sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Afinal, a técnica é… um técnico! (Ou a ignorância instalada ao mais alto nível)

            Já suspeitava há algum tempo que esta sanha dos políticos contra os professores radicava no facto de eles, os políticos e seus ajudantes, não terem sido bons alunos em História e em Português.
            De História já temos provas bastantes que pouco sabem, porque – queiram ou não – a História é «mestra da vida» e, como o Povo diz, «quem semeia ventos colhe tempestades», sendo, para isso, necessário saber História para ter ideia do que é «vento» e do que é «tempestade», noções diferentes das usadas em contexto do Instituto da Atmosfera e do Mar (outra linda ‘coisa’ que ora inventaram para se ter novo logótipo e baralhar a escrita ou simplificá-la, porque se duvidava sempre se era ‘metereológico’ ou meteorológico!...). Quanto ao Português, os atentados são diários e o que mais nos admira é não haver quem ponha cobro nisto.
            Já todos nos entendemos em relação à presidenta. Não há como escapar: é presidente, substantivo comum-de-dois, como rezavam as gramáticas (não sei o que ora rezam, porque também aí os teóricos gostam de atrapalhar os sexagenários como eu). É presidente, é lente, é crente… quer seja do género feminino quer masculino.
            Descobri agora uma outra novidade, que deve ter saído de um bestunto inteligente: uma senhora que tenha a categoria de técnico superior é… técnico superior! E como tal se tem de assinar! Como se uma senhora que tenha o cargo de direcção de uma Escola seja, obrigatoriamente, «o director». Ou seja: esse do tal bestunto que isso ordenou oficialmente (e digo isto, porque me está a aparecer na identificação de funcionários públicos) não sabe distinguir a função da pessoa que a exerce! A função é masculina, a pessoa é masculina ou feminina se o seu nome for masculino ou feminino.
Já a mesma inépcia verbero constantemente a propósito de umas normas que há sobre o modo de citar bibliografia, emanadas, ao que parece, de um grupo de estudiosos para o efeito nomeado. Aconteceu (esta é a minha ideia!) que, no momento em que estavam a escrever as regras, se não aperceberam que o computador umas vezes põe hífen, outras travessão conforme lhe dá na real gana. Não viram, pronto! E, como numa das regras onde deve estar um travessão e não um hífen (que têm funções diferentes na frase, como vulgarmente se sabe…) saiu um hífen, por mais que a gente barafuste, tem de se pôr hífen, tem de se pôr hífen, mesmo que se saiba que está incorrecto.
Eu já escrevi lá para a Biblioteca Nacional de Portugal, que é (segundo me disseram) o sítio onde podem fazer alguma coisa para emendar o erro. Respondeste-me tu? Assim responderam eles! Nem sequer acusaram a recepção!
Que é que se lhes há-de fazer?!...

Publicado no quinzenário Renascimento (Mangualde), nº 610, 15-02-2013, p. 11.

 

Andarilhanças 64

Romano Esteves
            Todos os anos a Sociedade Propaganda de Cascais brinda os seus associados com um postal de Boas Festas que veicula um pouco da história da instituição. Um gesto mui oportuno, que Joaquim da Piedade Aguiar houve por bem introduzir, para que as memórias se não percam.
            Este ano, recordou-se a figura do «pintor e revolucionário» Francisco Romano Esteves (1882-1960), o 1º presidente da Comissão de Propaganda de Cascais (de 12-3-1934 a 8-4-1935). É dele o quadro realista «Explicação do avô», patente no Museu dos Condes de Castro Guimarães.

Obras
             Cascais – a vila e o interior – andam numa azáfama pegada. Obras por tudo quanto é sítio; «desvio» é a placa amarela mais presente nas nossas vidas quotidianas: andamos sempre num desvio! Por vezes, não se sabe lá muito bem porquê, mas… também é normal que os senhores que mandam nestas coisas de pôr placas e deixá-las mesmo depois dos trabalhos prontos sejam nossos bons amigos e assim contribuam para que não criemos hábitos e lutemos contra a doença de Alzheimer. O pior é se esses desvios, como amiúde acontece, não só não se encontram em bom estado como nos obrigam a um trajecto muito mais longo, com o consequente aumento do consumo de combustível numa época em que todos – mas todos! – estamos a apertar o cinto! Numa palavra: não há respeito!

Rua Dr. Viegas
No dia 6 de Fevereiro, surpresa: a Rua Dr. Fernando Baptista Viegas, frente ao tribunal de Cascais fora arranjada, depois de anos a fio as viaturas andarem ali como num carrossel, pois o pavimento abatera pouco depois da construção do parque subterrâneo. Quando por ali passava, o povo perguntava: «Mas não há quem veja isto?». Já viram. Demorou muito, mas viram. Em boa hora!

Caça à multa
            Um amigo enviou-me imagens que mostram como os agentes policiais põem, mui disfarçadamente, os radares, a fim de caçarem multas a quem anda distraído. Todos os pretextos são bons: uma carrinha de caixa aberta como se estivesse empanada, a esquina de uma antiga casinha de cantoneiros…
Só há uma forma de os dissuadir: cumprir! E, quando se não está de acordo com determinada regra, reclamar e verificar se, na verdade, essa regra cumpre as regras de implantação. Por exemplo, no caso de uma estrada municipal, se está exarada no verso a deliberação camarária que a estipulou… Nem sempre está – e, por conseguinte, não tem valor!

Agenda do… Executivo
Fui surpreendido, na sexta-feira, 8, por receber, do Gabinete de Imprensa da CMC, «a agenda do Executivo da Câmara Municipal de Cascais para o período compreendido entre os dias 9 e 15 de Fevereiro de 2013».
Não posso deixar de aplaudir, porque a Câmara não é apenas o seu Presidente (até agora, era-nos enviada a agenda do Presidente, só) mas todo o seu Executivo e não é obrigatório que o Presidente vá a todas, pode delegar num ou noutro vereador. Talvez também seja esta uma forma de os demais vereadores começarem a aparecer, nomeadamente nas iniciativas que mais directamente se prendem com os seus pelouros. Congratulo-me.
Claro, é compreensível: há aqui já uma pontinha de campanha eleitora; mas releve-se esse pormenor em favor da maior visibilidade de uma equipa!

Misericórdias cimentam união
            A Misericórdia de Cascais assumiu, por intermédio da sua Provedora, a presidência do Secretariado Regional de Lisboa da União das Misericórdias Portuguesas. Terceira idade, saúde, sustentabilidade, educação constituem os pilares em que vai doravante assentar a sua acção, na procura incessante de um trabalho em equipa cada vez mais efectivo. Juntos mais se logrará alcançar!

Despesas
            Não, não vou comentar os tão badalados 13 000 euros que, segundo veio na Comunicação Social, a autarquia cascalense terá gasto em promoção da sua imagem junto da Internacional Socialista, que escolheu Cascais para a sua reunião. Refiro-me a ‘pequenas coisas’ que, ao olhar do cidadão comum, não têm sentido ou, pelo menos, se lhe afiguram despropositadas em tempos de contenção. Sim, eu sei que é preciso dar de comer aos senhores das tipografias (que andam pelas ruas da amargura), aos designers gráficos (que esmolam de porta em porta), mas… era mesmo preciso mudar o nome do Serviço Meteorológico Nacional de Portugal, que nós comummente chamávamos de Serviços Meteorológicos e todos percebíamos, para Instituto Português do Mar e da Atmosfera?
            E, numa altura em que se começaram a divulgar notícias sobre peixe que estava a ser vendido em más condições de higiene e de conservação, gasta-se dinheiro em vultosas campanhas contra a apanha de peixe miúdo (ai, lá se vão os meus deliciosos joquinzinhos e os choquinhos à algarvia!...) e, por outro lado, uma organização dependente ou patrocinada pelo Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (não havia nome mais curto, que é que se lhes há-de fazer?...), a Fileira do Pescado (www.fileiradopescado.com), faz esbeltos cartazes em excelente papel couché e distribui a consultórios médicos e outras entidades, por via postal, uma circular, datada de 21 de Dezembro de 2012, no âmbito da campanha «Pescado é Saúde!», incitando a que se divulgue essa ideia: coma-se peixe! Certo. Mas… se, em vez disso, angariassem mais apoios para os nossos marítimos e lograssem fiscalizar mais eficazmente os nossos pesqueiros, dado que falam outra língua, que não a nossa, os que devastam os nossos cardumes, é sabido…? Benza-os Deus!
 
            Publicado em Jornal de Cascais, nº 331, 13.02.2013, p. 6.

Com os dedos entanguidos…

             A Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, aprovada em Outubro de 2003, entrou em vigor a 20 de Abril de 2006, e Portugal ratificou-a a 26 de Março de 2008. Tendo como principal objectivo «a salvaguarda do património cultural imaterial», explicita que o primeiro domínio em que este património se manifesta é o das «tradições e expressões orais, incluindo a língua como vector do património cultural imaterial».
Por isso, estamos a assistir em diversos órgãos de Comunicação Social e até em livros a esse desejo de mostrar como é que o Povo fala e falava, de modo a não se perderem as expressões de outrora – e ainda bem! Lutamos, assim, contra essa danosa invasão de frases (que até ouvimos dos «senhores políticos»!...), como newsletter, best of, workshop, brainstorming, meeting, call center, call of papers…
Isso aqui temos feito e, agora que o frio aperta, não é invulgar que fiquemos, a determinado momento, com os dedos… entanguidos! O adjectivo pode assumir diversos significados mas, no falar algarvio, é… «não ter engenhos»! Ou seja, o frio impediu a circulação do sangue e os dedos perderam força e só à custa de muita fricção é que voltamos… a ter engenhos, para, por exemplo, pegar em qualquer coisa! «Não tens engenhos nenhuns!», dizíamos ao moço pequeno que não lograva atirar o «bias» (berlinde) para longe…
            Curiosas, sem dúvida, as duas expressões. E se, aqui, ‘engenho’ se prenderá, naturalmente, com o latim «ingenium», capacidade, não me admiraria que entanguido seja susceptível de se relacionar com o verbo latino «tangere», tocar para a frente, sendo ‘entanguido’ o oposto, aquele que nem se pode mexer!...
 
Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel], nº 169 (Fevereiro 2013) p. 10.

 

 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Trabalho da Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras reconhecido a nível nacional

            Foi uma das quatro candidaturas na área de música a nível nacional, aquela que a Orquestra de Câmara de Cascais Oeiras (OCCO), dirigida pelo insuperável dinamismo do maestro Nicolai Lalov, apresentou à Direcção Geral das Artes.
É, pois, com o maior regozijo que ficámos a saber que a candidatura foi aceite, o que se traduz num apoio financeiro de 140 mil euros para o ano de 2013.
Recorde-se que a OCCO, criada a 25 de Novembro de 1999, é uma orquestra residente, financiada pelas Câmaras Municipais de Cascais e Oeiras. O apoio ora concedido vai permitir-lhe não apenas continuar a proporcionar mensalmente concertos gratuitos à população dos dois concelhos e a participar em eventos culturais significativos, mas também estender essa sua actividade a nível nacional.
Constitui igualmente tarefa da OCCO manter, no Monte Estoril, no edifício da antiga Pensão Boaventura, expressamente remodelado para o feito, o Conservatório de Música de Cascais, onde são ministradas aulas de música.

Publicado na edição de 13-02-3013 de Cyberjornal:

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Dicionário de Arqueologia Portuguesa

            Lançaram mãos Jorge de Alarcão, arqueólogo e professor catedrático aposentado da Universidade de Coimbra, e Mário Barroca, arqueólogo e professor associado com agregação da Universidade do Porto, à elaboração de um Dicionário de Arqueologia Portuguesa.
            A obra, de 420 páginas, contou com a colaboração dos professores João Luís Cardoso, para a Pré-História, e Raquel Vilaça, para a Proto-história, uma vez que aos dois coordenadores gerais caberiam, naturalmente, as épocas em que são especialistas: a Romana e a Medieval.
A edição, datada de 2012, esteve a cargo da Livraria Figueirinhas do Porto (ISBN: 978-972-661-219-3) e, conforme se lê na Apresentação, os editores não impuseram «quaisquer particulares condições» nem sugeriram «qualquer modelo». Aliás, diga-se desde já, que o modelo adoptado – o de «glossário ou vocabulário e, ao mesmo tempo, o de enciclopédia ou tratado» – se nos afigura assaz adequado ao fim em vista, porque, apresentado em duas colunas, em letra miudinha, o negrito de cada entrada (topónimo, etnónimo e/ou nome comum ou técnico – em português ou em latim) é suficientemente realçado para rapidamente se chegar aonde se quer, tanto mais que, como num dicionário normal, se pôs em cabeçalho a primeira palavra (página da esquerda) e a última (página da direita). Além disso, o formato (23,5 x 15,7 x 3) apresenta-se facilmente manuseável, o que muito importa em obra de frequente consulta, como esta.
            A Apresentação cumpre rigorosamente o seu papel: apresenta a obra, explicitando critérios, opções e objectivos, indicando o que presidiu à escolha deste verbete em detrimento de um outro. De resto, terminam os autores recomendando que se leiam as instruções de uso (p. 10). E, após a identificação dos 24 colaboradores seleccionados (louve-se o recurso à nova geração de arqueólogos), não se esquece o importante papel que teve José Luís Madeira no que se refere às ilustrações (só desenhos, nenhuma fotografia, a mostrar a relevância que o desenho detém em Arqueologia), que primam pela exactidão, num estilo a que esse técnico já nos habituou; realce-se também a esbelteza da própria capa, estilizado aceno às pinturas do Côa e homenagem implícita à Epigrafia no título do volume – o que, como epigrafista, muito me cativou e agradeço.
            20 páginas de bibliografia seleccionada (p. 359-398), legendas mais pormenorizadas das 170 imagens (p. 399-404), índice geográfico (p. 405-411) e índice temático (p. 413-417) completam este dicionário, que expressamente se declara de Arqueologia e não «da Arqueologia Portuguesa». Poderá supor-se que é de somenos esta diferença semântica; não o é, porque o «da» implicaria, a meu ver, a referência aos agentes, ou seja, aos arqueólogos – e essa é função não para um dicionário mas, de modo especial, para uma História da Arqueologia, como aquela, a título de exemplo, a que Carlos Fabião lançou mão e, mesmo assim, com todo o cuidado também no título: Uma História da Arqueologia Portuguesa (Clube do Coleccionador dos CTT, Lisboa, 2012).
            Numa apreciação geral, que não se prende – como é óbvio – com a especificidade de cada um dos verbetes, dir-se-á que se trata de uma obra susceptível de interessar e de ser muito útil não apenas para os arqueólogos já credenciados, que poderão ver aqui como se faz uma síntese, como em poucas palavras se consegue dizer muito, mas também para os estudantes e, até, para o público em geral, designadamente aquele que alguma vez se deixou seduzir pelo indiscutível fascínio que esta disciplina detém.
Nesse âmbito, anote-se que os índices, mormente o geográfico, como não são muito extensos, devem ser consultados com cuidado, como os autores mui avisadamente advertem nas Instruções, inclusive em relação às entradas: «Se o leitor procurar determinado nome […] e não o encontrar na ordem alfabética das entradas, não deve concluir apressadamente que ele não figura no Dicionário». Não encontrará, por exemplo, nem nos índices, o topónimo Cascais; mas isso não significa que, de Cascais, se não tenha falado das grutas de Alapraia ou das de S. Pedro do Estoril, referenciadas por estes topónimos.
Evitaram os autores esmiuçar assuntos polémicos ou entrar em grandes elucubrações que se não compadecem, na verdade, com o teor de um dicionário com estas características, até porque, para assuntos específicos, há a bibliografia que apontam (embora, neste âmbito, a ausência da menção aos volumes da Bibliografia Arqueológica Portuguesa elaborados por Eduardo Pires de Oliveira quiçá pudesse ter sido evitada, porque, queiramos ou não, ali está compendiado tudo o que se escreveu sobre Arqueologia em Portugal desde o século XVI até 1979); e, de facto, para cada concelho do País, temos, na quase totalidade, cartas arqueológicas editadas ao longo dos últimos trinta anos, como, de resto, os autores assinalam no final da Apresentação. Contudo, se, por vezes, se alude às campanhas de escavação efectuadas num sítio (Milreu, Conímbriga…), nem sempre tal acontece, como é o caso – que se estranha – da villa de S. Cucufate (Vila de Frades, Vidigueira), quiçá por modéstia de um dos coordenadores, que foi um dos seus responsáveis, tanto mais que nem sequer se indica, na bibliografia, a obra que dá conta desses resultados: Jorge de ALARCÃO, Robert ÉTIENNE e Françoise MAYET, Les Villas Romaines de S. Cucufate (Portugal), Paris, 1990. E, não tendo estado no espírito desta obra, a referência à existência de um museu de sítio ou de um centro interpretativo poderia também não ser despicienda; e essa reflexão ocorreu-me quando li as entradas «Conímbriga» e «Odrinhas», onde tal menção inexiste e onde os museus anexos assumem papel relevante.
No que concerne à bibliografia, num caso como este, de um dicionário que se pretende prático e acessível, terá sido sempre uma dor de cabeça para os autores tomarem decisões, sabendo, de antemão, quanto elas poderão criar susceptibilidades. Veja-se o caso de Balsa (p. 53): cita-se Mantas 2003, um texto inserido num amplo catálogo de síntese sobre a cidade, que só é referido porque esse texto vem lá; o trabalho pioneiro (em meu entender) de Jeannette Nolen (Cerâmicas e Vidros de Torre de Ares – Balsa, Lisboa, 1994) não é mencionado, como, em relação a todo o Algarve, o não é a obra de Maria Luísa E. V. Affonso dos Santos, Arqueologia Romana do Algarve (Lisboa, 1972). Não se trata, obviamente, de uma crítica; apenas de uma advertência ao leitor, porque ser exaustivo nesse domínio não esteve nos desígnios dos autores, que tiveram ante si a dificílima tarefa de, a todo o momento, tomarem uma decisão nem sempre não eriçada de espinhos.
E, já agora, só para dar um exemplo do tema ‘assunto polémico’ – ou que pode ser polémico, por haver diferentes opiniões – a que atrás aludi, referiria apenas a afirmação, exarada na p. 117, de que foi o arquitecto eminiense Caius Sevius Lupus quem «construiu o famoso farol romano da Corunha» e a ele também aí se atribui «mais do que provavelmente» a construção do forum de Aeminium. Trata-se, com efeito, de uma saudável suposição tanto num caso como noutro.
Quanto ao lapso Quinta do Marim por Quinta de Marim (p. 295-296), pesa-me ter sido eu quem está na sua origem; já por diversas vezes o corrigi, mas ainda não entrou no quotidiano essa correcção.
E porque se trata de Arqueologia, não há lugar para questões linguísticas, embora a elas se acene, no que concerne, nomeadamente, às línguas pré-romanas ou, concretamente, à língua dita «lusitana»: não há nenhum verbete sobre o assunto, tratado, no entanto, quando Raquel Vilaça se debruça sobre a Idade do Ferro (p. 181), aí referindo os locais onde existem inscrições nessa língua. Um aceno é feito também às gentilitates (p. 172), remetendo Jorge de Alarcão para a noção de linhagem, distinta de clã (p. 198). Cá está um dos casos que mereceu alusão, mas sobre o qual não era de adiantar – e não se adiantou –, porque se prende mais com a organização social e política daqueles tempos e por aí os autores não poderiam seguir, até por se ter em conta que, neste momento, precisamente no que concerne às gentilitates, os mais recentes achados e as novas interpretações que proporcionaram acabaram por trazer uma outra luz ao que se sabia ou, simplesmente, se suspeitava.
Enfim, como se vê, não obstante apenas Dicionário, a obra em apreço acaba por suscitar entusiasmo, vontade de mais saber. Compendiando o que já se conhece, abre pistas para melhor se compreender o valor de uma disciplina e se entender o Passado. E esse não deixará de ser – sem dúvida! – um dos méritos maiores do livro que, em tão boa hora, a Livraria Figueirinhas do Porto acedeu publicar: salientar a importância que tem a Arqueologia como escrínio da Memória antiga, no urgente cimentar de uma Identidade! Queiram ou não as vozes contrárias!

Publicado em Cyberjornal, edição de 6 de Fevereiro de 2013:

 

As Pontes de Coimbra que se Afogaram no Rio

            Aceite para publicação pela secção da Região Centro da Ordem dos Engenheiros, este livro do Professor Jorge de Alarcão, fruto de longa maturação, não se confina à problemática técnica em que a construção, a vida e a destruição de uma ponte primordialmente faz pensar: cálculos de estruturas, localizações, cotas, aparelhos, dimensões… Seria, assim, obra para engenheiro miudamente estudar, ainda que a conotação histórica, do ao longo do tempo, tivesse de estar sempre presente. Não é. Ou melhor: também o é, forçosamente; mas, ao passarem-se estas folhas em A4 deitadas (em jeito de álbum), como num convite a andar, à medida que se avança, na leitura ou num simples folhear, com paragem aqui e além, a sensação que de imediato nos invade é de que, pelo rio e pelas pontes, depressa mergulhamos na História. A história de uma cidade que à beira-rio nasceu, cresceu e se foi transformando.
            Notícias se tinham de que a travessia poderia não ter sido sempre pelo mesmo local e que várias pontes houvera; contudo, o esmiuçar dessa história, comparando documentos gráficos e escritos, colhendo pormenores onde menos se esperava, ainda estava por fazer. E o que Jorge de Alarcão nos apresenta é, na verdade, o ressuscitar de todo esse viver coimbrão, embalado pelo murmurar do Mondego ora latente, ora impetuoso, ora regrado.
Uma prosa densa, bem alicerçada em documentação – como o devem ser as pontes – e brilhantemente servida pelas ilustrações que José Luís Madeira, eloquente e mui graciosamente, com todo o rigor soube interpretar, ‘humanizando-as’, inclusive, como no caso da fig. 33, em que ouvimos o tropear dos cavalos da caleche ou o bater metálico, descompassado e rouco dos chocalhos dos bois a puxar carro ajoujado, ou como na fig. 40, em que imaginamos almocreves e negócios na conversa... Aliás, logo a capa, com essa elegantíssima reprodução de uma iluminura da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, nos cativa: «Chegou el-rei a Coimbra e muita gente com ele e pousou nos paços de Santa Clara, junto com a ponte da cidade». E se este passo ora se transcreve é com o intuito de bem demonstrar, logo assim, que o Autor a todas as minudências – aparentes minudências… – não hesitou em lançar mão para ‘iluminar’ o caminho que, mui cautelosamente, se aventurou a singrar. E fez bem.
            111 páginas, profusamente ilustradas (são 52 as figuras, com legendas nas p. 105-107), ISBN 978-989-8152-08-4, adequado papel couché.
            Apresentação a cargo de Celestino Flórido Quaresma (da Ordem dos Engenheiros) e do Prof. Providência e Costa (de Engenharia Civil da FCTUC). Aí se identificam de imediato as pontes em análise: a romana, de barcas primeiro, quiçá, e de pedra depois, «que D. Afonso Henriques mandou restaurar (e que terá tido reconstruções parciais entre os séculos XII e XIV) e a manuelina, erguida em 1513» e que terá aproveitado alguns dos pilares da anterior. E se (afirma-se) «a ponte tem que respeitar, preservar e embelezar o rio que atravessa e o local onde se insere», também o seu estudo se há-de inserir nas vidas que rio e cidade sentiram palpitar; por isso, na Apresentação se acrescenta que este «é quase um tratado de história da Engenharia portuguesa», com os seus altos e baixos, no salutar cruzamento da «História com a Engenharia» e «da História da Arte com a Arquitectura, sem esquecer a Arqueologia».
            Na «nota introdutória» explicita o Autor, como é seu hábito, os objectivos que se fixou, o público que visou entusiasmar: «Escrevemo-lo para leitores que, sem habilitações académicas nessas áreas [História, Geografia, Ciências da Terra], se interessam pela história da cidade de Coimbra». É também por isso que trata em capítulo próprio a questão do assoreamento do rio, por requerer um olhar mais técnico, linguagem mais hermética e, por conseguinte, menos atraente.
            E os capítulos ficaram assim distribuídos: «Da ponte romana à ponte de D. Afonso Henriques» (p. 15-24); «A ponte de D. Manuel» (p. 25-53), com três subcapítulos (história documental, a fábrica da ponte e seus defeitos, remendos e remédios da ponte manuelina até 1632); «A torre da Portagem» (da página 54 à 68 onde se inclui bonita reconstituição, em graciosa aguarela – fig. 40 –, assinada, mais uma vez, pelo talento de José Luís Madeira); «O cais da cidade no século XVI» (p. 69-71); «O largo da Portagem» (p. 72-83); «O assoreamento do rio e as cotas das pontes» (p. 84-104). As referências bibliográficas vão da pág. 108 à 111 e por elas se verifica como o Autor também soube exemplarmente convocar para o trabalho os resultados da investigação sobre os diferentes períodos da história da cidade, levada a efeito pelos seus colegas, nomeadamente docentes da Faculdade de Letras.
            É, afinal, se calhar, uma Coimbra desconhecida que das pontes se vai enxergando séculos afora. Ficaremos a saber que, «na Idade Média, contribuir para obras em pontes era considerado obra de caridade ou devoção» (p. 19). Teremos por muito exemplar para a governação actual a preocupação de el-rei D. João II, em carta de 14 de Maio de 1488: «[…] Que vejais logo com bons oficiais a dita ponte e se veja com bom exame e diligência o que por orçamento haverá mister para, com a menos opressão do povo, se poder corrigir e remediar.» (p. 23, actualizei a grafia) – «Grande rei!» se exclamará! E haveremos de maliciosamente sorrir, quando soubermos que, algures no século XVI, um guardião do convento de S. Francisco, Frei João de Azevedo de seu nome, «não rezava o ofício divino, dizia apressuradamente a missa e com pouca devoção, jogava cartas de noite, no mosteiro, com pessoa secular, tinha mulher em Condeixa, com quem às vezes dormia em sua cela (para além de dormir com outras duas mulheres casadas» (p. 31). Compreenderemos, enfim, que, apesar de estarmos então em 1981, haja sido de muito lamentar que as obras levadas a efeito na zona da torre da portagem não tenham tido «acompanhamento arqueológico que registasse com rigor os dados», porque «o acompanhamento arqueológico de obras urbanas não era ainda de regra em Coimbra e o sítio dos achados (o de maior trânsito da cidade) não se compadecia com trabalhos prolongados» (p. 67), e se algo se logrou registar foi porque o Autor, de passagem, solicitou a «um técnico da Direcção Regional dos Serviços Hidráulicos que acompanhava a obra» lhe fizesse um esboço das «estruturas então redescobertas» (fig. 34, p. 62).
            Apesar da anunciada aridez dos dados técnicos, dir-se-á, porém, que Jorge de Alarcão sabe burilar a linguagem de forma a tornar aliciante até essa aridez. E sublinhe-se – porque é cada vez mais de aplaudir, nos tempos que correm, em que facilmente se descura a revisão… – que não encontrámos gralhas nem vírgulas fora do sítio. E o ‘salto’ na tradução do passo da Chronica Gothorum (p. 18) é mácula imperceptível que mais realça ainda a extrema correcção de todo o conjunto: As Pontes de Coimbra que se Afogaram no Rio, um livro exemplar!

                                               
Publicado no Cyberjornal, edição de 12-02-2013:
Divulgado através da archport, a 13-02-2013:
Acessível também em: http://hdl.handle.net/10316/21644

           

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Faleceu Jürgen Untermann, um grande estudioso das línguas paleo-hispânicas


          Faleceu, na quinta-feira, dia 7, serenamente, ao começo da tarde, em sua casa, em Pulheim, na Alemanha, com 84 anos de idade (24-10-1928 / 07-02-2013), o Prof. Jürgen Untermann, eminente linguista que dedicou toda a sua vida ao estudo das línguas pré-romanas da Península Ibérica. Esteve, naturalmente, por diversas vezes em Portugal, tendo-se interessado muitíssimo quer pelos textos aqui encontrados em língua dita «lusitana» quer, de modo especial, pela chamada «escrita do Sudoeste», exarada em estelas identificadas no Sudoeste peninsular, designadamente no Alentejo e no Algarve.
Para além do seu saber e do seu intenso labor científico, Untermann irradiava em torno de si, desde o primeiro momento, uma enorme simpatia e sempre teve o condão de formar discípulos e de fazer interessar muitos pela investigação a que de alma e coração se dedicou. Era o Amigo, o Professor atento e interrogante, que lançava hipóteses com uma humildade imensa, na perspectiva de contribuir para o avanço do conhecimento mas jamais com a pretensão de se apresentar como o ‘depositário único’ desse conhecimento. Educava para a liberdade crítica, judiciosa e serena.
Um dos seus primeiros trabalhos, Elementos de un Atlas Antroponímico de la Hispania Antigua (Madrid, 1965), é citado ainda hoje como obra de referência, pois que, embora se tenham multiplicado muito os testemunhos dos antropónimos aí tratados, o certo é que permanecem válidas as conclusões retiradas já nesse longínquo 1965 em relação, por exemplo, às influências detectadas com vista à determinação de áreas linguísticas.
Foi um dos grandes motores dos colóquios sobre línguas e culturas paleo-hispânicas, a cuja comissão coordenadora, de cariz internacional, presidiu durante longos anos e só a pouca disponibilidade para fazer viagens é que o impossibilitou de estar fisicamente presente no XI Coloquio Internacional de Lenguas y Culturas Prerromanas de la Península Ibérica, que se realizou em Valência, de 24 a 27 de Outubro, p. p.
Importância marcante teve a sua obra monumental, os Monumenta Linguarum Hispanicarum, publicados em Wiesbaden, o I volume em 1975 e o IV, em 1997 (Band IV. Die tartessischen. keltiberischen und lusitanischen Inschriften). Logrou ainda terminar o último, dedicado à toponímia.
Tivemos, em 1993, já lá vão dez anos, a oportunidade de o homenagear – com o volume «Novedades y correciones en la teonimia galaica. Studia paleohispanica et indogermanica J. Untermann ab amicis hispanicis oblata», publicado em Barcelona. Mas não há dúvida que a nossa maior homenagem será, para os crentes, elevar por ele uma prece; e, para todos, saber colher o exemplo da sua abnegada vida.
Como escreveu o Prof. Javier de Hoz, actual presidente da atrás referida comissão, «hasta el último momento ha sido un gran hombre y un gran sabio y nuestros estudios se quedan un poco huérfanos. Tendremos que pensar en cómo dedicarle en España un recuerdo que nunca será el último.».
Que descanse em paz!

O casal Untermann, em sua casa de Pulheim, com o epigrafista romeno Ioan Piso (Maio de 2012) [gentileza de I. Piso]
 
Publicado no Cyberjornal, edição de 10 de Fevereiro de 2013: