sexta-feira, 8 de março de 2013

Arte de Cascais mostra-se em S. Brás de Alportel

            A partir da década de 40 do século passado, muito são-brasenses, nomeadamente os ligados ao trabalho nas pedreiras vieram para Cascais. Era o azulino cascalense muito procurado então para as obras na capital e, por isso, mais mão-de-obra se tornava necessária e os canteiros são-brasenses, recém-vindos das obras no Marrocos francês, não hesitaram em pegar nas trouxas e demandaram plagas cascalenses.
            O intercâmbio entre Cascais e S. Brás de Alportel nunca assumiu, porém, foros oficiais, apenas a nível individual se fazia. É, pois, com o maior pareço que anuncio estar prevista para o próximo dia 16 (um sábado) a inauguração, a partir das 18 horas, no Museu do Trajo, em S. Brás de Alportel, de uma exposição colectiva de pintura – subordinada ao tema Viajarte – levada a efeito justamente por artistas que em Cascais têm feito a sua carreira e são por demais nossos conhecidos: Fátima Ramalho, Teresa Black, Ormond Fannon e Guilherme Parente.
            Tanto em Cascais como em S. Brás a colónia estrangeira é significativa e estamos certos de que este poderá ser o primeiro passo de um maior intercâmbio cultural e, neste caso, artístico, entre os dois concelhos.
            Pela minha parte, não deixarei de chamar a atenção dos são-brasenses para o elevado significado que detém esta iniciativa – para a qual, naturalmente, como são-brasense radicado em Cascais, auguro o maior êxito, até porque os laç-s de amizade, neste caso, residem tanto lá como cá, pois pertenço ao Grupo de Amigos do Museu do Trajo e, por isso, muito me congratulo!

Publicado no Cyberjornal, edição de 07-03-2013:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=17974&Itemid=67

sexta-feira, 1 de março de 2013

Os tiros nos pés

             Era uma desonra! Caçador que levasse arma carregada e, distraído, puxasse o gatilho e desse um tiro nos pés! Pior do que sair-lhe o tiro pela culatra! Ficava irradiado do grupo de amigos e só depois de bem consistentes desculpas é que lograria voltar a calcorrear com eles montes e vales em busca de lebre ou de perdiz.
            Pois tiros nos pés são, agora, especialidade dos que «governam» a Europa e, por arrasto, Portugal. «Vistos e ouvistos», escusam, agora, de vir com paninhos quentes: essa ideia, mesmo que seja antiguinha, lá do governo do senhor Guterres mas que nunca foi posta em uso porque se deve ter compreendido logo que era argolada das grandes, essa ideia de pôr o Povo a fiscalizar o Povo – «Pediste factura? E compraste o chupa-chupa sem factura? Não pode ser!»… – é tiro no pé!
            Claro, os técnicos vieram logo explicar:
            «Mesmo que esteja sentado num café e veja um cliente a recusar uma factura, não posso agir sem uma ordem de serviço», explicou Paulo Ralha, presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos, acrescentando que estes profissionais só podem «agir numa situação de flagrante delito e nunca a posteriori».
            Então não se passa a mesma coisa com os ladrões? Só em flagrante delito! Apanhado com a boca na botija!...
            Portanto, todo esse alarido… um tiro no pé!
            O pior é que, concomitantemente, neste caso também ocorreu a outra façanha: vai o tiro sair pela culatra! Ou seja, como é bem de ver, quanto mais querem apertar a malha, pela repressão, mais o Zé-povinho descobre os buracos na rede e… lá vai ele!
            E tudo isso porquê? Por falta de motivação! Por não se ver direito que vale a pena fazer sacrifícios, nós, os pobres, que já tantos fazemos no dia-a-dia, roubados por quem não é nunca apanhado em flagrante delito!
            Mas… eu falei em «motivação»? Bolas, saiu-me! Isso é palavra da Pedagogia e da Didáctica e disso é que eles, «vistos e ouvistos», não percebem mesmo nada!
 
Publicado no quinzenário Renascimento (Mangualde), nº 611, 01-03-2013, p. 11.

Andarilhanças 65

Acelera na leitura, moço!
            Esta não lembrava ao Diabo. Alembrou, no entanto, a um senhor ministro, professor catedrático de Matemática e Estatística no Instituto Superior de Economia e Gestão!
            Claro, tinha que ser!
            Não bastava sermos habitualmente tratados como números, também agora as criancinhas têm de ler tantas palavras por minuto!... É o objectivo de cada ano: cada vez mais palavras por minuto! Não interessa se percebem, ou não, o que estão a ler; não interessa que saibam dar a entoação certa; não interessa que saibam fazer as pausas como convém; não interessa se os outros compreendem, ou não, o que estás a ler. «Isso agora não interessa nada!», como diria Teresa Guilherme nos melhores momentos da «Casa dos Segredos» ou no primeiro «Big Brother».
            O senhor ministro, que vem lá das estatísticas (tinha que ser!), quer que os putos se preparem para papaguear rápido, como naqueles anúncios pagos ao segundo, em que não interessa nada se a gente percebe ou não. Aliás, nem aquilo que eles dizem é para perceber, como as letras miudinhas dos contratos dos seguros...
            Benza-o Deus, senhor ministro! Sou cristão e só por isso o não mando para as profundezas do Inferno!

O canto das Areias do Guincho
            Mostrou-me Toni Muchaxo, extasiado, a página em que vinha a novidade. Dera, em Março de 2004, à família Ishizuka, «defensora do meio ambiente», um frasco com areia da praia do Guincho. Regressados ao Japão, entregaram o frasco a um cientista, que gravou «o som das areias do Guincho». E, pelo que lhe foi dado verificar, esse som demonstrou-lhe que «a Praia do Guincho é uma das praias mais limpas de todo o planeta Terra»! Ora toma! São areias que cantam!

Semáforos na Av. Infante D. Henrique
            Foram implantados semáforos próximo do topo norte da Av. Infante D. Henrique, em Cascais. Ali desembocam duas das ruas que servem a Escola Azevedo Coutinho e é, pois, zona de muito movimento de jovens; assim, disciplinam-se estudantes e condutores. Boa ideia!
            Boa ideia foi também essa de dar mais visibilidade – com pisca-pisca azulinho! – às placas indicativas de passagens de peões.

Médico de família
            Hoje – tirando aquela bizarria do senhor ministro – só queremos boas notícias.
            Outra é das cartas que a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo enviou com vista à actualização das listas de utentes. Assim, quem, à data de 8 de Janeiro, não apresentar «qualquer registo de contacto com nenhuma das unidades prestadoras de cuidados de saúde primários desta Administração Regional de Saúde» e quiser «manter a suas inscrição activa» deverá, «no prazo máximo de 90 dias» – não se diz a partir de quando, porque a carta não tem data, mas supõe-se que será a partir do referido dia 8 –, informar dessa intenção a unidade de saúde a que pertence, «presencialmente ou por contacto telefónico».
            Mais informa essa circular que, mesmo sendo classificado como «utente inscrito no ACES sem contacto nos últimos 3 anos» é garantido o acesso às prestações de saúde habituais; por outro lado, importa que se procurem actualizar os dados.
            Medida do maior alcance, nomeadamente no que concerne ao rol de doentes adscritos ao médico de família. E, se pensarmos que muita gente muda de residência, a acção ora empreendida é digna do maior encómio. Da caixa de correio de um dos apartamentos arrendados num dos bairros da freguesia de Cascais pude eu próprio retirar, e devolver, nada mais do que cinco dessa cartas, referentes a inquilinos que, ao longo dos último anos tiveram aquela morada e ainda não haviam dado baixa dela.

Publicado em Jornal de Cascais, nº 332, 27.02.2013, p. 6.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O encanto das fotografias antigas

             Recordo, com frequência, o telefonema de uma senhora: «Tenho aqui uma gaveta cheia de fotografias antigas, que não sei que hei-de fazer delas, não conheço parte das pessoas que lá estão… quere-as?». Claro que quis! E, nas aulas que dou a futuros técnicos culturais autárquicos, nunca me esqueço de lhes chamar a atenção para esse espólio que importa preservar, mormente quando se suspeita que alguém dele se vai desfazer. Se se pensar que preciosas fotografias do espólio de Michel Giacometti foram, in extremis, salvas da lixeira!...
            Felizmente, a mensagem vai passando. Inúmeros municípios incluíram essa preocupação nos objectivos do seu departamento cultural; fizeram exposições; editaram álbuns…
            Nesse aspecto, o nosso núcleo museológico de Alportel foi pioneiro – e eu tive ocasião de o ver a 26 de Setembro de 2008 – ao dedicar um mês, se não erro, a uma família ou a uma pessoa e isso era pretexto para se recolherem fotos… Aliás, não vem na agenda São Brás Acontece de Janeiro, na pág. 34, o convite a que todos os são-brasenses, no âmbito das comemorações do centenário, que se aproxima, partilhem «as suas fotografias, vídeos, memorias e histórias destas 10 décadas», enviando tudo para centenario@cm-sbras.pt?
            Não me admirei, portanto, e muito me regozijei por a Associação Portuguesa de Museologia ter dado, em 2012, uma menção honrosa ao nosso Museu do Trajo, na modalidade «Criatividade e Inovação», justamente devido ao projecto «Fotografia e Memória» que briosamente está a ser levado a cabo pelo chamado «Grupo das Quintas». Já têm mais de 20 000 imagens, referentes a cerca de 200 famílias. É obra! O processo pode ser consultado no endereço da Internet http://www.museu-sbras.com/grupo-fotos.html
            Parabéns!

Publicado em Noticias de S. Braz, nº 195, 20-02-2013, p. 15.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

«Eles ‘andem’ aí!» – uma crítica aos costumes e à governação

             Encheu-se o Teatro Gil Vicente, de Cascais, na noite de sábado, 23, para assistir à reposição da revista «Eles ‘andem’ aí!», levada à cena pelo Grupo Cénico da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Cascais.
            A reposição constituiu também ensejo para – na presença dos presidentes da Câmara e da Junta de Freguesia – ser entregue ao Grupo, no intervalo entre os dois actos, o crachá de ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses, como preito de homenagem no âmbito das comemorações do seu centenário.

A crítica oportuna
            Ainda que o cunho local seja dado, primordialmente, pelos cenários – figuras da sociedade ou da política cascalense não têm sido suficientemente ‘vistosas’ para inspirar quadros de revista… –, o mote inicial é um dos desenhos de Rafael Bordalo Pinheiro de crítica à opressão nos primórdios republicanos. Os eles que, na altura, andavem aí eram bem diferentes dos de hoje, mas o medo que instilam na população e, sobretudo, os danos que lhe causam são, porventura, ainda maiores que cacetadas ou alguma cena de tiroteio… O quadro final, a evocar palácio de vampiros, é, nesse aspecto, deveras significativo e o guarda-roupa dos actores revela-se, na circunstância, bem explícito, a revelar os agentes económicos que, superiormente, quais sanguinários vampiros, nos sugam até ao tutano!...
            Crítica, pois, da governação e crítica de costumes, como não podia deixar de ser, com momentos sérios (como aquele em que se verberam os que arrastam os jovens para a droga) e, sobretudo, momentos de grande ironia, em que o trocadilho sugere, não explicita, e faz rir, na senda da sábia máxima «castigat ridendo mores»: é a rir que se castigam os costumes! E, nesse aspecto, como é natural, cenas ligadas à prostituição, à dita infidelidade conjugal, à homossexualidade detêm êxito garantido, servidas, de resto, por actores que, com à-vontade, se mexem no palco e sabem meter oportunas «buchas» quando os espectadores menos esperam.

Cascais
            Do que mais se prende com a vida cascalense, ressaltaria os momentos de fado, não porque revista sem fado não é revista, sabe-se bem, mas pelo que isso significa no ^âmbito da nossa tradição, que urge reabilitar (e há zunzuns de que se está seriamente a pensar nisso): Cascais foi sempre e, de modo especial, na década de 60, alfobre de fadistas, uma das terras do «fado fora de portas» depois de o Campo Grande, por exemplo, já ter deixado de o ser, porque englobado no crescimento urbano. Temos hoje uma nova geração de fadistas que vive em Cascais, que se ‘fazem’ e’em Cascais e as revistas do Grupo Cénico nunca deixaram morrer essa tradição.
            Eloquente ainda, nesse aspecto, embora possa referir-se ao País, a evocação do trabalho dos calceteiros: a calçada portuguesa que, em Cascais, se inspira nos motivos piscatórios. Bonito, o quadro; sugestivo, mais uma vez, o guarda-roupa – aliás, uma das grandes mais-valias, devida ao engenho do Quim Carvalho, responsável também, ao que suponho, pela quase totalidade das coreografias, se não de todas.

Uma sugestão
            E esta última frase leva-me a uma sugestão.
            Eu sei que há todo um trabalho de equipa e que ninguém se quer pôr em bicos de pés. Assim se há-de continuar a trabalhar. Contudo, quiçá não onerasse muito as despesas do espectáculo a elaboração de um programa, embora singelo, onde se discriminasse não apenas a sequência dos quadros, mas os actores, os autores dos textos e – porque não? – se transcrevessem também alguns dos textos cantados, porque assim se captaria melhor a malícia e a subtileza da crítica «ao estado a que isto chegou»! Creio que poderia ser também um bom veículo de publicidade a alguns mecenas.
            Trata-se, não o esqueçamos, e a determinado momento do espectáculo isso bem se sublinha, trata-se de uma manifestação cultural e tanto a Câmara como a Junta de Freguesia não desdenharão, decerto, em dar o seu apoio nesse sentido.
            O Grupo Cénico tem página no facebook: http://www.facebook.com/#!/gcenicoahbvc?fref=ts . Há que consultá-la não apenas para lá se colocar o «gosto!», mas também para se saber quando a peça vai à cena. Dessa página retirámos, com a devida vénia, as imagens que ilustram esta crónica, no caloroso voto de renovados êxitos para tão briosa equipa!

Publicado em Cyberjornal, 24-02-2013:

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Centro de Interpretação Ambiental da Pedra do Sal, onde o olhar se espraia e se deleita…

           Inaugurado a 7 de Setembro de 2005, o Centro de Interpretação Ambiental da Pedra do Sal (CIAPS), em S. Pedro do Estoril, constitui um daqueles recantos onde o olhar se espraia e o espírito se deleita na aprendizagem de múltiplas ciências, desde a Arqueologia à Geologia, passando até pela estratégia militar… Vale a pena ir lá – uma e outra vez!

Uma visita
            E fui lá de novo aqui há uns tempos, precisamente a 11 de Junho de 2011.
           O painel de boas-vindas ainda tem o nome primeiro (de Ponta do Sal) e anuncia o que há: cafetaria, sanitários, zona de estada (esplanada, praça exterior, miradouro – algumas letras foram roubadas…), anfiteatro, património... Indica o horário (encerra às segundas) e informa que nasceu da iniciativa do Instituto da Água em colaboração com a Câmara Municipal de Cascais.
            Passei junto do que resta da gruta pré-histórica; apreciei o piso de gravilha consolidada, em quadriculado de paralelepípedos em calçada à portuguesa; achei bonitos os moroiços de lioz em lascas e de fragmentos do lapiás, por onde espreita alegre vegetação xerófila.
            Para oriente, a praia de S. Pedro, nesse dia pejada de gente; mais além, o folheado da falésia até à Parede. Ao fundo, o dorso preguiçoso da Arrábida, a desafiar o oceano do alto do seu Cabo Espichel. Em frente, o mar sem fim – o «caminho do Atlântico»… – , ponteado de cargueiros à espera de vez para entrar na barra...
           Desce-se para o miradouro virtual, bem publicitado, mas… inoperacional e sem qualquer informação por perto. E é, à frente, a imensa placa do lapiás, com uma idade entre os 90 e os 120 milhares de anos, «extensa e horizontal plataforma de abrasão resultante da grande exposição aos agentes erosivos», onde a água, retida na vazante, acabava por se evaporar e deixar nas concavidades o precioso sal, que os pescadores aproveitavam – daí a razão do nome: Pedra do Sal. Pesca-se à cana, aqui e além…
           E apetece regalar-nos na esplanada. Sim, poder-se-ia ir para poente, que há motivos de sobejo encanto: o anfiteatro, a paisagem, a vegetação autóctone, o ar puro…

As grutas pré-históricas
            É importante, do ponto de vista histórico, o espólio encontrado nessas grutas aquando das escavações ali levadas a efeito, em 1944, por Leonel Ribeiro, que – juntamente com dois outros arqueólogos, Vera Leisner e Leonel Ribeiro – haveria de publicar a monografia Grutas Artificiais de S. Pedro do Estoril (Lisboa, 1964), a dar conta dos resultados obtidos.
           Dentre esse espólio – como, aliás, reza a folhinha desbotada e com 20 linhas de letra miúda que está junto à arriba – as taças de pé, de cerâmica, e os anéis espiralados de ouro são, sem dúvida, os mais conhecidos. E os cilindros de calcário, «objectos rituais relacionados com pequenos santuários», escreve-se. Linguagem difícil de entender para o visitante médio, quiçá…
          Podem ver-se esses materiais na Sala de Arqueologia do Museu dos Condes de Castro Guimarães; mas, se calhar, não ficaria mal maior atenção e realce a esse invulgar vestígio arqueológico, nomeadamente procedendo a periódicas limpezas do local (propício a vazadouro de lixo) e erradicando as piteiras que lá crescem. Uma das fotos de Danilo Pavone que ilustram a folhinha mostra a arriba à noite, com três pontos de luz. Adequada iluminação do espaço que subsiste da câmara funerária dessa gruta de há 5000 anos atrás não seria, de facto, despicienda.

Artilharia de costa
           Dois dos edifícios de pedra que se encontram a caminho da plataforma do miradouro virtual estão directamente ligados à bateria da Parede. Abriga um deles um projector com a seguinte identificação em placa que lhe está afixada:
 
PROJECTOR FORTRESS 90 C/M MKVI
CLARKE CHAPMAN
Nº 8136
1940

            É imponente, o mecanismo oleado, o pavimento limpo. Sobre ele (deve ser adorno!...) uma embalagem vazia de cones de gelado. Na vidraça envolvente, grafitos vários a roxo e verde…
            Anote-se, como curiosidade, que a empresa fabricante foi criada pelo engenheiro inglês William Clarke, em 1864; a designação Clarke Chapman deriva do facto de, em 1893, se ter associado ao capitão William Chapman. Da sua actividade realce-se o fabrico, a partir de 1886, de projectores para uso a bordo de navios e, a partir do ano seguinte, de geradores portáteis e de faróis de busca destinados aos navios que passavam pelo Canal de Suez.
            A explicação do significado da implantação do projector ali está mais acima, perto da outra casinha – essa, hermética, de janela com grades e impenetrável, abriga o gerador. Uma folha de 14 linhas, em corpo 12, quase completamente indecifrável. Fala-se em II Guerra Mundial, em Plano Barron, em forças alemãs… É referência à reorganização da artilharia antiaérea e de costa, feita no final da década de 40 (os projectores foram instalados em 1948) para melhor defesa da barra de Lisboa. «Cada bateria de Artilharia de Costa estava equipada com três projectores que tinham por função cooperar na defesa nocturna». Neste caso, a bateria estava lá no Alto da Parede e o projector acendia-se cá em baixo, quase ao nível do mar, para identificar os navios.

Uma lição de geologia
            Atenção muito especial merece o opúsculo Guia de Campo da Geologia do Litoral da Pedra do Sal, da autoria de Miguel Magalhães Ramalho.
            Ilustrados com magníficas fotografias, de extraordinária beleza e muito elucidativas da riqueza geológica do local, são explicados tintim por tintim quatro percursos, onde se ensina a ler as rochas e a apreciar a sua rara beleza. A história da Terra escrita no solo…

«Ponto de encontro com o ambiente»
            E, na verdade, o CIAPS representa, de modo muito especial, esse ponto de encontro com o ambiente, especialmente vocacionado para apoiar actividades escolares e outras (ainda no dia 15 lá se foi ver o eclipse da Lua!...). «Há biodiversidade na Pedra do Sal», «Encontra o tesouro do Capitão Concha», «Vem construir um herbário», «Os caminhos da gotinha», «Sábados divertidos»… são algumas das dez actividades que ora ali se propõem, com horários próprios e inscrição prévia, para crianças dos 3 aos 10 anos.
           Apoio fundamental é o Espaço Multiusos, de traça bem integrada na paisagem, sala de exposições e de atendimento, auditório com 36 lugares. Alimentam-no 5 microturbinas eólicas (um projecto classificado em 1º lugar, a 27 de Janeiro de 2010, na área de «gestão de energia – parceiros para a inovação»).
           Dois atenciosos jovens, ali colocados no âmbito do programa camarário de Ocupação dos Jovens, amavelmente me proporcionaram todas as explicações, mormente as que se prendiam com a exposição de trabalhos de escolas básicas do concelho feitos à base de materiais reaproveitados; patente de 30 de Maio a 27 de Junho, incitava o público a premiar o que considerasse o trabalho mais bem conseguido nessa tónica de alertar para a biodiversidade e a defesa do ambiente.
           Para além dos painéis explicativos, registe-se a instalação de um “Touch Tank”, «pequeno aquário, que pretende reproduzir à escala o ecossistema da “poças de maré” existente na ZIBA – Zona de Interesse Biofísico das Avencas».
           S. Pedro do Estoril merecia, de facto, um lugar assim!

Publicado no Cyberjornal, edição de 23-02-2013:

 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O Roteiro do Museu Condes de Castro Guimarães

            Foi apresentado na tarde de  4 de Abril de 2009 o livro Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães – Roteiro, realizado com coordenação científica e apresentando editorial da responsabilidade da Dra. Carla Varela Fernandes, que superintendia então aos museus municipais, como Coordenadora da Divisão de Museus.
            Trata-se de mais uma edição da Câmara Municipal de Cascais, datada desse ano de 2009: 189 páginas, ilustradas, a cores, ISBN: 978-972-537-186.1, versões em português e em inglês.
            Foi salientado ser o primeiro roteiro concebido nestes moldes em mais de 75 anos de existência do museu, «com base em estudos realizados por especialistas de cada uma das matérias abordadas». Não é, contudo, o primeiro roteiro do museu: houve um, dos primeiros tempos, e João Alfredo Donas de Sá Pessoa, que aí foi conservador de 1974 a 1976, elaborou um novo roteiro, ainda que de apenas 24 páginas.
            O palácio, primeiramente designado Torre de S. Sebastião, legado pelos Condes de Castro Guimarães ao Município de Cascais, é, no fundo, uma casa-museu, pois 'vive' do espólio por eles deixado, de que se destaca a preciosa biblioteca, com volumes raros, de grande interesse histórico-documental, entre os quais a Crónica do Mui Esclarecido Príncipe D. Afonso Henriques, de Duarte Galvão, com a mui conhecida iluminura a retratar Lisboa e o seu porto no séc. XVI. Contudo, para além disso, há as pinturas e outras obras de arte, há mobiliário (notável a sala do indo-português), faianças e, sobretudo, o «deleite espiritual» que a «casa» pode proporcionar a quem a visita, como preconizava o grande museólogo João Couto.
            Constitui, pois, o Roteiro síntese substancial acerca da importância do acervo ali exposto, pois que houve o cuidado de chamar, como se disse, especialistas para escreverem sobre os diferentes tipos de espólio nele existentes
            Assim, traça Sandra Leandro uma panorâmica da maravilha que é, do ponto de vista arquitectónico, este edifício ‘revivalista’ de primórdios do século XX, devido ao génio do arquitecto Jorge O’Neill (1849-1925), inspirado na cenográfica fantasia de Manini (o arquitecto da Quinta da Regaleira), debruçado sobre um dos recantos mais bonitos da vila de Cascais, a enseada de Santa Marta (p. 11-41). Vítor Silva traz a sua interpretação, em termos assaz esotéricos, do jardim que o Conde encomendou para enquadramento do edifício e, sobretudo, do local onde, com a esposa, queria vir a ser sepultado (p. 43-51). Coube a Miguel Soromenho a descrição da ermida de S. Sebastião, precioso templo, ricamente decorado de azulejaria, datável do século XVI (p. 53-61). Maria Assunção Júdice refere-se (p. 63-67) às preciosidades bibliográficas que o Conde foi adquirindo, entre as quais edições raras datadas dos séculos XVII e XVIII e, como atrás se disse, a magnífica Crónica, da autoria de Duarte Galvão, a cuja importância histórico-documental Paulo Pereira dedica as p. 69-73 do Roteiro. A colecção de pintura – quer os quadros que foram pertença do Conde quer os que, ao longo dos anos, o Município foi adquirindo, para a enriquecer, nomeadamente no que respeita a obras cuja temática tivesse a ver com Cascais – é analisada por Isabel Falcão (p. 75-99), cabendo-lhe também o capítulo da escultura (p. 101-111). José António Proença chama a atenção para as peças do mobiliário, tanto o português como, sobretudo, indo-português, de que o museu detém singular colecção. Leonor d’Orey – que em 2005 estudara, em monografia, A Colecção de Ourivesaria do Museu Condes de Castro Guimarães, luxuosa edição do Município local – apresenta aqui uma síntese dessa pesquisa, mostrando a originalidade e riqueza das baixelas daquela casa condal.
            Mas não nos ficamos por aqui, pois Maria Antónia Pinto de Matos dá conta do que de admirável há na colecção de porcelana chinesa (p. 147-155); Luís Manuel de Araújo, com a competência que lhe é reconhecida, mostra-nos o «núcleo egípcio» formado por “dois pequenos escaravelhos inscritos na base, um disco solar com um ofídio em posição frontal, uma estatueta da deusa Taueret (protectora das mulheres grávidas) e outra do deus Bês (protector da intimidade do lar), além de uma conta de faiança»; além destas seis peças, há ainda «três imitações algo frustres» de peças egípcias (p. 157). Victor S. Gonçalves, dá conta, por seu turno, do espólio arqueológico que no museu se foi guardando, resultante das campanhas de escavação efectuadas em sítios do concelho desde finais do século XIX: o que há da gruta do Poço Velho, das grutas de Alapraia e de S. Pedro do Estoril, as cerâmicas campaniformes, os artefactos votivos de calcário, dando, a concluir, informação acerca do interesse de dois povoados do 3º milénio, sitos em Parede e no Estoril (p.165-171). Aliás, nesse mesmo dia 4 de Abril, se abriu a nova sala destinada a apresentar essa notável colecção arqueológica.
             Termina o roteiro – que, pode dizer-se, é também quase um verdadeiro catálogo – por um texto de José António Proença acerca de outros objectos, não enquadráveis em nenhuma das categorias anteriores, mas que assumem, no contexto, real valor: realça a colcha da Índia em seda natural, bordada, do século XVII, que se expõe no quarto dos condes; o órgão de tubos, fabricado em Braga, por Augusto Joaquim Claro, que se mostra na Sala de Música do museu – seguramente um dos seus recantos mais acolhedores – e que ainda hoje, de vez em quando, funciona; era, aliás, a música um dos passatempos preferidos do Conde, sendo ele proprio exímio organista...
            A bibliografia (p. 181-189) arrola as principais obras citadas, onde falta, naturalmente, por a quase totalidade dos autores não ser de Cascais, a referência ao muito que, por exemplo na imprensa local, ao longo dos tempos se tem escrito sobre o edifício e sobre o museu. Também não seria, quiçá, esse o sítio adequado para essa ‘excursão’; no entanto, cremos que nenhum dos autores terá tido a percepção do interesse da imprensa para ajuizar de como a população sente um monumento e, nesse caso, um museu, que foi, até há pouco tempo, o único museu de Cascais.
            Nele se desenrolaram, na verdade, algumas experiências pioneiras, dada a sua proximidade de Lisboa e o facto de o palácio ter sido legado ao povo de Cascais no final da década de 20 do século passado, por disposição testamentária e com cláusulas precisas acerca do seu funcionamento e do seu ‘relacionamento’ com a população cascalense. Recorde-se que João Couto, figura ímpar da Museologia portuguesa, foi seu conservador; recorde-se que o nome oficial do museu é Museu-Biblioteca, devido à relevância enorme que nele tem o acervo bibliográfico que o Conde fez questão em pôr ao dispor de todos. Aliás, outro dos conservadores que por ali passou foi Branquinho da Fonseca que ensaiou, por isso mesmo, a iniciativa de uma biblioteca itinerante (que, aos domingos, tinha um percurso definido pelas terras do interior do concelho, a fim de levar livros à população, que os mantinha sob empréstimo durante um mês), iniciativa que Branquinho da Fonseca levaria depois para a Fundação Calouste Gulbenkian, implantando a orgânica das bibliotecas itinerantes por todo o País. Relevo especial merece também a conservadora Dra. Alice Beaumont – que mais tarde viria a dirigir o Museu Nacional de Arte Antiga – pelo empenho posto na criação dos Serviços Educativos para as crianças, quando essa actividade ainda dava os primeiros passos quer no Museu da Gulbenkian quer no Museu Nacional de Arte Antiga.
            De excelente apresentação gráfica, o presente Roteiro constitui, pois, aliciante e irrecusável proposta para uma demorada visita.

 
Publicado no Cyberjornal, edição de 20 de Fevereiro de 2013:
Divulgado através da lista museum, a 21 de Fevereiro de 2013: