Peço perdão se volto à monografia da fábrica Ernesto L. Matias, Lda., que nos tem ocupado. É que a sua leitura acabou por me sugerir mais uma reflexão, a propósito da frase: «Hoje já não se praticam os actos de convívio que eram uma marca do fundador: convívios, passeios e excursões a vários pontos turísticos do país» (p. 41).
E será, decerto, por isso que o autor, ao apontar pistas de futuro, ousa sugerir:
«[…] É de considerar acções que acentuem mais a aproximação de todos os elementos da empresa, nomeadamente a comemoração de efemérides: dia da fundação da empresa, aniversário do fundador, felicitar o trabalhador no dia do seu aniversário, entre outros» (p. 45).
Iniciativas que, em seu entender, «teriam um papel de entusiasmo, de motivação adicional, o que poderia traduzir-se num maior envolvimento do funcionário com os objectivos gerais de produção da firma e aumentar a própria produtividade de cada trabalhador» (p. 46).
É bom que tal se proclame em alta voz e amplamente se reconheça! Porquê? Porque são muito outras – e por tal motivo candidatas ao mais rotundo fracasso… – as teorias dos que ora nos mandam por essa Europa:
«Excursões, comezainas, gozo de feriados?!... Estão loucos, seus utópicos duma figa! Mais uns diazinhos de férias como recompensa a quem nunca faltou e se empenhou o ano inteiro? Qual quê! Que mordomia essa!? Acabe-se já com isso! Trabalhar, trabalhar, trabalhar!».
Pois é. Esquecem-se que não estão a lidar com autómatos mas sim com pessoas que sentem, que pensam, que têm uma vida!... Pessoas para quem apreciar um lindo pôr-do-sol repousante em tranquilidade pode ser – é! – eficaz meio de ganhar forças e boa motivação para as tarefas a enfrentar no dia seguinte.
Isso, porém, de «pôr-do-sol», de «tranquilidade» não se ensina já nos compêndios nem nas aulas nem se ouve nos discursos! Seria coisa de… gente efeminada, quando o País é bem latino, mediterrânico, macho, pois então!...
Coitados!
Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 589, 15-03-2012, p. 13.
segunda-feira, 26 de março de 2012
Igrejas Caeiro (18.08.1917-19.02.2012)
Por ter residido em Caxias, homenageou Jornal de Oeiras, na sua edição de 28 de Fevereiro, Igrejas Caeiro, «uma voz da Liberdade» (p. 5). Pôde ler-se, na entrada desse tocante depoimento de um dos amigos, José Manuel Marreiro, que o acompanhou nos últimos anos:
«Igrejas Caeiro até ao fim da vida demonstrou simpatia para com quem o rodeava, manifestando muitas vezes o que lhe custava já não poder fazer nada e os outros terem que fazer tudo».
Era, de facto, assim Igrejas Caeiro e ainda recordo a ‘festa’ que fez quando nos reencontrámos aqui há dois ou três anos, numa cerimónia. Aquele abraço amigo!
Igrejas Caeiro em Cascais
O meu primeiro «contacto» com Igrejas Caeiro aconteceu no ringue de patinagem de Cascais, num dos primeiros anos da década de 50, quando ali apresentou mais uma das sessões que o notabilizaram: «Os Companheiros da Alegria». Meus pais, que raramente iam a manifestações desse teor, não hesitaram em ir e levar-me, porque este programa de variedades detinha uma audiência extraordinária, graças também à inigualável simpatia de Igrejas Caeiro.
Viria a encontrá-lo já na década de 80, quando, no mandato de Helena Roseta (1983-1986), ficou a seu cargo o pelouro da Cultura. De imediato se criou entre nós uma grande empatia, facilitada, aliás também, pela amizade que ambos nutríamos pela então presidente. E foi Igrejas Caeiro quem, depois de Sousa Lara, continuaria a dar à Cultura maior visibilidade em Cascais, após o 25 de Abril.
Recordarei que foi no seu tempo que se criou e dinamizou a Comissão do Património Histórico-Cultural, a que presidiu, comissão constituída por individualidades (representantes de entidades ou a título particular pela sua competência) a quem na Câmara eram submetidos, para parecer, os projectos que se prendessem com o património cultural do concelho.
Para além do natural apoio ao Teatro Experimental de Cascais (ele que fora um homem do teatro), a Câmara comparticipou, logo em Julho de 1983, no Curso Livre de História, Geografia e Sociologia Locais, promovido, no Hotel Estoril-Sol, pela Sociedade Propaganda de Cascais. Hoje, iniciativas destas são vulgares; na altura, eram… pedradas no charco!
Também se vêem colecções de medalhas; desconhecer-se-á, porém, que foi em 1984 que a Câmara patrocinou uma colecção de seis medalhas de bronze (em estojo) intitulada Costa do Estoril Histórica e Monumental, com representação de seis dos mais característicos monumentos do concelho. E fez-se o primeiro guia de visita histórico-turística à vila de Cascais: Cascais, Guia para uma Visita (1983).
Prosseguiu a publicação da revista Arquivo de Cascais (nº 5, 1984), auspiciosamente iniciada ao tempo do seu antecessor, Sousa Lara; patrocinou-se a exposição «Cascais pelo olhar dos seus pintores», iniciativa do Jornal da Costa do Sol no Hotel Atlântico (Janeiro-Fevereiro de 1985).
No domínio da Arqueologia, diligenciou-se para que a gruta do Poço Velho viesse a ser aberta ao público (as inundações fariam abortar o projecto); apoiaram-se sem hesitação as operações de limpeza da villa romana do Alto do Cidreira, em Setembro de 1985, assim como o projecto de escavação do que viria a ser reconhecido como villa romana de Freiria (data desse mês a 1ª campanha).
Um testemunho e um desafio
Álvaro Ferreira – ajferreira74@gmail.com – teve oportunidade de divulgar ele próprio, no dia 22, um testemunho de que se me afigura interessante agora fazer-me eco.
Depois de se referir aos êxitos o folhetim humorístico "Zéquinha e Lelé" (de 1947 a 1948, com Vasco Santana e Irene Velez, sua mulher, na Emissora Nacional) e o já citado programa itinerante de variedades "Companheiros da Alegria" (de 1951 a 1954, para o Rádio Clube Português), dá Álvaro Ferreira particular realce à «impressionante série de entrevistas "Perfil de um Artista" (de 1954 a 1960, para o Rádio Clube Português), que contemplou 258 personalidades das artes e das letras portuguesas e estrangeiras (num total de 300 edições)». Considera, aliás, que esse será, sem dúvida, o seu «principal legado para a posteridade», pois se trata de um «acervo de inestimável valor histórico e documental», sendo «muito provável até que para algumas figuras da cultura portuguesa do século XX o único registo de voz que exista seja o desses fonogramas».
E acrescenta:
«Os registos (desconheço se todos – é bem possível que alguns tenham sido entretanto destruídos) estão soterrados e esquecidos sob o pó, no arquivo histórico da RDP. Ora o melhor tributo que a rádio pública pode prestar à memória de Igrejas Caeiro (e, bem assim, à dos seus eméritos entrevistados) é a transmissão de todas essas entrevistas».
Cá está uma excelente ideia!
Executivo fez um minuto de silêncio
Conforme se pode ler na minuta da acta da reunião camarária de 20 de Fevereiro, no primeiro ponto antes da ordem do dia, o Senhor Presidente evocou a memória de Igrejas Caeiro e lembrou que «também foi vereador nesta Câmara Municipal», acrescentando-se:
«A sua vida expandiu-se pela rádio, pelo teatro, pela televisão e pelo cinema, com especial destaque antes do 25 de Abril, tendo sido um cidadão empenhado na luta pela democracia»; «terminou propondo que a Câmara Municipal guardasse um minuto de silêncio em sua memória».
Nada mais se diz nessa minuta.
[Publicado no Jornal de Cascais, nº 305, 14-03-2012, p. 6].
«Igrejas Caeiro até ao fim da vida demonstrou simpatia para com quem o rodeava, manifestando muitas vezes o que lhe custava já não poder fazer nada e os outros terem que fazer tudo».
Era, de facto, assim Igrejas Caeiro e ainda recordo a ‘festa’ que fez quando nos reencontrámos aqui há dois ou três anos, numa cerimónia. Aquele abraço amigo!
Igrejas Caeiro em Cascais
O meu primeiro «contacto» com Igrejas Caeiro aconteceu no ringue de patinagem de Cascais, num dos primeiros anos da década de 50, quando ali apresentou mais uma das sessões que o notabilizaram: «Os Companheiros da Alegria». Meus pais, que raramente iam a manifestações desse teor, não hesitaram em ir e levar-me, porque este programa de variedades detinha uma audiência extraordinária, graças também à inigualável simpatia de Igrejas Caeiro.
Viria a encontrá-lo já na década de 80, quando, no mandato de Helena Roseta (1983-1986), ficou a seu cargo o pelouro da Cultura. De imediato se criou entre nós uma grande empatia, facilitada, aliás também, pela amizade que ambos nutríamos pela então presidente. E foi Igrejas Caeiro quem, depois de Sousa Lara, continuaria a dar à Cultura maior visibilidade em Cascais, após o 25 de Abril.
Recordarei que foi no seu tempo que se criou e dinamizou a Comissão do Património Histórico-Cultural, a que presidiu, comissão constituída por individualidades (representantes de entidades ou a título particular pela sua competência) a quem na Câmara eram submetidos, para parecer, os projectos que se prendessem com o património cultural do concelho.
Para além do natural apoio ao Teatro Experimental de Cascais (ele que fora um homem do teatro), a Câmara comparticipou, logo em Julho de 1983, no Curso Livre de História, Geografia e Sociologia Locais, promovido, no Hotel Estoril-Sol, pela Sociedade Propaganda de Cascais. Hoje, iniciativas destas são vulgares; na altura, eram… pedradas no charco!
Também se vêem colecções de medalhas; desconhecer-se-á, porém, que foi em 1984 que a Câmara patrocinou uma colecção de seis medalhas de bronze (em estojo) intitulada Costa do Estoril Histórica e Monumental, com representação de seis dos mais característicos monumentos do concelho. E fez-se o primeiro guia de visita histórico-turística à vila de Cascais: Cascais, Guia para uma Visita (1983).
Prosseguiu a publicação da revista Arquivo de Cascais (nº 5, 1984), auspiciosamente iniciada ao tempo do seu antecessor, Sousa Lara; patrocinou-se a exposição «Cascais pelo olhar dos seus pintores», iniciativa do Jornal da Costa do Sol no Hotel Atlântico (Janeiro-Fevereiro de 1985).
No domínio da Arqueologia, diligenciou-se para que a gruta do Poço Velho viesse a ser aberta ao público (as inundações fariam abortar o projecto); apoiaram-se sem hesitação as operações de limpeza da villa romana do Alto do Cidreira, em Setembro de 1985, assim como o projecto de escavação do que viria a ser reconhecido como villa romana de Freiria (data desse mês a 1ª campanha).
Um testemunho e um desafio
Álvaro Ferreira – ajferreira74@gmail.com – teve oportunidade de divulgar ele próprio, no dia 22, um testemunho de que se me afigura interessante agora fazer-me eco.
Depois de se referir aos êxitos o folhetim humorístico "Zéquinha e Lelé" (de 1947 a 1948, com Vasco Santana e Irene Velez, sua mulher, na Emissora Nacional) e o já citado programa itinerante de variedades "Companheiros da Alegria" (de 1951 a 1954, para o Rádio Clube Português), dá Álvaro Ferreira particular realce à «impressionante série de entrevistas "Perfil de um Artista" (de 1954 a 1960, para o Rádio Clube Português), que contemplou 258 personalidades das artes e das letras portuguesas e estrangeiras (num total de 300 edições)». Considera, aliás, que esse será, sem dúvida, o seu «principal legado para a posteridade», pois se trata de um «acervo de inestimável valor histórico e documental», sendo «muito provável até que para algumas figuras da cultura portuguesa do século XX o único registo de voz que exista seja o desses fonogramas».
E acrescenta:
«Os registos (desconheço se todos – é bem possível que alguns tenham sido entretanto destruídos) estão soterrados e esquecidos sob o pó, no arquivo histórico da RDP. Ora o melhor tributo que a rádio pública pode prestar à memória de Igrejas Caeiro (e, bem assim, à dos seus eméritos entrevistados) é a transmissão de todas essas entrevistas».
Cá está uma excelente ideia!
Executivo fez um minuto de silêncio
Conforme se pode ler na minuta da acta da reunião camarária de 20 de Fevereiro, no primeiro ponto antes da ordem do dia, o Senhor Presidente evocou a memória de Igrejas Caeiro e lembrou que «também foi vereador nesta Câmara Municipal», acrescentando-se:
«A sua vida expandiu-se pela rádio, pelo teatro, pela televisão e pelo cinema, com especial destaque antes do 25 de Abril, tendo sido um cidadão empenhado na luta pela democracia»; «terminou propondo que a Câmara Municipal guardasse um minuto de silêncio em sua memória».
Nada mais se diz nessa minuta.
[Publicado no Jornal de Cascais, nº 305, 14-03-2012, p. 6].
terça-feira, 13 de março de 2012
Ter butze
Encantam-me, não há dúvida, as questões de linguagem, porque reconheço nas palavras e nas expressões uma carga cultural imensa. Não se trata da mera questão de se lhes descortinar a etimologia: «vem do grego», «vem do latim», «vem do árabe»... Interessa-me sobretudo verificar como é que elas passam para a linguagem falada e porquê.
Ao largo de Cascais naufragou, a 9 de Novembro de 1939, um vapor holandês que trazia um carregamento de querosene “para conservação das sulipas”. Ao ler a notícia, admirei-me: sulipas? Que poderia ser isso? Era a versão, em gíria, da palavra chulipa, designativa das travessas de madeira das vias-férreas! O aportuguesamento da palavra inglesa sleeper, «dorminhoco», pois que sobre as chulipas ‘dormem’ os carris!...
E nessa ordem de ideias ando às voltas com a palavra butze, cuja grafia correcta desconheço. Sei, porém, que, quando era catraio e jogava ao berlinde, disputávamos quem é que «tinha mais butze», ou seja, quem é que, com a pancada seca do dedo, conseguia atirar o berlinde mais longe. Nunca mais ouvi a palavra nem tenho a menor ideia donde é que possa ter vindo! Será que era ‘butes’ o que queríamos dizer, como se prantássemos pés nos berlindes para eles se porem a andar?...
Publicado no mensário VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 158 (Março 2012) p. 10.
Ao largo de Cascais naufragou, a 9 de Novembro de 1939, um vapor holandês que trazia um carregamento de querosene “para conservação das sulipas”. Ao ler a notícia, admirei-me: sulipas? Que poderia ser isso? Era a versão, em gíria, da palavra chulipa, designativa das travessas de madeira das vias-férreas! O aportuguesamento da palavra inglesa sleeper, «dorminhoco», pois que sobre as chulipas ‘dormem’ os carris!...
E nessa ordem de ideias ando às voltas com a palavra butze, cuja grafia correcta desconheço. Sei, porém, que, quando era catraio e jogava ao berlinde, disputávamos quem é que «tinha mais butze», ou seja, quem é que, com a pancada seca do dedo, conseguia atirar o berlinde mais longe. Nunca mais ouvi a palavra nem tenho a menor ideia donde é que possa ter vindo! Será que era ‘butes’ o que queríamos dizer, como se prantássemos pés nos berlindes para eles se porem a andar?...
Publicado no mensário VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 158 (Março 2012) p. 10.
sexta-feira, 9 de março de 2012
Quinta do Villar - o aproveitamento condigno dum vale singular
Constitui a Ribeira das Vinhas o mais significativo curso de água do concelho de Cascais. Para o seu encanto contribui não o facto de ter sido encanada, no trecho final, de forma a desaguar, quase despercebida, na Praia dos Pescadores, junto ao Palacete Seixas, mas sim a beleza ímpar das suas margens, sobretudo para montante do Bairro S. José.
Cientes dessa maravilha, têm promovido o Grupo Ecológico de Cascais e a Agência Cascais Natura caminhadas ao longo do seu leito, a fim de todos facilmente se aperceberem da biodiversidade vegetal e animal ainda ali existente.
Uma das iniciativas que nunca será de mais elogiar foi a criação do Parque das Penhas do Marmeleiro, a nascente de Murches, que tem página no facebook. Mui agradável equipamento de lazer, de que a população deveria usufruir ainda mais, até para que – com maior frequência das gentes – aos patifes fossem proporcionadas menos oportunidades de dar livre curso às suas pulsões destruidoras. Talvez também assim, com mais assíduos frequentadores, os responsáveis lograssem obter meios para tornarem operacionais os apetrechos da criançada, implantados (mal) em plataforma encharcada.
Por aí a ribeira não é «das Vinhas» mas «do Marmeleiro», por ser esta árvore outrora abundante no vale.
Resulta, de facto, do casamento ente a Ribeira do Pisão e a da Penha Longa, cujas bacias hidrográficas ressumam a plagas mediterrânicas…
As quintas
Esquece-se amiúde que Cascais não é apenas o litoral e que não foi apenas na 2ª metade do século XIX que os nobres descobriram – com os reis – as maravilhas cascalenses. Já muito antes, designadamente junto aos cursos de água, se haviam instalado ilustres famílias, que, a par das delícias do clima, usufruíam da fecundidade da terra, que diligentemente cultivavam: pomares, produtos hortícolas, vinha, olivais… Não se chama «das Vinhas» a ribeira? Sem já falarmos de azenhas e pisões…
Até, pois, ao lugarejo Rio Marmeleiro, tudo eram quintas por aí acima. Bem cuidados socalcos sustinham as terras e o húmus fecundante.
A recuperação da Quinta do Villar
A Quinta das Patinhas – a confinar, agora, pelo sul, com a 3ª circular – era uma delas. Com sua casa «senhorial» à boa maneira das mansões da época, teve como proprietário Armando Penim Villar, cascalense notável inteiramente dedicado à causa pública. Ultrapassou a provecta idade de cem anos e manteve até final sadio espírito de serviço. Deve-lhe muito a Sociedade Propaganda de Cascais assim como a Santa Casa da Misericórdia, de que foi provedor largos anos.
Este seu espírito de serviço soube transmitir ao neto Ricardo, antigo aluno salesiano, que, tendo herdado parte da quinta, resistiu à tentação de propor para ela um plano de urbanização (saborosamente e com jeitinho ali ficava um condomínio de luxo, como os que lhe prantaram no cimo!...) e decidiu meter ombros a obra meritória: ressuscitar a vocação agropecuária do lugar, dedicando-a, de modo particular, à pequenada.
Galinhas, coelhos, gansos, patos, perus, ovelhas, burros, cabras… são, para além da abundante e vária passarada que por ali nidifica e vive, os habitantes desta arca de Noé em ponto pequeno. Depois, as árvores (devidamente identificadas) e toda a sorte de produtos hortícolas, cultivados à moda antiga. Há um aeromotor que tira água dum poço, mas também se mostra velhinha nora, que a criançada pode pôr a funcionar, assim como adestrar-se no estranho manejo da picota…
A vista virtual – www.quintadovillar.com – constituirá, sem dúvida, seguro aliciante para uma visita ao vivo! Vale a pena!
Post-scriptum: Pode fazer-se também uma curta visita de helicóptero: http://www.youtube.com/watch?v=9lNgyLzrHWY&feature=youtube_gdata
[Publicado no Jornal de Cascais, nº 304, 07-03-2012, p. 6].
Cientes dessa maravilha, têm promovido o Grupo Ecológico de Cascais e a Agência Cascais Natura caminhadas ao longo do seu leito, a fim de todos facilmente se aperceberem da biodiversidade vegetal e animal ainda ali existente.
Uma das iniciativas que nunca será de mais elogiar foi a criação do Parque das Penhas do Marmeleiro, a nascente de Murches, que tem página no facebook. Mui agradável equipamento de lazer, de que a população deveria usufruir ainda mais, até para que – com maior frequência das gentes – aos patifes fossem proporcionadas menos oportunidades de dar livre curso às suas pulsões destruidoras. Talvez também assim, com mais assíduos frequentadores, os responsáveis lograssem obter meios para tornarem operacionais os apetrechos da criançada, implantados (mal) em plataforma encharcada.
Por aí a ribeira não é «das Vinhas» mas «do Marmeleiro», por ser esta árvore outrora abundante no vale.
Resulta, de facto, do casamento ente a Ribeira do Pisão e a da Penha Longa, cujas bacias hidrográficas ressumam a plagas mediterrânicas…
As quintas
Esquece-se amiúde que Cascais não é apenas o litoral e que não foi apenas na 2ª metade do século XIX que os nobres descobriram – com os reis – as maravilhas cascalenses. Já muito antes, designadamente junto aos cursos de água, se haviam instalado ilustres famílias, que, a par das delícias do clima, usufruíam da fecundidade da terra, que diligentemente cultivavam: pomares, produtos hortícolas, vinha, olivais… Não se chama «das Vinhas» a ribeira? Sem já falarmos de azenhas e pisões…
Até, pois, ao lugarejo Rio Marmeleiro, tudo eram quintas por aí acima. Bem cuidados socalcos sustinham as terras e o húmus fecundante.
A recuperação da Quinta do Villar
A Quinta das Patinhas – a confinar, agora, pelo sul, com a 3ª circular – era uma delas. Com sua casa «senhorial» à boa maneira das mansões da época, teve como proprietário Armando Penim Villar, cascalense notável inteiramente dedicado à causa pública. Ultrapassou a provecta idade de cem anos e manteve até final sadio espírito de serviço. Deve-lhe muito a Sociedade Propaganda de Cascais assim como a Santa Casa da Misericórdia, de que foi provedor largos anos.
Este seu espírito de serviço soube transmitir ao neto Ricardo, antigo aluno salesiano, que, tendo herdado parte da quinta, resistiu à tentação de propor para ela um plano de urbanização (saborosamente e com jeitinho ali ficava um condomínio de luxo, como os que lhe prantaram no cimo!...) e decidiu meter ombros a obra meritória: ressuscitar a vocação agropecuária do lugar, dedicando-a, de modo particular, à pequenada.
Galinhas, coelhos, gansos, patos, perus, ovelhas, burros, cabras… são, para além da abundante e vária passarada que por ali nidifica e vive, os habitantes desta arca de Noé em ponto pequeno. Depois, as árvores (devidamente identificadas) e toda a sorte de produtos hortícolas, cultivados à moda antiga. Há um aeromotor que tira água dum poço, mas também se mostra velhinha nora, que a criançada pode pôr a funcionar, assim como adestrar-se no estranho manejo da picota…A vista virtual – www.quintadovillar.com – constituirá, sem dúvida, seguro aliciante para uma visita ao vivo! Vale a pena!
Post-scriptum: Pode fazer-se também uma curta visita de helicóptero: http://www.youtube.com/watch?v=9lNgyLzrHWY&feature=youtube_gdata
[Publicado no Jornal de Cascais, nº 304, 07-03-2012, p. 6].
quinta-feira, 1 de março de 2012
Teoria e prática
Escreveu António Tavares no livro Ernesto L. Matias, Lda., a que me referi na edição de 1 de Fevereiro:
«Podemos concluir que a Ernesto L. Matias, Lda. possui uma cultura organizacional estruturante, pese embora não haja uma consciência assumida desse facto» (p. 43).
Explica-se em nota que se pretende explicitar que existe na empresa um «conjunto de valores, práticas, atitudes e métodos de trabalho e de relacionamento que caracterizam intrinsecamente a organização e a aperfeiçoam no ponto de vista orgânico e de funcionamento».
Essa constatação fez-me lembrar três situações da minha vida.
Um dia, nos primórdios da década de 70, Águeda Sena cumprimentou-me porque eu estava a aplicar nas aulas as teorias de Jean Piaget, quando poucos ainda as aplicavam em Portugal. Corri a ver os meus apontamentos de Ciências Pedagógicas, para tentar saber o que, de facto, eu estava a fazer sem disso ter consciência!
A propósito do título do meu livro Cascais – Paisagem com Pessoas dentro, recebi do Brasil uma congratulação:
«Parabéns também pelo título. Vejo que o amigo seguiu a ideia de paisagem/espaço social se preocupando com a representação dos marcos espaciais no cotidiano das pessoas, não é?»
Nunca pensara nisso, confesso! Apenas que, por detrás de uma paisagem, estão pessoas e são elas que, para mim, importam. Expliquei isso ao meu interlocutor, que retorquiu: «És um auto-didata. Sacou as preocupações que os teóricos gastam livros e livros para tentar explicar. Digo tentar porque enrolam muito. Nada como a objetividade dos epigrafistas.»
E, também recentemente, dei conta, num artigo, das diligências para chegar à decifração de inscrições aparentemente indecifráveis. Comentário do responsável pela revista onde está prevista a publicação:
«O texto enviado constitui um conjunto de estratos históricos interessantíssimos a todos os níveis que se encontram num conjunto cuja metodologia de análise quase que poderemos classificar de cripto-epigrafia (a construção conceptual de cripto-história da arte) que recupera o sentido indiciário como um caminho para a fonte total».
Pasmei! Nunca pensara nisso!
Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 588, 01-03-2012, p. 13.
«Podemos concluir que a Ernesto L. Matias, Lda. possui uma cultura organizacional estruturante, pese embora não haja uma consciência assumida desse facto» (p. 43).
Explica-se em nota que se pretende explicitar que existe na empresa um «conjunto de valores, práticas, atitudes e métodos de trabalho e de relacionamento que caracterizam intrinsecamente a organização e a aperfeiçoam no ponto de vista orgânico e de funcionamento».
Essa constatação fez-me lembrar três situações da minha vida.
Um dia, nos primórdios da década de 70, Águeda Sena cumprimentou-me porque eu estava a aplicar nas aulas as teorias de Jean Piaget, quando poucos ainda as aplicavam em Portugal. Corri a ver os meus apontamentos de Ciências Pedagógicas, para tentar saber o que, de facto, eu estava a fazer sem disso ter consciência!
A propósito do título do meu livro Cascais – Paisagem com Pessoas dentro, recebi do Brasil uma congratulação:
«Parabéns também pelo título. Vejo que o amigo seguiu a ideia de paisagem/espaço social se preocupando com a representação dos marcos espaciais no cotidiano das pessoas, não é?»
Nunca pensara nisso, confesso! Apenas que, por detrás de uma paisagem, estão pessoas e são elas que, para mim, importam. Expliquei isso ao meu interlocutor, que retorquiu: «És um auto-didata. Sacou as preocupações que os teóricos gastam livros e livros para tentar explicar. Digo tentar porque enrolam muito. Nada como a objetividade dos epigrafistas.»
E, também recentemente, dei conta, num artigo, das diligências para chegar à decifração de inscrições aparentemente indecifráveis. Comentário do responsável pela revista onde está prevista a publicação:
«O texto enviado constitui um conjunto de estratos históricos interessantíssimos a todos os níveis que se encontram num conjunto cuja metodologia de análise quase que poderemos classificar de cripto-epigrafia (a construção conceptual de cripto-história da arte) que recupera o sentido indiciário como um caminho para a fonte total».
Pasmei! Nunca pensara nisso!
Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 588, 01-03-2012, p. 13.
Pampilheira oriental – um recanto muito apetecido!
Fantasias
Vai longe o projecto profundamente inovador do Conde de Monte Real, que sonhou para esta área da freguesia de Cascais, nos primórdios dos anos 30 do século passado, um grande bairro residencial para famílias carenciadas (vide p. 21-24 do livro Recantos de Cascais, CMC, 2007). Só doze moradias se fizeram (o chamado Bairro Operário ou Bairro José Luís), de que o 1º renque, por desocupação e degradação, já a EMGHA, Gestão da Habitação Social de Cascais, EM, SA, demoliu.
O mato cresceu por ali durante anos; houve até um excêntrico sonhador que, sobre o leito da Ribeira do Cobre, afluente da Ribeira das Vinhas, construiu, ao lado da casa, bem alta torre quadrangular, aí de uns cinco andares. Dizia que era para, em momentos agradáveis – havia um compartimento em cada andar… – dali poder espraiar as vistas pelo mar…
A urbanização condicionada
A urbanização do bairro – chamava-se a zona ‘Barraca de Pau’ – na década de 60 procurou não criar anticorpos adormecidos, pois – repito – o terreno fora doado exclusivamente com objectivos filantrópicos. Deu-se, porém, «a volta ao texto», privilegiando-se as cooperativas de habitação e aos construtores dispostos a estabelecerem rendas condicionadas e a darem prioridade no arrendamento a funcionários públicos e, como então surgira a 1ª fábrica na freguesia, a empregados da Standard Eléctrica. Os lotes sobrantes, para sul, venderam-se em hasta pública, para moradias singulares, reservando-se o canto sudeste para pequenas indústrias. É por isso que aí se localizam um estaleiro naval, uma fábrica de meias, oficinas do ramo automóvel, o Centro de Distribuição Postal, o centro de inspecção automóvel, alguns equipamentos comerciais e, mais recentemente, a Clínica CUF.
Maldição?
No local da torre excêntrica, nada se construiu. Maldição temida? Seja como for, bruxarias não as houve, que se saiba, mas se por ali não paira alma penada… parece!
É que o urbanizador teve de deixar o terreno livre e aí preparou mui simpático campo de ténis, que, por falta de uso e de responsável, conheceu paulatina degradação, embora fosse sendo usado pela pequenada e pelos jovens do bairro para seu entretenimento de jogos e bicicletas. Até que, em Novembro de 2008, os moradores foram surpreendidos por um aviso, na Rua Mário Clarel: Não estacione, que vamos iniciar construção! Pergunta aqui, pergunta ali… era o Centro Municipal de Cidadania Rodoviária, que, no segredo camarário, para ali fora projectado pelo Departamento de Planeamento Estratégico. O quê? Cidadania Rodoviária? Alvoroço, movimentação, que é isto?!... E onde é que os nossos jovens vão jogar à bola, andar de bicicleta? Por que carga de água, aqui, um Centro Municipal de Cidadania Rodoviária de que nunca se ouvira falar?
Interpelado, o próprio Presidente da autarquia, Dr. António Capucho, disse não estar ao corrente. E também Pedro Silva, presidente da Freguesia, desconhecia. Mui amavelmente, porém, a Presidência aceitou de imediato reunir com uma representação dos moradores; ouviram-se razões e decidiu-se que, na verdade, era melhor não. E logo dali saiu a preparação de novo projecto, cujas linhas gerais foram solicitadas aos moradores pela carta 026744, de 15-05-2009, os quais responderam a 30-06-2009. E encarregou-se dele a Agência Cascais Natura.
Dois anos passados, como nada de concreto se visse, o novo Presidente da CMC, Dr. Carlos Carreiras, aceitou reunir com os moradores, a 14 de Junho de 2011, onde foi apresentado o referido projecto elaborado pela Cascais Natura, sob coordenação do Sr. Arq. João Cardoso de Melo.
Na sequência da troca de impressões, foram incorporadas no projecto as considerações dos moradores explanadas em memorando, após o que o assunto passou directamente para a CMC, na perspectiva de o implementar, deixando a Cascais Natura de estar envolvida.
E porque o processo estava – aparentemente! – em andamento, ninguém apresentou para o local qualquer outra proposta, no âmbito do Orçamento Participativo.
Da Natura à… cozinha!
Qual não é, porém, o espanto dos moradores quando, neste Carnaval, vêem funcionários da ESUC proceder à vedação de cerca de um terço do terreno em questão e se descobre a intenção de ali vir a ser instalada… uma cozinha!
Claro: sucederam-se os e-mails para a Câmara, dado que – supunham os moradores – só podia ser brincadeira de Carnaval, depois do grande empenho de cidadania que tinham demonstrado ao longo deste processo, num concelho que se quer «elevado às pessoas».
Mais uma vez, porém, se concluiu que organismos camarários entraram por vinha vindimada, que isto é nosso e ninguém tem nada com o facto de querermos aqui instalar a Cozinha com Alma!... Ora toma!
Nenhum inconveniente nisso e até ficamos com a cozinhinha mais à mão, na perspectiva, que se avizinha, de termos de lá ir, de marmita na mão, buscar a sopa de cada dia. Tudo bem! Pampilheira é acolhedora, o sítio é simpático… Não fizera ali o vizinho uma torre de ver o mar?!... Os moradores sentem-se, todavia, frustrados, porque… mais uma vez se praticou a política do facto consumado. E é pena que também a nível local – e em Cascais! – se imitem comportamentos que repudiamos nos governos europeus. Hoje, que a comunicação é tão fácil e que a Internet até funciona…
Os nossos melhores votos para o êxito da Cozinha com Alma, já a funcionar uns duzentos metros mais acima, na Creche da Pampilheira, sem ser em leito de cheia…
[Publicado no Jornal de Cascais, nº 303, 29-02-2012, p. 6].
Vai longe o projecto profundamente inovador do Conde de Monte Real, que sonhou para esta área da freguesia de Cascais, nos primórdios dos anos 30 do século passado, um grande bairro residencial para famílias carenciadas (vide p. 21-24 do livro Recantos de Cascais, CMC, 2007). Só doze moradias se fizeram (o chamado Bairro Operário ou Bairro José Luís), de que o 1º renque, por desocupação e degradação, já a EMGHA, Gestão da Habitação Social de Cascais, EM, SA, demoliu.

O mato cresceu por ali durante anos; houve até um excêntrico sonhador que, sobre o leito da Ribeira do Cobre, afluente da Ribeira das Vinhas, construiu, ao lado da casa, bem alta torre quadrangular, aí de uns cinco andares. Dizia que era para, em momentos agradáveis – havia um compartimento em cada andar… – dali poder espraiar as vistas pelo mar…
A urbanização condicionada
A urbanização do bairro – chamava-se a zona ‘Barraca de Pau’ – na década de 60 procurou não criar anticorpos adormecidos, pois – repito – o terreno fora doado exclusivamente com objectivos filantrópicos. Deu-se, porém, «a volta ao texto», privilegiando-se as cooperativas de habitação e aos construtores dispostos a estabelecerem rendas condicionadas e a darem prioridade no arrendamento a funcionários públicos e, como então surgira a 1ª fábrica na freguesia, a empregados da Standard Eléctrica. Os lotes sobrantes, para sul, venderam-se em hasta pública, para moradias singulares, reservando-se o canto sudeste para pequenas indústrias. É por isso que aí se localizam um estaleiro naval, uma fábrica de meias, oficinas do ramo automóvel, o Centro de Distribuição Postal, o centro de inspecção automóvel, alguns equipamentos comerciais e, mais recentemente, a Clínica CUF.
Maldição?
No local da torre excêntrica, nada se construiu. Maldição temida? Seja como for, bruxarias não as houve, que se saiba, mas se por ali não paira alma penada… parece!
É que o urbanizador teve de deixar o terreno livre e aí preparou mui simpático campo de ténis, que, por falta de uso e de responsável, conheceu paulatina degradação, embora fosse sendo usado pela pequenada e pelos jovens do bairro para seu entretenimento de jogos e bicicletas. Até que, em Novembro de 2008, os moradores foram surpreendidos por um aviso, na Rua Mário Clarel: Não estacione, que vamos iniciar construção! Pergunta aqui, pergunta ali… era o Centro Municipal de Cidadania Rodoviária, que, no segredo camarário, para ali fora projectado pelo Departamento de Planeamento Estratégico. O quê? Cidadania Rodoviária? Alvoroço, movimentação, que é isto?!... E onde é que os nossos jovens vão jogar à bola, andar de bicicleta? Por que carga de água, aqui, um Centro Municipal de Cidadania Rodoviária de que nunca se ouvira falar?
Interpelado, o próprio Presidente da autarquia, Dr. António Capucho, disse não estar ao corrente. E também Pedro Silva, presidente da Freguesia, desconhecia. Mui amavelmente, porém, a Presidência aceitou de imediato reunir com uma representação dos moradores; ouviram-se razões e decidiu-se que, na verdade, era melhor não. E logo dali saiu a preparação de novo projecto, cujas linhas gerais foram solicitadas aos moradores pela carta 026744, de 15-05-2009, os quais responderam a 30-06-2009. E encarregou-se dele a Agência Cascais Natura. Dois anos passados, como nada de concreto se visse, o novo Presidente da CMC, Dr. Carlos Carreiras, aceitou reunir com os moradores, a 14 de Junho de 2011, onde foi apresentado o referido projecto elaborado pela Cascais Natura, sob coordenação do Sr. Arq. João Cardoso de Melo.
Na sequência da troca de impressões, foram incorporadas no projecto as considerações dos moradores explanadas em memorando, após o que o assunto passou directamente para a CMC, na perspectiva de o implementar, deixando a Cascais Natura de estar envolvida.E porque o processo estava – aparentemente! – em andamento, ninguém apresentou para o local qualquer outra proposta, no âmbito do Orçamento Participativo.
Da Natura à… cozinha!
Qual não é, porém, o espanto dos moradores quando, neste Carnaval, vêem funcionários da ESUC proceder à vedação de cerca de um terço do terreno em questão e se descobre a intenção de ali vir a ser instalada… uma cozinha!
Claro: sucederam-se os e-mails para a Câmara, dado que – supunham os moradores – só podia ser brincadeira de Carnaval, depois do grande empenho de cidadania que tinham demonstrado ao longo deste processo, num concelho que se quer «elevado às pessoas».Mais uma vez, porém, se concluiu que organismos camarários entraram por vinha vindimada, que isto é nosso e ninguém tem nada com o facto de querermos aqui instalar a Cozinha com Alma!... Ora toma!
Nenhum inconveniente nisso e até ficamos com a cozinhinha mais à mão, na perspectiva, que se avizinha, de termos de lá ir, de marmita na mão, buscar a sopa de cada dia. Tudo bem! Pampilheira é acolhedora, o sítio é simpático… Não fizera ali o vizinho uma torre de ver o mar?!... Os moradores sentem-se, todavia, frustrados, porque… mais uma vez se praticou a política do facto consumado. E é pena que também a nível local – e em Cascais! – se imitem comportamentos que repudiamos nos governos europeus. Hoje, que a comunicação é tão fácil e que a Internet até funciona…
Os nossos melhores votos para o êxito da Cozinha com Alma, já a funcionar uns duzentos metros mais acima, na Creche da Pampilheira, sem ser em leito de cheia…
[Publicado no Jornal de Cascais, nº 303, 29-02-2012, p. 6].
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Bartolomeu Valentini - uma vida ao serviço da comunidade
A implacável coluna do deve e do haver
Poderá estranhar-se se volto a dedicar uma crónica a uma pessoa e, sobretudo, por se tratar de um sacerdote católico. Que me seja perdoada a ousadia; no entanto, cada vez que sinto estarmos num mundo em que as pessoas enquanto tais não são tidas em consideração, porque para os poderes que mandam neste mundo o que contam são as colunas do deve e do haver, maís necessidade sinto, como cidadão e como jornalista, de chamar a atenção para o facto de que, por detrás dessas colunas, estão pessoas!
Quando ouvi, no sábado, o presidente da Câmara de Torres Vedras explicar que investira no seu Carnaval tantos mil euros e com isso ia arrecadar uns milhões, mais uma vez tive pena de quem, por obediência a esquemas economicistas lineares, não tem em conta a pessoa humana e desconhece a História!
Por isso, dedico hoje umas palavras ao Padre Bartolomeu Valentini.
Um andarilho
Se a esta ‘coluna’ dei o nome de andarilhanças, porque, no fundo, sempre me deu na real gana andar de um lado para o lado sem obediência a esquemas rígidos nem a dogmáticos catecismos, a vida do Padre Valentini cabe aqui de pleno direito.

Nascido a 9 de Novembro de 1912 em Trento, na Itália, ingressou na Sociedade Salesiana, uma congregação religiosa fundada por S. João Bosco, em Turim, na 2ª metade do século XIX, em plena época da Revolução Industrial, para dar ocupação e horizontes às centenas de pés-descalços que, já nessa altura, pululavam nos arredores das cidades. A ideia de D. Bosco foi desde logo ensinar artes e ofícios e, através da alegria e da sadia ocupação dos tempos livres, preparar um futuro para quem, amiúde, não tinha um naco de pão. Bartolomeu Valentini abraçou essa vocação e, aos 19 anos, foi enviado para Portugal, mais concretamente para Poiares da Régua, onde tinha sido aberta uma das primeiras casas salesianas, justamente para formar os obreiros dessa missão. Foram, na verdade, italianos, como era natural, os primeiros salesianos que vieram para o nosso País.
Artes e ofícios
Exerceu em Poiares, no recôndito Trás-os-Montes, as funções de assistente, período intermediário, na sua formação, entre os estudos filosóficos e os teológicos, que desembocariam, em 1938, na ordenação sacerdotal. É colocado então nas Oficinas de S. José, em Lisboa, escola assim designada precisamente porque visava facultar ensino técnico aos jovens desvalidos da capital, ali na zona dos Prazeres, onde ainda hoje se encontra. Foram as Oficinas de S. José o principal alfobre, por exemplo, de tipógrafos de Portugal.
Daí parte para Vila do Conde, uma escola dependente dos Serviços Tutelares de Menores. Aí se recuperavam os jovens através do ensino das artes gráficas. Em 1945, colabora, no Instituto Missionário de Mogofores (Anadia), na instalação do Noviciado, fase de inserção do futuro salesiano na vida da congregação.
De 1946 a 1952, vemo-lo no Asilo de Santo António do Estoril, onde dirige importantes obras de remodelação das instalações para as adaptar às funções do que viria a ser, daí a pouco, a Escola Técnica e Liceal Salesiana. Daí que, a 29 de Maio de 1982, por ocasião do 50º aniversário da Escola, os Antigos Alunos tenham feito questão em que fosse ele a descerrar a placa comemorativa.
Em 1952, fica em Manique, onde preside à construção da capela do então Instituto Missionário Salesiano, a casa de formação com Noviciado e Curso de Filosofia.
De 1953 a 1962, é o grande obreiro da Escola de Artes e Ofícios do Funchal. Em 1962-1963 está de novo no Estoril, como orientador espiritual. Seguem-se estadas nas casas salesianas de Lisboa e de Moçambique (onde os Salesianos haviam erguido grande obra escolar na Namaacha). De 1975 a 1990, vai novamente para o Funchal, agora para superintender à construção do pavilhão desportivo (sempre os Salesianos deram ao desporto uma importância fundamental como apoio na formação dos jovens).
E é só em 1993 que recolhe a Manique, para passar serenamente os últimos anos de vida. Apesar de naturalmente afastado da vida activa da Escola, sempre se interessou pelo caminho que ela estava a seguir e regozijou-se, por exemplo, com a possibilidade de nela se ter construído uma piscina, para mais adequadamente se dar aos jovens o complemento formativo de que necessitavam.
Serenidade
Falei com o Padre Valentini pela última vez a 20 de Setembro de 2008. Em cadeira de rodas já então, impressionou-me a sua enorme serenidade; a lucidez com que me contou, nesses breves minutos em que estivemos juntos, o que fora a sua actividade no Estoril, as lutas que tivera de travar para obter dos benfeitores locais verbas para levar a cabo a construção que se propusera. Senti claramente estar diante de alguém que – como se diz nas Escrituras – tem a sensação clara de que «combateu o bom combate» e que tudo fez, na medida das suas possibilidades, para trazer ao mundo dos jovens e dos que com os jovens mais de perto lidam aquele espírito que D. Bosco soubera incutir nos seus discípulos.
Exéquias e memória
Faleceu no passado dia 12, na Escola Salesiana de Manique, no seu 100º ano de vida.
Presididas pelo Provincial, Padre Artur Pereira, as exéquias foram celebradas por mais de uma vintena de padres salesianos vindos das casas de todo o País.
O Director, Padre David Bernardo, evocou sentidamente os últimos tempos da vida do Padre Valentini: «Não me falta nada; as pessoas são fantásticas, que mais quero?», dizia. Salientou o seu grande desprendimento nesta terra que adoptou como sua; a visão de futuro que sempre o acompanhou; a sua extrema sensibilidade – sabia sempre agradecer! Quando lhe foi administrada a Extrema-unção, chamou os Irmãos, despediu-se deles, agradecendo-lhes e pedindo desculpa por aquilo que, ao longo da sua vida, pudesse ter feito menos bem.
Ficou sepultado no cemitério da Galiza, onde jazem, aliás, muitos dos salesianos que deixaram marca indelével na juventude da linha de Cascais, mormente em meados do século passado. Refere-se amiúde que é Cascais um dos concelhos mais salesianos de Portugal. Na verdade, rara será a família que não teve ou não tem um elemento seu a estudar numa das escolas que os Salesianos ou as Filhas de Maria Auxiliadora (o ramo feminino da congregação) dirigem neste concelho.
[Publicado no Jornal de Cascais, nº 302, 22-02-2012, p. 4].
Poderá estranhar-se se volto a dedicar uma crónica a uma pessoa e, sobretudo, por se tratar de um sacerdote católico. Que me seja perdoada a ousadia; no entanto, cada vez que sinto estarmos num mundo em que as pessoas enquanto tais não são tidas em consideração, porque para os poderes que mandam neste mundo o que contam são as colunas do deve e do haver, maís necessidade sinto, como cidadão e como jornalista, de chamar a atenção para o facto de que, por detrás dessas colunas, estão pessoas!
Quando ouvi, no sábado, o presidente da Câmara de Torres Vedras explicar que investira no seu Carnaval tantos mil euros e com isso ia arrecadar uns milhões, mais uma vez tive pena de quem, por obediência a esquemas economicistas lineares, não tem em conta a pessoa humana e desconhece a História!
Por isso, dedico hoje umas palavras ao Padre Bartolomeu Valentini.
Um andarilho
Se a esta ‘coluna’ dei o nome de andarilhanças, porque, no fundo, sempre me deu na real gana andar de um lado para o lado sem obediência a esquemas rígidos nem a dogmáticos catecismos, a vida do Padre Valentini cabe aqui de pleno direito.

Nascido a 9 de Novembro de 1912 em Trento, na Itália, ingressou na Sociedade Salesiana, uma congregação religiosa fundada por S. João Bosco, em Turim, na 2ª metade do século XIX, em plena época da Revolução Industrial, para dar ocupação e horizontes às centenas de pés-descalços que, já nessa altura, pululavam nos arredores das cidades. A ideia de D. Bosco foi desde logo ensinar artes e ofícios e, através da alegria e da sadia ocupação dos tempos livres, preparar um futuro para quem, amiúde, não tinha um naco de pão. Bartolomeu Valentini abraçou essa vocação e, aos 19 anos, foi enviado para Portugal, mais concretamente para Poiares da Régua, onde tinha sido aberta uma das primeiras casas salesianas, justamente para formar os obreiros dessa missão. Foram, na verdade, italianos, como era natural, os primeiros salesianos que vieram para o nosso País.
Artes e ofícios
Exerceu em Poiares, no recôndito Trás-os-Montes, as funções de assistente, período intermediário, na sua formação, entre os estudos filosóficos e os teológicos, que desembocariam, em 1938, na ordenação sacerdotal. É colocado então nas Oficinas de S. José, em Lisboa, escola assim designada precisamente porque visava facultar ensino técnico aos jovens desvalidos da capital, ali na zona dos Prazeres, onde ainda hoje se encontra. Foram as Oficinas de S. José o principal alfobre, por exemplo, de tipógrafos de Portugal.
Daí parte para Vila do Conde, uma escola dependente dos Serviços Tutelares de Menores. Aí se recuperavam os jovens através do ensino das artes gráficas. Em 1945, colabora, no Instituto Missionário de Mogofores (Anadia), na instalação do Noviciado, fase de inserção do futuro salesiano na vida da congregação.
De 1946 a 1952, vemo-lo no Asilo de Santo António do Estoril, onde dirige importantes obras de remodelação das instalações para as adaptar às funções do que viria a ser, daí a pouco, a Escola Técnica e Liceal Salesiana. Daí que, a 29 de Maio de 1982, por ocasião do 50º aniversário da Escola, os Antigos Alunos tenham feito questão em que fosse ele a descerrar a placa comemorativa.
Em 1952, fica em Manique, onde preside à construção da capela do então Instituto Missionário Salesiano, a casa de formação com Noviciado e Curso de Filosofia.
De 1953 a 1962, é o grande obreiro da Escola de Artes e Ofícios do Funchal. Em 1962-1963 está de novo no Estoril, como orientador espiritual. Seguem-se estadas nas casas salesianas de Lisboa e de Moçambique (onde os Salesianos haviam erguido grande obra escolar na Namaacha). De 1975 a 1990, vai novamente para o Funchal, agora para superintender à construção do pavilhão desportivo (sempre os Salesianos deram ao desporto uma importância fundamental como apoio na formação dos jovens).
E é só em 1993 que recolhe a Manique, para passar serenamente os últimos anos de vida. Apesar de naturalmente afastado da vida activa da Escola, sempre se interessou pelo caminho que ela estava a seguir e regozijou-se, por exemplo, com a possibilidade de nela se ter construído uma piscina, para mais adequadamente se dar aos jovens o complemento formativo de que necessitavam.
Serenidade
Falei com o Padre Valentini pela última vez a 20 de Setembro de 2008. Em cadeira de rodas já então, impressionou-me a sua enorme serenidade; a lucidez com que me contou, nesses breves minutos em que estivemos juntos, o que fora a sua actividade no Estoril, as lutas que tivera de travar para obter dos benfeitores locais verbas para levar a cabo a construção que se propusera. Senti claramente estar diante de alguém que – como se diz nas Escrituras – tem a sensação clara de que «combateu o bom combate» e que tudo fez, na medida das suas possibilidades, para trazer ao mundo dos jovens e dos que com os jovens mais de perto lidam aquele espírito que D. Bosco soubera incutir nos seus discípulos.
Exéquias e memória
Faleceu no passado dia 12, na Escola Salesiana de Manique, no seu 100º ano de vida.
Presididas pelo Provincial, Padre Artur Pereira, as exéquias foram celebradas por mais de uma vintena de padres salesianos vindos das casas de todo o País.
O Director, Padre David Bernardo, evocou sentidamente os últimos tempos da vida do Padre Valentini: «Não me falta nada; as pessoas são fantásticas, que mais quero?», dizia. Salientou o seu grande desprendimento nesta terra que adoptou como sua; a visão de futuro que sempre o acompanhou; a sua extrema sensibilidade – sabia sempre agradecer! Quando lhe foi administrada a Extrema-unção, chamou os Irmãos, despediu-se deles, agradecendo-lhes e pedindo desculpa por aquilo que, ao longo da sua vida, pudesse ter feito menos bem.
Ficou sepultado no cemitério da Galiza, onde jazem, aliás, muitos dos salesianos que deixaram marca indelével na juventude da linha de Cascais, mormente em meados do século passado. Refere-se amiúde que é Cascais um dos concelhos mais salesianos de Portugal. Na verdade, rara será a família que não teve ou não tem um elemento seu a estudar numa das escolas que os Salesianos ou as Filhas de Maria Auxiliadora (o ramo feminino da congregação) dirigem neste concelho.
[Publicado no Jornal de Cascais, nº 302, 22-02-2012, p. 4].
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