Para
além de outras, uma das primeiras preocupações que tive, após o inesperado
encerramento do
Jornal da Costa do Sol
(última edição publicada a 14 de Janeiro de 2010), foi a de procurar acautelar
o seu espólio.
Na
verdade, nascido a 25 de Abril de 1964, Jornal
da Costa do Sol continha no seu arquivo toda a história de Cascais e também
de Oeiras, quer em textos, quer em documentação, quer em imagens, desde essa
época, porque acompanhava semanalmente o que de significativo se passava nesses
concelhos.
Toda
a colecção dos jornais está, é certo, disponível na biblioteca municipal;
contudo, para além da notícia que se faz, há as imagens que se guardam e se
seleccionam, a correspondência… Infelizmente, porém, parte bem volumosa desse
espólio já levara descaminho antes de – por deferência do proprietário do
imóvel, Vilar Gomes – os funcionários da Câmara terem metido ombros à tarefa de
juntar o que havia.
Logo
após o 25 de Abril, haviam desaparecido, por exemplo, as provas de censura, que
era um dos arquivos mais interessantes de que se dispunha, por mostrarem, na
realidade, como funcionava o «lápis azul» – e Jornal da Costa do Sol era, nas vésperas do 25 de Abril, juntamente
com o Jornal da Madeira, o Jornal do Fundão, o Notícias da Amadora, obrigado a mostrar aos censores provas de página,
porque… ‘eles’ não confiavam em nós!...
Recorde-se
que, na altura da chamada «Primavera marcelista», escrevia no Jornal da Costa do Sol Magalhães Mota,
que fazia o relato das sessões da Assembleia Nacional, amiúde censurado, como o
seriam também os textos, também sobre a Assembleia, saídos da pena de Viriato
Dias em 1972. Aliás, por ser feito na mesma tipografia – a Mirandela – em que
se começou a fazer o Expresso, houve
sempre uma grande ligação entre as equipas e Francisco Pinto Balsemão chegou a
assumir a direcção do jornal, de Março a Julho de 1976, uma experiência
‘profissionalizante’ que acabaria por não dar resultado e os membros da equipa
anterior houveram por bem regressar e recomeçar a publicação a 10 de Dezembro
desse ano.
Um observador atento da actividade autárquica
Foi
habitualmente «semanário dos concelhos de Cascais e de Oeiras», à excepção de
1981, em que, por dificuldades financeiras, se publicou quinzenalmente.
Exerceram
os seus redactores, sem peias, uma função de cidadania, o que nem sempre
quadrava bem ao poder autárquico instituído, com o qual o relacionamento – como
frequentemente acontece, por esse Portugal além, entre as autarquias e a
Comunicação Social local – se procurou manter isento de partidarismos, mas
difícil. Por exemplo, com Georges Dargent e, nomeadamente, com António Capucho,
a tensão foi constante, indo ao ponto de haver ordem expressa para ao jornal
não ser proporcionada publicidade, mesmo a institucional.
Asfixiado,
encerrou portas, como se disse, sem mais nem menos, no princípio de 2010. Os
accionistas de Publigráfica, SARL, a empresa proprietária, não tiveram
possibilidade de agir, dados os fortes condicionalismos económicos a que se
chegara e, desde então, o nosso receio era de que, de um momento para o outro, entrassem
por ali adentro os agentes judiciais e despejassem, sem tir-te nem guar-te, um
espólio histórico-documental ímpar.
Moveram-se
influências e, felizmente, podemos agora informar que, mercê delas, a
documentação ainda disponível acaba de dar entrada no Arquivo Municipal, onde
será devidamente tratada, a fim de vir a ser colocada ao alcance dos investigadores,
porque – sem receio de errar o afirmo – não pode fazer-se a história de Cascais
(e de Oeiras) nas últimas cinco décadas, sem uma leitura atenta das páginas do Jornal da Costa do Sol, do que nelas se
escreve e do que nelas não se pôde escrever e se subentende.
E eu (perdoe-se-me
a primeira pessoa), que (quase ininterruptamente) fiz parte do ‘projecto’ (como
hoje se diz), desde Outubro de 1967 até final (mais de quarenta anos!...),
particularmente me congratulo, como jornalista e como historiador, por as
negociações terem obtido o resultado que ora – pela pronta informação que me
foi disponibilizada pelo Dr. António Carvalho, irmanado comigo nestas preocupações
histórico-patrimoniais – tenho o gosto de anunciar.
Publicado em Cyberjornal, 2013-03-29: