terça-feira, 23 de outubro de 2012

Carcavelos em semana de aniversário

            Iniciaram-se no sábado, 20, os festejos que, até dia 27, vão assinalar o «Dia de Carcavelos».
A partir das 17 horas, no salão da sede da Junta, bem recheado de público, a presidente da Assembleia de Freguesia, Isabel Feio, deu as boas-vindas. Jorge Castro apresentou depois o II volume da obra Carcavelos dos Cinco Sentidos, cuja edição coordenou, um livro que reúne, nas suas 276 páginas, depoimentos sobre os mais diversos aspectos da freguesia: personalidades, história(s), acontecimentos, pessoas, lugares…
A presidente da Junta, Isilda da Silva, traçou depois um panorama das actividades concretizadas, referindo, de modo especial, a reabilitação que o Município levou a efeito no emblemático edifício da Moagem de Carcavelos e o facto de as instalações do antigo Hospital Ortopédico António José de Almeida irem ser aproveitadas para nelas funcionar o Centro de Saúde.
Em representação do presidente da Câmara, esteve o vereador Nuno Piteira Lopes, que se congratulou com o trabalho que a freguesia tem desenvolvido em prol da população, tendo, na circunstância, obsequiado a Junta com a oferta do livro sobre os Paços do Concelho, A Casa dos Azulejos.
Seguiu-se um momento musical que não ultrapassou os 45 minutos, mas que encantou a assistência, pois um Trio Scherzo português interpretou, com maestria e bem sugestivos arranjos, nove (mais um) breves trechos musicais. Muito aplaudidos, por exemplo, «Tritsch – Tratsch – Polka» de Johann Strauss, e o «Livertango», de Astor Piazzola, em que foi notável o virtuosismo da pianista Mercedes Cabanach, que se fez acompanhar de Luís Sá Pessoa, ao violoncelo, e José Pereira, no violino. Esses, aliás, os componentes do trio.
Dentre as personalidades presentes na sessão, refiram-se – para além dos membros do Executivo e da Assembleia de Freguesia – os vereadores Ana Clara Justino (da Cultura) e Frederico Pinho de Almeida (Acção Social) e o presidente da Junta de Freguesia de S. Domingos de Rana, Manuel Mendes.
Seguiu-se, na Sociedade Musical e Recreativa de Carcavelos, a abertura da exposição de artes plásticas, denominada Bienal de Carcavelos, que reuniu 54 obras de 54 artistas, a maior parte deles ligados a Carcavelos. Uma exposição para todos os gostos, a dar cor e beleza ao salão de entrada da colectividade, visitável até dia 27, das 16h00 às 20h00.
O programa dos festejos inclui(u) os mais diversos actos no decorrer da semana, desde a missa campal celebrada por Sua Eminência o Cardeal-Patriarca de Lisboa (no domingo, 21) até, por exemplo, uma noite de fados na terça-feira, 23. Consulte-se, para o efeito, http://www.jf-carcavelos.pt/page_text.asp?ID=187&categoria=Caixa2 .

Publicado na edição de 2012-10-22 de Cyberjornal:

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A sedução dos bichos-da-seda

            Os que andámos na Escola nas décadas de 50 ou mesmo 60 recordamos, sem dúvida, que, a determinado momento, não se sabia muito bem porquê nem como, começava a época do berlinde, depois a do pião (ou vice-versa), e assim ocupávamos o nosso tempo de recreio a jogar ao «bias» em covas improvisadas, ou a procurar «rachar lenha» no pião do colega, enquanto as meninas saltavam ao eixo ou jogavam à macaca.
            Havia, porém, um outro entretenimento, que interessava ambos os sexos: a criação de bichos-da-seda, uma dor de cabeça para os pais que tinha de dar tratos à imaginação para descobrirem onde havia amoreiras para ter as folhas de que as lagartas se alimentavam.
            Lá estavam elas nas caixas de sapatos que iam e vinham de casa para a escola, «quantas tens?», «dá-me uma folhinha!»… E era toda uma aprendizagem: como é que uma lagarta, a determinado momento, amuava, desatava a tecer um casulo, se escondia lá dentro meses a fio e, um belo dia, saía de lá uma borboleta, que importava não deixar fugir, para que ali mesmo pusesse os ovos, donde sairiam futuras lagartas… Um ciclo de vida, em que apenas a morte era aparente e a esperança numa ressurreição se mantinha sempre bem viva!
            Tínhamos a ideia (a professora explicava) que dos casulos, sujeitos a determinados tratamentos, se poderiam obter fios de seda, a matéria-prima de que se urdiam tecidos ricos, com que outrora os Chineses faziam fortunas e até havia uma «rota da seda», pela qual andou, se não erro, um tal de Marco Pólo!...
            Porque me lembrei agora, passados 50 anos, desses tempos de infância? Porque, ao ler um trecho sobre Bernardino Machado, vi que legislara sobre a criação de bichos-da-seda e, consequentemente, do apoio a dar, no nosso País, à produção de seda. E recordei de imediato que, no âmbito da recuperação do património local, a Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros, por exemplo, lançara, na década de 90, o programa «Os Caminhos da Seda», que incluiu o projecto do Centro Interpretativo do Real Filatório, de Chacim, nascido no reinado de D. Maria I.
A crise vai fazer-nos regressar à terra. Talvez se regresse também à seda – porque não?

Publicado no quinzenário Renascimento (Mangualde), nº 602, 15-10-2012, p. 4.

 

 

Aculturação linguística

             Como epigrafista, amiúde me debruço sobre o resultado do contacto entre povos de falas diferentes. A oralidade desempenha aí um papel primordial e não vale a pena, com frequência, arranjarmos explicações eruditas, etimologias rebuscadas, significados obscuros. Ouvia-se, pronunciava-se como Deus era servido, escrevia-se como soava melhor!
O caso dos emigrantes portugueses em França pode servir-nos de bom exemplo, quando, vindos de férias, decidem falar connosco na sua – e nossa – língua materna. E saem, por vezes, frases deveras curiosas, só perceptíveis, afinal, no seu contexto e só explicáveis por quem das duas línguas conhece um pouco.
Ora vejam-se estes exemplos:
– Uma tia muito atachada, para significar muito dedicada, de grande ligação afectiva (do francês attachée).
– Salmão verdadeiro? Tira daí o pensamento! Agora é tudo de elevagem (do francês élévage, criação em viveiro).
– Montámos o Douro (de monter, subir).
– Prendemos o autocarro (de prendre, apanhar, tomar).
 
Publicado no mensário VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 165 (Outubro 2012) p. 10.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

«Beba água da torneira!»

            13.15 horas, 21-09-2012. O senhor, de cabelo grisalho, ao passar no corredor da carruagem, verifica que uma senhora está a beber água duma garrafinha de marca.
            – A senhora não beba dessa água!… Quantos anos tem?... 50?... Se quer viver mais 50, não beba dessa água, beba água da torneira!
            Não consegui ouvir contar das aldrabices que, em seu entender, envolviam o negócio das águas engarrafadas; entretanto, chegámos ao Monte Estoril e a senhora saiu.
            Também nós cá em casa éramos partidários da «água da torneira». Defensores incondicionais, até que sucederam dois casos.
            O primeiro: terem detectado os fiscais da Águas de Cascais uma rotura no cano que, da boca-de-incêndio, levava ao meu contador. O cano estava na base do muro do quintal e, por isso, disseram-me (nada foi comunicado por escrito, registe-se) que eu tinha de mandar reparar a rotura e, caso não fizesse tal diligência dentro de quinze dias (pareceu-me que foi quinze dias…), corria sério risco de me virem cortar o abastecimento. A mim a rotura não me preocupava nada, porque quem estava a perder era a Águas de Cascais, uma empresa privada. Não quis, porém, criar conflitos e, dolorosamente, lá paguei ao canalizador e ao pedreiro e os telefonemas vários que tive de fazer para virem fechar a água, para virem inspeccionar, para virem abrir…
            Confesso, todavia, que me assustei ao ver o estado lastimoso em que se encontrava o cano por onde, até essa altura e desde a década de 60, passava a água que a família bebia, crianças e adultos. Chamar àquilo ferrugem seria usar um termo delicado.
            Há semanas (é o outro caso), uma vizinha apercebeu-se de que deveria haver uma fuga de água junto ao seu portão. Cidadã como é, telefonou para a Águas de Cascais. Vieram uns senhores, confirmaram, abriram vala, puseram nova manilha de junção, uma torneira e… abalaram, sem tugir nem mugir. Passaram uns dias e tudo continuava na mesma: a rotura, acrescida dos naturais inconvenientes de um passeio inutilizado por onde passam os utentes da clínica próxima, crianças, um carrinho de deficiente, as pessoas, enfim!... Tirei-me de cuidados e, com esta mania – que cada vez vou tendo menos, confesso… – de ser cidadão interveniente, contactei a Águas de Cascais. E vim a saber que era à proprietária que competia agora continuar o arranjo e suster a rotura (que, repita-se, a ela nada incomodava enquanto rotura, porque quem estava a perder era a Águas de Cascais). Pasmei! «Então e ninguém diz nada? Ninguém informa? Ninguém explica em que lei se baseia para imputar à senhora os custos da reparação de uma rotura antes, até, da boca-de-incêndio?». «É assim». É assim. Perante o perigo para os transeuntes, optámos por mandar fazer a obra. Pagamentos aos pedreiros, ao canalizador, telefonemas… Ainda se apelou para a companhia de seguros. Ná! O agente dos seguros foi peremptório: «A rotura aconteceu antes do contador; por sinal, até antes da boca-de-incêndio e, portanto, é à Águas de Cascais que compete o pagamento!». Desistimos, porque com a Águas de Cascais, já sabíamos, não vale a pena dialogar. É assim e… prontos!
            O mais interessante foi o que vimos e essa a razão primordial desta nota: o interior do cano que ligava à boca-de-incêndio era uma ferrugem pegada!... Por ali passava, pois, a água que se bebia! Ficámos horrorizados.
E, por muito que me custe, não dou razão ao senhor de cabelos brancos (como eu), que, às 13.15 horas do dia 21 de Setembro do ano da graça de 2012, incitava a passageira sua desconhecida a beber água da torneira.

Publicado em Jornal de Cascais, nº 323, 10.10.2012, p. 6.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

«Perspectivas da Natureza», um concurso notável

      É a sexta vez que o nosso prezado colega Correio da Linha, que se publica em Oeiras e que é dirigido por Paulo Pimenta, reúne uma série de vontades (leia-se: patrocínios) para lograr dar corpo a uma iniciativa deveras notável e de louvar.
      Desafia os leitores (profissionais e amadores com idade superior a 16 anos) para, de máquina em punho, irem captando instantâneos do nosso viver, do ambiente em que nos é dado movimentar-nos. O tema deste concurso era mesmo esse: «Perspectivas da Natureza».
Até ao passado 29 de Janeiro, cada participante pôde concorrer com (até) três fotografias, havendo inclusive a possibilidade de dois ou três elementos da mesma família participarem, habilitando-se assim ao «Prémio Família». Foram 118 os participantes, 331 as fotografias recebidas, 14 as famílias que concorreram.
Entretanto, fez-se a escolha, montaram-se exposições… Cada uma das 10 empresas patrocinadoras seleccionou a “sua” fotografia; e houve, para além disso, 5 fotografias premiadas para o 1º lugar e 5 para o 2º.
E o livrinho, de 88 páginas, com tiragem de 3500 exemplares, reproduzindo as fotos vencedoras, fazendo-se eco dos depoimentos dos patrocinadores e mostrando uma selecção das fotografias enviadas, constitui um regalo para a vista, pois, na verdade, há ali verdadeiras obras de arte; ou melhor, ângulos inesperados que nos ensinam a ver melhor e a apreciar as verdadeiras obras de arte que a Natureza nos oferece!

Publicado na edição de 10-10-2012 de Cyberjornal:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=17179&Itemid=30

Um município tem de ter uma revista cultural

      Vem de há muito esta minha ideia de que um município deve pugnar por ter uma revista (anual ou, se possível, semestral), onde se reúnam colaborações dos investigadores sobre temas, os mais variados, que constituem a alma desse Município, a sua história, o retrato das suas características.
      Tem Lisboa Olisipo, revista do Grupo de Amigos de Lisboa; dificuldades financeiras e falta de visão por parte dos serviços culturais da Câmara têm impedido a sua publicação regular. Mantém o município da Guarda a Praça Velha, semestral, que, iniciada em Junho de 1997, publicará este Inverno o seu nº 32. Teve Cascais – com essa finalidade (porque Boca do Inferno, mais literária, ultrapassava os limites do concelho) – o Arquivo de Cascais, cujo 1º número saiu em 1980 e cuja publicação há anos que incompreensivelmente se mantém suspensa. E escrevo «incompreensivelmente» com plena consciência, porque vultosas verbas gastas em edições de luxo poderiam ter deixado cair umas migalhas para uma publicação que não se exige luxuosa, mas prática e útil.
      Vêm estas considerações a propósito do volume 37 (2011) dos Anais do Município de Faro, precisamente uma dessas revistas que, nascida há 42 anos (!) sob orientação de um professor primário entusiasta pela cidade (a sua historia, as suas gentes…), o Prof. Pinheiro e Rosa, tem hoje à sua frente um outro algarvio, o Doutor Joaquim Romero de Magalhães, catedrático da Universidade de Coimbra, filho do saudoso Prof. Joaquim Magalhães, o ‘descobridor’ de António Aleixo.
      E antes mesmo de darmos conta do conteúdo deste número da revista (que tem a iniciá-lo a mensagem do presidente da autarquia), aplauda-se o entusiasmo com que Romero de Magalhães, na Apresentação, solicita a quantos queiram enviar para a revista histórias doutros tempos, para assim se fazerem reviver espaços e gentes, para assim a cidade preservar a sua memória! Excelente ideia!
      De apresentação gráfica magnífica (bem sugestiva a capa, a cores, a mostrar um dos monumentos mais significativos da cidade, a sua sé), ISSN 0871-0872, 248 páginas ilustradas. Mui oportunos os separadores, com fotos antigas.
      João Pedro Bernardes, arqueólogo, docente da Universidade do Algarve, traça uma panorâmica do que terá sido o território da Ossonoba romana (p. 11-26). António Rosa Mendes, também da Universidade do Algarve, evoca a obra de D. Inácio de Santa Teresa (1741-1751), um «bispo reformador» (p. 27-37). Em tempos ainda de evocação do centenário da República, Jorge Filipe M. da Palma (investigador da história local) dá conta da toponímia deixada pela I República em Loulé (p. 39-67) E ainda no mesmo rumo histórico, Aurélio Nuno Cabrita (investigador) tece considerações acerca da visita feita pelo presidente Sidónio Pais ao Algarve (p. 69-140). Prossegue-se na história, porque Artur Ângelo Barracosa Mendonça (professor e investigador) vasculhou a imprensa algarvia e esclarece-nos como é que ali se viu a revolta do 28 de Maio (p. 141-220). Olhão, vila cubista, sempre sedutora na sua branca arquitectura geométrica, seduziu Andreia Fidalgo que escreveu (p. 221-242) sobre as açoteias, os mirantes, os contramirantes, uma ‘inerudita arquitectura’, convenhamos, mas que não deixa de ter o seu encanto e oxalá as entidades locais a saibam preservar na sua autenticidade e tipicismo. «A Estrada da Senhora da Saúde» (p. 243-247), do escritor José Matos Guita, inicia esse ciclo evocativo de que atrás se falava e que Romero de Magalhães mui oportunamente deseja ver continuado.
      E aqui está, pois, um bom exemplo de publicação cultural local! Parabéns!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Um vade-mécum oportuno e útil

            Tem-se uma dúvida e, hoje, os mais habituados ao manuseio da Internet precipitam-se para o computador, escolhem o motor de busca e, num ápice, se a questão tiver sido posta em termos eficientes e eficazes, a resposta aí está, ao alcance de um clique!
            Dir-se-ia, por conseguinte, que de outras enciclopédias e dicionários se não careceria.
            É, porém, essa uma consulta efémera: depressa a ela se acede, depressa o seu resultado se esvai, porque não se imprime numa folha ou, se se imprime, acaba a informação por perder-se, uma vez que nem sempre sabemos exactamente onde a iremos guardar.
            Mantém Aurora Martins Madaleno, desde Abril de 2002, no mensário VilAdentro, da paróquia de S. Brás de Alportel, a rubrica «Quem pergunta quer saber». Fruto da auscultação atenta das questões levantadas no dia-a-dia, revela-se de bem compreensível utilidade para o cidadão comum. Mais útil ainda se dissermos que todas essas respostas simples e claras foram agora transcritas em livro (Quem Pergunta Quer Saber, S. Brás de Alportel, Abril de 2012, ISBN: 978-989-95726-6-9), por iniciativa da Casa de Cultura António Bentes, acedendo a sugestão apresentada pelos alunos da Autora.
            Louve-se, em primeiro lugar, o empenho da Casa de Cultura. Conta já no seu rol mais de uma dezena de edições, a maior parte delas devidas ao labor e ao indesmentível entusiasmo dos irmãos sacerdotes padres José da Cunha Duarte e Afonso da Cunha Duarte, que procuram aliar à sua missão pastoral o gosto por temas da História e do Património locais, em particular, e algarvios em geral. Uma obra de muito louvar, levada a cabo sem apoios significativos, a proporcionar matéria de reflexão, fomentadora de cidadania.
            108 temas, um por página, na sequência cronológica em que foram publicados, devidamente enumerados no índice. Um dos casos em que um segundo índice, por ordem alfabética dos temas, não teria sido despiciendo, para facilitar a consulta. Abarcam enorme diversidade e também por isso – como elucida José da Cunha Duarte no prefácio – são já utilizados por universidades da Terceira Idade.
            Aí se encontra de tudo, dir-se-ia. Que é o orçamento do Estado; que se entende por liberdade religiosa; a que regras deve obedecer o testamento e em que circunstâncias se faz; a proibição de fumar; que questão levanta o casamento realizado no estrangeiro; a usucapião; os padrinhos… Enfim, uma deveras interessante panóplia, em boa hora disponibilizada em livro.                                     

Publicado em Cyberjornal, 07-10-2012:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=17159&Itemid=67