terça-feira, 13 de março de 2012

Ter butze

Encantam-me, não há dúvida, as questões de linguagem, porque reconheço nas palavras e nas expressões uma carga cultural imensa. Não se trata da mera questão de se lhes descortinar a etimologia: «vem do grego», «vem do latim», «vem do árabe»... Interessa-me sobretudo verificar como é que elas passam para a linguagem falada e porquê.
Ao largo de Cascais naufragou, a 9 de Novembro de 1939, um vapor holandês que trazia um carregamento de querosene “para conservação das sulipas”. Ao ler a notícia, admirei-me: sulipas? Que poderia ser isso? Era a versão, em gíria, da palavra chulipa, designativa das travessas de madeira das vias-férreas! O aportuguesamento da palavra inglesa sleeper, «dorminhoco», pois que sobre as chulipas ‘dormem’ os carris!...
E nessa ordem de ideias ando às voltas com a palavra butze, cuja grafia correcta desconheço. Sei, porém, que, quando era catraio e jogava ao berlinde, disputávamos quem é que «tinha mais butze», ou seja, quem é que, com a pancada seca do dedo, conseguia atirar o berlinde mais longe. Nunca mais ouvi a palavra nem tenho a menor ideia donde é que possa ter vindo! Será que era ‘butes’ o que queríamos dizer, como se prantássemos pés nos berlindes para eles se porem a andar?...

Publicado no mensário VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 158 (Março 2012) p. 10.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Quinta do Villar - o aproveitamento condigno dum vale singular

Constitui a Ribeira das Vinhas o mais significativo curso de água do concelho de Cascais. Para o seu encanto contribui não o facto de ter sido encanada, no trecho final, de forma a desaguar, quase despercebida, na Praia dos Pescadores, junto ao Palacete Seixas, mas sim a beleza ímpar das suas margens, sobretudo para montante do Bairro S. José.
Cientes dessa maravilha, têm promovido o Grupo Ecológico de Cascais e a Agência Cascais Natura caminhadas ao longo do seu leito, a fim de todos facilmente se aperceberem da biodiversidade vegetal e animal ainda ali existente.
Uma das iniciativas que nunca será de mais elogiar foi a criação do Parque das Penhas do Marmeleiro, a nascente de Murches, que tem página no facebook. Mui agradável equipamento de lazer, de que a população deveria usufruir ainda mais, até para que – com maior frequência das gentes – aos patifes fossem proporcionadas menos oportunidades de dar livre curso às suas pulsões destruidoras. Talvez também assim, com mais assíduos frequentadores, os responsáveis lograssem obter meios para tornarem operacionais os apetrechos da criançada, implantados (mal) em plataforma encharcada.
Por aí a ribeira não é «das Vinhas» mas «do Marmeleiro», por ser esta árvore outrora abundante no vale.
Resulta, de facto, do casamento ente a Ribeira do Pisão e a da Penha Longa, cujas bacias hidrográficas ressumam a plagas mediterrânicas…

As quintas
Esquece-se amiúde que Cascais não é apenas o litoral e que não foi apenas na 2ª metade do século XIX que os nobres descobriram – com os reis – as maravilhas cascalenses. Já muito antes, designadamente junto aos cursos de água, se haviam instalado ilustres famílias, que, a par das delícias do clima, usufruíam da fecundidade da terra, que diligentemente cultivavam: pomares, produtos hortícolas, vinha, olivais… Não se chama «das Vinhas» a ribeira? Sem já falarmos de azenhas e pisões…
Até, pois, ao lugarejo Rio Marmeleiro, tudo eram quintas por aí acima. Bem cuidados socalcos sustinham as terras e o húmus fecundante.

A recuperação da Quinta do Villar
A Quinta das Patinhas – a confinar, agora, pelo sul, com a 3ª circular – era uma delas. Com sua casa «senhorial» à boa maneira das mansões da época, teve como proprietário Armando Penim Villar, cascalense notável inteiramente dedicado à causa pública. Ultrapassou a provecta idade de cem anos e manteve até final sadio espírito de serviço. Deve-lhe muito a Sociedade Propaganda de Cascais assim como a Santa Casa da Misericórdia, de que foi provedor largos anos.
Este seu espírito de serviço soube transmitir ao neto Ricardo, antigo aluno salesiano, que, tendo herdado parte da quinta, resistiu à tentação de propor para ela um plano de urbanização (saborosamente e com jeitinho ali ficava um condomínio de luxo, como os que lhe prantaram no cimo!...) e decidiu meter ombros a obra meritória: ressuscitar a vocação agropecuária do lugar, dedicando-a, de modo particular, à pequenada. Galinhas, coelhos, gansos, patos, perus, ovelhas, burros, cabras… são, para além da abundante e vária passarada que por ali nidifica e vive, os habitantes desta arca de Noé em ponto pequeno. Depois, as árvores (devidamente identificadas) e toda a sorte de produtos hortícolas, cultivados à moda antiga. Há um aeromotor que tira água dum poço, mas também se mostra velhinha nora, que a criançada pode pôr a funcionar, assim como adestrar-se no estranho manejo da picota…
A vista virtual – www.quintadovillar.com – constituirá, sem dúvida, seguro aliciante para uma visita ao vivo! Vale a pena!

Post-scriptum: Pode fazer-se também uma curta visita de helicóptero: http://www.youtube.com/watch?v=9lNgyLzrHWY&feature=youtube_gdata

[Publicado no Jornal de Cascais, nº 304, 07-03-2012, p. 6].

quinta-feira, 1 de março de 2012

Teoria e prática

Escreveu António Tavares no livro Ernesto L. Matias, Lda., a que me referi na edição de 1 de Fevereiro:
«Podemos concluir que a Ernesto L. Matias, Lda. possui uma cultura organizacional estruturante, pese embora não haja uma consciência assumida desse facto» (p. 43).
Explica-se em nota que se pretende explicitar que existe na empresa um «conjunto de valores, práticas, atitudes e métodos de trabalho e de relacionamento que caracterizam intrinsecamente a organização e a aperfeiçoam no ponto de vista orgânico e de funcionamento».
Essa constatação fez-me lembrar três situações da minha vida.
Um dia, nos primórdios da década de 70, Águeda Sena cumprimentou-me porque eu estava a aplicar nas aulas as teorias de Jean Piaget, quando poucos ainda as aplicavam em Portugal. Corri a ver os meus apontamentos de Ciências Pedagógicas, para tentar saber o que, de facto, eu estava a fazer sem disso ter consciência!
A propósito do título do meu livro Cascais – Paisagem com Pessoas dentro, recebi do Brasil uma congratulação:
«Parabéns também pelo título. Vejo que o amigo seguiu a ideia de paisagem/espaço social se preocupando com a representação dos marcos espaciais no cotidiano das pessoas, não é?»
Nunca pensara nisso, confesso! Apenas que, por detrás de uma paisagem, estão pessoas e são elas que, para mim, importam. Expliquei isso ao meu interlocutor, que retorquiu: «És um auto-didata. Sacou as preocupações que os teóricos gastam livros e livros para tentar explicar. Digo tentar porque enrolam muito. Nada como a objetividade dos epigrafistas.»
E, também recentemente, dei conta, num artigo, das diligências para chegar à decifração de inscrições aparentemente indecifráveis. Comentário do responsável pela revista onde está prevista a publicação:
«O texto enviado constitui um conjunto de estratos históricos interessantíssimos a todos os níveis que se encontram num conjunto cuja metodologia de análise quase que poderemos classificar de cripto-epigrafia (a construção conceptual de cripto-história da arte) que recupera o sentido indiciário como um caminho para a fonte total».
Pasmei! Nunca pensara nisso!

Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 588, 01-03-2012, p. 13.

Pampilheira oriental – um recanto muito apetecido!

Fantasias
Vai longe o projecto profundamente inovador do Conde de Monte Real, que sonhou para esta área da freguesia de Cascais, nos primórdios dos anos 30 do século passado, um grande bairro residencial para famílias carenciadas (vide p. 21-24 do livro Recantos de Cascais, CMC, 2007). Só doze moradias se fizeram (o chamado Bairro Operário ou Bairro José Luís), de que o 1º renque, por desocupação e degradação, já a EMGHA, Gestão da Habitação Social de Cascais, EM, SA, demoliu.
O mato cresceu por ali durante anos; houve até um excêntrico sonhador que, sobre o leito da Ribeira do Cobre, afluente da Ribeira das Vinhas, construiu, ao lado da casa, bem alta torre quadrangular, aí de uns cinco andares. Dizia que era para, em momentos agradáveis – havia um compartimento em cada andar… – dali poder espraiar as vistas pelo mar…

A urbanização condicionada
A urbanização do bairro – chamava-se a zona ‘Barraca de Pau’ – na década de 60 procurou não criar anticorpos adormecidos, pois – repito – o terreno fora doado exclusivamente com objectivos filantrópicos. Deu-se, porém, «a volta ao texto», privilegiando-se as cooperativas de habitação e aos construtores dispostos a estabelecerem rendas condicionadas e a darem prioridade no arrendamento a funcionários públicos e, como então surgira a 1ª fábrica na freguesia, a empregados da Standard Eléctrica. Os lotes sobrantes, para sul, venderam-se em hasta pública, para moradias singulares, reservando-se o canto sudeste para pequenas indústrias. É por isso que aí se localizam um estaleiro naval, uma fábrica de meias, oficinas do ramo automóvel, o Centro de Distribuição Postal, o centro de inspecção automóvel, alguns equipamentos comerciais e, mais recentemente, a Clínica CUF.

Maldição?
No local da torre excêntrica, nada se construiu. Maldição temida? Seja como for, bruxarias não as houve, que se saiba, mas se por ali não paira alma penada… parece!
É que o urbanizador teve de deixar o terreno livre e aí preparou mui simpático campo de ténis, que, por falta de uso e de responsável, conheceu paulatina degradação, embora fosse sendo usado pela pequenada e pelos jovens do bairro para seu entretenimento de jogos e bicicletas. Até que, em Novembro de 2008, os moradores foram surpreendidos por um aviso, na Rua Mário Clarel: Não estacione, que vamos iniciar construção! Pergunta aqui, pergunta ali… era o Centro Municipal de Cidadania Rodoviária, que, no segredo camarário, para ali fora projectado pelo Departamento de Planeamento Estratégico. O quê? Cidadania Rodoviária? Alvoroço, movimentação, que é isto?!... E onde é que os nossos jovens vão jogar à bola, andar de bicicleta? Por que carga de água, aqui, um Centro Municipal de Cidadania Rodoviária de que nunca se ouvira falar? Interpelado, o próprio Presidente da autarquia, Dr. António Capucho, disse não estar ao corrente. E também Pedro Silva, presidente da Freguesia, desconhecia. Mui amavelmente, porém, a Presidência aceitou de imediato reunir com uma representação dos moradores; ouviram-se razões e decidiu-se que, na verdade, era melhor não. E logo dali saiu a preparação de novo projecto, cujas linhas gerais foram solicitadas aos moradores pela carta 026744, de 15-05-2009, os quais responderam a 30-06-2009. E encarregou-se dele a Agência Cascais Natura.
Dois anos passados, como nada de concreto se visse, o novo Presidente da CMC, Dr. Carlos Carreiras, aceitou reunir com os moradores, a 14 de Junho de 2011, onde foi apresentado o referido projecto elaborado pela Cascais Natura, sob coordenação do Sr. Arq. João Cardoso de Melo. Na sequência da troca de impressões, foram incorporadas no projecto as considerações dos moradores explanadas em memorando, após o que o assunto passou directamente para a CMC, na perspectiva de o implementar, deixando a Cascais Natura de estar envolvida.
E porque o processo estava – aparentemente! – em andamento, ninguém apresentou para o local qualquer outra proposta, no âmbito do Orçamento Participativo.

Da Natura à… cozinha!
Qual não é, porém, o espanto dos moradores quando, neste Carnaval, vêem funcionários da ESUC proceder à vedação de cerca de um terço do terreno em questão e se descobre a intenção de ali vir a ser instalada… uma cozinha!Claro: sucederam-se os e-mails para a Câmara, dado que – supunham os moradores – só podia ser brincadeira de Carnaval, depois do grande empenho de cidadania que tinham demonstrado ao longo deste processo, num concelho que se quer «elevado às pessoas».
Mais uma vez, porém, se concluiu que organismos camarários entraram por vinha vindimada, que isto é nosso e ninguém tem nada com o facto de querermos aqui instalar a Cozinha com Alma!... Ora toma!
Nenhum inconveniente nisso e até ficamos com a cozinhinha mais à mão, na perspectiva, que se avizinha, de termos de lá ir, de marmita na mão, buscar a sopa de cada dia. Tudo bem! Pampilheira é acolhedora, o sítio é simpático… Não fizera ali o vizinho uma torre de ver o mar?!... Os moradores sentem-se, todavia, frustrados, porque… mais uma vez se praticou a política do facto consumado. E é pena que também a nível local – e em Cascais! – se imitem comportamentos que repudiamos nos governos europeus. Hoje, que a comunicação é tão fácil e que a Internet até funciona…
Os nossos melhores votos para o êxito da Cozinha com Alma, já a funcionar uns duzentos metros mais acima, na Creche da Pampilheira, sem ser em leito de cheia…

[Publicado no Jornal de Cascais, nº 303, 29-02-2012, p. 6].

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Bartolomeu Valentini - uma vida ao serviço da comunidade

A implacável coluna do deve e do haver
Poderá estranhar-se se volto a dedicar uma crónica a uma pessoa e, sobretudo, por se tratar de um sacerdote católico. Que me seja perdoada a ousadia; no entanto, cada vez que sinto estarmos num mundo em que as pessoas enquanto tais não são tidas em consideração, porque para os poderes que mandam neste mundo o que contam são as colunas do deve e do haver, maís necessidade sinto, como cidadão e como jornalista, de chamar a atenção para o facto de que, por detrás dessas colunas, estão pessoas!
Quando ouvi, no sábado, o presidente da Câmara de Torres Vedras explicar que investira no seu Carnaval tantos mil euros e com isso ia arrecadar uns milhões, mais uma vez tive pena de quem, por obediência a esquemas economicistas lineares, não tem em conta a pessoa humana e desconhece a História!
Por isso, dedico hoje umas palavras ao Padre Bartolomeu Valentini.

Um andarilho
Se a esta ‘coluna’ dei o nome de andarilhanças, porque, no fundo, sempre me deu na real gana andar de um lado para o lado sem obediência a esquemas rígidos nem a dogmáticos catecismos, a vida do Padre Valentini cabe aqui de pleno direito.

Nascido a 9 de Novembro de 1912 em Trento, na Itália, ingressou na Sociedade Salesiana, uma congregação religiosa fundada por S. João Bosco, em Turim, na 2ª metade do século XIX, em plena época da Revolução Industrial, para dar ocupação e horizontes às centenas de pés-descalços que, já nessa altura, pululavam nos arredores das cidades. A ideia de D. Bosco foi desde logo ensinar artes e ofícios e, através da alegria e da sadia ocupação dos tempos livres, preparar um futuro para quem, amiúde, não tinha um naco de pão. Bartolomeu Valentini abraçou essa vocação e, aos 19 anos, foi enviado para Portugal, mais concretamente para Poiares da Régua, onde tinha sido aberta uma das primeiras casas salesianas, justamente para formar os obreiros dessa missão. Foram, na verdade, italianos, como era natural, os primeiros salesianos que vieram para o nosso País.

Artes e ofícios
Exerceu em Poiares, no recôndito Trás-os-Montes, as funções de assistente, período intermediário, na sua formação, entre os estudos filosóficos e os teológicos, que desembocariam, em 1938, na ordenação sacerdotal. É colocado então nas Oficinas de S. José, em Lisboa, escola assim designada precisamente porque visava facultar ensino técnico aos jovens desvalidos da capital, ali na zona dos Prazeres, onde ainda hoje se encontra. Foram as Oficinas de S. José o principal alfobre, por exemplo, de tipógrafos de Portugal.
Daí parte para Vila do Conde, uma escola dependente dos Serviços Tutelares de Menores. Aí se recuperavam os jovens através do ensino das artes gráficas. Em 1945, colabora, no Instituto Missionário de Mogofores (Anadia), na instalação do Noviciado, fase de inserção do futuro salesiano na vida da congregação.
De 1946 a 1952, vemo-lo no Asilo de Santo António do Estoril, onde dirige importantes obras de remodelação das instalações para as adaptar às funções do que viria a ser, daí a pouco, a Escola Técnica e Liceal Salesiana. Daí que, a 29 de Maio de 1982, por ocasião do 50º aniversário da Escola, os Antigos Alunos tenham feito questão em que fosse ele a descerrar a placa comemorativa.
Em 1952, fica em Manique, onde preside à construção da capela do então Instituto Missionário Salesiano, a casa de formação com Noviciado e Curso de Filosofia.
De 1953 a 1962, é o grande obreiro da Escola de Artes e Ofícios do Funchal. Em 1962-1963 está de novo no Estoril, como orientador espiritual. Seguem-se estadas nas casas salesianas de Lisboa e de Moçambique (onde os Salesianos haviam erguido grande obra escolar na Namaacha). De 1975 a 1990, vai novamente para o Funchal, agora para superintender à construção do pavilhão desportivo (sempre os Salesianos deram ao desporto uma importância fundamental como apoio na formação dos jovens).
E é só em 1993 que recolhe a Manique, para passar serenamente os últimos anos de vida. Apesar de naturalmente afastado da vida activa da Escola, sempre se interessou pelo caminho que ela estava a seguir e regozijou-se, por exemplo, com a possibilidade de nela se ter construído uma piscina, para mais adequadamente se dar aos jovens o complemento formativo de que necessitavam.

Serenidade
Falei com o Padre Valentini pela última vez a 20 de Setembro de 2008. Em cadeira de rodas já então, impressionou-me a sua enorme serenidade; a lucidez com que me contou, nesses breves minutos em que estivemos juntos, o que fora a sua actividade no Estoril, as lutas que tivera de travar para obter dos benfeitores locais verbas para levar a cabo a construção que se propusera. Senti claramente estar diante de alguém que – como se diz nas Escrituras – tem a sensação clara de que «combateu o bom combate» e que tudo fez, na medida das suas possibilidades, para trazer ao mundo dos jovens e dos que com os jovens mais de perto lidam aquele espírito que D. Bosco soubera incutir nos seus discípulos.

Exéquias e memória
Faleceu no passado dia 12, na Escola Salesiana de Manique, no seu 100º ano de vida.
Presididas pelo Provincial, Padre Artur Pereira, as exéquias foram celebradas por mais de uma vintena de padres salesianos vindos das casas de todo o País.
O Director, Padre David Bernardo, evocou sentidamente os últimos tempos da vida do Padre Valentini: «Não me falta nada; as pessoas são fantásticas, que mais quero?», dizia. Salientou o seu grande desprendimento nesta terra que adoptou como sua; a visão de futuro que sempre o acompanhou; a sua extrema sensibilidade – sabia sempre agradecer! Quando lhe foi administrada a Extrema-unção, chamou os Irmãos, despediu-se deles, agradecendo-lhes e pedindo desculpa por aquilo que, ao longo da sua vida, pudesse ter feito menos bem.
Ficou sepultado no cemitério da Galiza, onde jazem, aliás, muitos dos salesianos que deixaram marca indelével na juventude da linha de Cascais, mormente em meados do século passado. Refere-se amiúde que é Cascais um dos concelhos mais salesianos de Portugal. Na verdade, rara será a família que não teve ou não tem um elemento seu a estudar numa das escolas que os Salesianos ou as Filhas de Maria Auxiliadora (o ramo feminino da congregação) dirigem neste concelho.

[Publicado no Jornal de Cascais, nº 302, 22-02-2012, p. 4].

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

«Eles 'andem' aí!» - a revista do Grupo Cénico

São os vampiros. Não há esquina onde não se encontrem, meio de transporte em que não estejam, hospital em que não se escondam, televisão onde não mostrem os dentes. Prontos, sempre, a sugar-nos o sangue até ao tutano, insaciáveis… Até nós deixarmos!...
Estreou, no passado dia 10, sexta-feira, com este título «Eles “Andem” Aí!», a revista do Grupo Cénico da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Cascais, no seu vetusto e simbólico Teatro Gil Vicente. Vai estar em cena, aos sábados, a partir das 21.30 horas – e é de lá ir para aplaudir e para, como reza o convite dito logo no início do espectáculo, «esquecer tudo o que se passa lá fora e… rir!».

Um símbolo
Antes de traçar, ainda que em largas pinceladas, o panorama da revista, permita-se-me que reafirme ser a iniciativa o símbolo de uma Cascais que resiste, no seu coração histórico. Os mais velhos foram passando o testemunho aos filhos e aos netos, não deixaram morrer um espírito de crítica sadia, de quente convívio, de amor a uma vila seis vezes centenária, com História, e que vai vendo passar, cada vez mais, outras gentes que do ‘espírito de Cascais’ pouco ou mesmo nada percebem.
O Gil Vicente assume-se – e é! – para além da sede da Associação ora a comemorar os 125 anos de existência, a sala onde vive e se revive a tradição. E um espectáculo de revista bem à portuguesa constitui, sem dúvida, o melhor pretexto para um ponto de encontro jovial, autêntico, consolidador de vizinhanças.
Compreende-se, pois, que – apesar de convidados – os representantes das entidades oficiais, nomeadamente autárquicas, não tenham estado presentes. É que o Gil nada lhes diz, porque… noutras águas navegam. Lamentar a ausência? Acho que não, pois cada um escolhe o caminho por que deseja singrar.

Devotado trabalho conjunto
Não foi distribuído programa nem praticamente se referiram nomes. No final do espectáculo, passava da meia-noite e meia, todos os intervenientes encheram o palco: os actores, o ensaiador, os que ficam sempre atrás das cortinas, todos!... Poderia eu próprio (e ainda hesitei) solicitar os dados da ficha técnica, para os escrever aqui. Preferi não o fazer, porque sentimos todos quanto há ali de trabalho conjunto, de dedicação extrema, muitas horas de noites perdidas para a família mas ganhas para uma causa. E nunca será de mais evocar – como se faz, e muito bem, no final do 1º acto – o que tem sido, ao longo dos anos, a actividade do Grupo Cénico, marchando contra tudo e contra todos!

Contra e a favor
Como é de lei numa revista, aplaude-se, critica-se, brinca-se, ri-se… que já lá diziam os Antigos que é a rir que se chicoteiam maldades!
Abre a série o Zé-povinho numa chula mandada (bem gostava ele de mandar, ia tudo a trote e a compasso, oh se ia!...); baila-se o vira, o fandango, arma-se bailarico… E logo ali se vê o que vai ser uma das constantes ao longo da noite: a magnificência, ainda que singela, do original guarda-roupa – um espanto! Termina o Zé a fazer o seu manguito e… o baile acaba!
A passageira quer apanhar o comboio, em Santa Apolónia, mas não sabe para onde vai nem percebe nada do que lhe estão a dizer (saboroso esse conjunto de trocadilhos). Sabe é que está aflita para ir à casa de banho. Pois é: e o comboio partiu sem ela. Vemos o comboio partir todos os dias, não o apanhamos, porque nem as necessidades básicas conseguimos satisfazer…
Fala-se de iniciação sexual. A acompanhante de luxo entra pelo teatro, de carro, e é a cena que se imagina entre ela que ora chega, às tantas da matina, e a lavadeira que já ali está ao serviço desde madrugada, «lava por baixo, lava por cima»…
Original a coreografia do bailado cigano, a fazer-nos sonhar Andaluzias…
Dois bêbados não acertam a medir o pau, porque querem medir-lhe a altura e teimam em pô-lo de pé. Há hoje alguma coisa que se consiga manter de pé? – pergunto eu. E eles também não acertam! E se o medissem no chão? – sugere o ancião que deles se abeira. Mas eles – como tantos outros… – acham que os anciãos só servem para atrapalhar ainda mais!
Ah! E temos um espantalho no jardim. Um? Muitos! O que há mais por aí são espantalhos! Não pensam mas falam, oh se falam! O melhor é pô-los a bailar – e isso conseguiu-se fazer!
E para tratar de festas populares (as que ainda resistem e as que houve outrora) nada melhor que pôr em cena dois atrasados mentais, a quem tudo é permitido. Perguntam pela praça de touros: então, que aconteceu? Riem-se, porque o parque de estacionamento do Parque Marechal Carmona esteve sem abrir bastante tempo porque alguém se esqueceu das necessidades fisiológicas do guarda… E, depois de um enorme trocadilho do «tinha tinha mas não tinha tinha» – e, mais adiante, «pila» que é «pilha» – três são as palavras de ordem não para uma manifestação (também podiam ser!) mas para uma dança: «merda», «porra», «chiça» (com sua licença!).
Abre o 2º acto com um viva aos soldados da paz. Proclama alguém, de seguida, que… «não é piegas!» (onde é que a gente já ouviu isto?); e que «não foi o meu pai que faltou ao emprego, foi o emprego que faltou ao meu pai». E a menina sonha vir a ser actriz de um filme pornográfico, embora não saiba lá muito bem o que isso é.
Sempre aplaudido e muito bem apresentado e coreografado o momento do fado. Há problemas de erecção num consultório; problemas entre uma tripulação no aeroporto; a Escola Ballete Russa mistura-se com as urgências do hospital («eram praí 7 e pico…!»).
Termina-se em apoteose, com um bolero no Bar Cemitério e os vampiros a aparecerem nos mais diversos domínios: Futebol, Código Penal, Saúde, Banca, Obras Públicas, Governo, FMI… Vampiros!

Um lavar d’alma
Saímos, pois, consoladinhos, de alma lavada: manteve-se a tradição; lutou-se por um ideal, gritou-se contra o tal mundo que se prometera deixar lá fora. O Teatro Gil Vicente esteve cheio: o público aplaudiu forte; e o voto é de que os aplausos continuem e tão devotada equipa não esmoreça!
Parabéns!

[Publicado no Jornal de Cascais, nº 301, 15-02-2012, p. 4].

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A nossa costela moura

É por de mais sabido que, no âmbito dos termos concretos, muitas das palavras do nosso quotidiano radicam directamente em vocábulos árabes. Homens do deserto, habituados a olhar bem para o que estava à sua volta e a dar-lhe o nome que melhor o caracterizava, isso transmitiram às gentes com as quais entraram em contacto. Daí também a grande riqueza vocabular do Algarve e do Alentejo, onde o al ou o a iniciais disso são o reflexo mais comum: alguidar, alfinete, almocreve… E até o nosso Alportel se assinala como «a porta» de entrada para a travessia da Serra!
Temos, pois, uma costela moura vocabular.
Curioso, porém, ver como, no dia-a-dia, há estranhas formas de pronunciar as palavras que por vezes nos escapam, tão habituados estamos a ouvi-las e, até, se calhar, a dessa forma as pronunciarmos. Veja-se o caso da palavra azeitona: quantos de nós, na fala corrente em S. Brás, perguntamos: «Tem azeitonas?»? Todos? Talvez não. O mais corrente não é: «Tem zeitonas?»? Exacto: agimos de forma erudita, na fala de todos os dias, porque a palavra árabe é «zaitun»; o a inicial equivale ao artigo definido ‘a’!...
Afinal, neste, como noutros casos, a erudição saiu à rua e connosco quer continuar a conviver!

Publicado no mensário VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 157 (Fevereiro 2012) p. 10.