terça-feira, 8 de outubro de 2013

«O Segredo Perdido», de Júlia Nery

            Graças à sua amizade, tenho acompanhado Júlia Nery desde que decidiu – e bem – partilhar a sua vida entre a docência e a escrita, em Cascais. Recordo o seu Pouca Terra… Poucá Terra… (1984); regozijo-me por ter conseguido que fosse Claire Cayron (a tradutora de Miguel Torga) a traduzir para francês o seu O Cônsul (1993). E ainda está fresco o Da Índia com Amor (2012) e já no horizonte mui louvavelmente se perfila o enigmático Prior do Crato, num incitamento ao estudo da História Pátria de que ora tanto se anda arredado entre nós.
            O Segredo Perdido, título que vem antecedido (ou seguido) de «Lisboa, Terramoto de 1755», foi editado pela Bertrand em Janeiro de 2005 (ISBN: 972-25-1392-3), na altura em que se comemoravam os 250 anos do cataclismo. Perdoar-se-me-á por só agora a ele me referir; contudo, mesmo com atraso, acho que será de interesse reflectirmos um pouco sobre o conteúdo desse romance histórico e o que de novo ele veio trazer-nos.
            Trata-se, no fundo, da história de um cofre, que andou de mão em mão desde o torvelinho do terramoto até cair, no dealbar do século XX, em usurária tenda de antiquário, onde uma jornalista (a autora) o descobre quase um século depois e verifica que, afinal, ele continha, escondidos, uma série de manuscritos, que lhe acirraram a curiosidade e a levaram a evocar as gentes que lhe estiveram ligadas:
            «Quando comecei a escrever, propunha-me seguir o percurso do cofre, entrando com ele pelas vidas e as épocas dos seus possuidores, assim como pelas “condicionantes” das suas vendas» (p. 183).
            No cofre se encontrava, pois, o segredo: as cartas. Não é este um romance histórico? E… História constrói-se com documentos! Eles aí estavam – a garantir a autenticidade de todo o enredo, alicerçado também, naturalmente, nas narrativas da época.
            Há, de permeio, uma ligação, querida à autora, aos judeus que, na acolhedora Lisboa da II Grande Guerra, por aqui passaram e jogaram no Casino do Estoril, em demanda do além-Atlântico: a venda do cofre ajudou a ressarcir dívidas de jogo e permitiu o pagamento da viagem, em Abril de 1942. E a jornalista tem os problemas destes primórdios do século XXI: depressões, altos e baixos… Entrelaçado com o drama de Beatriz, há, pois, o seu, atormentada como está pelo cancro da hipófise e pela separação de Walter.
            Júlia Nery, com base nas descrições da época, no que se sabe do eco enorme que o terramoto de Lisboa teve por esse mundo fora e, naturalmente, nas visões dos cataclismos de agora, traça um quadro realista do que foi o terramoto, os mortos, os sobreviventes, não fugindo também àquele realismo mágico (ai, aquela égua!...), de que, afinal, queiramos ou não, acabam por ser entretecidos os nossos dias, com tantos pormenores que nos escapam e que representam, sem disso amiúde nos apercebermos, essas ‘chamadas’ do Além… E serão os sobreviventes que prosseguirão na história.
            Descreve-se a reconstrução, as medidas tomadas; os violentos sermões do Padre Malagrida e, inclusive, ao pormenor, a sua morte a mando severo da Inquisição; o quotidiano das famílias nobres, seus negócios claros e obscuros, os amores furtivos: «Nocturnas escapadelas com destino certo a alcova de dona casada com marido protector ou ausente» (p. 57). Quem diria que o ódio dos Távoras ou aos Távoras andara envolto em reais enredos de saias!..

A sedução do convento
            Há muito que a vida conventual, o que lá enigmaticamente se passava ou passaria excita a imaginação alheia. Um olhar – também aqui, porque uma das personagens vai para freira e, naturalmente, contra a sua vontade… – que não será, porventura, estereotipado, ainda que se realce ser a vida em clausura resultante de malogrados amores, e sejam encarados os votos (de pobreza, castidade e obediência) numa óptica de imposições contra natura. Aliás, quiçá nesse horizonte – sempre aliciante porque, repito, estranho ao olhar comum – se encontrem ecos doutras leituras e será, decerto, óbvia a imediata evocação de Soror Mariana de Alcoforado e suas cartas de amor.
            É o delicioso fascínio exercido por aquela sempre demasiado pequena janela gradeada, elo subtil e único entre os dois mundos, o de fora e o de dentro, envoltos ambos – por um lado e por outro – em denso manto de intrigante mistério…
            Na p. 212 se desvenda o segredo: no convento, Beatriz recebe o cofre das mãos da madre e declara, na última carta:
            «Agora me pesam a revolta, a desobediência. Choro, pela saudade daquela Maria Antónia que eu era mas não me deixaram ser. […] Algumas páginas do meu diário e as nossas cartas guardará este cofre como única memória que de mim fica no mundo».
            Leitura acabada e recapitulação feita sobre a viagem pelo tempo empreendida: o drama de um amor impossível; o cofre de misterioso recheio que perpassa pelos séculos, de mão em mão…
            Plebeus, nobres e freiras… suas vidas, emoções, tormentas e favores desfilam, pois, por estas mais de 200 páginas, entrecruzando-se com a «Lisboa formosa» de 2000 a 2003.
            De capítulos curtos, não é leitura fácil de seguir, caso se não opte por ler tudo de carreirinha e assim se fixarem melhor os nomes e os relacionamentos das personagens envolvidas. Veja-se o índice: as 13 folhas do cofre mais as cartas de Beatriz e de Guilherme emolduram o capítulo fundamental «As vidas». E a narradora acaba por intrometer-se aqui e ali, não vá o leitor esquecer-se que é ela quem o guia por estas veredas da História, ela que também tem a sua história, tão dramática porventura como a das suas personagens: não constitui terramoto o mundo em que estamos obrigados a viver?
            «Passaram mais de dois anos desde o dia em que descobri o secreto do cofre e desdobrei na primeira folha de papel almaço, escrita a trinta violeta esmaecida, a história de Beatriz» (Janeiro do ano 2002, p. 210).

Frases que há a reter
            Sublinhei passagens a reter, dado que Júlia Nery, autora, tem no sangue a sua matriz de docente de Língua Portuguesa e, como tal, além de burilar a escrita, usa-a como veículo de reflexões outras, de mensagens que, em seu entender, devem obrigar o leitor a parar, quer para se extasiar com a beleza quer para voltar atrás e melhor observar, com olhar crítico, o mundo que o rodeia. Frases lapidares algumas, anotações singelas outras – mas sempre aureoladas de perspicácia a realçar:
            «Toma lugar na fila e encosta-se aos pensamentos que vieram a brincar na sua sombra» (p. 37).
            «São aqueles que mais sofrem quem menos odeia e melhor sabe perdoar» (/p. 41).
            «A gratidão dá frutos tão gostosos quanto o ódio destila mortíferos venenos» (p. 56).
            «A merda dos grandes às vezes é bom adubo na vida dos pequenos» (p. 57).
            «O conselho da moda: ter uma cómica por luxo, possuir uma dama por gosto, namorar uma freira por moda, casar com uma prima por amor» (p. 59).
            «Vida de pobre anda pelo mundo de jumento, sempre empaca no caminho, demorando ou não tendo tempo de chegar onde deseja. Não queiras tu, mulher, tocar o burro para a frente, pedindo-lhe pressas de corcel» (p. 62).
            «Seria pouco a pouco guardado num canto das suas afectividades, como se faz a um santinho de papel para marcar o salmo escolhido no missal» (p. 114).
            «Lisboa depressa odeia os que muito aclama» (p. 121).
            «É sempre contra vontade que mulher se despe de seus cabelos» (p. 143).
            «O homem engendrou angústias escusadas quando começou a dividir o tempo aos bocadinhos» (p. 167).
            «Tanto mais lenta é a mó moendo quanto seja fraco o vento e seco o rio que lhe dá força» (p. 210).
            «Aprendi que o grande sentido da vida é vivê-la» (p. 222).
            «[…] o êxtase do pôr do Sol, visão da morte para o renascimento, quando esta estrela se faz traço de união entre a terra e o mar» (p. 227).
            «Quero saborear a cidade prenhe de gente, a dádiva de harmonias deste tocador de ocarina encostado à austeridade granítica do prédio da esquina» (p. 228).
            «Espreito nas ruas estreitas do Bairro Alto intimidades a balouçar nas cordas da roupa» (p. 229).
            E por este Segredo Perdido também nós espreitámos intimidades!

Publicado em Cyberjornal, 08-10-2013:

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Carmen Dolores «No Palco da Memória»

            Tive ocasião de escrever acerca de Retrato Inacabado (Lisboa, 1984), o livro anterior de Carmen Dolores:
            «São páginas vibrantes de humanidade, a actriz a falar alto consigo própria, não em lamechice saudosa, mas num discorrer suave em que a cronologia não conta, as ideias prendem-se umas às outras, as recordações brotam» (Jornal da Costa do Sol, 25-04-1985, p. 19).
            Esta característica, de prosa escorreita, despretensiosa e singela pode igualmente apontar-se neste segundo livro: No Palco da Memória (Sextante Editora, Lisboa, Fevereiro de 2013, ISBN: 978-989-676-163-9).
            Trata-se, como o próprio título indica, de livro de memórias, bem ilustrado com mui adequadas e sugestivas fotografias; sem datas; sem gralhas. Dedicado ao marido («Ao Victor, companheiro exemplar, que não sei como mereci»), consagra-se como o resultado daquele impulso inevitável, no Outono da vida, que assalta quem muito viveu e sente a obrigação de partilhar a experiência longamente adquirida: C. Dolores nasceu a 22 de Abril de 1924, estreou-se na rádio aos 14 anos e decidiu terminar a sua carreira no teatro em 2005!
            Há, pois, no livro a arrumação do passado na 1ª pessoa: o que fiz, como fiz, o que senti, o que aprendi, o que ficou. Disso versam os capítulos «De mim», «Encontros e desencontros», «Da observação», «Da imaginação», «Da profissão», com especial realce para este último, onde Carmen Dolores se… confessa!
            Uma confissão a ser meditada, ainda que a autora se interrogue a dado passo: «Não estarei a repetir-me demasiado? Não serão banalidades o que acabo de escrever?» (p. 151). E explique: «Mas nada do que escrevo pretende ser didáctico ou pretensioso. São considerações minhas, baseadas em momentos vividos, contadas com sinceridade e escritas ao correr da pena» (p. 165).
            Depoimento importante, porém, para melhor se compreender não apenas a grande actriz mas tudo o que a envolveu ao longo dos muitos anos da sua actividade. Uma lição, de resto, para todos, nomeadamente os que almejam seguir a via artística como profissão e missão; e o repositório histórico do Teatro no decorrer do século XX que daqui se desprende revela-se bem oportuno, elucidativo e útil.
            Carmen Dolores observa argutamente a realidade. Deixa cair, aqui e além, como quem não quer a coisa, um apontamento sintomático, como, por exemplo, quando refere quem vai à inauguração de exposições: «Outros, que passavam para comer umas coisas, que àquela hora já apeteciam, fazendo dispensar a refeição da noite» (p. 44-45). Alude aos «beijinhos distraídos das mulheres apressadas» (p. 75); e ao «jornalista entrevistador, quando na televisão arma malcriadamente em juiz do político entrevistado, ali à sua mercê» (p. 91). Explica que, «no fundo, as pessoas vão ao teatro para se verem retratadas, para se encontrarem consigo mesmas, para aprenderem a conhecer-se melhor e a melhor entenderem os outros» (p. 99). Argumenta que «o actor tem de saber ouvir o público no seu silêncio» (p. 104); que estamos «nuns tempos em que já ninguém escuta ninguém» (p. 150). E recomenda que, «quando comentamos as atitudes dos outros, não esqueçamos nunca o espelho que nos reflecte a nós mesmos» (p. 150). E frisa, mais do que uma vez, o poder do louvor, a magia contagiante dos aplausos! Por vezes, até parece que se distrai e entra em diálogo com as pessoas de quem está a falar: «Nunca falámos nisso, nem ninguém o soube, mas eu jamais o esqueci, Ribeirinho!» (p. 48).
            Solta-se-lhe, de vez em quando, no seio dessa acutilante observação das gentes, a vontade de esmiuçar melhor o que vê. Assim, a magnífica e comovente história da mulher que sai da prisão (p. 70-73), um conto, diria eu, de antologia, que termina assim: «Atravessou o mundo sem conhecimento de ninguém, como se tivesse vindo do além e tivesse de novo partido, a caminho desse além…» (p. 73). Uma história pungente que, sem dúvida, amiúde se há-de repetir, sem que ninguém disso se aperceba! E morreu o Sr. Pires, porteiro do prédio; Carmen passou pela igreja de Fátima: «Àquela hora era ele o único morto e eu a única pessoa viva» (p. 51).

A sabedoria que a experiência dita
            E se em «Encontros e desencontros» temos desfile de personalidades com quem Carmen Dolores se cruzou e sobre quem, sem rebuço, dá a sua opinião, é em «De mim», «Da observação» e «Da imaginação» que mais sentimos o pulsar humano dessa experiência vivida. E daí será difícil não coligir algumas frases, para meditação maior, frases que no livro também eu sublinhei, como era hábito da artista: «Esta minha mania de sublinhar os períodos que me dizem mais!» (p. 40).
            «Não deixem o sonho fugir. Tranquem todas as portas» (p. 57).
            «Hoje já não há meninas à janela. Hoje, as meninas ou estão a comunicar com desconhecidos, através da Internet, em jogos, por vezes, perigosos de sedução ou a dançar freneticamente na night ensurdecedora» (p. 57-58).
            «Não parecia ter nome a filha da Senhora Duquesa. Talvez na intimidade… teria intimidade? […] E a Rosa, que é pobre, mas todos no bairro sabem que se chama Rosa, virá, feliz, corada, dar a mão à mãe, que também todos sabem ser Maria da Silva, costureira de alfaiate» (p. 68).
            «Em resumo: o Teatro deveria ser uma disciplina obrigatória, até como complemento da língua portuguesa» (p. 98).
            A última parte do livro constitui um registo: as personagens que interpretou (p. 119-170); o relacionamento com o cinema, a televisão, a rádio, «os admiradores e a Casa do Artista» (p. 171-198); «O que disseram de mim», colectânea de recortes (p. 199-243), de que destaca alguns depoimentos especiais (p. 245-254). Termina com uma pequena biografia.
            Se o primeiro livro foi Retrato Inacabado, este pode, na verdade, ser tido na conta de um complemento, a dar mais umas pinceladas de esboço no que foi (e ainda é!) uma vida rica, com muito para ensinar. E este No Palco da Memória (bonito o título, deveras!) compendia bastos ensinamentos!

Publicado em Cyberjornal, 07-10-2013:

domingo, 6 de outubro de 2013

Salesianos de Manique – 60 anos!

            Num ambiente muito familiar, decorreu, no passado sábado, 28, a comemoração dos 60 anos da ‘chegada’ dos Salesianos a Manique.
            O que é, hoje, no concelho de Cascais, uma escola de referência, dotada das mais modernas instalações, que servem não apenas os seus estudantes mas também à comunidade, foi, nos primeiros tempos, a escola de formação dos que desejavam seguir a vida monástica nas fileiras da Congregação Salesiana: o Instituto Missionário Salesiano.
            Aí funcionaram, sensivelmente até 1980, o Noviciado, o ano de reflexão antes de se proferirem os votos religiosos que constituíam a entrada oficial na Congregação; a Filosofia, cinco anos de estudo quer dos programas do Curso Liceal de então quer de programas específicos de aprendizagem do pensamento filosófico, nomeadamente católico. Houve, também, a princípio, a Teologia, último período, de quatro anos, antes da ordenação sacerdotal; mas depressa se pensou que tanto a Universidade Católica como outros centros de ensino salesiano espalhados pela Europa poderiam ser mais eficazes nesse complementar da formação, passando, pois, a casa de Manique a ser residência para esses estudantes salesianos até 1996. Hoje, na parte do edifício que era do Noviciado, funciona também uma residência, mas que acolhe os salesianos idosos, já retirados da actividade.
            No momento em que começaram a escassear as vocações, nomeadamente a partir da década de 70 do século passado, os Salesianos compreenderam que se tornava necessário – na sequência da abertura à comunidade, através do chamado «oratório» dominical – optar por seguir o que sempre fora a vocação salesiana: levar por diante o projecto de fazer ali uma escola, fiéis, portanto, à intenção da benfeitora, Dona Maria Carolina de Sousa Lara, que, um dia (e isso foi recordado nas cerimónias de sábado), em 1952, bateu à porta do gabinete do Padre Bartolomeu Valentini, então director da Escola do Estoril, e – transcrevo o testemunho do sacerdote – «me convidou a ir dar um passeio: meti-me no seu carro e ela trouxe-me a Manique, que eu nem sabia onde era. Mostrou-me uma quinta enorme, fantástica, muito bem organizada, com uma vacaria, poços e um pomar: ‘Isto agora é tudo seu, faça o que quiser! Se quiser vender esta noite, pode vender!’».
            Ali funcionou, pois, entre 1970 e 1980 um posto de telescola; e, depois de 1980, o ensino directo: escola básica, primeiro, e pouco depois secundária também.
            No sábado, houve cerimónia evocativa no moderno auditório junto às piscinas, com a presença de uma centena de amigos, antigos alunos, alunos, docentes e colaboradores (aos mais diversos níveis). O salesiano D. Joaquim Mendes, que chegou a ser director da Escola e ora exerce a missão de bispo auxiliar de Lisboa, historiou, a traços largos, a vida da instituição. O provincial, Padre Artur Pereira, congratulou-se com a actividade de excelência aqui desenvolvida e, a terminar, o Director, Padre David Bernardo, agradeceu as presenças e salientou como o trabalho feito resultava do esforço conjunto de toda uma vasta e dedicada equipa.
            Seguiu-se a Eucaristia, celebrada por D. Joaquim Mendes e concelebrada por mais de duma dezena de sacerdotes salesianos (alguns dos quais vindos de outras casas da Congregação). O almoço coroou, depois, em convívio, uma comemoração sentida.

Publicado em Cyberjornal, 04-10-2013:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=18914&Itemid=67
Transcrito no Boletim Salesiano nº 541 (Novembro/Dezembro 2013), p. 24-25.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Fernando Pereira no Casino Estoril

            E uma pessoa chegava e admirava-se de ver tanta gente, como nos «bons velhos tempos» das noites de gala. Saudades, claro! Havia fato preto e vestidos de cerimónia, como, aliás, sempre se preconizava no convite. Desta feita, no passado dia 26 de Setembro, o trajar era o mais variado possível. Isso, desde que se inventou o conceito «casual» (leia-se com pronúncia inglesa, se faz favor!...), deixou de ser moda. Claro, outros ‘valores’ apareceram (ou tudo fizeram para aparecer) e até nos admirámos muito como aquela personagem pousava largos minutos, fazendo poses mesmo, diante de objectivas sedentas de imagens para legendar nas revistas... E até chegou a ser entrevistada com pompa e circunstância diante de uma câmara, com holofotes e tudo!... Pensei que se tratasse da agente de Fernando Pereira a explicar tecnicamente o que iria ser o espectáculo e como se chegara ali. Não, não era. Era… a personagem! De resto, durante o espectáculo, fotógrafos quiseram ‘apanhá-la’ distraída, mas a personagem topou e deu de imediato em sorrisos e vénias, enquanto o desgraçado do artista continuava a sua exibição.
            Vamos, pois, à exibição, ao «Senhor Espectáculo».
            Conhecem-se os dotes versáteis de imitador de Fernando Pereira. O que quis montar no Casino Estoril foi um espectáculo que vivesse desses dotes e também, de modo muito especial, de ousadas projecções multimédia. E digo ‘ousadas’ porque implicam uma sintonia perfeita entre o que se projecta (de um modo geral, o artista que Fernando Pereira está a imitar) e o que está a cantar.
            Cativou pela originalidade, ainda que, naturalmente, uma estreia determine sempre o nervosismo do artista («Será que vai dar certo e a crítica não será feroz?») e o rigor no manuseamento e na resposta da técnica. Foi visível o primeiro; verificou-se a dificuldade da segunda.
            Uma hora, em que ‘passaram’ pelo palco feérico do Salão Preto e Prata (arriscaria a dizer que só para ali se poderia pensar uma cena assim) «surpreendentes registos musicais» e «originais momentos de bom humor», tendo como elemento fundamental as «vozes» de, entre outros, Madonna, Lady Gaga, Roberto Carlos, Tina Turner, Michael Jackson, David Bowie, Tony de Matos, Tom Jones, Cat Stevens e Louis Armstrong.
                A noite valeu também – eu diria «especialmente» – por nos fazer recordar as estreias de há uns anos atrás, em que (agora já não se conseguiu por completo, pois são muito outros os rostos e os interesses) o prévio beberete no hall (aliás, diga-se, este muito bem servido) constituía agradável pretexto para o convívio de pessoas irmanadas no gosto pelos bons espectáculos musicais.
            Fernando Pereira, o dono de muitas vozes, «Lord of the Voices» (em inglês, pois, para ser mais perceptível…), vai estar em cena de quinta-feira a sábado, a partir das 22 horas.
            O nosso voto: que obtenha, como ele e o Casino merecem, o êxito maior!

Publicado em Cyberjornal, edição de 04-10-2013:

«Almada por contar»

               Este é o título da exposição que vai encerrar, na Biblioteca Nacional de Portugal, no próximo sábado, dia 5, e que celebra os 120 anos do nascimento de Almada Negreiros (1893-1970).
               Nesse dia 5, porém, a partir das 15 horas, uma das organizadoras da mostra, Sílvia Costa – que prepara, aliás, o seu doutoramento sobre a vida e obra de Almada – fará a derradeira visita guiada à exposição. Quem desejar participar deverá inscrever-se – a inscrição é gratuita – através do endereço rel_publicas@bnportugal.pt ou dos telefones 217986267/68.
               Escreve-se que «há ainda muito por contar sobre Almada Negreiros» e é verdade. A mostra, que tive ocasião de ver demoradamente no passado dia 20, aquando da apresentação pública do seu excelente catálogo, apresenta, numa ‘primeira leitura’, «momentos marcantes da vida e da obra de Almada», nos quais se inserem, por exemplo, os desenhos que fez para a peça Mar, de Miguel Torga, levada à cena pelo Teatro Experimental de Cascais. A ‘segunda leitura’ proposta visa «evidenciar a transversalidade das várias facetas da obra de Almada ao longo do tempo: «a profunda comunhão entre o desenhador e o escritor»; «a desmultiplicação que Almada faz do seu interesse (duradouro) pela Geometria»; «a importância do performer que Almada foi, Homem de Teatro em absoluto, protagonista da sua vida-obra».
               Acaba a exposição, invulgar pela quantidade de documentação inédita que incluiu; fica, porém, o catálogo, mui ilustrado, obra de Sara Afonso Ferreira, Sílvia Laureano Costa e Simão Palmeirim Costa.

Publicado em Cyberjornal, edição de 04-10-2013:

 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

ADUFE – importante revista cultural

             Está em distribuição o nº 21 (2013) de ADUFE, revista cultural de Idanha-a-Nova, disponível em papel e na Internet:
            De mui excelente apresentação gráfica, Adufe não é a vulgar agenda cultural, embora tenha aparentemente esse formato e disponibilize uma série de informações acerca de actividades: é, de modo especial, o repositório de uma série de textos muito bem ilustrados (um regalo para os olhos!) que retratam a realidade cultural do concelho de Idanha-a-Nova.
            Neste número (de 60 páginas!), dá-se conta da actividade de Cristina Rodrigues (a exposição itinerante «Museu Rural do Século XXI»), a artista que ora expõe seis peças à base de adufes («O meu país através dos teus olhos»), a pontuar a exposição Religiões da Lusitânia, no Museu Nacional de Arqueologia («Se pensarmos que o território é como um corpo humano, quando um órgão dá sinais de falência, afecta todo o corpo». Traça-se imprescindível panorama das «fontes esquecidas», aqueles ‘monumentos’ que tão úteis foram à comunidade e que ora correm o risco de vir a ficar perdidos sob matagais. Recordam-se os «cogumelos estivais»; os adufes; evocam-se as mouras encantadas; e mostram-se, em corpo inteiro, e nomeando-os, os homens e mulheres que decidiram optar por Idanha para os seus investimentos… E, a abrir, lindos rostos sadios emoldurados pelos trajos tradicionais de Monsanto – uma beleza!
            Parabéns à equipa, que não se poupa a esforços para nos brindar com uma publicação que muito a honra!

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A gente de 60 anos!

            Pessoa que se preza dá, de quando em vez, uma vista de olhos pelas redes sociais e, de resto, não deita de imediato para o caixote de lixo aquelas mensagens que circulam, circulam, circulam… e nos enchem a caixa do correio electrónico. E, depois, há sempre um título que mais nos desperta a atenção antes de carregarmos no botão que dita a sentença de morte – e a esperteza do autor reside nisso mesmo: a de despertar curiosidade!
            Permita-me, pois, que partilhe uma dessas mensagens fora do comum. Porventura já a recebeu e, se não está na idade dos 60 ou lá por perto (a mais ou a menos), é capaz de nem sequer a ter lido. Digo-lhe, porém, que vale a pena. Se estiver nessa faixa etária, para se consciencializar do que vale; se já a ultrapassou, porque vale ainda mais; se tiver menos, para se lembrar de pais e avós que nela estão. E… se for político ou candidato a essa profissão, para que, um dia, quando estiver assim mais voltado para a reflexão (sim, eu sei, são muito poucos esses dias, mas lá há-de calhar algum…), possa pensar nisso muito a sério.
            Uma precaução, primeiro: neste momento da pesquisa, desconhece-se o seu autor. Na verdade, é dado como escrito pela antropóloga Mirian Goldenberg, professora do Departamento de Antropologia Cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, instituto onde, por sinal, já por diversas vezes tive a honra de leccionar; no entanto, Mirian Goldenberg explica noutro local que gosta da palavra “velho” e acha «importante usá-la para combater o estigma que cerca a velhice» e que, embora algumas das ideias expressas no texto até coincidam com o que ela pensa (a antropóloga acaba de lançar o livro A Bela Velhice), estoutro, de facto, não lhe pertence.
            Certo é, porém, que, em busca de autor e sob o título «Sexalescentes», termo plasmado por analogia com ‘adolescentes’ e que ali se pretende venha a substituir o quase depreciativo «sexagenário», porque essa geração, opina-se, simplesmente não tem «nos seus planos deixar-se envelhecer», o texto está a correr mundo.
            E, em jeito de aperitivo, transcrevo duas passagens, que retirei de http://revistastravaganza.com.br/index.php/por-ai/414-sexalescentes:
            «[…] Alguns nem sonham em aposentar-se. E os que já se aposentaram gozam plenamente cada dia sem medo do ócio ou solidão. Desfrutam a situação, porque depois de anos de trabalho, criação dos filhos, preocupações, fracassos e sucessos, sabe bem olhar para o mar sem pensar em mais nada, ou seguir o voo de um pássaro de sua janela. […] Escrevem aos filhos que estão longe e até se esquecem do velho telefone para contatar os amigos – mandam e-mails com as suas notícias, ideias e vivências».
            «Os homens não invejam a aparência das jovens estrelas do desporto ou dos que ostentam um terno Armani, nem as mulheres sonham em ter as formas perfeitas de uma modelo. Em vez disso, conhecem a importância de um olhar cúmplice, de uma frase inteligente ou de um sorriso iluminado pela experiência. […] Celebram o sol em cada manhã e sorriem para si próprios...».

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 624, 01-10-2013, p. 12.