sexta-feira, 20 de julho de 2012

Feira do Artesanato - Inauguração envergonhada ou incompetência reinante?

            Os factos: a 49ª edição da FIARTIL – Feira do Artesanato do Estoril – abriu na quinta-feira, 21 de Junho, às 18.00 h. Pelo Gabinete de Imprensa da CMC, foi enviada à Comunicação Social, às 18.08 horas desse mesmo dia, a seguinte informação:
«A partir de hoje, dia 21 de junho, abre portas mais uma Feira de Artesanato do Estoril, promovida pela Câmara Municipal de Cascais, através da Cascais Dinâmica, no recinto em frente ao Centro de Congressos do Estoril. Até dia 2 de setembro, o certame mais antigo de Portugal reúne mais de três centenas de artesãos para mostrar ao vivo técnicas e tradições ancestrais das artes populares de Portugal. Com um vasto programa de animação, de que fazem parte nomes como Paulo de Carvalho, Vitorino, Lenita Gentil, Carlos Alberto Moniz, Ana Lains e Cuca Roseta, este ano, pela primeira vez na história da Feira do Artesanato do Estoril vai também decorrer um concurso de Fado, para descobrir novos talentos desta sonoridade que é património imaterial da humanidade.»
No dia seguinte, 22, no começo da tarde, foi-nos enviada a habitual agenda do presidente, onde constava para esse dia, às 18.00 horas, a sua presença na «inauguração da Feira do Artesanato do Estoril».
Pelo que pude apurar, estiveram presentes ao acto pouco mais do que cinco individualidades. As fotografias divulgadas, por exemplo, pelo nosso prezado colega local que teve publicidade de capa (página inteira), na sua edição do dia 27, mostram dois artesãos sozinhos e a imagem dos dois intervenientes na inauguração: o Senhor Presidente da Câmara e o Senhor Presidente da Cascais Dinâmica, a empresa municipal que gere a feira.
Por conseguinte, observados os factos, creio justificar-se a pergunta feita: preconizaram uma inauguração envergonhada, para, por exemplo, não fazer concorrência aos outros muitos eventos da temporada, ou tudo isso reflecte uma enorme incompetência ou desinteresse pela Feira por parte da Cascais Dinâmica?
Vivemos em Cascais há muitos anos. Acompanhamos a Feira do Artesanato desde o 1º ano em que nasceu, quase no âmbito das comemorações do VI centenário da elevação de Cascais a vila. No Antigo Regime, sucedânea de certo modo, como fora, do Mercado de Abril, a inauguração tinha honras de Chefe de Estado e ministros. E assim continuou nos primeiros anos após a Revolução, porque se compreendia perfeitamente que o artesanato vivo que ali se apresentava, além de ser forte atracção para os habitantes – ponto de encontro privilegiado das noites dos nossos Verões – o era também para os forasteiros. Turista que se prezasse ia à Feira do Artesanato saborear petiscos bem portugueses e deliciar-se com o que eu cheguei a chamar «Portugal pelas mãos do seu Povo». Ali se convivia com os bonecos da Rosa Ramalho, de Barcelos, os Cristos ingénuos de Mestre Josafaz, a louça de Bisalhães ou os barros negros de Molelos, as procissões com centenas de figuras de Estremoz, a loiça de S. Pedro do Corval, as filigranas minhotas, as rendas de bilros, as bilhas de Nisa… Era isso: Portugal pelas mãos do seu povo, vendo trabalhar ao vivo artesãos autênticos.
E o dia da inauguração era um dia de festa, o Dia da Festa do Turismo Local. Nessa tarde – por que se esperava o ano inteiro – ali se reuniam os hoteleiros, os responsáveis pelas agências de viagens, os capitães do Porto (o que estava em funções a os anteriores, porque, por inerência do cargo, o capitão do Porto pertencia à Junta de Turismo), os representantes das forças vivas do concelho, os jornalistas locais e os nacionais, representantes de empresas ligadas ao turismo, a vereação camarária, os deputados municipais, membros dos executivos das juntas… Enfim, a inauguração constituía agradável pretexto para troca de impressões e de experiências, para gizar novos projectos, para, enfim, juntar num mesmo recinto emblemático quantos contribuíam para o que era (e não continuará a ser?) a principal fonte de riqueza do concelho.
Nessas alturas, não estava lá, claro, ninguém da actual Cascais Dinâmica. Não admira, por isso, que dessa memória nada se tenha retido ou recebido. Ou, se se recebeu, decidiu-se fazer tábua rasa, para se ser inovador ou, se calhar, para tentar reduzir a feira a algo sem importância de maior. E é pena. Mormente porque depressa se terá esquecido, por exemplo, das lutas grandes que tivemos para que esse pinhal fosse preservado para a feira e não transformado – houve projecto quase em fase de aprovação!... – em empreendimento habitacional de luxo, arrancando os pinheiros e contaminando também o manancial que lhe passa por baixo e alimenta as termas do Estoril.
É pena que se tenha perdido a memória. È pena que não se publicite mais a feira (que a determinado momento se começou a chamar Fiartil porque englobou artesanato doutros países). É pena que o artesanato lídimo tenha dado lugar, de modo prevalente, ao chamado artesanato urbano. Mas… é o que temos, que é que se lhes há-de fazer? Se, ao menos, tivessem estudado a História Local!...

 [Publicado no Jornal de Cascais, nº 318, 18.07.2012, p. 6].

terça-feira, 17 de julho de 2012

Património e Turismo Cultural, binómio indissociável


            No quadro do XI Congresso Internacional de Reabilitação do Património Arquitectónico e Edificado que brilhantemente foi organizado na vila de Cascais e que lhe valeu, também por isso, ter sido eleita para sede europeia do CICOP (Centro Internacional para a Conservação do Património), realizou-se na sexta-feira, 13, durante todo o dia, na sala da música do Museu Condes de Castro Guimarães, o seminário «Património e Turismo Cultural, um binómio indissociável? – Um tema de reflexão», coordenado pela Dra. Simonetta Luz Afonso.
Assistiram cerca de vinte congressistas – haja em vista que as sessões eram simultâneas e se distribuíram por diversos locais.
Coube à coordenadora abrir a sessão, invocando três acontecimentos que, em seu entender, deixaram profundas marcas a mostrar que o investimento na Cultura contribui eficazmente para melhorar a imagem do País e, consequentemente, se deve assumir como indispensável e não menosprezável factor de crescimento económico: a Europália, realizada na Bélgica, em 1991, com Portugal como país-tema; Lisboa, Capital Europeia da Cultura (1994); e a Expo’98. Em todas elas, Simonetta Luz Afonso teve intervenção importante, como se sabe. Referiu, a título de exemplo, que data dessa década o interesse pela arquitectura de museus e o despertar da necessidade de haver preparações específicas dos agentes turísticos na área cultural, dado que, ainda que não se deva pensar em construir um mundo para o turismo, o certo é que 40% dos visitantes de Portugal vêm cá por motivos culturais e hoje, em que pode trabalhar-se em qualquer parte do mundo e, por outro lado, os turistas gostam é de sentir o viver da população local, a atenção das entidades governamentais e dos operadores turísticos tem de ter em conta essas vertentes.
            António Lamas – que preside à Sociedade Parques de Sintra, Monte da Lua, S. A., uma empresa criada em 2000, de capitais exclusivamente públicos e que não recebe contribuições do Orçamento do Estado – deu conta de como é gerir, equilibradamente, os recursos ao seu dispor. Referiu que, se um turista pensa estar 3 dias em Lisboa, reserva um para ir a Sintra; por isso, há que proporcionar-lhe aliciantes e isso se está a fazer, nomeadamente após se terem reabilitado a Casa de Monserrate, o palacete da Condessa de Edla, vários outros edifícios em ruínas e, de modo especial, o espaço envolvente: identificaram-se, por exemplo, 53 000 espécies arbóreas!... Acentuou que um dos segredos estava na atenção dada às pessoas, à motivação incutida nos seus funcionários e colaboradores, em que se incluem reclusos e jovens das CERCIs e, na central telefónica, pessoal de mobilidade reduzida. Registe-se que todas as obras e, inclusive, as escavações arqueológicas efectuadas estiveram abertas ao público, como motivo de atracção.
            Andreia Aires de Carvalho Galvão e José António Ribeiro Mendes apresentaram a rota dos mosteiros portugueses património da Humanidade: Jerónimos, Alcobaça, Batalha e Convento de Cristo. Andreia Galvão falou muito depressa, apresentou generalidades e da sua intervenção ressalte-se a importância de se produzirem conteúdos válidos para acompanhar essas visitas. Ribeiro Mendes, por ser da área das TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação), hoje na moda, dissertou sobre o papel da Internet, designadamente porque muito se faz através da informática e, antes de partir para um destino, o turista é capaz de o visitar virtualmente; daí, de novo, a relevância que há em fazer uma boa gestão dos conteúdos a disponibilizar. Sublinhou que, de acordo com as estatísticas, disponíveis, 33% dos turistas se deslocam por terem consultado a Internet, 25% devido à publicidade boca a boca, 14% para rever sítios já anteriormente visitados e apenas 17% por acção de agências de viagens. No caso desta rede mosteiros, o slôgane poderia ser «mil anos de sabedoria» a descobrir! Na verdade, o viver uma experiência constitui cada vez mais um atractivo a fomentar.
            De tarde, Manuel Sande e Castro Salgado relatou a feliz experiência em curso no Bairro da Mouraria em Lisboa, um programa de desenvolvimento comunitário que está a dar excelentes frutos. Sob o mote «Há vida na Mouraria!», são quatro os eixos em que o programa se desenvolve: «revitalização do tecido económico local; melhoria da qualidade de vida dos idosos; promoção do acesso ao emprego, saúde e cidadania das populações vulneráveis, nomeadamente trabalhadoras do sexo, toxicodependentes e sem-abrigo; e a promoção do fado como factor identitário». Uma experiência notável!
            Virgílio Gomes, docente de História da Alimentação na Universidade Nova de Lisboa e interveniente em muitas experiências ligadas à Gastronomia (colaborou, por exemplo, com a Dra. Simonetta na escolha das ementas típicas portuguesas para o Pavilhão de Portugal na Expo), demorou-se na explanação do enorme papel que hoje a gastronomia tradicional detém no quadro da promoção turística. Demorou-se, mas não cansou, tão interessante foi o testemunho que nos trouxe. Preconizou o maior rigor na apresentação das iguarias – sobretudo se se tiver em conta que a gastronomia é considerada património imaterial (foi, por exemplo, classificada como património cultural a refeição gastronómica dos franceses e o México apresentou uma candidatura em que o milho, o feijão e as pimentas eram os principais condimentos… Criticou o facto de os restaurantes não darem a primazia, nas suas ementas, aos vinhos locais e regionais. Falou da alheira, da canja (trazida do Oriente por Garcia de Orta). Uma lição de grande alcance. Aliás, o professor pode ser visitado em http://www.virgiliogomes.com – onde há também muito para aprender!
            A Bruno Mota Martinho fora dado como tema «O turismo e o património cultural edificado em contexto urbano e na gestão das cidades». Perdeu-se, porém, num emaranhado de concepções teóricas, ilustradas com diapositivos abstractos cujo significado (decerto) escapou a boa maioria dos ouvintes; falou depressa, monocordicamente e, no fim, mesmo apoiando-nos no extenso resumo da conferência que nos foi facultado, recheado de frases bonitas, ficámos com a ideia de que o que preconizava era, fundamentalmente, «a criação de corredores contínuos e coerentes de oferta cultural e turística». Nesse aspecto, Belém poderá ser um bom exemplo (digo eu); mas o conferencista quiçá não se tenha apercebido também do ‘corredor’ em que se encontrava, na vila de Cascais, onde se criou, na verdade, um núcleo cultural da maior relevância, a abranger a Cidadela, o Palácio da Presidência da República, o Centro Cultural, a Casa de Santa Maria, o Museu dos Faróis, a Casa das Histórias e o Museu do Mar, tendo no meio o amplo e bem agradável Parque Marechal Carmona. E quanto ao património cultural edificado em contexto urbano nada soou, que eu me tivesse apercebido.
            A terminar, já quase em cima da hora de fechar (e foi pena!), Miguel Fialho de Brito veio falar das «novas redes de promoção». Atrasados como estávamos, poderia ter deixado a história do turismo, o diário da viagem a Portugal e a Espanha do senhor W. Beckford (1787-1788); e só quase no fim nos trouxe aquilo que nos interessava: como é que as redes de estudantes ERASMUS constituem doravante um excelente meio de promover o País e a mobilidade. Temos 8000 estudantes ERASMUS em Portugal, o que representa notável capital a não desperdiçar. O portal www.studyinportugal.net  apresenta, em inglês, dez razões para estudar em Portugal e o nosso País é aí apresentado como «a tua porta de entrada para o Mundo»! Sobre isto gostaríamos de ter ouvido falar mais.
            Simonetta Luz Afonso congratulou-se com a jornada e a fidelidade dos participantes.
            O Congresso redundou, de facto, num enorme êxito, com largos ecos, sobretudo se tivermos em conta as múltiplas facetas abordadas por conceituados especialistas de renome internacional. E não é de somenos realçar que no cartão de identificação dos participantes estava incluída uma caneta que contém as actas; ou seja, antes de o congresso se realizar já todas as contribuições estavam disponíveis! Uma ideia genial, mais um motivo para dar os parabéns aos organizadores. Cascais deu cartas, mais uma vez!

Publicado no Cyberjornal, edição de 17-07-2012:

Turismo – uma análise arguta escrita em livro


           Quando, a 8 de Maio, por iniciativa da Fundação António Quadros, com a colaboração da Escola Superior de Turismo e Hotelaria do Estoril e o patrocínio da Câmara Municipal, se realizou o colóquio «Turismo em Portugal. Passado. Presente. Que Futuro?», logo ali se anunciou que o livro de actas se apresentaria a 14 de Julho, data em que António Quadros, se fosse vivo, completaria 89 anos. E a 14 de Julho, sábado passado, o livro foi apresentado!
Parabéns, pois, à Fundação, na pessoa de Mafalda Ferro, coordenadora e organizadora do volume, pela exemplar lição, pois já não estamos habituados a que promessas sejam cumpridas e, de um modo especial, que as actas de um encontro científico vejam rápido a luz do dia. Assim não foi – e está de parabéns a Fundação.
Perante um luzida assistência, de individualidades ligadas ao Turismo (não, da tal Cascais Dinâmica não estava ninguém, que esse era dia de cavalos no hipódromo…), Jorge Felner da Costa, que foi um dos pilares do turismo em Cascais, deu miúda conta do conteúdo do volume, demorando-se a sintetizar o contributo da cada uma das intervenções então feitas e ora passadas a escrito. Pedro Garcia aproveitou o ensejo para se referir aos novos eventos – nomeadamente ligados ao mar (não fora ele um dos responsáveis pela marina!...) – que a Cascais têm trazido inúmeros forasteiros. Carlos Carreiras, que invocou de modo especial a sua qualidade de Presidente do Conselho Geral da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril), congratulou-se com a publicação, pelo acervo documental e de reflexão que proporciona.
Trata-se de um volume de 254 páginas, pejado de ilustrações a cores – um manancial do maior interesse! –, com o ISBN 978-989-96653-3-0, cuja publicação teve o patrocínio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e não obedece ao novo acordo ortográfico (aplauda-se!).
Celestino Domingues evoca os primórdios do turismo (p. 27-49); Margarida Ramalho escreve sobre Cascais e o Estoril (p. 51-73); Gabriela Carvalho conta das festas de Lisboa (p. 75-97); José Guilherme Victorino recorda António Ferro (p. 99-127); Manuel Coelho da Silva realça o papel do turismo como fautor de identidade de Portugal nos anos 50 (p. 129-141); em «Turismo em Portugal – explorar o passado, perspectivar o futuro» (p. 143-175), Alberto Marques traça uma panorâmica das tendências turísticas antigas e actuais; finalmente, a mui oportuna bem documentada análise de Armando Rocha, põe em confronto, no que concerne à hotelaria, as diferenças abissais que ora se registam em relação ao praticado há uma década atrás (p. 177-193).
O livro traz ainda a reprodução das 177 imagens que integraram a excelente exposição documental patente no dia do colóquio, um repositório de grande interesse, mormente se tivermos em conta, por exemplo, a rara beleza dos cartazes que outrora se produziam!
Uma obra, sem dúvida, doravante de consulta obrigatória por quem se dedique à actividade turística.

Publicado no Cyberjornal, edição de 17-07-2012:

O nosso quotidiano mariposeio

            Mariposear: andar de um lado para o outro, pegar numa coisa agora, deixá-la a meio, começar outra e, de seguida, atirar-se a mais uma sem deixar acabada a anterior. Tal como parece ser a mariposa, que vai daqui para ali, depois volta, volteia, poisa aqui, poisa acolá, está quieta escassos segundos….
            Meu pai preferia um termo mais corriqueiro, menos… poético: besoirar! Besoirar quererá significar vulgarmente «incomodar com barulho insistente», qual besouro que vai e vem e nos acicata os ouvidos. Tenho-o, porém, num outro significado, porventura próprio do falar algarvio: muitas vezes meu pai o usava, mormente quando, por exemplo, nos preparávamos para ir para a mesa; minha mãe ou minha avó ficavam a «besoirar»: tinham sempre mais uma coisa a fazer, faltava isto, faltava aquilo e parecia que nunca mais se despachavam!...
            Lembra-me a palavra duas outras situações.
Uma, a dos que já estamos avançados nos anos e que, amiúde, vamos arrumar a chave e vemos um sapato fora do lugar e o livro desarrumado e toca alguém à porta e… ao fim do dia, perguntamos: «Mas onde é que eu pus a chave?»…
A outra, a história do chanceler D’Aguesseau, contada por Mário Gonçalves Viana (A Arte de Estudar, 1943, p. 151): havia sempre um intervalo, mais ou menos longo, entre o momento em que o chamavam para a mesa e aquele em que a refeição começava; decorrido algum tempo, o chanceler apresentou à família, estupefacta, o livro que escrevera unicamente durante esses ligeiros quartos-de-hora em que o resto do pessoal… besoirava!
            E se a primeira situação acaba por constituir um grito de alerta e nos obrigar, ao final do dia, a rigoroso exame de consciência acerca do nosso estado de espírito habitual e da capacidade de dominarmos os passos do nosso existir quotidiano, revela-nos a segunda um outro ‘drama’ que consubstanciamos na frase «Não tenho tempo para nada!» e a que Michel Quoist retorquiria prontamente: «Tens muito tempo à tua disposição, mas passas o tempo a perder o teu tempo». (Construir, Livraria Morais Editora, Lisboa, 1965, p. 123).
     
Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 597, 15-07-2012, p. 15.

Lendas do Médio Oriente, dia 14: apoteose!


           García Lorca: Composto no ano 2000, em Granada. Sonoridade surpreendente. Primeiro, introdução; depois, dança-se! Ninguém diria que é um instrumento apenas e só o dedilhar de cinco dedos nas oito cordas do alaúde. Não há por aí saias roçagantes? Ninguém diria! Faz-se uma pausa agora, para um beijo ou um cheiro de amores-perfeitos no jardim do Alhambra. E há um véu que esvoaça. E não é corridinho algarvio também?
            Córdoba: Tímidos acordes, como vontade de quem não quer despertar belezas. Arrisca-se depois, num convite ora hesitante ora sedutor, em malabarismos de sons irrequietos ou dolentes. Mas desculpem: é só um instrumentista a tocar? Para onde, afinal, nos quer levar tão melodiosamente? Agora em cavalgada, parece! E cantamos baixinho.
            Primavera árabe: Num apoio à Tunísia e aos outros, um após outro. Começo plangente como quem pergunta: porquê? E há quem marche alegre, com pressa de cantar liberdade. Esboça-se um hino heróico. Ainda precisamos de avançar mais? E podemos ensaiar um passo de dança? Em frenesim, está bem? Que a vitória tem de ser nossa!
            Infância: Compôs para a filhota, de dois anos; agora tem sete. A ternura duma meiguice, na iniciação aos sons bonitos da vida. E pode ensaiar uns passinhos, não? Tens razão! A música é assim como um labirinto; mas poderás dançar sem te perderes, descansa! Saltita! E já sonho contigo, a saltitar pelos campos joviais! Vamos brincar? Correr, correr, correr!...
            Bagdade: De um Iraque donde saiu há 19 anos, devido à ausência de liberdade e também pela ocupação americana. Que posso mais fazer senão planger? Dói-me o coração, choro a ausência. Estou dolente e pergunto-me porquê. E se eu rodopiar, a tristeza passa? Rodopiarei então! E vocês vão cantar comigo! Há tanques ameaçadores ali? Deixá-los!
            De Ashur a Sevilha: Depois da flauta, foi o alaúde assírio o primeiro instrumento de cordas; todos os alaúdes de Sevilha vieram daí. Toquemos com a forma mais primitiva de o fazer: com cinco dedos só. Só com cinco dedos? Não parece! Ah! Já estamos no sapateado do flamenco, diríamos! E que dedilhar é este, senhores? Ecos do Tigre e do Eufrates, águas de ambos a beijarem o Guadalquivir? Assim em turbilhão não queremos! Ou é a euforia do encontro? Rodopiaremos, pois, em delírio!
A viagem das almas: Começa lentamente, como quem não quer partir. E há uma melodia ao longe, não ouves? Ainda hesito em partir, sabes? E se entoássemos uma canção? Seria melhor, não achas? Vá lá, façamos este diálogo entre os baixos e os altos. Pronto, estamos decididos: é partir! Eu domino bem a sonoridade do meu alaúde, numa carícia…
Retrato: Do folclore árabe. E este é mesmo para bailar. Até apetece bater palmas, assim ao ritmo do compasso. Mudemos os ritmos, para quebrar monotonias. E vai a melodia a ecoar pelo Atlas, frenética ainda, frenética… Ah! Mas não é um turbilhão de alaúdes, uma orquestra? Não. É um só. Parece mentira. E termina com uma só mão.
Síria: Foi o brinde aos cerca de 400 assistentes, num agradecimento aos senhores embaixadores árabes, ao Festival (na pessoa de Piñeiro Nagy), ao engenheiro do som, a quantos quiseram encher a Sala Atlântico do Hotel Palácio no Estoril, para o o ouvir a ele, Naseer Shamma, na noite de sábado, 14, e as suas «Lendas do Médio Oriente», ele que pela primeira vez está entre nós, no âmbito do 38º Festival de Música do Estoril.
Síria sacrificada, morte nas ruas, crianças… O som forte de quem aguenta a pé firme, sem vacilar e trauteando uma cantiga. Alguém tombou agora, choremos pelo inocente, numa canção de embalar! Rufam tambores mil pela cidade ensanguentada! Apoteose! E o Sol irá raiar de mansinho!... 

Publicado no Cyberjornal, edição de 16-07-2012:

domingo, 15 de julho de 2012

O Património Cultural em grande destaque em Cascais

            Começou na quinta-feira, 12, o XI Congresso Internacional de Reabilitação do Património Arquitectónico e Edificado, que se prolongará até domingo.
            Cerca de 400 participantes, entre os quais muitos espanhóis, assistirão, em diversos monumentos da vila de Cascais (Centro Cultural, Casa de Santa Maria, Museu do Mar, Museu dos Condes Castro Guimarães, Casa das Histórias) a sessões do maior interesse pela temática abordada e pela excelência dos oradores convidados.
            É uma realização da Câmara, através do seu Instituto de Cultura e Estudos Sociais, e da Federação Internacional de Centros CICOP (ligados à conservação do Património), com a colaboração de várias entidades.
Foto de Luís Bento
A sessão solene de abertura decorreu numa das salas do Palácio de Cidadela, uma vez que o Congresso tem o alto patrocínio do Chefe do Estado, e foi por isso o director do Museu da Presidência da República, Dr. Diogo Gaspar, o primeiro orador, a regozijar-se por lhe ter sido dada a honra de receber tão ilustres congressistas, apresentando uma pouco da história do palácio em que nos encontrávamos. Seguiu-se o Professor José Manuel Tengarrinha, que preside ao ICES e que saudou os representantes de 25 países que, para além de Portugal, ali estavam representados, sublinhando, por isso, a importância do encontro que, em interdisciplinaridade, reúne os mais conceituados especialistas neste domínio. O Professor Carlos Fabião, do Comité Científico do Congresso, traçou uma panorâmica do que se esperava da reunião e justificou a opção por Cascais: a localização e o empenho demonstrado pela autarquia na salvaguarda e dinamização do seu património edificado. Miguel Matrán, director geral da Fundação CICOP, agradeceu o acolhimento e manifestou o seu apreço a quanto aqui se tem já concretizado. Elísio Summavieille, que ora preside à recém-criada Direcção Geral do Património Cultural, em organização, recordou que, neste momento, pela Europa, cerca de 40% da construção civil se dedica à reabilitação de edifícios e, por outro lado, que «o património mais importante são as pessoas» (conceito que, comente-se de passagem, é bem agradável de ouvir quando parece andar tão arredio da prática concreta dos governos europeus). Encerrou a série de discursos o Dr. Carlos Carreiras, na sua qualidade de presidente do Município que acolhe e que promove, nesta «jovem vila de 648 anos» (frisou). E se ser presidente de um município significa deter nas mãos um forte potencial de destruição maciça, proclamou que Cascais é e quer continuar a ser uma «terra de património», dando respostas locais aos desafios impostos pela globalização.
A conferência inaugural foi proferida por Manuel Fernández Canovas, sobre «Los materiales de construcción y el Patrimonio Edificado». Pedro Vaz referiu-se aos trabalhos levados a efeito no Palácio da Cidadela e Jacinta Bugalhão deu conta de como se processara a reabilitação da Cidadela.
Antes do almoço, inaugurou-se no Museu dos Condes Castro Guimarães uma exposição e foram desde logo apresentados os posters previstos.

Publicado no Cyberjornal de 13 -07-2012
[http://www.cyberjornal.net/index.phpoption=com_content&task=view&id=16607&Itemid=67

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Noite magnífica de sedução e encantamento!


            Os cerca de 200 melómanos que resolveram ir até à igreja dos Salesianos do Estoril, na passada quarta-feira, 11, não deram seguramente por mal empregado o seu tempo, pois tiveram a dita de assistir a um dos mais fabulosos concertos que por estas bandas nos foi proporcionado.
            À bem criteriosa escolha do reportório associou-se o virtuosismo ímpar dos executantes, que nos deliciaram. Ouvi-los-íamos noite fora: foi a sensação com que ficámos. Dos 13 violinos aos 3 violoncelos e um baixo mais as três guitarras – todos nos brindaram com interpretações magníficas.
            Sim, o 38º Festival do Estoril começara no Largo de S. Carlos, no dia 5, com a Orquestra Sinfónica Portuguesa, mas estes Menuhin Academy Soloists, integrando músicos de variados países europeus encheram-nos as medidas!
            Dirigidos pelo romeno Liviu Prunaru, violino, começaram por interpretar a Simple Sumphony op. nº 4, de Benjamom Britten: à alegria saltitante e quase heróica seguiu-se a serenidade bucólica do entardecer, que um pizzicato acordou para, de novo, extasiar na tranquilidade dolente a que os braços de Cristo pareciam convidar e a excelente acústica do templo nada deixava perder; heroicamente, dialogaram os violinos no último andamento, um vivace presto.
            De Malcolm Arnold, a obra 77, «Concerto para dois violinos» (Liviu Prunaru e Valentina Svyatlovskaya, russa) e cordas: uma imagem sonora da turbulência actual (a obra é de 1962). Transcrição de Piñeiro Nagy e orquestração – eloquente! – de Tiago Derriça, circunstância que se repetirá nas Goyescas e nas peças de Albéniz. Parabéns!
            Após o intervalo, Espanha foi nossa companhia. Primeiro, um intermezzo das Goyescas, de Enrique Granados, em que já intervieram, à guitarra, Piñeiro Nagy (a grande e perseverante alma mater das Semanas de Musica do Estoril) e o MikroDuo (Pedro Luís e Miguel Vieira da Silva). Depois, o eterno Isaac Albéniz, em três peças, retratando cada uma a alma de sua cidade ou região: Astúrias, Cádis e Córdoba. E as guitarras gostaram das cenas e lá ficaram para o primeiro extra: uma canção de Manuel de Falla. Delicioso, em seguida, apesar de bem retratar a fúria dos elementos a perpassar pelo endiabrado movimentar de dedos a comprimir as cordas, «Invierno porteño», de Astor Piazzola, com Oleg Kaskiv (ucraniano), violino, como solista: longos foram, naturalmente, os aplausos e os bem merecidos «bravo!». E Liviu como que aceitou o desafio não para uma desgarrada mas para o trecho de uma abertura de Bach: magistral!
            A finalizar, Navarra, de Pablo Sarasate: a alegria das danças rodopiantes, em rimo de valsa bailam frenéticos os dedos pelas cordas… Mas… tivemos direito a mais dois trechos extra-programa, para terminarmos em ritmo de tango, como convém a quem saiu do templo com a alma cheia!...
            O festival volta no sábado, 14: Naseer Shamma trará lendas do Médio Oriente, em alaúde, à Sala Atlântico do Hotel Palácio.
Publicado no Cyberjornal, edição de 12-07-2012: