quarta-feira, 16 de maio de 2012

A nossa linguagem


Era manhãzinha bem cedo. O comboio regurgitava de gente a caminho do emprego. Já se haviam todos levantado há mais de uma hora e o relativo silêncio da carruagem convidava ainda a um passar pelas brasas, por terem sido escassas as horas dormidas e muita a atarefação a preparar a saída.
A criancinha, de uns dois aninhos, gozava dos momentos (se calhar, quase únicos na sua jornada…) em que usufruía da disponibilidade conjunta de pai e mãe. Na brincadeira, balbuciava palavras: «Dabadabadaba!»… E os pais respondiam-lhe no mesmo tom e sorriso: «Dabadabadaba!». Não sei se era alguma palavra da sua intimidade, uma daquelas que a gente inventa para fazer miminhos ou se, ao invés, a menina já estava a começar a falar e essa era uma das palavras que assumira dessa forma infantil. E lembrei-me logo daquela prática, que por vezes temos, de dar às coisas, perante a criança, o nome que elas lhes dão, em vez de lhes ensinarmos logo, sem insistências mas com convicção e naturalidade, o nome verdadeiro. Claro que o gato pode ser o «miau»; mas… porque não há-de ser o ‘gato’ ou, se tiver nome, mesmo o nome dele?
Quando, após os beijinhos e mais uma ternurinha, a mãe saiu e o pai ficou com ela:
– A mamãe!... A mamãe!...» – choramingou. E o pai, então, falou com ela, serenamente, em linguagem normal; e a criança também voltou a falar naturalmente.
Portanto, fiquei mais satisfeito. Fora apenas mimalha brincadeira e os pais estavam bem conscientes do melhor processo de aprendizagem.
O António tem em casa um peixe que canta o «Don’t worry be happy» e que faz, por isso, as delícias do neto. Para o neto, porém, aquilo não é «o peixe» nem o «Big Mouth Billy Bass», o «singing fish» que até está no youtube; é, mui simplesmente, o «Biá»! – porque, desde pequenino, o que fixou foi o «be happy!».
E não é que fixou muito bem? Que mais queremos nós para as nossas crianças senão que elas sejam… biás! Felizes, num crescimento sereno, em que a música (porque não?) ocupe sempre um lugar primordial. Mesmo que veiculada por um peixe de que só muito mais tarde (e se for para Biologia…) poderá vir a saber que é uma espécie típica da América da Norte, de seu nome científico Micropterus salmoides, da família da nossa vulgar achigã!...
Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 593, 15-05-2012, p. 10.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A origem da língua portuguesa

Cumpre aos linguistas propor hipóteses explicativas da origem duma língua, tanto nos seus aspectos morfológicos quanto sintácticos, entendendo pelos primeiros o modo como as palavras se pronunciam e se escrevem, analisando os segundos o modo como se entrelaçam na frase, inclusive possibilitando, dessa forma, alguma mudança de significado – pois também aqui o contexto desempenha papel relevante.

O sugestivo e bem eloquente relato bíblico da Torre de Babel (Génesis 11, 1-8) explicita que todas as línguas brotaram dum tronco comum. No que respeita ao Ocidente, dessa base têm partido os linguistas, ao considerarem o indo-europeu essa base donde tudo partiu.
Ao embrenhar-me no tema das divindades indígenas, pré-romanas, na mira de, através da análise etimológica dos teónimos, lhes determinar atributos e funções, à Linguística tive, pois, de recorrer. Um emaranhado de sugestões – adiante-se desde já – porque se lida com vocábulos fruto de longa evolução, cujo som e respectiva representação gráfica algo terão, necessariamente, de aleatório.
Uma convicção perfilho, hoje: o do importante papel da oralidade e da convivência. A transposição escrita do que se ouve está sujeita a inúmeras contingências (recorde-se o caso da senhora que se chama Prantilhana…); e não vale a pena, por isso, digladiarmo-nos por causa dum e ou dum i. A própria pronúncia da mesma palavra assume tonalidades diferentes, inclusive no Português, que é uma das línguas consolidadas há mais tempo no Ocidente europeu. Virá a talhe de foice recordar que, em relação ao Latim, há três possíveis pronúncias para, por exemplo, o nome Cicero: a (dita) restaurada, a ‘portuguesa’ e a romana!...
Derivado, sem dúvida, do Latim, o Português acolheu de boamente contributos do Grego, do Árabe, do Visigótico… e, já nos nossos dias, consignados no Dicionário da Academia, termos próprios de outros países europeus, do Brasil e dos PALOPS (daí, a ideia peregrina do tal acordo ortográfico…).
O lugar e o tempo constituem, consequentemente, coordenadas a ter em conta, mormente se pensarmos que, apesar de termos apenas duas línguas oficiais – o Português e o Mirandês – há ainda o barranquenho, o minderico e – porque não? – o falar algarvio, o falar gandarês...
O Brasil poderá ser também motivo de sugestiva análise, se atentarmos que, logo no aeroporto, quando chegamos, deparamos não com a indicação «tapete» mas o classicíssimo «esteira»; e a nossa ‘fotocópia’ é… xerox! A simbiose perfeita entre o conservadorismo vernáculo e a adopção sem peias do neologismo preciso.
Qual a origem da língua portuguesa, portanto? O Povo que desde há muito séculos a fala, em épocas e em lugares precisos. Uma origem que não devemos, por consequência, considerar estática nem no tempo nem no espaço – porque… está viva! E amadurece todos os dias!
[Síntese da conferência que tive o gosto de proferir, ontem, 10 de Maio de 2012, a convite de VITRIOL, Associação para a Divulgação da Língua e Cultura Lusófona, na Biblioteca-Museu República e Resistência GRANDELLA, em Lisboa].

Andarilhanças 47

Estreia
      Constituiu «evento colunável» a estreia, a 23 de Abril, da peça do Teatro Experimental de Cascais. São sempre «eventos» as estreias; mas esta tê-lo-á sido muito especial, reclamada pelo regresso de António Pedro Cerdeira, actor bem conhecido dos telespectadores. Muitos foram, pois, os actores (mormente de telenovelas) que marcaram presença e os flaches dos fotógrafos não pararam até segundos antes de o pano subir; e, no intervalo, entrevistas não faltaram, claro! Eunice Muñoz foi também presença a assinalar.

Casais Velhos revisitados
No âmbito do seu programa de dar a conhecer as particularidades e o património do lugar onde vivem, a AMA – Associação de Moradores da Areia organizou, na tarde do passado dia 29, uma caminhada até ao povoado romano dos Casais Velhos.
      Inscreveram-se cerca de 120 moradores, que, conduzidos por José d’Encarnação (da Associação Cultural de Cascais), se inteiraram, logo no adro da capela de S. Brás, da antiguidade do lugar, quer pelos vestígios que iriam ver de seguida quer porque há notícias sobre a Areia ao longo dos séculos e constava o lugar dos pontos de referência anotados pelo Automóvel Clube de Portugal em meados do século passado, como o atesta a placa inserida na parede sul da capela.
      A caminhada fez-se pelo interior oriental da povoação, de modo que pôde apreciar-se a vegetação autóctone, assim como os típicos muros de pedra seca a dividir as propriedades agrícolas.

      Em pleno povoado romano, que teve ocupação documentada nos séculos IV e V da nossa era, José d’Encarnação fez a história das investigações arqueológicas ali levadas a efeito em 1945 e em 1968, explicando o significado e função de cada uma das estruturas postas a descoberto: o sistema de defesa amuralhado, o aqueduto, o complexo termal, as sepulturas, detendo-se, de modo especial, no conjunto de construções ligado ao que se supõe ter sido destinado à preparação da púrpura.

      Já no regresso, foi possível mostrar, no corte do terreno que ladeia a estrada, elementos arquitectónicos avulsos, a exemplificar as características que permitem identificá-los como romanos.
      A caminhada durou pouco mais de duas horas e terminou com um chá servido na esplanada do Centro Interpretativo da Crismina.

Canteiros confraternizam
      A manter a tradição cascalense de «atacar o Maio» com uma boa caldeirada, um grupo de canteiros de S. Domingos de Rana reuniu-se de novo, este ano, no dia 1, em Trajouce.
      Recordaram-se as técnicas do «tratar a pedra por tu»; viu-se, por exemplo, como funcionava a cruzeta,   instrumento usado em escultura para ‘tirar os pontos’, ou seja, para o canteiro mudar para a dimensão requerida o que o escultor lhe entregara em molde… Terminou-se, após a tradicional fotografia de grupo, no Museu do Caracol, que ora se dedica a fazer miniaturas, em madeira, de utensílios tradicionais do dia-a-dia saloio.
(Fotografias de Guilherme Cardoso. Foi Celestino Costa quem demonstrou como se usava a cruzeta).
Egoísta
      Numa época em que escrever cartas parece que já passou de moda – hoje já só se mandam frios e-mails e mui sintéticos sms, o nº 48 (Março 2012) de Egoísta, a revista trimestral da Estoril-Sol, vem recordar-nos o papel fundamental que o correio detém no nosso quotidiano, mormente a nível pessoal. Caso raro é, hoje, uma carta escrita à mão e valerá, decerto, a pena apostar em regressar a esses hábitos:
      «Só uma carta manuscrita pode transportar a mancha de uma lágrima. O odor de uma tinta perfumada, o hesitante vestígio de uma palavra corrigida, a marca de um anseio que nos escapa da alma e escorre pelo papel para ganhar vida própria só entre dois partilhada» – escreve Mário Assis Ferreira. E tem razão – oh se tem!
      Parabéns, pois, por mais esta… surpresa (que é sempre uma surpresa cada número da Egoísta!).

Acreditar
      Boletim da Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro [www.acreditar.org.pt], o nº de Março traz, para além do noticiário acerca das actividades da Associação (um exemplo sempre de grande e emotiva solidariedade!). Tem o leitor ideia, por exemplo, do que são os Barnabés? São as crianças, jovens e adultos que na sua infância vivem ou viveram uma doença oncológica – e eles próprios se tornam, depois, arautos de uma esperança que nunca pode morrer!
      Como se escreve logo no início da 1ª página (das 4 que compõem o boletim): «Pedras no caminho? Guardo-as todas. Um dia vou construir um castelo!».

[Publicado no Jornal de Cascais, nº 313, 09.05.2012, p. 4].




sábado, 5 de maio de 2012

Morram os velhos – depressa e bem!


            «Numa época em que os distanciamentos geracionais são cada vez mais evidentes, em que os relacionamentos humanos se desintegram e o abandono leva à solidão dos corpos encontrados meses depois da morte, o macabro desta comédia ganha uma triste dimensão trágica para todos nós» – é a frase final de Miguel Graça, na apresentação de «Arsénico e Rendas Velhas», de Joseph Kesselring, a peça que Teatro Experimental de Cascais estreou no passado dia 23.
            Escrita exactamente no ano em que começou a II Grande Guerra (1939), cujos horrores ainda se não conheciam mas decerto já se adivinhavam, a peça subiu à cena em 1941, em Nova Iorque, e, no ano seguinte, em Londres. Explica Miguel Graça, que foi o competente responsável por esta versão actualizada (parabéns!), que o êxito então obtido se explica também pela necessidade sentida por americanos e ingleses de encontrarem um divertido escape para a pressão psicológica com que os acontecimentos bélicos quotidianamente os oprimia. Rir para não chorar; procurar ver com outros olhos uma realidade inexoravelmente bem dramática.
            Acontece, porém, que, não estando nós numa guerra mundial de armas, estamos, nesta 2ª década do século XXI, numa guerra psicológica igualmente mortífera e deprimente – e entre uma e outra, que venha o diabo e que escolha! De uma forma eufemística, dir-se-ia, põe-se, na verdade, o dedo no fundo da ferida: «a solidão dos corpos encontrados meses depois da morte»… O paradigma mortalmente economicista da política europeia (todos o dizem, todos o sabem, excepto aqueles que têm de fingir que não sabem, coitados deles!...) leva precisamente a situações idênticas às que a peça de Kesselring escalpeliza – e muitas mais serão do que nós imaginamos!...

Ser bonzinho
            Que as duas velhinhas simpáticas se limitam, no fim de contas, a aceitar como hóspedes velhinhos que não têm onde cair mortos, que ora peregrinam sozinhos por este mundo, sem eira nem beira, e cuja vida, por isso, já não tem qualquer objectivo. «Vai uma bebidinha, Amigo? À nossa saúde!». E a cave vai-se enchendo de cadáveres, honrosamente sepultados como mandam as regras, as senhoras vestidas de preto da cabeça aos pés, as orações e… venha outro!
            Um sobrinho também enveredou pelo mesmo caminho, para sanear o mundo dos seres inúteis e perversos. Com mais requinte, em jeito de cirurgia plástica…
            E tudo se embrulha por ali, uma vez que até gozam da cumplicidade de um outro sobrinho louco, que se toma por presidente dos Estados Unidos e está, por isso, sempre a sonhar com guerras, inimigos e mortos!
            Não são todos uns queridos?... Não são todos, afinal, uns benfeitores dignos, até, de pública condecoração? Não livram os políticos de uma série de empecilhos?
            Comédia macabra, sim, que nos arranca gostosas gargalhadas pelo inesperado das situações e pelo à-vontade com que se tratam assuntos de uma seriedade imensa. E não é que, tal como nesses primórdios da II Grande Guerra, nós precisamos mesmo de rir? E a bandeiras despregadas, claro! Para ver se, tal como antigamente se dizia, «é a rir que se castigam os costumes»!

A peça de teatro
            «Arsénico e Rendas Velhas» esteve em cena até ao dia 29. Faz-se agora uma pausa, devido à reposição, agora no Teatro Nacional D. Maria II, de «O Comboio da Madrugada», com Eunice Muñoz (como se sabe) na protagonista, acompanhada por outros elementos da Companhia que necessitam de ser substituídos. Voltará, pois, ao palco do Mirita Casimiro de 15 de Maio a 15 de Junho – e é peça a não perder, justamente pelo anátema que implicitamente lança aos tristes tempos em que vivemos, como se tivéssemos culpa dos progressos da Medicina em prol da longevidade. Culpas teremos, porém, se continuarmos a não levantar a voz contra o egoísmo dos que abandonam velhos em casebres por essas aldeias perdidas ou num lar que nunca mais visitam ou num hospital de que aparentemente esqueceram nome e localização
            Se fez bem Carlos Avidez em a trazer a público agora? Claro que fez! E para os estudantes da Escola de Teatro, que se sentaram por terra à beira do palco no dia da estreia, terá sido mais uma aprendizagem. Não apenas porque estava em palco a maioria dos seus professores, mas também porque, no fundo, algo da lição lhes terá ficado no subconsciente.
            Rimo-nos muito. Aquela serenidade seráfica de Anna Paula; aquele desvario de António Pedro Cerdeira, crítico de teatro que não sabe para onde se há-de virar e até quase não distingue já o teatro-espectáculo do teatro-vida (saúda-se vivamente o seu regresso!); aquele ar de inocente de António Marques, na ridícula figura austera do cirurgião alemão, Doutor Einstein, pois então! Ai, os fornos crematórios!...); as loucuras imprevisíveis de João Pedro Jesus, a incarnar George W. Bush (presidente dos EUA…); a ardência apaixonada de Rita Cabaço – tudo são bons pretextos para rir. Mas é, no fundo, repita-se, um rir para não chorar!
            Interpretações de muito bom nível; cenário singelo a servir plenamente o que se pretende; ‘banda sonora’ a condizer… Realce, ainda, para a exposição de fotografias no ‘foyer’, da autoria de Alfredo Carvalho.
            Mais uma vez, os maiores aplausos!

[Publicado no Jornal de Cascais, nº 312, 02.05.2012, p. 4].

domingo, 29 de abril de 2012

Andarilhanças 45


Fernanda Ataíde
            Faleceu, no passado dia 19, Fernanda Athayde, que foi a grande timoneira do Hotel Atlântico e um dos vultos notáveis da nossa terra, pela sua tenacidade, saber e dedicação à causa da hotelaria e do turismo locais.
           A seu filho e continuador Luís Athayde e demais família, o meu abraço de mui sentidos pêsames.
            Que descanse em paz!

Fortaleza da Senhora de Luz
            No âmbito da comemoração do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, abriu a Câmara Municipal de Cascais, na tarde do sábado, 21, a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz, sita entre a marina e o Palácio da Cidadela. Margarida Ramalho, uma das investigadoras que mais se tem debruçado sobre a história e a interpretação dos vestígios arqueológicos dessa que constitui seguramente o mais antigo bastião de defesa da vila, guiou as visitas e ajudou os curiosos a compreenderem o significado que tem essa união íntima entre a Arqueologia e a História para alimentar as raízes da nossa identidade.
            Tive, pois, ocasião de rever os locais por onde, em 1989, se instalou o núcleo «Cascais na época dos Descobrimentos» da exposição «Cascais, um olhar através do seu património», que a Associação Cultural de Cascais, em estreita colaboração com a Câmara, levou a cabo. Datam desse outono a instalação eléctrica e a possibilidade de visita ao monumento, assim como o projecto, que ainda não logrou ser concretizado, de se musealizar esse espaço prenhe de história.

Cidadela
            Após a visita à fortaleza e antes da cerimónia de apresentação da fotobiografia de D. Maria Pia de Sabóia, houve tempo para dar uma vista de olhos pela reconversão da Cidadela. Além da pousada recém-inaugurada, que ficou, afinal, diga-se de passagem, bem integrada no conjunto arquitectónico pré-existente (o toque de modernidade não choca e o aproveitamento dos espaços para os 126 quartos e suites é digno de encómio), há todo um conjunto de equipamentos, que se arriscam a ser, doravante, mui agradável ponto de encontro para residentes e forasteiros. Adivinha-se, para já, grande afluência ao fim-de-semana e, no Verão, o espaço da antiga parada do quartel será, sem dúvida, condigno palco de manifestações culturais.
            Cumpre-se, assim, mais de cem anos passados, um desejo da população cascalense, dado que, como se sabe, logo nos primórdios da República, a cidadela foi oficialmente entregue ao povo de Cascais.
            O que falta? O que eu sempre disse e considero falha imperdoável, o único pecado mortal cometido: a ausência da História! Não teria custado muito destinar um dos espaços – e ele há tantos!... – para nele se recordar, ainda que minimamente, com fotografias, alguns objectos e até (porque não?) um pequeno vídeo, o que foi aquele monumento, o enorme conteúdo histórico que o impregna. Não nos deram ouvidos, tenho muita pena! Curiosamente, não fora essa a atitude de uma entidade de quem, à partida, tal se não esperaria, o Exército: após o 25 de Abril, a magnífica cisterna sob a parada foi esvaziada e transformada em salão nobre da Artilharia, mostrando, em vitrinas, pedaços de história; e, no jardim fronteiro à porta de armas instalou-se o Museu da Artilharia Antiaérea. Outros tempos, esses, em que à Cultura se reconhecia o papel que efectivamente detém, por mais que não se queira!...

D. Maria Pia de Sabóia
            Esposa de el-rei D. Luís I, o monarca que faleceu no Palácio da Cidadela (hoje afecto ao Museu da Presidência da República), D. Maria Pia de Sabóia esteve profundamente ligada a Cascais e às suas gentes, a partir de 1870. Justificava-se, pois, que nesse palácio fosse apresentada a fotobiografia comemorativa do centenário da sua morte (1911), da autoria de Maria do Carmo Rebello de Andrade, numa edição conjunta do Palácio Nacional da Ajuda e da Câmara Municipal.
A cerimónia ocorreu ao final da tarde de sábado, 21, perante luzida e selecta assistência.
Falou o Sr. Presidente da Câmara: palavras de ocasião, a realçar o significado do acto.
Fez o historiador Rui Ramos uma longa conferência sobre a monarquia na 2ª metade do século XIX, destacando miudamente as diferenças entre a monarquia italiana e a portuguesa de então (ficou-se a saber que já nessa altura os governantes sabiam fazer das suas!...). O erudito conferencista é, desde 1986, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e tem-se dedicado, em particular, a estudar o final da monarquia portuguesa e os primórdios da I República.
Também a Dra. Isabel Silveira Godinho, directora do Palácio Nacional da Ajuda, disse de sua justiça, dando conta de como o livro fora elaborado, com base na documentação existente no palácio.
A autora quase nos contou todo o conteúdo da obra, enquanto repetidamente as imagens (supomos que as mais significativas, do quotidiano da Família Real, instantâneos do veraneio em Cascais…) eram passadas no ecrã.
Inteligentes, porque muito breves, as intervenções finais tanto da Senhora Vereadora da Cultura como do actual responsável pelo palácio.
 Previsto para iniciar-se às 18.15 h, o acto teve o chamado ‘quarto de hora académico’ de tolerância e só viria a concluir-se em cima das 20 horas.                                                            

[Publicado no Jornal de Cascais, nº 311, 25.04.2012, p. 4].

sábado, 28 de abril de 2012

A crise que é de paradigma!


    Gizara-se uma Europa unida, à moda do antigo Império Romano. Na mira de evitar assimetrias, legislou-se uma aparente uniformização, mormente no que concerne à produção, pois – queira-se ou não! – era (e é!...) o dinheiro a alma do negócio.
     Distribuíram-se, pois, subsídios a rodos: para arrancar vinhas, para arrancar oliveiras, para não cultivar as terras, para… plantar quivis! Ah! Mas, daí a uns tempos, vieram verbas para plantar vinhas, arrancar quivis, plantar olivais!... O desaforo pegado, dinheiro deitado à rua, produção por completo estagnada, que, tal como em tempo do ouro, do Sr. D. João V, o Magnânimo, trabalhar, afinal, nem era preciso! E incentivou-se a compra de casa; com o dinheiro de arrancar árvores (que porventura se não arrancavam…) compraram-se jipes, televisores magníficos. E os bancos emprestavam sem complicações de maior.
     O que se passava ao nível do Povo anónimo, passava-se – a um escalão exponencialmente maior – entre os políticos recém-chegados: «Vou gastar uns milharezitos para renovar o mobiliário do meu gabinete, não gosto do que o meu antecessor deixou». «Ah! E vamos mudar os nomes dos ministérios!» – e toca a deitar para o lixo todos os impressos anteriores; estes logótipos estão ultrapassados e vamos adoptar novos, encomendados (por alguns milhares!) àquela empresa de marketing e imagem nossa conhecida (sabes?)!...
       Gastou-se, gastou-se... Endividou-se o Povo e o País! Portugal e a Europa!
       Crise vem duma palavra grega (quem diria?), ‘crísê’, que, além de ‘cisão’, ‘desequilíbrio’, ‘precipício’, também significa… discernimento! Discernimento não houve e… estava-se mesmo a ver que o precipício se abriria; que este paradigma de ver números e não ver as pessoas, de privilegiar o ‘ter’ ao ‘ser’ daria com os burrinhos na água na primeira oportunidade! Era só uma questão de tempo!...
        Bastava ter estudado História, disciplina que os tecnocratas desconhecem.
      Agora, aqui d’el-rei! Não há trabalho (e muito menos emprego!), porque, para aguentar o barco, se diminuem salários, se corta nas férias e nos respectivos subsídios, se aumenta o IVA… Tudo para o ‘lucro’ imediato, consignado nas estatísticas, mas não consignado na realidade, porque – e todos o compreendem! – aumentando o IVA, diminui o consumo, aumenta a economia paralela e diminuem, consequentemente, as verbas que, eufemisticamente, o Estado proclamava que iria receber!
        Como resolver?
      Mudando de paradigma! Lançando ao desprezo e desmascarando as (assim chamadas) agências de rating, fiéis correias de transmissão do capitalismo exacerbado. Tratando os cidadãos como pessoas!  
       Enquanto as medidas adoptadas forem exclusivamente economicistas, o precipício abrir-se-á cada vez mais, inelutável, e arrastará tudo e todos para o abismo – donde outro paradigma, humanista, forçosamente terá de surgir! Em Portugal, na Alemanha, nos EUA, no mundo!... Se as loucuras governamentais não continuarem, ainda há tempo para retroceder; se continuarem, Fénix terá de renascer das cinzas!                                                   

Publicado em Portugal-Post [Hamburgo], nº 51, Maio de 2012, p. 13-14
[versão portuguesa com tradução em Alemão].

terça-feira, 24 de abril de 2012

Frases de todos os tempos e… deste!

 
            Há frases a que nos habituamos, ainda que, em determinados momentos, elas adquiram um significado muito mais preciso e… menos brincalhão. Ou seja, dizemo-las amiúde, sempre em jeito de brincadeira, que o português – e, de modo muito especial, o algarvio… – não perde ocasião de mangar, na hora de arredar pensamentos sombrios. Os tempos de hoje lembraram-me duas.

            – Ó homem, pareces-me um entroncho!

Nos dicionários vem entroixo ou entrouxo, sendo troncho, como provincianismo, sinónimo de «homem desajeitado, brutamontes»; contudo, no Algarve, significa quem está mal vestido, uma farpela por cima da outra, sem jeito nenhum.

E não é que os entronchos ora, por necessidade, se multiplicam!....

            – Bolas! Nem dizes «Arroja, galego!».

            Usa-se quando alguém ataca um prato, tamanha a fome, que nem espera pelos demais. Sempre me causou estranheza o dito, até porque arrojar terá o sentido de ‘aventurar-se’, ‘fazer-se à vida’. No entanto, o mais curioso é, ainda, a relacionação com o galego, remontando, sem dúvida, ao tempo em que houve significativa migração de galegos para o nosso país e lhes eram entregues as tarefas mais difíceis. Daí a expressão «trabalha que nem um galego!» ou outra, «espera galego», que é a espera que nunca mais acaba…

Estamos nessa! Galegos… ou não!

Publicado no mensário VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 159-160 (Abril-Maio 2012) p. 10.