sábado, 23 de fevereiro de 2013

Centro de Interpretação Ambiental da Pedra do Sal, onde o olhar se espraia e se deleita…

           Inaugurado a 7 de Setembro de 2005, o Centro de Interpretação Ambiental da Pedra do Sal (CIAPS), em S. Pedro do Estoril, constitui um daqueles recantos onde o olhar se espraia e o espírito se deleita na aprendizagem de múltiplas ciências, desde a Arqueologia à Geologia, passando até pela estratégia militar… Vale a pena ir lá – uma e outra vez!

Uma visita
            E fui lá de novo aqui há uns tempos, precisamente a 11 de Junho de 2011.
           O painel de boas-vindas ainda tem o nome primeiro (de Ponta do Sal) e anuncia o que há: cafetaria, sanitários, zona de estada (esplanada, praça exterior, miradouro – algumas letras foram roubadas…), anfiteatro, património... Indica o horário (encerra às segundas) e informa que nasceu da iniciativa do Instituto da Água em colaboração com a Câmara Municipal de Cascais.
            Passei junto do que resta da gruta pré-histórica; apreciei o piso de gravilha consolidada, em quadriculado de paralelepípedos em calçada à portuguesa; achei bonitos os moroiços de lioz em lascas e de fragmentos do lapiás, por onde espreita alegre vegetação xerófila.
            Para oriente, a praia de S. Pedro, nesse dia pejada de gente; mais além, o folheado da falésia até à Parede. Ao fundo, o dorso preguiçoso da Arrábida, a desafiar o oceano do alto do seu Cabo Espichel. Em frente, o mar sem fim – o «caminho do Atlântico»… – , ponteado de cargueiros à espera de vez para entrar na barra...
           Desce-se para o miradouro virtual, bem publicitado, mas… inoperacional e sem qualquer informação por perto. E é, à frente, a imensa placa do lapiás, com uma idade entre os 90 e os 120 milhares de anos, «extensa e horizontal plataforma de abrasão resultante da grande exposição aos agentes erosivos», onde a água, retida na vazante, acabava por se evaporar e deixar nas concavidades o precioso sal, que os pescadores aproveitavam – daí a razão do nome: Pedra do Sal. Pesca-se à cana, aqui e além…
           E apetece regalar-nos na esplanada. Sim, poder-se-ia ir para poente, que há motivos de sobejo encanto: o anfiteatro, a paisagem, a vegetação autóctone, o ar puro…

As grutas pré-históricas
            É importante, do ponto de vista histórico, o espólio encontrado nessas grutas aquando das escavações ali levadas a efeito, em 1944, por Leonel Ribeiro, que – juntamente com dois outros arqueólogos, Vera Leisner e Leonel Ribeiro – haveria de publicar a monografia Grutas Artificiais de S. Pedro do Estoril (Lisboa, 1964), a dar conta dos resultados obtidos.
           Dentre esse espólio – como, aliás, reza a folhinha desbotada e com 20 linhas de letra miúda que está junto à arriba – as taças de pé, de cerâmica, e os anéis espiralados de ouro são, sem dúvida, os mais conhecidos. E os cilindros de calcário, «objectos rituais relacionados com pequenos santuários», escreve-se. Linguagem difícil de entender para o visitante médio, quiçá…
          Podem ver-se esses materiais na Sala de Arqueologia do Museu dos Condes de Castro Guimarães; mas, se calhar, não ficaria mal maior atenção e realce a esse invulgar vestígio arqueológico, nomeadamente procedendo a periódicas limpezas do local (propício a vazadouro de lixo) e erradicando as piteiras que lá crescem. Uma das fotos de Danilo Pavone que ilustram a folhinha mostra a arriba à noite, com três pontos de luz. Adequada iluminação do espaço que subsiste da câmara funerária dessa gruta de há 5000 anos atrás não seria, de facto, despicienda.

Artilharia de costa
           Dois dos edifícios de pedra que se encontram a caminho da plataforma do miradouro virtual estão directamente ligados à bateria da Parede. Abriga um deles um projector com a seguinte identificação em placa que lhe está afixada:
 
PROJECTOR FORTRESS 90 C/M MKVI
CLARKE CHAPMAN
Nº 8136
1940

            É imponente, o mecanismo oleado, o pavimento limpo. Sobre ele (deve ser adorno!...) uma embalagem vazia de cones de gelado. Na vidraça envolvente, grafitos vários a roxo e verde…
            Anote-se, como curiosidade, que a empresa fabricante foi criada pelo engenheiro inglês William Clarke, em 1864; a designação Clarke Chapman deriva do facto de, em 1893, se ter associado ao capitão William Chapman. Da sua actividade realce-se o fabrico, a partir de 1886, de projectores para uso a bordo de navios e, a partir do ano seguinte, de geradores portáteis e de faróis de busca destinados aos navios que passavam pelo Canal de Suez.
            A explicação do significado da implantação do projector ali está mais acima, perto da outra casinha – essa, hermética, de janela com grades e impenetrável, abriga o gerador. Uma folha de 14 linhas, em corpo 12, quase completamente indecifrável. Fala-se em II Guerra Mundial, em Plano Barron, em forças alemãs… É referência à reorganização da artilharia antiaérea e de costa, feita no final da década de 40 (os projectores foram instalados em 1948) para melhor defesa da barra de Lisboa. «Cada bateria de Artilharia de Costa estava equipada com três projectores que tinham por função cooperar na defesa nocturna». Neste caso, a bateria estava lá no Alto da Parede e o projector acendia-se cá em baixo, quase ao nível do mar, para identificar os navios.

Uma lição de geologia
            Atenção muito especial merece o opúsculo Guia de Campo da Geologia do Litoral da Pedra do Sal, da autoria de Miguel Magalhães Ramalho.
            Ilustrados com magníficas fotografias, de extraordinária beleza e muito elucidativas da riqueza geológica do local, são explicados tintim por tintim quatro percursos, onde se ensina a ler as rochas e a apreciar a sua rara beleza. A história da Terra escrita no solo…

«Ponto de encontro com o ambiente»
            E, na verdade, o CIAPS representa, de modo muito especial, esse ponto de encontro com o ambiente, especialmente vocacionado para apoiar actividades escolares e outras (ainda no dia 15 lá se foi ver o eclipse da Lua!...). «Há biodiversidade na Pedra do Sal», «Encontra o tesouro do Capitão Concha», «Vem construir um herbário», «Os caminhos da gotinha», «Sábados divertidos»… são algumas das dez actividades que ora ali se propõem, com horários próprios e inscrição prévia, para crianças dos 3 aos 10 anos.
           Apoio fundamental é o Espaço Multiusos, de traça bem integrada na paisagem, sala de exposições e de atendimento, auditório com 36 lugares. Alimentam-no 5 microturbinas eólicas (um projecto classificado em 1º lugar, a 27 de Janeiro de 2010, na área de «gestão de energia – parceiros para a inovação»).
           Dois atenciosos jovens, ali colocados no âmbito do programa camarário de Ocupação dos Jovens, amavelmente me proporcionaram todas as explicações, mormente as que se prendiam com a exposição de trabalhos de escolas básicas do concelho feitos à base de materiais reaproveitados; patente de 30 de Maio a 27 de Junho, incitava o público a premiar o que considerasse o trabalho mais bem conseguido nessa tónica de alertar para a biodiversidade e a defesa do ambiente.
           Para além dos painéis explicativos, registe-se a instalação de um “Touch Tank”, «pequeno aquário, que pretende reproduzir à escala o ecossistema da “poças de maré” existente na ZIBA – Zona de Interesse Biofísico das Avencas».
           S. Pedro do Estoril merecia, de facto, um lugar assim!

Publicado no Cyberjornal, edição de 23-02-2013:

 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O Roteiro do Museu Condes de Castro Guimarães

            Foi apresentado na tarde de  4 de Abril de 2009 o livro Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães – Roteiro, realizado com coordenação científica e apresentando editorial da responsabilidade da Dra. Carla Varela Fernandes, que superintendia então aos museus municipais, como Coordenadora da Divisão de Museus.
            Trata-se de mais uma edição da Câmara Municipal de Cascais, datada desse ano de 2009: 189 páginas, ilustradas, a cores, ISBN: 978-972-537-186.1, versões em português e em inglês.
            Foi salientado ser o primeiro roteiro concebido nestes moldes em mais de 75 anos de existência do museu, «com base em estudos realizados por especialistas de cada uma das matérias abordadas». Não é, contudo, o primeiro roteiro do museu: houve um, dos primeiros tempos, e João Alfredo Donas de Sá Pessoa, que aí foi conservador de 1974 a 1976, elaborou um novo roteiro, ainda que de apenas 24 páginas.
            O palácio, primeiramente designado Torre de S. Sebastião, legado pelos Condes de Castro Guimarães ao Município de Cascais, é, no fundo, uma casa-museu, pois 'vive' do espólio por eles deixado, de que se destaca a preciosa biblioteca, com volumes raros, de grande interesse histórico-documental, entre os quais a Crónica do Mui Esclarecido Príncipe D. Afonso Henriques, de Duarte Galvão, com a mui conhecida iluminura a retratar Lisboa e o seu porto no séc. XVI. Contudo, para além disso, há as pinturas e outras obras de arte, há mobiliário (notável a sala do indo-português), faianças e, sobretudo, o «deleite espiritual» que a «casa» pode proporcionar a quem a visita, como preconizava o grande museólogo João Couto.
            Constitui, pois, o Roteiro síntese substancial acerca da importância do acervo ali exposto, pois que houve o cuidado de chamar, como se disse, especialistas para escreverem sobre os diferentes tipos de espólio nele existentes
            Assim, traça Sandra Leandro uma panorâmica da maravilha que é, do ponto de vista arquitectónico, este edifício ‘revivalista’ de primórdios do século XX, devido ao génio do arquitecto Jorge O’Neill (1849-1925), inspirado na cenográfica fantasia de Manini (o arquitecto da Quinta da Regaleira), debruçado sobre um dos recantos mais bonitos da vila de Cascais, a enseada de Santa Marta (p. 11-41). Vítor Silva traz a sua interpretação, em termos assaz esotéricos, do jardim que o Conde encomendou para enquadramento do edifício e, sobretudo, do local onde, com a esposa, queria vir a ser sepultado (p. 43-51). Coube a Miguel Soromenho a descrição da ermida de S. Sebastião, precioso templo, ricamente decorado de azulejaria, datável do século XVI (p. 53-61). Maria Assunção Júdice refere-se (p. 63-67) às preciosidades bibliográficas que o Conde foi adquirindo, entre as quais edições raras datadas dos séculos XVII e XVIII e, como atrás se disse, a magnífica Crónica, da autoria de Duarte Galvão, a cuja importância histórico-documental Paulo Pereira dedica as p. 69-73 do Roteiro. A colecção de pintura – quer os quadros que foram pertença do Conde quer os que, ao longo dos anos, o Município foi adquirindo, para a enriquecer, nomeadamente no que respeita a obras cuja temática tivesse a ver com Cascais – é analisada por Isabel Falcão (p. 75-99), cabendo-lhe também o capítulo da escultura (p. 101-111). José António Proença chama a atenção para as peças do mobiliário, tanto o português como, sobretudo, indo-português, de que o museu detém singular colecção. Leonor d’Orey – que em 2005 estudara, em monografia, A Colecção de Ourivesaria do Museu Condes de Castro Guimarães, luxuosa edição do Município local – apresenta aqui uma síntese dessa pesquisa, mostrando a originalidade e riqueza das baixelas daquela casa condal.
            Mas não nos ficamos por aqui, pois Maria Antónia Pinto de Matos dá conta do que de admirável há na colecção de porcelana chinesa (p. 147-155); Luís Manuel de Araújo, com a competência que lhe é reconhecida, mostra-nos o «núcleo egípcio» formado por “dois pequenos escaravelhos inscritos na base, um disco solar com um ofídio em posição frontal, uma estatueta da deusa Taueret (protectora das mulheres grávidas) e outra do deus Bês (protector da intimidade do lar), além de uma conta de faiança»; além destas seis peças, há ainda «três imitações algo frustres» de peças egípcias (p. 157). Victor S. Gonçalves, dá conta, por seu turno, do espólio arqueológico que no museu se foi guardando, resultante das campanhas de escavação efectuadas em sítios do concelho desde finais do século XIX: o que há da gruta do Poço Velho, das grutas de Alapraia e de S. Pedro do Estoril, as cerâmicas campaniformes, os artefactos votivos de calcário, dando, a concluir, informação acerca do interesse de dois povoados do 3º milénio, sitos em Parede e no Estoril (p.165-171). Aliás, nesse mesmo dia 4 de Abril, se abriu a nova sala destinada a apresentar essa notável colecção arqueológica.
             Termina o roteiro – que, pode dizer-se, é também quase um verdadeiro catálogo – por um texto de José António Proença acerca de outros objectos, não enquadráveis em nenhuma das categorias anteriores, mas que assumem, no contexto, real valor: realça a colcha da Índia em seda natural, bordada, do século XVII, que se expõe no quarto dos condes; o órgão de tubos, fabricado em Braga, por Augusto Joaquim Claro, que se mostra na Sala de Música do museu – seguramente um dos seus recantos mais acolhedores – e que ainda hoje, de vez em quando, funciona; era, aliás, a música um dos passatempos preferidos do Conde, sendo ele proprio exímio organista...
            A bibliografia (p. 181-189) arrola as principais obras citadas, onde falta, naturalmente, por a quase totalidade dos autores não ser de Cascais, a referência ao muito que, por exemplo na imprensa local, ao longo dos tempos se tem escrito sobre o edifício e sobre o museu. Também não seria, quiçá, esse o sítio adequado para essa ‘excursão’; no entanto, cremos que nenhum dos autores terá tido a percepção do interesse da imprensa para ajuizar de como a população sente um monumento e, nesse caso, um museu, que foi, até há pouco tempo, o único museu de Cascais.
            Nele se desenrolaram, na verdade, algumas experiências pioneiras, dada a sua proximidade de Lisboa e o facto de o palácio ter sido legado ao povo de Cascais no final da década de 20 do século passado, por disposição testamentária e com cláusulas precisas acerca do seu funcionamento e do seu ‘relacionamento’ com a população cascalense. Recorde-se que João Couto, figura ímpar da Museologia portuguesa, foi seu conservador; recorde-se que o nome oficial do museu é Museu-Biblioteca, devido à relevância enorme que nele tem o acervo bibliográfico que o Conde fez questão em pôr ao dispor de todos. Aliás, outro dos conservadores que por ali passou foi Branquinho da Fonseca que ensaiou, por isso mesmo, a iniciativa de uma biblioteca itinerante (que, aos domingos, tinha um percurso definido pelas terras do interior do concelho, a fim de levar livros à população, que os mantinha sob empréstimo durante um mês), iniciativa que Branquinho da Fonseca levaria depois para a Fundação Calouste Gulbenkian, implantando a orgânica das bibliotecas itinerantes por todo o País. Relevo especial merece também a conservadora Dra. Alice Beaumont – que mais tarde viria a dirigir o Museu Nacional de Arte Antiga – pelo empenho posto na criação dos Serviços Educativos para as crianças, quando essa actividade ainda dava os primeiros passos quer no Museu da Gulbenkian quer no Museu Nacional de Arte Antiga.
            De excelente apresentação gráfica, o presente Roteiro constitui, pois, aliciante e irrecusável proposta para uma demorada visita.

 
Publicado no Cyberjornal, edição de 20 de Fevereiro de 2013:
Divulgado através da lista museum, a 21 de Fevereiro de 2013:

 

 
                                  

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A nau Nossa Senhora dos Mártires vai ser evocada em Oeiras

             Organizada pela Ordem de Cavalaria do Sagrado Portugal, com a colaboração da Câmara Municipal de Oeiras e o patrocínio do Arsenal do Alfeite, vai realizar-se na Marina de Oeiras, no próximo fim-de-semana, dias 23 e 24, uma recriação histórica relativa à Nau Nossa Senhora dos Mártires, que, vinda da carreira das Índias, ali defronte naufragou em Setembro de 1606.
            Recorde-se que, por ocasião da Expo’98, no leito do Tejo se realizaram escavações subaquáticas, tendo parte dos materiais exumados sido expostos no Pavilhão de Portugal.
            Superintenderam à recriação histórica elementos do Instituto Superior Técnico e os Voluntários Reais da Associação Portuguesa de Recriação Histórica.
            O que se pretende é mostrar algumas das actividades, nomeadamente bélicas (haverá um canhão, bestas, um pique, um mosqueteiro vestido à século XVII…), que certamente se desenvolveram a bordo da nau, de que já uma réplica ali se encontra exposta. Aliás, o projecto dos promotores é mesmo acabarem por fazer, daqui até 2014, uma outra réplica em tamanho real!
            Horário previsto: sábado, 23, das 15 às 22 horas; domingo, das 10 às 16.

Publicado em Cyberjornal, edição de 19 de Fevereiro de 2013:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=17887&Itemid=67

Autarquias e património arqueológico

            Tem-se comentado ultimamente o relacionamento das autarquias com o seu património arqueológico. Se os autarcas – presidentes de Câmara e de juntas de freguesia, vereadores da Cultura (e não só) – visitavam os sítios arqueológicos, nomeadamente aquando da realização de campanhas de sondagem ou de escavação.
            Creio não andar longe da verdade se, vistos os depoimentos que vieram a lume, afirmarmos que, de um modo geral, os autarcas estão conscientes da importância que o património arqueológico detém como ‘ícone’ de uma memória e de uma identidade a valorizar. Nem sempre disporão das verbas necessárias para o efeito; nem sempre agirão com a força necessária para suster determinado investimento imobiliário que não preserva esses vestígios; mas o balanço é positivo.
            Nas câmaras da Grande Lisboa, por exemplo, esse apoio é bem evidente, ainda que nem todas vejam com bons olhos alguma ‘superintendência’, nesse domínio, da Assembleia Distrital de Lisboa e se hajam negado – como foi o caso da de Cascais – a contribuir para esse fim. No entanto, se podemos falar da Amadora, de Torres Vedras, de Vila Franca de Xira ou, mesmo, da Câmara Municipal de Lisboa, nesse aspecto pensamos não exagerar quando se afirma que Oeiras bem cedo compreendeu esse superior interesse da Arqueologia.
            O apoio incondicional dado ao estudo e valorização do povoado de Leceia é disso exemplo deveras sintomático. Mas há, no complexo da Fábrica da Pólvora de Barcarena, um pólo museológico dedicado expressamente à arqueologia oeirense. E há, de modo muito especial, o apoio incondicional dado à continuação de publicação da revista Estudos Arqueológicos de Oeiras, ainda que – de quando em vez – eles não digam respeito em exclusivo ao território oeirense. Claro que, nesse aspecto, tem valido a intercessão do Doutor João Luís Cardoso, que vem superintendendo com saber e toda a diplomacia, a essa actividade – e merece, por isso, o maior encómio.
            Vêm estas considerações também a propósito da recente publicação do volume 19 (2012) dos Estudos Arqueológicos de Oeiras, correspondendo à edição – por parte da Câmara, através do Centro de Estudos Arqueológicos do Concelho de Oeiras - das Actas do IX Congresso Ibérico de Arqueometria, cujos editores científicos foram a Doutora M. Isabel Dias (Instituto Superior Técnico/Instituto tecnológico e Nuclear) e o referido Doutor João Luís Cardoso.
            Esta reunião, de carácter bianual, realizou-se pela primeira vez entre nós (Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 26 a 28 de Outubro 2011), numa organização do Grupo de Geoquímica Aplicada & Luminescência no Património Cultural (GeoLuC) do Instituto Tecnológico e Nuclear (ITN) e da Sociedade de Arqueometria Aplicada ao Património Cultural (SAPaC). E o volume de actas dá conta do elevado interesse das comunicações ali apresentadas e em boa hora vindas a lume e postas à disposição da comunidade científica.

Publicado em Cyberjornal, edição de 19 de Fevereiro de 2013:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=17888&Itemid=30

Um sonho a abraçar

           «A novidade mais interessante é que Carlos e eu estamos a pôr a hipótese de ter um bebé. Eu não sou muito de crianças; quer dizer, se vier a morrer sem ter filhos, pois ‘no me va a pasar nada’. Como a Carlos, ao invés, o encantam, parece-me algo egoísta da minha parte privá-lo dessa experiência. Quem me verá de mamã, se o sonho se concretiza! Ou, então, ainda descubro que sou uma mãe-galinha e me dedico de corpo e alma a tratar dos filhos. Como foi a tua experiência como pai? Eu o que creio é que os filhos não beneficiam nada o casal».
            Recordei o Hugo, nascido a 1 de Janeiro, ao receber este e-mail. Soubera que Rosa fora também responsável:
– Matilde, conta connosco! Leva-me essa gravidez prá frente, claro! Quero abraçar essa criança. Vais senti-la crescer dentro de ti. E eu estou contigo – para o que der e vier.
            O Hugo nasceu.
            À Raquel não resisti, portanto; respondi no minuto seguinte, quase sem olhar para as teclas do computador:
– É, sem dúvida, uma experiência aliciante! Diferente a atitude da mãe da do pai, como é evidente. A mãe jura que não vai querer mais filhos; o pai fica todo embevecido com o seu herdeiro. Os avós, esses, doidos de alegria, nem imaginas!... Quase vale a pena ter um filho só para poder dar essa alegria aos avós! Os filhos podem ajudar a criar conflitos entre o casal, mas, no fundo, são também um enorme elo de união. O que interessa mesmo é que o filho seja querido por ambos, o resultado de uma grande ternura que se tem a dois.
Também este sonho da Raquel eu quero, um dia, poder abraçar!…
           
                                             José d'Encarnação

«O que Fizeste da Vida, José?»

            A pergunta – tive essa sensação bem clara – caiu inesperada que nem tiro à queima-roupa vindo não se sabe donde:
– Tenho um amigo que já ronda os 80, mantém uma jovialidade inigualável e escreveu livro de memórias, de capa marota: «O que Fizeste  da Vida, José?». E agora pergunto eu: «Que querem fazer da vida vocês? Tu aí, Sandra, que queres fazer? E tu, Dário?…».
Silêncio sepulcral a tombar, pesado, na suavidade da manhã.
– Sonhos, meninos! Quero agarrá-los também! Que já tens 23 anos, namoras decerto, o curso vai acabar dentro de quatro meses, num ápice… E depois? Contem-me dos sonhos!
Não os havia. Assim, conscientes, definidos, agarrados, na corda que se prende firme à falésia para se alcançar o cimo… Ou não mos quiseram confiar.
Tive, porém, a sensação de que a pergunta fora mesmo inesperada. O Zé do livro de capa marota, dias depois, foi da mesma opinião que eu.
E senti responsabilidade imensa!
Lembrei-me daquele jovem padre, dos arredores de Turim, 2º quartel do século XIX, revolução industrial em pleno, crianças maltrapilhas sem saberem que fazer. Arranjou-lhes bolas de trapos, um nó na batina à ilharga e deu em jogar com eles. E passou a marcar encontro todos os domingos de manhã. E, durante a semana, os putos iam sonhando com a bola de trapos e o padre e as conversas que ele tinha e os sonhos que lhes contava – como a raposa do «Principezinho», que alvitrou hora marcada de encontro para que o sonho melhor se corporizasse… D. Bosco (era ele esse padre…) tem colégios por todo o mundo – a ensinar como sonhos podem tornar-se realidade. O Principezinho regressou, uma tarde, para o seu misterioso asteróide, lá onde plantara uma flor para que, à noite, todas as estrelas lhe parecessem floridas… – e nós continuamos a sonhar com ele, que nos ensinou sonhos bons:
«Importa que os homens se metam nos comboios e saibam para onde vão!…».
 
                                                  José d'Encarnação
 
Post-scriptum: O livro citado é da autoria do Prof. José Esteves e foi publicado pela Multinova, em 2001, com o ISBN 972-0035-78-4.

 

Ele não vinha pescar

           Por um carreiro insuspeitado, eu já ouvira falar, mas não sabia que era por ali… Degraus a descer com cuidado, o mar azul hoje, mansinho, ondulação leve ao fundo, bem no fundo. No voo sereno das gaivotas, compassado, imagino, naquele pio suave e alegre, «eles não saibam que o sonho…»! – cântico emblemático, a transportar-me ao sol-pôr… Hoje, o Sol, de certeza, vai estar aqui bem alaranjado, disco enorme e lento, a levar sonhos, a despertar sonhos, na certeza de que, amanhã, redondo e quente, aparecerá do lado do Tejo, «ó Sol, sabes que me apetece aninhar-me em ti?»… São a pique as rochas. Um casal de pombos bravos esvoaça numa perseguição de beijos, no sonho de um ovo galado e de um novo piar de plumagem feia no refego escuso da falésia.
Era ali.
Junto de uma escarpa lisa, dois homens de maior idade haviam estendido as cordas, amarrado bem as ilhargas, olhando para o cimo (25 metros seriam, lisos)… Conseguiriam escalar. Era o seu sonho para este sábado de Inverno primaveril.
A poente, outra rocha a pique, magote de jovens. A Escola de Escalada da Guia em actividade plena, a explicar que chegar ao topo, pé aqui, pé acolá, na tenacidade, na autoconfiança… Um sonho atingível aquele cimo. Reluziam as argolas onde se deveriam amarrar… Escola de Escalada da Guia. Era ali!
Pouco antes de nós, pelos mesmos degraus a esconderem-se nas anfractuosidades da rocha, descera um jovem, mochila aos ombros. Sentara-se no bico dum dos blocos para ali tombados há muitas décadas. Poisara a mochila, olhara o mar, cruzara as pernas. Vai meditar – pensei. Que o ambiente se presta a um encontro consigo, no fim de uma semana frenética, a pesar os sonhos, agarrando uns, afastando outros – que há joio a separar do trigo… Ná!… Ali, afinal, o sonho dele era outro, chamava-se evasão… Vivia num palácio e sonhava com a choupana ou vivia na choupana e queria viver em palácio…
Rosa ficara para trás, a dado passo, numa intuição feminina:
– Eu bem me parecia – comentou. – Ele não vinha pescar, nem ler, nem deliciar-se com as escaladas… Que pena!…
Evolava-se fumo cinzento de um pedaço de papel prateado. Brilho de prata a desfazer-se em fumo. Viagem quiçá sem retorno; ou com mais retornos, mais retornos, a sonhos inacessíveis, desesperados – sem ninho de pombos bravos na anfractuosidade aconchegada da fraga...

                                               José d’Encarnação