Vivi parte significativa da minha juventude em colégios salesianos. Desse tempo recordo três momentos do dia que exerceram em mim uma influência primordial – e só agora, mais de 50 anos volvidos, é que consciencializo toda a sua real valia!
A primeira parte da refeição era preenchida pela leitura, à maneira dos conventos medievais. Só que não eram livros estritamente piedosos, mas biografias, obras literárias de vulto… Aí se instilava, pois, o gosto pela leitura e se estimulava a imaginação.
Depois do jantar, no pátio, passeava-se de cá para lá, de lá para cá, em torno de um dos professores à nossa escolha, que nos contava histórias da sua vida, que ouvia as nossas… Momento ímpar!
Antes de irmos para a deita, a ‘boa-noite’, breves palavras dum dos professores (do colégio ou que ali estava de passagem, amiúde missionário), a dar também o seu testemunho e a transmitir-nos mensagem de serenidade e sabedoria!
Muito se preconiza, hoje, em bibliotecas e centros de convívio, por exemplo, o espaço «avós e netos», por se reconhecer precisamente, primeiro, que há muitos avós sozinhos e ao abandono, depois, porque é toda uma ciência de vida que eles carreiam consigo. Costuma dizer-se: «Menino, ainda eles vêm em Cacilhas e já eu sei o que eles querem!». E é verdade: a velhice constitui um estádio em que, afinal, se sedimentaram emoções, vidas, experiências… saberes!
Quanto estudei a organização política dos antigos Gregos, admirava-me de terem a Assembleia dos Anciãos, gente com mais de 60 anos e eu dizia de mim para comigo: «Cambada de velhadas!». Seria. Mas tinham uma palavra a dizer!
Tinham então e têm hoje! Com uma diferença, quiçá: outrora, havia quem lhes dava atenção; hoje… assenta-se praça em general! E faz-se gala disso!
É também por esse motivo que continuo a ter uma especial ternura pelos pescadores. Mãos e rostos bem crestados pelo salpicante salgadiço do mar; olhar penetrante; boné protector. Chegam, olham para a ondulação, perscrutam o caminhar das nuvens e… só se arriscam se tudo estiver de maré. E esses sinais aprendem-se, passam de geração em geração! E ai de quem os não queira aprender!
Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 590, 01-04-2012, p. 13.
terça-feira, 10 de abril de 2012
Andarilhanças 41
TED Cascais
O TED é uma organização não lucrativa, iniciada nos Estados Unidos da América em 1984, dedicada ao lema "Ideias que vale a pena espalhar". Organizou, no passado dia 18 de Fevereiro, como se sabe, uma conferência em Cascais, na Casa das Histórias.
Passei por lá a meio da tarde, porque queria ouvir Margarida Ruas falar do ‘seu’ Aqueduto das Águas Livres, dado que, na verdade, também a água é uma linha que nos une. Mostrou que o aqueduto está no guiness: o fechamento da ogiva com três arcos é único no mundo, «só o sopro divino o consegue suster!»… E levou-nos a passear pelos magníficos recantos do monumento.
Antes, porém, Alberto Mateus contou da sua odisseia para fazer um empreendimento turístico em Góis, onde enterrou 500 000 euros e dois anos e meio de vida, obteve 3,75 de mérito no projecto (numa escala de 1 a 5), para depois lhe dizerem que não era aprovável por uma questão de somenos: uma média de 47,5 pessoas em vez de 42,5 (se bem compreendi). E pensou então: «Fui ao casino e derreti numa noite 500 000 euros!». Como não é político e não pertence a nenhum lobby, declarou, vai tentar implantar o projecto noutro local. Deu uma lição de tenacidade!
Depois de Margarida Ruas, um jovem dinâmico trouxe outra lição: Stop complaining! Vamos parar de nos queixar e… deitemos mãos à obra!
O auditório estava repleto (mormente de juventude) e acho, pelo que pude ver nessas escassas duas horas, que deve ter merecido a pena!
Boca do Inferno nº10
Dou a mão à palmatória. A Boca do Inferno, revista de cultura e pensamento da Câmara Municipal de Cascais, teve, em Maio de 2005, um nº 10, dirigido por Ana Clara Justino e coordenado por Júlio Conrado, de resto o coordenador da quase totalidade dos volumes publicados.
Herberto Hélder e Carlos de Oliveira foram os escritores que aí estiveram em foco. Dentre os textos referentes à história local, refira-se o que João Miguel Henriques preparou sobre a relação entre turismo e nacionalismo, com especial incidência no que ocorreu na Cascais de 1906 a 1913 (época da Sociedade Propaganda de Portugal e suas congéneres, entre as quais se conta a nossa Propaganda de Cascais) e o que Cristina Pacheco redigiu sobre «a presença de estrangeiros e refugiados no concelho de Cascais durante a Segunda Guerra Mundial».
As minhas desculpas pelo involuntário engano, pois que, na passada edição, eu considerara a revista terminada no nº 9.
Dragoeiros
Regozijo-me com a iniciativa de se identificar a mata de dragoeiros existentes no Parque Palmela, «que acaba de ser classificado como de interesse nacional pela Autoridade Nacional Florestal (Aviso n.º 5/2012)» e que passou, por tal motivo, a dispor, desde o dia 21, de «um Bilhete de Identidade onde constam dados como as características da espécie, motivos de classificação, entre outros.»
Recorde-se que a Associação de Moradores da Quinta da Carreira escolheu o dragoeiro como seu logótipo (na quinta existe um vetusto exemplar) e que também na cerca do Hospital de Santana há um outro, bem vistoso.
Trata-se de uma espécie típica da zona atlântica, que corre risco de extinção, se não for devidamente acautelada.
Congratulo-me, pelo que isso significa de interesse pelo património vegetal endógeno. E sempre me alegra ver como está cuidada a gigantesca árvore-da-borracha (também ela classificada) no canto nordeste do Parque Marechal Carmona. Daí que amiúde terce armas para que se erradique o chorão da orla marítima, por estar a matar as lindas e variadas espécies vegetais que ele sufoca; daí que estejamos sempre a olhar com algum receio de que desapareça a mata original de carvalho cerquinho, ali a caminho do Pisão, na Quinta do Marquês.
Aliás, não foi também para preservarmos o mato – habitat predilecto de pássaros e de pequenos répteis – que se ergueu o parque das Penhas do Marmeleiro, em Murches? E não foi esse o móbil da contestação contra o prolongamento da A5 até ao Guincho, precisamente por ir danificar uma zona de mato extraordinariamente importante para a manutenção da biodiversidade?
[Publicado no Jornal de Cascais, nº 307, 28-03-2012, p. 4].
quarta-feira, 28 de março de 2012
Alfarrobeira de S. Romão – quem diria?
Constituiu para mim bem agradável surpresa.
Andava envolvido na pesquisa de saber a partir de que época da Humanidade aparecera o pinheiro. Sabendo disso, Guilherme Cardoso encontrou num escrito de José Leite de Vasconcelos – vol. II da Etnografia Portugueza (Tentame de Sistematização), Imprensa Nacional de Lisboa, 1936, p. 68 – uns parágrafos que vinham ao encontro dessa investigação, pois se referia à antiguidade do pinheiro na Península Ibérica e anotava, até, os diferentes nomes por que se designava a maravalha (carumba, chamiço, gravalha…) por esse Portugal além.
Vai daí, ao correr da pena, aproveitava o ilustre etnólogo para se referir a outra árvore que, pela sua majestade, o maravilhara: a alfarrobeira, que «medra principalmente no Sul do Algarve» (p. 69), E, para ilustrar o apontamento, dá, na fig. 16, o exemplo: «entrada de uma quinta, sítio de S. Romão (S. Brás de Alportel, Algarve), onde se vê uma alfarrobeira», desenho de 1907 (!), que mui gostosamente ora aqui se reproduz.
Nem de propósito! Investigava eu o pinhão e cai-me na mesa vetusta alfarrobeira que eu ia jurar ainda hoje existir por i, na minha terra!...
Aqui fica, pois, o desafio ao leitor: tem ideia de onde é que esta árvore está ou estava? Se sim, cá ficamos à espera da sua colaboração preciosa, para a história de São Romão e de S. Brás!
[Publicado em Notícias de S. Braz, S. Brás de Alportel, nº 183, 20-01-2012, p. 15].
Andava envolvido na pesquisa de saber a partir de que época da Humanidade aparecera o pinheiro. Sabendo disso, Guilherme Cardoso encontrou num escrito de José Leite de Vasconcelos – vol. II da Etnografia Portugueza (Tentame de Sistematização), Imprensa Nacional de Lisboa, 1936, p. 68 – uns parágrafos que vinham ao encontro dessa investigação, pois se referia à antiguidade do pinheiro na Península Ibérica e anotava, até, os diferentes nomes por que se designava a maravalha (carumba, chamiço, gravalha…) por esse Portugal além.
Vai daí, ao correr da pena, aproveitava o ilustre etnólogo para se referir a outra árvore que, pela sua majestade, o maravilhara: a alfarrobeira, que «medra principalmente no Sul do Algarve» (p. 69), E, para ilustrar o apontamento, dá, na fig. 16, o exemplo: «entrada de uma quinta, sítio de S. Romão (S. Brás de Alportel, Algarve), onde se vê uma alfarrobeira», desenho de 1907 (!), que mui gostosamente ora aqui se reproduz.
Nem de propósito! Investigava eu o pinhão e cai-me na mesa vetusta alfarrobeira que eu ia jurar ainda hoje existir por i, na minha terra!...Aqui fica, pois, o desafio ao leitor: tem ideia de onde é que esta árvore está ou estava? Se sim, cá ficamos à espera da sua colaboração preciosa, para a história de São Romão e de S. Brás!
[Publicado em Notícias de S. Braz, S. Brás de Alportel, nº 183, 20-01-2012, p. 15].
segunda-feira, 26 de março de 2012
A revista municipal que falta
Por diversas vezes tenho chamado a atenção dos responsáveis para o que, em meu entender, constitui uma falha na política cultural da Câmara Municipal de Cascais: a não-existência de uma revista de carácter cultural e científico. Permita-se-me, pois, que explicite agora o meu pensamento, historiando um pouco o que se passou até ao momento.
O boletim do museu
Por iniciativa de Maria Alice Beaumont, uma conservadora de largos horizontes, publicou-se, em 1971, o Boletim nº 2 do Museu-Biblioteca do Conde de Castro Guimarães, dando continuidade a um projecto que a clarividência de Branquinho da Fonseca iniciara em 1943. Aí se fez, desde logo, não apenas o ponto da situação em relação ao acervo do museu e da sua história como também em relação a estudos singulares a que, entretanto, se havia lançado mão, do ponto de vista da Arqueologia, por exemplo.
A publicação não teve seguimento.
Arquivo de Cascais
Sob a presidência de Carlos Rosa, sendo vereador da Cultura António de Sousa Lara, surgiu, em 1980, Arquivo de Cascais, como «Boletim Cultural do Município». Na apresentação, escreveu o presidente:
«É o nosso Município extraordinariamente rico em valores de ordem histórica e cultural cuja pesquisa e divulgação justificariam, por si só, a criação de uma publicação deste tipo».
E foca Carlos Rosa um aspecto que, à altura, poderia ser considerado pioneiro, pois que se refere a «uma outra riqueza não menos importante» do concelho: «uma população que, além de muito numerosa, apresenta característica de profunda heterogeneidade, a qual traduz, só por si, fenómenos sociais oriundas de diversos meios, desde o rural, ainda predominante em algumas zonas do Concelho, até ao densamente povoado, como o da sua faixa litoral».
E acrescenta que esse é um «conjunto de factores que importa, enquanto for tempo, recolher e conservar para as gerações futuras, no sentido de que a história de uma comunidade e a consideração dos seus valores específicos não poderão deixar de interessar não só aos actuais munícipes […] como aos futuros, a quem deve ser deixada a possibilidade de riem a ter elementos sobre as origens do meio em que se movimentarem».
Sábias palavras estas!
E o Arquivo de Cascais prosseguiu sua caminhada. O 2º volume (1981) foi integralmente constituído por «Personagens da Nossa Terra», o volume II de Cascais Menino, de Pedro Falcão. O nº 12 (1996) teve coordenação de Ricardo António Alves, chefe de Divisão do Património Histórico-cultural, sendo o vereador José Jorge Letria o responsável pela edição e que aí escreve, sob o título «História local, Memória viva»:
«Uma significativa parcela da memória deste concelho, enquanto comunidade e espaço plural onde a vida e a História se cumprem, encontra-se registada nos 12 números do ARQUIVO DE CASCAIS, que regularmente dá voz a investigadores desta terra que escrevem acerca dela, dos seus costumes, das suas tradições, do seu património edificado e das suas figuras históricas mais relevantes».
E conclui:
«O ARQUIVO DE CASCAIS é uma memória viva e dinâmica e honra e estimula quem a conhece e divulga. Por isso o publicamos, conscientes da sua importância e valor da herança de História local que ele deixará para o próximo milénio».
Mas… ficou-se por aqui. Diz-se que um desentendimento – que levou à saída de Ricardo Alves para a Câmara de Sintra, donde viera – provocou a suspensão da publicação, que viria a ser retomada já no tempo do presidente António Capucho (nº 13, 2005), sob responsabilidade da vereadora Ana Clara Justino, com textos do maior interesse, tendo-se salientado o seu papel como veículo de «estudos especializados sobre temas de História Local e Regional». E, mais uma vez, ficou-se por aqui.
Boca do Inferno
Homem, porém, mais ligado às Letras e às Artes do que à investigação histórica e às problemáticas do Património, José Jorge Letria acabaria por criar uma outra revista, Boca do Inferno, «de Cultura e Pensamento», cujo 1º número sai em 1996.
Haviam-se criado as «Conversas de Cascais», os Cursos Internacionais de Verão (cujas actas, em vários volumes, foram sendo publicadas) e o vereador considerou que, em Cascais, «a literatura, o debate de ideias, a cultura e as reflexões que ela suscita e reclama têm tido um papel relevante». E Boca do Inferno nasce para isso: «Um espaço aberto e plural para a literatura, o pensamento filosófico, a investigação histórica e confrontação de distintas visões da vida e do destino do Homem». Ou seja: era uma revista local, mas a sua dimensão não devia ficar «condicionada pela estreiteza das visões regionalistas ou bairristas». Em suma: perdeu-se pelas literaturas… E o carácter local acabaria por dissolver-se, como pode ver-se nos sumários das revistas seguintes. O último número publicado (9, Março 2004) só tem um texto directamente relacionado com Cascais: «Cascais e os primórdios do Cinema em Portugal», de José de Matos-Cruz.
Não nego o interesse de Boca do Inferno. Continuo, no entanto, a considerar que Arquivo de Cascais é um projecto a não perder. Mormente hoje que é possível fazer uma revista on line e apenas imprimir um número reduzido de exemplares, para oferta e/ou permuta.
[Publicado no Jornal de Cascais, nº 306, 21-03-2012, p. 6].
O boletim do museu
Por iniciativa de Maria Alice Beaumont, uma conservadora de largos horizontes, publicou-se, em 1971, o Boletim nº 2 do Museu-Biblioteca do Conde de Castro Guimarães, dando continuidade a um projecto que a clarividência de Branquinho da Fonseca iniciara em 1943. Aí se fez, desde logo, não apenas o ponto da situação em relação ao acervo do museu e da sua história como também em relação a estudos singulares a que, entretanto, se havia lançado mão, do ponto de vista da Arqueologia, por exemplo.
A publicação não teve seguimento.
Arquivo de Cascais
Sob a presidência de Carlos Rosa, sendo vereador da Cultura António de Sousa Lara, surgiu, em 1980, Arquivo de Cascais, como «Boletim Cultural do Município». Na apresentação, escreveu o presidente:
«É o nosso Município extraordinariamente rico em valores de ordem histórica e cultural cuja pesquisa e divulgação justificariam, por si só, a criação de uma publicação deste tipo».
E foca Carlos Rosa um aspecto que, à altura, poderia ser considerado pioneiro, pois que se refere a «uma outra riqueza não menos importante» do concelho: «uma população que, além de muito numerosa, apresenta característica de profunda heterogeneidade, a qual traduz, só por si, fenómenos sociais oriundas de diversos meios, desde o rural, ainda predominante em algumas zonas do Concelho, até ao densamente povoado, como o da sua faixa litoral».
E acrescenta que esse é um «conjunto de factores que importa, enquanto for tempo, recolher e conservar para as gerações futuras, no sentido de que a história de uma comunidade e a consideração dos seus valores específicos não poderão deixar de interessar não só aos actuais munícipes […] como aos futuros, a quem deve ser deixada a possibilidade de riem a ter elementos sobre as origens do meio em que se movimentarem».
Sábias palavras estas!
E o Arquivo de Cascais prosseguiu sua caminhada. O 2º volume (1981) foi integralmente constituído por «Personagens da Nossa Terra», o volume II de Cascais Menino, de Pedro Falcão. O nº 12 (1996) teve coordenação de Ricardo António Alves, chefe de Divisão do Património Histórico-cultural, sendo o vereador José Jorge Letria o responsável pela edição e que aí escreve, sob o título «História local, Memória viva»:
«Uma significativa parcela da memória deste concelho, enquanto comunidade e espaço plural onde a vida e a História se cumprem, encontra-se registada nos 12 números do ARQUIVO DE CASCAIS, que regularmente dá voz a investigadores desta terra que escrevem acerca dela, dos seus costumes, das suas tradições, do seu património edificado e das suas figuras históricas mais relevantes».
E conclui:
«O ARQUIVO DE CASCAIS é uma memória viva e dinâmica e honra e estimula quem a conhece e divulga. Por isso o publicamos, conscientes da sua importância e valor da herança de História local que ele deixará para o próximo milénio».
Mas… ficou-se por aqui. Diz-se que um desentendimento – que levou à saída de Ricardo Alves para a Câmara de Sintra, donde viera – provocou a suspensão da publicação, que viria a ser retomada já no tempo do presidente António Capucho (nº 13, 2005), sob responsabilidade da vereadora Ana Clara Justino, com textos do maior interesse, tendo-se salientado o seu papel como veículo de «estudos especializados sobre temas de História Local e Regional». E, mais uma vez, ficou-se por aqui.
Boca do Inferno
Homem, porém, mais ligado às Letras e às Artes do que à investigação histórica e às problemáticas do Património, José Jorge Letria acabaria por criar uma outra revista, Boca do Inferno, «de Cultura e Pensamento», cujo 1º número sai em 1996.
Haviam-se criado as «Conversas de Cascais», os Cursos Internacionais de Verão (cujas actas, em vários volumes, foram sendo publicadas) e o vereador considerou que, em Cascais, «a literatura, o debate de ideias, a cultura e as reflexões que ela suscita e reclama têm tido um papel relevante». E Boca do Inferno nasce para isso: «Um espaço aberto e plural para a literatura, o pensamento filosófico, a investigação histórica e confrontação de distintas visões da vida e do destino do Homem». Ou seja: era uma revista local, mas a sua dimensão não devia ficar «condicionada pela estreiteza das visões regionalistas ou bairristas». Em suma: perdeu-se pelas literaturas… E o carácter local acabaria por dissolver-se, como pode ver-se nos sumários das revistas seguintes. O último número publicado (9, Março 2004) só tem um texto directamente relacionado com Cascais: «Cascais e os primórdios do Cinema em Portugal», de José de Matos-Cruz.
Não nego o interesse de Boca do Inferno. Continuo, no entanto, a considerar que Arquivo de Cascais é um projecto a não perder. Mormente hoje que é possível fazer uma revista on line e apenas imprimir um número reduzido de exemplares, para oferta e/ou permuta.
[Publicado no Jornal de Cascais, nº 306, 21-03-2012, p. 6].
Já não se faz e, se calhar, também não se ensina!
Peço perdão se volto à monografia da fábrica Ernesto L. Matias, Lda., que nos tem ocupado. É que a sua leitura acabou por me sugerir mais uma reflexão, a propósito da frase: «Hoje já não se praticam os actos de convívio que eram uma marca do fundador: convívios, passeios e excursões a vários pontos turísticos do país» (p. 41).
E será, decerto, por isso que o autor, ao apontar pistas de futuro, ousa sugerir:
«[…] É de considerar acções que acentuem mais a aproximação de todos os elementos da empresa, nomeadamente a comemoração de efemérides: dia da fundação da empresa, aniversário do fundador, felicitar o trabalhador no dia do seu aniversário, entre outros» (p. 45).
Iniciativas que, em seu entender, «teriam um papel de entusiasmo, de motivação adicional, o que poderia traduzir-se num maior envolvimento do funcionário com os objectivos gerais de produção da firma e aumentar a própria produtividade de cada trabalhador» (p. 46).
É bom que tal se proclame em alta voz e amplamente se reconheça! Porquê? Porque são muito outras – e por tal motivo candidatas ao mais rotundo fracasso… – as teorias dos que ora nos mandam por essa Europa:
«Excursões, comezainas, gozo de feriados?!... Estão loucos, seus utópicos duma figa! Mais uns diazinhos de férias como recompensa a quem nunca faltou e se empenhou o ano inteiro? Qual quê! Que mordomia essa!? Acabe-se já com isso! Trabalhar, trabalhar, trabalhar!».
Pois é. Esquecem-se que não estão a lidar com autómatos mas sim com pessoas que sentem, que pensam, que têm uma vida!... Pessoas para quem apreciar um lindo pôr-do-sol repousante em tranquilidade pode ser – é! – eficaz meio de ganhar forças e boa motivação para as tarefas a enfrentar no dia seguinte.
Isso, porém, de «pôr-do-sol», de «tranquilidade» não se ensina já nos compêndios nem nas aulas nem se ouve nos discursos! Seria coisa de… gente efeminada, quando o País é bem latino, mediterrânico, macho, pois então!...
Coitados!
Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 589, 15-03-2012, p. 13.
E será, decerto, por isso que o autor, ao apontar pistas de futuro, ousa sugerir:
«[…] É de considerar acções que acentuem mais a aproximação de todos os elementos da empresa, nomeadamente a comemoração de efemérides: dia da fundação da empresa, aniversário do fundador, felicitar o trabalhador no dia do seu aniversário, entre outros» (p. 45).
Iniciativas que, em seu entender, «teriam um papel de entusiasmo, de motivação adicional, o que poderia traduzir-se num maior envolvimento do funcionário com os objectivos gerais de produção da firma e aumentar a própria produtividade de cada trabalhador» (p. 46).
É bom que tal se proclame em alta voz e amplamente se reconheça! Porquê? Porque são muito outras – e por tal motivo candidatas ao mais rotundo fracasso… – as teorias dos que ora nos mandam por essa Europa:
«Excursões, comezainas, gozo de feriados?!... Estão loucos, seus utópicos duma figa! Mais uns diazinhos de férias como recompensa a quem nunca faltou e se empenhou o ano inteiro? Qual quê! Que mordomia essa!? Acabe-se já com isso! Trabalhar, trabalhar, trabalhar!».
Pois é. Esquecem-se que não estão a lidar com autómatos mas sim com pessoas que sentem, que pensam, que têm uma vida!... Pessoas para quem apreciar um lindo pôr-do-sol repousante em tranquilidade pode ser – é! – eficaz meio de ganhar forças e boa motivação para as tarefas a enfrentar no dia seguinte.
Isso, porém, de «pôr-do-sol», de «tranquilidade» não se ensina já nos compêndios nem nas aulas nem se ouve nos discursos! Seria coisa de… gente efeminada, quando o País é bem latino, mediterrânico, macho, pois então!...
Coitados!
Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 589, 15-03-2012, p. 13.
Igrejas Caeiro (18.08.1917-19.02.2012)
Por ter residido em Caxias, homenageou Jornal de Oeiras, na sua edição de 28 de Fevereiro, Igrejas Caeiro, «uma voz da Liberdade» (p. 5). Pôde ler-se, na entrada desse tocante depoimento de um dos amigos, José Manuel Marreiro, que o acompanhou nos últimos anos:
«Igrejas Caeiro até ao fim da vida demonstrou simpatia para com quem o rodeava, manifestando muitas vezes o que lhe custava já não poder fazer nada e os outros terem que fazer tudo».
Era, de facto, assim Igrejas Caeiro e ainda recordo a ‘festa’ que fez quando nos reencontrámos aqui há dois ou três anos, numa cerimónia. Aquele abraço amigo!
Igrejas Caeiro em Cascais
O meu primeiro «contacto» com Igrejas Caeiro aconteceu no ringue de patinagem de Cascais, num dos primeiros anos da década de 50, quando ali apresentou mais uma das sessões que o notabilizaram: «Os Companheiros da Alegria». Meus pais, que raramente iam a manifestações desse teor, não hesitaram em ir e levar-me, porque este programa de variedades detinha uma audiência extraordinária, graças também à inigualável simpatia de Igrejas Caeiro.
Viria a encontrá-lo já na década de 80, quando, no mandato de Helena Roseta (1983-1986), ficou a seu cargo o pelouro da Cultura. De imediato se criou entre nós uma grande empatia, facilitada, aliás também, pela amizade que ambos nutríamos pela então presidente. E foi Igrejas Caeiro quem, depois de Sousa Lara, continuaria a dar à Cultura maior visibilidade em Cascais, após o 25 de Abril.
Recordarei que foi no seu tempo que se criou e dinamizou a Comissão do Património Histórico-Cultural, a que presidiu, comissão constituída por individualidades (representantes de entidades ou a título particular pela sua competência) a quem na Câmara eram submetidos, para parecer, os projectos que se prendessem com o património cultural do concelho.
Para além do natural apoio ao Teatro Experimental de Cascais (ele que fora um homem do teatro), a Câmara comparticipou, logo em Julho de 1983, no Curso Livre de História, Geografia e Sociologia Locais, promovido, no Hotel Estoril-Sol, pela Sociedade Propaganda de Cascais. Hoje, iniciativas destas são vulgares; na altura, eram… pedradas no charco!
Também se vêem colecções de medalhas; desconhecer-se-á, porém, que foi em 1984 que a Câmara patrocinou uma colecção de seis medalhas de bronze (em estojo) intitulada Costa do Estoril Histórica e Monumental, com representação de seis dos mais característicos monumentos do concelho. E fez-se o primeiro guia de visita histórico-turística à vila de Cascais: Cascais, Guia para uma Visita (1983).
Prosseguiu a publicação da revista Arquivo de Cascais (nº 5, 1984), auspiciosamente iniciada ao tempo do seu antecessor, Sousa Lara; patrocinou-se a exposição «Cascais pelo olhar dos seus pintores», iniciativa do Jornal da Costa do Sol no Hotel Atlântico (Janeiro-Fevereiro de 1985).
No domínio da Arqueologia, diligenciou-se para que a gruta do Poço Velho viesse a ser aberta ao público (as inundações fariam abortar o projecto); apoiaram-se sem hesitação as operações de limpeza da villa romana do Alto do Cidreira, em Setembro de 1985, assim como o projecto de escavação do que viria a ser reconhecido como villa romana de Freiria (data desse mês a 1ª campanha).
Um testemunho e um desafio
Álvaro Ferreira – ajferreira74@gmail.com – teve oportunidade de divulgar ele próprio, no dia 22, um testemunho de que se me afigura interessante agora fazer-me eco.
Depois de se referir aos êxitos o folhetim humorístico "Zéquinha e Lelé" (de 1947 a 1948, com Vasco Santana e Irene Velez, sua mulher, na Emissora Nacional) e o já citado programa itinerante de variedades "Companheiros da Alegria" (de 1951 a 1954, para o Rádio Clube Português), dá Álvaro Ferreira particular realce à «impressionante série de entrevistas "Perfil de um Artista" (de 1954 a 1960, para o Rádio Clube Português), que contemplou 258 personalidades das artes e das letras portuguesas e estrangeiras (num total de 300 edições)». Considera, aliás, que esse será, sem dúvida, o seu «principal legado para a posteridade», pois se trata de um «acervo de inestimável valor histórico e documental», sendo «muito provável até que para algumas figuras da cultura portuguesa do século XX o único registo de voz que exista seja o desses fonogramas».
E acrescenta:
«Os registos (desconheço se todos – é bem possível que alguns tenham sido entretanto destruídos) estão soterrados e esquecidos sob o pó, no arquivo histórico da RDP. Ora o melhor tributo que a rádio pública pode prestar à memória de Igrejas Caeiro (e, bem assim, à dos seus eméritos entrevistados) é a transmissão de todas essas entrevistas».
Cá está uma excelente ideia!
Executivo fez um minuto de silêncio
Conforme se pode ler na minuta da acta da reunião camarária de 20 de Fevereiro, no primeiro ponto antes da ordem do dia, o Senhor Presidente evocou a memória de Igrejas Caeiro e lembrou que «também foi vereador nesta Câmara Municipal», acrescentando-se:
«A sua vida expandiu-se pela rádio, pelo teatro, pela televisão e pelo cinema, com especial destaque antes do 25 de Abril, tendo sido um cidadão empenhado na luta pela democracia»; «terminou propondo que a Câmara Municipal guardasse um minuto de silêncio em sua memória».
Nada mais se diz nessa minuta.
[Publicado no Jornal de Cascais, nº 305, 14-03-2012, p. 6].
«Igrejas Caeiro até ao fim da vida demonstrou simpatia para com quem o rodeava, manifestando muitas vezes o que lhe custava já não poder fazer nada e os outros terem que fazer tudo».
Era, de facto, assim Igrejas Caeiro e ainda recordo a ‘festa’ que fez quando nos reencontrámos aqui há dois ou três anos, numa cerimónia. Aquele abraço amigo!
Igrejas Caeiro em Cascais
O meu primeiro «contacto» com Igrejas Caeiro aconteceu no ringue de patinagem de Cascais, num dos primeiros anos da década de 50, quando ali apresentou mais uma das sessões que o notabilizaram: «Os Companheiros da Alegria». Meus pais, que raramente iam a manifestações desse teor, não hesitaram em ir e levar-me, porque este programa de variedades detinha uma audiência extraordinária, graças também à inigualável simpatia de Igrejas Caeiro.
Viria a encontrá-lo já na década de 80, quando, no mandato de Helena Roseta (1983-1986), ficou a seu cargo o pelouro da Cultura. De imediato se criou entre nós uma grande empatia, facilitada, aliás também, pela amizade que ambos nutríamos pela então presidente. E foi Igrejas Caeiro quem, depois de Sousa Lara, continuaria a dar à Cultura maior visibilidade em Cascais, após o 25 de Abril.
Recordarei que foi no seu tempo que se criou e dinamizou a Comissão do Património Histórico-Cultural, a que presidiu, comissão constituída por individualidades (representantes de entidades ou a título particular pela sua competência) a quem na Câmara eram submetidos, para parecer, os projectos que se prendessem com o património cultural do concelho.
Para além do natural apoio ao Teatro Experimental de Cascais (ele que fora um homem do teatro), a Câmara comparticipou, logo em Julho de 1983, no Curso Livre de História, Geografia e Sociologia Locais, promovido, no Hotel Estoril-Sol, pela Sociedade Propaganda de Cascais. Hoje, iniciativas destas são vulgares; na altura, eram… pedradas no charco!
Também se vêem colecções de medalhas; desconhecer-se-á, porém, que foi em 1984 que a Câmara patrocinou uma colecção de seis medalhas de bronze (em estojo) intitulada Costa do Estoril Histórica e Monumental, com representação de seis dos mais característicos monumentos do concelho. E fez-se o primeiro guia de visita histórico-turística à vila de Cascais: Cascais, Guia para uma Visita (1983).
Prosseguiu a publicação da revista Arquivo de Cascais (nº 5, 1984), auspiciosamente iniciada ao tempo do seu antecessor, Sousa Lara; patrocinou-se a exposição «Cascais pelo olhar dos seus pintores», iniciativa do Jornal da Costa do Sol no Hotel Atlântico (Janeiro-Fevereiro de 1985).
No domínio da Arqueologia, diligenciou-se para que a gruta do Poço Velho viesse a ser aberta ao público (as inundações fariam abortar o projecto); apoiaram-se sem hesitação as operações de limpeza da villa romana do Alto do Cidreira, em Setembro de 1985, assim como o projecto de escavação do que viria a ser reconhecido como villa romana de Freiria (data desse mês a 1ª campanha).
Um testemunho e um desafio
Álvaro Ferreira – ajferreira74@gmail.com – teve oportunidade de divulgar ele próprio, no dia 22, um testemunho de que se me afigura interessante agora fazer-me eco.
Depois de se referir aos êxitos o folhetim humorístico "Zéquinha e Lelé" (de 1947 a 1948, com Vasco Santana e Irene Velez, sua mulher, na Emissora Nacional) e o já citado programa itinerante de variedades "Companheiros da Alegria" (de 1951 a 1954, para o Rádio Clube Português), dá Álvaro Ferreira particular realce à «impressionante série de entrevistas "Perfil de um Artista" (de 1954 a 1960, para o Rádio Clube Português), que contemplou 258 personalidades das artes e das letras portuguesas e estrangeiras (num total de 300 edições)». Considera, aliás, que esse será, sem dúvida, o seu «principal legado para a posteridade», pois se trata de um «acervo de inestimável valor histórico e documental», sendo «muito provável até que para algumas figuras da cultura portuguesa do século XX o único registo de voz que exista seja o desses fonogramas».
E acrescenta:
«Os registos (desconheço se todos – é bem possível que alguns tenham sido entretanto destruídos) estão soterrados e esquecidos sob o pó, no arquivo histórico da RDP. Ora o melhor tributo que a rádio pública pode prestar à memória de Igrejas Caeiro (e, bem assim, à dos seus eméritos entrevistados) é a transmissão de todas essas entrevistas».
Cá está uma excelente ideia!
Executivo fez um minuto de silêncio
Conforme se pode ler na minuta da acta da reunião camarária de 20 de Fevereiro, no primeiro ponto antes da ordem do dia, o Senhor Presidente evocou a memória de Igrejas Caeiro e lembrou que «também foi vereador nesta Câmara Municipal», acrescentando-se:
«A sua vida expandiu-se pela rádio, pelo teatro, pela televisão e pelo cinema, com especial destaque antes do 25 de Abril, tendo sido um cidadão empenhado na luta pela democracia»; «terminou propondo que a Câmara Municipal guardasse um minuto de silêncio em sua memória».
Nada mais se diz nessa minuta.
[Publicado no Jornal de Cascais, nº 305, 14-03-2012, p. 6].
terça-feira, 13 de março de 2012
Ter butze
Encantam-me, não há dúvida, as questões de linguagem, porque reconheço nas palavras e nas expressões uma carga cultural imensa. Não se trata da mera questão de se lhes descortinar a etimologia: «vem do grego», «vem do latim», «vem do árabe»... Interessa-me sobretudo verificar como é que elas passam para a linguagem falada e porquê.
Ao largo de Cascais naufragou, a 9 de Novembro de 1939, um vapor holandês que trazia um carregamento de querosene “para conservação das sulipas”. Ao ler a notícia, admirei-me: sulipas? Que poderia ser isso? Era a versão, em gíria, da palavra chulipa, designativa das travessas de madeira das vias-férreas! O aportuguesamento da palavra inglesa sleeper, «dorminhoco», pois que sobre as chulipas ‘dormem’ os carris!...
E nessa ordem de ideias ando às voltas com a palavra butze, cuja grafia correcta desconheço. Sei, porém, que, quando era catraio e jogava ao berlinde, disputávamos quem é que «tinha mais butze», ou seja, quem é que, com a pancada seca do dedo, conseguia atirar o berlinde mais longe. Nunca mais ouvi a palavra nem tenho a menor ideia donde é que possa ter vindo! Será que era ‘butes’ o que queríamos dizer, como se prantássemos pés nos berlindes para eles se porem a andar?...
Publicado no mensário VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 158 (Março 2012) p. 10.
Ao largo de Cascais naufragou, a 9 de Novembro de 1939, um vapor holandês que trazia um carregamento de querosene “para conservação das sulipas”. Ao ler a notícia, admirei-me: sulipas? Que poderia ser isso? Era a versão, em gíria, da palavra chulipa, designativa das travessas de madeira das vias-férreas! O aportuguesamento da palavra inglesa sleeper, «dorminhoco», pois que sobre as chulipas ‘dormem’ os carris!...
E nessa ordem de ideias ando às voltas com a palavra butze, cuja grafia correcta desconheço. Sei, porém, que, quando era catraio e jogava ao berlinde, disputávamos quem é que «tinha mais butze», ou seja, quem é que, com a pancada seca do dedo, conseguia atirar o berlinde mais longe. Nunca mais ouvi a palavra nem tenho a menor ideia donde é que possa ter vindo! Será que era ‘butes’ o que queríamos dizer, como se prantássemos pés nos berlindes para eles se porem a andar?...
Publicado no mensário VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 158 (Março 2012) p. 10.
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