quinta-feira, 15 de maio de 2014

Museum – Comunicar entre museus e sobre museus e património

            Na cerimónia de atribuição dos Prémios APOM 2010, que decorreu no Museu do Oriente a 13 de Dezembro de 2010, a Associação Portuguesa de Museologia (APOM) outorgou à lista museum o Prémio da Melhor Comunicação On-Line, no âmbito da temática da Museologia e do Património Cultural.
Tive ensejo, dias depois, a 18 de Dezembro, de difundir uma mensagem onde afirmava:
«Se, em nome da Administração, me congratulo e agradeço, como não podia deixar de ser, o prémio que a APOM houve por bem conceder a esta lista, não posso deixar de afirmar que ela é o que os seus actuais 814 membros entenderem e ao seu incentivo e colaboração se deve o facto de sermos um meio privilegiado de informação no mundo português da Museologia – porque nos dão esse privilégio.»
E acrescentava:
«Criada faz amanhã, dia 19, quatro anos, na sequência do entusiasmo gerado entre os primeiros estudantes do Mestrado em Museologia e Património Cultural da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a lista está sediada no Centro de Informática desta Universidade e tem, neste momento, no seu arquivo 4821 mensagens – o que dá bem conta da quantidade de informação que tem sido por ela veiculada. Pode mesmo dizer-se que raro será o museu de Portugal que dela não seja membro e que não faça questão em divulgar por este meio as suas iniciativas, na certeza de que, dessa forma, chegarão aos destinatários certos.»
Na verdade, na origem desta criação está o facto de se ter verificado que na lista archport – destinada primordialmente a temas de Arqueologia – frequentemente havia mensagens que mais se prendiam com a Museologia e os museus, assim como com o património cultural no seu conjunto. Esse facto, a par da enorme pujança que os museus portugueses nessa altura já manifestavam, levou-nos a adoptar o esquema que já com a archport estava a dar mui proveitosos resultados, ou seja: os interessados inscreviam-se como membros e passavam a gozar automaticamente da prerrogativa de poderem divulgar através da lista as suas mensagens e de todas receberem, criando-se, desta sorte, cada vez mais ampla comunidade em torno dos mesmos interesses. Distinguia-se, assim, claramente, dos blogues, a que só acede quem quer e quando quer e onde as opiniões pessoais prevalecem, porque disseminadas (sabe-se) num âmbito restrito.
Divulgámos, pois, a 29 de Dezembro, o «Estatuto editorial»:
«1. Museum é uma lista de discussão de conteúdo (in)formativo, preferencialmente vocacionada para as áreas da Museologia e do Património Cultural, aberta a todos quantos a ela queiram aderir.
2. A todos os membros da lista cabe o direito de divulgarem as suas actividades e de fomentarem ou contribuírem para a discussão de temas considerados de interesse comum.
3. Serão, por isso, bem-vindas todas as informações que visem a criação de uma comunidade de interesses em torno da Museologia e da divulgação, defesa e valorização do património cultural.
4. Museum, apesar da sua ‘naturalidade’ portuguesa, não enjeita – antes preconiza! – uma dimensão internacional, no mais amplo clima de globalização em que vivemos. Nesse sentido, acolherá de boa vontade informações veiculadas por listas suas congéneres e verá com agrado as suas informações (devidamente referenciada a origem) divulgadas por outras listas, salvaguardando-se sempre o que a lei estipular em termos de direitos de autor, nos casos aplicáveis.»
No ponto 5 se estabeleciam as regras de actuação:
«As mensagens não poderão exceder 1 MB, salvo em casos verdadeiramente excepcionais, que serão automaticamente submetidos à apreciação dos administradores da lista. Nesse sentido, é sempre recomendável o não-recurso a anexos (nomeadamente para veicular cartazes ou programas), substituindo-os pela indicação do e-mail através do qual poderão ser solicitados ou do site a consultar.
Também não serão aceites automaticamente mensagens com muitos destinatários nem com destinatários ocultos.»
No momento em que redijo esta nota (16.49 h de 8 de Junho de 2011), a lista conta com 842 membros e tem no seu arquivo 5777 mensagens.
Em jeito de balanço, poderia afirmar:
1º ‒ Hoje, a consulta ao arquivo da museum permite tomar o pulso da toda a imensa actividade museológica que se está a desenvolver no País, porquanto a quase totalidade dos museus faz questão de aí a publicitar, o que representa, sem dúvida, enorme fonte de enriquecimento mútuo, porquanto as experiências e as iniciativas de uns são inspiração e incentivo para outros.
2º ‒ Dia Internacional dos Museus, Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, Dia Internacional da Criança, Dia da Árvore e, de um modo geral, todos os dias internacionais e, até, nacionais, que proporcionam iniciativas de âmbito museológico ficam bem registados e divulgados aqui.
3º ‒ Além da informação, museum tem-se feito eco das grandes problemáticas surgidas em torno da política museológica nacional. Recorde-se quanto foi escrito sobre a eventual transferência do Museu Nacional de Arqueologia para o edifício da Cordoaria Nacional; as complexas questões do Museu Nacional dos Coches; a discussão sobre os orçamentos para a Cultura, tendo-se demonstrado, amiúde, quanto os museus contribuem não apenas para a formação de uma identidade (cada vez mais necessária) mas também para o equilíbrio financeiro do orçamento cultural do País.
4º - Outras páginas dedicadas a esta temática surgiram, entretanto, por iniciativa particular ou até institucional. Congratulamo-nos com isso, na medida em que todos estamos empenhados no mesmo intuito de valorizar os museus e o património cultural, a demonstrar a quem nos governa que vale a pena apostar na Cultura, de que os museus são e continuarão a ser (pesem, embora, todas as restrições económicas) alfobre imprescindível. Museum prosseguirá, pois, na senda de veicular o que os seus membros houverem por bem transmitir, na mais sadia e aberta troca de impressões.
            Por consequência, o galardão conferido pela APOM, que agradecemos, constituiu, sobretudo, mais um incentivo para se continuar a fazer mais e melhor, com a colaboração de todos!

Post-scriptum: Participei, a 18.05.2011, no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra, a convite do Director Regional da Cultura do Centro, no Colóquio Museus: um Exemplo, em que apresentei o fórum Museum, pelo facto de ter sido agraciado, em 2010, com o Prémio APOM de ‘Melhor Comunicação on Line’. Foi-me solicitado que passasse a escrito o que então dissera, porque era intenção daquela Direcção Regional publicar as intervenções aí realizadas. Tendo consultado, há dias, a DRCC, foi-me comunicado que, afinal, essa intenção de todo se perdera. É, pois, este o texto que então escrevi.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

O senhor Z

            Poucas são as palavras portuguesas começadas por Z e isso sempre me fez espécie. Uma eu aprendi há muito: zângão! Era estranha, porque parecia ter dois acentos, mas não tem, porque o til não é acento.
            De outra também me lembro: zaragatoa! Quando me doía a garganta e as amígdalas cresciam e nem me deixavam engolir, minha avó enrolava uma compressa (ou algo que lhe fizesse as vezes) na ponta de um pau (seria?), embebia-a não sei em quê, uma mezinha caseira, e lá me esfregava as ditas e eu quase me engasgava com aquilo. Mas curava!
            Tive, porém, outro dia, o privilégio de me fazerem lembrar outra dessas palavras com z: zaranguitana. Ouvia-a, estou certo, em pequeno, e tenho a ideia de que se usava para significar um qualquer mecanismo mal enjorcado. Certo é que tem significado próprio e mostra-se uma no Museu Judaico de Belmonte. A legenda reza assim:
            «Peça de madeira, em forma de grande pião com ponte de ferro e eixo embutido na parte superior onde gira um volante suspenso por fio. Sécs. XIX-XX. 450 x 260 mm.
             Destinado a consertar pratos de cerâmica. Pertenceu a um ambulante conhecido por “Judeu”. Colecção da Família Carqueja Rodrigues».
            Pois era: usavam-na os amoladores que punham gatos na loiça partida!

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 184, Maio de 2014, p. 10.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Viròtacho comemorou 70 anos, na Torre (Cascais)

A apetitosa caldeirada foi no dia 11, o segundo domingo de Maio, agora não já no pinhal junto ao mar mas num barracão ‘de antiguidades’ de um dos membros, no lugar da Torre, obedecendo, assim, a uma tradição que ora cumpre 70 anos.
A comida também já não foi feita com o peixe pescado pela manhã, mas preparada, desta feita, por um restaurante da orla, o Furnas Lagosteiras, gerido por um dos membros do Viròtacho, o José Alexandre Ramos.
O encontro constituiu pretexto para avivar recordações (os carrinhos de rolamentos, as corridas de arcos, o assar das pinhas pelo Outono…), evocar cenas em que intervieram, por exemplo, companheiros que já partiram (do grupo inicial de 20 já só resta um, o Francisco Ramos, de 90 anos), jogar e saborear alguns petiscos…
Está longe esse 2º domingo de Maio de 1944, em que a inusitada fartura de polvos levou a que se cozinhassem logo ali, no pinhal à beira-mar. E o nome surgiu quando um dos tijolos que aguentava o tacho se partiu e quase se ia perdendo tudo. Da letra do hino que criaram – e honra seja feita ao músico Fernando Bernardes, «O Lampião», que com o seu trombone muitas jornadas animou! – consta que o grupo «não vira garrafões, porque é tudo malta fixe, somos todos como irmões!...».
O grupo é formado por 20 membros, homens. Sempre que um parte, há o cuidado de, obtido consenso, propor quem o venha substituir, de preferência natural do lugar e irmanado com os demais por laços de sangue ou de camaradagem.
Registe-se ainda que, para este solene encontro anual de 2014, Maria da Nazaré Roque, de 80 anos, utente do Centro de Dia do Bairro do Rosário, resolveu dedicar-lhes estas quadras:

Vira o Tacho é o nome
Do Grupo de Associados
Também tem como pronome
Amigos!... de anos passados!

Mais um ano de passagem
Que todos nós festejamos.
Quero prestar minha homenagem
Ao Senhor Francisco Ramos

E a todo o Grupo em geral
Que tenho em meu redor
Porque é o último afinal
Deste Grupo o fundador

Quero a todos agradecer
Este momento profano
Que todos vemos poder
Voltarmos todos pró ano!

Publicado no Cyberjornal, edição de 12 de Maio de 2014:

 

Um livro de cabeceira

            Naqueles derradeiros minutos de vigília quotidiana, apetece ainda – para além da breve oração e do proveitoso exame de consciência – passar os olhos, mais uma vez, por aquele livro há muito a ocupar esse lugar privilegiado. Uma companhia, um deleite, um sereno lavar d’alma depois de fadigosa jornada. O livro de cabeceira. Escolhido dentre aqueles com que, um dia, adregámos tropeçar e nos enleou para sempre; ou mesmo feito por nós, qual apreciada e confortante manta de retalhos ou bússola norteadora de pensamento e de acção.
            O livro que Celestino Costa nos apresenta pertence a este último grupo e resulta, é bem de ver, de leituras pensadas, ditames transformados em singelas normas de vida.
            Monótono e compassado era o bater seco da maceta no escopro ou no badame; doutro mundo era o seu, passeando-se por entre mármores e cruzes, rasgando epitáfio agora, arquitectando jazigo depois. Existência de palavras poucas e reflexões sobejas. Impregnada, portanto, de uma filosofa própria, a relativizar o presente e a dar vida – nos versos e no sentir – a um passado sabiamente recuperado em partilha. Para que não se olvide. Para que o Homem seja mais humano: homens, mulheres, cônjuges, sábios, artífices, camponeses… Todos!
            Na placa que para mim esculpiu, Celestino Costa gravou: «Senão vindo de fora e arrombando a porta». Não foi preciso perguntar-lhe porquê. É frase do novelista francês Jean-Baptiste Alphonse Karr (1808-1890) e vem completa nesta recolha: «A reputação de um homem de talento não penetra no seio da sua família se não vindo de fora e arrombando a porta». Tem razão: vamos arrombar a porta!

Prefácio ao livro Dos Outros para Mim, de Celestino Costa, edição de autor e de Apenas Livros (Lisboa), 2014- Apresentado, a 10-05-2014, na sede da Junta de Freguesia de S. Domingos de Rana.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Pelas veredas da História... em Sintra!

            Poderá parecer estranho que um cascalense venha falar de Sintra, que fica do «outro lado da serra». Não o será, porém, se pensarmos que o primeiro ritual do cascalense é abrir a janela, pela manhã, e perguntar à serra o tempo que vai fazer pela jornada. Habituámo-nos, desde pequeninos, a ‘ler os seus sinais’; a saber, por exemplo, que «barrão» é sintoma de vendaval à tardinha.
            Era Cascais dependente de Sintra até ao momento em que el-rei D. Pedro, ouvindo os rogos dos homens-bons da vila, houve por bem ‘libertá-los’ desse jugo, para que tivessem ‘jurisdição por si’. Interessava ao rei essa autonomia, equivalente a mais um arrecadar de impostos; interessava essa liberdade aos cascalenses, mais virados para as fainas marítimas do que às produções agrárias sintrenses. Estava-se em 1364; mas a autonomia só se tornaria efectiva uns anos mais tarde, quando D. Fernando cedeu Cascais a Gomes Lourenço do Avelar, com prerrogativas de governo.
            Quer-me parecer, no entanto, que esse costume de olhar, pela manhã, para o dorso majestoso da serra é capaz de se perder na noite dos tempos. «Monte da Lua» lhe chamariam os antigos; e não é que, entre o espólio da necrópole de Alapraia, datado de há uns 5000 anos atrás, se encontrou lúnula de calcário? Sim, é certo, também a Lua despertou desde sempre a curiosidade e o respeito do Homem, que bem cedo lhe prestou culto. Quiçá não seja, porém, mera coincidência a lúnula e o nome.
            E se as recentes escavações levadas a efeito na serra e a presença de dólmenes aqui e além no território sintrense – entre os quais avulta o chamado «Monge», em pleno cocuruto, entre os Capuchos e a Peninha – nos provam que há muito o Homem demandou estas paragens, é, contudo, do tempo dos Romanos que mais eloquentes são os testemunhos, consubstanciados, de modo especial, nos monumentos epigráficos que o Museu Arqueológico de S-. Miguel de Odrinhas mui ciosamente guarda e valoriza.
            Falam essas «pedras com letras» de três situações bem claras.
            A primeira é que rapidamente os Romanos souberam aproveitar as pedreiras próximas quer para as suas construções quer, de modo especial (e esses são os documentos maiores), para lavrarem as suas epígrafes.
            E nelas ficou gravado o culto generalizado que por estas bandas se prestava ao Sol e à Lua. Pudera! Quem resistiria à envolvente magia de contemplar o astro-rei a mergulhar no pélago imenso, que infinito para além se imaginava!... E as cores quentes desse pôr-do-sol, a cederem com dificuldade perante o luar que do outro lado despontava!... Não foram, todavia, fiéis anónimos, do povo, os que quiseram deixar imorredoiramente gravado na pedra o seu louvor! Foram os legados imperiais, dotados do mais amplo poder político. Foram os cavaleiros, no exercício das suas rendosas prefeituras administrativas! Seduz-nos a ideia de que – quais peregrinos – tão insignes dignitários marcassem entre os seus propósitos uma ida, pelo menos, a esta misteriosa plaga, onde, sem o deixarem escrito, como o deixaria muito mais tarde o Poeta, sentiam que «a terra se acaba e o mar começa»… Cardim Ribeiro não descansou enquanto não descobriu o sítio de que já Francisco da Holanda, em pleno século XVI, deixara esboço a mostrar altares em círculo num planalto sobre o mar. E lá estão os vestígios na foz do Rio de Colares e, ao que consta, também um texto em grego, a mostrar o precoce cosmopolitismo do sítio. Ontem, como hoje, a Sintra se acorre, para a gente se inebriar de Beleza!
            Exploração de pedreiras, dedicatórias a divindades e… epitáfios romanos, a dar conta de quem foram, afinal, os que por ali estanciaram, há mais de 2000 anos atrás. Um perfeito domínio do Latim; a adopção em pleno da tipologia dos monumentos funerários da Península Itálica; a interpenetração da onomástica pré-romana com os nomes latinos trazidos pelos colonos. Cidadãos romanos inscritos na tribo Galéria, a de Olisipo (a Lisboa romana), escravos, libertos, homens, mulheres…
            Odrinhas continuou florescente Idade Média afora e na villa romana se instalaram os primeiros povos pós-romanos, aí cavando sepulturas.
            Da presença árabe fala o eloquente castelo e os abundantes topónimos, alguns deles únicos na toponímia de Portugal.
            As veredas da Idade Média já portuguesa antevimos, quando se fez referência a Cascais. O Convento da Penha Longa; o conventinho que esteve na origem do enigmático, cenográfico e quase fantasmagórico Palácio da Pena; a aconchegada serenidade do convento dos Capuchos, num incessante convite à oração e à comunhão com o Além; o Paço da Vila e seus veraneantes segredos cortesãos – constituem marcos de uma palpitante história sempre vívida, séculos além… 
            Romântico era o sítio; românticos perdidamente por ela se haveriam de apaixonar: Lord Byron; Camilo e Eça, que não resistiram ao Mistério da Estrada de Sintra; aristocratas muitos que por ali ergueram mansões…
            De mistério se falou; de segredos bem guardados também. E aí está a Quinta da Regaleira, livro de pedra e de arte, a contar doutras histórias, doutras veredas, de um poço iniciático que leva a subterrâneos labirintos e donde, pé ante pé, se deve sair, atravessando o lago, pois tudo tem de se deixar para trás, purificado no ventre da terra-mãe!
            Sintra, terra-mãe – bonito ‘anagrama’ para uma fecunda história multissecular!

                NOTA: Síntese da comunicação apresentada, a 21-06-2013, no Palácio Valenças, em Sintra, a convite da entidade organizadora, a Associação de Defesa do Património de Sintra, no seminário Sintra Paisagem Cultural da Humanidade – Acessibilidades e Estacionamento. Foi inserida no dossiê subordinado a esse título, preparado por aquela Associação em Setembro de 2013, sem paginação.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Olhar nos olhos

             Tu já reparaste? Ele, quando fala contigo, alguma vez te olha de frente? Parece que está sempre com medo que lhe descubras alguma coisa que te quer esconder! Creio que te não vê como pessoa igual a ele e, se calhar, também ele se não sente tratado como tal. E olha para aquele senhor que está ali na caixa do supermercado: parece um autómato, nem se apercebe de como é o cliente, nem sequer lhe disse “boa tarde!”… Está de mal com ele e com o mundo!... Tudo isso, amigo Leonel, pode ter começado na escola. Eu tive a sorte de me calhar uma professora que, apesar das palmatoadas que me deu quando eu não fui boa rês, me tratou sempre como um indivíduo, me observou atentamente e, quando eu acabei a quarta classe, apesar de meus pais serem pobres, insistiu com eles para que eu continuasse a estudar e diligenciou, inclusive, no sentido de eu ter quem me pagasse os estudos. Devo-lhe o que sou!... Precisamos de reencontrar esses gestos, esses olhares, essa atenção! E lê a mensagem que o meu colega António, docente universitário, há dias recebeu:
            «Venho por este meio responder que foi um prazer ter esta disciplina com o professor, gostei muito dos seus métodos de ensino e queria realçar que foi muito importante para mim o professor ter lido a minha resposta do último teste em voz alta para a turma. Deu-me motivação para estudar mais e ver que tenho capacidades para mais. É bom ver que ainda há professores que se preocupam com os alunos e a sua aprendizagem. Obrigado por este semestre, foi um prazer!».
            Mensagens destas consolam, amigo! E dão ânimo para se continuar nessa senda. Afinal, um gesto bem simples: perguntar quem tivera boa pontuação naquela resposta e optar por ler, comentar e louvar a de um dos estudantes (por vezes, irrequieto e desatento). Chama-se a isso… «motivação»!
            Aquele empregado do supermercado, autómato, não está motivado e chega ao fim do dia morto de cansaço; aquele teu amigo que nunca te olha de frente carrega sobre os ombros um suplício como o de Sísifo: empurra a pedra até ao cimo do monte e, quando está quase a chegar, a pedra resvala e rebola de novo encosta abaixo. E ele desce, cansado; e, trôpego, volta a empurrá-la para cima…
         
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 638, 01-05-2014, p. 12.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O bailado “O Lago dos Cisnes”, numa intrigante versão

             No âmbito dos espectáculos integrados nas comemorações dos 650 anos da elevação de Cascais a vi, acolheu o Salão Preto e Prata do Casino Estoril, na tarde de domingo, 27 de Abril, o bailado “O Lago dos Cisnes”, de Tchaikovsky, interpretado pela companhia Quorum Ballet, com coreografia de Daniel Cardoso.
            Uma versão contemporânea, deveras arrojada na sua concepção e em que, como se lia numa das notas de apresentação, «os personagens da história original tornam-se intervenientes numa fábula humana contada na linguagem do tempo presente que acontece num asilo abandonado, lugar fértil em figuras bizarras e seres extremos. Entre a ficção e a realidade, exploram-se os defeitos, virtudes e impulsos mais humanos, transversais a todos os tempos. Entre o dia e a noite, a música vai trazer o engano, e o fascínio, a sedução e a loucura.»
            Também a «sinopse» que nos é proposta no programa constitui um texto denso, que explica, de facto, mas nos obrigaria a uma reflexão cuidada, impossível de fazer perante a outra densidade, a do espectáculo em si, pleno de pormenores deveras significativos. Ora leia-se o começo:
            «O dia nasce do lado de lá do muro do Asilo. Lá dentro a loucura tomou o lugar do quotidiano e os que ali habitam esquecem-se de quem foram. As vozes e os desejos são abafados pelas paredes gigantes deste exílio silencioso. No Asilo, as enfermeiras são as Rainhas mestras que comandam os movimentos dos pacientes; uma mulher limpa os desejos negros dos outros na sombra; um homem prisioneiro de um corpo enfermo, na sua loucura, transforma os seus desejos de Pássaro nos corpos dos pacientes. Como uma gaiola em que a ave não ousa bater as asas, o Asilo é uma jaula de gente.»
            E se a primeira e última imagem é a de um homem em cadeira de rodas e, confinados pelo «muro» – deitados sobre ele, batendo nele, aninhando-se nele, forçando-o a mudar de sítio –, os personagens retratam loucuras, extravagâncias e medos, os espectadores, nós, sentimo-nos na sua pele, às vezes; outras, porém, dar-nos-á, porventura, vontade de os repudiar.
            Estamos longe, pois, da história dos malvados feitiços que impedem o casamento da princesa encantada com o príncipe dos seus sonhos. E os cisnes não são níveas e mui elegantes bailarinas, mas o «rosto» do que de menos agradável se vê na paisagem humana e desumanizada deste bem devastador início do século XXI.
            Sem dúvida, um golpe de génio do galardoado director artístico e coreógrafo daniel Cardoso; sem dúvida, uma soberba interpretação de todos os componentes do – também galardoado – Quorum Ballet, fundado em 2005 e já com notável currículo nacional e internacional. Um espectáculo, porém, difícil de acompanhar numa primeira abordagem, tão prenhe, como está (em meu entender), do mais profundo anátema contra a avassaladora realidade em que, tal como nesse asilo de muro imponente, somos forçados a sobreviver. «Uma jaula de gente» – e é verdade!