Notícias de S. Braz deu a notícia com algum relevo, na sua edição de Agosto: ao fundo da pág. 8, com fotografia, lá vinha a informação de que Nelson Conceição vencera, na cidade italiana de Pineto (Itália), o prémio para a melhor composição moderna para acordeão; mas vale a pena insistir, dada a sua real importância!
O concurso, que é anual, visa premiar os melhores trabalhos – nas categorias worldmusic, clássico, jaze e composição moderna – produzidos para acordeão, a nível internacional. Nelson Conceição, que é natural de Bordeira (ali paredes-meias com o Corotelo e na raia do concelho de Faro) e reside em Loulé, apresentou a obra, para acordeão-solo, «A moça que gostava de Amália», inspirado no fado ‘Amália’. O júri incluía especialistas da Itália, Rússia, França, Macedónia, Áustria, Ucrânia e Lituânia – tudo países onde a tradição do acordeão é relevante.
Honra, pois, ao mérito, dado que o galardoado já fora premiado, em 2000, com um troféu mundial e mais de duas dezenas de alunos seus também se contam entre os distinguidos em concursos nacionais e internacionais.
Nélson Conceição constitui, pois, um dos expoentes duma área geográfica, em que mui orgulhosamente S. Brás se inclui, onde o acordeão se impõe como instrumento de grande virtuosismo. Uma tradição que felizmente se não tem deixado morrer!
Publicado em Notícias de S. Braz (S. Brás de Alportel), nº 178, Setembro de 2011, p. 15.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
«Da pupila dos meus olhos!»
Confesso que, no momento que decidi iniciar a breve série de apontamentos sobre as mensagens patentes em grafitos do tempo dos Romanos, a ideia teve como origem o facto de, com a Dra. Clara Portas, eu ter estudado um sugestivo grafito achado em Mangualde, na chamada «Citânia da Raposeira». Acabámos mesmo por publicar essa breve nota no nº 45 (1993) da revista Ficheiro Epigráfico (nº 204).
Fora gravado após a cozedura, em gesto corrido, no bojo de uma pequena tigela de loiça fina (a que os arqueólogos dão o nome de terra sigillata), cor alaranjada, 140 milímetros de diâmetro. Peça graciosa, portanto, e de uso doméstico.

Pareceu-nos que se poderia ler OCELLI, ainda que do C apenas restasse a terminação superior, uma vez que dois dos três fragmentos da tigela colavam precisamente aí.
Claro que, tendo em conta o que já aqui se disse acerca do modo como se identificavam os lotes de cerâmica no momento em que se colocavam no forno, o mais normal seria interpretar a palavra como o genitivo de um antropónimo e traduzir «de Océlio», uma vez que se regista, de facto, esse nome, embora muito raro. Contudo, aqui o grafito foi feito após a cozedura! Tinha, por conseguinte, uma intenção bem diferente, sobretudo se pensarmos que estamos perante… uma tigelinha, mesmo a jeito de ser usada como presente!...
Assim o interpretámos, pois. Em latim, a palavra ocellus é o diminutivo de oculus, «olho»; e nas vezes em que o seu uso está documentado envolve-o uma atmosfera de ternura: o Oxford Latin Dictionary aponta-o “in tender or emotional language”, «darling», «pupila dos meus olhos», aplicado «to things that are particularly precious or beautiful». E uma das passagens de Plauto mais citadas neste contexto é: Sine tuos ocellos deosculer, voluptas mea, «Deixa-me beijar ternamente os teus olhinhos, volúpia minha!»…
Daí até à nossa imaginação de um gesto foi pequeno o passo: o amante pegara na taça, nela gravara a palavra e… à amada a entregara: «É tua, pupila dos meus olhos!».
Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 577, 15-09-2011, p. 13.
...............
Post-scriptum
Permita-se-me que registe, agradecendo-o, novo comentário enviado pelo Doutor Azevedo e Silva:
«Achei engenhosa a interpretação dada ao referido grafito, inscrito numa taça por um anónimo enamorado para depois a oferecer com ternura à sua amada. Fecunda imaginação com sólido lastro do saber específico! Para dizer a verdade, fascinou-me a interpretação. Parabéns.»
Fora gravado após a cozedura, em gesto corrido, no bojo de uma pequena tigela de loiça fina (a que os arqueólogos dão o nome de terra sigillata), cor alaranjada, 140 milímetros de diâmetro. Peça graciosa, portanto, e de uso doméstico.


Pareceu-nos que se poderia ler OCELLI, ainda que do C apenas restasse a terminação superior, uma vez que dois dos três fragmentos da tigela colavam precisamente aí.
Claro que, tendo em conta o que já aqui se disse acerca do modo como se identificavam os lotes de cerâmica no momento em que se colocavam no forno, o mais normal seria interpretar a palavra como o genitivo de um antropónimo e traduzir «de Océlio», uma vez que se regista, de facto, esse nome, embora muito raro. Contudo, aqui o grafito foi feito após a cozedura! Tinha, por conseguinte, uma intenção bem diferente, sobretudo se pensarmos que estamos perante… uma tigelinha, mesmo a jeito de ser usada como presente!...
Assim o interpretámos, pois. Em latim, a palavra ocellus é o diminutivo de oculus, «olho»; e nas vezes em que o seu uso está documentado envolve-o uma atmosfera de ternura: o Oxford Latin Dictionary aponta-o “in tender or emotional language”, «darling», «pupila dos meus olhos», aplicado «to things that are particularly precious or beautiful». E uma das passagens de Plauto mais citadas neste contexto é: Sine tuos ocellos deosculer, voluptas mea, «Deixa-me beijar ternamente os teus olhinhos, volúpia minha!»…
Daí até à nossa imaginação de um gesto foi pequeno o passo: o amante pegara na taça, nela gravara a palavra e… à amada a entregara: «É tua, pupila dos meus olhos!».
Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 577, 15-09-2011, p. 13.
...............
Post-scriptum
Permita-se-me que registe, agradecendo-o, novo comentário enviado pelo Doutor Azevedo e Silva:
«Achei engenhosa a interpretação dada ao referido grafito, inscrito numa taça por um anónimo enamorado para depois a oferecer com ternura à sua amada. Fecunda imaginação com sólido lastro do saber específico! Para dizer a verdade, fascinou-me a interpretação. Parabéns.»
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
O património urbano
Estranhei quando vi que uma das cadeiras do curso de Turismo da Universidade Lusófona se designava Património Cultural e Urbano. Perguntei-me: «Porquê realçar o ‘urbano’? Não abrange tudo isso a expressão Património Cultural?». Pouco a pouco fui compreendendo, porém, que, de facto, não seria de todo despiciendo salientar a importância do património em contexto urbano – e isso tenho salientado aos meus estudantes.
Recentemente, em informação veiculada pelo ICOM, anunciava-se que Lisboa ia ser, nestes dias, «Capital Mundial dos Museus», dado que «cerca de um milhar e meio de profissionais de museus de quase uma centena de países» vão participar na capital «em três encontros internacionais do Conselho Internacional dos Museus», «acontecimento inédito na história dos museus em Portugal».
E se um dos temas em análise é a conservação – e daí o testemunho de ontem, aqui na ‘museum’, de Pedro Manuel Cardoso, a evocar o trabalho pioneiro, nesse âmbito, do nosso sempre querido mestre Luís Casanovas – não poderá esquecer-se que, no quadro das Jornadas Europeias do Património, iniciativa anual do Conselho da Europa e da União Europeia, a realizar nos dias 23, 24 e 25, o IGESPAR, coordenador nacional da iniciativa, propôs o tema “Património e Paisagem Urbana”, pretendendo «sensibilizar os cidadãos para a necessidade de proteger e valorizar as características da paisagem, nas cidades, vilas e aglomerados urbanos, entendida no seu sentido mais amplo».
Congratulamo-nos, pois, e decerto não será inoportuno recordar que essa é uma das grandes preocupações da Museologia Portuguesa e das pessoas ligadas ao Património. Assim, apenas para dar um exemplo – que foi, na altura, pioneiro – a Dra. Matilde Sousa Franco, então Directora do Museu Nacional de Machado de Castro, deu corpo, em 1981-1983, ao programa «Coimbra antiga e a vivificação dos centros históricos», com as mais diversas iniciativas: exposições, conferências, debates (num deles, sobre precisamente a vivificação dos centros históricos, participaram Siza Vieira e Souto de Moura), seminários, visitas guiadas, projecção de filmes... Data dessa altura o pedido de inscrição do centro histórico da cidade na lista do património mundial da UNESCO.
Num momento em que se mudam chefias e só se fala em redução de custos e, como sempre, aponta-se - ingénua e ignorantemente - para o Património Cultural como um dos domínios em que «há que cortar!», o nosso voto não pode, por conseguinte, deixar de ser: que o bom senso impere e que esta Lisboa, «capital mundial dos museus», saiba mostrar a quem nos governa o que é que isso verdadeiramente significa, mesmo em termos económicos, esses termos do «deve e do haver» que constituem o quotidiano lugar-comum das intervenções políticas actuais.
Publicado na lista 'museum', 15-09-2011
Recentemente, em informação veiculada pelo ICOM, anunciava-se que Lisboa ia ser, nestes dias, «Capital Mundial dos Museus», dado que «cerca de um milhar e meio de profissionais de museus de quase uma centena de países» vão participar na capital «em três encontros internacionais do Conselho Internacional dos Museus», «acontecimento inédito na história dos museus em Portugal».
E se um dos temas em análise é a conservação – e daí o testemunho de ontem, aqui na ‘museum’, de Pedro Manuel Cardoso, a evocar o trabalho pioneiro, nesse âmbito, do nosso sempre querido mestre Luís Casanovas – não poderá esquecer-se que, no quadro das Jornadas Europeias do Património, iniciativa anual do Conselho da Europa e da União Europeia, a realizar nos dias 23, 24 e 25, o IGESPAR, coordenador nacional da iniciativa, propôs o tema “Património e Paisagem Urbana”, pretendendo «sensibilizar os cidadãos para a necessidade de proteger e valorizar as características da paisagem, nas cidades, vilas e aglomerados urbanos, entendida no seu sentido mais amplo».
Congratulamo-nos, pois, e decerto não será inoportuno recordar que essa é uma das grandes preocupações da Museologia Portuguesa e das pessoas ligadas ao Património. Assim, apenas para dar um exemplo – que foi, na altura, pioneiro – a Dra. Matilde Sousa Franco, então Directora do Museu Nacional de Machado de Castro, deu corpo, em 1981-1983, ao programa «Coimbra antiga e a vivificação dos centros históricos», com as mais diversas iniciativas: exposições, conferências, debates (num deles, sobre precisamente a vivificação dos centros históricos, participaram Siza Vieira e Souto de Moura), seminários, visitas guiadas, projecção de filmes... Data dessa altura o pedido de inscrição do centro histórico da cidade na lista do património mundial da UNESCO.
Num momento em que se mudam chefias e só se fala em redução de custos e, como sempre, aponta-se - ingénua e ignorantemente - para o Património Cultural como um dos domínios em que «há que cortar!», o nosso voto não pode, por conseguinte, deixar de ser: que o bom senso impere e que esta Lisboa, «capital mundial dos museus», saiba mostrar a quem nos governa o que é que isso verdadeiramente significa, mesmo em termos económicos, esses termos do «deve e do haver» que constituem o quotidiano lugar-comum das intervenções políticas actuais.
Publicado na lista 'museum', 15-09-2011
Comunicação de proximidade
A circunstância de Jornal de Cascais comemorar, com este número, o seu 6º ano de publicação, regozija-me, enquanto seu colaborador desde os primeiros tempos; acho que estamos a cumprir uma das funções mais importantes da comunicação social local: criar comunidade. Precisaríamos de potenciar a distribuição em papel, para que chegue a toda a gente; mas essa é uma questão a merecer outros apoios. Para já, Jornal de Cascais implantou-se, é lido, comentado e procurado – e isso particularmente nos interessa.
Aniversário é também ensejo para reflexão acerca precisamente dessa função do jornal local – e aqui a minha ‘costela’ de jornalista prende-se com a de ‘historiador’!
A palavra ‘independente’ surge, amiúde, como epígrafe na imprensa local e regional. Postula-se que, para melhor servir a comunidade, o órgão de comunicação esteja isento de ligações políticas, religiosas, económicas, para poder ser o mais possível isento, criticar quando aos seus jornalistas parecer necessária a crítica, louvar quando o louvor se apresente oportuno.
Entra, neste domínio, a publicidade, que é, na maioria dos casos, a principal fonte da sua subsistência. Uma publicidade que nunca deveria envolver condições ou favores. Uma publicidade que, por outro lado, as entidades autárquicas e empresariais deveriam privilegiar, designadamente porque é através da Comunicação Social que se registam actividades e o eco que elas tiveram. E assim se fica a saber, anos mais tarde, o que aconteceu e como – cá está a História a fazer-se!...
Em suma, se os responsáveis pelos órgãos de comunicação não devem ater-se apenas aos comunicados que lhes servem as entidades e limitar-se a transcrevê-los, também se preconiza que os responsáveis autárquicos e empresariais vejam na imprensa local e regional – escrita e falada – o veículo mais adequado para darem a conhecer o que fazem e que gostariam que ficasse perpetuado para o futuro.
Uma última consideração: é ainda muito reduzido, por parte da população, o acesso à Internet e, como as dificuldades económicas vão substancialmente agravar-se (inclusive, e sobretudo, para a classe média), esse acesso será cada vez menor. Ou seja: dado que estamos todos em maré de jornais gratuitos, versões em papel, distribuídas porta a porta ou colocadas em pontos-chave de cada bairro é medida a que urge recorrer.
Publicado em Jornal de Cascais, nº 281, 14-09-2011, p. 6.
Aniversário é também ensejo para reflexão acerca precisamente dessa função do jornal local – e aqui a minha ‘costela’ de jornalista prende-se com a de ‘historiador’!
A palavra ‘independente’ surge, amiúde, como epígrafe na imprensa local e regional. Postula-se que, para melhor servir a comunidade, o órgão de comunicação esteja isento de ligações políticas, religiosas, económicas, para poder ser o mais possível isento, criticar quando aos seus jornalistas parecer necessária a crítica, louvar quando o louvor se apresente oportuno.
Entra, neste domínio, a publicidade, que é, na maioria dos casos, a principal fonte da sua subsistência. Uma publicidade que nunca deveria envolver condições ou favores. Uma publicidade que, por outro lado, as entidades autárquicas e empresariais deveriam privilegiar, designadamente porque é através da Comunicação Social que se registam actividades e o eco que elas tiveram. E assim se fica a saber, anos mais tarde, o que aconteceu e como – cá está a História a fazer-se!...
Em suma, se os responsáveis pelos órgãos de comunicação não devem ater-se apenas aos comunicados que lhes servem as entidades e limitar-se a transcrevê-los, também se preconiza que os responsáveis autárquicos e empresariais vejam na imprensa local e regional – escrita e falada – o veículo mais adequado para darem a conhecer o que fazem e que gostariam que ficasse perpetuado para o futuro.
Uma última consideração: é ainda muito reduzido, por parte da população, o acesso à Internet e, como as dificuldades económicas vão substancialmente agravar-se (inclusive, e sobretudo, para a classe média), esse acesso será cada vez menor. Ou seja: dado que estamos todos em maré de jornais gratuitos, versões em papel, distribuídas porta a porta ou colocadas em pontos-chave de cada bairro é medida a que urge recorrer.
Publicado em Jornal de Cascais, nº 281, 14-09-2011, p. 6.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
A forja
Claro que trabalho de canteiro requeria forja por perto – e disso nos íamos esquecendo!
É que, na verdade, o trabalho do ferreiro tem muito que se lhe diga, desde a manutenção do fogo ao aparentemente simples aguçar dum ponteiro. Toda uma ciência que não vem nos livros (nem poderia vir!), porque haurida em anos e anos de experiência ciosamente transmitida de pais para filhos ou de amigo para colaborador de confiança.
Parte-se o bico do ponteiro ou fica rombo o corte do escopro? Há que arranjá-lo!
A forja era, habitualmente, uma barraca em pedreira mais ou menos central, para servir as que houvesse derredor
Elemento fundamental a forja propriamente dita, fornalha onde ardia vivo o carvão de pedra, atiçado por um ‘fole’ de manivela. Era nas brasas que se punham as ferramentas, até ficarem em brasa.
Com o martelo, o ferreiro batia-lhes então, a jeito, para obter o que se pretendia. Operação que se repetia duas ou três vezes, porque só quando a ferramenta estivesse em brasa é que tinha a maleabilidade bastante. Não se pode… malhar em ferro frio!...
Ia depois a temperar, numa pia com água. E no tempo desse tempero residia a ciência, para que o aço ficasse a preceito e não partisse à primeira pancada.
Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 151-152 (Agosto/Setembro 2011), p. 10.
É que, na verdade, o trabalho do ferreiro tem muito que se lhe diga, desde a manutenção do fogo ao aparentemente simples aguçar dum ponteiro. Toda uma ciência que não vem nos livros (nem poderia vir!), porque haurida em anos e anos de experiência ciosamente transmitida de pais para filhos ou de amigo para colaborador de confiança.
Parte-se o bico do ponteiro ou fica rombo o corte do escopro? Há que arranjá-lo!
A forja era, habitualmente, uma barraca em pedreira mais ou menos central, para servir as que houvesse derredor
Elemento fundamental a forja propriamente dita, fornalha onde ardia vivo o carvão de pedra, atiçado por um ‘fole’ de manivela. Era nas brasas que se punham as ferramentas, até ficarem em brasa.
Com o martelo, o ferreiro batia-lhes então, a jeito, para obter o que se pretendia. Operação que se repetia duas ou três vezes, porque só quando a ferramenta estivesse em brasa é que tinha a maleabilidade bastante. Não se pode… malhar em ferro frio!...
Ia depois a temperar, numa pia com água. E no tempo desse tempero residia a ciência, para que o aço ficasse a preceito e não partisse à primeira pancada.
Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 151-152 (Agosto/Setembro 2011), p. 10.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Andarilhanças 14
Forno crematório
Lê-se na página da Câmara Municipal de Cascais a seguinte informação, datada de 3 de Outubro de 2007:
«Cascais deverá ter, em finais de 2008, um novo Complexo Funerário, dotado de forno crematório. A construir junto ao Cemitério de Alcabideche, o equipamento será alvo de concurso público para a concepção, construção e concessão da exploração aprovado esta semana em reunião de Câmara.
O futuro complexo integrará um forno crematório, complexo funerário (com salas de espera, salas para velório e serviços de apoio), capela, parque de estacionamento e zonas de lazer e virá minimizar as crescentes dificuldades registadas em velórios e funerais, bem como oferecer resposta aos pedidos de cremação.»
Lê-se na página da Câmara Municipal de Oeiras:
«No próximo sábado, dia 30 de Abril [de 2011], tem lugar o lançamento da primeira pedra do Forno Crematório e do Centro Funerário de Barcarena, às 11H00, no terreno adjacente ao cemitério local, localizado na Rua Elias Garcia, em Barcarena.
[…]
Trata-se do primeiro forno crematório existente em Oeiras, o qual serve toda a população de dentro e de fora do concelho.
Esta obra, orçada em 990.360,00€, tem a duração de dez meses e é realizada e financiada pela empresa Tomás de Oliveira, na sequência de concurso público lançado pela Junta de Freguesia de Barcarena. Para tal foi celebrado, entre as duas entidades, um contrato de Concessão de concepção, construção, financiamento, Manutenção e exploração do Forno Crematório e do Centro Funerário de Barcarena.»
Conclusão: perdeu Cascais mais uma oportunidade.
Brasão de Alcabideche
«O brasão foi partido por uma condutora de 32 anos às 06:45 horas no passado dia 09/07/2011, que tinha só 1,6 % de álcool no sangue» – esta a informação que me foi dada, quando indaguei do destino do bonito brasão que, na estrada Estoril-Alcoitão, dava as boas-vindas a quem por ali entrava na freguesia de Alcabideche.
A guerra do Ultramar
Em comentário ao que escrevi sobre a necessidade sentida por muitos dos combatentes na «guerra do Ultramar» de passarem a escrito, nomeadamente em livro, o que por lá, em longos meses, viveram, para que conste, para que não se repita, para que o testemunho permaneça… fui contactado pelo Sr. Eng.º António de Almeida Marques, residente em Parede, autor de À Espera de um Domingo em Terras de Angola. Ainda não tive oportunidade de ler o livro; contudo, quis Almeida Marques ter a gentileza de me explicar que fora edição de autor, que por ela pagara uma «importância significativa», que, no entanto, considera «desprezível em comparação com a minha dívida de gratidão para com os meus ex-camaradas a quem modestamente procurei homenagear, pela sua solidariedade e abnegação sem limites, sempre que solicitei o empenhamento total, com risco de vida, nas mais difíceis missões que me foram impostas superiormente e cumpridas todas as vezes, mas com o sentido claro da sua inutilidade pensava eu».
E acrescentou, na missiva que me endereçou (bem haja!), que aí procura retratar, de modo especial, «o dia-a-dia no isolamento total, as angústias, medos e receios da morte, as dores físicas e as outras que não se vêem, as interiores, as da alma, que marcaram uma juventude sacrificada à intolerância de um Ditador».
Praia das Moitas
Tal como se previra, a marina veio introduzir grandes alterações no movimento das águas na baía de Cascais. Bem se avisou dos inconvenientes, mas… havia estudos, simulações e… tudo iria dar certo, sem problemas!...
Queixam-se agora os pescadores desportivos, porque estão «areadas» as rochas até ao Cabo Raso e não há quem consiga apanhar polvos ali. E as praias de Cascais e dos Estoris ora têm areia ora não.
Praia agradável na última semana de Agosto, em que o Verão quis dar um arzinho da sua graça, foi, com bandeira azul, a das Moitas, entre a piscina Alberto Romano e o quebra-mar do Monte Estoril. Simpático ponto de encontro, registou mar de gente e, num dos dias, até muitos cardumes ali vieram, à babugem, fazer saudação aos banhistas. Servida pelo parque de estacionamento à entrada do Parque Palmela e o belíssimo túnel, com azulejos do mestre Nadir Afonso, até nos faz esquecer as Três Parcas que, ameaçadoras, se erguem lá em cima!...
Publicado em Jornal de Cascais, nº 280, 07-09-2011, p. 4.
Lê-se na página da Câmara Municipal de Cascais a seguinte informação, datada de 3 de Outubro de 2007:
«Cascais deverá ter, em finais de 2008, um novo Complexo Funerário, dotado de forno crematório. A construir junto ao Cemitério de Alcabideche, o equipamento será alvo de concurso público para a concepção, construção e concessão da exploração aprovado esta semana em reunião de Câmara.
O futuro complexo integrará um forno crematório, complexo funerário (com salas de espera, salas para velório e serviços de apoio), capela, parque de estacionamento e zonas de lazer e virá minimizar as crescentes dificuldades registadas em velórios e funerais, bem como oferecer resposta aos pedidos de cremação.»
Lê-se na página da Câmara Municipal de Oeiras:
«No próximo sábado, dia 30 de Abril [de 2011], tem lugar o lançamento da primeira pedra do Forno Crematório e do Centro Funerário de Barcarena, às 11H00, no terreno adjacente ao cemitério local, localizado na Rua Elias Garcia, em Barcarena.
[…]
Trata-se do primeiro forno crematório existente em Oeiras, o qual serve toda a população de dentro e de fora do concelho.
Esta obra, orçada em 990.360,00€, tem a duração de dez meses e é realizada e financiada pela empresa Tomás de Oliveira, na sequência de concurso público lançado pela Junta de Freguesia de Barcarena. Para tal foi celebrado, entre as duas entidades, um contrato de Concessão de concepção, construção, financiamento, Manutenção e exploração do Forno Crematório e do Centro Funerário de Barcarena.»
Conclusão: perdeu Cascais mais uma oportunidade.
Brasão de Alcabideche
«O brasão foi partido por uma condutora de 32 anos às 06:45 horas no passado dia 09/07/2011, que tinha só 1,6 % de álcool no sangue» – esta a informação que me foi dada, quando indaguei do destino do bonito brasão que, na estrada Estoril-Alcoitão, dava as boas-vindas a quem por ali entrava na freguesia de Alcabideche.
A guerra do Ultramar
Em comentário ao que escrevi sobre a necessidade sentida por muitos dos combatentes na «guerra do Ultramar» de passarem a escrito, nomeadamente em livro, o que por lá, em longos meses, viveram, para que conste, para que não se repita, para que o testemunho permaneça… fui contactado pelo Sr. Eng.º António de Almeida Marques, residente em Parede, autor de À Espera de um Domingo em Terras de Angola. Ainda não tive oportunidade de ler o livro; contudo, quis Almeida Marques ter a gentileza de me explicar que fora edição de autor, que por ela pagara uma «importância significativa», que, no entanto, considera «desprezível em comparação com a minha dívida de gratidão para com os meus ex-camaradas a quem modestamente procurei homenagear, pela sua solidariedade e abnegação sem limites, sempre que solicitei o empenhamento total, com risco de vida, nas mais difíceis missões que me foram impostas superiormente e cumpridas todas as vezes, mas com o sentido claro da sua inutilidade pensava eu».
E acrescentou, na missiva que me endereçou (bem haja!), que aí procura retratar, de modo especial, «o dia-a-dia no isolamento total, as angústias, medos e receios da morte, as dores físicas e as outras que não se vêem, as interiores, as da alma, que marcaram uma juventude sacrificada à intolerância de um Ditador».
Praia das Moitas
Tal como se previra, a marina veio introduzir grandes alterações no movimento das águas na baía de Cascais. Bem se avisou dos inconvenientes, mas… havia estudos, simulações e… tudo iria dar certo, sem problemas!...
Queixam-se agora os pescadores desportivos, porque estão «areadas» as rochas até ao Cabo Raso e não há quem consiga apanhar polvos ali. E as praias de Cascais e dos Estoris ora têm areia ora não.
Praia agradável na última semana de Agosto, em que o Verão quis dar um arzinho da sua graça, foi, com bandeira azul, a das Moitas, entre a piscina Alberto Romano e o quebra-mar do Monte Estoril. Simpático ponto de encontro, registou mar de gente e, num dos dias, até muitos cardumes ali vieram, à babugem, fazer saudação aos banhistas. Servida pelo parque de estacionamento à entrada do Parque Palmela e o belíssimo túnel, com azulejos do mestre Nadir Afonso, até nos faz esquecer as Três Parcas que, ameaçadoras, se erguem lá em cima!...
Publicado em Jornal de Cascais, nº 280, 07-09-2011, p. 4.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
O escravo que era diligente
Sabe-se, de vez em quando, que numa lixeira ou num recanto qualquer se encontram livros, papéis abandonados, que mente curiosa adregou olhar para eles e verificar serem, alfim, documentos de interesse para a história duma terra, duma empresa, duma família…
Hoje, que o espaço falta e a documentação digital ganha preponderância, esse problema do cada vez maior abandono da memória consignada em documentos de papel pode assumir gravidade – porque um Povo, um concelho, uma família sem memória perdem as suas raízes e acabam por ter dificuldade em planear futuro.
Aquando do 25 de Abril, a memória ardeu em fogueiras! Remodelações administrativas, falecimentos e subsequentes querelas sucessórias… alimentam as lixeiras de agora, inexoravelmente trituradas para reciclagem depois. E morre a História!
Por isso rejubilam os arqueólogos quando deparam com uma lixeira antiga, manancial de mui preciosa informação. E, como temos visto, até os cacos lhes interessam! Diligentemente tentam colá-los, para reconstituírem as formas originais e, sobretudo, para completarem eventuais grafitos nelas existentes.

Assim aconteceu numa escavação em Alter do Chão, no Verão de 2009. A telha estava partida em pedaços; vislumbravam-se rabiscos; procuraram-se cuidadosamente todos os pedacinhos na terra dali retirada e… o milagre aconteceu: a inscrição reconstituiu-se! E assim ficámos a saber que o escravo, operário da olaria romana decidira ser diligente, há dois mil anos atrás, e, não contente com ir anotando a quantidade de telhas que ia fazendo, escreveu que se chamava Vernaculus e que trabalhava na olaria de Castor, situada em Abeltirium (o nome romano de Alter do Chão)!
Abençoado!
Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 576, 01-09-2011, p. 13.
................
Post-scriptum
Teve o Doutor José Manuel Azevedo e Silva, meu prezado colega na Faculdade de Letras de Coimbra, a gentileza de me enviar, por correio electrónico, no passado dia 6, o seguinte comentário:
«Grato pelas "Notas e Comentários" sobre o artigo "O escravo que era diligente", publicado no Renascimento, de Mangualde, meu concelho natal [...].
O artigo é exemplar em vários aspectos, nomeadamente no estilo e no conteúdo. A história da telha romana de Alter do Chão é fabulosa. Sugere-nos a epifania de um milagre. De igual modo pertinente é a chamada de atenção para a destruição de documentos que calam para sempre a voz da História.
A propósito, refiro uma experiência pessoal idêntica. Fui convidado pela Câmara Municipal de Gouveia para escrever um livro sobre uma figura ilustre, mas quase desconhecida, natural de Arcozelo da Serra, falecida há cerca de 50 anos. O livro foi publicado no ano passado e tem por título José Inês Louro. A Vida, a Obra e a Memória do Médico-Filólogo.
Apaixonei-me, de certo modo, pela referida figura, porque a sua vida e formação científica têm muitos pontos de contacto com a minha: foi sempre trabalhador-estudante ou, dito de outro modo, trabalhou para poder estudar e formar-se em Medicina, no Porto, em 1934. Investigador por natureza, com publicações já no tempo de estudante, trocou a Medicina pela Filologia, vivendo, até ao fim da vida, da magra mesada de Bolseiro do Instituto de Alta Cultura. E, no entanto, foi um dicionarista, um gramático, um ensaísta, em suma, um investigador de elevado nível, especialista reconhecido do Grego e do Latim.
Durante o processo de elaboração do livro, a certa altura pretendi consultar o acervo da sua biblioteca particular e eventuais documentos e papéis pessoais. Fui informado que, no acto das obras de restauração da sua casa do Arcozelo para ser (como foi) transformada em unidade de turismo rural, a sua biblioteca foi junta com o entulho. Uma senhora da aldeia conseguiu salvar 8 livros e o seu precioso caderno de apontamentos de estudante do ensino liceal nocturno.»
Hoje, que o espaço falta e a documentação digital ganha preponderância, esse problema do cada vez maior abandono da memória consignada em documentos de papel pode assumir gravidade – porque um Povo, um concelho, uma família sem memória perdem as suas raízes e acabam por ter dificuldade em planear futuro.
Aquando do 25 de Abril, a memória ardeu em fogueiras! Remodelações administrativas, falecimentos e subsequentes querelas sucessórias… alimentam as lixeiras de agora, inexoravelmente trituradas para reciclagem depois. E morre a História!
Por isso rejubilam os arqueólogos quando deparam com uma lixeira antiga, manancial de mui preciosa informação. E, como temos visto, até os cacos lhes interessam! Diligentemente tentam colá-los, para reconstituírem as formas originais e, sobretudo, para completarem eventuais grafitos nelas existentes.

Assim aconteceu numa escavação em Alter do Chão, no Verão de 2009. A telha estava partida em pedaços; vislumbravam-se rabiscos; procuraram-se cuidadosamente todos os pedacinhos na terra dali retirada e… o milagre aconteceu: a inscrição reconstituiu-se! E assim ficámos a saber que o escravo, operário da olaria romana decidira ser diligente, há dois mil anos atrás, e, não contente com ir anotando a quantidade de telhas que ia fazendo, escreveu que se chamava Vernaculus e que trabalhava na olaria de Castor, situada em Abeltirium (o nome romano de Alter do Chão)!
Abençoado!
Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 576, 01-09-2011, p. 13.
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Post-scriptum
Teve o Doutor José Manuel Azevedo e Silva, meu prezado colega na Faculdade de Letras de Coimbra, a gentileza de me enviar, por correio electrónico, no passado dia 6, o seguinte comentário:
«Grato pelas "Notas e Comentários" sobre o artigo "O escravo que era diligente", publicado no Renascimento, de Mangualde, meu concelho natal [...].
O artigo é exemplar em vários aspectos, nomeadamente no estilo e no conteúdo. A história da telha romana de Alter do Chão é fabulosa. Sugere-nos a epifania de um milagre. De igual modo pertinente é a chamada de atenção para a destruição de documentos que calam para sempre a voz da História.
A propósito, refiro uma experiência pessoal idêntica. Fui convidado pela Câmara Municipal de Gouveia para escrever um livro sobre uma figura ilustre, mas quase desconhecida, natural de Arcozelo da Serra, falecida há cerca de 50 anos. O livro foi publicado no ano passado e tem por título José Inês Louro. A Vida, a Obra e a Memória do Médico-Filólogo.
Apaixonei-me, de certo modo, pela referida figura, porque a sua vida e formação científica têm muitos pontos de contacto com a minha: foi sempre trabalhador-estudante ou, dito de outro modo, trabalhou para poder estudar e formar-se em Medicina, no Porto, em 1934. Investigador por natureza, com publicações já no tempo de estudante, trocou a Medicina pela Filologia, vivendo, até ao fim da vida, da magra mesada de Bolseiro do Instituto de Alta Cultura. E, no entanto, foi um dicionarista, um gramático, um ensaísta, em suma, um investigador de elevado nível, especialista reconhecido do Grego e do Latim.
Durante o processo de elaboração do livro, a certa altura pretendi consultar o acervo da sua biblioteca particular e eventuais documentos e papéis pessoais. Fui informado que, no acto das obras de restauração da sua casa do Arcozelo para ser (como foi) transformada em unidade de turismo rural, a sua biblioteca foi junta com o entulho. Uma senhora da aldeia conseguiu salvar 8 livros e o seu precioso caderno de apontamentos de estudante do ensino liceal nocturno.»
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