sexta-feira, 2 de agosto de 2013

"Noites com Poemas", um ciclo com amanhã

           Quiçá Jorge Castro tenha começado em jeito de brincadeira, ele que também – ao que parece – só há poucos anos se deixou enlear nos braços de Euterpe, a musa da Poesia. Pensou assim a modos de uma tertúlia poética, sem regras fixas, cada qual vinha e dizia linhas suas ou alheias e assim se passavam duas horas, das dez à meia-noite, na Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana. Os responsáveis pela biblioteca apoiaram e, vai daí, a primeira «Noite com Poemas» ganhou raízes mensais, o grupo foi aumentando, revelações surgiram, Fernanda Frazão (da editora Apenas Livros) deu apoio. Realizou-se, no passado 19 de Julho, a última sessão da «temporada», a 88ª (!), em que tiveram papel de relevo os Poetas da Apenas Livros. Muitos foram os participantes, entre os quais se contou luzida representação de elementos, que, em Coruche (veio um autocarro da Câmara!), alimentam tertúlia semelhante, Um Poema na Vila.
            No seu blogue, http://sete-mares.blogspot.pt, dá Jorge Castro pormenorizada conta do que por ali, nessa noute, se passou (quatro fotografias lhe roubo, com sua licença…). Eu cheguei já para a parte final, mas ainda me pude aperceber de que não se haviam feito rogados os coruchenses e trouxeram não apenas o manjar da poesia, mas outros manjares mais concretos, numa verdadeira embaixada de sabores e de saberes, em que à beleza da palavra se juntou o aroma das viandas, o colorido do artesanato, a vivacidade musical…
            Desafinou Emília Azevedo que pegou na viola e veio cantar uns versos seus? Apaixonara-se Carmen Filomena por Pessoa aos 15 anos e nunca mais tivera paixão por ninguém e já nos 65 caminha e nos brindou com longo poema do poeta, sentidamente dito de cor? Vociferou o ‘revolucionário’ Carlos Pedro contra «o estado a que isto chegou»? Quem hoje não vocifera – em verso e em prosa vernácula?...
            É assim a tertúlia, as «Noites com Poemas», começadas há mais de sete anos (se as minhas contas não falham, porque mensais 88 vezes dá para cima de uma mão-cheia, desde Janeiro de 2004!...), em convivência sadia, na promessa de que, burilando a Palavra, se dá força ao Sentimento e generosamente se cultiva Comunidade!

Publicado em Cyberjornal, 31.07.2013:



quinta-feira, 1 de agosto de 2013

«Animais, nossos amigos»

            Veste-se excêntrica. Lenço garrido na cabeça, piercings nas pálpebras, no nariz… Calças pretas, justinhas. Botas pretas. Farta mochila às costas, donde pende um balde de plástico.
            Uso o presente do indicativo, mas o correcto era o pretérito imperfeito, pois, neste quente final de tarde da 2ª metade de Julho, no largo da estação ferroviária de vila balnear, foi visão rápida, no meio de tanta gente fartamente bronzeada e meio despida pelo calor, de regresso a casa. Ainda a tentei ver pelo retrovisor. Mas só o outro «pormenor» logrei descortinar, correndo-lhe atrás: o pastor alemão e um rafeiro de menor porte. Eram, seguramente, a sua fiel companhia. Quiçá, a única. De todas as horas – as boas e as más.
            E dei comigo assaltado por bem controversos pensamentos. O papel essencial dos animais de companhia. Não apenas para os que – como esta jovem – optam por se passear por aí, em liberdade plena, mas para os anciãos, as crianças, todos!...
            Assaltam-me as imagens e as frases por ocasião de incêndios e de inundações, por exemplo. Quantas vezes, mais do que os parcos haveres, o que se privilegia para salvar da catástrofe é o gato, o cão, e, até, o periquito ou o papagaio!... Falamos dos milhares de anciãos sem família, a viverem sozinhos… mas lá têm o cão presente em todos os minutos, pronto sempre à necessária carícia. Pode não haver uma côdea para o dono, tentar-se-á algo para o bicho. E, se é pequena a côdea, dá para os dois, isso é que dá! Tem de ser!
            E nas CERCIs não se praticam agora as terapias assistidas por animais? Na de Cascais, já não há a Cerci, que era uma delícia de cadela, mas outros vieram substituí-la, elementos fundamentais de educação para a vida daqueles que nasceram diferentes, mas a quem a ternura diária de um animal nunca deixa indiferentes.
            Sonhei ou, na instrução primária, eu tinha num dos livros o texto com o título «Animais, nossos amigos»? Acho que sim. A frase (de quem será?) constitui, aliás, corrente lugar-comum, com, se calhar, milhões de referências na Internet. Nem sempre, porém, disso se tem consciência plena; e, em tempo de férias, fácil e vilmente se abandona quem, sem nada pedir, fez as delícias do seu Inverno.
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 621, 01-08-2013, p. 16.
 

O parque da Pampilheira

            Este é um assunto que conseguimos não ficasse definitivamente na prateleira, depois de mais de duas décadas de luta.
            De acordo com a legislação em vigor, um urbanizador foi obrigado a reservar uma parte do seu terreno para uso comunitário. Nessa época, década de 80 do século passado, era o ténis que andava na berra e, por isso, optou-se por, no terreno deixado vago a nascente da Rua Júlio Dinis, no Bairro da Pampilheira (nessa altura, ainda a rua que o serve, a actual Mário Clarel, não tinha nome), se fazer campo de ténis. Nunca teve, porém, grande uso e, perante a degradação, por diversas vezes se pôs a hipótese de a Junta de Freguesia propor para o local outra utilização que servisse a comunidade.
            No final de 2008, surpreendentemente, a população é avisada que não estacione o carro na rua, porque vai começar ali a obra de um Centro de Cidadania Rodoviária de que nunca se tinha ouvido falar; nem o presidente da Junta estava ao corrente e o próprio presidente da Câmara não soube de imediato responder ao que se lhe perguntava a esse respeito. Dava a impressão de ter sido algo vindo do etéreo, porque o normal, numa circunstância destas, era os moradores terem sido informados com alguma antecedência e até serem chamados a dar o seu parecer. Não foram. E, mui sabiamente, o projecto não foi por diante. Deve jazer numa gaveta qualquer dos serviços camarários, pois que nunca mais dele se ouviu falar.
            Acertou-se, então, com a presidência da Câmara que, enfim, se daria andamento a um processo parado no tempo. E parado voltou a ficar, apesar do projecto feito, até que – também inopinadamente – surge a ideia de ali se implantar a loja da Cozinha com Alma. Nova reunião de moradores, nova interpelação à Câmara e, mercê do diálogo que se logrou estabelecer, acertou-se na instalação da loja e na simultânea (ou quase) concretização do parque.
            A inauguração do Parque da Pampilheira (exacto, fica na Pampilheira e não no Cobre, como foi divulgado pela Divisão de Marca e Comunicação do Município) ocorreu na manhã do passado dia 20 de Julho. Uma cerimónia singela, a que assistiram algumas dezenas de moradores, entre os quais (registe-se) se contou Pedro Mota Soares, do elenco governamental. Após o descerramento da placa, o Presidente da Câmara teve ensejo de informar as crianças de que se optara por um amplo espaço relvado, em vez do tradicional campo de jogos, atendendo ao facto de anteriores experiências nesse domínio terem provocado mais conflitos do que serviço à vizinhança. Assim, a relva irá crescer, a refrescar a pista de bicicletas e o parque infantil, junto à loja da Cozinha com Alma, possibilitará recreio para a pequenada. Há zona de estar e, na parede norte, um bonito mural explica «Já não tens idade para andar de triciclo»! – forma alegre de alegrar o espaço. Os moradores viram também organizada a área de estacionamento.
            Congratulamo-nos, pois, com esta realização, mormente pelo que ela contém de paradigmático, no envolvimento que a população soube dar e na resposta que o Município e a Junta de Freguesia (que, naturalmente, vai superintender na manutenção do espaço, na mais ampla colaboração com os vizinhos) lograram dar, para conforto de todos.




Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 9, 31-07-2013, p. 6.

 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Doidos e revolucionários - entendam-se!

            Torna-se extremamente difícil escrever sobre a peça em cena no Teatro Municipal Mirita Casimiro desde o passado dia 24 e até 13 de Agosto. Sinto-me, na verdade, ignorante, por desconhecer os meandros da arte teatral, da história do Teatro e de todas as ciências que lhes são afins, pois que de verdadeiras «ciências» se trata. Razão tem, por isso, Miguel Graça, o responsável pela versão e pela dramaturgia, quando, no final do seu texto de apresentação no «programa», proclama: «Mestre Avilez». Eu diria mais: «Doutor Carlos Avilez!», tamanha é a sabedoria bem patente na encenação deste portentoso espectáculo, um sonho que, alfim, o «Mestre» ousou concretizar, superando longas hesitações de anos.
            O meu voto, desde logo, é que se consiga proceder à gravação do espectáculo, uma vez que se trata da Prova de Aptidão Profissional dos alunos da Escola Profissional de Teatro e não é possível tê-lo em cena muito tempo.
            Importaria falar dos figurinos (sempre a mão hábil e já imprescindível de Fernando Alvarez, idealizador também da cenografia); do guarda-roupa; da música original de R. C. Peaslee; da ajustada iluminação; do cenário despidamente dramático. Impossível referir todos os pormenores significativos, que farão escola, não tenho dúvida. Era preciso, aliás, ver a peça bastantes vezes, com olhar sempre muito atento. Cinjo-me, pois, a alguns aspectos que se me afiguram relevantes.
 
«Acordem!»
            Em primeiro lugar, a perfeita actualidade de um texto escrito em 1964 – actualidade para o mundo e não apenas para o espaço político português. Dá que pensar, obriga a pensar e termina mesmo com um dos actores à boca de cena, dirigindo-se ao público nesse sentido, como que a proclamar: «Acordem!».
            Em segundo lugar, cativou-me o que eu chamaria de simbiose (vou escrever uma asneira, mas que os peritos me desculpem, porque reajo como público e não como especialista em Teatro, que o não sou, claramente), a simbiose entre a tradição do teatro clássico e o modelo da revista à portuguesa. Explico-me: a figura do arauto (eu vi a estreia e andou muito bem Jani Zhao) pode personificar o arauto das festas medievais, sim, mas também podemos ver nele o compère (passe o galicismo!), elo de ligação a guiar o espectador na compreensão melhor do que ali vai passar-se.
            Por outro lado, ainda nessa mesma linha de pensamento, há os quatro ‘palhaços’, que não são palhaços mas se vestem como tais e incarnam, a meu ver, o que, na tragédia grega, era o coro (aliás, amiúde se expressam em música), a comentar jocosamente o que se viu e a própria trama que a seus olhos se desenrola. Eles são palhaços e a escolha dessa roupagem não foi, seguramente, nada inocente, como facilmente se compreende: a incarnação concreta da frase «ridendo castigat mores», “é a rir que se castigam os costumes”. Como quem diria, em linguagem comum: «Vamos lá, cambada, rir desta gente toda, a ver se aprendem alguma coisa! É difícil, mas nada custa tentar!»…

«Ou vocês se portam bem…»
            Em terceiro lugar… Bem, aqui há que explicar minimamente o que o autor, o alemão Peter Weiss (1916-1982) engendrou, e não é simples, pois logo o título – embora a peça seja mais conhecida como Marat/Sade – se revela estranho: Perseguição e Assassinato de Jean-Paul Marat Representado pelo Grupo Teatral do Hospício de Charenton sob a Direção do Marquês de Sade.
            Temos, pois, uma peça de teatro que o Marquês de Sade escreveu acerca do revolucionário Marat, um dos ícones da Revolução Francesa, com vista a ser representada, em jeito de terapia de grupo, pelos loucos do hospício onde ele próprio estava internado. Marat foi assassinado a 13 de Julho de 1793, Sade escreveu a peça em 1808 e Peter Weiss em 1964, e nós assistimos a ela agora, e, ao que parece, tanto Sade como o próprio Peter Weiss (será ele?) também estão em cena ali, espectadores vigilantes, e não é raro que as falas dos actores excedam o que eles escreveram. Várias vezes a sequência é, pois, interrompida por um ou por outro, como quem diz: «Ou vocês se portam bem e seguem o texto ou a peça acaba já aqui!». Estratagema que resulta muito bem. É o actor a empolgar-se, a fugir expressamente da grilheta do guião, porque lhe apetece, raivoso, dar conta de uma realidade vivida, concreta, em transgressão. A admoestação, neste caso, serve para reforçar ainda mais a atrocidade do que se está a viver, com profundas implicações político-sociais e ideológicas. E o espantalho da guilhotina lá está sempre, qual pelourinho medieval. Os autores sentem que os actores acabam por lhes querer escapar – Pinóquio a ganhar vida saído das mãos de Gepeto… E não é que, de quando em vez, enclausurado como está, também o espectador sente ganas de gritar, de reagir aos palhaços que, subservientes e até cantando (como o tal coro das tragédias gregas), o vêm desafiar junto às grades?...
            É, sempre, um mar de gente em palco: um total de 90, disseram-me! A maioria, doidos, cheios de tiques (eles ou nós?...), a documentarem o corajoso e inaudito e louco (também ele!) trabalho de direcção de actores de Carlos Avilez, bem secundado, nessa questão das manifestações patológicas, por Cristina Rego e, na coreografia, por Natasha Tchitcherova. E, não sendo um musical nem uma opereta, recorre, porém, com frequência à música, a dar toque gracioso ao conjunto.
            Escusado será dizer que, para Prova de Aptidão Profissional, é desafio enorme para o encenador e para os muito jovens actores dos três elencos, assim sujeitos a um pisar de palco em ritmo quase alucinante, e despertos, desta forma, para o desempenho dos mais diversos papéis.
            Saímos do Mirita Casimiro com os gritos da Revolução a soarem bem estridentes nos tímpanos do nosso quotidiano louco!...

Publicado em Cyberjornal, 31-07-2013 [com 61 imagens do espectáculo, das quais, com a devida vénia, aqui  se reproduzem três]:

segunda-feira, 29 de julho de 2013

O significado da villa romana de Freiria

             No âmbito de uma acção de sensibilização para o património, levada a efeito pelo movimento SERCASCAIS, foi visitada a villa romana de Freiria e aproveitou-se o ensejo para dar uma ideia do seu enquadramento histórico e da sua real importância como sítio arqueológico do concelho, alvo de uma série continuada de campanhas de escavação e que ora aguarda a concretização, no terreno, do Plano de Pormenor já superiormente aprovado, para que se recomecem os trabalhos, nomeadamente tendo em conta a sua valorização e musealização.
            Na qualidade de um dos arqueólogos responsável pelo sítio, não posso, pois, deixar de me congratular com a iniciativa e louvar o jornal O Correio da Linha pela circunstanciada reportagem que inseriu na sua edição de Junho (p. 18), sob o título «Caminhada noturna para ver milagres de Cascais», assinada por Igor Garcia Pires.
            Sem entrar em pormenores e sem discutir a ‘filosofia’ que presidiu à caminhada, que respeito, cumpre-me, porém, esclarecer algumas das passagens que mais directamente se prendem com a arqueologia (e agradeço a Paulo Pimenta a oportunidade de aqui publicar esses esclarecimentos):
            1. Titus Curiatius Rufinus não foi enterrado ali, que se saiba; ele foi, sim, o dedicante de um altar à divindade Triborunnis (junta-se a foto), o génio do local, a quem ele «pediu autorização» para se instalar. O altar é datável do século I da nossa era. Rufinus foi, pois, um personagem real, Rómulo e Remo são os fundadores lendários de Roma; dizer que Rufinus é descendente deles é o mesmo que afirmar que todos nós somos descendentes de… Afonso Henriques (muito embora este, ao contrário daqueles, tenha realmente existido)! Dizer que Rufino está «ligado à fundação do Império Romano» não é, pois, verosímil, pois se trata de mero colono particular, sem qualquer cargo, que, vindo mui provavelmente da Península Itálica, aqui assentou arraiais, por o sítio ser bom e abundante em água.
            2. Não há, em Outeiro de Polima, nenhum cemitério classificado como «monumento nacional»; há, sim, uma villa (isto é, casa de campo) tal como a de Freiria, ambas romanas e classificadas como imóveis de interesse público.
            3. Não há «alguns celeiros». A villa, residência que, em dado momento, foi, seguramente, de Titus Curiatius Rufinus, tem, de facto, um celeiro; não é único nem no Império Romano nem na Península Ibérica nem sequer no território português. Dizer que estes terrenos foram, durante 500 anos, o «celeiro de Roma» não é compreensível, por se tratar de uma zona minúscula, que poderia abastecer, sim, Olisipo, a Lisboa romana. Estava, além disso, demasiadamente afastada de Roma para ser o seu celeiro, quando o abundante trigo da Sicília bastava para alimentar os habitantes da Urbe.
            4. Esta zona não vai transformar-se ‘em alcatrão’. O Plano de Pormenor aprovado prevê, por exemplo, uma enorme zona verde, hortas comunitárias e cuidadoso ordenamento do território.
            5. Afirmar que foi aqui, na Conceição da Abóboda, que tudo começou, ou seja, que ali se está “no coração de Cascais” carece de alguma explicação complementar, na medida em que temos, por exemplo, em plena vila cascalense, uma gruta que foi necrópole em tempos pré-históricos, ou seja, muito antes de os Romanos se haverem instalado em Freiria. E há as grutas de Alapraia e a gruta de S. Pedro do Estoril, que datam de há cinco mil anos atrás.

Publicado em O Correio da Linha [Oeiras] nº 292, 25-07-2013. p. 3.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Na prateleira - 4

            É já quase lugar-comum atribuir a um general romano a frase: «Há, nos confins da Ibéria, um povo que nem se governa nem deixa governar-se!». Referia-se, ao que parece, aos Lusitanos, dos quais reza a tradição, que não a História, directamente descende o Povo Português.
            Acho a afirmação deveras injusta. Primeiro, porque, no dia-a-dia, o que mais vemos é quem, mui diligentemente, saiba governar-se – e bem! Isso torna-se mais notório na classe vulgarmente dita «política»; mas poder-se-iam aduzir exemplos mil, a todos os níveis, de como a máxima a todos por igual se poderia aplicar. E, em segundo lugar, é bem refinada mentira, pois essa observação se ajusta a muitos povos que não apenas aos da Ibéria! E recordo, desde logo, aquela velhinha trémula, sentada e mísera, na passagem para a «grande superfície», a suscitar comiseração imensa e que já terá sido vista, elegantemente vestida e desempoeirada, a passear-se noutras paragens. Não se governa a senhora, aparentemente oriunda da Europa Central?
            A questão prende-se mais com a obediência a regras – a que somos renitentes por natureza, ainda não se fez a lei e já estudámos as 1001 maneiras de a ludibriar, quando não é o próprio texto da lei susceptível de 1001 interpretações, a fim de… se estar sempre na mó de cima, ora bem! Veja-se o caso daquele sobre a impossibilidade de alguém voltar a candidatar-se a mandato camarário, após ter exercido o cargo três mandatos seguidos. A confusão que anda por aí e não há meio (nem vontade, diga-se!...) de clarificar o pretendido…
            Perdi-me, confesso, nestas considerações, porque apenas queria exemplificar tudo isso com um caso bem comezinho, de mui difícil compreensão mas verdadeiro: a Praceta Padre Marçal da Silveira (no Bairro da Pampilheira, em Cascais), onde está a loja da Cozinha com Alma e uma creche/infantário, tem ampla placa central relvada. Num dos postes de iluminação há um distribuidor de saquinhos para recolha de dejectos caninos, como aliás, outros dois há na Rua Mário Clarel anexa. Então não é que essa verdejante placa está sempre ornamentada com os ditos? Sete, oito, nove… Diariamente! Não, não são cãezinhos vadios os que lá vão, são mesmo aqueles que os senhores donos e donas levam pela trela a passear. E não é um consolo vê-los aproveitarem-se da relvinha fresca e sadia? Os saquinhos estão ali bem à vista; os senhores donos e donas têm olhos na cara e mesmo jovens que são alguns já sofrem (coitados!) de bicos-de-papagaio: doem-me tanto as costas! E, depois, já viu? Apanhar o dejecto? Que nojo!

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 7, 17-07-2013, p. 6.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Vizinhos e não condóminos

             Está aí a campanha eleitoral e cada candidato procura mostrar o que é sua intenção fazer com que seja melhor a vida dos munícipes.
            No quadro desse bem comum e desse bem-estar que todas as candidaturas se propõem conseguir, creio não estar longe da verdade se afirmar que desejam todos ser cada vez mais vizinhos e cada vez menos condóminos.
            A palavra ‘vizinho’ deriva do vocábulo latino ‘vicinus’, que era o habitante do ‘vicus’, «a aldeia». E aldeia é assim um lugar pequeno, onde toda a gente se conhece e, na necessidade, se entreajuda: um naco de pão, uma malga de sopa, uns euros para o medicamento urgente, a boleia para ir ao médico… Há proximidade, comunidade, na certeza de que assim melhor se logrará viver.
            O vocábulo ‘condómino’, ao invés, afirma-se como criação dos nossos dias, embora possa filiar-se também no latim: con + dominus. Dominus é o senhor, o dono, o que possui algo de seu; detém, pois, uma conotação visceralmente económica. Do ‘ter’ em vez do ‘ser’. E condominus, por conseguinte, apresenta-se como «senhor em conjunto», detentor dos mesmos interesses – económicos, claro!
            Daí o apelo: vamos ser cada vez mais vizinhos e cada vez menos condóminos, certo?
            S. Brás pode dar, também neste domínio, um testemunho exemplar!

[Publicado em Notícias de S. Braz (S. Brás de Alportel), nº 200, 20 de Julho de 2013, p. 21].