seria reconduzido nas funções que desempenhava. É prática corrente, essa, em todos os quadrantes políticos e a todos os níveis, desde o mais elevado. Uma simples chamada telefónica ou um sms ou um e-mail: «Amanhã, deixa de estar em funções. Arrume as suas coisinhas e vá-se embora».
Que Cascais volte, pois, a ser exemplo – e se eleve às pessoas!
Aliás, gosto particularmente do verbo e do seu significado último: ao tratar os munícipes como pessoas, o Executivo eleva-se, não se rebaixa! As pessoas estão no alto!
Não posso deixar de vivamente me congratular!

Um ginásio na Guia
Também sem alarde (que eu tenha visto) se implantaram aparelhos para a prática de exercícios físicos no miradouro da Guia. Aparelhos simples, sólidos (na esperança de que a gandulagem os não estrague), para uns 30 minutos de pausa e de manutenção. Abençoada ideia!
Creio que os aparelhos do paredão irão sofrer também alguma remodelação, entretanto, uma vez que boa parte deles carece de manutenção.
Congratulo-me por este inteligente apelo à população para que usufrua do espaço público – que muito há por aí para espairecer. Em todos os bairros e lugares!

AAS – o boletim
Chama-se Os Antigos Alunos, vai na sua 13ª série, e – como publicação periódica dos Antigos Alunos Salesianos do Estoril – dá conta das suas actividades. Realce, neste número de Julho passado, a reportagem sobre o 59º Dia Nacional do Antigo Aluno de D. Bosco, que se realizou no Estoril a 18 de Junho. Cento e vinte participantes vindos de vários centros do País, desde o Funchal a Poiares da Régua!...

D. Diogo de Meneses
Saudei com todo o gosto o senhor D. Diogo de Meneses, imortalizado em estátua de bronze, da autoria de Augusto Cid, no jardim fronteiro à Cidadela de Cascais. Ali está, discreto, desde 18 de Maio do ano passado, mas merece, de facto, uma saudação especial, ainda que já ali esteja há tantos meses. Heróico defensor da fortaleza de Cascais, quando, em 1580, os espanhóis, desembarcados na Laje do Ramil (ali ao pé do actual Laboratório Marítimo da Guia), nele encontraram o primeiro foco de resistência, que lhe valeu a morte.
Digna homenagem que faltava a um dos nossos heróis!

Campeonato de Portugal da Juventude
De 5 a 7 de Agosto, com a habitual solenidade e brilhantismo, decorreu no Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais. Uma das poucas iniciativas deixadas à Sociedade Propaganda de Cascais, que, desde os tempos da fundação, ao hipismo tem dado o melhor do seu entusiasmo.

Jorge Marcel (1931-2011)
A inexistência de uma rádio de proximidade e de órgãos de informação com uma rede de correspondentes ligados à comunidade faz com que só mui tardiamente algumas notícias se saibam, mormente aquelas que dizem respeito às pessoas naturais do concelho e que nele tiveram alguma acção relevante. Vai faltando memória!... Louve-se, por isso, a introdução na rubrica «Breves» do nº 51 (Julho/Agosto) da Agenda Cultural do município, de uma nota, na pág. 6, evocativa do passamento, a 14 de Março (!), do pintor cascalense Jorge Marcel.
Se, regressado a Cascais já na década de 80, o passámos a ver amiúde nas manifestações culturais do concelho, sempre com alguma irreverência, a imagem que mais dele guardo é a dos anos 60, altura em que Cascais fervilhou no domínio das Artes, inclusive com o incondicional apoio de Joaquim Miguel de Serra e Moura, presidente da Junta de Turismo da Costa do Sol. Nessa altura, a Junta sabia já o que era o turismo cultural e a sua galeria nas Arcadas, a fazer pirraça (passe a expressão) à galeria do Casino, tinha apertado programa de exposições e era ponto de encontro dos mais conceituados artistas plásticos da nossa praça. Jorge Marcel estava nesse grupo, que frequentemente tinha as suas tertúlias no café Boca do Inferno.
Que descanse em paz!

Publicado em Jornal de Cascais, nº 279, 31-08-2011, p. 4.

sábado, 20 de agosto de 2011

«O tempero da tradição»

Falhei, mais uma vez, bem contra a minha vontade (mas a vida tem destes imprevistos!), a presença na Feira da Serra deste ano!
Lamento-me, porque sei quanto a iniciativa representa de importante no contexto do que, ao longo do ano, se faz no nosso concelho, para manter a tradição.
Nesse aspecto, os responsáveis camarários põem, na verdade, todo o empenho e esmeram-se no pormenor.
Não posso, pois, deixar de me congratular vivamente com o grafismo escolhido para o convite. Apreciei não apenas o relevante significado de ser em cortiça – e todos compreendemos porquê: a cortiça está na base da nossa identidade!

Apreciei também, de modo muito especial, o convite em papel, com aquela coloração de azeite virgem, a lembrar outra das nossas riquezas e tradições. Mas é que essa cor e o raminho de oliveira e as azeitonitas, a cabeça de alhos, o nosso pãozinho, as folhinhas de hortelã, a cebola, a garrafinha de azeite aromatizado com ervas… tudo isso nos faz crescer água na boca e nos regala com o que é verdadeiramente nosso e nos distingue! Para mais, não faltou, discreto, o símbolo da pertença do nosso concelho às cidades que integram a rede internacional do slowfood, do «comer devagar», desta vontade de nos sentarmos à mesa e comer com descanso, num saborear de iguarias…
«O tempero da tradição»! É-o a Feira da Serra. É-o a nossa vontade de acentuar identidade.
Parabéns!

Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], 20-08-2011, p. 15.

sábado, 6 de agosto de 2011

Andarilhanças 12

Amplitudes térmicas
Gripes, alergias várias, estranhos problemas oftalmológicos, febres inexplicáveis… um rol de maleitas que têm levado os cidadãos às consultas de urgência em Cascais. Tudo se deve – a crer em opiniões médicas abalizadas – ao facto de este Verão se apresentar com amplitudes térmicas anormais (calor durante o dia, brusco arrefecimento nocturno), para que não estávamos preparados.

As Bruxas de Salem
O enredo passa-se nos finais do longínquo século XVII numa colónia puritana de Massachusetts. Arthur Miller, o autor, é paladino da luta contra as intolerâncias de todo o tipo e o livro até pode ser considerado uma metáfora para determinado tempo ou… para os nossos tempos, porque não?
Está a peça em cena desde o dia 21 e manter-se-á até ao próximo dia 7, no Teatro Mirita Casimiro. Três razões poderão estar na base da escolha de Carlos Avilez para encenar este drama:
- a primeira, uma certa saudade, pois foi com esta peça, dirigida por Amélia Rey-Colaço, que, em 1957, se iniciou como actor;
- a segunda, a possibilidade de nela incluir, com três elencos, muitos dos alunos do 1º e 2º anos da Escola Profissional de Teatro de Cascais, que assim fazem como que uma prova das suas aptidões e se começam a familiarizar mais de perto com a profissão que encaram vir a seguir;
- a terceira, constituir o texto acutilante grito de alarme contra todas as intolerâncias… A sua actualidade mantém-se; as bruxas agora são outras e, queiramos ou não, acreditemos ou não, «que las hay las hay!». Oh! Se as há!...
Escusado será dizer que o espectáculo se recomenda – pela coreografia, pela nudez minimalista e cativante do cenário, pelo desempenho de todos os actores (foi um prazer rever João Vasco!), pela vontade conseguida dos jovens estudantes.

Terrenos limpos
Bem agradável verificar que, na freguesia de Cascais, se procedeu à limpeza de muitos terrenos particulares e públicos, onde a vegetação desordenadamente imperava e o lixo ganhava abrigo à espera de ser pasto de chamas. Parabéns!
Bairro da Assunção
Uma nota bem positiva: a adaptação a zona de lazer do pinhal junto à Rua Joaquim Ereira. Limpeza, passadeiras, bancos, mesas para um piquenique em família, recipientes para o lixo… Convite a usufruir do espaço e do ar puro.
Uma nota negativa: o abandono em que está o parque infantil da Praça João Martinho de Freitas.

Parque do Rio dos Mochos
Ainda não está muito divulgado entre a população. Poucos, portanto, dele estarão a beneficiar, o que pode redundar em algum descuido no que concerne a manutenção. Passei por lá na manhã de domingo, 24 de Julho, e apenas vi uma mãe com os dois filhotes a brincarem. Ainda se não conseguiu arranjar maneira de manter aberta a entrada para a Av. Infante D. Henrique e mesmo a entrada para a Praceta Joaquim Ereira não está sinalizada.

Filas, o horror!
Causa dor ver, logo de madrugada, as filas a formarem-se ao cimo da Av. Valbom, para o Instituto do Emprego; no centro da vila, para a Segurança Social; na Av. do Ultramar, para as Finanças…
Regozijam-se os governantes por terem cada vez menos funcionários. Sofre o Povo, por ter cada vez menos gente para o atender. E o tempo esvai-se pela calçada, num esperdício…
Não haverá um economista que, um dia, faça contas como deve ser?

Publicar livros
Nascem editoras como cogumelos e compreende-se porquê: primeiro, porque há muita gente a querer escrever; segundo, porque, de um modo geral, a editora compromete-se a publicar desde que o autor pague a edição.
Inclui-se um amigo meu naquele grupo que viveu a guerra de África e que considera a experiência tão singular que vale a pena consigná-la por escrito – para que conste. (Aliás, refere-se Júlio Conrado, no seu Barbershop, a essa leva de escritores, que nos merecem, por isso mesmo, o maior apreço). Escreveu, então, a uma editora: «Estou a finalizar um memorial, passado em Angola, entre 1967 e 1974, com histórias de caça, quotidiano e opiniões, sendo as histórias de caça o foco principal das memórias... as caçadas que saíram mal... essas, sim, capazes de arrancar um sorriso ou uma gargalhada a quem ler... Vivências e afectos». Sim, resposta da editora, editamos tudo. É assim: «O autor paga uma caução; compromete-se a vender 150 livros no dia da apresentação do livro, sendo responsável pelos que não se vendam». Feitas as contas, três editoras consultadas, o meu Amigo era sempre convidado a desembolsar entre 2500 e 3000 euros por uma ediçãozinha… Mas consolava-se: tinha um livro publicado!

Publicado em Jornal de Cascais, nº 278, 03-08-2011, p. 10.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

José Ribeiro Ferreira

Completou 70 anos, no passado dia 23, o Doutor José Ribeiro Ferreira, catedrático de Estudos Clássicos, que terá sido docente de muitos dos estudantes que, ao longo dos últimos 40 anos, passaram pelos bancos da Faculdade de Letras de Coimbra. Cumpriu, por isso, no dia 6, o ritual da sua «última lição», em que historiou a atribulada vida de Édipo, «um mito tirânico que não nos deixa e nos subjuga». A sua ideia era mostrar-nos que «o conhecimento técnico e o poder degradam e o sofrimento redime», mas… o desgraçado do Édipo não se redimiu!
Contudo, se hoje me refiro ao Colega e ao Amigo, é fundamentalmente porque ele soube aliar, de forma notável, a investigação histórica sobre a Grécia antiga, a democracia ateniense, com a arte poética, de tal modo que são quase tantos os livros de Poesia que escreveu como os resultantes da sua perspicaz análise dos textos e dos vestígios antigos.
No jantar de homenagem, distribuiu aos participantes O Caminho e a Escolha, livro ilustrado com fotografias colhidas nas ruínas de Éfeso, síntese do que foi sentindo ao longo da sua caminhada como docente, que se poderá, talvez, consubstanciar-se em três dos versos, que, aliás, por ali se vão repetindo:

Dar-se.
Dar-se inteiro sem pensar em quem ou em si.
Denso, dócil… Nos gestos, nos atos, nas palavras.


Dele tenho lido – para além dos textos sobre a Grécia (tinha de ser, porque éramos ambos docentes da mesma cadeira de História da Antiguidade Clássica!) – os livros de poemas e, destes, apreciei um dos últimos: As Gaivotas, edição de autor, Coimbra, 2009, com fotos de Inês Cerol. Lindas, as fotos, tomadas, a maior parte, em Lagos, cidade que, pela madrugada, com a algazarra das gaivotas acorda. Serenos, os versos:

«Se fôramos gaivotas, amada minha, as longas asas de aconchego acolheriam o espesso passado de ternura e desencontros» (p. 89).

O saber antigo, o olhar atento, a comunhão com as pessoas, os animais, o Universo, enfim! – na total dimensão humana!...

Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 575, 01-08-2011, p. 13.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Flagrantes do quotidiano

Uma rubrica que sempre me encantou nas Selecções do Reader’s Digest desde a juventude foi «Flagrantes da vida real», em que se contam casos singulares e, normalmente, com piada. Quiçá seja por isso que privilegio à ficção a realidade minha envolvente – que, amiúde, também essa realidade assume tonalidades tais que mais parece ficção, a ponto de nos interrogarmos: «Será que eu estou a ver bem?».
Surgiu-me essa dúvida quando analisei o tijolo romano achado no decorrer das escavações dirigidas por José Beleza Moreira na cidade de Eburobrittium (a antecessora de Óbidos). Partido em dois pedaços, mas completo, ostentava inscrição estranhíssima, fora de todos os cânones conhecidos. E nem se chegava a compreender se os rabiscos (assim me pareciam) formariam frase completa. Virei e revirei.
Cheguei a pensar em letras mágicas gravadas diante dum espelho, invertidas. Podia ser nome de pessoa, o que era normal: quantas vezes não nos apeteceu deixar marca da nossa passagem aqui e além (até nas colunas de monumentos célebres!...), gravando o nosso nome e a data?!
Ná! Ali havia números, parecia; mas os romanos não escreviam as datas assim! E nome não se me afigurou haver algum com aquelas letras estranhas…
Decidi-me, pois, pelo método por onde, aliás, deveria ter começado: identificar cada uma das letras e ir escrevendo num papel. VSQ estava claro; dois II em grafitos equivalem geralmente ao E, mais difícil de gravar com barras na pasta ainda mole. Estranhos, os três CCC da segunda linha: seria 300? Mais estranho ainda o rabisco de cima: o C final podia não oferecer dúvidas; mas… antes? A hipótese de um H era verosímil: teríamos HC. Ora, vendo melhor, usque quer dizer «até»; nesse caso, no prolongamento da segunda haste do H poderia estar um I – e tínhamos a palavra «hic», ‘aqui’!
Ficou, pois, decifrado o enigma: o operário estava a contar os tijolos antes de os pôr no forno; com medo de se enganar, chegou a este e escreveu: «Até aqui, 300!».
Quanto sei, não se encontrou ainda outro paralelo no mundo romano. Virá a identificar-se, decerto. Mas este flagrante da vida real de há dois mil anos atrás, além de nos provar que em Eburobrittium havia uma olaria, permite-nos imaginar o cansaço do trabalhador: «Espera aí, deixa-me escrever o conto, antes que me esqueça!».

Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 574, 15-07-2011, p. 13

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A propósito de «Passos à volta da memória»

Senhor Director
Permita-me que venha à sua presença para publicamente me congratular com a iniciativa, em boa hora lançada por uma empresa, a CulturGuarda, em estreita colaboração com entidades locais e regionais, intitulada «Passos à volta da memória – Uma visita encenada à sé catedral da Guarda».
Integrada no programa que visa a «teatralização» (!) do centro histórico da cidade, «Passos à volta da memória» incita a ver “o magnífico retábulo, as vigilantes gárgulas, os recantos escondidos»… de «uma das mais antigas, bonitas e importantes catedrais de Portugal», com «histórias e segredos» que um actor terá todo o gosto em contar aos visitantes até 31 de Agosto.
Num texto de apresentação da actividade – a que tive acesso – escreve-se que «cada visitante receberá […] uma monografia da autoria do historiador João Paulo Cardinal Martins das Neves», acrescentando-se que, assim, «a Guarda passou a ter uma obra inteiramente dedicada à nossa catedral». O feliz retomar, portanto, de algo que já foi feito, em 1990, quando o monumento comemorou 450 anos e o Museu preparou catálogo da exposição “Catedral – As formas no tempo”, o qual, posto à venda no templo, se esgotou em menos de dois meses! É, pois, óptimo que de novo se tenha pensado nisso!
Nesse mesmo texto se afirma:
«E se eu vos disser que a maioria das pessoas da Guarda... nunca entrou na Sé?!! Se eu vos disser que apenas uma minoria muito minoritária participou numa visita de estudo a Sé?!!! E se eu vos disser que só meia dúzia de guardenses subiu as escadas até lá cima e se deixou deslumbrar com a bela vista?!!»
Ora tem o autor do texto inteira razão! E talvez possa aproveitar o ensejo para se interrogar acerca dessa inexistência de visitas ao telhado da catedral para se deslumbrarem com a magnífica panorâmica e verem as tais «vigilantes gárgulas»!... É que eu já tive oportunidade de prestar sobre isso um esclarecimento (vide «Sé da Guarda votada ao abandono», Terras da Beira, 6-3-2008, p. 12): o mal está na inoperância do guarda que teimam em manter ao serviço e que, iniludivelmente, não serve! Não é prestável, não tem apresentação! E não incita sequer os visitantes a subir à cobertura! Aliás, que é que acontece quando o visitante se não integra no programa ora em curso e, depois de o programa acabar, pretender subir? O mesmo de sempre!

«É a hora, portanto, de olharmos para a Sé com outros olhos! Aproveitemos» – escreve-se com entusiasmo na apresentação do programa.
E é mesmo, acreditem! Olhar com olhos de ver e… coragem para agir!

Publicado em Terras da Beira [Guarda], 07-07-2011, p. 10.