domingo, 17 de fevereiro de 2013

Caminhos da Água – Paisagens e Usos na Longa Duração

            Coordenado por Manuela Martins, Isabel Vaz de Freitas e Mª Isabel del Val Valdivieso, veio a lume o livro Caminhos da Água – Paisagens e Usos na Longa Duração, edição do CITCEM (Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória», Universidade do Minho, Braga, datado de Maio de 2012. ISBN: 978-989-975558-8-8, 293 páginas, ilustradas.
            Reúne o volume as contribuições apresentadas no I Seminário «Água. Abastecimento, Construções, Gestão e Sociabilidade», realizado na Universidade do Minho a 6 de Novembro de 2009. Pertencem as coordenadoras às três Universidades (Minho, Portucalense e Valladolid), cujos investigadores estão empenhados no projecto com esse nome
            A estruturação do volume obedece a uma perspectiva cronológica (épocas romana, medieval, moderna e contemporânea), partindo das informações colhidas quer mediante a investigação arqueológica quer através de cuidadosa consulta a fundos arquivísticos e minuciosa análise às fontes iconográficas, nem sempre tidas em consideração neste tipo de estudos.
            Assim, Manuela Martins e Maria do Carmo Ribeiro fazem uma primeira abordagem da gestão e do uso da água na Braga romana (p. 9-52).
            Frédéric Trément estuda o que se passou de finais da Idade do Ferro aos primórdios da época romana «entre campos e pântanos» na grande planície francesa da Limagne, sita no Maciço Central, cuja fertilidade é, desde longa data, reconhecida (p. 53-75).
            No que concerne à Península Itálica, coube a Pier Luigi Dall’Aglio e a Carlotta Franceschelli darem conta do que puderam observar acerca das intervenções levadas a cabo na planície do Pó, tendo em conta um bom aproveitamento dos recursos hídricos, no tempo dos romanos (a centuriação) e na época subsequente, em que coube às comunas essa gestão territorial (p. 77-104).
            A presença da água nas explorações mineiras determinou sempre especiais cuidados de segurança, por exemplo; esse o objectivo da análise feita por Carla Maria Braz Martins em minas romanas do Noroeste peninsular: Covas (Vila Nova da Cerveira), Serra de Santa Justa e Pias (Valongo), Três Minas (Vila Pouca de Aguiar) e Barca de Alva (p. 105-123).
            Olatz Villanueva Zubizarreta e Juan Carlos Martín Cea, ambos da Universidade de Valladolid, escolheram para estudo a «cultura da água» como património imaterial, nas cidades medievais da bacia hidrográfica do Douro, em Castela (p. 125-141).
            María Isabel del Val Valdivieso e Juan Antonio Bonachía Hernando analisaram, por seu turno, as manifestações, na sociedade castelhana da Baixa Idade Média, de uma visível consciencialização em relação à necessidade de bem gerir os recursos hídricos (p. 143-161).
            «A água no Livro das Fortalezas de Duarte d’Armas» foi o tema escolhido por Isabel Vaz de Freitas (p. 163-177).
            Maria do Carmo Ribeiro e Manuela Martins observaram o livro da cidade de Braga, datado de 1737, na perspectiva do abastecimento de água à cidade, com especial referência às fontes aí citadas (p. 179-222).
            Também os mosteiros cistercienses do Minho tiveram, no Antigo Regime, uma «política de recursos hídricos»: sobre isso escreve Salvador Magalhães Mota (p. 223-235).
            E, afinal, aí pelas últimas décadas de Setecentos», o Douro era, ainda, «um rio selvagem», conta António Barros Cardoso (p. 237-251).
            Um Douro cuja «barra» já nesse século XVIII merecia a maior atenção, dada a necessidade de se manter navegável e de ser bom porto de abrigo, numa época de comércio intenso: dessas preocupações, bem patentes na documentação da época, nos fala Ana Sílvia Albuquerque Nunes (p. 253-265).
            Finalmente, Francisco da Silva Costa esclarece-nos como é que devemos lidar inteligentemente com o Arquivo da Administração da Região Hidrográfica do Norte, para dele podermos retirar o maior número de informações, apresentando como estudo de caso a bacia hidrográfica do Ave e os processos de licenciamento em domínio público hídrico (p. 267-293).
            Adequada maquetização e a inserção de resumos na língua em que foi redigido o texto e em inglês, no final de cada contribuição, constituem, para além dos enunciados conteúdos, complementar convite à leitura e à reflexão sobre uma temática, que está presente, ficamos a saber melhor, na gestão pública de todos os tempos.
 
 
 

 
                                                                                 

Monumentos a Norte

            Numa edição conjunta do Turismo Porto e Norte de Portugal - www.portoenorte.pt - e da Delegação de Touring Cultural & Paisagístico e dos Patrimónios, datada de Fevereiro de 2012, o guia Monumentos a Norte dá conta, nas suas 61 páginas, dos monumentos mais significativos de 41 concelhos nortenhos, a começar em Amarante e a acabar em Vimioso (seguiu-se, e bem neste tipo de guia manuseável e de folhas de cartolina rija, a ordem alfabética).
            Orlando Sousa, da Direcção Regional de Cultura do Norte, e Sofia Ferreira, da Delegação de Touring Cultural foram os coordenadores gerais, cabendo a Mafalda Pizarro, do Touring, a coordenação técnica. Abre com um mapa desdobrável, na escala de 1:500 000, da região envolvida. Os textos são da lavra de 32 colaboradores. Um CD preso no interior da segunda capa é o complemento sonoro de cada ficha, onde, com boa dicção, é dito o texto de cada monumento. Uma ideia assaz prática e interessante.
            Assim, é-nos possível saber o essencial sobre a domus municipalis de Bragança, a torre do relógio de Caminha, o castelo velho de Freixo de Numão, o Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, o Castro do Monte Padrão (Santo Tirso) e tantos outros monumentos que pontuam este itinerário de turismo cultural.
            Em cada ficha, breve informação sobre o concelho e apontamentos sobre: gastronomia e vinhos; festas, feiras, romarias; património (o texto maior e mais eloquente); saúde e bem-estar (termas, por exemplo); informação turística.
            Com mui oportunas fotografias a cores e excelente apresentação gráfica, é um guia que honra os seus promotores.

Publicado em Cyberjornal, edição de 16-02-2013:

«Ravinas», de António Salvado – A arte de burilar as palavras


            Ainda que editado em Março de 2004, na Ulmeiro, não nos ficará mal revisitar o livro de António Salvado, Ravinas (ISBN: 972-706-370-5).
            Em primeiro lugar, porque há escritores – e o poeta albicastrense António Salvado é um deles – que mantêm uma actualidade flagrante, pois os pensamentos que as suas frases veiculam nos servem diariamente, nos incitam a melhor saborear a existência.
            Depois, porque Ravinas é um conjunto de 20 textos, de página e meia cada (excepto um, que tem duas e meia), em que nos delicia a arte de burilar as palavras. Ecos de uma África? Sim. A capa a tal nos induz. E é da guerra de África que, indirectamente, nos fala precisamente esse texto mais longo, do homem de «vestuário sujo e moído» que se senta em frente do stor, numa conversa fiada:
            «Já ouviu falar da guerra em que estamos? Somos todos, toda a gente anda na guerra, toda a gente está na guerra! Quem manda fazer a guerra dá cabo de nós; mata toda a gente como eu mato esta mosca».
            E o stor ouve tudo, dá cigarro, paga cerveja, «até que uma ternura súbita e pungente amendoou as lágrimas que» os seus olhos «começaram a verter» (p. 13).
            Não há datas. Não há identificados lugares. Apenas um existir por aí, sentindo nós que, de facto, o autor convoca aqui os trigais e o rubro das papoulas em que mergulhou; os olores das giestas e dos rosmaninhos em que, recreando-se, se deixou submergir; a «decoração natural e apaixonada de cada estação do ano» em que lhe aprouve sitiar-se (p. 18). Ou seja, Ravinas é, no fundo, essa comunhão íntima com a Natureza, com os seres que a povoam, ciente da efemeridade da vida, sim, mas também acalentando a esperança de que há sempre uma «estrela da tarde que não teme o crepúsculo» e a certeza de que, por mais que outrem o queira, «as estações do ano não aprisionam o tempo»! (p. 34).
            Um hino, pois, à Vida, estendido numa prosa poética que nos enleva e seduz.
            Daí, o não ser descabido revisitá-lo agora, quase nove anos passados…

Publicado em Cyberjornal, edição de 16-02-2013:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=17871&Itemid=30

Violência na Escola - O luto da comunidade educativa

             Facilmente se encontrará na Internet – por exemplo, em http://educar.wordpress.com/2013/01/31/carta-aberta-morreu-um-de-nos-e-b-23-professor-oscar-lopes/ – a carta aberta assinada por docentes e funcionários da Escola Professor Óscar Lopes, de Matosinhos, em que se dá conta da enorme consternação que se apoderou de toda a Comunidade Educativa, devido à morte, por colapso cardíaco, de um dos vigilantes, quando tentava dominar um aluno desordeiro.
Começa assim:
«Morreu um de nós: um daqueles que zelava pela segurança de todos (alunos, funcionários e professores); o nosso elo mais forte, em pleno exercício das suas funções.
            […] Já na Direção Executiva, e perante o continuado comportamento violento, o vigilante Correia, manietando o aluno, manteve-se como pilar determinante na segurança física de outros elementos da Comunidade Educativa, que tentavam também intervir. Mais de dez pessoas tentaram, sem sucesso, conter o aluno!
Assim, perante uma violência física e emocional tão demorada e brutal, o vigilante Correia colapsou».
E assim termina, depois de circunstanciadamente se narrarem os factos e as reacções da Direcção Regional de Educação do Norte:
«Morreu o Sr. Correia, dizemos. Já tinha problemas de saúde, dirão. Nos olhos uns dos outros lemos: “Mataram o Sr. Correia!”».
A carta tem como finalidade não remediar o que já não tem remédio, mas gerar uma corrente que leve as entidades e, designadamente, os Serviços Tutelares de Menores a terem uma acção mais acutilante. E – que me seja permitido acrescentar – sei do que falo, porque fui, no ano lectivo de 1963-1964, professor na Escola Profissional de Santo António, em Izeda, nessa altura dependente dos Serviços Tutelares de Menores, e tive a meu cargo jovens delinquentes de idades entre os 12 e os 15 anos.

Publicado em Cyberjornal, edição de 16-02-2013:

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

«De Igaedo à Senhora do Almotão» - um livro ingénuo e bem intencionado

            Foi apresentado em Lisboa, no passado dia 26 de Janeiro, o livro De Igaedo à Senhora do Almotão, da autoria de Joaquina Salgueiro da Silva Celestino, edição da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova, com data de 2012 e ISBN 978-972-8285-68-5 [Fig. 1].
            Em «Aos leitores», texto datado de Julho de 2009, explica a Autora como lhe surgiu a ideia de escrever este livro. Aluna de D. Fernando de Almeida na Faculdade de Letras de Lisboa na década de 60, sendo natural de Idanha (nasceu em 1946), cedo se deixou entusiasmar por esta sequência cultual que radica na veneração romana pela divindade indígena Igaedus, cujo ex-voto [Fig. 2], dedicado por Caetronia Vitalis¸ fora identificado pelo seu professor, justamente perto do santuário à Senhora do Almortão, o que, de resto, motivara de imediato, por parte de D. Fernando de Almeida, essa aproximação de cultos, explicável, naturalmente, por o próprio lugar ter em si algo que se poderia considerar fora do habitual, aquilo a que os Romanos chamariam o Genius loci, o «Génio do Lugar». Aquele «sempre foi, desde o princípio dos tempos, “um lugar sagrado”», conclui.
            De 176 páginas, tem o livro «introdução» do Padre Adelino Américo Lourenço, prior de Idanha-a-Nova, que salienta como o culto à Senhora do Almortão está visceralmente entranhado na «alma do Povo da Idanha».
Divide-se a obra em duas partes mui distintas. Demonstra-se, na primeira, «Água Murta – um lugar sagrado», a sacralidade do lugar (p. 11-63); dá-se conta, na segunda, de todo um repertório poético – que facilmente integraríamos na esfera do património imaterial – relativo à Senhora do Almortão.
Formada em História, docente de História e de Português ao longo da vida, Joaquina Celestino dedica, pois, essa primeira parte a amplas considerações de ordem histórica, linguística e etnológica para mostrar a originalidade não apenas das gentes de Idanha mas de tudo o que sobremaneira as caracteriza, como é esse culto mariano, elemento agregador, por excelência, ao longo dos tempos e desde as mais remotas eras, e o próprio adufe, instrumento musical que, de certo modo, lhes pauta o viver quotidiano.

Um livro ingénuo
            «Ingénuo» foi uma das primeiras palavras que me ocorreu para caracterizar o volume, dando à palavra o seu significado concreto, sem qualquer laivo depreciativo. Por a Autora ter aproveitado a circunstância para publicar as suas pinturas a pastel plenas de ingenuidade, totalmente integráveis no que vulgarmente se designa por pintura «naïve»? Não duvido que também isso pesou na minha classificação. Aliás, perpassa por toda a maquetização essa ingenuidade, a denunciar a inexistência por perto de um gráfico, de um revisor (escreve-se, na p. 163, que Igaeditanorum equivale a dizer «da tribo lusitana dos Igaedus»!...) ou de uma pessoa com alguns conhecimentos de edição: os mapas, de tão pequenos, resultam ilegíveis; em contrapartida, a título de exemplo, o desenho do jarro (que, com a devida vénia, reproduzo – Fig. 3) identificado como «objecto egípcio» ocupa toda a pág. 29. Houve grande preocupação em tudo ilustrar quer por meio de desenhos – os tais desenhos a pastel, naïfs – quer, sobretudo, com fotografias, que são dezenas, umas claramente da autora, outras retiradas de livros, mas sem indicação de proveniência.
            Integra-se Igaedus no rol das divindades que temos designado de indígenas, por somente estar atestado o seu culto em local determinado e ostentarem designação nitidamente pré-romana. Ora aqui reside toda a problemática em torno da qual Joaquina Celestino se situa na I parte do seu livro, tomando como base da argumentação autores que apontam, por exemplo, para a existência de uma língua lusitana (sem aspas), mui provavelmente derivada de um idioma proveniente do Médio Oriente.
Essa eventual ‘proximidade’ com o Médio Oriente leva-a, designadamente, a salientar a existência de um culto à Deusa-Mãe e, de modo muito especial, à deusa egípcia Ísis.
Como se sabe, a fonte primordial para o conhecimento desses cultos durante o período romano são as epígrafes, os ex-votos que os fiéis mandavam fazer em reconhecimento por um favor recebido. Que se conheça, não há, na epigrafia da civitas Igaeditanorum, um testemunho do culto a essa divindade, que, a nível do Império Romano e na Lusitânia, era divindade especialmente querida por gentes urbanas, ligadas aos negócios. Encontramo-la atestada em Bracara Augusta, em Alcácer do Sal (Salacia), em Beja (Pax Iulia), em ambientes assaz cosmopolitas, como acontece, de resto, com esses cultos mistéricos. A Grande Mãe dos Deuses era Cíbele, também de origem oriental – e desta igualmente se não têm testemunhos na Idanha romana.
            Compreende-se, pois, que, não estando muito à vontade nestas temáticas, a Autora facilmente se deixe levar pelo seu sentimento e lhe saiam, ao correr da pena, frases como esta:
            «Por todo o decadente Império Romano se assistiu ao «êxito histórico» da transformação dos cultos a Cíbele, a Afrodite, a Vénus, a Múrcia e outras deusas pagãs que mais não eram do que diferentes faces de Ísis, no culto a Maria, Nossa Senhora e Nossa Mãe» (p. 35).
            Deixemos de lado o facto de Vénus e Afrodite serem a mesma divindade, Vénus o nome latino, Afrodite o nome grego; e Múrcia, uma das designações sob que Vénus foi invocada, relacionada com o facto de a murta ser planta a ela consagrada, como o fora a Afrodite. Juntar todos esses cultos sob a «capa» de Ísis e partir desta para o culto a Nossa Senhora torna-se deveras aliciante, mas… não carecerá de comprovação? Não se poderá ver aqui o eco de pregações antigas em que se procurava demonstrar como, afinal, os rostos podem mudar mas a essência não muda? Como interpretar a afirmação «A Grande deusa dos egípcios esteve por muito tempo em nosso solo» (p. 32)? Mormente se levarmos em linha de conta que, logo de seguida, se cita Jean-Paul Bourre, autor do Dicionário Templário: «Os Templários a reverenciavam sob o nome de Mãe Natureza e, depois, sob o nome de Nossa Senhora»…
            Debruça-se Joaquina Celestino sobre a etimologia do topónimo Almortão, que também escreve Almotão e Almurtão. Considera que «parece aceitar-se ter origem em murtão, a moitão ou moutão ou, ainda, moita de murta» (p. 38). Dá impressão que aceita essa derivação a partir do nome da planta, quiçá abundante no local e à qual, por tradição, se atribuem propriedades terapêuticas e não desprovidas também de um certo halo esotérico; contudo, adverte logo a seguir: «Espero por último que não optem pela velha tese de “começa por AL, é de origem árabe” mesmo quando referenciam nomes muito anteriores às influências desse povo no nosso território. Ousem olhar mais além…» (p. 42). De facto, na página anterior, faz referência ao termo «muttam», da língua tamul do Sul da Índia, um idioma da família do indo-europeu (afirma), vocábulo que teria sido «transposto para o português como “moutão” (lugar onde há moitas, isto é, tufos de vegetação)»; e alude ao termo «mottam» do germânico antigo, com o significado de «lugar alto, monte de terra»; e, ainda, ao provençal «moutton». Uma incursão, reconheça-se, deveras sinuosa, quando se nos afigura normal que, tal como moitão é um lugar de moitas, murtão seja um lugar de murtas. Quanto ao prefixo al-, equivalente ao artigo definido ‘o’, ele foi aplicado pelos árabes a tudo o que era nome concreto, quer de objectos, quer de topónimos, independentemente da etimologia da palavra e da sua filiação neste ou naquele ‘estrato linguístico’. Por conseguinte, em meu entender, não carecemos de vaguear pelo Médio Oriente nem seguir pelo Malabar para se compreender que a designação de Almortão (com o ou com u) detém um significado físico relacionado com o específico revestimento vegetal do lugar – sacralizado ou não que ele seja.
            Parece desconhecer a Autora o que nesse domínio da religiosidade pré-romana se tem investigado, um domínio, aliás, controverso e eriçado de não poucas dificuldades. Embrenhar-se assim ligeiramente por elucubrações de ordem filológica, num terreno hoje basto palmilhado pelos investigadores, que, inclusive, periodicamente se reúnem nos colóquios sobre línguas e culturas páleo-hispânicas (em Valência, decorreu, no passado mês de Outubro de 2012, o XI da série, iniciada em Salamanca, em Maio de 1974), perdoar-me-á a Autora, mas é, no modo como discreteia, ingenuidade que, todavia, se compreende, atendendo à bibliografia a que teve acesso.

Um livro bem intencionado
A obra detém, no entanto, um interesse e uma actualidade flagrantes quando a encaramos como repositório do que se denomina «património imaterial»: as crenças, as festividades, a poesia popular… enfim, a alma de um povo nessas manifestações bem retratada.
Foi, pois, intenção da Autora dar a conhecer não apenas o que era hábito fazer-se em louvor da Senhora do Almortão, práticas prenhes de tradição e de religiosidade, mas também as «novas quadras» que a devoção à Senhora lhe inspiraram a ela e a outros também, verdadeiros «cantares de romaria», na peugada da ancestral inspiração enraizada nas trovas medievais, eco, quiçá, das Cantigas de Santa Maria, de Afonso X, de Castela. Um cancioneiro que, desta forma, aqui se deixa impresso em letra de forma, para que se não perca: «os louvores à Virgem, a Jesus e aos Santos; as preces, os agradecimentos, mas também os namoros, as flores, as árvores, os animais, as fontes, o ambiente que rodeia a ermida e até o próprio tempo que fazia. Quem as canta são, de acordo com a tradição, as mulheres» (p. 72-73).
Quadras bem ao jeito popular, numa sequência a que não falta o refrão (qual coro de vetustas representações teatrais!...), que, curiosamente, «na maior parte dos casos, nada tem a ver com as quadras cantadas» (p. 73), mas se retira de uma cantiga popular em voga e que bem presente está no ouvido das cantadeiras. E sempre, sempre, a presença indispensável do adufe, instrumento sobre que a Autora tece igualmente amplas considerações, não se esquecendo de citar, na p. 60, passagens bíblicas em que esse instrumento é referido: «Maria, a profetisa, irmã de Aarão, tomou um adufe, e todas as mulheres a seguiram, com as mesmas atitudes, cânticos e danças», lê-se logo no Êxodo (15, 20), o primeiro livro do Antigo Testamento.
Para além do cancioneiro, um outro contributo deveras importante nos traz este De Igaedo à Senhora do Alçmotão: as ilustrações! Quer sejam as já referidas pinturas naïves da Autora quer, de modo especial, o acervo imenso de fotografias, a documentarem todos os aspectos do lugar, as tábuas de milagres (pena que de reduzida dimensão…) e todos os passos das manifestações religiosas que em torno da Senhora se desenvolvem, uma Senhora cuja imagem é «de vestir» e que, por conseguinte, faz questão em envergar os mais requintados e magnificentes e valiosos mantos criados pelo desprendimento dos seus devotos (Fig. 4). Bem andou, por isso, a Câmara Municipal de Idanha-a-Nova em patrocinar a edição.

Um grito de alerta
            Não poderia, contudo, terminar esta apreciação crítica do livro de Joaquina Celestino sem me fazer eco, mais uma vez, do que já se sabia, do que se sabe, mas que… parece que continua a desconhecer-se! E há que recordá-lo, para que depressa se tomem as medidas urgentes que se impõem. Não vale a pena pensar-se na preservação do património imaterial se se esquece um outro, bem mais palpável, que é o património arqueológico.
Conta Joaquina Celestino o que sempre ouviu: «as vozes dos que trabalharam na construção do canal mestre que distribui a água da Barragem pela campina» (p. 30). Refere-se à Barragem Marechal Carmona, no rio Ponsul, inaugurada em 1946. E que contavam os trabalhadores? «Que pedaços de mosaicos e cerâmica de variegadas cores apareciam, constantemente, à frente das escavadoras; que também apareceram moedas e pequenas estatuetas; que tal sucedia, já mais recentemente, quando se lavrava a terra fosse com arados ou com tractores; que surgiam grandes potes de cerâmica…».
Trata-se de uma descrição do passado, dir-se-á, em que ainda não havia a consciencialização (nem a lei!) de que «grandes empreendimentos públicos ou privados que envolvam significativa transformação da topografia ou paisagem» (cito uma passagem da Lei de Bases do Património Cultural, a Lei nº 107-2001, de 8 de Setembro) têm forçosamente de se fazer com o devido acompanhamento arqueológico. Sim, é do passado! No entanto, o importante, o grave é o que a Autora escreve depois (p. 30), enterrando bem os dedos na ferida:
«Sei também que, ainda hoje, se apanha cerâmica pela campina fora; que continua a aparecer mosaico romano à frente dos tractores que lavram as terras e que há tambores de colunas em paredes, muitas, já em ruínas…».
E então? Vamos continuar assim?
Igaedus – divindade indígena, que deu nome aos Igaeditani, povo que teve cidade fundada, possivelmente no ano de 34 a. C., pelo procônsul Gaio Norbano Flaco, a civitas Igaeditanorum, que jaz sob o casario de Idanha-a-Velha cedeu seu lugar à Senhora do Almortão, padroeira também ela da fertilidade agrícola da campina e da riqueza das suas apetecidas minas de ouro. Requer-se hoje que, além da protecção espiritual, uma efectiva protecção político-administrativa venha a concretizar-se.
Gostaríamos que Joaquina Celestino, que até foi orientadora de estágios (daí a sua preocupação em apresentar, no final, explicações das fotos, uma cronologia e um glossário), nos houvesse proporcionado obra com maior rigor histórico, inclusive na forma de citar os autores consultados. Não teria sido despropositado que houvesse incluído na bibliografia não só o livro clássico do seu (e meu!) Mestre, D. Fernando de Almeida, Egitânia, História e Arqueologia (Lisboa, 1956), mas também um artigo dele que esteve, decerto, na origem do seu entusiasmo – «Igaedus, divindade lusitana, e a Senhora do Almortão» Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, 3ª série, 8, 1964, p. 65-73 – artigo que motiva um dos seus desenhos naïfs (Fig. 5), mas que, incompreensivelmente, não inclui na bibliografia da p. 165. Igualmente não se acredita que, idanhense de gema, não haja tido conhecimento da obra de Ana Marques de Sá, Civitas Igaeditanorum: Os Deuses e os Homens, editada precisamente pelo Município de Idanha-a-Nova, em 2007.
É, pois, uma obra que importava fazer, para desbravar terreno, para levantar questões e, sobretudo, para registar um património imaterial sempre em risco de se perder na época de matriz materialista em que estamos sobrevivendo.

Publicado em Cyberjornal, edição de 14 de Fevereiro de 2013:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=17858&Itemid=30

Afinal, a técnica é… um técnico! (Ou a ignorância instalada ao mais alto nível)

            Já suspeitava há algum tempo que esta sanha dos políticos contra os professores radicava no facto de eles, os políticos e seus ajudantes, não terem sido bons alunos em História e em Português.
            De História já temos provas bastantes que pouco sabem, porque – queiram ou não – a História é «mestra da vida» e, como o Povo diz, «quem semeia ventos colhe tempestades», sendo, para isso, necessário saber História para ter ideia do que é «vento» e do que é «tempestade», noções diferentes das usadas em contexto do Instituto da Atmosfera e do Mar (outra linda ‘coisa’ que ora inventaram para se ter novo logótipo e baralhar a escrita ou simplificá-la, porque se duvidava sempre se era ‘metereológico’ ou meteorológico!...). Quanto ao Português, os atentados são diários e o que mais nos admira é não haver quem ponha cobro nisto.
            Já todos nos entendemos em relação à presidenta. Não há como escapar: é presidente, substantivo comum-de-dois, como rezavam as gramáticas (não sei o que ora rezam, porque também aí os teóricos gostam de atrapalhar os sexagenários como eu). É presidente, é lente, é crente… quer seja do género feminino quer masculino.
            Descobri agora uma outra novidade, que deve ter saído de um bestunto inteligente: uma senhora que tenha a categoria de técnico superior é… técnico superior! E como tal se tem de assinar! Como se uma senhora que tenha o cargo de direcção de uma Escola seja, obrigatoriamente, «o director». Ou seja: esse do tal bestunto que isso ordenou oficialmente (e digo isto, porque me está a aparecer na identificação de funcionários públicos) não sabe distinguir a função da pessoa que a exerce! A função é masculina, a pessoa é masculina ou feminina se o seu nome for masculino ou feminino.
Já a mesma inépcia verbero constantemente a propósito de umas normas que há sobre o modo de citar bibliografia, emanadas, ao que parece, de um grupo de estudiosos para o efeito nomeado. Aconteceu (esta é a minha ideia!) que, no momento em que estavam a escrever as regras, se não aperceberam que o computador umas vezes põe hífen, outras travessão conforme lhe dá na real gana. Não viram, pronto! E, como numa das regras onde deve estar um travessão e não um hífen (que têm funções diferentes na frase, como vulgarmente se sabe…) saiu um hífen, por mais que a gente barafuste, tem de se pôr hífen, tem de se pôr hífen, mesmo que se saiba que está incorrecto.
Eu já escrevi lá para a Biblioteca Nacional de Portugal, que é (segundo me disseram) o sítio onde podem fazer alguma coisa para emendar o erro. Respondeste-me tu? Assim responderam eles! Nem sequer acusaram a recepção!
Que é que se lhes há-de fazer?!...

Publicado no quinzenário Renascimento (Mangualde), nº 610, 15-02-2013, p. 11.

 

Andarilhanças 64

Romano Esteves
            Todos os anos a Sociedade Propaganda de Cascais brinda os seus associados com um postal de Boas Festas que veicula um pouco da história da instituição. Um gesto mui oportuno, que Joaquim da Piedade Aguiar houve por bem introduzir, para que as memórias se não percam.
            Este ano, recordou-se a figura do «pintor e revolucionário» Francisco Romano Esteves (1882-1960), o 1º presidente da Comissão de Propaganda de Cascais (de 12-3-1934 a 8-4-1935). É dele o quadro realista «Explicação do avô», patente no Museu dos Condes de Castro Guimarães.

Obras
             Cascais – a vila e o interior – andam numa azáfama pegada. Obras por tudo quanto é sítio; «desvio» é a placa amarela mais presente nas nossas vidas quotidianas: andamos sempre num desvio! Por vezes, não se sabe lá muito bem porquê, mas… também é normal que os senhores que mandam nestas coisas de pôr placas e deixá-las mesmo depois dos trabalhos prontos sejam nossos bons amigos e assim contribuam para que não criemos hábitos e lutemos contra a doença de Alzheimer. O pior é se esses desvios, como amiúde acontece, não só não se encontram em bom estado como nos obrigam a um trajecto muito mais longo, com o consequente aumento do consumo de combustível numa época em que todos – mas todos! – estamos a apertar o cinto! Numa palavra: não há respeito!

Rua Dr. Viegas
No dia 6 de Fevereiro, surpresa: a Rua Dr. Fernando Baptista Viegas, frente ao tribunal de Cascais fora arranjada, depois de anos a fio as viaturas andarem ali como num carrossel, pois o pavimento abatera pouco depois da construção do parque subterrâneo. Quando por ali passava, o povo perguntava: «Mas não há quem veja isto?». Já viram. Demorou muito, mas viram. Em boa hora!

Caça à multa
            Um amigo enviou-me imagens que mostram como os agentes policiais põem, mui disfarçadamente, os radares, a fim de caçarem multas a quem anda distraído. Todos os pretextos são bons: uma carrinha de caixa aberta como se estivesse empanada, a esquina de uma antiga casinha de cantoneiros…
Só há uma forma de os dissuadir: cumprir! E, quando se não está de acordo com determinada regra, reclamar e verificar se, na verdade, essa regra cumpre as regras de implantação. Por exemplo, no caso de uma estrada municipal, se está exarada no verso a deliberação camarária que a estipulou… Nem sempre está – e, por conseguinte, não tem valor!

Agenda do… Executivo
Fui surpreendido, na sexta-feira, 8, por receber, do Gabinete de Imprensa da CMC, «a agenda do Executivo da Câmara Municipal de Cascais para o período compreendido entre os dias 9 e 15 de Fevereiro de 2013».
Não posso deixar de aplaudir, porque a Câmara não é apenas o seu Presidente (até agora, era-nos enviada a agenda do Presidente, só) mas todo o seu Executivo e não é obrigatório que o Presidente vá a todas, pode delegar num ou noutro vereador. Talvez também seja esta uma forma de os demais vereadores começarem a aparecer, nomeadamente nas iniciativas que mais directamente se prendem com os seus pelouros. Congratulo-me.
Claro, é compreensível: há aqui já uma pontinha de campanha eleitora; mas releve-se esse pormenor em favor da maior visibilidade de uma equipa!

Misericórdias cimentam união
            A Misericórdia de Cascais assumiu, por intermédio da sua Provedora, a presidência do Secretariado Regional de Lisboa da União das Misericórdias Portuguesas. Terceira idade, saúde, sustentabilidade, educação constituem os pilares em que vai doravante assentar a sua acção, na procura incessante de um trabalho em equipa cada vez mais efectivo. Juntos mais se logrará alcançar!

Despesas
            Não, não vou comentar os tão badalados 13 000 euros que, segundo veio na Comunicação Social, a autarquia cascalense terá gasto em promoção da sua imagem junto da Internacional Socialista, que escolheu Cascais para a sua reunião. Refiro-me a ‘pequenas coisas’ que, ao olhar do cidadão comum, não têm sentido ou, pelo menos, se lhe afiguram despropositadas em tempos de contenção. Sim, eu sei que é preciso dar de comer aos senhores das tipografias (que andam pelas ruas da amargura), aos designers gráficos (que esmolam de porta em porta), mas… era mesmo preciso mudar o nome do Serviço Meteorológico Nacional de Portugal, que nós comummente chamávamos de Serviços Meteorológicos e todos percebíamos, para Instituto Português do Mar e da Atmosfera?
            E, numa altura em que se começaram a divulgar notícias sobre peixe que estava a ser vendido em más condições de higiene e de conservação, gasta-se dinheiro em vultosas campanhas contra a apanha de peixe miúdo (ai, lá se vão os meus deliciosos joquinzinhos e os choquinhos à algarvia!...) e, por outro lado, uma organização dependente ou patrocinada pelo Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (não havia nome mais curto, que é que se lhes há-de fazer?...), a Fileira do Pescado (www.fileiradopescado.com), faz esbeltos cartazes em excelente papel couché e distribui a consultórios médicos e outras entidades, por via postal, uma circular, datada de 21 de Dezembro de 2012, no âmbito da campanha «Pescado é Saúde!», incitando a que se divulgue essa ideia: coma-se peixe! Certo. Mas… se, em vez disso, angariassem mais apoios para os nossos marítimos e lograssem fiscalizar mais eficazmente os nossos pesqueiros, dado que falam outra língua, que não a nossa, os que devastam os nossos cardumes, é sabido…? Benza-os Deus!
 
            Publicado em Jornal de Cascais, nº 331, 13.02.2013, p. 6.