sábado, 4 de maio de 2013

A orla marítima

           
Extasia-me a orla marítima desde a Boca do Inferno até ao Guincho. A extensão do lapiás, onde o vento e as chuvas se divertem a escavar pequeninas pontes e túneis; as plantas as mais variadas e multicores espreitam por entre as rochas, a contarem do milagre de existirem ali; a agitação constante das águas, agora mais impantes de força, a bater, furiosas; daqui a pouco, ao invés, numa carícia melancólica…
            E o pôr-do-sol? Sim, já vi o raio verde, numa dessas tardes mornas de Outono. Foi naquela enseada antes do Cabo Raso, de fenda enorme, com os raios a cintilar lá em baixo, a gente espreita por cima e é como se o Sol ali se estivesse a pôr e as águas brincam, sabendo que pouco a pouco vão tornando a fenda maior e, um dia, obrigarão os homens a aumentar a protecção… Do outro lado, a onda vem, bate na rocha e há um chafariz de leite que brota e se despeja. Uma vez, três vezes, sempre!...
E sentimo-nos minúsculos diante da Beleza, da Força, da Majestade, do Infinito além…

Publicado na Agenda Cascais [Câmara Municipal de Cascais] nº 62, Maio.Junho 2012, p. 31.

Turismo em Cascais - de mal a pior!

             Quando o governo do Partido Socialista se alembrou de acabar com a identidade «Estoril», que tantos anos demorou a lançar e que constitui, hoje, uma marca identitária em todo o mundo, estava a governar a Câmara de Cascais a coligação Viver Cascais – PSD e CDS. Compreendia-se, pois, que os socialistas quisessem arrecadar os dinheiros do Jogo, deslocalizar para algures no Ribatejo a sede do turismo aqui da zona, pondo, inclusive, no atendimento turístico, pessoas de sua confiança mas que da história e do património cascalenses nada percebiam nem estavam ali para perceber. Eram questões partidárias, cada qual a puxar a brasa para a sua sardinha… O Executivo cascalense barafustou, mas… quem manda pode e os socialistas ganharam – com os resultados desastrosos que se conhecem.

            Agora (a gente sabe que não é assim, que não há nenhum partido português a governar Portugal, somos governados da estranja, mas vamos fazer de conta…), agora é uma coligação PSD/CDS que está oficialmente no Governo e a Câmara de Cascais é dessa mesma coligação. Por isso grandemente me espanta a notícia hoje veiculada pelo jornal Expresso:

            «As autarquias de Lisboa e de Cascais e a Associação de Turismo de Lisboa celebraram um acordo para a criação da nova Entidade Regional, responsável pelo sector turístico da região». E essa nova instituição vai adoptar a designação de ERTL – Entidade Regional de Turismo de Lisboa, e terá, simbolicamente, sede no Terreiro do Paço.
            Boa! O que eu gosto é do «simbolicamente»!
            Acrescenta a notícia:
            «Vítor Costa, o director-geral da ATL, vai ser candidato à presidência da nova entidade, enquanto o vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais, Miguel Pinto Luz, será candidato à vice-presidência».
            Claro que, como historiador (há umas décadas…) do património turístico cascalense, não posso estar mais em desacordo, porque esta é mais uma forma encapotada de a capital nos absorver e nos matar a identidade.
            Recordaria apenas que, dois dias antes do 25 de Abril de 1974, foi gravado um programa no Rádio Clube Português, o debate, moderado por Luís Filipe Costa, em que todos os intervenientes, entre os quais se contavam, por exemplo, Licínio Cunha, então presidente da Junta de Turismo do Estoril, e eu próprio, lutámos contra a intenção, que então se preconizava, de erradicar o nome «Estoril» e mudar tudo para «Costa de Lisboa». Estava-se, repito, antes do 25 de Abril! Devido aos acontecimentos revolucionários, esse programa, de cerca de uma hora, só iria para o ar largos dias depois; mas a nossa posição ganhou e as ‘capas’ (vide imagem) que já tinham sido previamente impressas aos milhares – para pressionar!... – acabaram por ir para o lixo.
            Aproximam-se a passos largos as eleições autárquicas. Pensamos que os candidatos devem sobretudo pugnar, com unhas e dentes, por defender a nossa identidade cascalense – e isto, aliás, se proclamou na sessão preparatória das comemorações dos 650 anos de elevação de Cascais a vila, a 8 de Abril, p. p. A notícia que hoje (04-05-2013) lemos não é, pois, de bom augúrio.
            Oxalá os responsáveis saibam pôr a mão na consciência e fazer marcha-atrás.
            Enquanto é tempo!

Publicado em Cyberjornal, edição de 04-05-2013:

sexta-feira, 3 de maio de 2013

A linha, tema de encantar!

              Foi apresentado na FNAC do CascaiShopping, na tarde do passado dia 27 de Abril, o livro Alinhas?, da autoria de Margarida Teodora Trindade (texto) e Alexandra Sirgado Rodrigues (ilustrações). Uma edição de Opera Omnia (ISBN: 978-989-8309-41-9); design, paginação e fotografia de Sofia Ferreira.
            Técnicas da magnífica Biblioteca Municipal de Torres Novas, habituadas, por isso, a dinamizar sessões de leitura para crianças, lançaram mão a esta obra que, aparentemente singela e despreocupada, encerra grandes lições para crianças e… para adultos, um pouco ao jeito do Principezinho, de Saint-Exupéry, ou d’As Aventuras de João sem Medo, de José Gomes Ferreira.
            Tudo gira em torno da linha, elemento que – com os mais diversos significados, concretos e abstractos – intimamente se entretece no nosso quotidiano: andar na linha; a linha do horizonte; «Deus escreve direito por linhas tortas»; há linhas oblíquas; as linhas com que se tramam vidas; a trama e a teia; linhas que atam uma história (a perna) a uma outra história (um chapéu de chuva atado também…); «há linhas que comemos com prazer…» (ai, este delicioso esparguete!...); «há linhas que contam uma história no rosto do avô António»; «há linhas que não se sabe nem onde começam nem onde acabam… e que, se puxares por elas, muito devagarinho, aos poucos, todos os nós se desatam». «Quando o Luís se zanga fica com a cabeça cheia de nós. Depois, para os conseguir desatar, tem de perceber com que linhas é que eles se formaram» …
            E não resistiram as autoras a incluir – com a actualidade que facilmente se adivinha – as linhas de um lenço de namorados:

                        «Meu Manel bai pró Brazil
                        Eu tamem bou no bapor
                        gordada no curação
                        daquele qué meu amor».

            Um livro inspirado e inspirador de muitas histórias para a «hora do conto» (termina com a libelinha a voar…). Uma presença doravante imprescindível em todas as bibliotecas. Lindíssimo veículo de um saber profundo!

Publicado em Cyberjornal, 02-05-2013:

CDCE homenageia poeta

             Tem privilegiado o Clube Desportivo da Costa do Estoril, com sede em Alapraia, as iniciativas culturais, independentemente, claro, de outras habituais actividades de índole desportiva e recreativa. Música e poesia, por exemplo, fazem parte do seu cardápio cada vez mais frequente.
            Na noite do passado dia 30, por exemplo, houve por bem a direcção promover uma homenagem a João Baptista Coelho, alfacinha octogenário que se radicou em Tires há mais de 40 anos e que ‘descobriu’, aos 58 anos de idade, a sua escondida veia poética. Começou por concorrer a uns Jogos Florais, ganhou e… ganhou esse ‘vício’, de tal modo que, hoje, se contam por centenas os primeiros prémios arrebatados nesses certames por esse País fora.
            Tiveram papel preponderante nesse evocar de um trajecto poético singular os Jograis do Atlântico (Edite Gil e Francisco Félix Machado), cabendo a Francisco Machado a condução da entrevista que fez ao homenageado, para que nos contasse desse seu peregrinar pelo caminho das musas… Tive também oportunidade de realçar o meritório trabalho que Baptista Coelho teve, durante vários anos, na organização dos Jogos Florais da Freguesia de S. Domingos de Rana, propondo o tema e preparando a documentação para a reunião do júri; e aprouve-me realçar, dentre os muitos que poderia seleccionar, o livro 25 Sonetos com o Mar ao fundo, de 2004, porque, além de ser uma viagem poética pela nossa bem poética orla marítima desde Cascais ao Guincho, mostra bem a maestria de Baptista Coelho na composição de sonetos, uma modalidade que, como se sabe, exige fino talento e extraordinário domínio da linguagem.
            O sarau – entrevista e apresentação de poemas por Maria Maya, Eduardo Martins, Jorge Castro, Edite Gil e Francisco Félix Machado – agradavelmente seguido por mais de duas dezenas de assistentes, foi melodicamente pontuado pela actuação, à guitarra e à vihuela, do holandês Rembrandt Gerlach.
            A João Baptista Coelho o nosso voto de que ainda por largos anos nos presenteie com a beleza do seu estro!

Publicado em Cyberjornal, 02-05-2013:
 http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=18242&Itemid=30


 Fotos de Guilherme Cardoso: aspecto da assistência; a mesa com o homenageado e os dois membros dos Jograis do Atlântico; a evocação do poeta; Maria Maya, Eduardo Martins, Jorge Castro, que disseram poemas; Rembrandt Gerlach.


 

Em Trajouce - Canteiros saloios festejam o 1º de Maio

           Como já vai sendo tradição desde há largos anos, os canteiros que exercem a sua actividade em S. Domingos de Rana (do Clérigo, de Trajouce, de Tires…) organizam uma caldeirada de confraternização, no 1º de Maio.
            A iniciativa prende-se, naturalmente, com as comemorações do Dia do Trabalhador, outrora fortemente vigiadas pela PIDE. Os trabalhadores das pedreiras do concelho de Cascais – tanto os saloios como os que tinham vindo de fora – iam até à orla, passavam a manhã na pesca, faziam o lume junto ao pinhal da Marinha e aí se preparava a caldeirada com o que na manhã se lograra apanhar. E a confraternização continuava animada jornada afora.
Fo            Este ano, mais uma vez, juntaram-se no barracão do Carlos de Trajouce, que mais parece um museu de antiguidades (!), duas dezenas de trabalhadores da pedra, a que, nos últimos anos, se associaram membros da Associação Cultural de Cascais.
            Para além do enorme tacho da aprimorada e saborosa caldeirada, houve acordeão e gaita-de-beiços a animar a festa. Celestino Costa aproveitou o ensejo para autografar o seu último livro Nomes ou alcunhas das pessoas dos meus livros. E sorteou-se uma lembrança feita num tipo de pedra rara do concelho – que o contemplado de boa mente ofereceu para o «Museu do Caracol».

As fotos, de Guilherme Cardoso, mostram: um instantâneo do convívio no barracão que é quase 'museu de antiguidades'; Celestino Costa em sessão de autógrafos; a pedra-símbolo do dia, que o contemplado oferece a Armando 'Caracol' para o seu museu; e, finalmente, a foto de conjunto.
 
Publicado em Cyberjornal, 02-05-2013:

A tua pasta dentífrica?

            Ele há coisas que a gente dificilmente esquece. Alguma injustiça de que fomos alvo, por exemplo.
Um dia, no recreio da Escola Salesiana do Estoril, no já bem longínquo ano lectivo de 1955-1956, um colega meu estava aflito porque não conseguia sair da retrete: a porta emperrara. Eu estava por perto, tentei empurrar com os ombros, mas a porta resistia. Teve de ser com forte golpe de pé. Passava nesse instante lá fora o Padre Caetano e não esteve com meias medidas: pregou-me valente carolo da cabeça! Ainda hoje o sinto! De nada me valeram as explicações; aliás, o meu colega já saíra e eu já apanhara o carolo!... Bastantes anos mais tarde, contei-lhe, sem rancor. Que Deus lhe tenha a alma em descanso!
            À recordação deste episódio junta-se sempre – é curioso! – um outro hábito da minha juventude: deliciava-me com as histórias das Selecções do Reader’s Digest. Eram histórias reais e ali se condensava, mesmo em singela narrativa, sabedoria de vida vivida – e eu gostava de aprender.
            Uma dessas histórias falava da pasta dentífrica Não sei se era texto a dar conselhos sobre a melhor forma de viver o dia-a-dia, escrito quiçá por conceituado psicólogo. Não sei. Recordo-me, porém, claramente – e disso acabei por fazer norma de vida – que, a determinado passo, o articulista propunha um desafio:
             Quer saber se é uma pessoa organizada? Vá à sua casa-de-banho e observe a sua pasta dentífrica!
             A minha pasta dentífrica?
             Sim, a pasta dentífrica.
            – Como assim?
            – Olhe para ela e veja como a usa. Se a vai esvaziando metodicamente, de baixo para cima ou se a esvazia como calha e a deixa toda aos altos e baixos…
            E não é que é verdade? Sem disso nos apercebermos, nestas minúsculas acções quotidianas fica a nossa maneira de ser bem retratada! Ao tomarmos consciência disso, estamos a tempo de, significativamente, também a alterarmos para melhor!

       Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 615, 01-05-2013, p. 12.

Em torno da identidade saloia

            Três cerimónias se concretizaram nos últimos dias a merecer atenção.
            Em primeiro lugar, no dia 8 à noite, reflectiu-se, no Centro Cultural de Cascais, acerca de perspectivas para as comemorações dos 650 anos de elevação de Cascais a vila, a realizarem-se no decorrer de 2014. No dia 18, Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, na Sociedade de Instrução de Janes e Malveira (fundada a 4 de Janeiro de 1938), apresentou-se o livro, de Maria Micaela Soares, Saloios de Cascais – Etnografia e Linguagem. No sábado, 20, na sede do Grupo de Instrução Musical e Desportivo de Abóboda, fundado em 1 de Abril de 1930, outro livro se deu a conhecer: Nomes ou Alcunhas das Pessoas dos Meus Livros, da autoria de Celestino Costa.
 
As comemorações dos 650 anos
            Uma sessão que teve objectivo semelhante à que ocorreu há 50 anos atrás, quando o presidente da Câmara, Eng.º António de Azevedo Coutinho, convidou entidades e personalidades para uma primeira reflexão acera do que poderiam vir a ser as comemorações do VI Centenário.
            Depois de Carlos Carreiras ter enunciado o que se ora se pretendi, João Miguel Henriques, Margarida Ramalho, e eu próprio acentuámos, em linhas gerais, aqueles aspectos que, em nosso entender, poderiam ser agora tidos em consideração: como responsável pelo Arquivo Municipal, João Miguel Henriques mostrou que se dispõe, na actualidade, de um enorme acervo documental, dia a dia cuidadosamente acrescentado, tratado e valorizado; Margarida Ramalho chamou a atenção para a singularidade do património arquitectónico civil e militar; coube-me referir como Cascais tivera, desde tempos pré-históricos uma identidade própria, consciência sentida ao longo da história e que, aliás, levara a população a solicitar, em 1364, a el-rei D. Pedro I, lhe concedesse alforria em relação a Sintra, «cuja aldeia era».
            As intervenções dos assistentes e as palavras finais do Presidente da Câmara mostraram como, em parceria, num salutar diálogo inter-institucional, também esta efeméride dos 650 anos poderá vir a deixar rasto como o deixou o VI Centenário, mormente através de uma colecção de publicações que, embora modesta de aspecto e sem luxos de apresentação, é ainda hoje de consulta obrigatória.

Os Saloios de Cascais
           Não poderia ter sido mais bem escolhido o local para se falar desta enorme obra de investigação, mui minuciosamente levada a cabo pela Dra. Maria Micaela Soares, etnógrafa cuja laboriosa actividade se desenrolou no quadro da Assembleia Distrital de Lisboa.
            Dezenas e dezenas de entrevistas a informantes, todos com mais de 70 anos, que permitiram à autora traçar uma panorâmica do que foi a vida das gentes cascalenses, nomeadamente na primeira metade do século passado. Lendas, tradições, cantares, festividades, músicas, trajos, falas, mezinhas, a actividade agrícola, a exploração da cal, o trabalho do azulino de Cascais… tudo por ali perpassa argutamente, a mostrar que – para além do litoral, da afamada «Costa do Sol» a privilegiar sol e mar – há um interior ancestral, houve criadas de servir, lavadeiras, «fabricavam-se» terras de cultivo onde hoje se levantam habitações de traçado incaracterístico.
            O Professor Virgolino Jorge frisou bem todo esse manancial informativo e deu azo, inclusive, a que músicos da banda da colectividade, também acompanhados por excelente voz feminina, interpretassem três das modas mais típicas desses recuados tempos: «Bico e Tacão», «Saloia» e «Fado de Cascais».
            O salão de actos da colectividade foi pequeno para receber tanta gente – da aldeia, da vila, do concelho e de Lisboa até… – que não quis deixar de aplaudir o aparecimento desta volumosa obra, «490 páginas de redacção exigente», «impressiva expressão de arqueologia documental», como Virgolino Jorge a classificou.

Pessoas de S. Domingos de Rana
            E se Carlos Carreiras pôde considerar o referido lançamento como o primeiro acto das comemorações atrás citadas, em meu entender não menos importante terá sido, pelo seu significado humano e comunitário, a publicação, em singelo livrinho de cordel de somente 40 páginas, do que Celestino Costa decidiu partilhar connosco acerca de quem foram – ou são – as pessoas que perpassam pelos livros que, ao longo dos últimos anos, foi publicando.
            Micaela Soares teve o olhar de antropóloga, quis minuciosamente descrever tudo, para que nada viesse a perder-se na noite dos tempos; Celestino Costa, por seu turno, depois de nos haver brindado com os seus versos, muitos deles de enorme perspicácia social, fez agora uma espécie de recapitulação. Querem saber quem foi o Manel da Frada, o esquecido João da Mata, o Lavaredas, o Cara de Lata?... Pois aí têm tudo explicadinho a preceito, em linhas poucas, mas eloquentes. E o dia em que vi dois apetecíveis figos bem rachadinhos, me dispunha a apanhá-los e veio de lá a «Galinha» de vassoura na mão e eu… ah! pernas para que vos quero! E daquela vez em que o maluco do «Roi», em férias de Páscoa, pregou dois murros no «Pai Avô», que era o que toda a gente dizia que ele merecia e ninguém se atrevia a dar-lhos?!...
            Reviveu-se, pois, uma Cascais desconhecida – e muito me congratulo por isso!

Publicado em Jornal de Cascais, nº 336, 24.04.2013, p. 7.