sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Congresso aumenta responsabilidade camarária

Constituiu um êxito, do ponto de vista organizativo e científico, o XI Congresso Internacional de Reabilitação do Património Arquitectónico e Edificado, que teve como tema «O Património Ibérico» e se realizou em Cascais, de 12 a 15 de Julho, p. p.
            Nem sempre se dá o devido relevo a uma reunião científica internacional no que ela realmente significa para a localidade em que é levada a efeito. Na verdade, tal resulta de uma deliberação prévia da sua Comissão Internacional, em que são tidos em conta os mais variados factores, desde os meramente logísticos aos que se prendem com as características das entidades locais no que ao tema da reunião diz respeito. Do ponto de vista económico e turístico, a vinda de centenas de participantes corresponde a um incremento do consumo e, de regresso, se as impressões tiverem sido boas, cada participante é veículo privilegiado (porque culto) de uma promoção boca a boca, que resulta melhor do que panfletos e outras campanhas nem sempre devidamente estudadas nem correctamente endereçadas ao público adequado.
            Está, pois, de parabéns a Câmara Municipal de Cascais por ter aceitado a proposta que lhe foi endereçada através do ICES – Instituto de Cultura e Estudos Sociais, associação sem fins lucrativos fundada a 10 de Junho de 1998, sediada em Cascais, em instalações camarárias, posto que a sua actividade se desenvolve em estreita articulação com a Câmara, tendo como parceiro a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Como se sabe, tem sido o ICES o organismo promotor dos mediáticos Cursos Internacionais de Verão, que, orientados para temas específicos e de actualidade, trazem à vila especialistas de renome nacional e internacional. Coube também ao ICES a organização de um Mestrado em Estudos Regionais e Autárquicos, que, a exemplo do que já se fazia em Coimbra – aí numa estreita colaboração entre o Centro de Estudos e Formação Autárquica (CEFA) e a Faculdade de Letras – visa dar formação específica a quem, já licenciado, pretenda seguir uma careira de âmbito cultural numa autarquia.

Cascais, sede de uma organização internacional
            Está o ICES filiado numa federação que congrega os CICOP – Centros Internacionais para a Conservação do Património. Por isso, a Câmara Municipal aproveitou sabiamente o ensejo de aqui organizar este congresso para apresentar a sua candidatura de instalação em Cascais da sede do CICOP Europa. Havia mais duas candidaturas, a da Itália e a da Grécia, países em que as problemáticas do restauro e da conservação do património edificado são devidamente acauteladas; mas a votação recaiu sobre Cascais, que assim se une a Nova Iorque, Buenos Aires, Havana e La Laguna (Tenerife), como cidades-sede da Federação.
            Ao receber a informação, o presidente do Município não hesitou em afirmar que, se a decisão nos honra, «acarreta também uma grande responsabilidade», pois importa «fazer tudo para estar à altura da vossa confiança e de podermos beneficiar do vosso conhecimento e talento».
Trata-se, de facto, de uma responsabilidade acrescida, com que muito nos congratulamos se a Câmara a não enjeitar. E, para isso, é urgente dar uma atenção cada vez maior ao património cultural, nas suas diversas vertentes, designadamente a edificada e a paisagístico-ambiental.
Foi pecado mortal paisagístico a construção do Estoril Residence. Esperemos que não venham a constituir outros pecados mortais a excessiva volumetria prevista para o que vai substituir o emblemático Hotel Atlântico, em fase de desmantelamento, ou o projecto que se arrasta para o local do Hotel Miramar, destruído por um incêndio em 1975, no Monte Estoril.
A Câmara tem agora, nesse domínio, mais dilatada responsabilidade. E outros pecados mortais se antojam no horizonte: o que vai fazer-se do Cruzeiro, também ele edifício emblemático do Monte Estoril (goste-se ou não da sua traça, que foi a de uma época)? Como se resolvem (ou dissolvem) a esquelética carcaça em frente à estação dos caminhos-de-ferro de Cascais, uma vergonha à entrada da vila, ou o amarelão de Troufa Real, de azulejos a cair, possível super-esquadra da PSP, plantada em cima do passeio e que nunca mais ata nem desata?...

O património paisagístico
            Lutámos muito para que a A5 se não prolongasse até ao Guincho, porque tínhamos a certeza de que rapidamente se cederia à tentação de urbanizar o espaço envolvente. Ora, toda essa zona do Mato Romão, ou seja, desde S. Gabriel até à gurita (o marco geodésico do Selão) representa imprescindível salvaguarda da vila de Cascais. O mato que a cobre, além de ser repositório de espécies endógenas, é local de nidificação e, sobretudo, é o solo permeável que absorve as águas pluviais, impedindo-as de, em enxurrada, entrarem pelas povoações a jusante: Birre, Pampilheira, Cascais ocidental e Parque Marechal Carmona. Não podemos esquecer que é aí que nasce o Rio dos Mochos!
            Lutámos contra a peregrina ideia de aí se instalar uma cidade do cinema; ao que parece, porém, a urbanização desse espaço estará de novo, incompreensivelmente, em cima da mesa, no PDM. Incompreensivelmente, porque o parque habitacional do concelho já é mais do que suficiente; incompreensivelmente, pelas razões ecológicas apontadas.
            Sede europeia do CICOP, Cascais assume-se, pois, como defensora inquebrantável da biodiversidade, do património edificado que se deseja preservável, reconstruído, autêntico. Basta de super-esquadras, basta de «três parcas»! Que os senhores arquitectos famosos se inspirem no que foi feito em Janes, onde podem, perfeitamente, dar azo à sua imaginação e criatividade, mas… respeitando o ambiente e o enquadramento!

[Publicado no Jornal de Cascais, nº 319, 01.08.2012, p. 6].

As nossas falas

           Cada vez mais me seduz o encanto das palavras próprias de um quotidiano a esvair-se por entre os dedos uniformizadores da comunicação urbana, desgarrada e, porventura, propositadamente alheada do viver aldeão, esse, sim, em contacto com a Natureza concreta. Sou, porém, dos que pensam que a morte anunciada – ou o assassinato cruel – do paradigma socioeconómico para que nos arrastaram vai determinar um regresso ao terrunho no que ele tem de mais salutar
            E com esse retorno reavivar-se-ão as nossas falas, a tratar as coisas pelo seu nome e não pelas generalidades citadinas.
            – «Estou já bichosa», dizia-me a anciã.
            Quem há aí que compreenda à primeira vista o significado profundo da frase, colhida no pomar da maçã, essa sim, bichosa às vezes?!...
            – Pronto, lá estás tu a empencer comigo!
O dicionário traz «empecer», relacionando-o com empecilho, estorvo; mas, entre nós, nestas plagas meridionais, acrescentamos um n, a nasalar, que soa melhor e acerta mais no sentido que lhe queremos incutir: «meter-se», «aborrecer», «não largar da mão»... Melga!...

Publicado no mensário VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 162-163 (Julho/Agosto 2012) p. 10.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Bombeiros de Cascais inauguraram piscina!

            Com o natural júbilo que a concretização de um sonho de mais de duas décadas justifica, foi inaugurada na manhã de sábado, 21, consoante o programa previsto, o novo complexo desportivo da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Cascais.
            Situado na Rua das Macieiras, magnífica e inteligentemente integrado num cenário magnífico – a zona de confluência entre os lugares de Torre, Birre e Pampilheira, debruçado sobre o vale ainda verdejante do Rio dos Mochos, no trecho plano do seu leito que outrora foi de floricultura e está envolto em pinhal – o complexo, cuja  traça se deve ao arquitecto cascalense Gonçalo Andrade,  tem piscina de 10 x 20 m e outra com 8,2 m2 de plano de água para prática de hidroterapia e fisioterapia; dois ginásios, um no piso térreo com 100 m2 e outro no primeiro andar com 96 m2, tudo acompanhado, com é natural de vestiários e balneários. Há também, no entanto, uma sala para primeiros socorros, cafetaria e ainda uma bancada com 45 lugares para acolher eventuais assistentes. Do lado norte, uma plataforma relvada para… usufruto da paisagem!
            Recorde-se que a primeira pedra foi lançada a 19 de Julho de 2010 e também por isso, pelo bom exemplo de concretização em tempo oportuno e de correspondente contenção de custos, merece todo o aplauso! Como aplaudida foi também a concessão do crachá de grau ouro ao vice-presidente da direcção da Associação, Vítor Neves, que muito se empenhou no empreendimento ora inaugurado.
Falaram, na circunstância, o presidente da direcção, Dr. Rui Rama da Silva, e o presidente do Município, Dr. Carlos Carreiras, que, de certo modo emocionado e agradado pelo que acabara de ver, não quis seguir o discurso formal que tinha preparado e preferiu falar de improviso, dando largas aos sentimentos que, na ocasião, o assaltaram. E, claro, as palavras foram de congratulação por mais esta obra concretizada, com estas características e no rigoroso cumprimento dos prazos. Recorde-se que coube à autarquia o financiamento da obra, que – pelo entusiasmo já despertado e consubstanciado no elevado número de inscrições – vai, sem dúvida, constituir mais um pólo de benefício para a população. Aliás, Rui Rama da Silva teve ensejo de salientar que os preços a praticar, de notório sentido social, tiveram já um efeito regulador em estabelecimentos congéneres da freguesia, o que lhe aprouve registar.
Foi uma cerimónia muito concorrida, num final de manhã aprazível – e as mais de cem pessoas presentes pareciam não ter vontade de sair, a fim de prolongarem por mais um tempo o deleite que a deslumbrante envolvência proporciona…


Publicado no Cyberjornal, 22-02-2012:

Finalistas da Escola de Teatro sujeitos a prova de fogo!


            Estreou na passada sexta-feira, dia 20, a peça teatral Woyzeck, da autoria de Georg Büchner, que a escreveu em 1836.
            Não se trata de vulgar peça de teatro e quando se diz que o autor a «escreveu em 1836» não se está, mui provavelmente, a dizer a verdade toda. Primeiro, porque há quatro manuscritos diversos; depois, porque o autor morreu de tifo, com apenas 23 anos de idade; finalmente, porque, devido a estar incompleta, se desconhece exactamente o que Georg Büchner queria fazer. É certo que a versão «definitiva e filologicamente correcta apenas ficou disponível em 1967», como esclarece Miguel Graça, responsável por esta versão e pela sua dramaturgia; contudo, o que nos é apresentado são quadros sucessivos, quase descosidos uns dos outros, em que o elo ligação será o personagem que dá nome à peça, o soldado Woyzeck, progressivamente empurrado para a loucura e para o assassínio da mulher que foi infiel, «consequências directas da opressão que lhe é imposta pela sociedade em geral», nomeadamente de uma médica tirânica que o sujeitou ao tratamento experimental de apenas se alimentar de ervilhas…
Não se andará longe da verdade se dissermos que estes quadros são fruto da ebulição ideológica que se vivia no dealbar do 2º quartel do século XIX (recorde-se que se trata da época pós-napoleónica e do auge das revoluções liberais um pouco por toda a parte…) e fruto também das perturbações e interrogações de um Georg Büchner, que, alemão e inconformista perante o fracasso da Revolução Francesa e revolucionário (chegou a tentar uma insurreição subordinada ao slôgane «Paz às cabanas! Guerra aos palácios!»), deixara os estudos  de Medicina para se refugiar na literatura.
São, pois, de extraordinária riqueza e de enorme intensidade dramática todos os quadros e não admira, por isso, que Carlos Avilez, que assina, mas uma vez, aqui, uma encenação deveras notável, mormente devido è sua complexidade, apesar da aparente simplicidade que a nudez da cenografia poderia dar a entender, haja escolhido a peça para prova (de fogo, dir-se-ia!...) dos alunos finalistas da Escola Profissional de Teatro de Cascais.
São, pois, três os elencos que se vão revezando até 12 de Agosto, no Mirita Casimiro, sempre observados por professores e actores que os avaliam.
Grande beleza plástica a da coreografia, assinada por Natasha Tchitcherova. Extraordinário, o empenho de todos, não apenas dos doze (vezes três) actores principais, mas de todo o elenco (chegam a estar em palco meia centena de jovens actores!). Estão todos de parabéns.
E não resisto a duas a três pinceladas que particularmente me tocaram e me incitam a solicitar que a peça volte a estar em cena.
Primeira: a alegoria do tempo. Começa-se a correr desenfreadamente, como a querer tudo apanhar, numa loucura. Corre-se muito, no decorrer das cenas. Há, porém, um outro quadro, inesquecível pela densidade singela que a sua mensagem nos inocula: o protagonista arrasta, em diagonal, de uma ponta a outra da cena, a longa cauda do tecido vermelho de sangue em que se embrulhara, lentamente, lentamente, no mais completo silêncio, a dar-nos a lição de como um segundo é muito e há que o aproveitar. Aliás, sentencia-se, a dado passo, num outro quadro: «Não corras! Desce a rua devagar! Como deve ser!...».
           E há frases destas, para fazer pensar, disseminadas aqui e além;
«Quando o carpinteiro aplaina as tábuas, ninguém sabe quem é que nelas se vai deitar!».
«Conta-me uma história, como se eu fosse criança» – e a história conta-se, do menino que olha para a lua, para o sol, para as estrelas… «E ainda lá está, sozinho e a chorar».
«O caminho da vida é por ali, não é? Está tão escuro!... Tenho de ir andando!».
«Quando ficamos frios, deixa de estar frio!»
E, a certa altura, o actor interpela o público:
«Estão a olhar para onde? Olhem para vocês!».
O objectivo, proclama-se no início, é mostrar o Homem «como Deus o criou!». Na verdade, saímos desta sequência, esmagados, a pensar… neste Homem que Deus criou! E as reflexões exaradas nesse dealbar do século XIX perante o fracasso da grande revolução, servem-nos hoje, às mil maravilhas, perante o fracasso de outras revoluções…

 Publicado no Cyberjornal, edição de 22-07-2012:

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Não basta fazer… é preciso que dizer que se fez!


            Esta máxima, que se prende com uma outra, mais antiga, «Não basta à mulher de César ser séria, tem também de parecê-lo!», assume particular relevância no que à actividade autárquica diz respeito.
            Promessas eleitorais são promessas que amiúde se esquecem. Escreveu Gustave Le Bon, no seu livro A Psicologia das Multidões, datado de 1895 (!), que os candidatos podem prometer sem receio as mais amplas reformas, porque, «no momento, os exageros produzem bastante efeito e não comprometem o futuro», pois que «o eleitor não se preocupa nada em saber se o eleito obedeceu à profissão de fé aplaudida e à qual deve a vitória».
E é verdade! Por isso, a diferença reside no facto de proceder diversamente e cumprir. Por outro lado, cumprir só não basta: urge dizer que se cumpre. E, neste aspecto, sem qualquer outro intuito que não o de verificar o que é verificável, louve-se a incessante acção do GIDI – Gabinete de Imagem, Documentação e Informação, da nossa Câmara Municipal, que, liderado pela vereadora Marlene Guerreiro e dinamizado por Cláudia Guerreiro, nos mantém quase diariamente ao corrente das mais diversas iniciativas que se realizam ou vão realizar-se no concelho, quer as promovidas pelos serviços municipais quer pelas várias entidades aqui em actividade.
Refiro, a título de exemplo, a mensagem divulgada a 4 de Julho:
«No início deste novo mês relembramos alguns dos melhores momentos vividos em São Brás de Alportel e preservados através da imagem…nas reportagens da Local Visão TV! Bons momentos para recordar... à distância de um clique!!».
E lá estavam, de facto, «à distância de um clique», significativas reportagens, que levam o nome de São Brás de Alportel a todos os cantos.
Aplauda-se, pois, esta enorme disponibilidade de um exemplar serviço camarário, que não se poupa a esforços para mostrar… como é diferente viver em São Brás!

  [Publicado em Notícias de S. Braz, nº 188, 20-08-2012, p. 5].

Feira do Artesanato - Inauguração envergonhada ou incompetência reinante?

            Os factos: a 49ª edição da FIARTIL – Feira do Artesanato do Estoril – abriu na quinta-feira, 21 de Junho, às 18.00 h. Pelo Gabinete de Imprensa da CMC, foi enviada à Comunicação Social, às 18.08 horas desse mesmo dia, a seguinte informação:
«A partir de hoje, dia 21 de junho, abre portas mais uma Feira de Artesanato do Estoril, promovida pela Câmara Municipal de Cascais, através da Cascais Dinâmica, no recinto em frente ao Centro de Congressos do Estoril. Até dia 2 de setembro, o certame mais antigo de Portugal reúne mais de três centenas de artesãos para mostrar ao vivo técnicas e tradições ancestrais das artes populares de Portugal. Com um vasto programa de animação, de que fazem parte nomes como Paulo de Carvalho, Vitorino, Lenita Gentil, Carlos Alberto Moniz, Ana Lains e Cuca Roseta, este ano, pela primeira vez na história da Feira do Artesanato do Estoril vai também decorrer um concurso de Fado, para descobrir novos talentos desta sonoridade que é património imaterial da humanidade.»
No dia seguinte, 22, no começo da tarde, foi-nos enviada a habitual agenda do presidente, onde constava para esse dia, às 18.00 horas, a sua presença na «inauguração da Feira do Artesanato do Estoril».
Pelo que pude apurar, estiveram presentes ao acto pouco mais do que cinco individualidades. As fotografias divulgadas, por exemplo, pelo nosso prezado colega local que teve publicidade de capa (página inteira), na sua edição do dia 27, mostram dois artesãos sozinhos e a imagem dos dois intervenientes na inauguração: o Senhor Presidente da Câmara e o Senhor Presidente da Cascais Dinâmica, a empresa municipal que gere a feira.
Por conseguinte, observados os factos, creio justificar-se a pergunta feita: preconizaram uma inauguração envergonhada, para, por exemplo, não fazer concorrência aos outros muitos eventos da temporada, ou tudo isso reflecte uma enorme incompetência ou desinteresse pela Feira por parte da Cascais Dinâmica?
Vivemos em Cascais há muitos anos. Acompanhamos a Feira do Artesanato desde o 1º ano em que nasceu, quase no âmbito das comemorações do VI centenário da elevação de Cascais a vila. No Antigo Regime, sucedânea de certo modo, como fora, do Mercado de Abril, a inauguração tinha honras de Chefe de Estado e ministros. E assim continuou nos primeiros anos após a Revolução, porque se compreendia perfeitamente que o artesanato vivo que ali se apresentava, além de ser forte atracção para os habitantes – ponto de encontro privilegiado das noites dos nossos Verões – o era também para os forasteiros. Turista que se prezasse ia à Feira do Artesanato saborear petiscos bem portugueses e deliciar-se com o que eu cheguei a chamar «Portugal pelas mãos do seu Povo». Ali se convivia com os bonecos da Rosa Ramalho, de Barcelos, os Cristos ingénuos de Mestre Josafaz, a louça de Bisalhães ou os barros negros de Molelos, as procissões com centenas de figuras de Estremoz, a loiça de S. Pedro do Corval, as filigranas minhotas, as rendas de bilros, as bilhas de Nisa… Era isso: Portugal pelas mãos do seu povo, vendo trabalhar ao vivo artesãos autênticos.
E o dia da inauguração era um dia de festa, o Dia da Festa do Turismo Local. Nessa tarde – por que se esperava o ano inteiro – ali se reuniam os hoteleiros, os responsáveis pelas agências de viagens, os capitães do Porto (o que estava em funções a os anteriores, porque, por inerência do cargo, o capitão do Porto pertencia à Junta de Turismo), os representantes das forças vivas do concelho, os jornalistas locais e os nacionais, representantes de empresas ligadas ao turismo, a vereação camarária, os deputados municipais, membros dos executivos das juntas… Enfim, a inauguração constituía agradável pretexto para troca de impressões e de experiências, para gizar novos projectos, para, enfim, juntar num mesmo recinto emblemático quantos contribuíam para o que era (e não continuará a ser?) a principal fonte de riqueza do concelho.
Nessas alturas, não estava lá, claro, ninguém da actual Cascais Dinâmica. Não admira, por isso, que dessa memória nada se tenha retido ou recebido. Ou, se se recebeu, decidiu-se fazer tábua rasa, para se ser inovador ou, se calhar, para tentar reduzir a feira a algo sem importância de maior. E é pena. Mormente porque depressa se terá esquecido, por exemplo, das lutas grandes que tivemos para que esse pinhal fosse preservado para a feira e não transformado – houve projecto quase em fase de aprovação!... – em empreendimento habitacional de luxo, arrancando os pinheiros e contaminando também o manancial que lhe passa por baixo e alimenta as termas do Estoril.
É pena que se tenha perdido a memória. È pena que não se publicite mais a feira (que a determinado momento se começou a chamar Fiartil porque englobou artesanato doutros países). É pena que o artesanato lídimo tenha dado lugar, de modo prevalente, ao chamado artesanato urbano. Mas… é o que temos, que é que se lhes há-de fazer? Se, ao menos, tivessem estudado a História Local!...

 [Publicado no Jornal de Cascais, nº 318, 18.07.2012, p. 6].

terça-feira, 17 de julho de 2012

Património e Turismo Cultural, binómio indissociável


            No quadro do XI Congresso Internacional de Reabilitação do Património Arquitectónico e Edificado que brilhantemente foi organizado na vila de Cascais e que lhe valeu, também por isso, ter sido eleita para sede europeia do CICOP (Centro Internacional para a Conservação do Património), realizou-se na sexta-feira, 13, durante todo o dia, na sala da música do Museu Condes de Castro Guimarães, o seminário «Património e Turismo Cultural, um binómio indissociável? – Um tema de reflexão», coordenado pela Dra. Simonetta Luz Afonso.
Assistiram cerca de vinte congressistas – haja em vista que as sessões eram simultâneas e se distribuíram por diversos locais.
Coube à coordenadora abrir a sessão, invocando três acontecimentos que, em seu entender, deixaram profundas marcas a mostrar que o investimento na Cultura contribui eficazmente para melhorar a imagem do País e, consequentemente, se deve assumir como indispensável e não menosprezável factor de crescimento económico: a Europália, realizada na Bélgica, em 1991, com Portugal como país-tema; Lisboa, Capital Europeia da Cultura (1994); e a Expo’98. Em todas elas, Simonetta Luz Afonso teve intervenção importante, como se sabe. Referiu, a título de exemplo, que data dessa década o interesse pela arquitectura de museus e o despertar da necessidade de haver preparações específicas dos agentes turísticos na área cultural, dado que, ainda que não se deva pensar em construir um mundo para o turismo, o certo é que 40% dos visitantes de Portugal vêm cá por motivos culturais e hoje, em que pode trabalhar-se em qualquer parte do mundo e, por outro lado, os turistas gostam é de sentir o viver da população local, a atenção das entidades governamentais e dos operadores turísticos tem de ter em conta essas vertentes.
            António Lamas – que preside à Sociedade Parques de Sintra, Monte da Lua, S. A., uma empresa criada em 2000, de capitais exclusivamente públicos e que não recebe contribuições do Orçamento do Estado – deu conta de como é gerir, equilibradamente, os recursos ao seu dispor. Referiu que, se um turista pensa estar 3 dias em Lisboa, reserva um para ir a Sintra; por isso, há que proporcionar-lhe aliciantes e isso se está a fazer, nomeadamente após se terem reabilitado a Casa de Monserrate, o palacete da Condessa de Edla, vários outros edifícios em ruínas e, de modo especial, o espaço envolvente: identificaram-se, por exemplo, 53 000 espécies arbóreas!... Acentuou que um dos segredos estava na atenção dada às pessoas, à motivação incutida nos seus funcionários e colaboradores, em que se incluem reclusos e jovens das CERCIs e, na central telefónica, pessoal de mobilidade reduzida. Registe-se que todas as obras e, inclusive, as escavações arqueológicas efectuadas estiveram abertas ao público, como motivo de atracção.
            Andreia Aires de Carvalho Galvão e José António Ribeiro Mendes apresentaram a rota dos mosteiros portugueses património da Humanidade: Jerónimos, Alcobaça, Batalha e Convento de Cristo. Andreia Galvão falou muito depressa, apresentou generalidades e da sua intervenção ressalte-se a importância de se produzirem conteúdos válidos para acompanhar essas visitas. Ribeiro Mendes, por ser da área das TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação), hoje na moda, dissertou sobre o papel da Internet, designadamente porque muito se faz através da informática e, antes de partir para um destino, o turista é capaz de o visitar virtualmente; daí, de novo, a relevância que há em fazer uma boa gestão dos conteúdos a disponibilizar. Sublinhou que, de acordo com as estatísticas, disponíveis, 33% dos turistas se deslocam por terem consultado a Internet, 25% devido à publicidade boca a boca, 14% para rever sítios já anteriormente visitados e apenas 17% por acção de agências de viagens. No caso desta rede mosteiros, o slôgane poderia ser «mil anos de sabedoria» a descobrir! Na verdade, o viver uma experiência constitui cada vez mais um atractivo a fomentar.
            De tarde, Manuel Sande e Castro Salgado relatou a feliz experiência em curso no Bairro da Mouraria em Lisboa, um programa de desenvolvimento comunitário que está a dar excelentes frutos. Sob o mote «Há vida na Mouraria!», são quatro os eixos em que o programa se desenvolve: «revitalização do tecido económico local; melhoria da qualidade de vida dos idosos; promoção do acesso ao emprego, saúde e cidadania das populações vulneráveis, nomeadamente trabalhadoras do sexo, toxicodependentes e sem-abrigo; e a promoção do fado como factor identitário». Uma experiência notável!
            Virgílio Gomes, docente de História da Alimentação na Universidade Nova de Lisboa e interveniente em muitas experiências ligadas à Gastronomia (colaborou, por exemplo, com a Dra. Simonetta na escolha das ementas típicas portuguesas para o Pavilhão de Portugal na Expo), demorou-se na explanação do enorme papel que hoje a gastronomia tradicional detém no quadro da promoção turística. Demorou-se, mas não cansou, tão interessante foi o testemunho que nos trouxe. Preconizou o maior rigor na apresentação das iguarias – sobretudo se se tiver em conta que a gastronomia é considerada património imaterial (foi, por exemplo, classificada como património cultural a refeição gastronómica dos franceses e o México apresentou uma candidatura em que o milho, o feijão e as pimentas eram os principais condimentos… Criticou o facto de os restaurantes não darem a primazia, nas suas ementas, aos vinhos locais e regionais. Falou da alheira, da canja (trazida do Oriente por Garcia de Orta). Uma lição de grande alcance. Aliás, o professor pode ser visitado em http://www.virgiliogomes.com – onde há também muito para aprender!
            A Bruno Mota Martinho fora dado como tema «O turismo e o património cultural edificado em contexto urbano e na gestão das cidades». Perdeu-se, porém, num emaranhado de concepções teóricas, ilustradas com diapositivos abstractos cujo significado (decerto) escapou a boa maioria dos ouvintes; falou depressa, monocordicamente e, no fim, mesmo apoiando-nos no extenso resumo da conferência que nos foi facultado, recheado de frases bonitas, ficámos com a ideia de que o que preconizava era, fundamentalmente, «a criação de corredores contínuos e coerentes de oferta cultural e turística». Nesse aspecto, Belém poderá ser um bom exemplo (digo eu); mas o conferencista quiçá não se tenha apercebido também do ‘corredor’ em que se encontrava, na vila de Cascais, onde se criou, na verdade, um núcleo cultural da maior relevância, a abranger a Cidadela, o Palácio da Presidência da República, o Centro Cultural, a Casa de Santa Maria, o Museu dos Faróis, a Casa das Histórias e o Museu do Mar, tendo no meio o amplo e bem agradável Parque Marechal Carmona. E quanto ao património cultural edificado em contexto urbano nada soou, que eu me tivesse apercebido.
            A terminar, já quase em cima da hora de fechar (e foi pena!), Miguel Fialho de Brito veio falar das «novas redes de promoção». Atrasados como estávamos, poderia ter deixado a história do turismo, o diário da viagem a Portugal e a Espanha do senhor W. Beckford (1787-1788); e só quase no fim nos trouxe aquilo que nos interessava: como é que as redes de estudantes ERASMUS constituem doravante um excelente meio de promover o País e a mobilidade. Temos 8000 estudantes ERASMUS em Portugal, o que representa notável capital a não desperdiçar. O portal www.studyinportugal.net  apresenta, em inglês, dez razões para estudar em Portugal e o nosso País é aí apresentado como «a tua porta de entrada para o Mundo»! Sobre isto gostaríamos de ter ouvido falar mais.
            Simonetta Luz Afonso congratulou-se com a jornada e a fidelidade dos participantes.
            O Congresso redundou, de facto, num enorme êxito, com largos ecos, sobretudo se tivermos em conta as múltiplas facetas abordadas por conceituados especialistas de renome internacional. E não é de somenos realçar que no cartão de identificação dos participantes estava incluída uma caneta que contém as actas; ou seja, antes de o congresso se realizar já todas as contribuições estavam disponíveis! Uma ideia genial, mais um motivo para dar os parabéns aos organizadores. Cascais deu cartas, mais uma vez!

Publicado no Cyberjornal, edição de 17-07-2012: