terça-feira, 26 de junho de 2012

«Mãe Natureza», na Confluência, em Cascais

            Num original de Maria Helena Torrado, com encenação de Ricardo Carriço e músicas originais de Vanessa Teixeira, está em cena, em Cascais, a peça musical infantil «Mãe Natureza», representada pelo Grupo de Teatro Confluência.
            A pretexto de se identificarem os animais e os seus hábitos, acaba-se, de uma forma singela, por incutir nas crianças não apenas o respeito pela Natureza na sua biodiversidade mas também por as incentivar a melhor observarem o meio que as rodeia. Tudo se passa como que numa floresta, em que, sob a direcção da Mãe Natureza, se retrata a vida de uma grande quantidade de animais – chega a haver quase duas dezenas em palco!...
Uma peça de uma hora, bem divertida, ao fins-de-semana: sextas, às 21.30 h; sábados, 18.30 h; domingos, às 16.
O Espaço Teatro Confluência – www.confluencia.pt – tem o apoio da Junta de Freguesia de Cascais e fica no nº 25 da Rua Freitas Reis, próximo da Escola de Ensino Básico nº 1.

 [Publicado no Cyberjornal de 24-06-2012]

Naufragou um barco ao largo de Cascais... em 1696!

            Tive ensejo de, na edição de Jornal da Costa do Sol de 8 de Julho de 1972, dar a notícia, em primeira-mão, do achado de «um canhão de bronze florentino do século XVII encontrado ao largo do Cabo Raso». Na informação, veiculada em grande relevo na última página do jornal, com fotografias, acrescentava-se: «O precioso achado está na Capitania do Porto de Cascais, aguardando o parecer duma comissão que ajuizará do seu valor histórico e material».
            No texto se fazia desde logo breve descrição do canhão, recolhido, a 18 de Junho, por José dos Reis Jorge, dono do «Praia da Nazaré», tendo-me demorado na decifração das duas inscrições latinas que apresenta: uma, a localizá-lo no tempo de Fernando II, 5º grão-duque da Etrúria, 1647; a outra, a identificar o fabricante, que eu interpretei como sendo «Obra do génio florentino João (?) Maria». E acrescentava: «Um canhão que certamente Cascais teria interesse em possuir, por se tratar de mais um documento da sua história». As longas diligências deram bom resultado e a colubrina (assim se caracteriza o canhão) pode hoje ser admirada no Museu do Mar.
            Mendes Atanásio viria a publicar, no Arquivo de Cascais nº 3 1981/1982 (pp. 9-15), por entretanto se ter encontrado mais um canhão, uma correcção da interpretação que eu dera: nada garantia, escreveu, que o canhão tivesse sido propriedade (como eu aventara) de Fernando II e, por outro lado, não deveria ler-se Gennii mas Cennii, ou seja, o fundidor da peça fora o florentino João Maria Cénio.
            Vêm estas considerações a propósito de outras descobertas se terem feito, de seguida, no local, e agora tudo João Pedro Cardoso ter compendiado no livro Sobre os destroços da Gran Principessa di Toscana, naufragada nas imediações do Cabo Raso, Cascais, em boa hora editado pela Junta de Freguesia de Cascais (2012) e apresentado no final da tarde da passada sexta-feira, 22 de Junho.
            Em representação do Sr. Presidente, fizeram as honras da casa dois elementos do Executivo: a secretária, Virgínia Bernardino, que saudou o autor e louvou a iniciativa, explicitando que do livro, pelo seu interesse, se iria fazer ampla difusão, nomeadamente pelas escolas da freguesia, e o tesoureiro, José Soares Bernardino. O autor agradeceu a presença dos que quiseram acompanhá-lo agora e ao longo da preparação do volume, assim como a oportunidade da publicação e, também, a da exposição, pois a galeria da Junta abriu portas para mostrar as imagens mais significativas que ilustram a publicação.
Estiveram presentes muitos dos investigadores da Arqueologia Subaquática nacional, nomeadamente o Dr. Francisco Alves, criador da (agora) Divisão de Arqueologia Náutica e Subaquática do IGESPAR, Francisco Reiner (cuja colecção esteve na origem do Museu de Mar D. Carlos I), Mário Jorge de Almeida (investigador do Museu Nacional de Arqueologia), Jorge Freire (investigador de Arqueologia Subaquática que também já prestou serviço no Museu do Mar), técnicos do Museu do Mar, entre outros.
O livro, em formato A4, de 68 páginas, profusamente ilustradas, tem prefácio de Luís Morais Teixeira, que salienta como assim se abre «uma interessante janela sobre o universo do legado patrimonial subaquático e da sua salvaguarda». Depois de se traçar uma panorâmica do que foram, até ao momento, as intervenções no sítio do naufrágio (que se localiza), dá-se conta das fontes escritas existentes acerca do desastre, manuscritos que se transcrevem (transcrição da responsabilidade de Paulo Monteiro); e, após esclarecedor capítulo a introduzir no mundo das designações técnicas, faz-se o catálogo descritivo do espólio (de que adiante se apresenta o rol) e das ilustrações.

             [Publicado no Cyberjornal, na edição de 25-06-2012]

           

terça-feira, 19 de junho de 2012

Açores, II Grande Guerra - Uma história voluntariamente esquecida?

Meu pai foi mobilizado para os Açores em 1942-1943. Nunca tive oportunidade de falar com ele acerca dessa sua permanência em S. Miguel (creio que foi em S. Miguel), até porque havia, naturalmente, alguma reserva sobre o que lá se passara, não apenas por meu pai estar então em plena juventude, mas também porque as dificuldades sofridas decerto lhe não deixaram saudades e até talvez as tenha esquecido. Recordo, porém, que cantava, amiúde, dois fados. Um, adaptado depois pela Brigada Victor Jara (com outra melodia, porém), fala de

Ausência tem uma filha
Que se chama Saudade
Eu sustento mãe e filha
Bem contra a minha vontade.

Diz-se que é do folclore açoriano.[1]
Saudade e ausência somente porque dos Açores emigrou sempre muita gente para a América do Norte? Não será também esse um eco da estada de soldados continentais nas ilhas no decorrer da II Guerra Mundial, mormente após a instalação da Base Aérea das Lajes, em 1941, para ali enviados em força, dada, como se sabe, a ameaça de uma eventual ocupação dos Açores? Quem há aí que já tenha estudado este assunto?
E a razão da minha pergunta prende-se com o outro fado, de que apenas recordo dois versos e que, em meu entender, mereceria uma reflexão histórico-sociológica:

Soldado português, toma cuidado,
Que aquela que namoras quando fores...

Naturalmente, o quarto verso terminava em Açores; e a preocupação subjacente nesse fado viria a ter eco, muito mais tarde, na chamada «guerra colonial», no que às relações amorosas e sentimentais diz respeito. Já tentei em diversas instâncias obter a letra toda: sem êxito!


Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 595, 15-06-2012, p. 10.




[1] Na página da freguesia de São Sebastião, de Ponta Delgada – http://jfsaosebastiao.com/seccao/6/ [consultada às 19 h. de 20-02-2012] –, aponta-se o poema «Saudade», que começa por essa quadra, como exemplo de uns dos muitos «balhos e canções cuja origem se perde na poeira dos tempos», «comuns a outras localidades e/ou ilhas».

domingo, 17 de junho de 2012

O trabalho da pedra

      Congratulo-me com as iniciativas que visam lembrar quanto foi importante, no século passado, o trabalho da pedra no nosso concelho, designadamente devido às pedreiras dos Funchais.
      Ainda não desisti de que – para além do geoponto – algo mais se faça no nosso concelho para mostrar como, por exemplo, depois de terem aprendido em Marrocos as novas técnicas de trabalhar a pedra, os são-brasenses demandaram Cascais e aí as deram a conhecer aos saloios, que tinham outra forma de laborar.
Continua por acabar o monumento aos canteiros em Bordeira, que ostenta a inscrição «Saudade 2009», mas que tem uma superfície emoldurada para nela certamente se inserir uma inscrição comemorativa, cujo teor importa estudar. Aliás, acho que, neste domínio, os municípios de Faro e de S. Brás deveriam dar as mãos. Agrada-me sempre ver aquela casa próxima das pedreiras, que manteve no jardim estratos calcários à mostra.
No âmbito das festas populares de Tires (S. Domingos de Rana, Cascais) deste mês de Junho, houve a iniciativa de se apresentar, como que em minimuseu, as ferramentas com que se trabalhava, os ambientes, as fotografias… Claro, as memórias saloias. O monumento que há anos erigimos em Birre, no coração da freguesia de Cascais, é mais cosmopolita e refere os são-brasenses, hoje ainda muito recordados, apesar de as pedreiras também se encontrarem já inactivas por essas bandas.

[Publicado em Notícias de S. Braz, nº 187, 20-06-2012, p. 15].

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Andarilhanças 49

A placa do heroísmo já está exposta
Sob o título «Heroísmo português no Brasil guarda-se no Museu do Mar», referiu-se aqui, na edição de 14-12-2011, que fora oferecida ao Museu do Mar uma preciosa placa onde, sob o anagrama de Augusto de Castilho, se lê:
«Heróico comandante da Mindelo e da Affonso de Albuquerque em 1894 nas águas do Rio de Janeiro. Homenagem de Brasileiros e Portuguezes residentes em S. Paulo. 6-12-98».
O documento já se encontra exposto no Museu – com o que muito nos congratulamos.

Romanos e saloios na Areia
Na sequência do passeio feito a 29 de Abril ao povoado romano dos Casais Velhos, organizou a Associação de Moradores da Areia, no passado dia 1, em colaboração com a Associação Cultural de Cascais e o patrocínio da Junta de Freguesia, um serão em que se mostrou a singularidade histórica daquele povoado e se referiram aspectos mais salientes do património edificado do lugar, com especial relevo para a arquitectura tipicamente saloia e o cruzeiro evocativo do acidente que vitimou, a 20 de Julho de 1936, o General Sanjurjo, que seguia para Burgos numa avioneta que levantara voo do vizinho aeródromo da Marinha.

Excrementos caninos e civismo
Passeei-me, a 3 de Junho, pela manhã, na zona ocidental do Bairro da Pampilheira, aquela que, um dia, estranho e misterioso serviço camarário impossibilitou de estar acessível de carro a quem vem da zona oriental do mesmo bairro. Incompreensível incongruência para o cidadão comum e que, um dia, se saberá, decerto, a que génio ou força oculta se terá ficado a dever.
Ostenta o trecho final da Rua Afonso Lopes Viera, além da singularidade desse inexplicável sentido único, a não menos inexplicável acumulação de lixo. É, seguramente, o ângulo mais sujo do bairro.
Outra circunstância estranha ocorre numa artéria confluente, a Rua António Nobre: tem, excepcionalmente, dois recipientes de sacos para recolha de excrementos caninos. Distam um do outro escassos 100 metros, nem tanto! Pois são precisamente os passeios dessa rua, na sua parte mais baixa, que concentram o maior número desses ‘interessantes’ resíduos!... Será que é ali que vão defecar todos os cães vadios das redondezas?
Ainda no âmbito desse tema do civismo (não falo do dos cãezinhos, naturalmente…), achei deveras curioso o facto de o empreiteiro que está a abrir uma vala no cima da Rua Gomes Leal ter pura e simplesmente proibido a circulação rodoviária no sentido ascendente, ‘mandando’ os condutores para um ‘desvio’ mais além. Porquê, se há possibilidade de os carros passarem e a vala é mínima e só no cimo? Porquê manter essa proibição ao fim-de-semana, quando (e esse poderia ser um dos problemas) não há qualquer máquina a trabalhar, ou melhor, as máquinas ficaram lá no meio da rua? Mistérios que nem a Polícia Municipal ousa desvendar…

O Grupo Vira o Tacho, da Torre
Maio de 1944. Cumprindo a tradição da caldeirada, a manhã fora farta em polvos e outras pescarias na «banheira», minúscula enseada perto do farol da Guia, que era propriedade do Conde das Alcáçovas. O grupo já se ajuntava há anos para confraternizar; eram os homens das famílias da Torre; porém, nesse dia 4, haviam decidido formalizar o reencontro anual.
O grande tacho estava já ao lume, assente em tijolos, lambido pelas labaredas. E que nome se dá ao grupo, que o grupo precisa de ter um nome?! Opinião daqui, opinião dali, sem obter unanimidade… Nisto, com o calor, um dos tijolos parte-se e o tacho vira-se! Estava escolhido o nome: «Vira o Tacho»!
Desde então, a tradição mantém-se e o número de ‘sócios’ sempre o mesmo: 20! Quando um, por qualquer motivo, nomeadamente de morte, sai, é logo proposto um outro, que tem de ser de uma família da Torre ou aparentada. Hoje, do grupo fundador, já quase uma dezena partiram e são lembrados com carinho – que o encontro anual serve também para isso: para matar saudades, para recordar peripécias; enfim, para cimentar comunidade e manter esses laços de solidariedade entre vizinhos.
Assim aconteceu este ano, no domingo, 13 de Maio, no antigo barracão da «Praceta do Germano», na Torre, dado que ora já não há possibilidade de fazer fogo na orla e muito menos na Marinha: a caldeirada é preparada na Quinta de Santo António, que tanto o Zé Manel como o pai são membros do grupo.
Estive lá um pouco antes do almoço – que vinha a caminho – e aproveitei também eu para regressar aos tempos de infância na escola de Birre, na escola da Bicuda, nos bailes da Sociedade, numa homenagem aos que já não se encontram entre nós…
E, à despedida, o voto de sempre: que para o ano, com saúde, nos voltemos todos a encontrar!
      [Publicado no Jornal de Cascais, nº 315, 06.06.2012, p. 6].

quinta-feira, 7 de junho de 2012

A marota linguagem infantil

            Amiúde se não dará importância às falas das crianças, no pátio da escola ou nas suas brincadeiras. Aí se reflectem, porém, com mais frequência do que se imagina, frases que ouvem dos adultos e que veiculam uma sabedoria quotidiana que os livros não trazem ou, ainda, um sabor picante, malandreco, que lhes sabe bem porque sai da normalidade imposta pelos adultos.
            Há já literatura e, até, projectos (no Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, por exemplo) sobre o tema; e decerto os dois exemplos que vou citar são capazes, até, de ser basto conhecidos. Um dado, porém, a reter é a facilidade com que essas frases têm rima, como se tal fosse a forma mais corrente de se afirmarem sentenças lapidares.
            Um diálogo:
– Em que estás a pensar?
– Nada!
– Pois quem nada não se afoga!
Uma situação:
Nos chafarizes, havia a torneira ou a bica, cuja água alimentava também a grande pia destinada a bebedouro de animais. E não era raro, quando um miúdo ia beber, outro assobiar, como era costume para as bestas. Depois de se dessedentar, o menino arisco não hesitava:
- Já bubi e sobejou para a grande besta que me assobiou!     

Publicado no mensário VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 161 (Junho 2012) p. 10.

Senta-te e dá-lhe atenção!

(In memoriam de Walter de Medeiros)

Deixou-nos, a 29 de Março, p. p., Walter de Medeiros, um dos mais insignes docentes de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
E a primeira imagem que dele me ocorre, sempre que, amiúde, o pensamento vai para a sua memória é a letra cuidada, perfeita, certinha com que escrevia uma dedicatória ou mera nota de esclarecimento a uma singela questão posta. Desse gesto emanava, assim, uma serenidade que, porventura, no seu íntimo, seria aparente, mas que nos calava bem fundo, uma vez que, para assim escrever, mostrava não estar com pressa nenhuma e nos dedicava. naquele momento. toda a atenção do mundo.
Exacto: a atenção, a disponibilidade, o saber ouvir atentamente quem quer que fosse são, na verdade, os traços da personalidade de Walter de Medeiros que mais me tocaram e me influenciaram também.
E não resisto, por isso, ao evocá-lo aqui, nestas palavras singelas, a lembrar as passagens de dois livros que moldaram a minha juventude e que vão precisamente nesse sentido:
«Há, na narrativa da Ressurreição, um pormenor cheio de delicadeza – o lençol do Ressuscitado estava dobrado (João, XX, 6-7). Traço tangível de gestos comedidos, dos quais for excluída toda a precipitação. Símbolo da calma que envolve todas as obras de Deus» (p. 15).[1]
«Não digas a quem te visite: “Só posso receber-te por um instante, não te mando sentar… etc…», enquanto o recebes um quarto de hora ocupando-te de outra coisa. Manda-o sentar e atende-o dez minutos, calmamente, dando-lhe a impressão que lhe dedicas todo o teu dia». [2]
Era assim Walter de Medeiros: um Homem que a todos tratava como pessoas!

Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 594, 01-06-2012, p. 10.



[1] Hélène Lubienska de Lenval, Silêncio, Gesto e Palavra, Aster, Lisboa, 1961, tradução de Jaime Cunha. Título original: Le Silence a l'Ombre de la Parole, Ed. Casterman – Maredsous, 1961.
[2] Michel Quoist, Construir, Livraria Morais Editora, Lisboa, 1965, p. 122.