domingo, 16 de junho de 2013

Para variar, com sua licença!

            Têm-me ocorrido as frases do nosso quotidiano de algumas décadas atrás e que, porventura, hoje apenas se ouvem de vez em quando e com uma certa admiração, quiçá, por parte de ouvidos mais novos, ferozmente educados na erudição globalizante.
            Tanto em relação aos nossos bichos como até a alguém que sofre de qualquer maleita:
            – Pronto, já variou! Ele, de vez em quando, dá-lhe isso: vareia!
            E os mimos com que – a sério ou a brincar – arramalhetamos as nossas falas, também em relação a animais, a crianças e a adultos:
            – Ai, filho de uma magana!... Olha o filho do diabo do cão!...
            Nem o catraio é filho de uma magana nem o cão, por mais endiabrado que pareça, poderia ser filho do diabo!
            O curioso é verificar que os linguistas apontam para étimo de ‘magano’ um substantivo latino, mango, que era a designação dada aos negociantes de escravos e àqueles que «enfeitam a mercadoria para a vender por melhor preço»! Eu acho que só podem estar a mangar!... Não deixaria, certamente, de causar alguma perplexidade ao feirante ou ao homem do talho ou, simplesmente, a um decorador se lhes chamássemos: seus maganos, hein! Pensariam que os acusávamos de uma patifaria qualquer e… nós apenas eruditamente arramalhetávamos a nossa conversa!...

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 173, Junho de 2013, p. 10.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Na prateleira

            Encerrou, com o nº 338, datado de 22 de Maio, a publicação da quarta série do Jornal de Cascais. Tive ocasião de historiar, a traços muito largos, a 26 de Setembro de 2012 (http://notascomentarios.blogspot.pt/search?q=jornaisemCascais), o passado deste título da imprensa local, que existe desde 29 de Setembro de 1929. A série ora terminada, de distribuição gratuita, iniciou-se há seis anos e, de semanário, o jornal passou a quinzenário a partir de 23-05-2012, publicando-se em semana alternada com a edição do Jornal de Oeiras, propriedade da mesma empresa e cujo director em ambos acumulava funções.
            O vírus de escrever sobre a vida local – contraído primeiro no jornal A Nossa Terra (1964-1967) e depois no Jornal da Costa do Sol (a partir de 21-10-1967), onde mantive a rubrica «Notas & Comentários» até ao inesperado falecimento desse semanário (14-01-2010) – esse vírus conseguiu manter-se em actividade, sob o nome «Andarilhanças», no quinzenário cuja vida agora se extinguiu, e dá acordo de si, amiúde, no Cyberjornal.
            Acedo, de bom grado, ao convite que me foi dirigido para dar colaboração ao novo projecto que ora vai iniciar-se, em moldes idênticos ao que vinha fazendo no Jornal de Cascais e noutras publicações.
            Manterei, pois, o vírus em actividade. E, ao pensar no nome genérico a dar à crónica, surgiu-me de imediato: «Na prateleira». Exacto: a inspiração veio da intenção «governamental» europeia de pôr muitos funcionários na prateleira e no conhecimento que tenho de muitos que são pagos (felizmente para eles!) e a que se lhes não dá qualquer tarefa a executar porque… «não interessam».
            Sempre essa atitude me causou enorme surpresa (eu sei, não devia causar-me…) e, por isso, não garantindo que não vá, de tempos a tempos, falar desses casos, proponho-me sobretudo continuar a ‘andar por i’, a bisbilhotar prateleiras – actuais e antigas, saudáveis ou já em putrefacção. A prateleira e, claro, o que nela se pespegou – para ser apreciado, louvado, perpetuado; ou para ser posto de lado, esquecido, espezinhado, qual verme que rapidamente interessa amortalhar…
            Que armas usar? Jogo limpo, como se requer no judo ou no futebol. E a ironia dos «comentadores» encartados (nunca lhes chegarei aos calcanhares, bem no sei, mas vou tentando…), mesmo que essa ironia possa vir a ser apodada de «desbragada». Aliás, há aí ironia que desbragada não seja para os que nela directa ou indirectamente sentem rever-se?

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 1, 05-06-2013, p. 6.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Espectáculo de benemerência teve bom acolhimento

           Gratificante, a resposta: o auditório do Casino Estoril, gentilmente cedido para o efeito, encheu, nos dias 30 e 31 de Maio, para o espectáculo de Henrique Feist, Broadway Baby.
            Acompanhado ao piano por seu irmão Nuno Feist, Henrique está em palco durante hora e meia a contar a história do musical americano: como nasceu, os intérpretes, os momentos altos e baixos, os êxitos que ainda hoje encantam… E Henrique Feist encantou também, com as suas brilhantes interpretações de temas imortais, uma plateia incondicionalmente presa ao seu talento, que lhe valeu, como se sabe, o globo de ouro da SIC.

«Somos o que fazemos todos os dias»
            Gratificantes as noites, porque se juntaram num enorme abraço de solidariedade não apenas os artistas e a sua equipa mas as mais diversas entidades, uma vez que as verbas angariadas se destinam a minorar as enormes dificuldades financeiras por que passa a Santa Casa da Misericórdia de Cascais, como acontece, de resto, com todas as instituições que se dedicam – arrastando consigo muitos voluntários – a suprir as cada vez maiores carências da população empobrecida.
            Constituindo a 2ª maior empregadora do concelho, com 650 trabalhadores, a Santa Casa, ao serviço da comunidade desde 1551 (!), tem a seu cargo 1005 crianças em creches e jardins-de-infância; 230 crianças no apoio escolar; assiste 485 famílias (banco alimentar, rendimento social de inserção, promoção socioeducativa); 48 crianças e jovens estão nos seus centros de acolhimento temporário; 342 adultos (deficientes em internamento) são apoiados no Pisão; 846 idosos são acompanhados nos centros de convívio, centros de dia, apoio domiciliário e lares).
            Um mundo de necessidades a que a Santa Casa procura acudir com magros recursos (a farmácia, o «Bom Apetite», a Feira da Adroana ajudam…) num concelho onde, apesar de todas as publicidades políticas, crescente número de famílias, inclusive da classe dita média/alta, passam fome.
            Gratificante, pois, a resposta da comunidade. E se o espectáculo em si agradou em cheio, todo este sentimento de uma solidariedade cumprida foi gratificante também.
                                                              
Publicado em Cyberjornal, edição de 02-06-2013:

sexta-feira, 31 de maio de 2013

«Na Sua Mão Direita» – uma oração

            Impressionou-me mui favoravelmente – quando, ainda moço, estudei pela primeira vez a antiga civilização egípcia – a informação de que, ao pressentirem aproximar-se o fim do seu percurso terreno, os egípcios procuravam retirar-se para mosteiros e aí apreendiam as regras exaradas n’O Livro dos Mortos, espécie de manual de passagem.
            No credo católico, súmula de dogmas professados, diz-se, a dado momento, que, após a Sua breve vida na Terra, Jesus «subiu aos Céus, onde está sentado à direita de Deus Pai». Inspirou esta expressão o pendor filosófico de Antero de Quental: «Na mão de Deus, na Sua mão direita / Descansou afinal meu coração». E foi esse o mote escolhido por António Salvado para o seu mais recente livro de poemas: Na Sua Mão Direita (Edições Sirgo, Castelo Branco, 2013; ISBN: 978-989-07695-8-8).
            30 títulos: 28 poemas propriamente ditos, assumindo alguns a forma de soneto mas sem obediência a rima; uma longa oração de prosa poética – «Fere-me os olhos a Tua Luz» (p. 37-38) – e o «Secreto Lugar», em jeito de coroa de cinco sonetos.
            Ressonâncias bíblicas: um «salmo com gratidão» (p. 36); a evocação dos apóstolos Paulo, Pedro e Judas numa procura de perdão; a «água niveal de Siloé», símbolo da purificação por que se anseia; a via sacra da vida, «noite amarga» em busca de «um som de claridade» que anime e revigore…
            Por todas as páginas, porém, dominante, o diálogo com o Senhor: numa prece «sem melodia, mas de amor ornada»; na consciência do «débil pó» que nos conforma, no desejo místico de, esquecido o tempo e ultrapassado o espaço, a serenidade enfim chegar.
            Livro, pois, inesperado: mensagem impregnada de uma tranquilidade que é hora de procurar.

Publicado em Cyberjornal, 31-05-2013:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=18388&Itemid=30

P. S.: “«Na Sua Mão Direita» – uma oração de António Salvado”, Gazeta do Interior (ano XXIV, nº 1286, Castelo Branco), 07-08-2013, p. 10.

Discutiu-se a crise da Lusitânia romana

            Permita-se-me que volte, de certo modo, ao assunto, pois se me afigura de interesse para os mangualdenses (e não só…) aperceberem-se da real importância da mesa-redonda internacional que, a 10 e 11 de Maio, aqui se realizou.
            Na sequência de idênticas reuniões que – em França, Espanha e Portugal – têm ocorrido desde 1988, sempre com um tema determinado, esta VIII mesa-redonda não poderia vir mais a propósito, na actual conjuntura. Os investigadores presentes procuraram discernir causas e consequências do «final» da Lusitânia romana, ou seja, como é que, perante os novos desafios postos pelo contacto com outros povos e outras ideologias (designadamente a cristã), os Lusitanos souberam adaptar-se e adoptar as soluções adequadas.
            Poder-se-á sempre questionar a verdade da secular afirmação «História, mestra da vida». Certo é, porém, termos, no dia-a-dia, sobejas provas de que o desconhecimento da História não constitui bom presságio, mormente para os detentores de funções públicas.
            De sublinhar e de muito aplaudir, por conseguinte, o pronto apoio da Câmara Municipal e das entidades locais a uma iniciativa científica proposta por um centro de investigação universitário (o Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e Porto), em colaboração com uma associação de defesa do património local, a Associação Cultural Azurara da Beira.
            Desta sorte, para além dos muitos outros factores que lhe têm permitido evidenciar-se pela positiva no panorama nacional, Mangualde colocou-se agora, de pleno direito, no mapa das cidades onde a investigação histórica detém lugar de relevo. Aliás, tivemos ocasião de ver como se pretende concretizar a valorização dos vestígios arqueológicos da Quinta da Raposeira; e amiúde se dá a conhecer, quer nas redes sociais quer na imprensa, o património histórico-cultural do concelho.
            A cidade encontra-se exemplarmente no bom caminho e… recomenda-se!

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 617, 01-06-2013, p. 12.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Ana Moura encantou no Museu do Oriente!

             Na sessão comemorativa dos 25 anos da Fundação Oriente, a fadista Ana Moura apresentou o seu mais recente álbum «Desfado» e encantou os convidados que encheram por completo o auditório do Museu do Oriente, em Alcântara, na noite de terça-feira, 21.
            O Dr. Carlos Monjardino, presidente do Conselho de Administração da Fundação, saudou os presentes e deu conta, em breve alocução, do que foram os 25 anos da instituição (constituída a 18 de Março de 1988), objectivos propostos e atingidos, nomeadamente no que concerne a mais estreita ligação entre Portugal-metrópole e os que foram seus territórios no Oriente – Macau (de modo especial), Timor e Goa. A promoção da língua e da cultura portuguesas através das mais diversas iniciativas constituiu preocupação fundamental, em estrita colaboração com as entidades locais, sendo de realçar o importante papel do Instituto Português do Oriente, em Macau, e o apoio às comunidades macaenses. Inseriu-se também nessa política a criação, em 2008, deste Museu do Oriente, como «ponte entre culturas remotas», a fim de melhor se «contribuir para o encontro entre Ocidente e Oriente e para uma relação entre civilizações em que o conhecimento, a arte e também as relações económicas substituam a ignorância, o fanatismo e a guerra».
            O concerto de Ana Moura foi inolvidável. Não apenas pelos temas cantados mas também – e quiçá, sobretudo – pelo modo como a fadista e os seus músicos se apresentam, numa contagiante empatia, porque não é apenas a voz, a melodia, o virtuosismo com que dominam a seu bel-prazer os instrumentos: é a irradiação para o público de uma alegria, de um prazer partilhado, «gostamos do que estamos a fazer e não resistimos a sorrir, a menear-nos no doce enleio para que a melodia nos arrasta»…
            Esguia, nos seus longos cabelos negros, vestido negro também, até aos pés mas envolto na finura transparente de organza (diríamos!), a estilização minimalista de um xaile, sorriso pleno e permanente, a vénia singela e breve na retribuição dos quentes aplausos… – Ana Moura encantou!
            Deixou-nos, a dado passo, com os seus músicos. E foi um festival! Ensaiada e bem original rapsódia – não foi exactamente rapsódia, mas de onde em onde colhíamos trechos de fados nossos… – onde o espírito do jaze esteve bem presente, para cada um dos músicos brilhar a solo, num virtuosismo singular: Ângelo Freire, na guitarra portuguesa (magnífico!); Pedro Soares, na viola de fado; André Moreira, na viola baixo; João Gomes, nos teclados; e Márcio Costa, na bateria e percussões. Não regateámos merecidos aplausos, mesmo a meio do longo e saborosamente orquestrado trecho com que nos brindaram!
            Além do conteúdo do álbum «Desfado», tivemos ‘direito’ a vibrar com o seu já consagrado «Búzios» («Vê como os búzios caíram virados p'ra norte / Pois eu vou mexer o destino, vou mudar-te a sorte»)… E, no final, os longos aplausos apenas conseguiram mais um fado – que nos apetecia ficar ali a noite toda. Mas não podia ser – uma requintada ceia esperava os convidados numa sala ao pé.

            Publicado em Cyberjornal, edição de 22-05-2013:

quinta-feira, 23 de maio de 2013

E a mala de mão da sua senhora quanto pesa?

            – E o senhor quanto pesa?... E o seu amigo?... E a sua senhora?... E a mala de mão da sua senhora quanto pesa?...
            Olhámos uns para os outros, desconfiados, e o comandante Estácio dos Reis não hesitou:
            – Desculpe: porque é que precisa de saber?
            – Questões logísticas.
            Compreendemos depois, perfeitamente, ao abeirar-nos, nessa já bem longínqua manhã de 15 de Maio de 1989, na pista do aeroporto de Miami, do pequenino avião que nos levaria a Great Ábaco, nas Baamas: éramos os seis os únicos passageiros, mais o piloto, e cada uma das bagagens foi estrategicamente colocada nos espaços disponíveis do aparelho, para que o peso ficasse bem equilibrado e o voo decorresse sem problemas.
            Lembrei-me de imediato dessa cena, quando vi o vídeo a mostrar como, no passado dia 30 de Abril, um Boeing B747-400 cargo da companhia aérea norte-americana National Airlines se despenhara, no momento em que levantava voo da base aérea de Bagram, no Afeganistão. O aparelho, que transportava veículos automóveis e outras cargas, «rodou no ar e despenhou-se junto a uma estrada que circunda a base aérea» e, embora a notícia inicial fale de «razões ainda não averiguadas», é mais do que evidente de que se tratou de um erro crasso do pessoal de terra, que não soube acondicionar convenientemente a carga.
            É por isso que, na linguagem popular, se fala de «albarda-se o burro à vontade do dono», quando o homem que percebe de albardas quer fazer de uma maneira e o dono insista em que se faça doutra – e, nesse caso, é do dono a responsabilidade se a albarda der de si e caírem por terra os alforges e a pessoa que lá for escarranchada.
            Vêm estas histórias a propósito do grande receio que diariamente me invade ao assistir à crescente falta de profissionalismo, derivada, na sua maior parte, porque os governos da Europa, obedientes cegos ao paradigma reinante, insistem em «mandar para a reforma», a todo o custo, o maior número de pessoas. E quem vai? Com frequência, os mais capazes, e, dado tudo ser feito a trouxe-mouxe, de um momento para o outro (é tudo para ontem!...), não houve tempo sequer de ‘passar o testemunho’. E, por outro lado, há muito quem queira de imediato ‘assentar praça em general’ e nem lhe passa pela cabeça auscultar quem detém «saber de experiência feito».
            Quando o revisor passou, eu disse-lhe:
            – Deste lado da carruagem não há corrente e aquela porta lá ao fundo não abre.
            Já sabia, já anotara; deu-me quase a entender que a situação estava assim há já alguns dias e, como o comboio chegava e partia de imediato, não havia equipa para resolver a anomalia.
            Esta não foi uma situação de há anos atrás; passou-se no dia 19 de Abril num alfa Faro – Porto.
            Já não há equipas, já não há quem pense, já não há quem pese as questões. Visão pessimista? Quiçá. E aceito que me provem o contrário. Perguntarei:
            – Pensaram os técnicos que elaboraram o caderno de encargos das obras que estão a fazer-se na estrada Cobre – Murches, nas estradas que servem Bicesse ou na entrada sul de Alcabideche, no prazo máximo a que deveriam obrigar os empreiteiros a executar os trabalhos? Pensaram os senhores vereadores (se é que o assunto foi a sessão de Câmara, explicado) no enorme transtorno (de tempo e de dinheiro) que dá aos munícipes que os elegeram (e a eles próprios…) terem de andar às voltinhas, semanas a fio, e a verem que, nessas obras, há pouca gente a trabalhar e com tranquilidade plena? Pensou-se, ao elaborar o caderno de encargos, nas alternativas menos penosas? Estipulou-se, por exemplo, uma multa para o empreiteiro que deixasse eternizar a placa «desvio» quando já não é preciso fazer desvio nenhum? Fiscaliza-se devidamente o modo como a empreitada está a ser executada? Quem há aí que assuma os gastos adicionais de combustível – que não são de pouca monta… – que os moradores de Bicesse, por exemplo, têm suportado nos últimos meses? Eu escrevi «meses», sim, porque, infelizmente, é de meses que se trata.
            Prepara-se a campanha eleitoral. Este era um dos assuntos que eu gostaria de ver bem escalpelizado, porque o sentimos na pele todos os dias. Todos os dias. E nem sequer já há aquela placa simpática que de pouco servia, é certo, mas nos dava a sensação de que se pensava em nós, nas pessoas:
            «Desculpe o incómodo. Procuraremos ser breves!».
            Não são.

Publicado em Jornal de Cascais, nº 338, 22.05.2013, p. 6.