quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Na prateleira 12

Não sabe quem sou eu?
            E a senhora, dita da «sociedade» (pode usar-se a palavra inglesa, que é mais selecto…), abeirou-se do balcão. Interrogada se queria visitar a exposição de Maria Keil, respondeu que sim, claro. «Posso entrar?». «Sim, sem dúvida! É só um bilhete?».
            Perante a perspectiva de ter de pagar, embora nem sequer sonhasse quanto, perguntou à senhora da bilheteira se sabia quem ela era. Que sim, sabia, via-a amiúde nas revistas!...
            E então?         
               – Perdão!?          
               – Não tenho entrada de graça?
            Não tenho autorização para isso.
            Apeteceu-lhe acrescentar que ali não havia fotógrafos que a captassem em poses, a mostrar o vestido que lhe fora emprestado e os sapatos…
            E a senhora da «sociedade», sussurrando que determinada casa de chá da vila donde viera estava apinhada (percebe?) e a exposição, afinal, era um dó d’alma e compreendia-se porquê… (Se calhar, o chá não se pagava, e, ali, um chá de cultura conviria ajudar a pagar…), a senhora não entrou, não viu a exposição. Que maçada!
            Não sabe o que perdeu. Ou melhor, se calhar, mesmo que tivesse entrado, era capaz de não ter percebido o que ganhara. Desta vez, teve azar, errou no dia da… vernissage!...
 
Bonito, sim, mas…
            Visitei, há dias, magnífica musealização de ruínas romanas salvaguardadas sob o casario em pleno centro histórico de uma cidade.
            O projecto implicou o dispêndio de avultadas verbas e foi levado a cabo por mui conceituada equipa de especialistas.
            Abre ao público uma hora três vezes por semana, que é o período, se bem compreendi, em que tem furos nas aulas o estudante que disso ficou encarregado!

Um ano e… adeus1
Genoveva estava há um ano na casa e procurava ser empregada exemplar. Entretanto, engravidou. No dia em que completou um ano de trabalho, não lhe foi renovado o contrato.

O tom
            A maior parte das vezes, quezílias familiares, políticas e sociais nascem do tom. Esse é, aliás, um dos treinos maiores dos actores. Mais do que as palavras em si, o tom em que são proferidas – independentemente até do gesto ou da expressão facial – denuncia o que por detrás das palavras se esconde e que, amiúde, pode ser exactamente o contrário daquilo que se acaba de afirmar.
            Simples «bom dia!» permite, pela entoação, adivinhar entusiasmo, indiferença, mera boa educação, desprezo até…

Ele há gente para tudo!...
            Refiro-me não ao contingente que a seguir se comenta mas ao facto de, cada vez mais, haver quem maliciosamente ande a espiolhar ‘pormenores’ em que se nos esvai mui cinzento quotidiano…
            Assim, uma das mensagens que me caiu sob os olhos dava conta do quadro de pessoal da Câmara Municipal de Lisboa, publicado a 24-01-2013, no 2º suplemento ao Boletim Municipal nº 988 (este dado fui eu pescar, perante a notícia, no endereço http://www.cm-lisboa.pt/municipio/camara-municipal/recursos-humanos/mapa-de-pessoal).
            E admirava-se o autor da mensagem que houvesse a previsão de emprego para 2545 técnicos superiores, entre os quais (retiro eu do quadro publicado): 329 arquitectos, 303 juristas, 261 engenheiros civis, 154 licenciados em História, 144 licenciados em Ciências da Comunicação, 106 sociólogos, 101 assistentes sociais, 74 psicólogos, 48 geógrafos…
            Trata-se de uma grande Câmara, que desta forma dá emprego a muita gente. Comentava ironicamente o mal-intencionado autor da mensagem: decerto «trabalham todos arduamente para o meu município». Claro que sim! E ainda bem que há entidades empregadoras desta envergadura! Abençoadas! Venham mais! E com dinheirinho!

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 21, 06-11-2013, p. 6.

Eugénio Sequeira recebeu o Prémio Quercus 2013


             Atendendo ao «trabalho meritório que tem realizado na área do ambiente, tanto a nível nacional como internacional, e à defesa exemplar das múltiplas causas ambientais em que se tem envolvido", decidiu a organização ambientalista Quercus atribuir ao Engº Eugénio Sequeira, de 76 anos, o Prémio Quercus 2013, prémio criado em 2004 para galardoar anualmente «entidades, empresas ou cidadãos que se evidenciem na defesa do ambiente e na promoção do desenvolvimento sustentável»

                É bem conhecido do que com ele habitualmente privamos o empenho que Eugénio Sequeira põe na luta por um correcto ordenamento do território e contra a desertificação. Recentemente, como responsável máximo pela Liga de Protecção da Natureza, tem sido grande entusiasta da compatibilização da agricultura com a protecção de aves, nomeadamente de rapina e migratórias, projecto que – com o maior êxito – tem sido levado a cabo em Castro Verde.

               Sabemos quanto tem lutado em Cascais (onde vive) por um concelho mais saudável, pugnando pela manutenção da biodiversidade, defendendo intransigentemente a Zona de Paisagem Protegida Cascais – Sintra.

                Engenheiro agrónomo, fez a sua carreira como investigador e docente no Instituto Superior de Agronomia, mas não tem regateado colaboração a universidades públicas – como a Nova de Lisboa e a do Algarve – e privadas (Lusófona de Lisboa e Vasco da Gama de Coimbra). Como autarca, presidiu à Assembleia Municipal de Cascais entre 1976 e 1979 e exerceu funções de vereador entre 1989 e 1993.

                Congratulamo-nos., obviamente, com o galardão atribuído e fazemos votos de que este reconhecimento público possa servir para que sejam mais bem acolhidas e postas em prática por autarcas e por governantes as frequentes sugestões que Eugénio Sequeira desassombradamente divulga.

 

Publicado no Cyberjornal, edição de 06-11-2013:

http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=18996&Itemid=69


«Tocha, uma história com futuro»

Uma síntese do conteúdo

            Bem guiada por Jorge Fragoso, prossegue a editora Palimage a sua odisseia de dar vida à colecção «Raiz do Tempo», em boa hora iniciada em 1997, que conta já com 33 volumes publicados, a privilegiar as monografias locais e a temática histórica em geral.
            Tocha, uma História com Futuro – editado, mais uma vez, em colaboração com uma entidade local, neste caso, a Junta de Freguesia de Tocha, do concelho de Cantanhede – é o mais recente desses volumes. Da autoria de Margarida Sobral Neto (a directora, aliás, da colecção e docente da Faculdade de Letras de Coimbra), foi apresentado pelo Eng. Manuel Queiró, a 12 de Outubro p. p., precisamente na sede da Junta de Freguesia.
            De 254 páginas e ISBN 978-989-703-065-9, 12 folhas em papel couché para as ilustrações a cores, o livro consta de quatro partes:
            a construção de um território e a organização de uma comunidade (p. 23-114);
            os séculos XIX e XX apresentam-se como «um tempo novo para a freguesia da Tocha» (p. 115-150);
            «um futuro em construção» a partir da década de 80 do século XX é a III parte (p. 151-161);
            «marcas de identidade, património, lugares de memória, tradição, modernidade» são os oportunos tópicos abordados na parte IV (p. 163-208).
            A antecedê-las: a nota de abertura, da responsabilidade do presidente da Junta, Júlio de Oliveira, e o prefácio, da autoria de Fernanda Cravidão, numa abordagem geográfica do território gandarês. A complementá-las: as já referidas imagens, a conclusão (p. 203-208), o apêndice documental (seis documentos, entre os quais avultam os que dizem respeito ao culto e devoção a Nossa Senhora da Atocha); fontes, bibliografia e notas.

Os palheiros, a leprosaria
            Tocha será para muitos a imagem dos palheiros, aquelas sábias construções de madeira plantadas sobre o areal, de tal maneira que temos dificuldade em perdoar a Raul Brandão por não os ter expressamente referido, privilegiando a vizinha Praia de Mira: no seu livro clássico, Os Pescadores (nº 269, Livros de Bolso de Publicações Europa-América, Algueirão, s/ d.), um dos capítulos (p. 65-76) é precisamente sobre os «Palheiros de Mira» e ao ambiente da Tocha não alude.
            Aliás, Margarida Neto também dedica apenas duas páginas (168-169) aos palheiros e à arte xávega, não esquecendo, porém, a frase de Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano: os palheiros são, aqui, «um exemplo perfeito de construção palafítica». E não se esquece de os ilustrar através de quatro fotografias. No entanto, a Praia de Mira sempre logrou chamar mais a atenção, embora na Tocha idênticos costumes se praticassem; a actividade agrícola terá, contudo, assumido habitualmente a primazia.
            Para outros, como a mim acontece, Tocha recorda-me de imediato o Hospital Rovisco Pais, que tive ocasião de visitar demoradamente no Verão de 1973, mui amavelmente acompanhado pelo médico de serviço, Dr. José Augusto da Mota Arnaut e pelo vice-administrador, Valentim José Pereira. Dessa visita elaborei ampla reportagem, que, submetida, a seu pedido, à ratificação da direcção, acabaria por só ser publicada após a Revolução de 25 de Abril, pois nunca me foi dada autorização para a publicar antes.[1]
             E ainda hoje recordo com emoção as conversas que pude travar com alguns leprosos e, de modo especial, o haver podido ter ao colo um bebé de leprosos que estava no Preventório, situado mais a sul, ligeiramente afastado da ‘colónia’, e que tinha à entrada assaz gracioso grupo escultórico que serviu de capa ao nº 3 (ano XI), de Julho/Setembro de 1972, da Revista Portuguesa da Doença de Hansen, Rovisco Pais, um número especial comemorativo das bodas de prata da instituição. E em apêndice a essa reportagem já pude referir a publicação da portaria de 3 de Julho de 1974, emanada da Secretaria de Estado da Saúde, visando, com a colaboração de todos, designadamente dos trabalhadores, promover a remodelação do hospital-colónia.
            E o termo ‘colónia’ quadra-se bem com o que para ali se projectara e o que pude apreciar: uma existência em certa medida auto-suficiente, em que a exploração agro-pecuária e as oficinas satisfaziam as necessidades quotidianas fundamentais. Havia bairros residenciais, as famílias e respectivos filhos eram tidos em muita consideração.
            A Doutora Margarida Neto dedica à «instalação do Hospital Rovisco Pais» as páginas 147-150, tendo chegado à conclusão de que «apesar dos reais benefícios» que trouxe, o empreendimento não foi «a alavanca necessária ao crescimento económico e demográfico da Tocha», ainda que – reconhece – «alguns progressos se verificaram, entretanto, no sector agro-pecuário» (p. 150). Nas suas instalações funciona na actualidade o Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro.

Uma «história com futuro»
            Torna-se sempre difícil fazer opções quando nos propomos elaborar a monografia de uma povoação.
            Privilegiamos a história em sentido estrito e seguimos cronologicamente os dados que a documentação nos fornece? Preferimos um enquadramento geográfico e destacamos a ocupação do solo, o regime de propriedade, a produção agro-pecuária? Damos mais atenção à demografia, às pessoas que, ao longo dos tempos, para ali foram ou ali sempre viveram, analisando como se deu a aculturação?
            Margarida Neto, de formação mais de História Económica e Social, privilegiou, pois, esses aspectos produtivos e a demografia, sendo sugestivo, por exemplo, o título 4 da I parte: «A “criação vagarosa da terra” e a arquitectura das paisagens» (p. 74), que denuncia precisamente essa opção pela economia agrícola gandaresa, onde a tutela do Mosteiro de Santa Cruz, de Coimbra, acabaria por exercer basta influência até à extinção das Ordens Religiosas, o conhecido decreto de 30 de Maio de 1834, que tal vínculo veio romper. Um vínculo nem sempre bem aceite ao longo dos tempos, haja em vista os motins de 1778, relacionados com a percepção de impostos sobre as colheitas («a partilha»): a 27 de Agosto desse ano, o oficial da justiça viu a sua vara «calcada e queimada», «destruíram-lhe a coifa, o chicote, o tinteiro e o rol, e ainda o maltrataram quebrando-lhe um dedo da mão esquerda e fazendo-lhe nódoas e feridas», segundo a versão do corregedor (p. 101). E, como não podia deixar de ser, lá vem um documento epigráfico a atestar duradouramente o que era preciso recordar:
            «Esta igreja he do Moesteiro de Sancta Cruz de Coimbra, a qual mandou fazer pera em ella serem curados os moradores desta sua quinta e de suas pertenças por serem fregueses do dito moesteiro e de sua capela de Sam João que he isenta com sua prarochia e parochianos da jurisdiçam ordinária e metropolitana. Anno do Senhor MDXXXXIII» – lê-se ainda hoje na placa sob cruzeiro inserida na parede da actual capela de Santo Amaro, matriz do Isento de S. João da Quintã (p. 35, fig. 2).
            Interessou, de facto, à Autora a comunidade da Tocha «como o estudo de caso de uma povoação que se organiza e se desenvolve até 1834 em contexto senhorial» (p. 203) e calcorreou depois outros caminhos. Pretendeu – e conseguiu – encontrar «traços estruturadores» de uma identidade e facultar elementos susceptíveis de virem a ser aproveitados como «matéria de reflexão para a construção de políticas de desenvolvimento local» (ibidem). Daí que à obra se haja dado o sugestivo título «uma história com futuro»!
            Curioso é verificar, a título de exemplo, que a vila da Tocha se organizou em torno de um culto, o de Nossa Senhora da Atocha, e de uma feira, insuficiente esta, porém, em si mesma, para determinar enraizamento duradouro das gentes, até porque as terras se apresentavam mais como «espaço de pastagem» (p. 204). Só a vinda do milho grosso das Américas viria a criar essas condições de fixação de que se havia mister. A batata e a produção leiteira ajudariam a completar o requerido para um dia-a-dia mais ‘aconchegado’.
            Trata-se, pois, de um volume que se lê com agrado e onde há temas que poderão ser transversais a outros locais na mesma época. Estou a lembrar-me (para citar apenas um caso) da «questão dos baldios da Caniceira» e a actuação, nesse âmbito, da Junta de Colonização Interna (p. 144-146), sabendo nós como os baldios constituíram sempre motivo de… «questão» em muitos sítios! E há mesmo, na Tocha, significativo monumento «Aos Caniceiros, defensores do pinhal do Povo»!

Publicado em Cyberjornal, edição de 6-11-2013:
Divulgado em: http://ml.ci.uc.pt/mhonarchive/histport/msg07315.html


[1] Saiu no Jornal da Costa do Sol (Cascais), nº 535, 20-07-1974, p. 4, sob o título «A extraordinária obra do Hospital-Colónia Rovisco Pais», ilustrada.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Ora, ora, as galinhas!

            Quando se conheceu a história dos meninos que de galinhas só as sabiam peladas e a rodar no espeto, nunca se tendo interrogado como é que elas eram na realidade, houve um baque e os professores e os pais tomaram consciência do erro em que estavam a cair e que urgia remediar bem depressa: voltar à terra, já!
            Sigo, pois, a sugestão e os ensinamentos do Padre Afonso e aí vão dois ou três apontamentos, para que se não esqueça como foi e, se calhar, como daqui a pouco voltará a ser.
            Assim, ainda em meados do século passado, para as galinhas não chocarem eram metidas em água para se lhes tirar… a febre! Isso de ir para o choco – e lá maternalmente estavam 21 dias!... – era, de facto, febre que lhes dava. Por vezes, vinha mesmo a jeito, porque importava que os pintos saíssem pela Lua Cheia ou em Quarto Crescente, mais fortezinhos nas pernas…
            Estava em causa o acrescento da capoeira e, consequentemente, todos os cuidados eram poucos: alcofinha com palha e todos os dias lá se ia levantar a ‘menina’ para a pôr a comer, a beber e a… sujar! À saúde de mãe e filhos em gestação nenhum mau agoiro poderia sobrevir! Nada de “deitar a galinha” com 13 ovos! Dava azar! E deitá-la em dia de sábado também não convinha nada, porque se acreditava que sairia ninhada de galos e, na capoeira, basta um de cada vez! Galinhas, sim, querem-se muitas, poedeiras, de carninha rija e sempre prontas a ensinar os filhotes a debicar o que devem quer seja comida quer grãozinhos de areia e pedacinhos de cal.
            A sabedoria popular a que, hoje, nem sempre as máquinas dão a atenção devida!

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 178, Novembro de 2013, p. 10.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

A marina de Cascais - um empreendimento polémico

            «Polémico» é mesmo a palavra exacta para caracterizar a construção de uma marina em Cascais, pois, na verdade, muito se discutiu a propósito da sua oportunidade e do seu real interesse para a vila.
            Apontava-se, como factor primordial a favor, a possibilidade de ali estacionarem barcos de recreio que passassem ao largo da costa e cujos proprietários quisessem usufruir da proximidade de Lisboa, por exemplo. Também, claro, haveria lugar para as embarcações dos moradores locais, obrigados, até aí, a deixarem-nas longe do local onde passavam a maior parte do ano.
            Os aspectos negativos centravam-se, primeiro, no choque ambiental: a descaracterização de uma paisagem de baía aberta a que de há muito se estava habituado; a dificuldade em prever o comportamento das correntes, mormente no que se refere ao arrastamento e deposição de areias, formando novas praias e acabando com outras, apesar de o projecto ter sido testado laboratorialmente em tanque e canais de grande dimensão, em condições teóricas extremas, para além de se haverem tido em conta os registos históricos de temporais na nossa costa. Além disso, argumentava-se, as águas nunca seriam suficientemente serenas para que as amarrações não danificassem as embarcações sujeitas a contínuo sobe-e-desce de nível, ainda que diminuto.
            Apesar de ser a terceira maior marina portuguesa (e talvez até por isso), esses aspectos negativos acabaram por verificar-se e, de modo particular, um dos recantos mais idílicos da vila – a enseada de Santa Marta, com a primorosa Casa de Santa Maria e o farol (cujo enquadramento foi estupendamente reabilitado) e o Museu dos Condes de Castro Guimarães – esse recanto ficou definitivamente minimizado. Além disso, o modelo arquitectónico escolhido choca com as vetustas muralhas da Cidadela. Tornar a marina um novo centro de comércio e de lazer também não foi, até agora, objectivo conseguido, até porque a taxa do parqueamento automóvel se revelou cara de mais.
            A concessão da construção e exploração da marina foi adjudicada por 75 anos à empresa MARCASCAIS, S.A., por contrato celebrado com o Estado Português, a 21 de Setembro de 1995. Com 648 postos de amarração, que lhe permitem receber embarcações até 36 metros, foi aberta oficialmente a 6 de Agosto de 1999, tendo-se sublinhado, desde logo, justamente para responder às objecções feitas, que se tratava de um empreendimento «de grande sobriedade em que as preocupações ao nível do impacte paisagístico foram estudadas ao mais ínfimo pormenor», acrescentando-se que «o quebra-mar não retirou à baía nem aos habitantes e visitantes de Cascais aquele horizonte rasgado sobre o mar ou aquela rusticidade típica desta vila piscatória» e que todo o património histórico e arquitectónico circundante foi preservado e integrado cuidadosamente». Reconhece-se, porém, na actualidade, que urge uma «reconversão da área edificada com vista a melhorar a sua atractividade».
            Cumpre salientar que – dotada de uma área total disponível para eventos superior a 20.000 m2 – tem sido a marina de Cascais palco de mui importantes eventos, inclusive à escala mundial, de que se destacam: as regatas “Swedish Match Tour”, o “Troféu Quebramar Chrysler”, os Troféus “Juan Carlos I” e “Prince Henry”, a Regata Cowes/Cascais do RORc, a “America’s Cup World Series – Cascais 2011”, o circuito de vela “Audi Med Cup” (edições de 2010 e 2011), o Campeonato do Mundo de Vela Olimpica ISAF 2007.
            Constitui, pois, apesar de tudo, um marco na paisagem e na história desta vila «de reis e pescadores».*
 
* Agradeço, sensibilizado, ao meu Amigo Pedro Garcia, um dos rostos da Marcascais, a amável e pronta cedência de elementos, inclusive de fotos, que me permitiram elaborar este texto, que é, porém, de minha inteira responsabilidade.

Publicado em Portugal-Post (Correio luso-hanseático), de Hamburgo, nº 54, Outubro de 2013, p. 12-13 (versão bilingue: em português e alemão).

  
 

domingo, 3 de novembro de 2013

Projectos e realizações

           Quando, em 1989, incluímos no currículo do Curso de Especialização em Assuntos Culturais no Âmbito das Autarquias a disciplina de Projectos e Realizações Socioculturais, decerto nem tomámos inteira consciência da dualidade implicada nesta designação. Na verdade, «projectos» apontava o futuro; «realizações» privilegiava o que se encontrava em fase de execução; estava, porém, implícita na proposta a ideia de que o «projecto» deveria assumir características concretas, passíveis de virem a ser transformadas em «realização» num prazo mais ou menos curto.
            A palavra «projecto» rapidamente passou a entrar no quotidiano e, hoje em dia, de «projecto» se fala nas mais variadas circunstâncias e, até, nos maís inusitados contextos. Diria que nada se faz sem que venha rotulado de «projecto»: o artista, ao referir-se ao CD acabado de gravar, concretizou um… «projecto»; à criança na escola é proposto que… elabore um projecto!
            À generalização do conceito correspondeu, pois, a multiplicação de projectos, eventualmente com o correspondente financiamento para a sua concretização. Só que, mui frequentemente, essa concretização não corresponde a uma «realização», dado que «realização» é algo mais: é atingir plenamente os objectivos projectados. E a Comunicação Social tem divulgado muito do que se passa, por exemplo, com os parques industriais, nascidos como cogumelos um pouco por toda a parte e agora ao abandono; excelentes auditórios sem actividades; bibliotecas óptimas sem frequentadores; magníficos parques urbanos de que a população está visceralmente alheada; pioneiros centros de interpretação encerrados por falta de pessoal...
            É bonito reabrir, nomeadamente em proximidade de eleições, duas ou três salas de um museu equipadas com as mais modernas tecnologias. Interessa mais, no entanto, que à reabertura corresponda a vontade política e o necessário apoio administrativo para essas salas usufruírem, na realidade, da vida que para elas se pensou.
            Promoção precisa-se! Mobilizar-se é urgente!
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 626, 01-11-2013, p. 12.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Na prateleira 11

Um cinzento dia-a-dia
            – Ah! António, então, tudo bem?
            – Cá estamos!
            As frases feitas, a resignação perante um dia-a-dia cinzento? A vida como um carrego a suportar.
            Confirmei-o com o resto da conversa: mortes, desgraças, «apareceram-lhe bolhas por todo o corpo»…

Governar é muito difícil
            Um antigo governante me dizia que «política é uma arte nobre». Também me parece que sim. E bem difícil deve ser. Eu vejo por aquele caso do senhor que tem cães e os deixa defecar na placa relvada em frente de uma creche e de uma venda de comida. Já lhe disseram vezes sem conta que há saquinhos no poste ao lado e que esses saquinhos são para apanhar os dejectos dos canitos. O senhor não percebe. Portanto, se uma recomendação tão simples e tão evidente não se acata, como poderemos pensar nas mais complexas? Difícil de governar é o povo!...

Nenhum  empregado
Aida admirou-se:
– Como é? Vocês aqui têm tão poucos empregados? Precisamos de esperar que um esteja livre para nos atender? No Brasil, fazemos questão em o cliente ser atendido na hora; por isso, multiplicamos os empregados até ao limite do necessário.
Lembrei-me desta frase da Aida quando, num destes domingos, percorri toda uma pequena superfície comercial à procura de um empregado que me orientasse os passos em direcção a um artigo que não encontrava. Não havia nenhum. E foi um outro que até nem era do sector que se disponibilizou para me ajudar.
Com esta ‘pancada’ de diminuir o pessoal a qualquer custo, há extremos que estão a atingir-se e a afugentar clientela, que não se compadece com escusados tempo s de espera. A manutenção do IVA a 23%, por exemplo, está a contribuir eficazmente para que se corte nos empregados de mesa. E custa bastante ter de esperar num restaurante para ser atendido. Pensa-se duas vezes se não é melhor ir almoçar a casa.
            Quem está muito alto – já lá dizia alguém – não consegue ouvir a voz da Razão.

O táxi na Clínica
            Foi criado um lugar de táxi junto à Clínica CUF Cascais. Aplaude-se a iniciativa e, agora, há que motivar os taxistas a estacionarem por lá. A Pampilheira era dos poucos bairros suburbanos da vila de Cascais que não tinha praça de táxis.

Ainda as eleições em Cascais
            106 988 eleitores – e eram 172 537 os inscritos! – não compareceram ao acto eleitoral. Dos 65 549 que participaram, 5 951 votaram em branco ou anularam o boletim de voto. Bastaram os votos de cerca de 2,7% dos eleitores para eleger um vereador!...
            Gosto de dar uma olhadela ao que se passa com a mesa 28, uma das que integra os eleitores mais antigos da vila de Cascais, teoricamente os mais ligados ao seu passado e ao seu futuro, porque foi aqui que nasceram (na sua maioria) e por aqui se têm mantido; em teoria, portanto, aqueles que mais sentem a vila como sua. Os resultados foram, a meu ver, sintomáticos e dignos de uma reflexão.
            Assim, no que se refere à Câmara Municipal, estavam inscritos nessa mesa 1170 eleitores; votaram 452, ou seja, 38,6%; a abstenção foi, portanto, de 61,4%. E votaram em branco 2,9%, isto é, 13 eleitores, tendo anulado o voto 4,4% (20 eleitores).
            Nessa mesa, cingindo-me apenas à votação para a Câmara, a coligação VivaCascais obteve 53,54%, ou seja, se as minhas contas não falham, 240 eleitores (dos 1170 que estavam inscritos). O 2º lugar pertenceu ao PS, com 21,7% (98 votos); a CDU foi a 3ª força política votada (8,2%): 37 votos; e o Movimento SerCascais obteve 6,4% (29 votos).

Dois recortes
            No dia 9, na antena da Rádio Renascença, o padre Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade:
            «Neste momento, o sustentáculo de muitas famílias são os seus idosos, que, com as suas parcas reformas ou pensões de sobrevivência, estão a pagar os estudos dos netos, a suportar os custos dos filhos que estão desempregados».
            Nesse mesmo dia 9, José Pacheco Pereira afirmou, no ‘Jornal das 9’ da SIC Notícias, que «a grande dificuldade é que os nossos governantes, quando falam português – o que nem sempre acontece –, não se explicam, não se querem explicar e querem enganar».

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 19, 23-10-2013, p. 6.