quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Malandrices infantis

            Em relação às crianças, requinta-se o algarvio neste seu jeito de brincar, de usar amiúde uma terminologia brejeira que ninguém leva a mal, porque visa educar sorrindo, sem maldade mas com inocente malícia.
            Não é bem esse o caso da palavra ‘estrebuchar’. Se, para um adulto, assume dominantemente um sentido de trejeito doloroso, quer aplicado às pessoas quer ao animal em sofrimento, no mundo infantil «que é que estás praí a estrebuchar?» constitui, de um modo geral, pergunta irónica, a trazer implícita a ideia de que a criança está a dar voltas e mais voltas a um brinquedo ou um objecto, vira-o e revira-o e não encontra saída airosa para o concertar ou… desconcertar.
            Sugere-se nalguns dicionários que a palavra veio do francês «trébucher», que significa ‘vacilar’, ‘hesitar’. É possível, mormente se o enquadrarmos não nesse aspecto de «mexer violentamente pernas e braços», mas de preferência nesse estrebuchar da criança em… não saber como há-de resolver uma situação concreta. E, à primeira vista, ligá-la também ao termo ‘bucho’ até nem parecerá despropositado de todo, se pensarmos que, muitas vezes, nos sentimos incomodados quando, por exemplo, a comida nos dá a volta ao estômago e não sabemos bem o que se lhe há-de fazer. Estrebuchamos!...
            Mas… voltando à malícia inocente: quem não se lembra de, em pequenino, alguém se voltar para nós e dizer, num sorriso malandro: «Com que então a vender vinagre, hein!»? Esquecêramo-nos, simplesmente, de apertar alguns botões em sítio onde esse esquecimento poderia vir a ser… fatal!

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 181, Fevereiro de 2014, p. 10.

 

Era uma vez...

            Era uma vez um punhado de sonhadores, sólidos nas suas convicções, enraizados na terra que os vira nascer, conscientes da sua identidade… que heroicamente ousaram minar o sistema e… conseguiram!
            Foi há 100 anos!
            Alportel guindou-se a concelho; soltou as amarras e, com a ria à vista, sim, mas voltado sobretudo para os seus vergéis e para as fecundas árvores da sua Serra, deliberou vogar de motu proprio!
            E aqui chegámos, 100 anos volvidos!
            «Chegámos»?
            Não! – que «chegar» traz consigo a ideia de casa arrumada, conforto alcançado, pantufas à lareira!
           Chegámos, sim, mas para continuar partindo. Que largos são os horizontes, infinda a caminhada… E a Calçadinha aí está, a lembrar-nos, como António Machado, que se faz caminho a andar!

Senhor Presidente,
          Agradecemos ter-nos dado posse, pelo que esse gesto significa. E assumimos a responsabilidade de, durante este ano e o próximo, ajudarmos o barco a singrar:
 
  • fugindo dos escolhos – os actuais e os futuros;
  • desprezando sereias (cantam «belas», bem o sabemos, já lá diz o romanceiro popular);
  • apontando outras metas e mais outras e mais outras;
  • congregando esforços numa direcção comum!
         Temos programa traçado. Procuraremos, amigo Presidente, cumpri-lo com todo o rigor – para um centenário S. Brás de Alportel ainda mais exemplar no contexto dos municípios portugueses!
          Viu? Já arregaçámos as mangas!
          Vamos lá!

        Texto do breve discurso proferido, a 3 de Fevereiro, no Salão Nobre dos Paços do Concelho de S. Brás de Alportel, por ocasião da tomada de posse da Comissão do Centenário, a que me deram a honra de presidir. Foi mui gentilmente publicado na íntegra na p. 10 do nº 181 (Fevereiro de 2014) do semanário VilAdentro (de S. Brás de Alportel), sob o título «Na rota do centenário», pois que a vila celebra este ano 100 anos da sua elevação a município, saindo da tutela de Faro.

Sincronia, entusiasmo e dedicação numa actividade que não se explica

            Exacto: acho que não se explica – vive-se!
            Aliás, não andaremos longe da verdade se afirmarmos que este auditório grande do Olga Cadaval, repleto até mais não para ver dançar cerca de 750 (!) alunos das academias Ai! A Dança, sob a batuta imparável de Lucília Bahleixo e toda uma vasta equipa – essa enchente constitui murro gigantesco no estômago dos que pensam (e são muitos, designadamente os que detêm poder político por essa Europa fora…) que dança, música, artes plásticas são coisinhas de somenos, umas brincadeiras para entreter o pagode e para nada mais servem.
            Sim, poderão pensá-lo esses que só têm olhos para números; mas só vêem os números que lhes quadram à sua acanhada mentalidade retrógrada.
            Vermos o palco ser pequeno para tantos estudantes, desde os pequenitos (um amor!) aos que já passaram o meio século de vida, todos irmanados no intuito de – com hip hop, tango, dança do ventre, dança dos véus, flamenco, salsa, merengue, bailado clássico… – mostrarem como é bonito trabalhar em conjunto, alunos e docentes, seguir regras, obedecer a tempos, disciplinar-se… é sempre uma consolação e grande lição de vida. A filosofia: «dos 3 aos 70 anos», «a democratização e a massificação da Arte, em geral, e da Dança, em particular».
            Foi o habitual espectáculo de meio do ano escolar, em duas sessões, na tarde de sábado, 9, no auditório do Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, promovido pelas seis academias Ai! A Dança (Sintra, Loures, Santa Iria, Pontinha), este ano subordinado ao título Dança na Luz.
            Quase duas horas de espectáculo sem interrupção (ou melhor, duas ou três interrupções fictícias de putos reguilas na assistência admoestados por um professor assim à antiga, para descontrair o auditório…). Claro, a versatilidade do hip hop, mormente quando interpretado por jovens, é sempre muito de aplaudir e encantar, pelo ritmo, pela evolução, pelo gesto rápido extremamente bem coordenado; mas também não nos deixou indiferentes a singular coreografia, interpretada por menos jovens, do ‘Desfado’ de Ana Moura, que arrancou fortes aplausos.
            Sempre sedutor e magnífico este encontro no Olga Cadaval!
            Valeu – mais uma vez!

Publicado em Cyberjornal, edição de 12-02-2014:

 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Na Prateleira - 16

Eiras de Birre – evocação
            Na autêntica enciclopédia Saloios de Cascais, de Micaela Soares (CMC, 2013), aborda-se (p. 144-148) o ritual da debulha, feita, até à década de 60, em eiras lajeadas, que também aí são descritas.
            Lembrei-me agora de recordar – porque temo que venha a ser esquecido – quantas existiam então no lugar de Birre.
            Logo à entrada, para quem vem do alto do Zé Florindo, era a primeira, onde se situa hoje a Farmácia Birre: a dos Calça-a-Bota.
            Na povoação, mesmo junto à estrada principal e para sudoeste do chafariz, a do Ti António Fernando, cuja casa agrícola com todas as dependências (vacaria, palheiro, currais…) se localizava no coração da aldeia.
            Mais para sudoeste, à sombra de um grande pinheiro manso, à direita do caminho que ia para o poço (hoje, Rua dos Malmequeres), era a do Silvino Capelas, proprietário também, aliás, de próspera horta onde é o MacDonalds e de um pomar junto ao Rio dos Mochos, aonde era sedutor irmos roubar ameixas....
            Do lado norte do lugar, já a caminho das pedreiras (hoje, Rua das Papoilas), era a do Zé Apolinário, cujas terras principais ficavam ao fundo, na margem esquerda do Rio dos Mochos, no sítio onde, muitas décadas atrás, houvera seu centro Birre de Baixo e tinha fonte, bebedouro para os animais e tanques de lavar roupa. Zé Apolinário passava parte das tardes numa espécie de alpendre, ao lado de grande casa onde nunca soube o que havia e daí nos bradava, assustador, quando nos empoleirávamos nas nespereiras ou nas figueiras, à vinda da escola do Ereira…

«Rugas de sabedoria»
            A 9 de Outubro do ano passado, realizou-se, em Santiago do Cacém, o XXI Encontro de Idosos da Zona Sul do Distrito de Setúbal. Tema: «Rugas de sabedoria»! Assinala a notícia que a tarde de convívio constituiu «uma autêntica lição de vida».
            Que nome bonito para tema tão cativante!
 
Boca forjada
            O meu amigo e vizinho Carlos comprou um alicate de pressão «made in P. R. C.», que significa «feito na República Popular da China». Foi, porém, importado por uma firma portuguesa, que se encarregou de o identificar em português e em castelhano. Aí se explica, por exemplo, que terá «boca forjada para uma maior durabildade». Não sei o que significará exactamente ‘forjada’: se foi à forja, se tem um preparado especial para lhe dar maior… durabilidade!…
            A mim preocupa-me é a cada vez mais frequente ocorrência de erros ortográficos e gramaticais nos rótulos dos produtos à venda. Não apenas nos que se importam mas até nos fabricados no nosso País em conceituadas casas que deveriam prezar a boa comunicação, inclusive para lhes aformosearem a imagem.
            Urge recriar nas tipografias a figura do revisor!

Abreu Nunes
            Feliz hábito, esse, da Sociedade Propaganda de Cascais: o de nos presentear pelo Natal com um postal evocativo de uma paisagem da Cascais antiga ou de uma figura relevante dos seus anais. Este Natal, o homenageado foi Augusto Jayme Telles deAbreu Nunes (1891-1966). Historia-se, a traços largos, a sua acção em prol da Sociedade. Participou, em 1934, na organização do primeiro concurso hípico de Cascais, onde é hoje o Hipódromo Municipal. Foi, durante cinco anos, desde Outubro de 1939, o primeiro presidente da Junta de Turismo da Costa do Sol. Tem o seu nome perpetuado num dos arruamentos do Cobre, desde 4 de Maio de 2012.

Depressa – devagar!
            Há frases que se tornam norma de vida; outras que, por tão repetidas, acabam por não nos merecerem, afinal, a atenção que merecem. Por exemplo, «quanto mais depressa, mais devagar!». A aconselhar-nos que, se temos pressa, há que guardar serenidade, para melhor nos concentrarmos e, assim, mais rapidamente levarmos a tarefa ao fim.
            Não raro será, de facto, que, na actualidade, com os computadores, o nosso comportamento não siga aquela norma: damos uma ordem, queremos uma resposta imediata e, se não vem, repetimos a ordem, voltamos a repetir e… o computador baralha-se todo e tudo se atrasa, porque ele também foi habituado a fazer uma coisa de cada vez, como mandam as normas!
            Mas… ele há tanta coisa que nós gostaríamos que andassem mais depressa e andam tão devagar! Os recebimentos, por exemplo: demoram, demoram!... Em contrapartida, os pagamentos … porque é que são sempre pra ontem?!...

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 31, 05-02-2014, p. 6.

 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Uma história dos bastidores do poder de Isaltino

             «Uma história muito bem feita dos bastidores do poder de Isaltino de Morais» –foi assim que José Miguel Júdice classificou o livro Sobre Oeiras – Comunicação e Caso de Sucesso? (1982-2006), da autoria de Luís Macedo e Sousa.
            Com a presença de mais de uma centena de amigos do autor, a sessão de apresentação decorreu na tarde de sábado, 1 de Fevereiro, no auditório do Centro de Apoio Social de Oeiras. Presidiu o Sr. Coronel João Marquito, que, depois de breve alusão à missão do Centro e às dificuldades que se houve de vencer para o erguer e, agora, para o manter, referiu quanto carinho ali se procura ter para com todas as iniciativas do concelho, nomeadamente as culturais, pelo que agradeceu vivamente a escolha que fora feita para ser cenário desta cerimónia.

A apresentação
            José Miguel Júdice começou por afirmar que livros como este não são, vulgarmente, mais do que mero relatório, raras vezes bem escritos, e que, por isso mesmo, depois de umas semanas desaparecem.
            No caso vertente, porém, embora sendo, de facto, uma prestação de contas, o relato de 24 anos de serviço público, é seu autor alguém que escreve bem («o que se torna cada vez mais raro», sublinhou); descreve, com base no poder local, um período decisivo da história de Portugal (José Miguel Júdice recordou que presidia à Distrital do PSD aquando da 1ª candidatura de Isaltino de Morais à Câmara de Oeiras, que incondicionalmente apoiou); o livro ajuda, pois, a compreender o que se passou. O que é o poder? Um monstro bifronte simultaneamente atraente e repelente. E este livro consagra-se, assim, como uma história muito bem feita dos bastidores do poder de Isaltino, «um autarca paradigmático, magnífico, excelente», disse.
            Muitos livros, agora, servem para combater a insónia e deixam-se da mão quando a insónia passa; este, garantiu José Miguel Júdice, não vai morrer após a insónia ter passado, atendendo à forma como está feito. Sente-se nele, latente, um certo desgosto, mas não há qualquer ajuste de contas, porque – e esta foi a segunda grande ideia que quis deixar – é «o livro de uma pessoa muito bem educada» e, hoje, a boa educação é, também ela, cada vez mais rara.

As declarações do autor
            Macedo e Sousa agradeceu o pronto acolhimento dado pela direcção do C. A. S. Outro e as palavras de José Miguel Júdice.
            Quanto ao livro, considerou-o um contributo para a história do concelho, escrito já com algum distanciamento em relação aos factos narrados (já saiu da Câmara há oito anos) e, também, uma espécie de elo libertador, como que o encerrar de um capítulo, um exercício de memória sobre as reflexões feitas, donde se sai com a convicção de que para cada problema há várias soluções e nem sempre a que escolhemos pode ser a melhor ou a definitiva. Trata-se, em seu entender, de uma reflexão por vezes «muito intimista, sim, mas caldeada pelo tempo, uma espécie de ‘conta-me como foi’, para melhor se perceber como é que as coisas aconteceram». «Oeiras foi um marco na minha vida, em que sobressaiu o facto confiança: como se constroem e evoluem as relações de confiança».
            Explicou ainda Luís Macedo e Sousa que o livro surge agora porque preferiu esperar por um período pós-eleitoral, relativamente ‘morto’ do ponto de vista da cena política, dado que «não tem por objectivo interferir seja no que for». Os seus objectivos foram: a participação cívica (não outra) e apresentar um testemunho tanto quanto possível despido de emoções, «uma reflexão sobre a natureza humana e a forma como se reage».
            Terminou com um voto: «Que a sua leitura esteja em linha com o prazer que me deu em escrevê-lo».
            Sobre Oeiras – Comunicação e Caso de Sucesso? (1982-2006) é edição de autor (ISBN – 978-989-20-4459-0); tem 192 páginas; e os capítulos em que se divide são: «Oeiras em democracia», «mudança tempestiva», «estrutura e política municipal de comunicação», «políticas, perplexidades e comunicação aplicada», «contexto e protagonistas», «o princípio do fim».
            Vou ler, na certeza de que muito aprenderei também!

Publicado em Cyberjornal, edição de 03-02-2014:

Padre Miguel Barros homenageado em Cascais!

             Por iniciativa da Junta de Freguesia Cascais – Estoril, foi dado o nome do Padre Miguel Barros a um arruamento do Bairro Mira-Golfe, perto do Centro D. Bosco (dos Antigos Alunos Salesianos do Estoril), e na confluência com ruas que têm nomes ligados à Congregação Salesiana: Madre Maria Mazzarello, Laura Vicuña, S. Domingos Sávio...
            Após o descerramento da placa, pelas 16.30 h. do dia 30 de Janeiro, tomou a palavra o presidente do Município, Carlos Carreiras, que foi aluno do Padre Miguel e que evocou a sua personalidade de docente rigoroso e justo e de treinador empenhado. O Provincial dos Salesianos, Padre Artur Pereira, agradeceu, em nome da Congregação, a homenagem e salientou que o Padre Miguel se caracterizou pela competência, pela frontalidade e pela dedicação. Pedro Mota Soares, Ministro da Solidariedade, também ele antigo aluno do Estoril, recordou o exemplo do sacerdote e do educador. Por fim, Pedro Morais Soares, que preside à Freguesia Cascais – Estoril, louvou-se nas palavras dos oradores antecedentes e manifestou o seu regozijo por ter sido possível prestar esta homenagem naquele local pleno de simbolismo.
            Estiveram presentes o presidente da Junta de Freguesia da Ericeira, terra natal do Padre Miguel Barros (1923-2010), autarcas, muitos responsáveis salesianos, designadamente das escolas do concelho – o «mais salesiano de Portugal», recorde-se –, muitos antigos alunos e admiradores da obra do pedagogo, além de representantes de entidades, como a Santa Casa da Misericórdia de Cascais e o Núcleo da Cruz Vermelha da Costa do Estoril, que têm ligação às escolas salesianas.
            Foi homenageado não apenas o reconhecido docente de Desenho da Escola Salesiana do Estoril, mas, de modo especial, o educador que, através da prática desportiva, do hóquei em patins concretamente (foi, como se sabe, o fundador da Associação da Juventude Salesiana, alfobre de alguns dos maiores vultos nacionais e internacionais desta modalidade), soube formar cidadãos activos e conscientes do seu importante papel na sociedade.
            Constituiu, pois, esta cerimónia um momento alto para Cascais em geral e para as escolas salesianas em particular, uma vez que se celebrava no dia seguinte, 31, a festa religiosa de S. João Bosco, data do seu falecimento em 1888, o santo que fundou a Obra Salesiana; e, no dia 1, o Dia Local do Antigo Aluno Salesiano.
 
Publicado em Cyberjornal, edição de 02-02-2014:

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Os recursos que só os velhos podem dar

             Li e reli, confesso, o artigo «Envelhecimento e solidariedade», de António Bagão Félix, no Boletim Salesiano nº 542 (Jan/Fev 2014, p. 20-21).
            Admiro, aliás, as suas constantes e desassombradas tomadas de posição, mesmo quando opostas à política levada a cabo por membros do partido a que pertence. Aí reside o seu carisma e a atenção que todos os sectores acabam por lhe prestar: essas afirmações resultam da experiência e, sobretudo, de aturada reflexão sobre a realidade e sobre o Homem. Dizer que Bagão Félix é um humanista de corpo inteiro não constituirá surpresa para ninguém e o facto de, em funções governativas, ter sobraçado, por exemplo, a pasta da Segurança Social determinou muito do que nesse artigo deixou exarado, para meditação.
            «Ser ancião», escreve, significa «a idade em que, na pessoa humana, o ser assume, em definitivo, primazia sobre o ter e o tão-só estar».
            E, embora preconize que se não deve «alimentar uma perspectiva pessimista sobre o futuro da velhice», não deixa de criticamente atribuir a esta «economia sem rosto», a este dominante «individualismo exacerbado» «a solidão, a perda de autonomia, o enfraquecimento relacional» de que ora o mundo padece e que, na velhice, mais cruelmente são realidade.
            Tantos são os recursos de que «os mais velhos dispõem» e que mui gostosamente querem partilhar, numa vida que se pauta «entre o património da memória e a esperança da eternidade»! – frase lapidar de suma beleza e de enorme profundidade!
            Não pode haver, por isso, «o eclipse dos avós no acompanhamento educativo dos netos»: é absurdo privar uns e outros daquela «cumplicidade afectiva» que torna mais risonhas as alvoradas e mais serenas as noites de cada um!...
            Testemunho, sabedoria, ternura, partilha – alguns dos recursos a bem aproveitar!… Bagão Félix toca fundo nas chagas do nosso quotidiano – para que cicatrizem e outras não venham a aparecer!
 
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 632, 01-02-2014, p. 11.