quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Os 27 anos do Costa do Estoril

             No âmbito das actividades previstas para comemorar os 27 anos da sua criação oficial, o Clube Desportivo da Costa do Estoril, sediado em Alapraia, levou a efeito na tarde de domingo, dia 18, uma sessão em que actuaram elementos do Grupo de Teatro «A Muleta», da Associação Cultural Art’Anima Seixal.
            O director do Clube deu as boas-vindas à cerca de meia centena de associados e amigos presentes. Madeira Calado, presidente da assembleia-geral, saudou a todos e de modo especial a representante da Presidente da Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto; informou que se aguardara a presença (prometida) de um(a) representante da Senhora Vereadora da Cultura (a Dra. Ana Clara Justino estivera presente na sessão do dia 16); e deu rápida conta das actividades que o Clube vem desenvolvendo, desde a escola de música residente ao badmington (que já conta com vários campeões), passando pela biodança e as artes marciais, entre outras. Na ocasião, por exemplo, estava patente uma exposição de pintura de Miguel Louro.
            Estivera prevista a apresentação de uma peça de teatro, mas, por motivo de doença de dois dos intérpretes, foi a mesma substituída pela declamação de poemas em jeito de jograis, a que se seguiu o monólogo «Eu sou um livro», interpretado por Joel Lira, um dos dirigentes da Art’Anima. Monólogo deveras interessante, de incitamento à leitura, porque o livro se queixa de estar na estante, esquecido, a apanhar pó: «Eu quero ser mexido e não quero morrer!»…
            Seguiu-se um beberete e o tradicional corte do bolo de aniversário!
            Ao Clube se deseja mais um ano pleno de êxito e de actividades!

Publicado em Cyberjornal, edição de 21-11-2012:

Recebem por abrir e fechar portas?

            Nem a tudo o que se divulga na Internet se deve, naturalmente, dar crédito absoluto. Assim, se puser num motor de busca a expressão «para abrir e fechar as portas», é natural que lhe apareça a passagem de um blogue onde se afirma, sem indicação de fonte, a propósito da greve dos maquinistas do metro, que eles «ainda recebem um subsídio que varia entre 317 e 475,50 euros para abrir e fechar as portas».
            Pode ser que seja verdade. E lembro-me dos porteiros de hotel, fardados a rigor, que abriam as portas aos hóspedes e os acompanhavam à recepção. Lembrei-me logo dos guardas dos parques de estacionamento, que passam ali o dia, sentados, à espera que alguém entre ou saia para eles abrirem as cancelas. Mas isso é, porém, um trabalho específico, com responsabilidade de fiscalização e segurança. Parecia-me que abrir e fechar portas num comboio estaria incluído, sem mais, nas funções do maquinista, embora, confesse, não foi sem um certo calafrio que me apercebi, em Tours (França), que o metro era todo automático e… não tinha sequer condutor!...
            Outra reflexão me suscitou a questão desse eventual pagamento para abrir e fechar portas: o inexistente – ou quase inexistente – hábito de pagar certas actividades culturais, como, por exemplo, as conferências. Explico com dois exemplos:
            – Foi um sururu, à boca pequena, na Faculdade de Letras de Coimbra, quando, aí pelos primórdios da década de 80 (se não erro), um dos docentes, ao ser convidado para ir dar uma conferência, perguntou aos organizadores quanto lhe pagavam. Se alguma vez houvera tal ousadia!... Pedir dinheiro para ir fazer uma conferência!...
            – Um catedrático da Universidade do Minho foi convidado a ir arguir uma prova de agregação à Universidade de Évora. Aceitou, por deferência por quem o convidava; mas nem a sua Universidade nem a de Évora lhe pagaram nada por esse trabalho que era, na verdade, totalmente extra! Nada pela viagem de ida e volta, nada pelo alojamento (as provas de agregação duram dois dias…), nada pelas refeições; e, claro, nada pelo tempo que gastara a ler toda a documentação do agregando e a preparar a arguição de meia hora! Dir-se-á: foi porque quis. Sim, poderia não ter aceitado. Não esperava, porém, era esse tratamento e, por isso, para a próxima vez… já não aceita!

Publicado no quinzenário Renascimento (Mangualde), nº 604, 15-11-2012, p. 4.

sábado, 10 de novembro de 2012

Andarilhanças (58)

Apoio ao cliente não é gratuito!
            Fiquei parvo outro dia quando, tendo aderido a um programa em que as chamadas telefónicas para telefones fixos estão incluídas, verifiquei que as chamadas para o serviço de Apoio ao Cliente da operadora eram… pagas! Pasmei e, claro, refilei! Era lá possível! Para que ligo eu para o «apoio ao cliente»? Não é, de certeza, para namorar com o Eduardo, a Joaquina, a Helena ou qualquer uma das operadoras que gentilmente me atendem: é para resolver uma questão relacionada com o serviço que me está a ser prestado, esclarecer uma dúvida, dar uma informação. Por conseguinte, pensava eu, na minha ingenuidade, que tudo isso estaria naturalmente incluído no serviço que a operadora contratara comigo. Não está! Urge que também para isso se faça uma petição ou será que os operadores vão cair em si e deixem de ser exploradores mas sim… servidores?
            Por mim, apelo a que muita gente comece a protestar, como eu.
 
Pontos são pontos com muitos nós!
            Outro assunto em que as operadoras de telecomunicações são pródigas é em oferecerem pontos. Por tudo e por nada, toma lá pontos! E para que servem esses pontos, não me dirão? Outro dia, quis trocar pontos por chamadas do meu telemóvel! Além de me darem uma ninharia (numa operadora, 150 pontos valem 2,5 euros em chamadas, 400 7,5 euros), há, nas tais ‘letras miudinhas’, tantas condicionantes que tornam praticamente inviável a utilização!
            É bem verdade: também as operadoras não dão ponto sem nó!...
 
Antena
            Queixei-me, como muitos outros o terão feito, contra a enormidade de plantarem aquela antena de telecomunicações na marginal, no terreno para oriente do falecido Hotel Atlântico. Uma abantesma! Parece que «tinha de ser», porque estava implantada nesse hotel. Tinha de ser, mas não era obrigatório que fosse assim, a estragar o ambiente visual! Não há hoje meios – e até, para as operadoras, isso seria como que comprar um pacote de amendoins… – de fazerem um arranjo vegetal artificial, a semelhar uma árvore, que encobrisse a estrutura, que, além do mais, é feia até dizer chega? Fez-se isso na orla marítima e toda a gente ficou agradada. Porque não se faz ali?
Dir-me-ão que é coisa temporária. Sim, pois, mas enquanto o pau vai e vem folgam as costas e… estraga-se a paisagem! Eh! Pessoal do Monte Estoril, toca a fazer reclamação!
 
Praia da Azarujinha
Estive na Praia da Azarujinha no passado dia 20 de Outubro. Gostei dos novos arranjos, do acesso poente, dos passadiços. Muito bem! Parabéns!
E não morre a esperança de as instalações de um serviço de bar-restaurante poderem voltar a funcionar. Era simpático!
 
Abrigo
            Foi colocado um abrigo na paragem de autocarros da Rua Carlos Bonvalot, no Cobre (Cascais). Congratulamo-nos. Nenhum abrigo havia no lugar e a paragem é, na verdade, também das mais concorridas. Agradecemos à CMC e à JCDecaux o pronto apoio que foi dado ao pedido dos moradores.
 
Sinalização de passadeiras
            Para além dos pontos luminosos que assinalam, no chão, as passadeiras de peões, algumas outras, mormente em zonas residenciais e perto de escolas ou onde a afluência de peões é grande e a ‘distracção’ dos automobilistas também, acabam de ser iluminados com pontinhos azuis pisca-pisca os próprios sinais. Boa ideia, mormente se pensarmos que são alimentados por placas solares.
 
Rua Mário Clarel
            Inauguradas oficialmente as instalações da Cozinha com Alma, no Bairro da Pampilheira, torna-se necessária uma outra medida (para além do arranque do arranjo do parque anexo, previsto para Janeiro): a regulação do estacionamento, através de marcação horizontal, na anexa Praceta Padre Marçal da Silveira. Estaciona-se, amiudei, a trouxe-mouxe («É só um minutinho!»…) e esquecemo-nos de que há mais quem queira passar, há entrada para garagens, há necessidade de circular em segurança. Também esse arranjo está prometido.
 
Publicado em Jornal de Cascais, nº 325, 07.11.2012, p. 6.

Apresentação de livro encheu Centro Cultural de Cascais

            O auditório do Centro Cultural de Cascais registou ontem, dia 7, uma verdadeira enchente para a apresentação do livro de Carlos Carranca, Casticismo em Unamuno e Torga, livro que constituiu a sua tese de doutoramento em Línguas e Literaturas Modernas, especialidade de Língua, Cultura e Literatura Portuguesas, defendida a 1 de Junho de 2010, na Universidade Autónoma de Lisboa.
Além de muitos amigos e admiradores do intenso trabalho de dinamização cultural que o autor tem desenvolvido quer em Cascais quer em Coimbra, fizeram questão de marcar presença estudantes seus, quer da Escola Profissional de Teatro de Cascais – que inclusive intervieram na interpretação de alguns poemas ditos a propósito – quer da Escola Superior de Educação Almeida Garrett.
Abriu a sessão, em nome de Edições Minerva Coimbra (a editora), a Dra. Isabel Garcia, que pôs em relevo, entre outros, o aspecto gráfico que quisera dar à obra, designadamente as cores adoptadas na capa e no corpo por as considerar bem adaptadas ao pensamento de amor à terra manifestado pelos dois pensadores em análise.
José d’Encarnação (que fora arguente da tese) começou por evocar a memória de dois vultos da Cultura Portuguesa, recentemente desaparecidos e intimamente ligados ao autor: Luiz Goes e o Prof. Justino Mendes de Almeida, (que presidira ao júri de doutoramento). Traçou depois o percurso biográfico do autor, salientando de modo especial o dinamismo em que o Professor Carlos Carranca tem sido exemplar, unindo, através da reflexão e da intervenção cultural, a Escola à Comunidade.
O Professor Eugénio Lisboa, orientador que fora do trabalho académico em apreço, sintetizou a importância da análise que Carlos Carranca fizera do pensamento destes dois poetas peninsulares, ambos de nome Miguel, de referência a um terceiro, o Cervantes do Dom Quixote, mostrando como a noção de casticismo, autenticidade, implica também o dever de ser interveniente no livre exercício de uma cidadania que se quer permanente, crítica e humanista.
Emídio Guerreiro, actual responsável pelo Museu Académico de Coimbra e ligado, também por isso, às homenagens que têm sido prestadas a Miguel Torga, teceu igualmente considerações acerca do trabalho desenvolvido por Carlos Carranca nesta sua grande ligação à Lusa Atenas.
Finalmente, o autor – interrompido logo a princípio por um aluno que saltou para o palco a dizer (portentosamente!) o Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros, que arrancou fartos aplausos da assistência – Carlos Carranca falou longamente dos autores que estudara, de cujas obras chegou a ler significativos extractos e da ideologia que ao pensamento de ambos estava subjacente.
Devido a inesperado contratempo de última hora, a sessão não foi presidida pela vereadora da Cultura, Dra. Ana Clara Justino, como estava previsto (inclusive porque a edição contou também com o apoio da Câmara Municipal de Cascais), de modo que José d’Encarnação encerrou formalmente esta primeira parte da sessão, agradecendo a presença de todos e salientando, mais uma vez, a densidade de conteúdo cultural dos momentos que ali se haviam acabado de viver.
A finalizar, o grupo de intérpretes da canção de Coimbra que normalmente acompanha Carlos Carranca brindou (e deliciou!) a assistência com um breve espectáculo, em que, como era natural, também Luiz Goes não foi esquecido.

Publicado em Cyberjornal, 08-11-012:

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O dia-a-dia falado

            Andam pelos livros, recolhem-se por vezes, transmitem-se de avós para netos… mas, amiúde, a Escola vai ensinando outras frases e as que aprendemos de pequenos ou que então faziam parte do nosso dia-a-dia falado acabam por ir esquecendo, só voltando de novo à superfície (e a Ciência confirma-o…) quando entramos na chamada «terceira idade» e os ditos de infância um dia nos surgem, de repente, vindos nem nós já sabemos bem donde!...
            E infância é mundo onde os animais constituem companhia soberana, mais até do que o resto da família. Cedo aprendemos a chamar «buche, buche, buche!» para o canito vir ter connosco. Ou, então, se há bocadinho de peixe a jeito: «Bichanina, bichanina, biche, biche, biche!...» – e o gatinho lá acorre, pressuroso, a ver o que a gente quer, e sabe que coisa boa deve ser.
            Para se mostrar contente, o bichano não se cansa de dar tarrutas nas pernas do dono; por isso, aliás, um dos primeiros gestos que ensinamos aos nossos bebés: «Tarruuuta! Tarruuuta!...» – e ele inclina a cabeça para bater meigamente na nossa testa. Uma ternura convivial!... Como o é aquela carícia doce, acompanhada de lengalenga, de que cada qual cria uma versão, fazendo uma festinha ora numa ora noutra das faces do bebé, terminando em jeito de pancadinha amorosa: «Bichanina gato, que comeste tu? – Sopinhas de mel! – E não me guardaste? Maroto, maroto, maroto!»… E tudo se desdobra em gargalhada sorridente!...

Publicado no mensário VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 166 (Novembro 2012) p. 10.

 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Imposto sobre a saudade

            São muitos – sabe-se – os jovens que ora saem do País, buscando noutros os meios de sobrevivência que o paradigma político-económico vigente na Europa lhes nega e continuará a negar enquanto não houver força bastante – como a houve na Islândia – para o liquidar de vez.
O caso dos 24 enfermeiros que partiram para o Reino Unido, com contrato de trabalho, porque não encontraram aqui colocação, teve, porém, honras de relevante notícia. Vi-a no telejornal de 18 de Outubro, p. p., e no do dia seguinte e já recebi, pela Internet, cópia da carta que o Pedro Miguel ousou escrever à Presidência da República. E, nela, entre outras muitas verdades fortes como punhos, uma passagem houve que me pôs um nó na garganta e, por largos momentos, nem consegui articular palavra:
«Por favor, não crie um imposto sobre as lágrimas e muito menos sobre a saudade. Permita-me chorar, odiar este país por minutos que sejam, por não me permitir viver no meu país, trabalhar no meu país, envelhecer no meu país. Permita-me sentir falta do cheiro a mar, do sol, da comida, dos campos da minha aldeia. Permita-me, sim? E verá que nos meus olhos haverá saudade e a esperança de um dia aqui voltar, voltar à minha terra».
Só quem não viveu fora de Portugal, por apenas quinze dias seguidos que fosse, é que não compreende o que significam estas palavras, o que elas doem, o que é esta «falta do cheiro a mar»…
Sim, só nos faltava criarem esse imposto! E não me admiraria se, um dia, tecnocratas pensassem nisso, eles que só têm olhos para as colunas do deve e do haver.
De tal modo que nem sequer repararam na Mónica, que disse quanto lhe custava ver que o Estado português investira na sua formação e agora, que ela estava disposta a retribuir, vai retribuir para outro lado, porque não tem possibilidade de o fazer aqui. Esta é uma coluna do deve e do haver que não entra nos gráficos, porque quem os faz nem sequer disso se lembra, tão obcecado está com outros horizontes.
Pedro, tu podes chorar! Podes ter saudades! Não deixaremos que também nos roubem essa possibilidade. E dá de nós um bom testemunho; de nós, Povo, dos teus familiares, dos que te ensinaram a ter espírito crítico e coragem de escrever o que escreveste. Estamos-te todos muito gratos, acredita!

Publicado no quinzenário Renascimento (Mangualde), nº 603, 01-11-2012, p. 4.

domingo, 4 de novembro de 2012

Retrato de um sentir feminino

            Não é apenas Agatha Christie que tem razão quando afirmou que o marido continuaria a gostar dela porque, sendo arqueólogo, gostava das «coisas velhas»; também parece verificar-se como verdadeira a realidade de o arqueólogo, a determinado momento, também se sentir poeta. É, sem dúvida, esse contacto maior com a Natureza, a terra que lhe passa pelas mãos, os objectos que vai exumando, esse diálogo com os que, séculos e até milénios atrás, por ali andaram e deles se encontram os vestígios...
            São, pois, vários os arqueólogos portugueses que publicam livros de poesia. Eu tenho-me na pele (fraca) de arqueólogo, não sou poeta, mas gosto de escrever e, sobretudo, de dar a conhecer o que de interessante outros escrevem.
            Atrevi-me, em 2004, a tecer considerações sobre livro de poemas de um arqueólogo ilustre e enviei-lhe previamente o texto, na intenção de que ele diligenciasse, se achasse bem, para a sua publicação num jornal local. No que eu me fui meter! Desancou-me o senhor de cima a baixo, porque eu não percebera da sua poesia. Remeteu-me para outros livros seus, para eu (só depois!) me poder abalançar a fazer uma apreciação crítica válida a este. Precisava de ter lido todos os outros e Fulano (nome de um professor igualmente ilustre como ele) é que compreendia bem «o profundo» da sua poesia: «Acho que é importante perceber o mais profundo da minha poesia, e por isso também é preciso ler os outros meus livros…».
            Agradeci-lhe o atestado da minha burrice e guardo religiosamente, qual autógrafo, os seus comentários manuscritos ao texto dactilografado que eu lhe remetera.
Sou, porém, reincidente e ouso, por isso dar conta de uma outra iniciativa congénere: de uma arqueóloga que também decidiu passar a escrito o que, ao longo dos tempos, lhe foi passando na alma, espécie de retrato de um sentir feminino.

À Flor da Pele
O livro À Flor da Pele, da autoria de Ana Alexandra Luz Resende, publicado em papel e em formato digital por Corpos Editora (nº XIII da Colecção Wordl Art Friends: www.worldartfriends.com) foi apresentado na Biblioteca Municipal de Loulé pela Dra. Idália Farinho, louletana dos quatro costados, poetisa e grande estudiosa dos costumes e das manifestações literárias do Povo.
A autora vive em Loulé há vários anos e propôs-se mostrar, neste seu primeiro livro, «o sentir feminino da adolescência à maturidade». Quer isso significar, antes de mais, que se trata de uma ‘compilação’ (como a autora a designa) do que foi escrevendo. Ainda que não datados e certamente não incorporados aqui por ordem cronológica, sente-se que há sonhadora adolescência, em que se é «beijo de rosas / que se requebra / sob o hálito do orvalho», e há a experiência da maturidade, patente, por exemplo, logo na dedicatória «a todos aqueles que ainda têm a coragem de deixar fluir a alma à flor da pele num mundo agredido pela indiferença» – e esta frase constitui, sem dúvida, não apenas a razão de ser do título, mas também a vontade de, através do lirismo, por exemplo, da entrega à pessoa amada e da dedicação aos outros, se lutar contra a indiferença generalizada: «Menino da rua! / Criança perdida / Rumando sozinho / na estrada da vida!».
E, pelo caminho, vão-se retratando as angústias («Quero ser uma rosa e sou um espinho»; os desânimos: «Que esta porta que se fecha / Nunca mais se abrirá»; as ternuras: «Como o mar que se deita com a areia e lhe segreda ao ouvido»; os murmúrios de um pesar: «Pena de quem vive a vida a fugir»; os amores que se desejam eternos: «Mas se só um dia mais bastasse / Para se ter o que se quer de tal maneira / Que esse dia então jamais cessasse / Ou calasse o tempo a vida inteira!»; os vazios: «Beijas os meus lábios mas não sentes meu sabor!»…
Um livro, enfim, para ter na mesa-de-cabeceira. 51 poemas a saborear de vez em quando, antes de adormecer, a deixar-se enlevar na melodia das palavras, em jeito de meditação quotidiana de uma vida que queremos agarrar com ambas as mãos.

Publicado em Cyberjornal, edição de 4-11-2012:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=17315&Itemid=30