sábado, 23 de novembro de 2013

Magusto e fados na Areia

             Por iniciativa da Associação de Moradores da Areia, houve magusto no centro de convívio desta progressiva localidade da freguesia de Cascais, no sábado, dia 16 de Novembro.
            Presente uma centena de moradores e amigos, que, além de apreciarem as castanhas e a saborosa água-pé, puderam deliciar-se com uma sessão de fados.
            A simpática e talentosa Alice Costa Franco foi acompanhada por António Jorge (na guitarra portuguesa) e Jacinto Carminho (viola de fado) e convidou para também actuarem, ao longo da noite, Adelino Guimarães (voz potente), Vanessa Lima (jovem promissora) e Nani Nadais (o «homem do cavaquinho» e seus fados de letra brejeira e bem disposta). Dos assistentes, José Pinto deu um ar da sua graça e José Caetano mostrou-se linda voz para a canção de Coimbra, muito bem modulada.


            Um serão bem agradável, em que, mais uma vez, se cimentou comunidade.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A imprensa regional e a política

            Se a imprensa a nível nacional nem sempre escapa aos tentáculos da política, mais exposta a eles anda a imprensa local e regional, porque está mais próxima da população e carece, por isso mesmo, de ser ainda mais independente dos poderes político e económico. Um equilíbrio difícil, mas as direcções e redacções dos órgãos de comunicação têm consciência daquilo com que podem e devem contar.
            Há, evidentemente, os que se assumem claramente como ‘partidários’ e o leitor sabe, por conseguinte, com o que há a esperar. O ideal seria a independência, dar voz a toda a gente, porque, na verdade, um órgão de comunicação local deve ser tribuna para todos e a população vê nele até, amiúde, uma forma de anti-poder, de através dele fazer chegar ao poder as suas reivindicações.
            Tudo isso é por de mais sabido; Noticias de S. Braz assume-se claramente como veículo de todas as tendências políticas e não valeria a pena este escrito aqui, se eu não tivesse visto agora, num jornal local português, esta ‘caixa’ como legenda à fotografia com nome da pessoa em causa, ali habitualmente publicada em edições anteriores (transcrevo tal e qual):
            «Por sua autoria esta senhora deixou de escrever no espaço que lhe estava destinado, possivelmente pela sua derrota. A mais pesada na história dos líderes da concelhia do […]» (vinham identificados o partido e a terra).
            Para além de anotar a deficiente redacção do texto, não resisto a um comentário, fazendo-me eco da célebre frase do ‘Cónego Remédios’:
            «Não havia necessidade!».                                             

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 206, 20-11-2013, p. 21.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Museu do Mar abriu portas ao... Mar!

           Na mui aconchegada salinha das exposições temporárias do Museu do Rei D. Carlos e no âmbito das comemorações do Dia Nacional do Mar, inaugurou-se, na tarde de sábado, 16, a exposição «Mar».
            A exposição, concretizada com a colaboração do Teatro Experimental de Cascais, que cedeu para o efeito o acervo do seu Centro de Documentação referente à peça, constituiu também pretexto para evocar dois grandes vultos da cultura nacional: Miguel Torga e Almada Negreiros, tendo como mote a peça de Torga intitulada “Mar”, encenada por Carlos Avilez e estreada, no Teatro Gil Vicente, em Cascais, a 5 de Maio de 1966.
            Dos actores que integraram o elenco esteve presente João Vasco, que emotivamente recordou ter sido essa a estreia de António Feio e lembrou, com saudade, os seus companheiros de cena, alguns deles já desaparecidos: Mirita Casimiro, Zita Duarte, Santos Manuel, Manuel Cavaco, Filipe La Féria, Marília Costa e Glicínia Quartin. Lembrou ainda como, após o 25 de Abril, a companhia fora expulsa do Gil Vicente, quando se encontrava em digressão em Moçambique e os seus pertences dali retirados à força, sem que os representantes do TEC cá estivessem. Felizmente, sublinhou João Vasco, os intervenientes nessa acção de despejo não se aperceberam de que ia ali a maqueta da peça assinada por Almada Negreiros!
            Carlos Avilez evocou, por seu turno, o que fora o seu encontro com Almada e a forma extraordinariamente cordata e dedicada como o artista – que morava em Bicesse, como se sabe – graciosamente aceitou o desafio de fazer a maqueta do cenário e desenhar os figurinos (material que está exposto) e como acompanhou a preparação da peça.
            Carlos Carranca – que tanto tem estudado a obra de Miguel Torga – deu conta da importância que esta obra teve no percurso literário do escritor, nomeadamente no que fora a sua actividade na década de 40, com uma série de obras (“Terra Firme”, por exemplo) de forte pendor etnográfico e patriótico.
            Três estudantes do 1º ano da Escola Profissional de Teatro de Cascais representaram, a terminar, uma passagem da peça: a narração do imaginário encontro do pescador com a sereia, símbolo do sonho que, apesar das procelas, há sempre que acalentar!
            A exposição pode ser visitada de terça a domingo, das 10 às 17 horas; aos sábados e domingos, das 10 às 13 e das 14 às 17.

Publicado em Cyberjornal, edição de 2013-11-17:



sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O custo e o valor

            Apercebi-me de que mui louvavelmente se reacende, de vez em quando, a polémica sobre a diferença entre o custo e o valor. Conceitos bem distintos, que se prendem com a dicotomia, mais frequente, entre o ter e o ser.
            Curiosamente, diz-se vulgarmente: «Tudo tem um preço!». Foge-nos a boca para «preço» e poderia, de facto, na mesma ordem de ideias, afirmar-se que «tudo tem um valor». Neste caso, porém, quer realmente acentuar-se o carácter mercantil, aquilo que se compra e se paga.
            Recordei-me de imediato do cenário das eleições e do período que imediatamente as antecede. Aí, sem dúvida, é a palavra «custo» a mais usada. Preferiríamos que fosse «valor». Mas não é. E não há volta a dar-lhe, enquanto vogarmos neste mar encapelado do paradigma capitalista em que os ditos ‘governantes’ europeus teimam em querer fazer-nos naufragar. Não lhes bastam os que vêm lá das costas africanas e sofrem rombo de morte à vista de Lampedusa. Querem mais!...
            E essa dicotomia do custo face ao valor fez-me lembrar também duas informações recentes:
            – A publicidade ao jornal Folha de S. Paulo: «O jornal que mais se compra e nunca se vende»!
            – E a inteligente reflexão a propósito da origem etimológica de duas palavras do nosso quotidiano: «mestre» (professor) e «ministro». Deriva o primeiro da palavra latina magister, que vem, por sua vez, do advérbio magis, que significa "mais" ou "mais do que". «Na antiga Roma», rezava a mensagem que me chegou e eu confirmo, «o magister era o que estava acima dos restantes, pelos seus conhecimentos e habilitações»; havia, por exemplo, um magister equitum, chefe de cavalaria, e um magister militum, o chefe dos soldados; daí vem igualmente a palavra «magistrado». Por seu turno, o vocábulo "ministro" vem do latim minister e este formou-se a partir do advérbio minus, que significa exactamente o contrário do anterior, ou seja, "menos" ou "menos do que". E explicita-se: «Na antiga Roma, o minister era o servente ou o subordinado que apenas tinha habilidades ou era jeitoso». A diferença entre ser ministro e ser mestre! A diferença entre o custo e o valor – será?
            É sempre, pois, a mesma questão: de um lado, pugnamos pelo valor; do outro, regateia-se o custo!

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 627, 15-11-2013, p. 12.

sábado, 9 de novembro de 2013

As cidades do poder na Hispânia romana e a descoberta de uma cidade singular

             Decorreu em estreita obediência ao programa previsto o colóquio internacional que, por iniciativa das universidades de Santiago de Compostela e do País Basco, reuniu em Lugo, de 23 a 25 de Outubro, p. p., investigadores de cinco países: Espanha, Portugal, França, Itália e Alemanha.
            O tema proposto pela Comissão Organizadora – professores Maria Dolores Dopico (da Universidade de Santiago de Compostela), Juan Santos Yanguas (U. do País Basco) e Manuel Villanueva (também de Santiago) – foi o de se procurar esclarecer qual o papel específico que, no contexto da Hispânia romana, poderão ter desempenhado as cidades escolhidas pelo poder central para serem, aí, centros administrativos capazes de exercerem, como capitais de conventus, as funções de seus interlocutores privilegiados. Teriam, por exemplo, características distintivas?
            Costuma ser meramente protocolar a sessão inaugural e os discursos, então, de mera circunstância. Sim, Dolores Dopico recordou os objectivos do colóquio, como era de esperar. O Delegado da Cultura de Lugo, Mario Outeiro, deu, em nome da Diputación Provincial, as boas-vindas àquela cidade «hermosa» e acolhedora. Mas o alcalde, José López Orozco, não hesitou em mostrar a sua elevada cultura, haurida na Pontifícia Universidade de Salamanca e, após manifestar quanto Lugo está orgulhosa da sua história – «que queremos recuperar para um presente e um futuro melhores», sublinhou – fez questão em afirmar que «sem universidade e sem investigação não pode haver progresso; estamos a cometer um erro que muito em breve pagaremos»; e, considerando que «a luz nasce precisamente das ideias», referiu-se à festa que, em Lugo, na luminosidade do Verão, exalta o seu passado romano; e incitou os presentes a fazerem marketing da sua actividade científica, «para que a sociedade dê valor ao vosso trabalho».
            Concluiu a série de intervenções o Reitor da Universidade de Santiago de Compostela, D. Juan Casares Long, que acentuou, por seu turno, o facto de terem sido os estudos universitários que fomentaram a criação da classe média que os governantes ora parecem apostados em destruir. Prosseguiremos nessa senda de promoção da Cultura, garantiu, ainda que «seguramente com mais cicatrizes, mais esqueléticos»…

Uma panorâmica das sessões
            No 1º tema, debatido na sessão moderada por Juan Santos, apresentaram-se os modelos de outras províncias: Rudolf Haensch (Universidade de Munique) fez uma introdução geral sobre as cidades do poder no Império Romano; Michel Christol (Universidade de Paris I) referiu-se ao «modelo da Gália Narbonense»; Gino Bandelli (Universidade de Trieste) baseou-se nos documentos epigráficos para dar conta da presença do poder central nas cidades da Gália Cisalpina; Lúcio Troiani (Universidade de Pavia) seguiu as informações fornecidas pela «História dos Hebreus» de Flávio Josefo para o caso da Síria e da Palestina.
            A criação de uma rede de cidades do poder na Hispânia constituiu o tema seguinte, em sessão presidida por Isabel Rodà (do Instituto Catalão de Arqueologia Clássica). Pilar Ciprès (Universidade do País Basco) destacou passagens de Plínio-o-Velho alusivas à organização do espaço peninsular na sua época, classificando a obra deste escritor como uma selecção intelectual de elementos destinada a ilustrar uma elite sedenta de saber como era a Hispânia; Dolores Dopico interessou-se – em comunicação assinada também por Juan Santos – por aspectos concretos da governação, nomeadamente o tempo que gastariam os governadores da Hispânia Citerior, quando, em serviço, se deslocavam às capitais conventuais; a Manuel Salinas de Frías (Universidade de Salamanca) caberia falar da Lusitânia; e a António Caballos (Universidade de Sevilha), da Bética.
            Poder político, poder económico. Havia, pois, que abordar as consequências económicas que a criação de centros urbanos político-administrativos necessariamente implicava. Assim, foi esse o 3º tema tratado, em sessão que teve como moderador António Caballos. A Pierre Sillières (Universidade de Toulouse) pediu-se que falasse das capitais conventuais como «centros da administração viária e da rede de comunicações»; Salvador Ordoñez e Sérgio García-Dills (ambos da Universidade de Sevilha) mostraram a importância económica e política de Astigi, a Colonia Augusta Firma; Carlos Fabião (Universidade de Lisboa) chamaria a si a responsabilidade de mostrar como a criação de centros urbanos na Lusitânia tivera reflexos na economia, sendo certo que não pode descartar-se a ideia de que também o factor económico terá estado subjacente à criação de algumas delas; Manuela Martins e Helena Paula Carvalho, da Universidade do Minho, analisaram o cadastro de Bracara Augusta na perspectiva da transformação e organização do território decorrentes da implantação da cidade; e, a concluir essa panorâmica, Isabel Rodà trouxe-nos a dinâmica observável entre as populações e, designadamente, entre as elites de duas cidades vizinhas: Barcino e Tarraco.
            «As consequências nos povos indígenas: mudanças sociais e institucionais» foi o 4º tema abordado, em sessão presidida por Manuel Rabanal Alonso (Universidade de León). Explicitou Manuel Villanueva as novas perspectivas que ora se apontam no que concerne à criação de Lucus Augusti; Juan Santos tomou de novo a palavra para referir o impacto de Asturica Augusta (comunicação também da responsabilidade de Dolores Dopico); de idêntico tema dissertou Francisco Beltrán (Universidade de Zaragoza), mas em relação a Caesar Augusta (de notar a grafia que defendeu, em vez de Caesaraugusta, pois que, na verdade, de outra forma se não poderão interpretar, em seu entender, siglas como C·C·A·, «Colonia Caesar Augusta»), cuja «fundación supuso, desde luego, la creación de un centro vertebrador con proyección regional» e determinou, «además, una profunda recomposición no sólo del vasto territorio que Augusto le atribuyó para dotarle de una base económica acorde con esa función integradora sino también de la población que en él habitaba». Estíbaliz Ortiza de Urbina (Universidade do País Basco) levou-nos de novo a Tarraco, pois à sua intervenção deu o título «Tarraconenses e Hispani Tarraconenses – Memoria epigráfica en la práctica cívica e provincial hispana». Tive ensejo de encerrar esse tema, trazendo à colação a importância da ‘epigrafização’, ou seja, o hábito de fazer epígrafes, para veicular o poder ou o contra-poder e, ainda, para nos elucidar acerca da aculturação entre indígenas e colonos, patente nos esquemas onomásticos e na adopção das crenças, na Lusitânia ocidental.
            E coube-me presidir à sessão do último tema: «Os aspectos ideológicos». Silvia Alfayé (Universidade de Zaragoza) relacionou religião e poder na Hispânia céltica, demorando-se, de modo especial, no contributo dado pelas inscrições patentes em grutas-santuários (La Griega, La Cueva Negra…) , espaços que, mormente pelos oráculos que lhes poderiam estar associados, detiveram importante papel na vida das cidades; Jaime Alvar (Universidade Carlos III, Madrid) salientaria a enorme contribuição dos cultos iniciáticos (cultos nilóticos, de Cíbele e Átis, de Mitra) para a inovação religiosa em ambiente urbano; por fim, Juan Manuel Abascal (Universidade de Alicante) mostrou, com exemplos, as manifestações da intervenção imperial nas “cidades do poder”.
            Antes da sessão de encerramento, em que – em nome dos organizadores – Juan Santos Yanguas agradeceu a imprescindível contribuição dada pelos intervenientes, pelos participantes e, designadamente, pelas entidades patrocinadoras, Patrick Le Roux (Universidade Paris XIII) optou, na alocução final, por fazer, em termos gerais, uma reflexão do foro metodológico sobre a investigação em História; interrogou-se, por exemplo, sobre se deveríamos falar de «cidades do poder» ou, antes, de «cidades de poder», sobre a diferença entre uma «visão militar» e uma «visão civil»…

Actividades complementares ou uma cidade romana a descobrir
            Permita-se-me que não deixe de me referir a outras actividades que enquadraram este colóquio.
            Em primeiro lugar, a preocupação de dar a conhecer aos convidados sítios emblemáticos da gastronomia e do património locais, como, por exemplo, o Centro Interpretativo de Terras do Miño, polivalente parque urbano criado pela Diputación Provincial às portas da cidade, onde, como já vai sendo hábito, se aproveitou uma azenha para restaurante de sabores tradicionais.
            Depois, a cordialidade bem galega da recepção no Ayuntamiento. O alcalde fez questão de saber quem eram, um a um, os participantes na reunião e solicitou que um representante de cada país dissesse de sua justiça. Fez de novo o elogio da Cultura e da consciência histórica como indispensável veículo de promoção social e de enraizamento da população: «Vocês trabalham uma matéria-prima, o conhecimento, que jamais se esgota!». E congratulou-se pelo facto de Lugo se apresentar como cidade de características urbanas, sim, mas que não prescinde de uma ruralidade que, na actual conjuntura político-económica, se antoja como relevante caminho a percorrer. No final, ofereceu o mais recente livro de António Rodríguez Colmenero, uma síntese para o grande público acerca da génese e evolução histórica de Lucus Augusti (14 a. C. – 711 d. C.), «La ciudad romano-germánica del Finisterre Ibérico» (edição do Concello de Lugo, 2011).
            Finalmente – e não de somenos – a pormenorizada visita de estudo aos monumentos mais significativos de Lucus Augusti.
            Primeiro, a muralha de 2266 metros de perímetro, a única do Império Romano que integralmente se conserva, por onde se pode tranquilamente passear, alvo de sucessivas campanhas de sondagem e de escavação destinadas a melhor se compreender a orgânica defensiva que lhe está subjacente. Inscrita pela UNESCO desde 2 de Dezembro de 2000 como Património da Humanidade, data do tempo do imperador  Galieno (século III) e constitui, na verdade, um portentoso e bem impressionante ex-libris da cidade. Fomos guiados pelo arqueólogo municipal dela responsável, Enrique J. Alcorta Irastorza, de quem poderá citar-se, entre várias outras contribuições, a comunicação «Un ejemplo de ingeniería militar romana bajo imperial: la muralla de Lugo», apresentada ao IV Congreso de las obras públicas en la ciudad romana, Colegio de Ingenieros Técnicos de Obras Públicas, Lugo – Guitiriz, 2008, p. 15-49.
            Reúne, naturalmente, o Museo Provincial de Lugo notável acervo arqueológico, recolhido não apenas na cidade mas em toda a província. Aí periodicamente se realizam, por isso, exposições temáticas, a realçar um que outro conjunto; é disso exemplo a que, de 28 de Junho a 15 de Setembro de 2011, abordou o tema «A plástica provincial romana no Museo de Lugo», de que resultou assaz eloquente catálogo ilustrado. Era, pois, visita obrigatória! Guiou-nos, com especial relevo no sector epigráfico, o Prof. Filipe Árias Vilas, que assinou (recorde-se), com Patrick Le Roux e Alain Tranoy, um livro pioneiro no seu tempo: Inscriptions Romaines de la Province de Lugo (Paris, 1979).
            A «Domus Oceani» ou «Casa de los Mosaicos», assim chamada por ter num mosaico a representação do deus Oceano, foi-nos explicada por Enrique González Fernández, o arqueólogo que superintendeu aos trabalhos e o autor da respectiva monografia, profusamente ilustrada: Domus Oceani – Aproximación á arquitectura doméstica de Lucus Augusti (Concello de Lugo, 2005). Sita debaixo de um imóvel, está devidamente musealizada e aí pode apreciar-se, durante a visita, um vídeo que inclui reconstituições virtuais desta magnificente casa romana.
            A «Domus do Mitreo», assim designada por, numa dependência da mansão, ter sido identificado um espaço destinado ao culto do deus Mitra, com o altar dedicado a esta divindade por um centurião da VII Legião Gemina Antoniniana Pia Felix. Guiou-nos o investigador directamente ligado ao sítio, Celso Rodríguez Cao, autor da monografia: A Domus do Mitreo, edição de 2011 da Universidade de Santiago. Também ela profusamente ilustrada, constitui o catálogo de uma exposição, contendo estudos específicos sobre os materiais encontrados (numismas, vidro, cerâmica, metal) e sobre a sua integração (por Jaime Alvar) no contexto do mitraísmo hispano, assim como a relacionação do sítio com os achados arqueológicos da Praça Pio XII que lhe fica adjacente.
            Em suma: para além do muito que se aprendeu na reunião científica propriamente dita, o contacto ao vivo com vestígios arquitectónicos de tamanha importância enriqueceu-nos sobremaneira, tanto mais que as entidades com responsabilidade na cidade não têm deixado os seus créditos por mãos alheias e têm sabido, exemplarmente e em parceria, preservar, divulgar (folhetos, desdobráveis, monografias, vídeos…) e pôr ao dispor dos habitantes e dos forasteiros um singular património histórico-cultural – o que muito nos apraz registar e aplaudir.
       
Publicado em archport, a 09-11-2013
http://ml.ci.uc.pt/mhonarchive/archport/msg17105.html.


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Na prateleira 12

Não sabe quem sou eu?
            E a senhora, dita da «sociedade» (pode usar-se a palavra inglesa, que é mais selecto…), abeirou-se do balcão. Interrogada se queria visitar a exposição de Maria Keil, respondeu que sim, claro. «Posso entrar?». «Sim, sem dúvida! É só um bilhete?».
            Perante a perspectiva de ter de pagar, embora nem sequer sonhasse quanto, perguntou à senhora da bilheteira se sabia quem ela era. Que sim, sabia, via-a amiúde nas revistas!...
            E então?         
               – Perdão!?          
               – Não tenho entrada de graça?
            Não tenho autorização para isso.
            Apeteceu-lhe acrescentar que ali não havia fotógrafos que a captassem em poses, a mostrar o vestido que lhe fora emprestado e os sapatos…
            E a senhora da «sociedade», sussurrando que determinada casa de chá da vila donde viera estava apinhada (percebe?) e a exposição, afinal, era um dó d’alma e compreendia-se porquê… (Se calhar, o chá não se pagava, e, ali, um chá de cultura conviria ajudar a pagar…), a senhora não entrou, não viu a exposição. Que maçada!
            Não sabe o que perdeu. Ou melhor, se calhar, mesmo que tivesse entrado, era capaz de não ter percebido o que ganhara. Desta vez, teve azar, errou no dia da… vernissage!...
 
Bonito, sim, mas…
            Visitei, há dias, magnífica musealização de ruínas romanas salvaguardadas sob o casario em pleno centro histórico de uma cidade.
            O projecto implicou o dispêndio de avultadas verbas e foi levado a cabo por mui conceituada equipa de especialistas.
            Abre ao público uma hora três vezes por semana, que é o período, se bem compreendi, em que tem furos nas aulas o estudante que disso ficou encarregado!

Um ano e… adeus1
Genoveva estava há um ano na casa e procurava ser empregada exemplar. Entretanto, engravidou. No dia em que completou um ano de trabalho, não lhe foi renovado o contrato.

O tom
            A maior parte das vezes, quezílias familiares, políticas e sociais nascem do tom. Esse é, aliás, um dos treinos maiores dos actores. Mais do que as palavras em si, o tom em que são proferidas – independentemente até do gesto ou da expressão facial – denuncia o que por detrás das palavras se esconde e que, amiúde, pode ser exactamente o contrário daquilo que se acaba de afirmar.
            Simples «bom dia!» permite, pela entoação, adivinhar entusiasmo, indiferença, mera boa educação, desprezo até…

Ele há gente para tudo!...
            Refiro-me não ao contingente que a seguir se comenta mas ao facto de, cada vez mais, haver quem maliciosamente ande a espiolhar ‘pormenores’ em que se nos esvai mui cinzento quotidiano…
            Assim, uma das mensagens que me caiu sob os olhos dava conta do quadro de pessoal da Câmara Municipal de Lisboa, publicado a 24-01-2013, no 2º suplemento ao Boletim Municipal nº 988 (este dado fui eu pescar, perante a notícia, no endereço http://www.cm-lisboa.pt/municipio/camara-municipal/recursos-humanos/mapa-de-pessoal).
            E admirava-se o autor da mensagem que houvesse a previsão de emprego para 2545 técnicos superiores, entre os quais (retiro eu do quadro publicado): 329 arquitectos, 303 juristas, 261 engenheiros civis, 154 licenciados em História, 144 licenciados em Ciências da Comunicação, 106 sociólogos, 101 assistentes sociais, 74 psicólogos, 48 geógrafos…
            Trata-se de uma grande Câmara, que desta forma dá emprego a muita gente. Comentava ironicamente o mal-intencionado autor da mensagem: decerto «trabalham todos arduamente para o meu município». Claro que sim! E ainda bem que há entidades empregadoras desta envergadura! Abençoadas! Venham mais! E com dinheirinho!

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 21, 06-11-2013, p. 6.

Eugénio Sequeira recebeu o Prémio Quercus 2013


             Atendendo ao «trabalho meritório que tem realizado na área do ambiente, tanto a nível nacional como internacional, e à defesa exemplar das múltiplas causas ambientais em que se tem envolvido", decidiu a organização ambientalista Quercus atribuir ao Engº Eugénio Sequeira, de 76 anos, o Prémio Quercus 2013, prémio criado em 2004 para galardoar anualmente «entidades, empresas ou cidadãos que se evidenciem na defesa do ambiente e na promoção do desenvolvimento sustentável»

                É bem conhecido do que com ele habitualmente privamos o empenho que Eugénio Sequeira põe na luta por um correcto ordenamento do território e contra a desertificação. Recentemente, como responsável máximo pela Liga de Protecção da Natureza, tem sido grande entusiasta da compatibilização da agricultura com a protecção de aves, nomeadamente de rapina e migratórias, projecto que – com o maior êxito – tem sido levado a cabo em Castro Verde.

               Sabemos quanto tem lutado em Cascais (onde vive) por um concelho mais saudável, pugnando pela manutenção da biodiversidade, defendendo intransigentemente a Zona de Paisagem Protegida Cascais – Sintra.

                Engenheiro agrónomo, fez a sua carreira como investigador e docente no Instituto Superior de Agronomia, mas não tem regateado colaboração a universidades públicas – como a Nova de Lisboa e a do Algarve – e privadas (Lusófona de Lisboa e Vasco da Gama de Coimbra). Como autarca, presidiu à Assembleia Municipal de Cascais entre 1976 e 1979 e exerceu funções de vereador entre 1989 e 1993.

                Congratulamo-nos., obviamente, com o galardão atribuído e fazemos votos de que este reconhecimento público possa servir para que sejam mais bem acolhidas e postas em prática por autarcas e por governantes as frequentes sugestões que Eugénio Sequeira desassombradamente divulga.

 

Publicado no Cyberjornal, edição de 06-11-2013:

http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=18996&Itemid=69