segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Faleceu Jürgen Untermann, um grande estudioso das línguas paleo-hispânicas


          Faleceu, na quinta-feira, dia 7, serenamente, ao começo da tarde, em sua casa, em Pulheim, na Alemanha, com 84 anos de idade (24-10-1928 / 07-02-2013), o Prof. Jürgen Untermann, eminente linguista que dedicou toda a sua vida ao estudo das línguas pré-romanas da Península Ibérica. Esteve, naturalmente, por diversas vezes em Portugal, tendo-se interessado muitíssimo quer pelos textos aqui encontrados em língua dita «lusitana» quer, de modo especial, pela chamada «escrita do Sudoeste», exarada em estelas identificadas no Sudoeste peninsular, designadamente no Alentejo e no Algarve.
Para além do seu saber e do seu intenso labor científico, Untermann irradiava em torno de si, desde o primeiro momento, uma enorme simpatia e sempre teve o condão de formar discípulos e de fazer interessar muitos pela investigação a que de alma e coração se dedicou. Era o Amigo, o Professor atento e interrogante, que lançava hipóteses com uma humildade imensa, na perspectiva de contribuir para o avanço do conhecimento mas jamais com a pretensão de se apresentar como o ‘depositário único’ desse conhecimento. Educava para a liberdade crítica, judiciosa e serena.
Um dos seus primeiros trabalhos, Elementos de un Atlas Antroponímico de la Hispania Antigua (Madrid, 1965), é citado ainda hoje como obra de referência, pois que, embora se tenham multiplicado muito os testemunhos dos antropónimos aí tratados, o certo é que permanecem válidas as conclusões retiradas já nesse longínquo 1965 em relação, por exemplo, às influências detectadas com vista à determinação de áreas linguísticas.
Foi um dos grandes motores dos colóquios sobre línguas e culturas paleo-hispânicas, a cuja comissão coordenadora, de cariz internacional, presidiu durante longos anos e só a pouca disponibilidade para fazer viagens é que o impossibilitou de estar fisicamente presente no XI Coloquio Internacional de Lenguas y Culturas Prerromanas de la Península Ibérica, que se realizou em Valência, de 24 a 27 de Outubro, p. p.
Importância marcante teve a sua obra monumental, os Monumenta Linguarum Hispanicarum, publicados em Wiesbaden, o I volume em 1975 e o IV, em 1997 (Band IV. Die tartessischen. keltiberischen und lusitanischen Inschriften). Logrou ainda terminar o último, dedicado à toponímia.
Tivemos, em 1993, já lá vão dez anos, a oportunidade de o homenagear – com o volume «Novedades y correciones en la teonimia galaica. Studia paleohispanica et indogermanica J. Untermann ab amicis hispanicis oblata», publicado em Barcelona. Mas não há dúvida que a nossa maior homenagem será, para os crentes, elevar por ele uma prece; e, para todos, saber colher o exemplo da sua abnegada vida.
Como escreveu o Prof. Javier de Hoz, actual presidente da atrás referida comissão, «hasta el último momento ha sido un gran hombre y un gran sabio y nuestros estudios se quedan un poco huérfanos. Tendremos que pensar en cómo dedicarle en España un recuerdo que nunca será el último.».
Que descanse em paz!

O casal Untermann, em sua casa de Pulheim, com o epigrafista romeno Ioan Piso (Maio de 2012) [gentileza de I. Piso]
 
Publicado no Cyberjornal, edição de 10 de Fevereiro de 2013:

 

Misericórdias do distrito de Lisboa cerram fileiras!

            Tomou posse, no dia 6, na Residência Sénior de Alcoitão, o novo Secretariado Regional de Lisboa da União das Misericórdias Portuguesas. Preside a Provedora da Santa Casa da Misericórdia de Cascais, Dra. Isabel Miguens Bouças, secretariada por Cristina Farinha Ferreira (Misericórdia da Amadora) e Vasco Fernandes (Misericórdia de Torres Vedras).
O acto de posse decorreu numa reunião para que haviam sido convidados os provedores das 22 misericórdias do distrito e que contou com a presença de Manuel Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas e de Carlos Andrade, também ele dos corpos directivos da UMP. Manuel de Lemos saudou o novo secretariado e aproveitou o ensejo não apenas para salientar o importante papel que o secretariado de Lisboa sempre tem desempenhado no seio da UMP (inclusive dada a proximidade dos centos de poder), mas também para corroborar a flagrante actualidade das directrizes que Isabel Miguens apontara como metas a atingir, em campos de tamanha relevância como o da sustentabilidade / fiscalidade, do envelhecimento / saúde e da educação (campo este, ou não, em que as misericórdias têm uma palavra a dizer? – perguntou-se).
O momento era de reflexão, sublinhou Manuel de Lemos, com vista a se concretizarem estratégias comuns, em parceria, numa procura incessante de concentração de meios, a fim de mais facilmente se superarem os obstáculos (por exemplo, os que uma legislação ‘cega’ e desgarrada da realidade airosamente levanta) e se atingirem objectivos. Na verdade, só uma política de pés “assentes na terra”, no sábio aproveitamento de todos os recursos disponíveis – e há que concorrer a eles (foi repetidamente encorajado), permitirá, com imaginação, alimentar a esperança.
Houve, pois, oportuna troca de impressões, donde ressaltou, entre outras, a necessidade, inclusive, de se criarem grupos de trabalho capazes de apresentar propostas nos domínios em que as misericórdias desempenham um papel imprescindível para o equilíbrio social quotidiano: a saúde, a assistência, a educação… Creches, jardins-de-infância, ATLs, lares, apoio domiciliário, cuidados continuados são, de facto, sectores onde o papel do Estado é (tem sido!) manifestamente deficiente!
Frederico Pinho de Almeida, vereador da Acção Social da CMC, teve, no final, palavras de encorajamento, salientando quanto o Município de Cascais estava consciente dos problemas abordados e referindo as soluções que já aqui estavam em marcha.
Seguiu-se um jantar de confraternização, servido pelo Bom Apetite, organismo da Santa Casa da Misericórdia de Cascais que confecciona e vende refeições a preços módicos. E foi oferecido a todos os presentes um brinde expressamente executado para o efeito por utentes do Centro de Apoio Social do Pisão (a antiga «Mitra»), organismo do Instituto da Segurança Social gerido pela Misericórdia de Cascais desde 2 de Fevereiro de 1985 e «que acolhe em regime de internamento adultos com patologia psiquiátrica de ambos os sexos, cujo quadro psicossocial requer cuidados básicos de subsistência e de saúde integral que engloba aspectos físicos, psíquicos, sociais, ocupacionais e de reabilitação». Foi também essa uma forma simpática de se mostrar a actividade, nem sempre fácil, que ali está a ser desenvolvida.
Publicado em Cyberjornal, edição de 10 de Fevereiro de 2013:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=17837&Itemid=67


domingo, 10 de fevereiro de 2013

Querem obrigar a guias de transporte

            Na sanha legislativa que atacou os governos europeus e que rapidamente se pegou, qual epidemia, a Portugal, há agora a peregrina ideia de obrigar a terem guias de transporte – como se de vulgar mercadoria se tratasse – as carrinhas das instituições de solidariedade social que levam comida, por exemplo, a idosos, no âmbito de programas de Apoio Domiciliário.
            Amiúde realizadas por voluntários, essas deslocações têm de ser feitas na hora, cumprindo horários, privilegiando o carinho, a abnegação, a vontade de bem servir quem é carenciado. Cumprem, no fundo, um serviço que ao Estado competia em prol dos seus cidadãos desprotegidos. Em vez disso, não! A sanha maníaco-depressiva de quem giza as leis considera que as guias de transporte são de importância vital para o País, a fim de… sabe-se lá porquê! Só porque… é de lei! «De lei?» E que autoridade têm esses senhores, que manipulam as leis a seu bel-prazer e para quem hoje é verde o que amanhã juram a pés juntos ser amarelo, que autoridade têm para impor mais sacrifícios a quem, com tamanha abnegação e tanta ‘ginástica’ económica e de gestão do seu tempo, cumpre esse dever social?
            «Perdoai-lhes, Senhor, que não sabem o que fazem!», apetece repetir com o Messias!
                                                                                
Publicado em Cyberjonal, Edição de 09-02-2013:

Nota: O cartoon é da autoria de César Cardoso Jr. e foi publicado no Cyberjornal, na sua edição de hoje, dia 10.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Formação, vocação e inovação turísticas

             Como todos os profissionais, também o agente turístico, qualquer que seja a actividade a desenvolver, se vê diariamente confrontado com estas duas imprescindíveis realidades: formação e inovação.
            «Formação» não significa «dar forma», tal qual o oleiro molda um boneco e ele assim fica, estático; o conceito é, ao invés, dinâmico, implica actualização permanente, porque permanente é a alteração quotidiana das conjunturas em que somos chamados a actuar.
            Nesse sentido, formação consubstancia em si duas vertentes: a aparentemente passiva, de aquisição de conhecimentos, mormente através de leituras e de humilde aprendizagem com os mais experientes; e a activa, que parte fundamentalmente da iniciativa de cada um, da sua vontade de saber mais.
E entra aqui uma outra palavra, amiúde esquecida, que desempenha uma função primordial: a vocação! Se o «agente turístico» não se sente bem na sua pele; se não tem propensão para fazer apreciar a Natureza, o Património Cultural nas suas múltiplas manifestações; se “viagem” para conhecer gentes, novos costumes e novos horizontes não exerce sobre ele particular fascínio – o melhor é procurar outra ocupação, porque não se encontra suficientemente  motivado e será um fracasso.
            Com essa dinâmica se prende a inovação. Quando, no colóquio «Turismo em Portugal. Passado. Presente. Que Futuro?», realizado, a 8 de Maio deste ano de 2012, na Escola Superior de Turismo e Hotelaria do Estoril, por iniciativa da Fundação António Quadros, Armando Rocha falou que importa oferecer emoções e José Guilherme Victorino recordou, ao evocar a acção de António Ferro, a sua frase «Quando o hóspede deixar de ser mencionado pelo seu nome, a pousada perde o seu significado», senti que, inclusive atendendo às mais recentes experiências vividas, por aí se tinha de caminhar.
No livro O Principezinho, de Saint-Éxupéry, a raposa insiste: «Cativa-me! Porque, se me cativares, eu deixarei de ser para ti uma raposa e passarei a ser a raposa». O agente turístico carece de seguir essa lição: inovar para cativar, para que a sua actividade, as suas iniciativas, o seu empreendimento não sejam mais um, mas assumam para o cliente o carácter de singularidade, que... cativa! Como se, da jarra do corredor do hotel onde te encontras hospedado, te convidassem a pegar livremente numa flor e gentilmente a oferecesses, como tua, à pessoa amada!...
                                                                                 
Publicado em: Abranja, N., Alcântara, A. A., Carneiro, I. Coelhoso, F., Ferreira, R. V., Marques, A. P., Pereira, A. C. & Teixeira, D. (Eds), Turismo Formação e Inovação. Mangualde: Edições Pedago, 2012, p. 32.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Milhares de páginas inéditas de um escritor neo-realista perseguido no Estado Novo entregues à Faculdade de Letras de Coimbra





        O espólio do escritor Joaquim Ferrer vai ser entregue à Faculdade de Letras – Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas, da Universidade de Coimbra. O acto de entrega está previsto para o próximo dia 7, quinta-feira, pelas 14h30, na Sala dos Conselhos daquela Faculdade. Na circunstância, usará da palavra o Doutor Carlos Reis, que apresentará Joaquim Ferrer e a sua obra.
A notícia, dada desta forma, até pode passar despercebida, que é como quem diz: «Mais um que não sabe onde pôr os livros!». Contudo, uma leitura mais atenta poderá, afinal, provocar outra reacção, mormente se atentarmos que estamos perante um escritor praticamente desconhecido do actual grande público, mas que se insere na mais lídima corrente do neo-realismo português, tendo sido, por isso, perseguido pela censura de Salazar.
Nasceu Joaquim Falcão Marques Ferrer (de seu nome completo) em Miranda do Corvo, a 29 de Junho de 1914; faleceu em Lisboa, a 18 de Setembro de 1994. Fez os primeiros estudos em Miranda do Corvo, os estudos secundários em Coimbra e Lisboa, e formou-se em Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Ligado sempre ao movimento literário e artístico em Coimbra, Lisboa e, posteriormente, também em Paris, São Paulo e Rio de Janeiro, residiu na Suíça durante dois anos na sua juventude, e publicou, em 1941, o seu primeiro romance, Rampagodos, com capa de António Augusto de Oliveira, onde relata a infância no Portugal rural da época. O livro foi apreendido pela censura, o que muito reduziu a sua circulação; aliás, figura actualmente no rol dos livros raros e proibidos. Publicou, em 1945, com capa de Victor Palla (um conceituado nome na ilustração gráfica), outro romance, Ilha Doida, que retrata a vida num colégio interno e sobre o qual Eduardo Lourenço viria a escrever: «É uma mistura de queirozianismo e de realismo concreto, cru e chão dos nossos neo-realistas».
A situação não era, porém, a mais adequada aos seus propósitos e ideais, pelo que, no ano seguinte (1946) decide mudar-se para França, onde desempenhou funções no consulado português em Paris, até ser dispensado em 1949, por razões políticas.
Como pintor amador, apresentou a primeira exposição de arte abstracta em Portugal na galeria do Diário de Coimbra em 1950, exposição que causou escândalo na época.
Em 1951, partiu para o Brasil em digressão com o TEUC. Não tendo regressado com a Companhia, instalou-se em São Paulo como jornalista do Estado de São Paulo, e dirigiu a revista Atlante, de promoção da cultura luso-brasileira, onde defendeu a criação de uma comunidade de estados de língua portuguesa.
Continuando a escrever e a pintar, mudou-se em 1959 para o Rio de Janeiro, onde permaneceu, até regressar definitivamente a Portugal após o 25 de Abril.
Como alguém sublinhou, ao saudar a publicação, de A Morte Segundo Estácio de Saa (Livros de Portugal, Rio de Janeiro, 1968), «vindo de longo interregno, Joaquim Ferrer regressa à literatura com uma obra lírica», que Vitorino Nemésio não hesitou em qualificar de «raro e belo testemunho do espírito urbano de hoje». Seguir-se-ão, também em poesia, Objectos Recuperados (Sociedade de Expansão Cultural, Lisboa, 1969) e Ornitorrincos (Lisboa, 1970), este último de capa assaz curiosa pelo grafismo espalhado do título, como quem pretende debicar aqui e além…
A Revolução de Abril permitiu-lhe, enfim, respirar fundo; mas não voltou a tentar publicar o que, em prosa e poesia, foi escrevendo ao longo de décadas. Permitiu-lhe, também, ser reintegrado, de modo que o vemos em Lisboa, a trabalhar, a partir de 1976, na Secretaria de Estado da Cultura, no Gabinete de Relações Culturais Externas e no Instituto Português do Livro até 1984, ano em que se aposentou por limite de idade.
Continuou, porém, a escrever; e, por isso, é um vasto espólio de inéditos, dactilografados, em diferentes estados de acabamento que ora vai ser entregue à FLUC pela família: milhares de páginas (‘mais de três metros de estante’, confidenciou-me a Doutora Rita Marnoto, que gentilmente me facultou alguns dos elementos de que me estou a servir) de poesia, um romance, algumas centenas de contos e outras narrativas breves com tópicos da vida rural portuguesa, da vida urbana no Brasil, entre outros temas variados, pensamentos, além de cadernos manuscritos e diversos documentos biográficos do autor.
Não resisto a anexar a esta nota a página dactilografada em que Joaquim Ferrer traça, em pinceladas breves, o que foi a sua vida. No fundo, aquilo que ele gostava que ficássemos a saber dele. Ficamos, no entanto, a saber muito mais, porque – por detrás do que está explícito – há um mundo implícito por desvendar. E estou certo que, nesta descoberta, muitos estudos passarão doravante a ser feitos, a partir dos escritos que nos legou.

Publicado em Cyberjornal, edição de 02-02-2013:

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A newsletter ou a inconcebível submissão ao inimigo

           Não é a língua um veículo estático, como não é estática a população que a utiliza. A oralidade, por um lado, e o aparecimento de novos conceitos até aí não traduzidos em linguagem, por outro, obrigam à utilização de novas palavras (os neologismos) ou à alteração do modo de escrever certas palavras por melhor corresponder ao que se ouve ou se diz.
Sou visceralmente contra o novo acordo ortográfico, justamente naqueles aspectos em que, à força, por uma vontade política (desgarrada da realidade, como amiúde acontece), se impõe uma grafia que não respeita a etimologia nem uma alteração a nível da oralidade, tendo apenas como justificação uma pretensa uniformização – como se isso trouxesse algum benefício palpável!... «Aspecto», por exemplo, tem c por via da sua etimologia e assim existe em francês (aspect) ou em espanhol (aspecto) e só não existe em italiano, porque desde cedo a abertura da vogal anterior aí se obteve através da introdução da consoante dupla (aspetto), assim como acontece na língua portuguesa no caso de cç: correcção, redacção
Casos em que a evolução aconteceu devido à oralidade: uma terra chamada Torrezela acabou por ser hoje Atrozela; outra que era Abóbada acabou por começar a escrever-se Abóboda, porque assim o povo a estava a pronunciar.
Casos de novos conceitos que se aportuguesaram ou vão incorporar-se na linguagem do dia-a-dia, por estarem a ser muito usados: alunar, bué, e-mail, sms… Estes dois últimos em fase de absorção, porque é mais complexo escrever ‘correio electrónico’ (continuará a hesitar-se algum tempo entre grafar e-mail ou email) e, em relação ao segundo, ainda não há equivalente (nem nunca haverá, decerto) para short message system, e rapidamente se decidirá de vez se vamos optar pelo masculino ou – o que é mais provável – pelo feminino: «Vou enviar-te uma sms», porque o que predomina é a noção de ser uma «mensagem curta».
Não posso, porém, pactuar com esta mania que ora invadiu as nossas empresas, inclusive as entidades e departamentos do Estado Português, supostamente obrigadas a defender o património cultural imaterial que é a língua (Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial aprovada em Outubro de 2003), submetendo-se, sem tir-te nem guar-te, a uma absurda e inconcebível tirania da língua inglesa, universal inimiga figadal das identidades nacionais e regionais. Não concebo, por exemplo, a utilização da palavra newsletter, que hoje grassa, qual epidemia, pelo País. Newsletter, porquê? Não temos vocábulos de sobra que possam substituir este anglicanismo avassalador? «Boletim Informativo», «Notícias», «Noticiário», «Folha Informativa», «Informações», «Novidades», «Ecos», «Jornal»… Serão precisas mais? E se é noticiário de um museu, por exemplo, não bastaria pôr o nome do museu, seguido de um número e uma data, acrescidos, ou não, de palavras como semanário, quinzenário, boletim mensal, semestral…?
Se não somos nós a defender a nossa identidade cultural – uma vez que a outra já não temos… – que vai restar de um dos países mais antigos da Europa?
Façamos, pois, campanha contra os estrangeirismos escusados! Nada de «best of», «workshop», «brainstorming», «meeting», «call center», «call of papers» e anormalidades quejandas!... Gritemos como Henrique Lopes de Mendonça, em 1890: «Às armas! Às armas!».
                                                                                  
Publicado no quinzenário Renascimento (Mangualde), nº 609, 01-02-2013, p. 11.

Andarilhanças (63)


As caixas PDO penduradas…
Já tive ocasião de contar, mas acho que o caso merece ainda maior divulgação, porque é precisamente isso que ora me preocupa: que baixemos os braços e, mais do que nunca, pensarmos «cada um que se amanhe!». Recordo-me sempre daquela senhora que, numa loja de Sófia, em Setembro de 1987, me deixou a falar sozinho ao balcão, porque tanto se lhe dava que eu comprasse como não, porque o patrão era o Estado e ela tinha o dela garantido ao fim do mês…
E o caso foi que, no dia 22 de Janeiro, ao passar, de manhã, pela Rua do Cobre, em Cascais, verifiquei que, em postes telefónicos, havia caixas PDO abertas devido ao vendaval, deixando a descoberto os circuitos electrónicos. Apressei-me a telefonar para o Apoio ao Cliente da PT.
Inútil: depois de várias tentativas de seguir os ‘comandos’ que vinham do gravador da central, vim a verificar que, por já não ser cliente da PT, não tinha um telefone que a empresa identificasse e, por isso, nada feito: não conseguia falar com um assistente!
Liguei, pois, por ser jornalista, para o número 21 500 2000, que é o das «Relações com os Media». O rapaz que me atendeu apressou-se a dizer-me, quando lhe expus a situação, que eu deveria ligar era para o apoio técnico ou para o serviço de avarias. Expliquei que já o fizera, debalde, por não ser cliente MEO, e apenas estava a ter algum interesse no caso por se me afigurar, como cidadão e como jornalista, que essa informação das caixas abertas poderia ter algum interesse para quem de direito. O rapaz ouviu-me, ouviu-me e… eu, perante o facto de o moço não me dar outra alternativa nem saber como poderia resolver o assunto (deduzi que não lhe fora dada formação para esse efeito e isso das caixas PDO penduradas era chinês para ele…), desliguei, garantindo-lhe que o não voltaria a incomodar.
            Por curiosidade, fui saber – por minha iniciativa – o que era uma caixa PDO. E é o seguinte:
«A Caixa PDO (Ponto de Distribuição Óptico) é uma infraestrutura destinada às redes GPON (Gigabit Passive Optical Network) com tipologia FTTH (Fibre To The Home) e FTTB (Fibre To The Bulding). Permite a ligação entre a rede de distribuição e o cliente, podendo ser instalada em interior ou exterior». Portanto, tanto pode ser da PT como de qualquer outra distribuidora.
À hora a que escrevo esta nota (tarde do dia 24), as caixas PDO lá continuam penduradas!...

Os livros
            Acho que os livros se escrevem para serem lidos, comentados, para se tornarem… «vida»!
Se calhar, nunca tinha pensado nisto a sério; mas, na verdade, ao olhar para trás, para a minha juventude, uma imagem que amiúde me ocorre é a da biblioteca itinerante do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães, que mensalmente parava à minha porta, para que eu me abastecesse de leitura. Salgari, Júlio Verne, Júlio Dinis, Camilo, Steinbeck… tudo devorei, qual leitor compulsivo. E, de quando em vez, agarro nas folhas onde depositei apontamentos (eram livros que eu tinha de empréstimo…) e… surpreendo-me: muitas das ideias que então sublinhei são hoje do meu quotidiano, fi-las minhas, quase sangue do meu sangue!
            Creio que o livro cumpre a sua missão cabalmente quando, depois de lido, a ele apetece voltar, num saboreio… Nunca me canso de ler Torga nem Saint-Exupéry nem «As Aventuras de João sem Medo», de José Gomes Ferreira, ou a sua «Poesia III», por exemplo.

Dra. Rolendis de Albuquerque
            Ocorreu-me esta reflexão ao apresentar o livro de Teresa Mascarenhas sobre o cônsul Aristides de Sousa Mendes e, sobretudo, porque tenho em cima da secretária dois livros de Rolendis Solá Albuquerque passíveis de se integrarem nessa ideia de que o livro acaba por ser vida ou por retratar a vida.
            Chama-se um «Recordações de uma viagem a Itália para assistir à Canonização de São João de Brito. Trata-se de uma edição de autor, sem aqueles dados técnicos que são requeridos para uma publicação doutro género, que não esta, de 32 páginas ilustradas, que começa assim:
            «Entre papéis velhos encontrei um diário que fiz, sobre tudo o que vi e ouvi na peregrinação a Roma, já lá vão muitos anos, pois tudo aconteceu em 1947».
            Era, então, a autora aluna do Colégio São João de Brito, tinha 15 anos e, por isso, não admira que escreva na apresentação: «Hoje, ao pegar no diário, sinto muita satisfação em relembrar o que vi e ouvi e também porque os meus netos foram e alguns são alunos do Colégio São João de Brito».
            O outro livro, também edição de autor mas já com depósito legal (343202/12), dá conta do que foram as suas andanças pelo país no âmbito da apresentação, sobretudo nas escolas, do seu livro Pintura & Poesia, que eu tive a honra de prefaciar e de apresentar a 13-12-1994, na então Casa-Museu Verdades de Faria. O ministério considerara de interesse pedagógico essa sua ‘peregrinação’, agora pelos concelhos portugueses, e o livro é o relato dela, ilustrado com fotografias dos sítios, documentos, desenhos de crianças… Enfim, o testemunho de uma experiência deveras interessante, tanto mais que a Dra. Rolendis escolheu para subtítulo «Um projecto cultural depois da reforma». Ou seja, como também deixa entender na abertura do volume, quando alguém se aposenta ou reforma, pode optar por ir esperando que a morte venha ou, ao invés, pode partir noutras direcções e fazer aquilo que, mui frequentemente, nós sonhamos: «Quando me reformar…». Pois a Dra. Rolendis optou por seguir esses «novos caminhos, novas oportunidades, novos projectos» passíveis de ser abraçados pelos seniores e por «todos aqueles que querem continuar a trabalhar».
            E o resultado aí está, numa variegada paleta, que nos leva a quarenta e dois concelhos, aqui referidos por uma ordem decerto arbitrária ou cronológica (se o foi, as datas ficaram omissas), e que termina em Cascais, com menção a várias das actividades também aqui desenvolvidas.
            «Ternura» será, sem dúvida, a palavra mais ajustada para classificar este Poesia e Pintura, porque é exactamente isso que dele dimana, ingenuamente, sem pretensões, num entretecer de variada prosa, de poesia, de reprodução de pinturas suas ou de meninos das escolas…
                                                                                            
            Publicado em Jornal de Cascais, nº 330, 30.01.2013, p. 6.