sexta-feira, 4 de abril de 2014

Resmalhar

           ‒ E como era, avó? Esse lobisomem vinha assim, pé ante pé, como um resmalhar de cobra no pasto? E trazia infusa à cabeça como tu quando vais às bicas? E trazia na infusa o quê, avó? Água benta para jogar sobre as pessoas ou eras tu quem lhe jogava a água benta em cima, para que lhe saísse o diabo do corpo e não atazanasse mais ninguém, era?
            Pelo telhado de canas – um primor de trabalho que eu vira meu pai fazer mais os vizinhos, nos tempos da grande entreajuda – esgueirava-se um ciciar de aragem fria… Fazia-me forte, cheio de curiosidade, que não queria saber de papões, o lobisomem é que contava, nas noites de lua cheia, diziam… Ceara papas de milho com duas postinhas de sardinha de salmoira e até bebera uns golitos de café, nada que me fizesse passar o sono, me desse cabo do estômago ou lhe desse volta ou fosse como apanhar na barriga um murro seco.
            Minha mãe é que ficava mais afeleada com essas curiosidades minhas:
            ‒ O moço pequeno é melhor é ir prá cama, que essas histórias, minha mãe, não lhe dão a volta ao estômago, mas ainda lhe avareiam a cabeça. É melhor: vamos prá deita!
            E eu posso jurar que não rezava nunca o padre-nosso certinho, porque a imagem do lobisomem me atazanava mesmo!...
      
            Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 183, Abril de 2014, p. 10.

 

A vida no campo – ter relógio ou… ter tempo!

           Tive ensejo de visitar a exposição temporária que, no Museu Nacional de Arte Antiga, nos veio mostrar, de 3 de Dezembro até daqui a dias, a paisagem nórdica através do olhar dos pintores Rubens, Brueghel e Lorrain, quadros que fazem parte do espólio do Museu do Prado, de Madrid.
            Congratulo-me, obviamente, com a iniciativa, na medida em que constituiu mais uma forma de chamar a atenção do Povo para a importância que a Arte acaba por desempenhar na vida, mau grado as tropelias dos ‘governantes’.
            Chamou-me, de modo especial, a atenção a apresentação da sala 2, «A vida no campo», onde se explica que, após a assinatura, a 9 de Abril de 1609, da trégua de 12 anos, os arquiduques Alberto e Isabel Clara Eugénia, com vista a consolidarem a reunificação, deliberaram utilizar «a pintura como instrumento de propaganda»: «Sendo fundamental para a reconstrução dos Países Baixos a colaboração do campesinato, os arquiduques consideraram que a representação da vida nos campos, no seu ambiente natural, era a temática mais apropriada à pintura».
            Estava-se nos primórdios do século XVII, ou seja, há 400 anos. E pensei com os meus botões: será que os actuais «governantes» leram? Será que se aperceberam da importância real que tem, na vida do Povo, a existência de um campesinato forte, bem apoiado, feliz, dotado por perto das infra-estruturas necessárias a esse bem-estar?
            Não, em Portugal não leram; em Portugal, se o sabem, não o conseguem facultar nem – ao que parece – se preocupam muito com isso! As reclamações diárias contra o encerramento de serviços públicos, na perspectiva imediata de que não são rendíveis, antojam-se como evidente prova em contrário. Desertifica-se o interior; enxameiam-se as cidades de gente por completo desenraizada; olha-se para o estrangeiro na mira de se alcançar lá o que por estas bandas se recusa, em nome do feroz código do deve e do haver.
            E os quadros fizeram-me lembrar o Powerpoint que circula pela Internet, a que se deu o nome de «Tuaregue traduzido». Diz-se que se trata da entrevista feita por Victor-M. Amela a Moussa Ag Assarid, tuaregue saariano. Palavra puxa palavra, o jornalista catalão a deixar-se enlevar, admirado, pela sabedoria de quem passa os dias no silêncio avassalador de uma Natureza original: «Quando se está sozinho naquele silêncio, até se consegue ouvir o bater do coração», garante o tuaregue. E acrescenta, para realçar as diferenças: «Vocês têm relógio; nós temos tempo!».

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 636, 01-04-2014, p. 11.

 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

«Matei um general!»

Nota a propósito de ‘Ictus’, de Miguel Graça,
em cena no Mirita Casimiro, em Cascais

«Quero, posso e mando!»
            ‒ Então, mas isso não é por concurso?
            ‒ Claro que é; mas, sabes, quem manda nos concursos somos nós.
            Andou pela Internet a informação – supostamente verdadeira – de que, não há muito tempo, um monarca assistira, impávido e sereno, deliciado, à cena que perpetrara: a matilha de cães a estraçalharem vivo o seu adversário político. Como se diz que se passava nos anfiteatros romanos, há dois mil anos atrás, perante o gáudio da corte imperial.
            Em entrevista a Daniel Oliveira, no «Alta Definição» (SIC, 22 de Março) Henrique Cyberman fez referência à tristeza de um pai árabe por o filho, agora com 15 anos, não ter acedido a ser mártir, oferecendo-se para livremente morrer pela sua religião: «Foi a maior frustração da minha vida!». E comentava Henrique: para o compreendermos temos de tirar os nossos «óculos ocidentais».
            Comenta-se, no momento em que redijo esta nota (domingo, 30 de Março), que o misterioso desaparecimento do avião malaio pode ter sido provocado para matar algumas pessoas – e, com elas, outras mais de duzentas. Porque assim tinha de ser.
            Ocorreram-me de imediato estas quatro situações depois de ter assistido à estreia, no Dia Mundial do Teatro, 27 de Março, da peça de Miguel Graça, «Ictus», no Teatro Municipal Mirita Casimiro.
            Ictus é um murro no estômago. Um forte murro no estômago. Para consciencializarmos o que os noticiários veiculam – e nós, como quem não quer a coisa, até acabamos por achar normal. E nada disso é, realmente, normal!

A via sacra da humanidade
            Perguntara-me o Pedrosa Cardoso porque vinha na capa do livro (apresentado no dia anterior) um peixe estilizado e se, por isso, o tema era religioso. Ιχθύϛ («ictús») é grego e significa «peixe», de facto, e era o sinal secreto pelo qual os cristãos dos primeiros tempos se reconheciam, porque as letras identificavam Cristo. Não lera ainda o livro, não vira a peça, sabia que era ‘violenta’, porque Carlos Avilez mo confidenciara dias antes. Na explicação que dá para a ter escrito, o autor confessa que, para imaginar o futuro do Ocidente, achou por bem voltar «aos momentos decisivos do início do Cristianismo e às várias figuras que o compuseram, principalmente Paulo: primeiro, caçador de cristãos, depois, pedra angular da teologia cristã». E aí se entrelaçam com a história bíblica as histórias violentas que na cena faz passar. Nada vi de referência explicativa à imagem, mas – agora – concordo com Pedrosa Cardoso: ainda que o autor nada expressamente explicite, ictus tem mesmo elevada conotação bíblica!...
            Sabemos quase no final, quando perante nós se desnudam e tapam com as mãos «suas vergonhas», que é de Adão e Eva que se trata e que o General se identifica com Deus e confessa «acabei de vos expulsar do paraíso», quando antes afirmara, peremptório: «A vossa descendência são irmãos que se matam entre si», como Caim matou Abel, acrescento eu – e não só. Com uma diferença, porém, que desde já importa focar quanto à suposta identificação: esse General, o poder político-económico omnipotente, não olha a meios para atingir os fins e tudo se tem de processar de acordo com os seus desígnios e aí está o caçador para fielmente executar a missão. E não pude deixar de evocar, nesse momento, os depoimentos que, ao sábado, nas últimas semanas, temos estado a ouvir na Antena 1, no programa «No limite da dor», de Ana Aranha, em que presos políticos do regime salazarista miudamente contam as torturas por que os fizeram passar. Não matavam – como acontece em Ictus, donde, porém, a tortura não está ausente – mas essa morte psicológica era mil vezes pior!
            E a diferença (volto atrás) é que, de um modo geral, não imaginamos Deus em vestes de tirano: deixa-nos Ele a liberdade de agir, a liberdade de sermos nós os tiranos dos outros, mesmo que, na peça, por engenhoso trocadilho, «God» possa transformar-se em «dog» (que até, em determinado momento, fala como quem ininterruptamente está a ladrar, excelente interpretação de David Esteves) através de um DNA que, ao invés, também pode ser a copulativa AND («e»).

O Evangelho… segundo Miguel Graça!
            Demonstra Miguel Graça bom conhecimento das Escrituras, apresentando-nos, num só acto e em quadros, a via sacra da Humanidade.
            Parece que o soldado poderia chamar-se Pedro, a proclamar que «a Autoridade é a verdade», numa obediência cega que o leva a matar-se, porque o General assim o determina. Passa-se pelo «deserto», como Cristo por lá se preparou durante 40 dias. Há a «mãe». Há «Lázaro», o homem que Jesus ressuscitou. «E a água transforma-se em vinho» evoca as bodas de Caná, o primeiro milagre de Cristo. «Na montanha» não há as bem-aventuranças, mas o General não vai resistir a fazer uma confissão da maior relevância também:
            «Somos todos marionetas, Caçador. E há marionetas que comandam outras marionetas, que por sua vez comandam mais marionetas que continuam a comandar outras. Todo o universo é um abismo sem fim onde há sempre alguém a movimentar os nossos gestos».
            Que libelo maior se poderá esperar, quando o sentimos dia a dia sob o olhar ferozmente implacável das… agências de ranking?
            Também se fala dos Magos (esteticamente muito bem sugerida a tempestade de neve, em breve apontamento lá ao fundo!) e se reproduz, em hebraico, o grito de Jesus, já crucificado: Eli. Eli, lama sabactani?, «Ó Deus, ó Deus, porque me abandonaste?» E aí «o fogo consome o Autor», porque «o teatro está a arder» (outro sagaz apontamento cenográfico de Fernando Alvarez). No monte Gólgota foi crucificado Cristo – e esse é, aqui, o escritório do General, no enorme vitupério contra a humanidade que ele detesta – e se consigna outra oposição profunda entre o Ódio e o Amor.
            A mensagem não é, pois, nada auspiciosa. As personagens aniquilam-se, perdem a noção do espaço e do tempo… Uma excepção: Magdala. Recorda-nos, claro, Madalena, a mulher que Jesus amou e que, em Ictus, acaba, como actriz, por vestir a ternura da Samaritana, que o mesmo Senhor (reza o fado) veio encontrar «junto à fonte de Jacob». A mulher tem sede, mas… «o poço está cheio de moedas» (tinha de ser!). O diálogo entre a ‘actriz e ‘ele’, ambos serenamente sentados no «jardim das três árvores» constitui, sem dúvida, um dos momentos mais ternos (se é que os pode haver…) de toda a peça. «Há sítios onde nos podemos esconder, mas não há nenhum para onde possamos fugir»… Vale a pena relembrar:
            “‒ Talvez um dia seja eu aí sentada e um homem chegue cansado e se sente nesse banco ao meu lado e me confunda com uma velha e me conte a história que anseia por contar. Talvez eu um dia ouça a sua história.
            ‒ Eu ia gostar.
            ‒ Eu também.”
            Para isto serve o teatro, que também faz parte da peça:
            «É isso o teatro. Quem és tu? És a voz da Nova República, és os pensamentos que ninguém consegue pensar e as palavras que ninguém consegue dizer. […] Um dia um General esqueceu-se que é um instrumento de guerra e decidiu entregar este teatro nas tuas mãos».
            Pois.

O espectáculo
            Do texto se farão, pelos meses fora, estou certo, análises profundas, tão denso e fecundo ele é, na sua aparente pequenez (tem o livrinho umas 70 páginas só). Não me admiraria que o ‘queimassem’ – como, de resto, se pressagia na peça. Quem, decerto, muito queimou as pestanas para o erguer como espectáculo foi o encenador Carlos Avilez e toda a sua equipa. Já se referiu Fernando Alvarez, a quem também se devem os ajustados figurinos; Manuel Amorim dirigiu a montagem, em que Rui Casares colaborou. Bem oportuno o lúgubre ascetismo do cenário, sempre o mesmo em todos os quadros, porque… é um lugar e não é lugar nenhum! E as três árvores mais fazem lembrar as cruzes do Gólgota do que mui verdejante jardim – que não há!
            Se em todos os espectáculos de Carlos Avilez se prezam os silêncios, a contenção do gesto e do movimento, aqui tudo deveria ser pesado ao milímetro, para que a Palavra florescesse e se impusesse sem obstáculos. Até as mortes ficam estilizadas num leve descair de cabeça. Sugere-se – e o espectador não carece de mais para cabalmente o compreender. Andaram, pois, muito bem, extraordinariamente contidos, todos os actores, que se metamorfoseiam: David Esteves (Soldado/Cão), Fernando Luís (o General), Gonçalo Romão (Barman/Fugitivo/Louco), Pedro Caeiro (Autor), Raquel Oliveira (Actriz), Sérgio Silva (Ele), Teresa Côrte-Real (Ela), Tobias Monteiro (Caçador).
            Saímos para o relento da noite. O pesadelo, porém, não ficou por dentro daquelas quatro paredes, no som hirto e seco dos disparos. O pesadelo vai connosco, mais conscientes agora – da importância que tem, por exemplo, conversar num jardim com alguém, mesmo desconhecido, que nos queira contar a sua história. E nós vamos gostar de a ouvir!

Publicado em Cyberjornal, edição de 1-04-2014:

 

 

 

sexta-feira, 28 de março de 2014

Em clima presidencial, o cocktail dinatoire anunciou as comemorações

             Um muito bem servido cocktail dinatoire abriu, a partir das 21 horas, no passado dia 21, as comemorações dos 650 anos da elevação de Cascais a vila.
            Claro, apressei-me a ir ao dicionário cibernético e fiquei a saber tudo sobre o anunciado (na hora) cocktail dinatoire: trata-se de um «apéritif au cours duquel sont servis de nombreux amuse-gueules et qui peut donc remplacer un vrai dîner». Perdão, para além da língua inglesa, há poucos idiomas que hoje se conheçam e, então, o francês é aquele que mais anda pelas ruas da amargura. Eu traduzo: «Aperitivo durante o qual se servem numerosos petiscos e que pode, por isso, substituir um jantar no verdadeiro sentido da palavra». Ora toma!
            Inteligentes foram, pois, os serviços de relações públicas da Câmara, porque (surpresa!?) omitiram na informação a referência ao cocktail dinatoire. Fica-nos de emenda: para a outra vez, é tratar de perguntar tudinho com antecedência, para não se ir jantado, às 21 horas, com cafezinho já bebido e tudo, e depois passam os senhores com todos aqueles gulosos acepipes, uma tentação, aqueles brigadeiros de caça, os cubinhos de sushi, ui…
            Começaram, pois, regaladamente as comemorações. E o aviso sério à galera: informar-se bem, previamente, do que vai acontecer!

O acontecimento
            A ideia era que se iria apresentar a Comissão de Honra das Comemorações e ter uma ideia do programa já gizado para o período de Junho de 2014 a Junho de 2015.
            Da Comissão soube-se que era presidida por Francisco Pinto Balsemão, que fez discurso mui oportuno a referir-se à vila como um lugar de convergência, ecuménico no sentido de saber receber e ter recebido as mais variadas gentes ao longo da sua história; e estas comemorações assumem-se, pois, como forma de cimentar a identidade própria que a vila tem, na afabilidade das pessoas e do clima.
            O Presidente da Câmara saudou os convidados e traçou uma panorâmica do que vai pretender fazer-se, para relembrar esse ano em que os cascalenses ousaram quebrar a sua dependência de Sintra, «cuja aldeia eram». Um livrinho distribuído na ocasião complementa o programa referido.
            Não terão explicado muito bem a Nikolay Lalov a circunstância em que lhe solicitaram o concerto que culminou o serão. Disseram-lhe que era um ‘concerto VIP’ e maestro que se preza não está com meias-medidas e quis brindar-nos com a abertura de ‘L’Amore Industrioso’ de João de Sousa Carvalho (1745-1800), um protegido d’el-rei D. José I e professor de música da Corte. Nem toda a gente se apercebeu que a peça tinha três andamentos e, por isso, houve aplausos entre um e outro (o mesmo aconteceria outras vezes…). Veio depois «Exultate Jubilabe», de Mozart, em que exultámos e nos rejubilámos com a linda e potente voz da soprano Sandra Medeiros: brilhou sobejamente! E, após o «intermezzo» do austríaco Franz Shrecker (1878-1934), a Orquestra de Câmara de Cascais Oeiras, atacou a «Suite rústica nº 2» de Fernando Lopes-Graça (era obrigatório, claro!) e terminou com o «Divertimento para cordas» de Sérgio Azevedo, um jovem (nasceu em 1968) que tem escrito peças para a orquestra. E o maestro ainda nos serviu um ‘encore’, o 1º andamento (creio) de uma peça de Joly Braga Santos, que é igualmente um dos mais aplaudidos no reportório da OCCO.
            Foi, de facto, ‘concerto VIP’; mas, se calhar, o que se teria pretendido era mais um ‘aperitivo’ musical, levezinho, a suscitar apetite para as muitas actuações que a OCCO vai ter, sem dúvida, no decurso das comemorações.

Um serão em grande
            Cumpre, por conseguinte, assinalar que foi, na verdade, uma noite «em grande», tão ao gosto do actual executivo camarário. Com imensos fotógrafos e imensas poses, para gáudio das revistas sociais. Ora ponha-se agora aí a jeito – e logo há cinco objectivas a disparar nervosamente!... Não pode perder-se pitada!
            Na página da Câmara – sob o título «Cascais celebra 650 anos de História | Início das Comemorações» – poder-se-á aceder (com um bocadinho de sorte e alguma paciência na busca) ao vídeo (excelente reportagem de Laís Castro, com edição e montagem de Ana Laura) do acontecimento. Lá vem igualmente o rol das 73 personalidades e das 26 colectividades (com mais de 50 anos) que, juntamente com os membros do Executivo e o presidente da Assembleia Municipal, integram a Comissão de Honra. Aí se verá, na prática, o espírito de convergência a que se referiu Pinto Balsemão, dado encontrarmos individualidades dos mais variados quadrantes.
            E o renovado Palácio da Presidência da República, na Cidadela, constituiu, na verdade, local paradigmático e simbólico para esta solene apresentação. Ouviram-se muitos comentários de convidados a manifestar a inesperada admiração pelo sítio, que não conheciam assim restaurado.

As recordações de Pinto Balsemão
            Francisco Pinto Balsemão teve ocasião de viver também numa Cascais bem diferente da de hoje; não será, pois, despropositado transcrever aqui uma passagem – ainda que um tudo-nada longa – do depoimento que deixou na página da Câmara. É que, na verdade, tal como ele, centenas de cascalenses que viveram as comemorações dos 600 anos, em 1964, tiveram aqui as experiências de que Pinto Balsemão ora aproveitou o ensejo para recordar. A Cascais dos anos 50 e 60! Bem haja, Francisco!
            «Foi nas nossas praias e na nossa baía que aprendi a nadar, com o velho professor Teixeira, a remar, a velejar, a pescar lulas, a fazer ski aquático e também a namorar, a “bater” a praia do Tamariz, a piscina do Hotel Atlântico, com eventual subida aos gelados Santini. Foi no Guincho e na piscina da Marinha que ensinei os meus filhos a furar as ondas, a fazer carreirinhas, a mergulhar. Foi no Golf do Estoril que aprendi, com o velho professor Bernardino, a jogar o meu desporto favorito e que entusiasmei a minha mulher a praticá-lo. Foi na antiga patinagem do Dramático, ali ao pé do hipódromo, que aprendi, com o velho Xavier, a jogar hóquei e também dei os meus  passos de dança, nos bailaricos de sábado à noite, que levariam a voos mais altos na Choupana, na Canoa, na Ronda, no eterno Van Gogo.
            Foi na Marginal que pedalei livre (e arriscadamente, já na altura) de bicicleta, infringindo as proibições dos meus pais, e que, mais tarde, numa fantástica Cucciolo, levei a passear algumas meninas mais atrevidas. Foi num arraial da Parada que, pela primeira e única vez, ousei fazer uma pega de caras a um novilho que, na altura, mais me parecia um enorme búfalo. Foi em Cascais que assisti aos melhores festivais de jazz, do esplendor de Villas-Boas à capacidade de continuação de Duarte Mendonça.
            […]
            Sou devedor de Cascais e, definitivamente, não quero a reestruturação da minha dívida…».

quarta-feira, 26 de março de 2014

Foram passear os cães!...

            Na manhã de sábado, 22 de Março, os responsáveis pela Fundação São Francisco de Assis, sita, como se sabe, no Zambujeiro (Cascais), decidiram comemorar a chegada da Primavera, começando com uma plantação de árvores e, sobretudo, organizando o que chamaram de «III Pegada»!
            Pois a pegada foi nada menos do que uma caminhada pelos matos felizmente ainda existentes em redor do Zambujeiro, um nicho ecológico do maior interesse que muito importa preservar.
            Demandaram o Rio Marmeleiro – que assim se chama a Ribeira das Vinhas por aquelas paragens – e, aspirando o ar puro e bem cheiroso dos tojos e de muitas plantas indígenas ora em flor, apreciaram o murmúrio das águas correntes (ali nada poluídas), vieram saudá-los melros e felosas…
            Mas… a caminhada não foi de propósito para os 67 Amigos da Fundação e os 24 Escuteiros e Chefes do Agrupamento de São Pedro e São João do Estoril que os acompanharam! A companhia mais importante foi outra: 19 cães de companhia e 23 cães residentes que estão para adopção na Fundação. Alegria, pois, dos caminhantes e, de modo muito especial, alegria imensa para os cães que passam seus dias no canil à espera que alguém os venha buscar para partilharem vidas e companhias. Nessa manhã, foi saborosa a partilha, ainda que efémera, de poucas horas. Valeu muito, porém.
            A convite do Dr. Nunes de Carvalho, tive ensejo de esperar aos caminhantes no degradado parque urbano das Penhas do Marmeleiro, um grito de alarme contra a falta de cidadania de alguns, que se divertem a incendiar, a partir painéis que ali explicavam a biodiversidade. Pois foi de biodiversidade que, em breve apontamento, falei aos ‘caminheiros’: da importância dos matos para o equilíbrio ecológico e, nesta altura do ano, para a nidificação. Referi a importância da Ribeira das Vinhas; o pisão, que existira mais acima, da Fábrica de Lanifícios; o relevante papel da bateria de Alcabideche, de que resta um canhão junto ao hospital; a villa romana do Alto do Cidreira (em Carrascal de Alvide, que dali se via)... Enfim, procurei fazer, como se diz na página do facebook da Fundação, «o enquadramento histórico das Penhas do Marmeleiro».
             A IV Pegada está prevista para 26 de Abril!

Publicado em Cyberjornal,  edição de 26-03-2014:

sábado, 22 de março de 2014

Os nossos frutos, riqueza esperdiçada…

              Está – segundo me disseram – à espera de remodelação o pólo museológico dos frutos secos, em Loulé. Constituía – e espero que depressa volte a constituir – um hino ao aproveitamento da alfarroba e da amêndoa, riquezas que não podemos esperdiçar.
            Custa-me, na realidade, encarar a desvairada situação actual: dum lado, alfarrobeiras, oliveiras, figueiras e amendoeiras por apanhar, por tratar; do outro, uma juventude (e não só) que não tem emprego e queria ter. Apanhar alfarroba ou amêndoa ou mesmo os figos para depois secarem no almanxar é, porém, tarefa que se não coaduna com os estudos que fizeram e é mal paga, em seu entender. Os produtores, por seu turno, consideram que lhes dá menos prejuízo deixarem tudo assim do que pagarem jornas que significam débitos sem contrapartidas.
            Uma situação que todos bem conhecem; uma situação que requer, porém, mui urgente inversão, que exige uma inteligência que, a nível local (não, não vale a pena esperar pelos governos, porque os seus membros disso nada percebem…), meta mãos à obra, ponha a gente a pensar, realize colóquios e… vamos à acção!
            Assim, como estamos, não dá! Há que mudar mentalidades, há que ponderar: cinco, embora pouco, é melhor que zero!...
                                                           
Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 208, 20-03-2014, p. 21.
 

quarta-feira, 19 de março de 2014

Na prateleira - 19

Dream room!
            Fiquei deveras entusiasmado! No sábado, dia 8 de Março, Dia da Mulher, realizou-se a semifinal para apuramento das canções candidatas a Concurso Eurovisão da Canção deste ano. Dez canções encomendadas a dez compositores de estilos diferentes, aos quais competia também escolher o seu intérprete. Estamos a comemorar o 50º aniversário da participação portuguesa neste certame, que, até há uma década atrás, mais coisa menos coisa, ainda despertava o entusiasmo da população e que, hoje, quer pelo figurino adoptado (o voto pelo telefone) quer porque são tantos os concursos e tantas as chamadas a fazer pelo 760, já não despertam o interesse de outrora.
            Porque fiquei entusiasmado? Com a dream room! A cena passa-se, ia-me esquecendo de dizer, na Rádio e Televisão de Portugal. Escrevi correcto: «de Portugal». Mas a sala para onde se refugiavam os intérpretes à espera do veredicto da votação telefónica (muito devem ganhar as operadoras telefónicas com estas chamadas de valor acrescentado!...), recebeu o pomposo nome de… dream room! Não, não é a Casa dos Sonhos, nem o sítio onde, em 28 de Agosto de 1963, o reverendo Martin Luther King proclamou "I have a dream"! De facto, os concorrentes tiveram um sonho; felizmente, que por ser em Portugal, acabaram por ter de escrever as letras em língua vernácula. O sonho deles, porém, escreveu-se em língua… estranha!
            Mas… não é essa estação televisiva (ora a festejar 57 anos de emissões) que solenemente se proclama de serviço público nacional, nosso, portuguesíssimo de gema?!...

Até 2018!
            O título, a 18-02-2014: «Enzo já assinou até 2018». E a abertura: «A renovação de contrato do médio argentino dos encarnados Enzo Pérez merece hoje o destaque do jornal ‘A Bola’».
            Mais uma vez, achei piada. No mundo do futebol, o provisório é definitivo sempre. Ou seja: tudo é definitivamente provisório. O treinador está hoje ‘de pedra e cal’ e amanhã vê lenços brancos a acenarem-lhe. Enzo… onde estará em… 2015?

Chocolate, chocolate!
            Último fim-de-semana de Fevereiro. O mercado da vila de Cascais abriu as portas a uma feira de chocolate. Pondo de parte o facto de a ideia já vir doutras paragens, o certo é que funciona como exposição itinerante e os feirantes são, decerto, os mesmos, a andar de terra em terra.
            Admira, porém, haver tanta gente a fazer chocolate artesanal, um pouco por todo o País, e aqui se ajuntam, com as suas especificidades.
            Diga-se que se torna mui difícil resistir à tentação, tamanho é o aliciante. Fez-se fila para entrar, no domingo à tarde, apesar de o tempo estar de cara façanhuda. E… quem disse aí que era preciso ter cuidado com a diabetes e o excesso de peso e a gulodice? Tentação é tentação e, enquanto há vida há esperança, trinque-se este naco gostoso, porque a gente não sabe como é que amanhã vai ser!
 
Virei no Estoril-Sol
            – Sabes, estava uma fila enorme, deve ter havido um acidente lá à frente, no Monte Estoril. Acabámos por fazer inversão de marcha no Estoril-Sol!
            – No Estoril-Sol?
            Sim, pois. Tens razão, já não há! Teremos saudades?

Transferências bancárias
            Noticiava o Jornal de Negócios de 27 de Fevereiro que «as transferências bancárias online são cada vez mais a escolha preferencial dos portugueses, pois assim se evita uma deslocação ao banco e os custos são menores». No entanto, acrescentava a notícia que «estes custos têm vindo a aumentar e, das 13 instituições bancárias analisadas, apenas quatro continuam a garantir a gratuitidade deste serviço».
            Eu próprio me disponibilizara a usar o processo, no dia anterior, e, como quem não quer a coisa, cliquei sobre a linha onde dizia algo como «veja quanto lhe vai custar a transacção». Reparei que já não era gratuita e… desisti!
            Pensei para com os meus botões: tenho o meu dinheiro no banco; o banco pode usá-lo dentro de certas regras, é certo, mas serve-se dele para o rendibilizar para si (que não para mim, porque juros de depósito à ordem foi chão que deu uvas há muito!...). A transferência sou eu (mão-de-obra) que a faço; tudo é automático, sem intervenção de ninguém. Por que carga d’água é que tenho de pagar comissão? Capitalismo desenfreado é o que é!

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 37, 19-03-2014, p. 6.