quinta-feira, 11 de outubro de 2012

«Beba água da torneira!»

            13.15 horas, 21-09-2012. O senhor, de cabelo grisalho, ao passar no corredor da carruagem, verifica que uma senhora está a beber água duma garrafinha de marca.
            – A senhora não beba dessa água!… Quantos anos tem?... 50?... Se quer viver mais 50, não beba dessa água, beba água da torneira!
            Não consegui ouvir contar das aldrabices que, em seu entender, envolviam o negócio das águas engarrafadas; entretanto, chegámos ao Monte Estoril e a senhora saiu.
            Também nós cá em casa éramos partidários da «água da torneira». Defensores incondicionais, até que sucederam dois casos.
            O primeiro: terem detectado os fiscais da Águas de Cascais uma rotura no cano que, da boca-de-incêndio, levava ao meu contador. O cano estava na base do muro do quintal e, por isso, disseram-me (nada foi comunicado por escrito, registe-se) que eu tinha de mandar reparar a rotura e, caso não fizesse tal diligência dentro de quinze dias (pareceu-me que foi quinze dias…), corria sério risco de me virem cortar o abastecimento. A mim a rotura não me preocupava nada, porque quem estava a perder era a Águas de Cascais, uma empresa privada. Não quis, porém, criar conflitos e, dolorosamente, lá paguei ao canalizador e ao pedreiro e os telefonemas vários que tive de fazer para virem fechar a água, para virem inspeccionar, para virem abrir…
            Confesso, todavia, que me assustei ao ver o estado lastimoso em que se encontrava o cano por onde, até essa altura e desde a década de 60, passava a água que a família bebia, crianças e adultos. Chamar àquilo ferrugem seria usar um termo delicado.
            Há semanas (é o outro caso), uma vizinha apercebeu-se de que deveria haver uma fuga de água junto ao seu portão. Cidadã como é, telefonou para a Águas de Cascais. Vieram uns senhores, confirmaram, abriram vala, puseram nova manilha de junção, uma torneira e… abalaram, sem tugir nem mugir. Passaram uns dias e tudo continuava na mesma: a rotura, acrescida dos naturais inconvenientes de um passeio inutilizado por onde passam os utentes da clínica próxima, crianças, um carrinho de deficiente, as pessoas, enfim!... Tirei-me de cuidados e, com esta mania – que cada vez vou tendo menos, confesso… – de ser cidadão interveniente, contactei a Águas de Cascais. E vim a saber que era à proprietária que competia agora continuar o arranjo e suster a rotura (que, repita-se, a ela nada incomodava enquanto rotura, porque quem estava a perder era a Águas de Cascais). Pasmei! «Então e ninguém diz nada? Ninguém informa? Ninguém explica em que lei se baseia para imputar à senhora os custos da reparação de uma rotura antes, até, da boca-de-incêndio?». «É assim». É assim. Perante o perigo para os transeuntes, optámos por mandar fazer a obra. Pagamentos aos pedreiros, ao canalizador, telefonemas… Ainda se apelou para a companhia de seguros. Ná! O agente dos seguros foi peremptório: «A rotura aconteceu antes do contador; por sinal, até antes da boca-de-incêndio e, portanto, é à Águas de Cascais que compete o pagamento!». Desistimos, porque com a Águas de Cascais, já sabíamos, não vale a pena dialogar. É assim e… prontos!
            O mais interessante foi o que vimos e essa a razão primordial desta nota: o interior do cano que ligava à boca-de-incêndio era uma ferrugem pegada!... Por ali passava, pois, a água que se bebia! Ficámos horrorizados.
E, por muito que me custe, não dou razão ao senhor de cabelos brancos (como eu), que, às 13.15 horas do dia 21 de Setembro do ano da graça de 2012, incitava a passageira sua desconhecida a beber água da torneira.

Publicado em Jornal de Cascais, nº 323, 10.10.2012, p. 6.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

«Perspectivas da Natureza», um concurso notável

      É a sexta vez que o nosso prezado colega Correio da Linha, que se publica em Oeiras e que é dirigido por Paulo Pimenta, reúne uma série de vontades (leia-se: patrocínios) para lograr dar corpo a uma iniciativa deveras notável e de louvar.
      Desafia os leitores (profissionais e amadores com idade superior a 16 anos) para, de máquina em punho, irem captando instantâneos do nosso viver, do ambiente em que nos é dado movimentar-nos. O tema deste concurso era mesmo esse: «Perspectivas da Natureza».
Até ao passado 29 de Janeiro, cada participante pôde concorrer com (até) três fotografias, havendo inclusive a possibilidade de dois ou três elementos da mesma família participarem, habilitando-se assim ao «Prémio Família». Foram 118 os participantes, 331 as fotografias recebidas, 14 as famílias que concorreram.
Entretanto, fez-se a escolha, montaram-se exposições… Cada uma das 10 empresas patrocinadoras seleccionou a “sua” fotografia; e houve, para além disso, 5 fotografias premiadas para o 1º lugar e 5 para o 2º.
E o livrinho, de 88 páginas, com tiragem de 3500 exemplares, reproduzindo as fotos vencedoras, fazendo-se eco dos depoimentos dos patrocinadores e mostrando uma selecção das fotografias enviadas, constitui um regalo para a vista, pois, na verdade, há ali verdadeiras obras de arte; ou melhor, ângulos inesperados que nos ensinam a ver melhor e a apreciar as verdadeiras obras de arte que a Natureza nos oferece!

Publicado na edição de 10-10-2012 de Cyberjornal:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=17179&Itemid=30

Um município tem de ter uma revista cultural

      Vem de há muito esta minha ideia de que um município deve pugnar por ter uma revista (anual ou, se possível, semestral), onde se reúnam colaborações dos investigadores sobre temas, os mais variados, que constituem a alma desse Município, a sua história, o retrato das suas características.
      Tem Lisboa Olisipo, revista do Grupo de Amigos de Lisboa; dificuldades financeiras e falta de visão por parte dos serviços culturais da Câmara têm impedido a sua publicação regular. Mantém o município da Guarda a Praça Velha, semestral, que, iniciada em Junho de 1997, publicará este Inverno o seu nº 32. Teve Cascais – com essa finalidade (porque Boca do Inferno, mais literária, ultrapassava os limites do concelho) – o Arquivo de Cascais, cujo 1º número saiu em 1980 e cuja publicação há anos que incompreensivelmente se mantém suspensa. E escrevo «incompreensivelmente» com plena consciência, porque vultosas verbas gastas em edições de luxo poderiam ter deixado cair umas migalhas para uma publicação que não se exige luxuosa, mas prática e útil.
      Vêm estas considerações a propósito do volume 37 (2011) dos Anais do Município de Faro, precisamente uma dessas revistas que, nascida há 42 anos (!) sob orientação de um professor primário entusiasta pela cidade (a sua historia, as suas gentes…), o Prof. Pinheiro e Rosa, tem hoje à sua frente um outro algarvio, o Doutor Joaquim Romero de Magalhães, catedrático da Universidade de Coimbra, filho do saudoso Prof. Joaquim Magalhães, o ‘descobridor’ de António Aleixo.
      E antes mesmo de darmos conta do conteúdo deste número da revista (que tem a iniciá-lo a mensagem do presidente da autarquia), aplauda-se o entusiasmo com que Romero de Magalhães, na Apresentação, solicita a quantos queiram enviar para a revista histórias doutros tempos, para assim se fazerem reviver espaços e gentes, para assim a cidade preservar a sua memória! Excelente ideia!
      De apresentação gráfica magnífica (bem sugestiva a capa, a cores, a mostrar um dos monumentos mais significativos da cidade, a sua sé), ISSN 0871-0872, 248 páginas ilustradas. Mui oportunos os separadores, com fotos antigas.
      João Pedro Bernardes, arqueólogo, docente da Universidade do Algarve, traça uma panorâmica do que terá sido o território da Ossonoba romana (p. 11-26). António Rosa Mendes, também da Universidade do Algarve, evoca a obra de D. Inácio de Santa Teresa (1741-1751), um «bispo reformador» (p. 27-37). Em tempos ainda de evocação do centenário da República, Jorge Filipe M. da Palma (investigador da história local) dá conta da toponímia deixada pela I República em Loulé (p. 39-67) E ainda no mesmo rumo histórico, Aurélio Nuno Cabrita (investigador) tece considerações acerca da visita feita pelo presidente Sidónio Pais ao Algarve (p. 69-140). Prossegue-se na história, porque Artur Ângelo Barracosa Mendonça (professor e investigador) vasculhou a imprensa algarvia e esclarece-nos como é que ali se viu a revolta do 28 de Maio (p. 141-220). Olhão, vila cubista, sempre sedutora na sua branca arquitectura geométrica, seduziu Andreia Fidalgo que escreveu (p. 221-242) sobre as açoteias, os mirantes, os contramirantes, uma ‘inerudita arquitectura’, convenhamos, mas que não deixa de ter o seu encanto e oxalá as entidades locais a saibam preservar na sua autenticidade e tipicismo. «A Estrada da Senhora da Saúde» (p. 243-247), do escritor José Matos Guita, inicia esse ciclo evocativo de que atrás se falava e que Romero de Magalhães mui oportunamente deseja ver continuado.
      E aqui está, pois, um bom exemplo de publicação cultural local! Parabéns!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Um vade-mécum oportuno e útil

            Tem-se uma dúvida e, hoje, os mais habituados ao manuseio da Internet precipitam-se para o computador, escolhem o motor de busca e, num ápice, se a questão tiver sido posta em termos eficientes e eficazes, a resposta aí está, ao alcance de um clique!
            Dir-se-ia, por conseguinte, que de outras enciclopédias e dicionários se não careceria.
            É, porém, essa uma consulta efémera: depressa a ela se acede, depressa o seu resultado se esvai, porque não se imprime numa folha ou, se se imprime, acaba a informação por perder-se, uma vez que nem sempre sabemos exactamente onde a iremos guardar.
            Mantém Aurora Martins Madaleno, desde Abril de 2002, no mensário VilAdentro, da paróquia de S. Brás de Alportel, a rubrica «Quem pergunta quer saber». Fruto da auscultação atenta das questões levantadas no dia-a-dia, revela-se de bem compreensível utilidade para o cidadão comum. Mais útil ainda se dissermos que todas essas respostas simples e claras foram agora transcritas em livro (Quem Pergunta Quer Saber, S. Brás de Alportel, Abril de 2012, ISBN: 978-989-95726-6-9), por iniciativa da Casa de Cultura António Bentes, acedendo a sugestão apresentada pelos alunos da Autora.
            Louve-se, em primeiro lugar, o empenho da Casa de Cultura. Conta já no seu rol mais de uma dezena de edições, a maior parte delas devidas ao labor e ao indesmentível entusiasmo dos irmãos sacerdotes padres José da Cunha Duarte e Afonso da Cunha Duarte, que procuram aliar à sua missão pastoral o gosto por temas da História e do Património locais, em particular, e algarvios em geral. Uma obra de muito louvar, levada a cabo sem apoios significativos, a proporcionar matéria de reflexão, fomentadora de cidadania.
            108 temas, um por página, na sequência cronológica em que foram publicados, devidamente enumerados no índice. Um dos casos em que um segundo índice, por ordem alfabética dos temas, não teria sido despiciendo, para facilitar a consulta. Abarcam enorme diversidade e também por isso – como elucida José da Cunha Duarte no prefácio – são já utilizados por universidades da Terceira Idade.
            Aí se encontra de tudo, dir-se-ia. Que é o orçamento do Estado; que se entende por liberdade religiosa; a que regras deve obedecer o testamento e em que circunstâncias se faz; a proibição de fumar; que questão levanta o casamento realizado no estrangeiro; a usucapião; os padrinhos… Enfim, uma deveras interessante panóplia, em boa hora disponibilizada em livro.                                     

Publicado em Cyberjornal, 07-10-2012:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=17159&Itemid=67

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

História da Arqueologia Portuguesa apresentada no Estoril


             Mais de duas dezenas de pessoas estiveram presentes, ontem, dia 3, ao final da tarde, no Espaço dos Exílios, no Estoril, para assistir à apresentação do livro do Doutor Carlos Fabião, arqueólogo, professor da Faculdade de Letras de Lisboa e munícipe de Cascais, intitulado Uma História da Arqueologia Portuguesa.
            Começou por usar da palavra o Dr. Raul Moreira, responsável pela editora, a Secção de Filatelia dos CTT, que elucidou ser esta mais uma das apresentações que do livro têm vindo a ser feitas pelo País, sempre com o maior acolhimento, não apenas devido ao conteúdo da obra mas também pela valia do seu autor, a quem se referiu em termos elogiosos, quer como docente quer como investigador.
            Carlos Fabião fez questão em salientar que se trata de um grande trabalho de equipa, pois que não basta o texto, há toda uma roupagem que o envolve e nisso os serviços técnicos que colaboraram na edição foram altamente eficazes. Uma vez que se torna difícil aos arqueólogos portugueses alicerçarem nacionalismo em dados arqueológicos, pois que sempre as nossas fronteiras culturais estiveram ligadas à Hispânia, por exemplo, constitui, no entanto, a visita aos sítios indicados no roteiro final um bom pretexto para melhor se conhecer o passado do nosso País e, por esse meio, se cimentar identidade.
            Encerrou a sessão o Presidente da Câmara Municipal de Cascais, Dr. Carlos Carreiras: os vestígios arqueológicos podem ser entendidos, de facto, nessa lógica de identidade e são, muitas vezes, indícios bem evidentes dos valores de tolerância, que, hoje mais que nunca, importa cultivar. Aproveitou o ensejo para se referir a sítios arqueológicos do concelho que, pouco a pouco, irão ser valorizados, desde as necrópoles pré-históricas, às villae romanas dos Casais Velhos, Alto do Cidreira, Freiria, com particular destaque para a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz, mui provavelmente a primeira a ser intervencionada, com vista a maior usufruto por parte da população.
O volume, magnífico, datado de Outubro de 2011, destina-se a acompanhar, como é de uso em edições dessa secção, a série filatélica de seis selos temáticos posta em circulação.
«Desde as origens à descoberta da arte do Côa», aponta o Autor, em pinceladas largas mas seguras, os momentos, os monumentos e os arqueólogos mais significativos. Modestamente, optou por chamar-lhe «uma história», pois que outras poderão existir e se compreende bem a dificuldade real em resumir em menos de 200 páginas, que se queriam profusamente ilustradas e para o grande público, as peripécias por que foi passando entre nós uma ciência que, embora assumindo o seu carácter já na segunda metade do século XIX, teve cultores de monta desde o tempo dos Humanistas, pelo menos.
«Os tempos da Sagrada Lei Escrita e dos nossos antepassados romanos»; «A Antiguidade como argumento de legitimação política: a Real Academia da História Portugueza», «A grande revolução: o Evolucionismo e a antiguidade da Terra, das formas de vida e do Homem», «A antiguidade das nações», «O século XX» – são os significativos títulos que o autor escolheu para esta caminhada, que culmina, como atrás se referiu, na apresentação de «um roteiro da Arqueologia Portuguesa», antecedido de elucidativo mapa (p. 184) e contendo informação sobre os museus históricos da Arqueologia Portuguesa ou os outros que detêm no seu acervo significativo espólio arqueológico (ao todo, 28), não se hesitando em mencionar dez outros locais que se destacam «pelo seu particular interesse».
Uma viagem deveras interessante, em que se mostra como mesmo uma ciência que se quer exacta como a Arqueologia nunca está – por mais que se queira – desgarrada do contexto social e político em que se pratica. Em todo o caso, como o Autor salienta, a terminar, «ao serviço de um desenvolvimento sustentável, o património arqueológico ocupa um espaço cada vez mais importante no quotidiano das populações» (p. 182).
Entre as individualidades presentes, registe-se a da Senhora Vereadora da Cultura, Dra. Ana Clara Justino, e a do actual Director do Museu Nacional de Arqueologia, Dr. António Carvalho.

Publicado em Cyberjornal, 4-10-2012:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=17144&Itemid=30

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Justa – mas discreta – homenagem


      A Junta de Freguesia de Cascais deliberou dar o nome do Rancho Coral e Coreográfico da Sociedade Musical de Cascais a uma das rotundas do Bairro da Pampilheira, na Avenida Engº Adelino Amaro da Costa, justamente aquela que tem sido mais falada, ao longo dos últimos anos, por continuar incompreensível para o cidadão comum, o facto de ser uma rotunda e não ter… oito sentidos de trânsito!... Claro que o Rancho nada tem a ver com isso (creio que nenhum dos seus membros pertenceu ao grupo de ‘sumidades’ que tal deliberou…), mas isso constitui, sem dúvida, para ele mais um motivo de boa singularidade e muita visibilidade.
      Congratulamo-nos vivamente com a decisão. Das várias secções da Musical – que tem sede, como se sabe, não no Bairro da Pampilheira mas muito perto, no Alto da Pampilheira – tem sido o seu dinâmico rancho aquele que, no País e no estrangeiro, mais alto tem levantado o nome de Cascais, ligando-o, de modo especial, à tradição piscatória, pois que são de pescadores os trajos dos seus elementos. E nunca nos cansaremos de ver, por exemplo, a dança evocativa da Senhora dos Navegantes, de bem tocante coreografia…
      Em tempo de ‘vacas magras’ e também porque, de há uns tempos a esta parte, a discrição em casos semelhantes tem sido apanágio da Freguesia de Cascais, a colocação da placa foi feita na última semana de Setembro, sem qualquer comunicação oficial nem cerimónia – o Rancho vale por si!

Publicado em Cyberjornal, 04-10-2012:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=17142&Itemid=92

Um álbum bonito e de elevado interesse histórico no CCC

            Quatro aspectos notabilizam a exposição «Charles Landseer – Desenhos e aguarelas de Portugal e do Brasil, 1825-1826», patente no Centro Cultural de Cascais, com curadoria do Professor Leslie Bethell, da Universidade de Oxford.
            Fruto da eficaz colaboração da Fundação D. Luís I e da Câmara Municipal de Cascais com a Espírito Santo Cultura, do Rio de Janeiro, e o Instituto Moreira Salles, de São Paulo, detentor da colecção, enquadra-se a mostra nas iniciativas que pontuam o «ano» escolhido para consolidar as relações entre os dois países irmãos; e detém particular significado, se considerarmos que os desenhos expostos retratam aspectos da paisagem física e humana de Portugal e do Brasil, nos anos de 1825 e 1826, altura em que se processavam as negociações para o reconhecimento oficial, por Portugal, da independência do Brasil, tendo uma delegação do Reino Unido servido de intermediária, pois, como se sabe, era esse Reino o primeiro interessado em colher benefícios dos bons resultados que viessem a ser obtidos. Saíram esses documentos do génio do britânico Charles Landseer (Londres, 1799-1879), incumbido oficialmente de assim perpetuar o que via vendo e lhe parecia deveras significativo (não havia, ainda, a fotografia…).
            Esse, o primeiro aspecto, portanto: a selecção feita pelo artista, sintoma evidente da sua mentalidade, da sua cultura e, até, da sua vontade de intervir.
            Depois, a excepcional beleza do minucioso traço e do ténue colorido – que quase milagrosamente assim chegou até nós.
            Em terceiro lugar, ainda que sempre se possa especular acerca de um ou outro pormenor, onde, naturalmente, o artista quiçá deu azo à sua imaginação, a missão de que fora incumbido decerto o obrigou a ser o mais rigoroso possível, quando se dispôs a passar ao papel o que presenciava – paisagens, edifícios, pessoas… Por conseguinte, a cena do escravo a ser flagelado é bem capaz de mesmo assim então se passar habitualmente; a mole da Torre de Belém, vista aqui de um ângulo a que não estamos habituados, ou seja, de poente para nascente, tendo ao fundo a margem esquerda do Tejo, vai também merecer, decerto, alguma reflexão por parte dos historiadores de arte (se é que não a mereceu já), porque há pormenores aí bem diversos do que hoje nela se enxerga; o instantâneo dos aguadeiros junto a um dos chafarizes de Lisboa documenta uma actividade bem conhecida, mas elucida melhor que qualquer descrição de como eram os trajos, os pipos, a afluência…
            Houve, finalmente, por parte do Instituto Moreira Salles, a preocupação de preparar, sob proficiente organização de Leslie Bethel, exaustivo catálogo dos mais de 300 desenhos e aguarelas. Desse extraordinário volume ora se fez «réplica», não menos elucidativa e aliciante: o breve catálogo editado pela Fundação D. Luís I, com textos dos intervenientes no processo e reproduções, numa concepção de Nuno Lemos e Rita Ribeiro da Silva (ISBN: 978-972-8986-67-4).
            Trata-se, consequentemente, de bem valiosa iniciativa.
             Muito concorrida a inauguração, no final da tarde do dia 20 de Setembro. Além dos anfitriões (responsáveis pela Fundação), esteve o presidente da Câmara Municipal, que acompanhou na visita o Comissário do Ano de Portugal no Brasil, Horta e Costa, a Presidente da Espírito Santo Cultura, Maria João Bustorff, o embaixador do Brasil em Portugal (Mário Vilalva) e o director executivo do Instituto Moreira Salles (Raul Manuel Alves).
            No final, foi servido um beberete no pátio interior do Centro Cultural.
            A exposição estará patente de terça a domingo, das 10 às 18 horas, até 27 de Janeiro.

Publicado na edição de 2-10-2012 do Cyberjornal: