domingo, 15 de julho de 2012

O Património Cultural em grande destaque em Cascais

            Começou na quinta-feira, 12, o XI Congresso Internacional de Reabilitação do Património Arquitectónico e Edificado, que se prolongará até domingo.
            Cerca de 400 participantes, entre os quais muitos espanhóis, assistirão, em diversos monumentos da vila de Cascais (Centro Cultural, Casa de Santa Maria, Museu do Mar, Museu dos Condes Castro Guimarães, Casa das Histórias) a sessões do maior interesse pela temática abordada e pela excelência dos oradores convidados.
            É uma realização da Câmara, através do seu Instituto de Cultura e Estudos Sociais, e da Federação Internacional de Centros CICOP (ligados à conservação do Património), com a colaboração de várias entidades.
Foto de Luís Bento
A sessão solene de abertura decorreu numa das salas do Palácio de Cidadela, uma vez que o Congresso tem o alto patrocínio do Chefe do Estado, e foi por isso o director do Museu da Presidência da República, Dr. Diogo Gaspar, o primeiro orador, a regozijar-se por lhe ter sido dada a honra de receber tão ilustres congressistas, apresentando uma pouco da história do palácio em que nos encontrávamos. Seguiu-se o Professor José Manuel Tengarrinha, que preside ao ICES e que saudou os representantes de 25 países que, para além de Portugal, ali estavam representados, sublinhando, por isso, a importância do encontro que, em interdisciplinaridade, reúne os mais conceituados especialistas neste domínio. O Professor Carlos Fabião, do Comité Científico do Congresso, traçou uma panorâmica do que se esperava da reunião e justificou a opção por Cascais: a localização e o empenho demonstrado pela autarquia na salvaguarda e dinamização do seu património edificado. Miguel Matrán, director geral da Fundação CICOP, agradeceu o acolhimento e manifestou o seu apreço a quanto aqui se tem já concretizado. Elísio Summavieille, que ora preside à recém-criada Direcção Geral do Património Cultural, em organização, recordou que, neste momento, pela Europa, cerca de 40% da construção civil se dedica à reabilitação de edifícios e, por outro lado, que «o património mais importante são as pessoas» (conceito que, comente-se de passagem, é bem agradável de ouvir quando parece andar tão arredio da prática concreta dos governos europeus). Encerrou a série de discursos o Dr. Carlos Carreiras, na sua qualidade de presidente do Município que acolhe e que promove, nesta «jovem vila de 648 anos» (frisou). E se ser presidente de um município significa deter nas mãos um forte potencial de destruição maciça, proclamou que Cascais é e quer continuar a ser uma «terra de património», dando respostas locais aos desafios impostos pela globalização.
A conferência inaugural foi proferida por Manuel Fernández Canovas, sobre «Los materiales de construcción y el Patrimonio Edificado». Pedro Vaz referiu-se aos trabalhos levados a efeito no Palácio da Cidadela e Jacinta Bugalhão deu conta de como se processara a reabilitação da Cidadela.
Antes do almoço, inaugurou-se no Museu dos Condes Castro Guimarães uma exposição e foram desde logo apresentados os posters previstos.

Publicado no Cyberjornal de 13 -07-2012
[http://www.cyberjornal.net/index.phpoption=com_content&task=view&id=16607&Itemid=67

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Noite magnífica de sedução e encantamento!


            Os cerca de 200 melómanos que resolveram ir até à igreja dos Salesianos do Estoril, na passada quarta-feira, 11, não deram seguramente por mal empregado o seu tempo, pois tiveram a dita de assistir a um dos mais fabulosos concertos que por estas bandas nos foi proporcionado.
            À bem criteriosa escolha do reportório associou-se o virtuosismo ímpar dos executantes, que nos deliciaram. Ouvi-los-íamos noite fora: foi a sensação com que ficámos. Dos 13 violinos aos 3 violoncelos e um baixo mais as três guitarras – todos nos brindaram com interpretações magníficas.
            Sim, o 38º Festival do Estoril começara no Largo de S. Carlos, no dia 5, com a Orquestra Sinfónica Portuguesa, mas estes Menuhin Academy Soloists, integrando músicos de variados países europeus encheram-nos as medidas!
            Dirigidos pelo romeno Liviu Prunaru, violino, começaram por interpretar a Simple Sumphony op. nº 4, de Benjamom Britten: à alegria saltitante e quase heróica seguiu-se a serenidade bucólica do entardecer, que um pizzicato acordou para, de novo, extasiar na tranquilidade dolente a que os braços de Cristo pareciam convidar e a excelente acústica do templo nada deixava perder; heroicamente, dialogaram os violinos no último andamento, um vivace presto.
            De Malcolm Arnold, a obra 77, «Concerto para dois violinos» (Liviu Prunaru e Valentina Svyatlovskaya, russa) e cordas: uma imagem sonora da turbulência actual (a obra é de 1962). Transcrição de Piñeiro Nagy e orquestração – eloquente! – de Tiago Derriça, circunstância que se repetirá nas Goyescas e nas peças de Albéniz. Parabéns!
            Após o intervalo, Espanha foi nossa companhia. Primeiro, um intermezzo das Goyescas, de Enrique Granados, em que já intervieram, à guitarra, Piñeiro Nagy (a grande e perseverante alma mater das Semanas de Musica do Estoril) e o MikroDuo (Pedro Luís e Miguel Vieira da Silva). Depois, o eterno Isaac Albéniz, em três peças, retratando cada uma a alma de sua cidade ou região: Astúrias, Cádis e Córdoba. E as guitarras gostaram das cenas e lá ficaram para o primeiro extra: uma canção de Manuel de Falla. Delicioso, em seguida, apesar de bem retratar a fúria dos elementos a perpassar pelo endiabrado movimentar de dedos a comprimir as cordas, «Invierno porteño», de Astor Piazzola, com Oleg Kaskiv (ucraniano), violino, como solista: longos foram, naturalmente, os aplausos e os bem merecidos «bravo!». E Liviu como que aceitou o desafio não para uma desgarrada mas para o trecho de uma abertura de Bach: magistral!
            A finalizar, Navarra, de Pablo Sarasate: a alegria das danças rodopiantes, em rimo de valsa bailam frenéticos os dedos pelas cordas… Mas… tivemos direito a mais dois trechos extra-programa, para terminarmos em ritmo de tango, como convém a quem saiu do templo com a alma cheia!...
            O festival volta no sábado, 14: Naseer Shamma trará lendas do Médio Oriente, em alaúde, à Sala Atlântico do Hotel Palácio.
Publicado no Cyberjornal, edição de 12-07-2012:

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Taluda de Natal dá hospital a Cascais

            No Natal de 2004, a taluda saiu à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa; na reunião da Mesa Administrativa de Fevereiro de 2005, a Provedora, Maria José Nogueira Pinto propôs que o dinheiro fosse encaminhado para a construção de uma Unidade de Cuidados Intensivos e Paliativos. A Unidade foi inaugurada, em Cascais, hoje, dia 10, no local onde se situava a fábrica da Standard Eléctrica, ou seja, em S. Gabriel, Aldeia de Juso, mesmo à saída da A5, portanto.
            Descerrou a placa identificativa, às 11.30 h., Jaime Nogueira Pinto, viúvo da patrona do estabelecimento. O Prior de Cascais, Padre Nuno Coelho, procedeu à bênção não das paredes (disse) mas fundamentalmente das pessoas: uma bênção para o amor, para “a proximidade nas vidas que vão passar por aqui e que especialmente vão necessitar da presença do Senhor». Seguiu-se uma visita ao piso térreo e ao 1º piso (quartos) das instalações, após a qual, ao meio-dia, houve, no exterior, a cerimónia protocolar da inauguração.
            O presidente da Câmara, Carlos Carreiras, acentuou a importância desta Unidade, «projecto de esperança onde antes havia desespero», forma de «aliviar o insuportável fardo da solidão», evocando a figura ímpar de Maria José Nogueira Pinto, sublinhando, a terminar: «As pessoas serão a nossa responsabilidade».
Jaime Nogueira Pinto, em sentida alocução, agradeceu e evocou também ele a sua esposa, salientando a sua «fé em Cristo», o seu «elevado sentido público, com absoluto desinteresse», a sua capacidade de saber «usar e repartir o tempo».
Pedro Santana Lopes, provedor da Misericórdia de Lisboa, realçou relevante papel que Maria José Nogueira Pinto teve na vida pública, designadamente na Misericórdia, onde deixou profundas marcas. Recordou que o pai dizia dela que não sabia se ela fazia aquilo de que gostava ou se gostava daquilo que fazia e referiu um dos aspectos que dela mais o impressionou: a velocidade com que caminhava, como se quisesse apanhar o tempo e muito havia que fazer! Após se ter referido à importância desta Unidade, pois «a grande doença deste século é a solidão» (palavras ainda de M. J. Nogueira Pinto), terminou: «Ela deve estar a sorrir com aquele sorriso bonito; ela deve estar contente».
            A nova Unidade, com uma área bruta de 4883 m2, é administrada por Carlos Andrade Costa e tem como directora clínica Maria de Jesus Rodrigues. O projecto representou um investimento de 9,33 milhões de euros. Distribui-se por 6 pisos: zona de serviços na cave, zona social no piso 0, internamentos nos pisos 1 a 4, com um total de 42 quartos, 11 deles individuais, num total de 73 camas. Serão mais de 120 os colaboradores em actividade, num plano de intervenção multidisciplinar (especialistas de Medicina Interna e de Fisiatria, enfermeiros especialistas, psicólogos clínicos, assistentes sociais…), em que se contará também com a estreita colaboração dos técnicos do Hospital de Alcoitão, que, como se sabe, é também pertença da Misericórdia de Lisboa.





Publicado no Cyberjornal de 10 de Julho de 2012:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=16582&Itemid=67

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Parque Marechal Carmona, em Cascais – É permitido matar; dar de comer, não!

            Ainda que não haja por ali nenhum aviso nem tenha sido distribuído qualquer comunicado, a esse respeito, à população, é agora proibido dar comida às aves do Parque Marechal Carmona, em Cascais. Tratava-se, como se sabe, de um hábito muito corrente, que fazia as delícias da pequenada: dar migalhas aos patos, aos pombos, às galinhas e até aos pavões.
            Terá sido, porventura, o resultado de uma nova qualquer directiva comunitária que o Executivo municipal se apressou a mandar cumprir ou deriva de inconvenientes que, à primeira vista, não se enxergam. Será que as migalhas poderiam trazer veneno e fazer mal aos animais? Será que, desta sorte, essa população ficava mais bem alimentada e o que importa, agora, é diminuir o número de pombos, por exemplo? Vamos esperar pela informação completa que os serviços camarários certamente vão facultar.
Em todo o caso, acrescente-se que, se não é permitido dar de comer, é completamente permitido matar. Tal é a tarefa diária das gaivotas, que vorazmente se saciam de pombos, de patinhos pequenos, de tartaruguinhas, de pintainhos, de ovos (que vão roubar aos ninhos!)… Se não dar de comer viesse a evitar que as gaivotas ali aparecessem, ainda vá que não vá; mas o que as gaivotas querem não são migalhas, é carninha tenra, são ovinhos frescos… – e isso há por ali em abundância e ao espectáculo desalmado, feroz e degradante dessa atrocidade não são as crianças poupadas! Já se sugeriu a manutenção das ninhadas, durante algum tempo, em sítio mais resguardado, inclusive onde a pequenada as pudesse ver e as gaivotas não entrassem… Parece, porém, tarefa difícil de levar a cabo. Proibir é sempre mais fácil, já se sabe!
Congratulamo-nos, no entanto, com o facto de ter sido ouvido o nosso apelo: a estátua de Neptuno e a sua bonita envolvência estão a ser alvo de restauro; e, pelo que tivemos oportunidade de ver, é natural que ainda este Verão todo o sistema, inclusive o hidráulico, possa estar em funcionamento, para gáudio dos milhares de pessoas que frequentam aquele parque, verdadeiro pulmão da nossa vila!

 Publicado no Cyberjornal, edição de 09-07-2012

domingo, 8 de julho de 2012

A fauna cascalense em destaque

            Não, amigo, não se trata dessa! É da outra, cientificamente assim designada: a dos animais irracionais. Merecem estes (ao contrário dos racionais, suspeita-se…) cada vez maior atenção, na medida em que são enormes fautores da biodiversidade, elos de uma importante cadeia que urge não romper.
            Estará recordado que foi por isso que, ao planear-se a A5, se deixaram ‘corredores’ para as cobras, as rãzinhas e os sapos, por exemplo, passarem de um lado para o outro. O pior foi que os seus predadores descobriram a senda e lá se prantaram à espreita dos incautos, qual caçador de montaria na porta de uma batida ao javali. Boas intenções!…
            Quando, em Cascais, se abriu o Parque Urbano do Rio dos Mochos (impropriamente chamado de «ribeira»), houve também a feliz ideia de se publicar o livrinho Aves da Ribeira dos Mochos – Cascais, texto e magníficas fotos de um dos seus atentos vizinhos, José Manuel Durão, solenemente ali apresentado a 3 de Março de 2011.
No passado dia 5 de Junho, foi a vez de se apresentar, na EcoCabana (um lugar, sem dúvida, bem simbólico, sito à entrada do Parque Marechal Carmona), o livro As Borboletas de Cascais (a 244ª publicação da Câmara Municipal, desde que existe a inscrição no ISBN), resultante da paciente investigação levada a cabo por João Pedro Cardoso, desde 1977.
De cerca de 100 páginas e complementado por uma ficha de campo, de mui excelente apresentação gráfica, a cores (como não podia deixar de ser), a obra tem prefácio de António d’Orey Capucho; um texto de Patrícia Garcia Pereira (do Museu Nacional de História Natural) sobre a relevância da biodiversidade; introdução, da responsabilidade de Ernesto Maravalhas (membro também ele, como o autor, do Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal), com breve historial acerca do interesse pelos lepidópteros (nome do género a que pertence as borboletas) em Portugal. Segue-se o texto propriamente dito, com a identificação ilustrada de espécies emblemáticas, explicitando-se depois os métodos de trabalho utilizados e assinalando-se, em mapa, os locais das intervenções feitas no quadro do Parque Natural de Sintra-Cascais.
24 pranchas ilustradas identificam os espécimes com o seu nome científico e a época de voo. Índice desses nomes científicos e bibliografia completam este bonito volume de capa rija, útil não apenas para os interessados neste tipo de actividade como também para mostrar a beleza, ainda que efémera, como se sabe, das mariposas que nos rodeiam.

Publicado no Cyberjornal, edição de 7-7-2012.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Andarilhanças 50

«Museu» do Canteiro
      Nunca será de mais salientar a importância que deteve a iniciativa de, no âmbito das festas populares de Tires, se reconstituir o ambiente do trabalho da pedra, desde a sua extracção até ao mais fino objecto.
      «Tires, terra de canteiros» foi o tema e não há dúvida que vale a pena recordar o que foi essa actividade, florescente ainda na 2ª metade do século XX e que ora vai desaparecendo, devido a serem outras as motivações e mui diversos os processos.
      Aquando  da inauguração, que contou com presença do Sr. Presidente da Câmara, no dia 8 de Junho, foram dadas explicações e houve, inclusive, encenação de alguns dos momentos marcantes da faina diária de antanho: o frémito do acender do rastilho para o tiro; a hora do almoço na lancheira trazida pela mulher; as andanças do aguadeiro; o aguçar da ferramenta na pedra de amolar; as combinações para o balho de domingo num catrapiscar de moças namoradeiras…
      Enfim, a criação de um ambiente que a maior parte das pessoas de agora desconheciam por completo e cuja memória urge salvaguardar. O monumento que erguemos na rotunda de Birre, na freguesia de Cascais, mostra o azulino cascalense como pólo de imigração de algarvios, alcains, coimbrões; evoca agora Tires, na freguesia de S. Domingos de Rana, a tradição saloia, que de braços abertos aceitou quem veio de fora. Ergueu-se singelo monumento numa rotunda da povoação, como se sabe; contudo, o entusiasmo que a iniciativa ora concretizada revelou não pode ser descurado e há que pensar num pólo museológico ali. Vontades particulares não faltam; verbas não serão necessárias muitas; vontades públicas há que incentivar!
      Para já, como filho de cabouqueiro que nas pedreiras viveu a sua meninice e parte da juventude, não posso deixar de muito me congratular com o que vi! Parabéns!

Jogos Tradicionais
      Depois do grande encontro nacional, o 5º, que reuniu dezenas de praticantes no Parque Marechal Carmona, nos dias 19 e 20 de Maio, João Mounier, alma-máter do JOTRA (Jogos Tradicionais), ligado ao Agrupamento de Escolas de Alvide, decidiu sair para o Jardim Visconde da Luz, no coração da vila, no passado 10 de Junho, a proporcionar a todos, velhos e novos, a aventura de verificarem se ainda sabem pegar numa gancheta e correr com o arco, se se recordam de como se joga o pião ou ao burro…
Também para ele um forte aplauso de parabéns – pela carolice, pelo entusiasmo, pela extrema dedicação. Dele e de toda a equipa, naturalmente.

Vender quartos ou emoções
      Não resisto a voltar a comentar o que aprendi na jornada que reuniu, na Escola Hoteleira, a 8 de Maio, pessoas interessadas em reflectir sobre o fenómeno turístico, no seu passado, presente e futuro. Apreciei sobretudo, repito, aquela ideia de os hotéis deverem doravante não apenas preocupar-se em vender quartos mas sim… «emoções».
      E lembrei-me da ideia quando, outro dia, ao entregar a chave do quarto, a menina me perguntou se eu me tinha servido da garrafa de água que estava sobre a mesa. Disse-lhe que não e expliquei que por dois motivos: primeiro, porque cada vez mais preferia beber a água da torneira; segundo, porque, mesmo que outro fosse o meu hábito, ao ver o papel pendurado no gargalo com o preço de 1 euro, eu perdi ainda mais a vontade de beber. Claro que apreciei o bloquinho para os apontamentos e o lápis (cada vez se usa mais…) e trouxe-os como recordação; no entanto, dei comigo a pensar naquela imagem que fora transmitida na tal jornada: um miminho proporcionado ao cliente acaba por o cativar e dar-lhe vontade de voltar. Agora, o papel com 1 € pespegado em realce no gargalo da garrafa… não é que, de vez em quando, me lembro dele?                    
[Publicado no Jornal de Cascais, nº 317, 04.07.2012, p. 6].

História contada nos versos do Povo

      Quando, no Verão de 1988, timidamente ousei dedicar algumas páginas do Jornal da Costa do Sol aos singelos versos de Isolina Alves Santos, tive o grato prazer de receber longa carta do Professor Ernesto Guerra da Cal, professor emérito de Literatura Comparada na Universidade da Cidade de Nova Iorque, em que, a dado passo, me dizia, depois de se referir à importância da poesia popular:
     
      «Isolina é uma das últimas representantes desses “poetas naturais”, que outrora supriram as necessidades líricas de todas as populações rurais; que deles também dependiam funcionalmente, para as letras de cantigas e bailados, baptizados, casamentos, aniversários e festas patronais».
      E, quando viu pela televisão o massacre de Santa Cruz, a 12 de Novembro de 1991, Isolina não hesitou: pegou na esferográfica e escreveu o poema ‘Timor’, que termina assim:
                    Estão tão longe de nós
                    Ou estão perto outra vez
                    Porque a sua triste voz
                    Ainda reza em português
                                (Percorri a Minha Terra, Cascais, 1993, p. 97).

      Essa poesia dita «popular» constitui, a meu ver, um dos filões da História nossa contemporânea, nomeadamente da História Local e Regional, a que importa dar atenção e quiçá não seja despiciendo que dela se faça doravante ponto de partida para  investigação mais aprofundada.
      Prendem-se estas reflexões com dois acontecimentos da minha infância que ora, passado mais de meio século, acabei por recordar em versos. Por isso, escrevi dois despretensiosos apontamentos, na certeza de que poderão suscitar algum interesse os temas a que se referem: a participação de soldados idos da Metrópole na defesa dos Açores por ocasião da II Grande Guerra e o descarrilamento do rápido do Algarve. Poderão ser lidos e comentados, respectivamente, neste blogue, em:
e