Perder-se-á na noite dos tempos o início da actividade do trabalho da pedra em S. Brás. Existia a matéria-prima em abundância; existia a necessidade de se fazerem casas e valados e… o Homem aguçou o engenho!
Foi pouco a pouco inventando os instrumentos que melhor servissem para, das entranhas da terra, se porem os bancos a descoberto (era assim uma espécie de agricultura ao contrário…); depois, para os cortar a preceito, de acordo com os objectivos; em seguida, para os afeiçoar…
A princípio, uma ideia simples de esquadria, para melhor se ajustarem os blocos na parede; contudo, os valores estéticos depressa terão ganhado vulto: no peitoril da janela, na soleira da porta, no baixo-relevo dum portão…
As pedreiras dos Funchais viram, assim, nascer especialistas num labor que requeria experiência e saber. Nas décadas de 30 e 40 do século passado, muitos deles partiram para Marrocos (então francês), onde se levantavam majestosos edifícios públicos e onde os operários são-brasenses aprenderam também novas técnicas. Regressados ao rincão natal, traziam, porém, nas veias essa vontade meridional de andarilhos. E ei-los que aí vão, em debandada, até à península de Lisboa, onde, na década de 40, também novos empreendimentos, do Estado Novo, careciam de obras-primas. Fixaram-se, por exemplo, no concelho de Cascais, onde a tradição do trabalho da pedra também vinha de tempos imemoriais. E ensinaram aos saloios as novas técnicas e com eles outras aprenderam, até porque igualmente de Alcains e dos arredores de Coimbra (a célebre «pedra de Ançã» já afeiçoada na época romana!…) mais canteiros ali afluíram.
Criou-se em Cantanhede o Museu da Pedra; nasceu em Alcains o Museu do Canteiro; fez-se em Cascais, a 18 de Novembro de 2006, um monumento em que se recordaram os anos de oiro da indústria das pedreiras; São Brás e Faro certamente vão dar as mãos para corporizarem algo que – para além do Geoponto dos Funchais – recorde aos vindouros uma ocupação nobre, em que os são-brasenses deram cartas.
A nossa evocação de hoje mais não é, por isso, do que o reavivar de uma memória, a iluminar um património comum que importa valorizar, numa época em que estes valores da terra-mãe precisam de ser acalentados!
Texto incluído no folheto-guia do passeio de 16-03-2008, em S. Brás de Alportel.
domingo, 25 de setembro de 2011
sábado, 24 de setembro de 2011
Andarilhanças 16
Antónia Rama da Silva
Deixou-nos, no passado dia 6, aos 82 anos, D. Antónia Rama da Silva, mãe do nosso prezado colega nestas lides jornalísticas, Rui Rama da Silva, a quem endereçamos sentidos pêsames.
Depois de se ter aposentado da docência, em que sempre foi apreciada pelos colegas e estudantes, pela competência, dinamismo e dedicação ao ensino, D. Antónia continuou a ser exemplo dum espírito que sempre quer aprender mais. Amiúde conversávamos sobre os cursos breves que andava a frequentar, as conferências a que assistia (foi presença habitual durante largos anos nos Cursos Internacionais de Verão de Cascais), os livros que andava a ler…
De trato simples, muito contribuiu para cimentar o espírito de vizinhança no Bairro da Pampilheira, entre cujos moradores mais antigos se contava.
Que descanse em paz, Tia Necas, e que seu exemplo frutifique!
Egoísta
O nº 46 (Junho 2011) da revista Egoísta, editada pela Estoril Sol, tem o traço por tema e abre, em epígrafe, com uma frase de Millôr Fernandes que consubstancia o que, afinal, se pretende com esta sucessão de imagens saídas da pena de ilustres artistas portugueses: «Viver é desenhar sem borracha».

Tem o artista uma visão da realidade; isola partes dela para nos encantar ou, simplesmente, para nos sacudir do torpor e nos obrigar a agarrar a vida, para que… a desenhemos sem necessidade de frequente recurso à borracha!...
Neste número, não há palavras, há quadros: o homem da flauta, que Mário Assis Ferreira pintou aos 7 anos; a energia contagiante e cheia de rostos, do saudoso Malangantana; os instantâneos da Natureza, a lápis, de João Lourenço; o traço minimalista de Júlio Pomar; o exuberante exotismo geométrico de Luís Alves; o grande painel de Ivone Ralha, a ocupar quatro páginas, em jeito de tapeçaria a convidar para um café; o sereno (ou nervoso?) dramatismo negro de Henrique Cayate; a perfeição dos lápis de Marco Mendes, quer na figuração humana quer no retratar arquitectónico; a cidade e as pessoas, de Eduardo Salavisa, a saírem, quais livros, do meio de páginas cinzentas; o torvelinho das cidades de Ricardo Cabral; a serenidade dos olhares de Luís Filipe Cunha; a história desenhada de três samurais, no Japão imperial de 1547, de Rodrigo Prazeres Saias; as aguarelas relaxantes de José Eduardo Agualusa; emaranhadas cabeleiras de Rute Reimão; intrincadas fantasias, num festival de cor, de Joana Vasconcelos; e três pensativos personagens de Ana Mesquita.
Um percurso, um folhear que apetece saborear amiúde!
Atenção à pequenada no Bairro da Pampilheira
Para além da creche, que finalmente entrou em funcionamento no quadro do protocolo assinado pela Junta de Freguesia com a Santa Casa da Misericórdia, saliente-se, com aplauso, a reabilitação do parque infantil junto ao Centro de Dia. Um pavimento de placas sintéticas e fofas substituiu, com inteiro agrado, a areia e os aparelhos foram também recuperados.
Parabéns!
Próxima tarefa da Junta: a Recuperação do parque no Bairro da Assunção!
Querem roubar-nos os pavões!
A biblioteca infanto-juvenil, a área de jogos tradicionais, o quiosque, a caminhada que se propõe, os dois locais de livre acesso à Internet, o Museu dos Condes de Castro Guimarães, as esculturas junto ao parque infantil (repôs-se recentemente a da mãe, que gente inconsciente lograra partir), esse parque e os seus múltiplos aparelhos, a frescura de árvores seculares (algumas delas identificadas, como em jardim botânico) – constituem os grandes atractivos do Parque Marechal Carmona, sobejamente apreciado por nacionais e estrangeiros.
Faltou um dado na enumeração: os animais! Há muito que acabou o minizoo (e eu ainda me lembro de dar amendoins aos macacos e de admirar a velha raposa…); contudo, dele ficaram os pavões, os patos do lago, as tartarugas, os pombos, dizem-me que uma coruja branca anda por lá e algumas aves tropicais já eu vi, as galinhas, galos e pintainhos… São todos eles a alegria da pequenada e aumenta, por isso, dia após dia, a raiva contra as gaivotas que ali, impunemente, matam patinhos, tartaruguinhas e (pasme-se!) devoram os pombos ali à vista de todos, no lago!
Mas, se todos nos encantam, são os pavões e os seus ‘gritos’ um dos ex-líbris do parque. E não é que os estão a levar para outros sítios e, daqui a pouco, nenhum anda por lá? Não ousam as gaivotas comer-lhes as crias, que pavão que se preza lhe dá bicadas fortes; o bicho-homem, porém, está a dar cabo deles! Saberão disso os senhores vereadores, o senhor presidente da Câmara?
Publicado em Jornal de Cascais, nº 282, 21-09-2011, p. 6.
Deixou-nos, no passado dia 6, aos 82 anos, D. Antónia Rama da Silva, mãe do nosso prezado colega nestas lides jornalísticas, Rui Rama da Silva, a quem endereçamos sentidos pêsames.
Depois de se ter aposentado da docência, em que sempre foi apreciada pelos colegas e estudantes, pela competência, dinamismo e dedicação ao ensino, D. Antónia continuou a ser exemplo dum espírito que sempre quer aprender mais. Amiúde conversávamos sobre os cursos breves que andava a frequentar, as conferências a que assistia (foi presença habitual durante largos anos nos Cursos Internacionais de Verão de Cascais), os livros que andava a ler…
De trato simples, muito contribuiu para cimentar o espírito de vizinhança no Bairro da Pampilheira, entre cujos moradores mais antigos se contava.
Que descanse em paz, Tia Necas, e que seu exemplo frutifique!
Egoísta
O nº 46 (Junho 2011) da revista Egoísta, editada pela Estoril Sol, tem o traço por tema e abre, em epígrafe, com uma frase de Millôr Fernandes que consubstancia o que, afinal, se pretende com esta sucessão de imagens saídas da pena de ilustres artistas portugueses: «Viver é desenhar sem borracha».

Tem o artista uma visão da realidade; isola partes dela para nos encantar ou, simplesmente, para nos sacudir do torpor e nos obrigar a agarrar a vida, para que… a desenhemos sem necessidade de frequente recurso à borracha!...
Neste número, não há palavras, há quadros: o homem da flauta, que Mário Assis Ferreira pintou aos 7 anos; a energia contagiante e cheia de rostos, do saudoso Malangantana; os instantâneos da Natureza, a lápis, de João Lourenço; o traço minimalista de Júlio Pomar; o exuberante exotismo geométrico de Luís Alves; o grande painel de Ivone Ralha, a ocupar quatro páginas, em jeito de tapeçaria a convidar para um café; o sereno (ou nervoso?) dramatismo negro de Henrique Cayate; a perfeição dos lápis de Marco Mendes, quer na figuração humana quer no retratar arquitectónico; a cidade e as pessoas, de Eduardo Salavisa, a saírem, quais livros, do meio de páginas cinzentas; o torvelinho das cidades de Ricardo Cabral; a serenidade dos olhares de Luís Filipe Cunha; a história desenhada de três samurais, no Japão imperial de 1547, de Rodrigo Prazeres Saias; as aguarelas relaxantes de José Eduardo Agualusa; emaranhadas cabeleiras de Rute Reimão; intrincadas fantasias, num festival de cor, de Joana Vasconcelos; e três pensativos personagens de Ana Mesquita.
Um percurso, um folhear que apetece saborear amiúde!
Atenção à pequenada no Bairro da Pampilheira
Para além da creche, que finalmente entrou em funcionamento no quadro do protocolo assinado pela Junta de Freguesia com a Santa Casa da Misericórdia, saliente-se, com aplauso, a reabilitação do parque infantil junto ao Centro de Dia. Um pavimento de placas sintéticas e fofas substituiu, com inteiro agrado, a areia e os aparelhos foram também recuperados.
Parabéns!
Próxima tarefa da Junta: a Recuperação do parque no Bairro da Assunção!
Querem roubar-nos os pavões!
A biblioteca infanto-juvenil, a área de jogos tradicionais, o quiosque, a caminhada que se propõe, os dois locais de livre acesso à Internet, o Museu dos Condes de Castro Guimarães, as esculturas junto ao parque infantil (repôs-se recentemente a da mãe, que gente inconsciente lograra partir), esse parque e os seus múltiplos aparelhos, a frescura de árvores seculares (algumas delas identificadas, como em jardim botânico) – constituem os grandes atractivos do Parque Marechal Carmona, sobejamente apreciado por nacionais e estrangeiros.
Faltou um dado na enumeração: os animais! Há muito que acabou o minizoo (e eu ainda me lembro de dar amendoins aos macacos e de admirar a velha raposa…); contudo, dele ficaram os pavões, os patos do lago, as tartarugas, os pombos, dizem-me que uma coruja branca anda por lá e algumas aves tropicais já eu vi, as galinhas, galos e pintainhos… São todos eles a alegria da pequenada e aumenta, por isso, dia após dia, a raiva contra as gaivotas que ali, impunemente, matam patinhos, tartaruguinhas e (pasme-se!) devoram os pombos ali à vista de todos, no lago!
Mas, se todos nos encantam, são os pavões e os seus ‘gritos’ um dos ex-líbris do parque. E não é que os estão a levar para outros sítios e, daqui a pouco, nenhum anda por lá? Não ousam as gaivotas comer-lhes as crias, que pavão que se preza lhe dá bicadas fortes; o bicho-homem, porém, está a dar cabo deles! Saberão disso os senhores vereadores, o senhor presidente da Câmara?
Publicado em Jornal de Cascais, nº 282, 21-09-2011, p. 6.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
José Inês Louro (1905-1969)
Certamente a poucos este nome dirá alguma coisa: «Há figuras de indiscutível mérito que, vá lá saber-se porquê, são postergadas, proscritas, votadas ao ostracismo em vida e liminarmente esquecidas após a morte», escreve José Manuel Azevedo e Silva, nas ‘notas preambulares’ à biografia de José Inês Louro a que decidiu lançar mãos. Acrescenta, porém, que coube a Filipe Mendes a missão de «resgatar a memória desse grande gramático, dicionarista, cultor das línguas clássicas (grego e latim) e da língua portuguesa».
Por isso, essa biografia, em boa hora editada pela Câmara Municipal de Gouveia, em 2010 [ISBN: 978-989-96785-0-7], detém como subtítulo «A vida, a obra e a memória do médico-filólogo».
138 páginas, a que sugestivamente se seguem três em branco para «Notas do leitor», distribuídas precisamente por esses três tópicos: a vida; a obra, como dicionarista, gramático, filólogo, «historiador da palavra e operário da língua portuguesa» (classificações bem sintomáticas e a despertarem, desde logo, enorme curiosidade) e polemista; e a memória após o falecimento, nas comemorações do 1º centenário do seu nascimento [2005] e depois, a que se acrescentam seis testemunhos de personalidades que com o biografado ou a sua obra tiveram mais chegado contacto. Por fim, a sua bibliografia: 5 livros, 72 artigos e 6 recensões.
Teve vida buliçosa o biografado, natural de Arcozelo da Serra, concelho de Gouveia. E esses altos e baixos historia com minúcia o Doutor Azevedo e Silva, baseando-se em testemunhos orais, em notícias colhidas na imprensa local e regional –uma narrativa que se lê com imenso agrado.
De notar, porém, um pormenor, que detém, nos nossos dias, uma importância capital e que urge salientar, para que outros casos idênticos não aconteçam. Pormenor que – diga-se – está na base de eu ter tido acesso agora a esta obra, na sequência do comentário do autor à nota que eu fizera a propósito da necessidade de se preservar a memória (vide http://notascomentarios.blogspot.com/2011/09/o-escravo-que-era-diligente.html):
«Durante o processo de elaboração do livro, a certa altura pretendi consultar o acervo da sua biblioteca particular e eventuais documentos e papéis pessoais. Fui informado que, no acto das obras de restauração da sua casa do Arcozelo para ser (como foi) transformada em unidade de turismo rural, a sua biblioteca foi junta com o entulho. Uma senhora da aldeia conseguiu salvar 8 livros e o seu precioso caderno de apontamentos de estudante do ensino liceal nocturno.»
E assim se logrou salvaguardar boa parte da vida de um filólogo que prestou relevantes serviços à Cultura Portuguesa, nomeadamente no domínio da língua (foi, por exemplo, um dos dedicados colaboradores do Dicionário da Academia).
Bem andou, por conseguinte, a Câmara Municipal de Gouveia em ter patrocinado a edição, em que, mais uma vez, se documenta como a história geral de um País não pode prescindir dos retalhos da história local e dos seus artífices.
Por isso, essa biografia, em boa hora editada pela Câmara Municipal de Gouveia, em 2010 [ISBN: 978-989-96785-0-7], detém como subtítulo «A vida, a obra e a memória do médico-filólogo».138 páginas, a que sugestivamente se seguem três em branco para «Notas do leitor», distribuídas precisamente por esses três tópicos: a vida; a obra, como dicionarista, gramático, filólogo, «historiador da palavra e operário da língua portuguesa» (classificações bem sintomáticas e a despertarem, desde logo, enorme curiosidade) e polemista; e a memória após o falecimento, nas comemorações do 1º centenário do seu nascimento [2005] e depois, a que se acrescentam seis testemunhos de personalidades que com o biografado ou a sua obra tiveram mais chegado contacto. Por fim, a sua bibliografia: 5 livros, 72 artigos e 6 recensões.
Teve vida buliçosa o biografado, natural de Arcozelo da Serra, concelho de Gouveia. E esses altos e baixos historia com minúcia o Doutor Azevedo e Silva, baseando-se em testemunhos orais, em notícias colhidas na imprensa local e regional –uma narrativa que se lê com imenso agrado.
De notar, porém, um pormenor, que detém, nos nossos dias, uma importância capital e que urge salientar, para que outros casos idênticos não aconteçam. Pormenor que – diga-se – está na base de eu ter tido acesso agora a esta obra, na sequência do comentário do autor à nota que eu fizera a propósito da necessidade de se preservar a memória (vide http://notascomentarios.blogspot.com/2011/09/o-escravo-que-era-diligente.html):
«Durante o processo de elaboração do livro, a certa altura pretendi consultar o acervo da sua biblioteca particular e eventuais documentos e papéis pessoais. Fui informado que, no acto das obras de restauração da sua casa do Arcozelo para ser (como foi) transformada em unidade de turismo rural, a sua biblioteca foi junta com o entulho. Uma senhora da aldeia conseguiu salvar 8 livros e o seu precioso caderno de apontamentos de estudante do ensino liceal nocturno.»
E assim se logrou salvaguardar boa parte da vida de um filólogo que prestou relevantes serviços à Cultura Portuguesa, nomeadamente no domínio da língua (foi, por exemplo, um dos dedicados colaboradores do Dicionário da Academia).
Bem andou, por conseguinte, a Câmara Municipal de Gouveia em ter patrocinado a edição, em que, mais uma vez, se documenta como a história geral de um País não pode prescindir dos retalhos da história local e dos seus artífices.
Os putos
Gostei muito da pose gaiata e feliz do casalinho que foi capa da agenda cultural do Município, São Brás Acontece, do mês de Setembro, em que se dedicou especial atenção ao regresso às aulas.

De mochila às costas, ele de ténis e ela de alpercatas, de calçanitos ambos, olharam para a objectiva do fotógrafo com ar de quem pergunta: «Ficamos bem assim?».
Ela mais altinha, de cabelos loiros e lisos, ele de cabelinho curto e ar matreiro – apanhados na passadeira de tijoleira que os encaminhava para a escola. Cena de ternura, a que não pude deixar de ser sensível e, por isso, dei os parabéns aos responsáveis por tão oportuna escolha. E, confesso, senti um bem comovido nó na garganta, quando me foi respondido:
«Os putos são filhos de um casal de funcionários cá da casa. Ela funcionária da limpeza e ele um dos melhores funcionários dos serviços de ambiente… Filhos de um jovem casal muito humilde e trabalhador, daqueles que convive diariamente com o desafio de dividir o magro orçamento familiar…
Eis a razão deste humilde miminho em período de regresso às aulas!».
Assim se cria comunidade! Assim se dá valor às pessoas!
Aplaudo, pois, com ambas as mãos!
P. S.: Chamam-se os meninos Ariana Fernandes e Isaac Faustino.

De mochila às costas, ele de ténis e ela de alpercatas, de calçanitos ambos, olharam para a objectiva do fotógrafo com ar de quem pergunta: «Ficamos bem assim?».
Ela mais altinha, de cabelos loiros e lisos, ele de cabelinho curto e ar matreiro – apanhados na passadeira de tijoleira que os encaminhava para a escola. Cena de ternura, a que não pude deixar de ser sensível e, por isso, dei os parabéns aos responsáveis por tão oportuna escolha. E, confesso, senti um bem comovido nó na garganta, quando me foi respondido:
«Os putos são filhos de um casal de funcionários cá da casa. Ela funcionária da limpeza e ele um dos melhores funcionários dos serviços de ambiente… Filhos de um jovem casal muito humilde e trabalhador, daqueles que convive diariamente com o desafio de dividir o magro orçamento familiar…
Eis a razão deste humilde miminho em período de regresso às aulas!».
Assim se cria comunidade! Assim se dá valor às pessoas!
Aplaudo, pois, com ambas as mãos!
P. S.: Chamam-se os meninos Ariana Fernandes e Isaac Faustino.
S. Brás e o acordeão ‒ honra ao mérito!
Notícias de S. Braz deu a notícia com algum relevo, na sua edição de Agosto: ao fundo da pág. 8, com fotografia, lá vinha a informação de que Nelson Conceição vencera, na cidade italiana de Pineto (Itália), o prémio para a melhor composição moderna para acordeão; mas vale a pena insistir, dada a sua real importância!
O concurso, que é anual, visa premiar os melhores trabalhos – nas categorias worldmusic, clássico, jaze e composição moderna – produzidos para acordeão, a nível internacional. Nelson Conceição, que é natural de Bordeira (ali paredes-meias com o Corotelo e na raia do concelho de Faro) e reside em Loulé, apresentou a obra, para acordeão-solo, «A moça que gostava de Amália», inspirado no fado ‘Amália’. O júri incluía especialistas da Itália, Rússia, França, Macedónia, Áustria, Ucrânia e Lituânia – tudo países onde a tradição do acordeão é relevante.
Honra, pois, ao mérito, dado que o galardoado já fora premiado, em 2000, com um troféu mundial e mais de duas dezenas de alunos seus também se contam entre os distinguidos em concursos nacionais e internacionais.
Nélson Conceição constitui, pois, um dos expoentes duma área geográfica, em que mui orgulhosamente S. Brás se inclui, onde o acordeão se impõe como instrumento de grande virtuosismo. Uma tradição que felizmente se não tem deixado morrer!
Publicado em Notícias de S. Braz (S. Brás de Alportel), nº 178, Setembro de 2011, p. 15.
O concurso, que é anual, visa premiar os melhores trabalhos – nas categorias worldmusic, clássico, jaze e composição moderna – produzidos para acordeão, a nível internacional. Nelson Conceição, que é natural de Bordeira (ali paredes-meias com o Corotelo e na raia do concelho de Faro) e reside em Loulé, apresentou a obra, para acordeão-solo, «A moça que gostava de Amália», inspirado no fado ‘Amália’. O júri incluía especialistas da Itália, Rússia, França, Macedónia, Áustria, Ucrânia e Lituânia – tudo países onde a tradição do acordeão é relevante.
Honra, pois, ao mérito, dado que o galardoado já fora premiado, em 2000, com um troféu mundial e mais de duas dezenas de alunos seus também se contam entre os distinguidos em concursos nacionais e internacionais.
Nélson Conceição constitui, pois, um dos expoentes duma área geográfica, em que mui orgulhosamente S. Brás se inclui, onde o acordeão se impõe como instrumento de grande virtuosismo. Uma tradição que felizmente se não tem deixado morrer!
Publicado em Notícias de S. Braz (S. Brás de Alportel), nº 178, Setembro de 2011, p. 15.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
«Da pupila dos meus olhos!»
Confesso que, no momento que decidi iniciar a breve série de apontamentos sobre as mensagens patentes em grafitos do tempo dos Romanos, a ideia teve como origem o facto de, com a Dra. Clara Portas, eu ter estudado um sugestivo grafito achado em Mangualde, na chamada «Citânia da Raposeira». Acabámos mesmo por publicar essa breve nota no nº 45 (1993) da revista Ficheiro Epigráfico (nº 204).
Fora gravado após a cozedura, em gesto corrido, no bojo de uma pequena tigela de loiça fina (a que os arqueólogos dão o nome de terra sigillata), cor alaranjada, 140 milímetros de diâmetro. Peça graciosa, portanto, e de uso doméstico.

Pareceu-nos que se poderia ler OCELLI, ainda que do C apenas restasse a terminação superior, uma vez que dois dos três fragmentos da tigela colavam precisamente aí.
Claro que, tendo em conta o que já aqui se disse acerca do modo como se identificavam os lotes de cerâmica no momento em que se colocavam no forno, o mais normal seria interpretar a palavra como o genitivo de um antropónimo e traduzir «de Océlio», uma vez que se regista, de facto, esse nome, embora muito raro. Contudo, aqui o grafito foi feito após a cozedura! Tinha, por conseguinte, uma intenção bem diferente, sobretudo se pensarmos que estamos perante… uma tigelinha, mesmo a jeito de ser usada como presente!...
Assim o interpretámos, pois. Em latim, a palavra ocellus é o diminutivo de oculus, «olho»; e nas vezes em que o seu uso está documentado envolve-o uma atmosfera de ternura: o Oxford Latin Dictionary aponta-o “in tender or emotional language”, «darling», «pupila dos meus olhos», aplicado «to things that are particularly precious or beautiful». E uma das passagens de Plauto mais citadas neste contexto é: Sine tuos ocellos deosculer, voluptas mea, «Deixa-me beijar ternamente os teus olhinhos, volúpia minha!»…
Daí até à nossa imaginação de um gesto foi pequeno o passo: o amante pegara na taça, nela gravara a palavra e… à amada a entregara: «É tua, pupila dos meus olhos!».
Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 577, 15-09-2011, p. 13.
...............
Post-scriptum
Permita-se-me que registe, agradecendo-o, novo comentário enviado pelo Doutor Azevedo e Silva:
«Achei engenhosa a interpretação dada ao referido grafito, inscrito numa taça por um anónimo enamorado para depois a oferecer com ternura à sua amada. Fecunda imaginação com sólido lastro do saber específico! Para dizer a verdade, fascinou-me a interpretação. Parabéns.»
Fora gravado após a cozedura, em gesto corrido, no bojo de uma pequena tigela de loiça fina (a que os arqueólogos dão o nome de terra sigillata), cor alaranjada, 140 milímetros de diâmetro. Peça graciosa, portanto, e de uso doméstico.


Pareceu-nos que se poderia ler OCELLI, ainda que do C apenas restasse a terminação superior, uma vez que dois dos três fragmentos da tigela colavam precisamente aí.
Claro que, tendo em conta o que já aqui se disse acerca do modo como se identificavam os lotes de cerâmica no momento em que se colocavam no forno, o mais normal seria interpretar a palavra como o genitivo de um antropónimo e traduzir «de Océlio», uma vez que se regista, de facto, esse nome, embora muito raro. Contudo, aqui o grafito foi feito após a cozedura! Tinha, por conseguinte, uma intenção bem diferente, sobretudo se pensarmos que estamos perante… uma tigelinha, mesmo a jeito de ser usada como presente!...
Assim o interpretámos, pois. Em latim, a palavra ocellus é o diminutivo de oculus, «olho»; e nas vezes em que o seu uso está documentado envolve-o uma atmosfera de ternura: o Oxford Latin Dictionary aponta-o “in tender or emotional language”, «darling», «pupila dos meus olhos», aplicado «to things that are particularly precious or beautiful». E uma das passagens de Plauto mais citadas neste contexto é: Sine tuos ocellos deosculer, voluptas mea, «Deixa-me beijar ternamente os teus olhinhos, volúpia minha!»…
Daí até à nossa imaginação de um gesto foi pequeno o passo: o amante pegara na taça, nela gravara a palavra e… à amada a entregara: «É tua, pupila dos meus olhos!».
Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 577, 15-09-2011, p. 13.
...............
Post-scriptum
Permita-se-me que registe, agradecendo-o, novo comentário enviado pelo Doutor Azevedo e Silva:
«Achei engenhosa a interpretação dada ao referido grafito, inscrito numa taça por um anónimo enamorado para depois a oferecer com ternura à sua amada. Fecunda imaginação com sólido lastro do saber específico! Para dizer a verdade, fascinou-me a interpretação. Parabéns.»
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
O património urbano
Estranhei quando vi que uma das cadeiras do curso de Turismo da Universidade Lusófona se designava Património Cultural e Urbano. Perguntei-me: «Porquê realçar o ‘urbano’? Não abrange tudo isso a expressão Património Cultural?». Pouco a pouco fui compreendendo, porém, que, de facto, não seria de todo despiciendo salientar a importância do património em contexto urbano – e isso tenho salientado aos meus estudantes.
Recentemente, em informação veiculada pelo ICOM, anunciava-se que Lisboa ia ser, nestes dias, «Capital Mundial dos Museus», dado que «cerca de um milhar e meio de profissionais de museus de quase uma centena de países» vão participar na capital «em três encontros internacionais do Conselho Internacional dos Museus», «acontecimento inédito na história dos museus em Portugal».
E se um dos temas em análise é a conservação – e daí o testemunho de ontem, aqui na ‘museum’, de Pedro Manuel Cardoso, a evocar o trabalho pioneiro, nesse âmbito, do nosso sempre querido mestre Luís Casanovas – não poderá esquecer-se que, no quadro das Jornadas Europeias do Património, iniciativa anual do Conselho da Europa e da União Europeia, a realizar nos dias 23, 24 e 25, o IGESPAR, coordenador nacional da iniciativa, propôs o tema “Património e Paisagem Urbana”, pretendendo «sensibilizar os cidadãos para a necessidade de proteger e valorizar as características da paisagem, nas cidades, vilas e aglomerados urbanos, entendida no seu sentido mais amplo».
Congratulamo-nos, pois, e decerto não será inoportuno recordar que essa é uma das grandes preocupações da Museologia Portuguesa e das pessoas ligadas ao Património. Assim, apenas para dar um exemplo – que foi, na altura, pioneiro – a Dra. Matilde Sousa Franco, então Directora do Museu Nacional de Machado de Castro, deu corpo, em 1981-1983, ao programa «Coimbra antiga e a vivificação dos centros históricos», com as mais diversas iniciativas: exposições, conferências, debates (num deles, sobre precisamente a vivificação dos centros históricos, participaram Siza Vieira e Souto de Moura), seminários, visitas guiadas, projecção de filmes... Data dessa altura o pedido de inscrição do centro histórico da cidade na lista do património mundial da UNESCO.
Num momento em que se mudam chefias e só se fala em redução de custos e, como sempre, aponta-se - ingénua e ignorantemente - para o Património Cultural como um dos domínios em que «há que cortar!», o nosso voto não pode, por conseguinte, deixar de ser: que o bom senso impere e que esta Lisboa, «capital mundial dos museus», saiba mostrar a quem nos governa o que é que isso verdadeiramente significa, mesmo em termos económicos, esses termos do «deve e do haver» que constituem o quotidiano lugar-comum das intervenções políticas actuais.
Publicado na lista 'museum', 15-09-2011
Recentemente, em informação veiculada pelo ICOM, anunciava-se que Lisboa ia ser, nestes dias, «Capital Mundial dos Museus», dado que «cerca de um milhar e meio de profissionais de museus de quase uma centena de países» vão participar na capital «em três encontros internacionais do Conselho Internacional dos Museus», «acontecimento inédito na história dos museus em Portugal».
E se um dos temas em análise é a conservação – e daí o testemunho de ontem, aqui na ‘museum’, de Pedro Manuel Cardoso, a evocar o trabalho pioneiro, nesse âmbito, do nosso sempre querido mestre Luís Casanovas – não poderá esquecer-se que, no quadro das Jornadas Europeias do Património, iniciativa anual do Conselho da Europa e da União Europeia, a realizar nos dias 23, 24 e 25, o IGESPAR, coordenador nacional da iniciativa, propôs o tema “Património e Paisagem Urbana”, pretendendo «sensibilizar os cidadãos para a necessidade de proteger e valorizar as características da paisagem, nas cidades, vilas e aglomerados urbanos, entendida no seu sentido mais amplo».
Congratulamo-nos, pois, e decerto não será inoportuno recordar que essa é uma das grandes preocupações da Museologia Portuguesa e das pessoas ligadas ao Património. Assim, apenas para dar um exemplo – que foi, na altura, pioneiro – a Dra. Matilde Sousa Franco, então Directora do Museu Nacional de Machado de Castro, deu corpo, em 1981-1983, ao programa «Coimbra antiga e a vivificação dos centros históricos», com as mais diversas iniciativas: exposições, conferências, debates (num deles, sobre precisamente a vivificação dos centros históricos, participaram Siza Vieira e Souto de Moura), seminários, visitas guiadas, projecção de filmes... Data dessa altura o pedido de inscrição do centro histórico da cidade na lista do património mundial da UNESCO.
Num momento em que se mudam chefias e só se fala em redução de custos e, como sempre, aponta-se - ingénua e ignorantemente - para o Património Cultural como um dos domínios em que «há que cortar!», o nosso voto não pode, por conseguinte, deixar de ser: que o bom senso impere e que esta Lisboa, «capital mundial dos museus», saiba mostrar a quem nos governa o que é que isso verdadeiramente significa, mesmo em termos económicos, esses termos do «deve e do haver» que constituem o quotidiano lugar-comum das intervenções políticas actuais.
Publicado na lista 'museum', 15-09-2011
Subscrever:
Mensagens (Atom)
