quinta-feira, 11 de abril de 2013

Andarilhanças 68

Back office!
            Liguei, outro dia, para um número de telefone das Águas de Cascais. No meio da conversa, perguntei se o assunto em questão seria tratado na Aldeia de Juso.
            – Não, aí é o nosso back office!
            Senti uma tristeza imensa!

Árvores na Júlio Dinis
            A ideia foi boa: proporcionar sombra e um pouco mais de oxigénio nesta artéria do Bairro da Pampilheira, em Cascais. Sucede, porém, que as árvores cresceram, ocuparam o passeio (que já era minúsculo) e, agora, carrinho de bebé ou idoso tem de ir passar pelo meio da rua, pois que, entretanto, a via passou a ter apenas um sentido, a fim de possibilitar o estacionamento automóvel, que é precisamente desse lado.
            Custa-nos propor, mas – perante o que se vê – há que cortar as árvores!

Ainda o encerramento da 3ª circular
            Um abatimento na subida da 3ª circular na tarde do dia 20 de Março levou a PSP a cortar o trânsito no sentido do Cobre desde os semáforos sobre a Ribeira das Vinhas. Medida desastrosa, que não obedeceu a qualquer discernimento e que provocou um dos maiores engarrafamentos de que há memória desde aí até ao centro da vila, porque… não foram dadas alternativas a não ser a passagem pelo Carrascal de Alvide ou pelo Bairro S. José, o que congestionou tudo desde Alvide ao mercado de Cascais!
            Felizmente que – mais de três horas depois da ocorrência! – houve o bom senso de abrir ao trânsito ascendente uma das faixas sul, aliviando a pressão, como pode ver-se pelas fotos tiradas na manhã seguinte.
            Retomo o assunto para três apelos:
            1º) Há que ministrar aos agentes de autoridade que andam no terreno lições práticas de acção imediata;
            2º) Há que dar dois sentidos à rua que, no final da auto-estrada, pode permitir a saída para a zona de Birre, a fim de se evitar o constante engarrafamento na rotunda de Birre
            3º) Há a necessidade urgente de se retomarem os estudos de viabilização do traçado da 2ª circular, dado que o desenho do tráfego, à entrada leste da vila de Cascais, obriga toda a gente a ir à rotunda de confluência com a Avenida de Sintra.

A entrada para Alcabideche
            A sensação a se tem é que, por da cá aquela palha, os empreiteiros optam para solução mais fácil: encerrar ao trânsito as vias onde estão a fazer obras, com o maior desrespeito pela população e, inclusive, pelos transportes públicos.
            Esses desvios provocados por obras (porventura autorizados, embora eu não acredite, honra seja feita aos técnicos camarários!...) estão a pôr a cabeça em água aos automobilistas. Não se admite, por exemplo, que, para se abrir uma vala no troço da rua principal de Alcabideche entre a rua dos bombeiros e a rotunda do moinho, aí se corte o trânsito por completo e durante vários dias, o que obriga a desvios incríveis pelo emaranhado de ruas da povoação, cujos sentidos únicos originais se mantiveram, quando, nesta emergência, deveriam ser provisoriamente anulados. A possibilidade de dar sentidos, nomeadamente, à rua que serve o quartel dos bombeiros seria da maior conveniência. E não há quem veja isso?

Nascente
            Chove um pouco mais e rebenta uma nascente junto à rotunda de Birre e a água vem por aí abaixo, encharcando a estrada e atrapalhando os condutores, que têm de estar aí de olhos bem atentos!
            Há anos e anos que isso acontece! Não há nenhuma entidade que o veja?
 
O menino rabino
            «Eu sei que a lei é esta; mas eu vou atirar o barro à parede, a ver se pega».
            Demorou, mas não pegou.
            E o menino rabino deu em barafustar contra a autoridade que optara por respeitar a lei e repreender o menino. E o menino ripostou:
            – Ai é assim? Querem fazer cumprir a lei? Vão ver como elas vos mordem!».
            Não sei, porém, se, assim solto, o enxame de abelhas será bem mandado e não picará também inexoravelmente as mãos, o rosto, os olhos, tudo… daquele que o soltou!

Publicado em Jornal de Cascais, nº 335, 10.04.2013, p. 6.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

650 anos de elevação de Cascais a vila

            Quando se verificou que, em 1964, Cascais iria fazer 600 anos de história como vila, o presidente da Câmara, Engº Azevedo Coutinho, reuniu um grupo de personalidades a fim de as auscultar para se organizarem festejos condignos da efeméride.
            E, na verdade, as comemorações do VI centenário tiverem pompa e circunstância. Para além da inauguração de alguns equipamentos, realizaram-se concertos, fizeram-se conferências e, sobretudo, escreveram-se livros. A chamada ‘colecção do centenário’ constitui ainda hoje um repositório extremamente válido do que sobre Cascais então se deveria dar a conhecer nos mais diversos campos da história e da ciência. Recorde-se, a título de exemplo, a monumental obra Cascais Vila de Corte, de Ferreira de Andrade, que relata a história da vila até 1964 – que viria ser complementada com um suplemento a abarcar a sua história de 1964 a 1972.
            Foi, pois, afinando pelo mesmo diapasão que o presidente da Câmara convocou para a noite de 2ª feira, dia 8 (o dia em que efectivamente Cascais, em 1370, alcançou alforria em relação a Sintra), personalidades ligadas à vida cascalense, a fim de as auscultar e de, para já, lhes manifestar a disponibilidade de se levar a cabo ampla e suculenta comemoração dos 650 anos, no decurso de 2014. Isso mesmo declarou a abrir a sessão no auditório do Centro Cultural de Cascais, que estava lotado.
            Foram escolhidas três personalidades para, de certo modo, darem o mote. Assim, José d’Encarnação procurou mostrar como, ao longo da História, Cascais manteve identidade própria e é essa identidade que ora cumpre valorizar e divulgar, para que a população sinta quão agradável é viver numa terra com memória. Margarida Ramalho, ligada aos estudo da arquitectura de veraneio e das fortalezas, sublinhou nomeadamente o papel da Fortaleza de Nossa Senhora da Luz e das casas nobres que, mormente a partir da 2ª metade do século XIX, aqui se foram erguendo. João Miguel Henriques, por seu turno, na qualidade de director do Arquivo Municipal, mostrou o trabalho imenso que nesse domínio se está a fazer, de forma a proporcionar a toda a população e aos investigadores, em especial, o acesso a um acervo documental de vulto.
            José d’Encarnação coordenaria, de seguida, as intervenções do público presente, começando pela vereadora da Cultura, Dra. Ana Clara Justino. Mas interpelou também o Dr. António Carvalho, ex-director do Departamento da Cultura da Câmara; Nikolau Lalov, o dinâmico responsável pela Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras; Nuno Lima de Carvalho, incansável director da galeria de arte do Casino; Jorge Castro e Ricardo Alves, dinamizadores de saraus de poesia; Ricardo Carriço (da Confluência) e Paulo Morais (do Palco III) ligados ao teatro (entretanto, Carlos Avilez tivera que ausentar-se, porque o TEC está nos últimos ensaios da peça a estrear no próximo sábado)…
            Enfim, trocaram-se impressões no domínio das artes, das letras e das mais variadas actividades susceptíveis de adornarem o ramalhete que se pretende venham a ser as comemorações de 2014.
            Carlos Carreiras fez questão em encerrar a sessão, dando conta de algumas das actividades que já estão em curso e que poderão vir a ganhar novo fôlego com o pretexto de Cascais ter sabido guindar-se à categoria de vila com mais de 650 anos de história, pois que também os tempos pré-históricos e a época romana foram devidamente salientados.

Publicado em Cyberjornal, 2013-04-09 (com fotos de Guilherme Cardoso):

terça-feira, 2 de abril de 2013

Velhos, voluntários, vitoriosos!

           Achei que seria interessante um título com três vvv. É que aconteceram nestes últimos dias duas circunstâncias que me obrigaram a reflectir de novo e a pegar num tema que aguardava oportunidade há quase três anos.
            A 20 de Março, Alice Vieira fez anos e escreveu no seu mural do facebook: «E pronto, não há nada a fazer: tenho 70 anos! Adoro ter 70 anos; odeio ser septuagenária...».
            Nesse mesmo dia, inaugurava-se em Cascais um pólo da Academia Sénior do Núcleo do Estoril da Cruz Vermelha Portuguesa (96 professores voluntários, mais de mil alunos!...) e muito se falou, pois, de envelhecimento activo, do imprescindível papel do voluntariado, dos «jovens há mais tempo» que ainda detêm importante função a cumprir na sociedade, quais transmissores de uma experiência adquirida.
            Concordo com Alice Vieira: ‘septuagenário’ soa a velho, desprotegido, carente, passivo, apto para… morrer; enquanto, ao invés, ‘ter 70 anos’ acentua o que se viveu e se aprendeu e a disponibilidade para continuar a viver! Uma tomada de consciência que, felizmente, pouco a pouco vai ganhando corpo no quotidiano das famílias e da comunidade.
            E isso fez-me voltar ao tal apontamento que tomei há três anos, quando, numa viagem, li na UP (a revista da TAP) de Maio de 2010 (p. 28-29) a reportagem (ainda disponível em: http://www.upmagazine-tap.com/2010/05/salvando-o-planeta-inpakt-com/) sobre uma comunidade de voluntários através da Internet, a Inpakt.com, criada por Bernardo Macedo. A pessoa inscreve-se, dá a área de residência, informa do que gostaria de fazer. As instituições também. E a iniciativa nasceu do facto de Bernardo Macedo se ter inscrito como voluntário e… nunca mais o contactaram! Tinha, na altura, 26 anos, apresentava-se como «empreendedor social»; a página está em fase de reformulação, acessível, porém, em www.inpakt.com, onde pode fazer-se um pré-registo.
            ‘País de velhos’? ‘País que não é para velhos’? Nada disso! Queremos é um país onde os anciãos, como outrora, ocupem o lugar de sabedoria que lhes cabe, sem que lhes estejam sempre a lançar em cima o anátema de que… “só servem para receber a reforma e nada de proveitoso há a esperar de vocês”! Mentalidade mesquinha a urgentemente extirpar! «Adoro ter 70 anos; odeio ser septuagenária...». Pois.

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 613, 01-04-2013, p. 12.

domingo, 31 de março de 2013

Um roteiro lúdico português

           Há livros assim. Volumosos, a catalogar tudo quanto se sabe que existe sobre o tema, bem apresentados, sedutores. Sedutores não apenas pelo que nos mostram, mas – azar ou sorte a deles!... – porque nos incitam a olhar de outra forma para uma realidade de cuja existência, afinal, ainda não nos tínhamos dado conta!
            Recordo-me de – a propósito de Roman Portugal, de J. de Alarcão (in «O domínio romano em Portugal. Notas sobre um livro recente», Homenaje a José Mª Blázquez (Hispania Romana II) – vol. V, Madrid, 1998, p. 138) – eu ter considerado ser essa uma «obra corajosa, pois no momento em que sai à luz do dia ela se encontra desactualizada». Na verdade, ao termos reunidos os dados sobre determinado tema, mais fácil nos é verificar que falta isto ou falta aquilo. Como quando se sobe a um monte: lá do cimo, até se descobre que havia caminho mais fácil e… quão mais amplo é, agora, o horizonte!...
            Assim, este livro de Lídia Fernandes, Tabuleiros de Jogo Inscritos na Pedra, valiosa edição da Apenas Livros (Lisboa, 2013, ISBN: 978-989-618-411-7), 321 páginas ilustradas (Fig. 1). Trata-se de Um Roteiro Lúdico Português, porque esses traços, amiúde grosseiros, amiúde fáceis de passar despercebidos a quem para eles não está desperto, consubstanciaram, de facto, muitas horas de lazer e de entretenimento, para «matar o tempo», para cimentar comunidade…
            Um roteiro que é também, por outro lado, essa lição de, a todo o tempo, aprendermos que importa estarmos humildemente despertos para um fenómeno que, devemos confessar, nos não despertou atenção e, por isso, com duas penadas o descartámos. Contra mim falo, porque, ao aceitar para publicação o estudo, feito por um dos meus estudantes, de uma estela funerária romana identificada, em reutilização, em Pinheiro de Tavares (Mangualde), não reparei bem no que a foto mostrava (Fig. 2) nem na descrição que Luís Filipe Coutinho Gomes fizera:
            «Na parte inferior da estela foi gravada uma espécie de grelha composta por quadrados com aproximadamente 5,5 cm de lado, em três filas sobrepostas de oito quadrados cada» (Ficheiro Epigráfico nº 12, 1985, inscrição nº 53).
            Quem haveria de dizer que, todos estes anos volvidos, eu iria encontrar a imagem dessa epígrafe aqui neste livro (fig. 110), com o nº 15 (p. 98-99)? Não se nos pusera a questão de estarmos perante eventual tabuleiro de jogo e verifico – com alívio… – que também à autora essa hipótese interpretativa se afigura de abandonar, «apesar da regularidade dos traços e do cuidado do lapidarius»:
            «Pensamos ser uma decoração, curiosa e inusitada, é certo, mas, ainda assim, um simples motivo decorativo» (p. 98).
            Mas a questão foi levantada – e ainda bem! Aliás, pela semelhança, somos agora convidados a retomar a reflexão feita sobre uma outra peça epigrafada (Fig. 3), identificada no termo de Beja, a Pax Iulia romana, que sugerimos tratar-se do esquema de um cadastro romano (Lopes, Maria Conceição; Encarnação, José d'; e Silva, António J. M., «Un cadastre romain dans la région de Pax Iulia (Lusitanie)?», L’Africa Romana, 12, Sassari, 1998, p. 879-884: http://hdl.handle.net/10316/22778): estaremos, ao invés, perante complexo tabuleiro de jogo?
            Enquanto na peça de Mangualde, o quadriculado é, seguramente, contemporâneo da epígrafe e, por isso, com mais facilidade se assume o carácter decorativo, na placa de Beja há um reticulado complexo e a inscrição não é contemporânea, pois esse reticulado a ela se sobrepôs. Um tema, por conseguinte, a debater!
            Duas das missões de um livro científico estão, consequentemente, aqui já bem consubstanciadas: levar a observar muros e pedras com outros olhos e a procurar completar o que ora se apresenta em termos de alguma exaustividade, ainda que se diga que esta é apenas uma «parte de um riquíssimo património» «quase totalmente desconhecido». De resto, a própria autora o confessa:
            «Ficou a gigantesca certeza do muito que há por fazer e dos inúmeros aspectos de análises que ora se abrem» (p. 7).
            Resultado de sete anos de investigação (que naturalmente também se apoia em investigação alheia desenvolvida há décadas); fruto da ampla colaboração de preciosos informantes (que são referidos) – a obra foi apoiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, no âmbito do projecto sobre a História dos Jogos em Portugal, dentro do qual recentemente beneficiámos de mais uma, também excelente, publicação (Fernanda Frazão, Fontes para a História dos Jogos em Portugal, Apenas Livros, Lisboa, 2012) e já havíamos tido, em 2010, uma outra da mesma autora e editora, História das Cartas de Jogar em Portugal e da Real Fábrica de Cartas de Lisboa do século XV até à Actualidade.
            Divide-se o livro em 12 capítulos, antecedidos pelo índice, com o que me congratulo. Começa-se por explicitar como se fez e deve fazer o registo; e esclarece-se desde logo que, por detrás do jogo, está o Homem, o seu pensamento, porque os jogos, além de serem expressões lúdicas, constituem também expressões simbólicas. O capítulo 3 traça a história dos tabuleiros em pedra desde as referências mais antigas até às épocas medieval e moderna. E antes do «passeio pelo património de Norte a Sul», que é o capítulo 5, há que saber que tipos e que características apresentam os tabuleiros de pedra: as tabulae lusoriae dos romanos, o alquerque (dos 9, dos 12, dos 3), o ludus latrunculorum...
            O inventário obedece a um critério geográfico, por regiões: Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo, Algarve, Açores e Madeira. No Norte, destaca-se a Igreja de Santa Maria da Oliveira (nº 5), com 17 tabuleiros; no Centro, o mosteiro da Batalha (nº 33) tem 13; são 29 os tabuleiros na área de Lisboa; é, contudo, o Castelo Velho de Alcoutim (estudado, como se sabe, por Helena Catarino) que leva a palma, com nada menos que 37 testemunhos (nº 61 – p. 216-234)! Em relação aos Açores e à Madeira, há referências, mas nada de concreto se apresenta.
            Fala-se, no capítulo 6, das pedras de jogar e, no 7, das técnicas de gravação dos tabuleiros, para ingressarmos no mundo do lúdico, em íntima conexão com a sociedade, retomando, de certo modo, o que se alinhava no capítulo 2. Esse capítulo 8 afigura-se-nos do maior interesse, porque se parte do concreto para, como atrás se dizia, se descobrir o que lhe está por detrás: a imitação do real, a convivência do jogo com a religião, as regras, o jogo como atitude universal, para se terminar numa perspectiva que a autora, como arqueóloga, não poderia deixar de abordar: «o espaço construído e a actividade lúdica».
            E se o «como jogar» interessa, embrenhamo-nos logo de seguida e de novo no domínio da abstracção, da estratégia que ao jogo sempre está subjacente (e ouvimo-lo diariamente na Comunicação Social…); é este um capítulo, o 10º, assaz ilustrado, da responsabilidade de Jorge Nuno Silva. Vem, por fim, a questão: será que é possível traçar «uma análise evolutiva dos jogos de tabuleiros em território nacional»? Apresentam-se gráficos, estatísticas (foram 253 os tabuleiros analisados!)…
            A vasta bibliografia (p. 307-321) documenta, por fim, não apenas que a autora se debruça já há algum tempo sobre esta temática, mas também que, afinal, esse é um campo de investigação deveras interessante, até porque, desde cedo, como escreveu o Conde de Sabugosa (que volta a ser aqui citado), os jogos «serviram de desfastio, de prazer ou de higiene aos nossos antepassados» (p. 301). E, hoje, poderão servir também, desde que se queira!
            Um hábito que, no fim de contas, um passatempo (como diria o Padre António Vieira) perdurou durante milénios! Veja-se que o jogo dos ganizes ou do cucarne – muito vulgar, por exemplo, entre os pescadores até épocas bem recentes –, com vértebras ou falanges, radica, sem dúvida, nos latrunculi, que, a par das peças de osso, de pasta vítrea ou de cerâmica (Fig. 4) e mesmo os dados de osso ou marfim (Fig. 5), encontramos na escavação de sítios romanos!
            Este Roteiro de Lídia Fernandes constitui, pois, mui valioso contributo para essa consciencialização!
            Acrescente-se que a editora acabou por fazer um preço assaz convidativo (24 euros), a fim de esta temática poder chegar a mais gente.

Publicado em Cyberjornal, 2013-03-31: 
 
 
 


           

 

Faleceu João Constante, de Cascais

             Foi a sepultar, na passada sexta-feira santa, João Constante, uma das legendas vivas do Grupo Cénico da Associação Humanitária dos Bombeiros de Cascais.
            Integrava o núcleo dos cascalenses de gema. Evocar a vida de Cascais-vila passava, naturalmente, por recordar quantos – como o João – desde sempre se irmanaram em torno da vetusta Associação, mormente do seu Grupo Cénico. O João consubstanciava sempre um dos momentos mais apreciados das revistas: o fado tinha, na sua voz, o timbre da tradição; o caloroso sabor doutras eras, do fado vadio e fora de portas, nos poemas dessa Cascais familiar, de nobres e de plebeus, em sadia comunidade!...
            Calou-se uma voz. Fica a saudade. Fica o exemplo de dedicação a uma causa. Fica também a vontade de prosseguir!
            À família enlutada e aos membros do Grupo Cénico as nossas mais sentidas condolências.

Publicado em Cyberjornal, 31-03-2013:

sábado, 30 de março de 2013

O Sol de Psara – nota sobre um livro de poemas

            Psara é uma das ilhas gregas do Mar Egeu. Apenas 43 km2 de superfície. Plena, contudo, de poesia e de mitológicos ecos aos olhos dos que estudam a Antiguidade Clássica e que até acreditam que foi por aí, por esses mares serenos, que a poesia um dia nasceu…
            Se calhar (o poeta não o diz), foi por isso que António Salvado deu o título de O Sol de Psara a mais um dos seus livros de poemas (Editora Licorne, 2011, 40 páginas, ISBN: 978-972-8661-74-8).
            Perpassa por todas as páginas um lirismo intenso, que ressuma, aqui e além, contido mas cálido erotismo: «Quem me dera ser o vento: / tu, nua, receberias / nos teus seios meu alento.» A doçura da entrega sugerida: «em ti descansam praias e desvelos»… «Repouso no teu colo uma alcachofra».
            As palavras ditas mas cujo eco nem sempre se conhece. Solilóquio? Sonho? Desejo por cumprir? Convoca-se a Natureza, as flores, os riachos, as estações do ano, a paisagem serena da manhã e ao sol-pôr – para a comunhão amorosa!
            E os espaços nos versos obrigam a pausa. Assim:

            Que os atalhos conduzam    sempre    aonde
            Se glorifique    a pressa do encontro.

            Não vamos por atalhos. Seguimos, porém, com o autor, a linha do horizonte – onde temos pressa em repousar!

Publicado em Cyberjornal, edição de 30-03-2013:

sexta-feira, 29 de março de 2013

Espólio do «Jornal da Costa do Sol» dá entrada no Arquivo Municipal

            Para além de outras, uma das primeiras preocupações que tive, após o inesperado encerramento do Jornal da Costa do Sol (última edição publicada a 14 de Janeiro de 2010), foi a de procurar acautelar o seu espólio.
            Na verdade, nascido a 25 de Abril de 1964, Jornal da Costa do Sol continha no seu arquivo toda a história de Cascais e também de Oeiras, quer em textos, quer em documentação, quer em imagens, desde essa época, porque acompanhava semanalmente o que de significativo se passava nesses concelhos.
            Toda a colecção dos jornais está, é certo, disponível na biblioteca municipal; contudo, para além da notícia que se faz, há as imagens que se guardam e se seleccionam, a correspondência… Infelizmente, porém, parte bem volumosa desse espólio já levara descaminho antes de – por deferência do proprietário do imóvel, Vilar Gomes – os funcionários da Câmara terem metido ombros à tarefa de juntar o que havia.
            Logo após o 25 de Abril, haviam desaparecido, por exemplo, as provas de censura, que era um dos arquivos mais interessantes de que se dispunha, por mostrarem, na realidade, como funcionava o «lápis azul» – e Jornal da Costa do Sol era, nas vésperas do 25 de Abril, juntamente com o Jornal da Madeira, o Jornal do Fundão, o Notícias da Amadora, obrigado a mostrar aos censores provas de página, porque… ‘eles’ não confiavam em nós!...
            Recorde-se que, na altura da chamada «Primavera marcelista», escrevia no Jornal da Costa do Sol Magalhães Mota, que fazia o relato das sessões da Assembleia Nacional, amiúde censurado, como o seriam também os textos, também sobre a Assembleia, saídos da pena de Viriato Dias em 1972. Aliás, por ser feito na mesma tipografia – a Mirandela – em que se começou a fazer o Expresso, houve sempre uma grande ligação entre as equipas e Francisco Pinto Balsemão chegou a assumir a direcção do jornal, de Março a Julho de 1976, uma experiência ‘profissionalizante’ que acabaria por não dar resultado e os membros da equipa anterior houveram por bem regressar e recomeçar a publicação a 10 de Dezembro desse ano.

Um observador atento da actividade autárquica
            Foi habitualmente «semanário dos concelhos de Cascais e de Oeiras», à excepção de 1981, em que, por dificuldades financeiras, se publicou quinzenalmente.
            Exerceram os seus redactores, sem peias, uma função de cidadania, o que nem sempre quadrava bem ao poder autárquico instituído, com o qual o relacionamento – como frequentemente acontece, por esse Portugal além, entre as autarquias e a Comunicação Social local – se procurou manter isento de partidarismos, mas difícil. Por exemplo, com Georges Dargent e, nomeadamente, com António Capucho, a tensão foi constante, indo ao ponto de haver ordem expressa para ao jornal não ser proporcionada publicidade, mesmo a institucional.
            Asfixiado, encerrou portas, como se disse, sem mais nem menos, no princípio de 2010. Os accionistas de Publigráfica, SARL, a empresa proprietária, não tiveram possibilidade de agir, dados os fortes condicionalismos económicos a que se chegara e, desde então, o nosso receio era de que, de um momento para o outro, entrassem por ali adentro os agentes judiciais e despejassem, sem tir-te nem guar-te, um espólio histórico-documental ímpar.
            Moveram-se influências e, felizmente, podemos agora informar que, mercê delas, a documentação ainda disponível acaba de dar entrada no Arquivo Municipal, onde será devidamente tratada, a fim de vir a ser colocada ao alcance dos investigadores, porque – sem receio de errar o afirmo – não pode fazer-se a história de Cascais (e de Oeiras) nas últimas cinco décadas, sem uma leitura atenta das páginas do Jornal da Costa do Sol, do que nelas se escreve e do que nelas não se pôde escrever e se subentende.
            E eu (perdoe-se-me a primeira pessoa), que (quase ininterruptamente) fiz parte do ‘projecto’ (como hoje se diz), desde Outubro de 1967 até final (mais de quarenta anos!...), particularmente me congratulo, como jornalista e como historiador, por as negociações terem obtido o resultado que ora – pela pronta informação que me foi disponibilizada pelo Dr. António Carvalho, irmanado comigo nestas preocupações histórico-patrimoniais – tenho o gosto de anunciar.

Publicado em Cyberjornal, 2013-03-29: