quinta-feira, 7 de junho de 2012

A marota linguagem infantil

            Amiúde se não dará importância às falas das crianças, no pátio da escola ou nas suas brincadeiras. Aí se reflectem, porém, com mais frequência do que se imagina, frases que ouvem dos adultos e que veiculam uma sabedoria quotidiana que os livros não trazem ou, ainda, um sabor picante, malandreco, que lhes sabe bem porque sai da normalidade imposta pelos adultos.
            Há já literatura e, até, projectos (no Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, por exemplo) sobre o tema; e decerto os dois exemplos que vou citar são capazes, até, de ser basto conhecidos. Um dado, porém, a reter é a facilidade com que essas frases têm rima, como se tal fosse a forma mais corrente de se afirmarem sentenças lapidares.
            Um diálogo:
– Em que estás a pensar?
– Nada!
– Pois quem nada não se afoga!
Uma situação:
Nos chafarizes, havia a torneira ou a bica, cuja água alimentava também a grande pia destinada a bebedouro de animais. E não era raro, quando um miúdo ia beber, outro assobiar, como era costume para as bestas. Depois de se dessedentar, o menino arisco não hesitava:
- Já bubi e sobejou para a grande besta que me assobiou!     

Publicado no mensário VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 161 (Junho 2012) p. 10.

Senta-te e dá-lhe atenção!

(In memoriam de Walter de Medeiros)

Deixou-nos, a 29 de Março, p. p., Walter de Medeiros, um dos mais insignes docentes de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
E a primeira imagem que dele me ocorre, sempre que, amiúde, o pensamento vai para a sua memória é a letra cuidada, perfeita, certinha com que escrevia uma dedicatória ou mera nota de esclarecimento a uma singela questão posta. Desse gesto emanava, assim, uma serenidade que, porventura, no seu íntimo, seria aparente, mas que nos calava bem fundo, uma vez que, para assim escrever, mostrava não estar com pressa nenhuma e nos dedicava. naquele momento. toda a atenção do mundo.
Exacto: a atenção, a disponibilidade, o saber ouvir atentamente quem quer que fosse são, na verdade, os traços da personalidade de Walter de Medeiros que mais me tocaram e me influenciaram também.
E não resisto, por isso, ao evocá-lo aqui, nestas palavras singelas, a lembrar as passagens de dois livros que moldaram a minha juventude e que vão precisamente nesse sentido:
«Há, na narrativa da Ressurreição, um pormenor cheio de delicadeza – o lençol do Ressuscitado estava dobrado (João, XX, 6-7). Traço tangível de gestos comedidos, dos quais for excluída toda a precipitação. Símbolo da calma que envolve todas as obras de Deus» (p. 15).[1]
«Não digas a quem te visite: “Só posso receber-te por um instante, não te mando sentar… etc…», enquanto o recebes um quarto de hora ocupando-te de outra coisa. Manda-o sentar e atende-o dez minutos, calmamente, dando-lhe a impressão que lhe dedicas todo o teu dia». [2]
Era assim Walter de Medeiros: um Homem que a todos tratava como pessoas!

Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 594, 01-06-2012, p. 10.



[1] Hélène Lubienska de Lenval, Silêncio, Gesto e Palavra, Aster, Lisboa, 1961, tradução de Jaime Cunha. Título original: Le Silence a l'Ombre de la Parole, Ed. Casterman – Maredsous, 1961.
[2] Michel Quoist, Construir, Livraria Morais Editora, Lisboa, 1965, p. 122.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Apresentação de novo visual para o mercado: pirosa e deficiente

            Diga-se, desde já, que serei «velho do Restelo», «bota-de-elástico». Aceito os apodos e espero ter oportunidade de me demonstrarem que errei.
            E explico: o mercado saloio vive da espontaneidade, da vizinhança, das vendedeiras e vendedores que, há anos, se conhecem pelo nome, sem necessidade de uniformizantes placas identificativas como nos supermercados (onde os contratos a prazo mudam os empregados como quem muda de camisa…); sem necessidade de etiquetas nos produtos; todos vestidos à saloia, sem necessidade de uniformes – e lembrei-me logo das estátuas funerárias perfiladas, todas iguais e uniformizadas que se mostram no Buddha Eden, ali na Quinta dos Loridos (Carvalhal), Deus me perdoe!...
            Fui à apresentação, e, portanto, não partilho da euforia oficialmente veiculada. Cheguei atrasado à sessão. Vi, porém, a passadeira vermelha para os VIPs (será que fecharam a outra entrada nascente, bem adequada para o efeito?), passadeira bordejada de velas tremeluzindo (a recordar que estávamos em noite de Senhora de Fátima ou em cerimonial de Iemanjá, seria?), guardada por duas meninas das Relações Públicas e, por perto, dois guarda-costas. É a primeira vez que vejo guarda-costas em iniciativas da Câmara; deve ser moda ou a Polícia Municipal estaria noutras funções. Uma multidão acotovelava-se, dizia impropérios contra a organização, porque alguém estava a tocar, mas não se via nada e, na torre, insistentemente, constantemente, repetidamente, passavam as imagens do que iria ser o novo visual do mercado. Lembro-me da etiqueta duma Carolina, toda contente… E havia dois holofotes a bailar na entrada, como naquelas festas dos clubes nocturnos. A gente punha-se em bicos de pés. Se calhar, os músicos estavam lá adiante, em frente dos felizardos (uns 200?) que tinham conseguido cadeiras. A multidão acotovelava-se, «com licença»... E veio alguém dizer que uma garrafinha de água, por ordem da Câmara, custava um euro e meio, e uma bica um euro, também por ordem da Câmara, que mandara afixar os preços, para ser tudo igual. Fôramos pela Carminho. A noite de 12 de Maio estava uma delícia de temperatura e de amenidade. Mesmo de encomenda para fados numa voz vibrante e jovem e far-se-ia silêncio quando ela começasse. Demorou a começar e muita gente abalou antes, rogando pragas à organização, decerto inexperiente nestas andanças (opinava-se). Quando sentimos que Carminho iria entrar em palco (eu digo ‘palco’, mas não cheguei a ver se havia, pois cá de traz não se enxergava nada!), todos pensámos: agora a publicidade à nova imagem desaparece e as câmaras põem-se diante da fadista e nós, cá ao fundo, e os que estão lá fora vêem a menina projectada na torre, ouvem-na melhor e… «silêncio que se vai cantar o fado!»… Nada disso! No mesmo ritmo frenético, as imagens continuaram; havia tentativas de se ver se Carminho vinha de preto ou de vermelho; as vozes de indignação impediam uma audição perfeita e estou convicto de que, apesar de se ter declarado muito contente por estar ali a actuar, Carminho gostaria de ter tido um público mais atento e silencioso. O Sr. Presidente ainda veio até à porta, antes do fado, e os circunstantes aproveitaram para lhe dizer do seu descontentamento, falarem da pirosice da passadeira vermelha e das velinhas, da falta de visão de quem terá sido pago para organizar o ‘evento’. Todos nos interrogávamos como era possível isto estar a passar-se em Cascais…
            Carminho quase nos ia apaziguando, no final, cantando para além de uma hora, na voz doce e profunda que muito lhe admiramos. E esperamos que volte, noutro cenário.
Nota:
Este apontamento foi preparado a 19 de Maio para ser publicado na edição seguinte do Jornal de Cascais. Entretanto, de semanário, o jornal passou a quinzenário e o texto acabaria por perder actualidade. Preferi, pois, publicá-lo aqui, pois considero meu dever dar conta do que foi a minha reacção nessa noite de 12 de Maio, até porque se preparam festejos populares no mesmo cenário e eu gostaria que os inconvenientes de então não voltassem a fazer-se sentir.

domingo, 27 de maio de 2012

Andarilhanças 48


Uma reflexão sobre o turismo
            Por iniciativa da Fundação António Quadros, com a colaboração da Escola Superior de Turismo e Hotelaria do Estoril e o patrocínio da Câmara Municipal, realizou-se, no dia 8, no Estoril, o colóquio «Turismo em Portugal. Passado. Presente. Que Futuro?».
Evocaram-se os primórdios do turismo no País (Celestino Domingues) e em Cascais (Margarida Ramalho); traçou-se a panorâmica das tendências antigas e actuais (Alberto Marques); realçou-se o papel do turismo como fautor de identidade dum país ou duma região (Manuel Coelho da Silva); recordou-se o notável contributo de António Ferro, cujas teses (ficou demonstrado) ainda hoje são de uma actualidade flagrante (José Guilherme Victorino): «Quando o hóspede deixa de ser mencionado pelo nome, as pousadas perdem significado»…
Destaque especial para a mui oportuna análise de Armando Rocha, bem documentada, a pôr em confronto, nomeadamente no que concerne à hotelaria, as diferenças que ora se registam em relação ao praticado há uma década atrás. Sublinhando a necessidade de parar para pensar («Pensar volta a estar na moda!»), de dar relevo à diferenciação baseada no trinómio «autenticidade, tradição, simplicidade», reclamou maior atenção às pessoas e suas emoções («Os hotéis têm de vender experiências e não apenas quartos»), sobretudo tendo em atenção o inegável papel ora desempenhado pelas redes sociais e pelo TripAdvisor, página da Internet que hoje detém um relevante papel.

Misericórdia revela-se
            Sabíamos que existia, tinha lares, creches, o «Bom Apetite», uma farmácia; que dinamizava ATLs, acolhia e recuperava toxicodependentes na Casa da Barragem e noutras; que dava apoio domiciliário e tinha centros de dia…
Missão imensa, no espírito de dar cumprimento às obras de misericórdia, desde 1551!...
Tinha-se uma ideia, se calhar vaga e parcelar. Por isso, no sábado, 5, das 10 às 19 horas, todas essas valências assentaram arraiais, no Jardim Visconde da Luz, no coração da vila, e mostraram como se faz, como se vive, como se ajuda a (saber) viver.
Lá estiveram, para apoiar, o ministro da Solidariedade e Segurança Social, Pedro Mota Soares; o presidente da Câmara e alguns vereadores; o presidente da Junta; Mariana Ribeiro Ferreira, presidente do Instituto da Segurança Social; e muita muita gente – a saudar os funcionários e técnicos que prontamente disseram «presente!», a dar o seu contributo…
Muita animação, demonstração de actividades, música, cantares, o entusiasmo dos meninos dos tambores, exposição de produtos artesanais em que, mais do que a beleza real, se espelha a beleza implícita do gesto e da positiva atitude perante a Vida!
Uma Santa Casa que, afinal, a todos serve e que de todos espera solidariedade.

Parque infantil do Bairro da Assunção
            Nesse mesmo sábado, um outro momento importante na freguesia de Cascais: a abertura do parque infantil do Bairro da Assunção, obra da Junta de Freguesia. Sito na Praça João Martinho de Freitas, no coração do bairro, abrigado pela sombra das árvores, é recanto de que apetece usufruir e que a população saberá preservar como privilegiado ponto de encontro de gerações.
            Pedro Mota Soares também se associou ao acto ‘inaugural’, assim como o presidente da Câmara e, necessariamente, o presidente da Junta, membros do seu Executivo e muitos moradores. O pessoal da Associação Cultural Confluência trouxe a animação!
            Congratulamo-nos!


O papel do teatro
Em vários espectáculos do TEC se discute a função própria das representações teatrais na vida da comunidade. Assim, em Arsénico e Rendas Velhas, uma das personagens revela quanto os pais se opuseram a essa sua «desgraçada ligação com o teatro, um vício que se contrai…». Ele queria era escrever sobre economia, mas, como diria a canção, «o seu País não deixou!». E tornou-se crítico de teatro!...
 
 
Snack de poesia
            Tem prosseguido com êxito e mui razoável participação a iniciativa de Ricardo Alves de trazer a poesia para o seio da comunidade do seu bairro. Desde Janeiro, no 2º e 4º sábados de cada mês, no Café Pampilho, Pampilheira, Cascais.
A última sessão desta temporada será, pois, no dia 26, das 22 às 24 horas. Há sempre surpresas que aí se revelam.
            Entrada livre. 
[Publicado no Jornal de Cascais, nº 314, 23.05.2012, p. 6].

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A juventude de João de Deus revelada

            É com muito agrado que ora vemos revelada parte da vida do poeta João de Deus, que, nascido em São Bartolomeu de Messines a 8 de Março de 1830, se encontra, de facto, ligado a S. Brás de Alportel, pois aqui estudou, no âmbito da preparação da vida sacerdotal que encarava abraçar.
Coube ao Padre Afonso da Cunha Duarte – que, em S. Brás, sabe aliar ao seu múnus pastoral a irresistível vontade de investigar a História, nomeadamente a história local, e por isso lhe devemos estar muito gratos – debruçar-se sobre a documentação existente no Arquivo Histórico da Diocese do Algarve, donde consta que «como tantos outros candidatos ao sacerdócio, João de Deus teve aulas nos seminários ad hoc, organizados pelos padres mestres e aprovados pelo Bispado do Algarve». Por isso, além de aulas eclesiásticas na sua terra natal, teve-as também em S. Brás e aí recebeu as Ordens Menores, em 1848, na capela do Palácio Episcopal, sendo oficiante o então bispo do Algarve, D. António Bernardo da Fonseca Moniz.
Dada, na verdade, a difícil situação em que a Igreja se encontrava nos finais do século XIX, de anticlericalismo reinante, de «dessacralização da vida quotidiana», criaram-se «seminários de recurso» para quantos, apesar do clima adverso, queriam seguir a vida eclesiástica. Afonso Duarte vasculhou miudamente o referido arquivo, com a paciência, tenacidade e saber que se lhe reconhecem, e, no livro João de Deus Clérigo Minorista da Diocese do Algarve (S. Bartolomeu de Messines, Abril de 2012, ISBN 978-989-95726-4-5), dá conta dos resultados obtidos, que mais luz trazem agora à história da nossa terra!
Um deveras interessante acervo documental que passara completamente despercebido.            

[Publicado em Notícias de S. Braz, nº 186, 20-05-2012, p. 15].

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A nossa linguagem


Era manhãzinha bem cedo. O comboio regurgitava de gente a caminho do emprego. Já se haviam todos levantado há mais de uma hora e o relativo silêncio da carruagem convidava ainda a um passar pelas brasas, por terem sido escassas as horas dormidas e muita a atarefação a preparar a saída.
A criancinha, de uns dois aninhos, gozava dos momentos (se calhar, quase únicos na sua jornada…) em que usufruía da disponibilidade conjunta de pai e mãe. Na brincadeira, balbuciava palavras: «Dabadabadaba!»… E os pais respondiam-lhe no mesmo tom e sorriso: «Dabadabadaba!». Não sei se era alguma palavra da sua intimidade, uma daquelas que a gente inventa para fazer miminhos ou se, ao invés, a menina já estava a começar a falar e essa era uma das palavras que assumira dessa forma infantil. E lembrei-me logo daquela prática, que por vezes temos, de dar às coisas, perante a criança, o nome que elas lhes dão, em vez de lhes ensinarmos logo, sem insistências mas com convicção e naturalidade, o nome verdadeiro. Claro que o gato pode ser o «miau»; mas… porque não há-de ser o ‘gato’ ou, se tiver nome, mesmo o nome dele?
Quando, após os beijinhos e mais uma ternurinha, a mãe saiu e o pai ficou com ela:
– A mamãe!... A mamãe!...» – choramingou. E o pai, então, falou com ela, serenamente, em linguagem normal; e a criança também voltou a falar naturalmente.
Portanto, fiquei mais satisfeito. Fora apenas mimalha brincadeira e os pais estavam bem conscientes do melhor processo de aprendizagem.
O António tem em casa um peixe que canta o «Don’t worry be happy» e que faz, por isso, as delícias do neto. Para o neto, porém, aquilo não é «o peixe» nem o «Big Mouth Billy Bass», o «singing fish» que até está no youtube; é, mui simplesmente, o «Biá»! – porque, desde pequenino, o que fixou foi o «be happy!».
E não é que fixou muito bem? Que mais queremos nós para as nossas crianças senão que elas sejam… biás! Felizes, num crescimento sereno, em que a música (porque não?) ocupe sempre um lugar primordial. Mesmo que veiculada por um peixe de que só muito mais tarde (e se for para Biologia…) poderá vir a saber que é uma espécie típica da América da Norte, de seu nome científico Micropterus salmoides, da família da nossa vulgar achigã!...
Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 593, 15-05-2012, p. 10.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A origem da língua portuguesa

Cumpre aos linguistas propor hipóteses explicativas da origem duma língua, tanto nos seus aspectos morfológicos quanto sintácticos, entendendo pelos primeiros o modo como as palavras se pronunciam e se escrevem, analisando os segundos o modo como se entrelaçam na frase, inclusive possibilitando, dessa forma, alguma mudança de significado – pois também aqui o contexto desempenha papel relevante.

O sugestivo e bem eloquente relato bíblico da Torre de Babel (Génesis 11, 1-8) explicita que todas as línguas brotaram dum tronco comum. No que respeita ao Ocidente, dessa base têm partido os linguistas, ao considerarem o indo-europeu essa base donde tudo partiu.
Ao embrenhar-me no tema das divindades indígenas, pré-romanas, na mira de, através da análise etimológica dos teónimos, lhes determinar atributos e funções, à Linguística tive, pois, de recorrer. Um emaranhado de sugestões – adiante-se desde já – porque se lida com vocábulos fruto de longa evolução, cujo som e respectiva representação gráfica algo terão, necessariamente, de aleatório.
Uma convicção perfilho, hoje: o do importante papel da oralidade e da convivência. A transposição escrita do que se ouve está sujeita a inúmeras contingências (recorde-se o caso da senhora que se chama Prantilhana…); e não vale a pena, por isso, digladiarmo-nos por causa dum e ou dum i. A própria pronúncia da mesma palavra assume tonalidades diferentes, inclusive no Português, que é uma das línguas consolidadas há mais tempo no Ocidente europeu. Virá a talhe de foice recordar que, em relação ao Latim, há três possíveis pronúncias para, por exemplo, o nome Cicero: a (dita) restaurada, a ‘portuguesa’ e a romana!...
Derivado, sem dúvida, do Latim, o Português acolheu de boamente contributos do Grego, do Árabe, do Visigótico… e, já nos nossos dias, consignados no Dicionário da Academia, termos próprios de outros países europeus, do Brasil e dos PALOPS (daí, a ideia peregrina do tal acordo ortográfico…).
O lugar e o tempo constituem, consequentemente, coordenadas a ter em conta, mormente se pensarmos que, apesar de termos apenas duas línguas oficiais – o Português e o Mirandês – há ainda o barranquenho, o minderico e – porque não? – o falar algarvio, o falar gandarês...
O Brasil poderá ser também motivo de sugestiva análise, se atentarmos que, logo no aeroporto, quando chegamos, deparamos não com a indicação «tapete» mas o classicíssimo «esteira»; e a nossa ‘fotocópia’ é… xerox! A simbiose perfeita entre o conservadorismo vernáculo e a adopção sem peias do neologismo preciso.
Qual a origem da língua portuguesa, portanto? O Povo que desde há muito séculos a fala, em épocas e em lugares precisos. Uma origem que não devemos, por consequência, considerar estática nem no tempo nem no espaço – porque… está viva! E amadurece todos os dias!
[Síntese da conferência que tive o gosto de proferir, ontem, 10 de Maio de 2012, a convite de VITRIOL, Associação para a Divulgação da Língua e Cultura Lusófona, na Biblioteca-Museu República e Resistência GRANDELLA, em Lisboa].