sexta-feira, 31 de maio de 2013

«Na Sua Mão Direita» – uma oração

            Impressionou-me mui favoravelmente – quando, ainda moço, estudei pela primeira vez a antiga civilização egípcia – a informação de que, ao pressentirem aproximar-se o fim do seu percurso terreno, os egípcios procuravam retirar-se para mosteiros e aí apreendiam as regras exaradas n’O Livro dos Mortos, espécie de manual de passagem.
            No credo católico, súmula de dogmas professados, diz-se, a dado momento, que, após a Sua breve vida na Terra, Jesus «subiu aos Céus, onde está sentado à direita de Deus Pai». Inspirou esta expressão o pendor filosófico de Antero de Quental: «Na mão de Deus, na Sua mão direita / Descansou afinal meu coração». E foi esse o mote escolhido por António Salvado para o seu mais recente livro de poemas: Na Sua Mão Direita (Edições Sirgo, Castelo Branco, 2013; ISBN: 978-989-07695-8-8).
            30 títulos: 28 poemas propriamente ditos, assumindo alguns a forma de soneto mas sem obediência a rima; uma longa oração de prosa poética – «Fere-me os olhos a Tua Luz» (p. 37-38) – e o «Secreto Lugar», em jeito de coroa de cinco sonetos.
            Ressonâncias bíblicas: um «salmo com gratidão» (p. 36); a evocação dos apóstolos Paulo, Pedro e Judas numa procura de perdão; a «água niveal de Siloé», símbolo da purificação por que se anseia; a via sacra da vida, «noite amarga» em busca de «um som de claridade» que anime e revigore…
            Por todas as páginas, porém, dominante, o diálogo com o Senhor: numa prece «sem melodia, mas de amor ornada»; na consciência do «débil pó» que nos conforma, no desejo místico de, esquecido o tempo e ultrapassado o espaço, a serenidade enfim chegar.
            Livro, pois, inesperado: mensagem impregnada de uma tranquilidade que é hora de procurar.

Publicado em Cyberjornal, 31-05-2013:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=18388&Itemid=30

P. S.: “«Na Sua Mão Direita» – uma oração de António Salvado”, Gazeta do Interior (ano XXIV, nº 1286, Castelo Branco), 07-08-2013, p. 10.

Discutiu-se a crise da Lusitânia romana

            Permita-se-me que volte, de certo modo, ao assunto, pois se me afigura de interesse para os mangualdenses (e não só…) aperceberem-se da real importância da mesa-redonda internacional que, a 10 e 11 de Maio, aqui se realizou.
            Na sequência de idênticas reuniões que – em França, Espanha e Portugal – têm ocorrido desde 1988, sempre com um tema determinado, esta VIII mesa-redonda não poderia vir mais a propósito, na actual conjuntura. Os investigadores presentes procuraram discernir causas e consequências do «final» da Lusitânia romana, ou seja, como é que, perante os novos desafios postos pelo contacto com outros povos e outras ideologias (designadamente a cristã), os Lusitanos souberam adaptar-se e adoptar as soluções adequadas.
            Poder-se-á sempre questionar a verdade da secular afirmação «História, mestra da vida». Certo é, porém, termos, no dia-a-dia, sobejas provas de que o desconhecimento da História não constitui bom presságio, mormente para os detentores de funções públicas.
            De sublinhar e de muito aplaudir, por conseguinte, o pronto apoio da Câmara Municipal e das entidades locais a uma iniciativa científica proposta por um centro de investigação universitário (o Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e Porto), em colaboração com uma associação de defesa do património local, a Associação Cultural Azurara da Beira.
            Desta sorte, para além dos muitos outros factores que lhe têm permitido evidenciar-se pela positiva no panorama nacional, Mangualde colocou-se agora, de pleno direito, no mapa das cidades onde a investigação histórica detém lugar de relevo. Aliás, tivemos ocasião de ver como se pretende concretizar a valorização dos vestígios arqueológicos da Quinta da Raposeira; e amiúde se dá a conhecer, quer nas redes sociais quer na imprensa, o património histórico-cultural do concelho.
            A cidade encontra-se exemplarmente no bom caminho e… recomenda-se!

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 617, 01-06-2013, p. 12.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Ana Moura encantou no Museu do Oriente!

             Na sessão comemorativa dos 25 anos da Fundação Oriente, a fadista Ana Moura apresentou o seu mais recente álbum «Desfado» e encantou os convidados que encheram por completo o auditório do Museu do Oriente, em Alcântara, na noite de terça-feira, 21.
            O Dr. Carlos Monjardino, presidente do Conselho de Administração da Fundação, saudou os presentes e deu conta, em breve alocução, do que foram os 25 anos da instituição (constituída a 18 de Março de 1988), objectivos propostos e atingidos, nomeadamente no que concerne a mais estreita ligação entre Portugal-metrópole e os que foram seus territórios no Oriente – Macau (de modo especial), Timor e Goa. A promoção da língua e da cultura portuguesas através das mais diversas iniciativas constituiu preocupação fundamental, em estrita colaboração com as entidades locais, sendo de realçar o importante papel do Instituto Português do Oriente, em Macau, e o apoio às comunidades macaenses. Inseriu-se também nessa política a criação, em 2008, deste Museu do Oriente, como «ponte entre culturas remotas», a fim de melhor se «contribuir para o encontro entre Ocidente e Oriente e para uma relação entre civilizações em que o conhecimento, a arte e também as relações económicas substituam a ignorância, o fanatismo e a guerra».
            O concerto de Ana Moura foi inolvidável. Não apenas pelos temas cantados mas também – e quiçá, sobretudo – pelo modo como a fadista e os seus músicos se apresentam, numa contagiante empatia, porque não é apenas a voz, a melodia, o virtuosismo com que dominam a seu bel-prazer os instrumentos: é a irradiação para o público de uma alegria, de um prazer partilhado, «gostamos do que estamos a fazer e não resistimos a sorrir, a menear-nos no doce enleio para que a melodia nos arrasta»…
            Esguia, nos seus longos cabelos negros, vestido negro também, até aos pés mas envolto na finura transparente de organza (diríamos!), a estilização minimalista de um xaile, sorriso pleno e permanente, a vénia singela e breve na retribuição dos quentes aplausos… – Ana Moura encantou!
            Deixou-nos, a dado passo, com os seus músicos. E foi um festival! Ensaiada e bem original rapsódia – não foi exactamente rapsódia, mas de onde em onde colhíamos trechos de fados nossos… – onde o espírito do jaze esteve bem presente, para cada um dos músicos brilhar a solo, num virtuosismo singular: Ângelo Freire, na guitarra portuguesa (magnífico!); Pedro Soares, na viola de fado; André Moreira, na viola baixo; João Gomes, nos teclados; e Márcio Costa, na bateria e percussões. Não regateámos merecidos aplausos, mesmo a meio do longo e saborosamente orquestrado trecho com que nos brindaram!
            Além do conteúdo do álbum «Desfado», tivemos ‘direito’ a vibrar com o seu já consagrado «Búzios» («Vê como os búzios caíram virados p'ra norte / Pois eu vou mexer o destino, vou mudar-te a sorte»)… E, no final, os longos aplausos apenas conseguiram mais um fado – que nos apetecia ficar ali a noite toda. Mas não podia ser – uma requintada ceia esperava os convidados numa sala ao pé.

            Publicado em Cyberjornal, edição de 22-05-2013:

quinta-feira, 23 de maio de 2013

E a mala de mão da sua senhora quanto pesa?

            – E o senhor quanto pesa?... E o seu amigo?... E a sua senhora?... E a mala de mão da sua senhora quanto pesa?...
            Olhámos uns para os outros, desconfiados, e o comandante Estácio dos Reis não hesitou:
            – Desculpe: porque é que precisa de saber?
            – Questões logísticas.
            Compreendemos depois, perfeitamente, ao abeirar-nos, nessa já bem longínqua manhã de 15 de Maio de 1989, na pista do aeroporto de Miami, do pequenino avião que nos levaria a Great Ábaco, nas Baamas: éramos os seis os únicos passageiros, mais o piloto, e cada uma das bagagens foi estrategicamente colocada nos espaços disponíveis do aparelho, para que o peso ficasse bem equilibrado e o voo decorresse sem problemas.
            Lembrei-me de imediato dessa cena, quando vi o vídeo a mostrar como, no passado dia 30 de Abril, um Boeing B747-400 cargo da companhia aérea norte-americana National Airlines se despenhara, no momento em que levantava voo da base aérea de Bagram, no Afeganistão. O aparelho, que transportava veículos automóveis e outras cargas, «rodou no ar e despenhou-se junto a uma estrada que circunda a base aérea» e, embora a notícia inicial fale de «razões ainda não averiguadas», é mais do que evidente de que se tratou de um erro crasso do pessoal de terra, que não soube acondicionar convenientemente a carga.
            É por isso que, na linguagem popular, se fala de «albarda-se o burro à vontade do dono», quando o homem que percebe de albardas quer fazer de uma maneira e o dono insista em que se faça doutra – e, nesse caso, é do dono a responsabilidade se a albarda der de si e caírem por terra os alforges e a pessoa que lá for escarranchada.
            Vêm estas histórias a propósito do grande receio que diariamente me invade ao assistir à crescente falta de profissionalismo, derivada, na sua maior parte, porque os governos da Europa, obedientes cegos ao paradigma reinante, insistem em «mandar para a reforma», a todo o custo, o maior número de pessoas. E quem vai? Com frequência, os mais capazes, e, dado tudo ser feito a trouxe-mouxe, de um momento para o outro (é tudo para ontem!...), não houve tempo sequer de ‘passar o testemunho’. E, por outro lado, há muito quem queira de imediato ‘assentar praça em general’ e nem lhe passa pela cabeça auscultar quem detém «saber de experiência feito».
            Quando o revisor passou, eu disse-lhe:
            – Deste lado da carruagem não há corrente e aquela porta lá ao fundo não abre.
            Já sabia, já anotara; deu-me quase a entender que a situação estava assim há já alguns dias e, como o comboio chegava e partia de imediato, não havia equipa para resolver a anomalia.
            Esta não foi uma situação de há anos atrás; passou-se no dia 19 de Abril num alfa Faro – Porto.
            Já não há equipas, já não há quem pense, já não há quem pese as questões. Visão pessimista? Quiçá. E aceito que me provem o contrário. Perguntarei:
            – Pensaram os técnicos que elaboraram o caderno de encargos das obras que estão a fazer-se na estrada Cobre – Murches, nas estradas que servem Bicesse ou na entrada sul de Alcabideche, no prazo máximo a que deveriam obrigar os empreiteiros a executar os trabalhos? Pensaram os senhores vereadores (se é que o assunto foi a sessão de Câmara, explicado) no enorme transtorno (de tempo e de dinheiro) que dá aos munícipes que os elegeram (e a eles próprios…) terem de andar às voltinhas, semanas a fio, e a verem que, nessas obras, há pouca gente a trabalhar e com tranquilidade plena? Pensou-se, ao elaborar o caderno de encargos, nas alternativas menos penosas? Estipulou-se, por exemplo, uma multa para o empreiteiro que deixasse eternizar a placa «desvio» quando já não é preciso fazer desvio nenhum? Fiscaliza-se devidamente o modo como a empreitada está a ser executada? Quem há aí que assuma os gastos adicionais de combustível – que não são de pouca monta… – que os moradores de Bicesse, por exemplo, têm suportado nos últimos meses? Eu escrevi «meses», sim, porque, infelizmente, é de meses que se trata.
            Prepara-se a campanha eleitoral. Este era um dos assuntos que eu gostaria de ver bem escalpelizado, porque o sentimos na pele todos os dias. Todos os dias. E nem sequer já há aquela placa simpática que de pouco servia, é certo, mas nos dava a sensação de que se pensava em nós, nas pessoas:
            «Desculpe o incómodo. Procuraremos ser breves!».
            Não são.

Publicado em Jornal de Cascais, nº 338, 22.05.2013, p. 6.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Teatro, escola de vida, fonte de diversão!

            Tive ocasião de assistir recentemente a duas representações teatrais: uma, levada à cena pelo Teatro Experimental de Cascais, chamava-se Viagem à roda da Parvónia e, embora escrita em finais do século XIX e estreada a 17 de Janeiro de 1879, retrata fielmente o cenário político desta Europa destrambelhada em que (sobre)vivemos na 2ª década do séc. XXI; a outra, uma revista ligeira, encenada no seio de um Centro de Dia de uma Junta de Freguesia, cujos actores foram, portanto, como se imagina, os anciãos que lá passam os seus dias.
            E se a primeira me provocou fartas gargalhadas (no fundo, de riso bem amarelo…), a segunda estava entretecida de cenas cómicas do nosso quotidiano e, para mim, o mais importante foi sentir quanto fora cativante para esses actores terem conseguido pisar o palco (alguns fizeram-no agora pela primeira vez!), enfrentar o público e, de modo especial, terem ocupado o seu tempo nos ensaios e, por conseguinte, muito terem aprendido numa vida em comunidade.
            Veio, pois, a talhe de foice ter ido procurar tema para este apontamento e se me apresentar esta notícia, datada de Fevereiro de 2012:
            «A récita “Bordeira é isto!” marca encontro com a boa disposição no Cine-Teatro São Brás, no próximo sábado, dia 11, pelas 21h30, para mais um grandioso espectáculo de teatro de revista, interpretado pelo grupo de teatro amador da Sociedade Recreativa Bordeirense.»
            E acrescenta a nota então divulgada pelo Gabinete de Imagem, Documentação e Informação da autarquia:
            «Formada há mais de 7 décadas, a Sociedade Recreativa Bordeirense é uma associação cultural sem fins lucrativos, que se dedica à participação e realização de eventos culturais. O teatro amador foi uma das artes acarinhadas desde o início da formação do grupo, mantendo-se viva até hoje por membros de todas as idades».
            Porque repesco este assunto agora? Pelo seu amplo significado: primeiro, porque é S. Brás a dar a mão a Bordeira, que não é do concelho, mas é como se fosse; depois, porque as representações teatrais, com todo o seu cortejo de preparação, de redacção dos textos, de escolha do guarda-roupa, de crítica social, de divertimento, enfim, constituem excelente meio de criar comunidade.
            Apoiar as colectividades e as entidades que decidem fazer teatro representa, pois, um relevante serviço por parte das autarquias. E há que aplaudir!

[Publicado em Notícias de S. Braz (S. Brás de Alportel), nº 198, 20 de Maio de 2013, p. 21].

sábado, 18 de maio de 2013

O cavalo e o touro em congresso histórico!

            Está a decorrer na Golegã, desde ontem, dia 15, no moderno centro Equuspolis, e prosseguirá no Cineteatro da Chamusca, nos dias 18 e 19 (porque o dia de amanhã, 17, está reservado a visitas), um congresso internacional, que reúne cerca de 100 participantes, não apenas de Portugal, mas também de Espanha, Itália, Grécia, Líbia, México e EUA, com 56 (!) comunicações previstas em torno da temática: o cavalo e o touro na Pré-história e na História.
            Reveste-se de particular interesse esta iniciativa - patrocinada, naturalmente, por ambos os municípios, em que tanto o cavalo como o touro fazem parte da actividade económica, social e comunitária quotidiana - precisamente porque se procurou juntar numa mesma reunião científica, toda uma panóplia de assuntos, vistos dos ângulos mais diversificados, o que enriquece sobremaneira as perspectivas de análise.
            O Doutor Fernando Coimbra, grande dinamizador do congresso, especializou-se na investigação em arte rupestre e não admira, por isso, que logo a 1ª sessão haja sido dedicada às representações desses dois animais desde os tempos paleolíticos em sítios de Espanha, Grécia, Marrocos, Líbia…
Entrando-se na História propriamente dita, nas civilizações pré-clássicas e clássicas, falou-se do cavalo no Egipto faraónico (como símbolo de poder, por exemplo), das quadrigas de Roma, do cavalo como animal sagrado, para, no que à Idade Média e à Idade Moderna diz respeito, se dizer de «los primeiros caballos llevados a América por españoles y portugueses» e do papel deste animal na cultura islâmica e também na Revolução Industrial.
            A domesticação, tema perene, foi analisada; e igualmente se proporcionou encarar o cavalo do ponto de vista museológico, ou seja, que exposições há e podem vir a fazer-se: no Museu Nacional de Arqueologia, no Museu Ibérico de Arqueologia e Arte de Abrantes, na Casa dos Patudos ( Alpiarça)…
E, claro, como se compreende, «a criação de cavalos e a sua utilização artística e desportiva» não podia deixar de estar presente, encarando-se, inclusive, «a criação do cavalo Lusitano numa perspectiva biológica».
Os aspectos paleontológicos não foram esquecidos assim como a «utilização militar do cavalo ao longo dos tempos».
            Para o Cine-teatro da Chamusca (dias 18 e 19), o touro vai ser o «rei», prevendo-se, a seu respeito, uma abordagem temática idêntica à que se fez sobre o cavalo, ainda que, no final, ambos os animais se analisem: em lendas, nos bestiários, nos fabulários (o centauro!), nos contos e, inclusive, «en el imaginario mágico-religioso de los Mayas»!
            Inaugurar-se-á a exposição de pintura «30 000 anos de História do Cavalo». E, no âmbito das visitas programadas para amanhã, 17, os destinos são, em alternativa: a Ganadaria Assunção Coimbra e a Coudelaria Veiga (Chamusca e Golegã); Abrantes (Museu D. Lopo de Almeida e castelo, Museu de Arte Pré-Histórica de Mação); Vila Velha de Ródão (Centro de Interpretação de Arte Rupestre do Tejo, castelo e miradouro do rei Wamba, passeio de barco às Portas do Ródão, lagar de varas, conferência sobre o Paleolítico do Ródão pelo Dr. Luís Raposo).
Acrescente-se que estará presente a tauromaquia, no domingo: a sua história, «Cartazes tauromáquicos das décadas de 1960-70: intervenções de conservação e restauro numa colecção particular», as festas de toiros em Portugal e em Espanha, de ancestral valor (queira-se ou não). Por fim, cavalos e toiros nas artes plásticas: pintura, escultura, azulejaria…
            Por conseguinte, em terras ribatejanas, uma plêiade de investigadores está a demonstrar como o cavalo e o touro, afinal, além das ‘funções’ utilitárias e de diversão que se conhecem, podem constituir deveras interessante fonte de reflexão e de bem aprofundado estudo.

Publicado em Cyberjornal, 16-05-2013:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=18311&Itemid=30

Romanos e bárbaros discutiram-se em Mangualde!

           Realizou-se, nos dias 10 e 11 do corrente mês de Maio, no auditório da Câmara Municipal de Mangualde, a 8ª edição da série de reuniões científicas internacionais que, iniciada em Bordéus, no mês de Dezembro do, já longínquo, 1988, se destinam a abordar um tema específico da história da Lusitânia Romana.
O assunto ora em debate foi a procura de uma resposta para ‘o fim’ da Lusitânia, ou seja, como é que, surgindo as crises, os Lusitanos delas se conseguiram desenvencilhar e daí brotaram novos modos e novas perspectivas de vida. Uma temática, pois, sobremaneira actual e que ainda não fora abordada, dado que, nas edições anteriores, se tratara das cidades (Bordéus, 1988), dos campos (Salamanca, 1993), da economia (Madrid, 1993), da cultura e da sociedade (Mérida, 2000), das comunicações (Cáceres, 2002). A 6ª edição, realizada em Cascais ( Novembro de 2004), teve por título «A Lusitânia entre o mito e a realidade» e tratou, por isso, da problemática religiosa. Por seu turno, em Toulouse (Novembro de 2007), a preferência foi para o estudo de como a Lusitânia, afinal, nascera e como haviam sido os seus primeiros tempos.

Esta mesa-redonda teve como promotor e secretário-geral o Doutor João Vaz, membro do Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e Porto, entidade de que, juntamente com a Associação Cultural Azurara da Beira, partiu a iniciativa da organização em Mangualde, bem no coração da Lusitânia ocidental, uma cidade cujo dinamismo (foi pronto o apoio das entidades locais, públicas e privadas) e fácil acessibilidade a fazem ombrear, cada vez mais, com Viseu. Registe-se, de modo particular, a fácil parceria estabelecida com o Município local, que chamou a si toda a logística; aliás, o Presidente da autarquia, João Gonçalves Azevedo, presidiu à sessão inaugural e o vereador da Cultura, João de Albuquerque Lopes, acompanhou com interesse praticamente todo o desenrolar dos trabalhos.

O programa desenvolvido
            Ultrapassou as seis dezenas o número de participantes e foram 21 as comunicações apresentadas.
            José Luis Ramírez Sádaba (Universidade da Cantábria) referiu os testemunhos epigráficos que, em Mérida, assinalam essa transição entre romanos e bárbaros. José d’Encarnação (U. de Coimbra) anotou a continuidade e a inovação registadas nos epitáfios cristãos dos primeiros tempos em relação aos epitáfios romanos («pagãos», dir-se-ia…). José Cardim Ribeiro (Museu de Odrinhas, Sintra), relacionou a divindade indígena Endovellicus com o culto que, no mesmo local (Terena, Alandroal), viria a instalar-se, dedicado a S. Miguel. Manuel Salinas de Frias (U. de Salamanca) chamou a atenção para a importância de um marco cadastral salmantino do tempo de Constantino II em relação com a organização político-administrativa da Lusitânia do século IV.
Na tarde do primeiro dia, assinalou Amílcar Guerra (U. de Lisboa) as perdurações onomásticas no Ocidente peninsular na transição do tempo romano para a Idade Média. João Vaz começaria por focar, de seguida, aspectos específicos da arquitectura do interior norte da Lusitânia na transição para os tempos cristãos. Pedro Barbosa (U. de Lisboa) mostrou como foram considerados os Judeus na legislação visigoda. Maurício Pastor Muñoz (U. de Granada) deu conta de como haviam terminado os jogos de gladiadores e as partidas de caça (venationes) nos últimos tempos da Lusitânia, por motivos religiosos e, sobretudo, económicos. Javier Andreu Pintado (UNED – Universidade Nacional de Ensino à Distância) teceu considerações acerca do significado das representações escultóricas dos imperadores tardo-imperiais. Sabine Lefebvre (U. da Sorbonne, Paris) resumiu as questões que se prendem com a recepção do poder imperial, aqui, desde o imperador Diocleciano a finais do séc. IV. Jonathan Edmondson (U. de Toronto, Canadá) salientou como se organizara a administração lusitana após as reformas de Diocleciano. Trinidad Nogales, que exerce actualmente as funções de Directora-geral do Património do Governo da Extremadura, deu conta das actividades em curso, de há uns anos a esta parte, no Centro de Estudos da Lusitânia, criado no Museu Nacional de Arte Romano de Mérida.
Antes do jantar social, gentilmente oferecido pelo Município, os participantes puderam inteirar-se in loco dos resultados das investigações arqueológicas levadas a efeito no sítio romano conhecido por Citânia da Raposeira, onde se identificaram significativas estruturas, designadamente habitações, condutas e um edifício termal, cuja consolidação e consequente musealização se pretende agora levar a cabo, por iniciativa camarária.
No 2º dia, Mélanie Wolfram (U. de Évora) sintetizou as conclusões a que chegara sobre a cristianização da Lusitânia meridional, no âmbito da tese de doutoramento que recentemente defendera. André Carneiro (U. de Évora) manteve-nos no Alto Alentejo, para mostrar a mudança e a continuidade aí registadas no âmbito do povoamento rural durante a Antiguidade Tardia. E pelo Sul permanecemos, pois que Maria Conceição Lopes traçou a evolução da cidade romana de Pax Iulia até ser Beja. Inês Vaz Pinto, a arqueóloga ora responsável pelo sítio romano de Tróia, patenteou-nos o que dele se sabia em relação a esse período cronológico. E se Maria João Santos, bolseira de doutoramento do Instituto Alemão, apontou o sítio de Mogueira (Resende) como «um espaço sagrado na encruzilhada entre dois mundos», Guilherme Cardoso (arqueólogo da Assembleia Distrital de Lisboa e presidente da Associação Cultural de Cascais) assinalou o elevado interesse histórico de duas necrópoles medievais (ditas ‘visigóticas’) do concelho de Cascais: a de Miroiço de Manique e a de Alcoitão.
A última sessão teve três intervenientes: Adriaan de Man (U. Nova de Lisboa), em seu nome e no de Catarina Tente, referiu-se à «fragmentação e emergência de poderes no território de Viseu», no final da Lusitânia. Também Pedro Carvalho (U. de Coimbra, que, na circunstância, também representou a direcção da Faculdade de Letras) abordou o registo dessa fase terminal «nas paisagens rurais do interior norte da Lusitânia». Por fim, Carlos Fabião (U. Lisboa) dissecou a continuidade e as rupturas documentadas nos séculos V e VI no Ocidente peninsular.
Pode, pois, concluir-se que, numa época em que – amiúde para se aumentar o obrigatório currículo institucional – se multiplicam reuniões científicas, esta VIII Mesa-redonda internacional da Lusitânia cumpriu cabalmente o seu papel de manter uma tradição de sistemática pesquisa histórico-arqueológica acerca de um território romano que, até há umas três décadas atrás, pouco interesse despertara entre a comunidade científica internacional. E Mangualde soube, assim, honrar uma tradição em que se irmanam, de modo especial, investigadores de três países: Portugal, Espanha e França.
 
Publicado em Cyberjornal, 15-05-2013: