domingo, 8 de julho de 2012

A fauna cascalense em destaque

            Não, amigo, não se trata dessa! É da outra, cientificamente assim designada: a dos animais irracionais. Merecem estes (ao contrário dos racionais, suspeita-se…) cada vez maior atenção, na medida em que são enormes fautores da biodiversidade, elos de uma importante cadeia que urge não romper.
            Estará recordado que foi por isso que, ao planear-se a A5, se deixaram ‘corredores’ para as cobras, as rãzinhas e os sapos, por exemplo, passarem de um lado para o outro. O pior foi que os seus predadores descobriram a senda e lá se prantaram à espreita dos incautos, qual caçador de montaria na porta de uma batida ao javali. Boas intenções!…
            Quando, em Cascais, se abriu o Parque Urbano do Rio dos Mochos (impropriamente chamado de «ribeira»), houve também a feliz ideia de se publicar o livrinho Aves da Ribeira dos Mochos – Cascais, texto e magníficas fotos de um dos seus atentos vizinhos, José Manuel Durão, solenemente ali apresentado a 3 de Março de 2011.
No passado dia 5 de Junho, foi a vez de se apresentar, na EcoCabana (um lugar, sem dúvida, bem simbólico, sito à entrada do Parque Marechal Carmona), o livro As Borboletas de Cascais (a 244ª publicação da Câmara Municipal, desde que existe a inscrição no ISBN), resultante da paciente investigação levada a cabo por João Pedro Cardoso, desde 1977.
De cerca de 100 páginas e complementado por uma ficha de campo, de mui excelente apresentação gráfica, a cores (como não podia deixar de ser), a obra tem prefácio de António d’Orey Capucho; um texto de Patrícia Garcia Pereira (do Museu Nacional de História Natural) sobre a relevância da biodiversidade; introdução, da responsabilidade de Ernesto Maravalhas (membro também ele, como o autor, do Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal), com breve historial acerca do interesse pelos lepidópteros (nome do género a que pertence as borboletas) em Portugal. Segue-se o texto propriamente dito, com a identificação ilustrada de espécies emblemáticas, explicitando-se depois os métodos de trabalho utilizados e assinalando-se, em mapa, os locais das intervenções feitas no quadro do Parque Natural de Sintra-Cascais.
24 pranchas ilustradas identificam os espécimes com o seu nome científico e a época de voo. Índice desses nomes científicos e bibliografia completam este bonito volume de capa rija, útil não apenas para os interessados neste tipo de actividade como também para mostrar a beleza, ainda que efémera, como se sabe, das mariposas que nos rodeiam.

Publicado no Cyberjornal, edição de 7-7-2012.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Andarilhanças 50

«Museu» do Canteiro
      Nunca será de mais salientar a importância que deteve a iniciativa de, no âmbito das festas populares de Tires, se reconstituir o ambiente do trabalho da pedra, desde a sua extracção até ao mais fino objecto.
      «Tires, terra de canteiros» foi o tema e não há dúvida que vale a pena recordar o que foi essa actividade, florescente ainda na 2ª metade do século XX e que ora vai desaparecendo, devido a serem outras as motivações e mui diversos os processos.
      Aquando  da inauguração, que contou com presença do Sr. Presidente da Câmara, no dia 8 de Junho, foram dadas explicações e houve, inclusive, encenação de alguns dos momentos marcantes da faina diária de antanho: o frémito do acender do rastilho para o tiro; a hora do almoço na lancheira trazida pela mulher; as andanças do aguadeiro; o aguçar da ferramenta na pedra de amolar; as combinações para o balho de domingo num catrapiscar de moças namoradeiras…
      Enfim, a criação de um ambiente que a maior parte das pessoas de agora desconheciam por completo e cuja memória urge salvaguardar. O monumento que erguemos na rotunda de Birre, na freguesia de Cascais, mostra o azulino cascalense como pólo de imigração de algarvios, alcains, coimbrões; evoca agora Tires, na freguesia de S. Domingos de Rana, a tradição saloia, que de braços abertos aceitou quem veio de fora. Ergueu-se singelo monumento numa rotunda da povoação, como se sabe; contudo, o entusiasmo que a iniciativa ora concretizada revelou não pode ser descurado e há que pensar num pólo museológico ali. Vontades particulares não faltam; verbas não serão necessárias muitas; vontades públicas há que incentivar!
      Para já, como filho de cabouqueiro que nas pedreiras viveu a sua meninice e parte da juventude, não posso deixar de muito me congratular com o que vi! Parabéns!

Jogos Tradicionais
      Depois do grande encontro nacional, o 5º, que reuniu dezenas de praticantes no Parque Marechal Carmona, nos dias 19 e 20 de Maio, João Mounier, alma-máter do JOTRA (Jogos Tradicionais), ligado ao Agrupamento de Escolas de Alvide, decidiu sair para o Jardim Visconde da Luz, no coração da vila, no passado 10 de Junho, a proporcionar a todos, velhos e novos, a aventura de verificarem se ainda sabem pegar numa gancheta e correr com o arco, se se recordam de como se joga o pião ou ao burro…
Também para ele um forte aplauso de parabéns – pela carolice, pelo entusiasmo, pela extrema dedicação. Dele e de toda a equipa, naturalmente.

Vender quartos ou emoções
      Não resisto a voltar a comentar o que aprendi na jornada que reuniu, na Escola Hoteleira, a 8 de Maio, pessoas interessadas em reflectir sobre o fenómeno turístico, no seu passado, presente e futuro. Apreciei sobretudo, repito, aquela ideia de os hotéis deverem doravante não apenas preocupar-se em vender quartos mas sim… «emoções».
      E lembrei-me da ideia quando, outro dia, ao entregar a chave do quarto, a menina me perguntou se eu me tinha servido da garrafa de água que estava sobre a mesa. Disse-lhe que não e expliquei que por dois motivos: primeiro, porque cada vez mais preferia beber a água da torneira; segundo, porque, mesmo que outro fosse o meu hábito, ao ver o papel pendurado no gargalo com o preço de 1 euro, eu perdi ainda mais a vontade de beber. Claro que apreciei o bloquinho para os apontamentos e o lápis (cada vez se usa mais…) e trouxe-os como recordação; no entanto, dei comigo a pensar naquela imagem que fora transmitida na tal jornada: um miminho proporcionado ao cliente acaba por o cativar e dar-lhe vontade de voltar. Agora, o papel com 1 € pespegado em realce no gargalo da garrafa… não é que, de vez em quando, me lembro dele?                    
[Publicado no Jornal de Cascais, nº 317, 04.07.2012, p. 6].

História contada nos versos do Povo

      Quando, no Verão de 1988, timidamente ousei dedicar algumas páginas do Jornal da Costa do Sol aos singelos versos de Isolina Alves Santos, tive o grato prazer de receber longa carta do Professor Ernesto Guerra da Cal, professor emérito de Literatura Comparada na Universidade da Cidade de Nova Iorque, em que, a dado passo, me dizia, depois de se referir à importância da poesia popular:
     
      «Isolina é uma das últimas representantes desses “poetas naturais”, que outrora supriram as necessidades líricas de todas as populações rurais; que deles também dependiam funcionalmente, para as letras de cantigas e bailados, baptizados, casamentos, aniversários e festas patronais».
      E, quando viu pela televisão o massacre de Santa Cruz, a 12 de Novembro de 1991, Isolina não hesitou: pegou na esferográfica e escreveu o poema ‘Timor’, que termina assim:
                    Estão tão longe de nós
                    Ou estão perto outra vez
                    Porque a sua triste voz
                    Ainda reza em português
                                (Percorri a Minha Terra, Cascais, 1993, p. 97).

      Essa poesia dita «popular» constitui, a meu ver, um dos filões da História nossa contemporânea, nomeadamente da História Local e Regional, a que importa dar atenção e quiçá não seja despiciendo que dela se faça doravante ponto de partida para  investigação mais aprofundada.
      Prendem-se estas reflexões com dois acontecimentos da minha infância que ora, passado mais de meio século, acabei por recordar em versos. Por isso, escrevi dois despretensiosos apontamentos, na certeza de que poderão suscitar algum interesse os temas a que se referem: a participação de soldados idos da Metrópole na defesa dos Açores por ocasião da II Grande Guerra e o descarrilamento do rápido do Algarve. Poderão ser lidos e comentados, respectivamente, neste blogue, em:
e


terça-feira, 3 de julho de 2012

Grande auditório do CCB encheu de novo para ver dançar!


            Depois de, na quarta-feira, 27, ter esgotado para ver a apresentação final da Escola de Dança Ana Manjericão, de Cascais, foi a vez do outro lado da Serra de Sintra: o grande auditório do Centro Cultural de Belém encheu-se de novo por completo, no sábado, 30 de Junho, para ver e aplaudir os mais de 700 alunos das seis academias Ai! A Dança (Sintra I e II, Santa Iria, Loures I e II e Azambuja), com direcção de cena de Cristina Pereira e coreografia de vários dos docentes, que naturalmente integraram o espectáculo.
            Ao final da tarde, 24 danças em duas horas, nos mais variados estilos que ininterruptamente se sucederam: hip hop (um espanto o número final, pelas academias de Loures I e Sintra II, sob direcção do Prof. Fernando Lopes), flamenco (vistoso!), ballet clássico, dança contemporânea (realce para as sentidas e bem coreografadas homenagens ao Fado), dança criativa, dança do ventre, ritmos latinos… um sem-fim entusiasmado e comunicativo, em que se misturaram, em plena harmonia, desde a criancinha de três anitos à senhora sénior, numa jovialidade contagiante!
            As academias Ai! A Dança existem há 11 anos, «11 anos a dançar por amor à arte majestosa», porque «a Dança é para nós», lê-se no folheto do programa, «a linguagem da alma, diz o que se sente sem haver necessidade de verbalizar nada…». Daí essa enorme partilha de gerações, que muito sensibiliza, pelo seu enorme significado humano.
            Parabéns a todos, de modo especial à Profª Lucília Bahleixo, pelo seu contagiante dinamismo e boa disposição, para além, obviamente, do grande profissionalismo que demonstra!

Publicado no Cyberjornal de 3-07-2012

As grutas pré-históricas, património a valorizar!

         No momento em que o NASPE comemora 15 anos de actividade em prol da defesa do património cultural de S. Pedro do Estoril – parabéns! – lançar de novo o olhar para um dos seus monumentos mais significativos, a nível da sua história, parece-se-nos forma condigna de nos associarmos à comemoração.
            Na verdade, o pouco que resta das grutas artificiais que o Homem escavou na falésia, há cerca de cinco mil atrás, merece ser revalorizado.
Aquando da exposição «Blick, Mira, Olha!», patente no Centro Cultural de Cascais desde 12 de Novembro de 2011 a 12 de Janeiro, p. p., mostraram-se instantâneos fotográficos das investigações arqueológicas em que o Instituto Arqueológico Alemão participou e S. Pedro do Estoril ocupou aí lugar de destaque, tendo sido escolhida para capa do catálogo precisamente uma das fotos colhidas na falésia.
            Também na pequena Sala de Arqueologia do Museu dos Condes de Castro Guimarães, dedicada à Pré-história cascalense, aos objectos encontrados no decorrer das investigações da década de 40 foi dado o devido realce, não apenas pelo seu interesse histórico mas também pelo valor estético. São notáveis, por exemplo, as quatro espirais de ouro usadas, há cinco mil anos, como anéis; ainda guardava uma delas a falange do indivíduo jovem que a levara para a sepultura!… Os preciosos onze botões de osso (circulares, em forma de tartaruga ou ‘de carrinho de linhas’…) indiciaram, pela sua colocação, que o defunto fora sepultado envergando a peça de roupa (um casaco?) a que esses botões pertenceriam. As grandes taças de pé, de barro profusamente decorado, são também exemplares fora do comum em necrópoles datadas dessa época.
Tudo isso, enfim, nos mostra que os habitantes de então já detinham um estatuto económico e cultural fora do comum. E tudo isso, portanto, não se compadece com a ausência de mais atenção aos vestígios remanescentes no terreno do que foram os locais donde esses materiais provieram!
Nunca será de mais louvar a oportunidade da criação do Centro de Interpretação Ambiental da Pedra do Sal, por todas as valências que nele têm sido dinamicamente aproveitadas; contudo, não só uma periódica e mais assídua limpeza do ‘recinto’ da gruta que nele está incorporada (amiúde transformada em lixeira…) como também mais frequente evocação, através de iniciativas específicas, do que foi esse passado longínquo do lugar não se nos afiguram despiciendas – e seriam de muito louvar! A possibilidade de, numa vitrina, se exporem réplicas desses objectos passíveis, inclusive, de serem comercializadas, acompanhadas de breves e singelos textos explicativos, constituiria igualmente deveras significativa mais-valia. E S. Pedro do Estoril bem o merece!

[Publicado em Cai Água (Boletim do Núcleo de Amigos de S. Pedro do Estoril), nº 27, Junho 2012, 1ª pág.].

Descarrilou o rápido do Algarve!

Diz-se que o tempo é fautor de História (com maiúscula), porque só com o tempo se obtém o distanciamento necessário para melhor se ajuizar de causas e consequências. Por isso se hesita, por vezes, em fazer história dos nossos dias, sob pretexto de que ela… não existe!
Tenho procurado apoiar a poesia dita «popular» como significativo património cultural imaterial, a que, felizmente, ora se está a dar a importância que merece, pois aí ingenuamente se reflectem atitudes perante a realidade nossa contemporânea. Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia já o compreenderam e não serão poucas as que contam no currículo a edição dos seus poetas.
Permita-se-me, pois, que, na sequência do que escrevi na passada edição acerca do que terá sido o sentir português continental acerca da permanência de soldados para os Açores no decurso da II Guerra Mundial, eu evoque um outro episódio da minha infância.
Tinha eu nove aninhos e recordo como se fosse hoje: à entrada do mercado saloio de Cascais, uma senhora cantava um fado sobre o grande descarrilamento que ocorrera, na semana anterior, a 13 de Setembro de 1954, no rápido do Algarve.
Hoje, estudos feitos, vejo nela a continuadora dos jograis d’outrora; contudo, haverá alguém que tenha esses versos? Jornal algum da época os terá transcrito? E, com efeito, em versos quiçá de pé quebrado, aí se mostrava o pesar de todo um Povo perante o inesperado desastre que enlutara o País.
Há, evidentemente, alguns artigos já sobre o acidente. Vejam-se, por exemplo: a notícia «O descarrilamento do "Rápido" do Algarve», Gazeta dos Caminhos de Ferro, 67, 1 de Novembro de 1954, p. 305 e 309; e a evocação feita por Rogério Guinote Mota: «A tragédia do “Rápido” do Algarve», O Foguete (Revista da Associação de Amigos do Museu Nacional Ferroviário), 10, 3º Trimestre de 2004, p. 24-27. Contudo, esses versos dolentemente cantados expressaram, sem dúvida, um sentimento que os relatos ponderados e concretos nunca conseguirão transmitir!

                       Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 596, 01-07-2012, p. 4.

Dez anos da independência de Timor comemorados em Oieras

   
            Numa iniciativa do escritor timorense Luís Cardoso, munícipe de Oeiras, que contou com a colaboração da Biblioteca Municipal, realizou-se, no final da tarde do passado dia 19 de Maio, no auditório daquela biblioteca, uma sessão comemorativa das 10 anos da independência de Timor Leste.
            Bárbara Reis, directora do Público, historiou os passos dados no sentido de a independência se conseguir. O timorense João Piedade, padre jesuíta, catedrático de Filosofia na Universidade Gregoriana de Roma, acentuou a importância que a religião teve na manutenção de uma identidade, tendo em conta que a presença portuguesa no território se prolongou por 500 anos e foi preciso lutar contra o obscurantismo que a Indonésia quis impor durante 25 anos; «Os indonésios», disse, «nunca conseguiram conquistar o coração timorense», fiel à língua portuguesa e à fé cristã. António Cardoso, professor de História Contemporânea, referiu-se à investigação que está a orientar, depois da descoberta de importante documentação sobre a história timorense, mormente durante a II Guerra Mundial. Teresa Almeida teceu considerações sobre «Literatura e identidade nacional»: depois de sublinhar que o ensino do Estado Novo marcou a elite timorense, acentuou a importância de escritores como Fernando Sylvan e Luís Cardoso na criação e reforço de uma literatura de raiz timorense, aludindo, de modo particular, ao significado do livro «Crónica de uma Travessia».
            Presente a vereadora da Cultura, Professora Luísa Carrilho, sobrinha de Fernando Sylvan, que enalteceu o interesse da sessão e louvou os organizadores. Encerrou a cerimónia um breve concerto em que um quarteto interpretou cantares timorenses e outros de raiz popular. Luís Cardoso agradeceu, por fim, toda a colaboração prestada, designadamente pela direcção da biblioteca e todo o seu pessoal.