quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Ó avô, para que é a polícia?…

            Terça-feira, 26 de Agosto do ano da graça de 2014. Pouco depois do meio-dia, à saída do Parque Marechal Carmona, em Cascais. A pergunta saiu inesperada do meu neto de cinco anos:
            ‒ … Não é para ajudar as pessoas?
            ‒ É, sim, Rogério. Às vezes, têm dificuldade em acertar na ajuda, mas a ideia é essa!
            Claro que eu não podia explicar-lhe que, no caso vertente, o objectivo da ‘caça à multa’, certamente em obediência a ordens superiores, ‘falara’ mais alto do que um aviso ou o simples papel de multa pespegado no pára-brisas – pois continuo a acreditar que o agente policial também é uma pessoa, tem família, tem contas para pagar e também ele se queixa do escasso vencimento que recebe…
            Ora, obedecendo a ordens ou por sua iniciativa, o agente, aí uma hora e meia antes, bloqueara duas viaturas e eu vi-o a esperar que chegasse o reboque para levar o outro carro parado ‘fora dos trilhos’. Se calhar, já pusera nesse dia em acção todos os bloqueadores disponíveis. Boa safra!... Por sinal, olhando bem, o carrito até nem incomodava ninguém; mas… estava ‘fora dos trilhos’! Em transgressão! E foi mesmo esse carrinho que, de mãos na cabeça, com o ar mais espantado do mundo, a proprietária se apercebeu que… desaparecera!
            Saía do parque, com uma filhota duns quatro aninhos, ao mesmo tempo que eu; era estrangeira residente em Cascais, pelo que percebi. Entrou em pânico, não tinha a menor ideia do que lhe poderia ter acontecido. Nada havia ali que lhe dissesse como é que o carro sumira!... Expliquei-lhe:
            ‒ Seu carro, minha senhora, não foi roubado, não, esteja descansada: foi levado pela Polícia Municipal.
            ‒ Mas como? Não impedia nada! Há quatro anos que venho aqui e nunca tal me aconteceu!... E como faço agora?... Estão no carro todos os documentos, o telemóvel… Não tenho como contactar ninguém!...
            Foi essa aflição e choro que assustaram o meu neto e o levaram a fazer-me a pergunta acerca da verdadeira missão da polícia.
            Ia disponibilizar-lhe o meu telemóvel, quando nos apercebemos de dois jovens voluntários ao serviço da autarquia. A senhora francesa explicou-lhes a situação. Eles pegaram no telemóvel (creio que de serviço) e terão ajudado a resolver a questão. Vou supor que sim, que resolveram, pois me apressei a retirar-me, a fim de poupar meus netos a mais cenas que pudessem contribuir para dar da polícia uma ideia ainda menos… aliciante. Tal não impediu, porém, o suspiro do Rogério, quando chegámos junto do nosso carro:
            ‒ Que bom, avô! O nosso eles não bloquearam!
            É que o reboque, nessa manhã, circulava lentamente em torno da Parada, qual ave de rapina a pairar nos céus à espera de incauta presa. O dia estava nublado, o Parque Marechal Carmona apresentava-se como excelente alternativa para uma horinha de lazer com as crianças e – a vida vai difícil para todos, inclusive para os polícias (dizem!)… – bom seria se se pudessem poupar uns cêntimos e não os gastar no parque explorado pela Cascais Próxima (sim, bem próxima anda ela, é preciso cuidado!). Claro, neste episódio e noutros, os parcos euros do parque acabaram por ser bué multiplicados pela pesada multa aplicada e, sobretudo, pelo enorme transtorno causado. Terá sido preciso, por exemplo, chamar alguém ou ir a pé até ao parque do Bairro do Rosário, para onde o carro fora rebocado.
            Confesso que tive muita pena da senhora, para mais acompanhada, como estava, de uma criancinha, que não compreendeu porque é que o carro onde tinha deixado a boneca levara descaminho num ápice. Felizmente que eu estava ali naquele momento para lhe dizer que não fora roubo, não, senhora, fora reboque, que é uma outra espécie.
            Assim como tive pena dos donos dos carros de matrícula estrangeira. Não apenas destes mas também dos donos dos que puseram os veículos no sítio certo e que, se o bloqueio se mantivesse muito tempo, eles próprios seriam injustamente prejudicados.
            Em casa, expliquei ao Rogério que havia um parque de estacionamento explorado pelo patrão daqueles senhores, que precisava de dinheiro para pagar ordenados e que tinha o parque precisamente para ganhar esse dinheiro. Lembras-te? Quando eras mais pequeno, eu punha sempre o carro lá!...
            Nós, como cidadãos, continuei, poderemos sempre reclamar por o preço ser muito alto, embora nada adiante. O avô, por exemplo, falou no assunto logo no início, propondo a primeira hora gratuita. Ninguém lhe deu ouvidos. Eles é que mandam, Rogério! Eles é que fazem as contas ‒ como nós fazemos as nossas e, por isso, agora que se contam os cêntimos, só se não houver alternativa, é que pomos lá o carro!

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 59, 03-09-2014, p. 6.

Esse vereador não existe!

             É bem conhecida aquela história segundo a qual um senhor se candidatou a jardineiro da Microsoft e não foi admitido por não ter endereço electrónico.
            ‒ Se não tem endereço electrónico, o senhor não existe, como é que eu lhe posso enviar o contrato para assinar?!...
            O homenzinho meteu a viola no saco, contou os cêntimos e, dia após dia, foi-os investindo na compra de fruta até que, anos passados, se tornou num potentado na distribuição da fruta naquele Estado. Lembrou-se, então, de que seria bom fazer seguro, não fosse o Diabo tecê-las! E a cena foi a mesma:
            ‒ Não tem endereço electrónico e é o proprietário de uma frota destas? Já pensou o que seria se tivesse endereço electrónico?!...
            ‒ Sim, já pensei: era jardineiro da Microsoft!...
            Lembrei-me da história quando, outro dia, ao pretender enviar uma mensagem a todo o Executivo de uma Câmara Municipal portuguesa, me apercebi – consultando a página – que, dos seus cinco membros, não constava de dois, aqueles a que não tinham sido atribuídos pelouros (certamente por serem da oposição), o respectivo endereço electrónico. Nem telefone de contacto. Achei deveras… curioso!
            Claro: ‘curioso’ é eufemismo meu!
            E das duas uma:
            ‒ ou não tem direito a endereço electrónico porque não querem e, aí, fez bem o Povo em não lhes dar grande confiança, porque, assim, nem sequer lhes podem fazer chegar reclamações, pois oposição que se preza deve ter opinião e fazer oposição;
            ‒ ou não têm direito porque o partido eleito lhes negou tal possibilidade e, aí, não percebo como é que o(s) partido(s) da oposição se não rebelaram, não vieram já para a praça pública, a verberar um despotismo que, em pleno século XXI, se cria erradicado do País. Aliás, tanto o partido ganhador como o(s) perdedor(es) não merecem, a meu ver, a mínima confiança, ao pactuarem com a situação!
            Na página de uma outra Câmara Municipal, a situação é idêntica, mas num outro sentido: só os cinco membros do Executivo do partido ganhador têm direito a fotografia; os outros dois… não!... Ora toma!

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 645, 01-09-2014, p. 11.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

De braços abertos!

            Alportel teve nome por ser local de passagem: da serra para o lado do mar, da planície costeira paras os mistérios serranos. Contudo, S. Brás aqui, S. Romão mais além constituíram, desde cedo, convite a reconfortante e salutar pausa na caminhada.
            Tradição a revitalizar? Não tenho dúvidas! E com carácter de urgência!
            Voltaram os tempos de sedutora emigração, demónio que se julgara exorcizado para sempre, com a agravante agora de estarem a ser cativadas, por imperiosa necessidade, as camadas mais jovens, aquelas para quem, afinal, a Universidade do Algarve fora criada, assim como tantas outras estruturas destinadas a favorecer a fixação que se impunha. Com a agravante de a miopia dos governos de Lisboa, na ilusória miragem duma poupança impossível, parecer apostada a fechar repartições, tribunais, centros de saúde…
            Acolher é, pois, tarefa prioritária – para que a nossa identidade se não esboroe e se mantenha bem alto o grito de autonomia lançado há cem anos atrás!
            Concelho instalado – mas não entalado – bem no coração do Algarve, S. Brás de Alportel detém três valores a potenciar: a sua paisagem, as suas gentes, as tradições.
            No que à paisagem diz respeito, sabemos como é preocupação maior da autarquia salvaguardar este ambiente único, de mui variegada vegetação a meigamente envolver o salpicado casario, reabilitando-se, inclusive, caminhos e fontes antigas, a cimentar comunidade….
            Quanto às gentes, regressam cada vez em maior número os que, há 40/50 anos, partiram e sentem saudades do rincão natal, das casas, que pouco a pouco e com adequado apoio autárquico, é tempo de recuperar. E procuram-nos os estrangeiros, na busca de apetecida serenidade, mormente após azáfamas de vidas agitadas – um abraço enorme se sente no ar!
            E as tradições? O Museu do Trajo e as múltiplas associações locais prosseguem, de mãos dadas com a autarquia, essa imprescindível tarefa de reabilitar o que nos distingue, o que nos fez crescer como concelho, o que gera riqueza. Pensa-se nas tochas floridas, nas exposições retrospectivas, nas artes e ofícios ressuscitados… Mas também na necessária ressurreição das nossas terras, em renovada fecundidade da agricultura, mãe de um progresso regenerador!
            Venham os braços – nós cá estamos para os acolher!

Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 213, 20-08-2014, p. 21.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Os velhos mal enterrados

Um artigo muito… estranho!
            O art.º 78º do Estatuto da Aposentação (Decreto-Lei nº 498/72, de 9 de Dezembro) foi alterado pela lei 11/2014. A alteração foi aprovada pela Assembleia da República a 24 de Janeiro; promulgada pelo Sr. Presidente da República, a 21 de Fevereiro; referendada, com assinatura do Sr. Primeiro-ministro, a 25 de Fevereiro; e publicada no Diário da República de 6 de Março.
            Ou seja, a alteração passou por todos os trâmites habituais – Assembleia da República, Presidência da República e Conselho de Ministros. Foi, por conseguinte, analisada com o rigor que caracteriza esses órgãos do poder. E, assim, temos de pensar que, ao ser proposto que se proíba aos aposentados do Estado o exercício de funções públicas, deixando ‘cair’ o que estava determinado no art.º 78º – a incompatibilidade do exercício de funções públicas remuneradas – houve, por parte do proponente (uma pessoa ou um grupo de pessoas), a consciência clara do que estava a fazer: impedir aos aposentados o exercício de funções públicas, independentemente de serem remuneradas ou não, ao serviço do Estado e demais entidades públicas, salvo autorização superior, dada caso a caso!...
            Bagão Félix, no seu comentário televisivo de 16 de Julho, teceu duras considerações a esta alteração: é o “cúmulo de estupidez legislativa”, disse, uma «eutanásia»! O Prof. Jorge Miranda, por seu turno, em artigo publicado a 31 de Julho no jornal Público, afirmava ser esta lei uma «afronta», a revelar clara «inépcia legislativa». E a sua argumentação, lógica e cerrada, vai mesmo no sentido de explicar que a determinação – além de contrária ao senso comum – carece de legitimidade constitucional.

Importa saber quem foi
            Depois de tão ilustres comentadores, nada deveria eu acrescentar, porque… está tudo dito! Permita-se-me, porém, que volte um tudo-nada atrás, para perguntar: quem é que foi a mente iluminada que riscou do decreto-lei a palavra ‘remuneradas’? E que razões aduziu para isso? E não houve, no seio da nossa mui digna Assembleia da República, um deputado coca-bichinhos, nem à direita nem à esquerda, que tivesse esmiuçado essa lei 11/2014, que até nem é tão grande assim (apenas 4 páginas, com espaços!)?
            Se todos leram em diagonal, aqui fica o alerta à navegação: qualquer dia, há um menino rabino que altera a vírgula, ninguém repara e… pode ser o cabo dos trabalhos! Se não leram em diagonal – e vamos pensar que sim, que temos grupos parlamentares conscienciosos e que sabem bem o que estão a fazer –, a intenção é mesmo a de mandar às urtigas aqueles aposentados da função pública que ainda se consideravam em condições de transmitirem aos demais algo da experiência adquirida. E mandar às urtigas em nome de quê? Do lugar que esses velhos ocupam, ainda que nada custe ao erário, e que, retirando-se eles, pode vir a ser ocupado por outrem – e assim se cria mais emprego?

O conluio contra a velhada
            Não acredito que os senhores deputados e o senhor presidente e o senhor primeiro-ministro desconheçam o papel fundamental que os velhos continuam a ter nas famílias e na sociedade. Acredito que sabem muito bem que vivem dos aposentados as universidades seniores e as instituições de solidariedade, por exemplo.
            Acredito igualmente que alguém da sua caterva de assessores lhes haja, algum dia, feito chegar às mãos os comentários que enxameiam os jornais a invectivar o modo como, fiéis a um paradigma suicida, os ‘governos’ europeus maltratam os velhos.
            1 «Com a reforma (…) cessa a vida profissional, mas não acaba uma competência desenvolvida ao longo da vida. [O reformado] deverá ter oportunidade de servir a comunidade, de fazer voluntariado, onde puder e quiser.» (Público, 4-11-2012: «Idosos, ética e reforma», de Frei Bento Domingues, da Ordem dos Pregadores parece-me, todavia, que está a pregar num deserto!…).
            2 – «Portugal não é país para velhos. Os políticos devem pensar que os nossos velhos já estão mortos e que, no fim de contas, estamos todos mal enterrados...» (Joaquim Letria, 12.11.2012).
            3 «Velhos são velhos. Desossem-se. Já estão descarnados. Em 2014, de corte em corte […] [o governo] organizará e subsidiará, com o Orçamento do Estado, o seu funeral colectivo». (Alberto Pinto Nogueira, «A broa dos velhos», Público, 4-9-2013).
            4 «Na verdade, quando se assiste a este ataque à condição de se ser mais velho […], será que não seria possível ir um pouco mais longe e “ajustá-los”, ou seja, exterminá-los?» (José Pacheco Pereira, 21-3-2014).
            Pronto, já meti de novo a viola no saco – que esta letra e esta música, afinal, são conhecidas de mais!...
 
Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 57, 13-08-2014, p. 6.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Evocação de António Feio

             A fase terminal da vida de António Feio constituiu, a todos os títulos, uma lição; e a Família Feio, designadamente seu irmão mais velho, o Carlos, tem-se desdobrado em iniciativas que visam manter bem alta essa memória e esse exemplo.
            Aproveitem a Vida (1ª edição, Agosto de 2010) é livro de leitura obrigatória. Uma biografia, uma autobiografia sentida e partilhada, um depoimento vivo sobre o que é esta nossa passagem pelo mundo:
            «Ganhei a noção de que se perde muito tempo a não fazer nada. […] Acabamos por viver a vida de um modo muito pequenino, nos nossos cantinhos, cada um dentro do seu, acabando por perder contactos, experiências, convívio, especialmente por, às vezes, não estarmos mais abertos aos outros» (p. 47).
            «Têm de acreditar nos seus sonhos e têm de se mexer. Não podem ficar à espera que as coisas aconteçam» (p. 67).
            O António teve a convicção, a partir de determinado momento, de que a sua «atitude positiva» acabara «por funcionar de um modo inspirador»; como que herdara «uma espécie de responsabilidade social» de «embaixador contra o cancro» (p. 77).
            E essa mensagem a realçou muito bem o Dr. Nuno Gil, no posfácio que também se inseriu no livro (p. 189-195). Eu achei comovente e pleno de sentido este posfácio, de um médico que passa a vida a cuidar de cancerosos: «Há muito mais vida para além de um tumor, muito mais, e é isso que procuro ensinar-lhes», escreveu (p. 193), depois de haver recordado a frase do António “Aproveitem o dia-a-dia, tenham consciência do presente e agradeçam” e sublinhado: «Ninguém agradece hoje. E ele disse isso» (p. 190).
            Há, pois, que agradecer a Carlos Feio por nos ajudar a manter viva uma chama, a nunca desistirmos do sonho acalentado.
            Por isso, na próxima sexta-feira, 8, no Bistrô 19, que fica em pleno centro histórico da vila de Cascais, mesmo por detrás dos Paços do Concelho, haverá mais um sarau evocativo: poesia, música, imagem, a celebrar a vida de António Feio, a ouvir a poesia do Carlos. Estarão presentes José Proença de Carvalho, Jorge Castro e Hugo Sampaio – nas palavras e na música. A partir das 21.30 horas.
            Todos serão bem-vindos!

Publicado em Cyberjornal, edição de 04-08-2014:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&view=article&id=734:evocacao-de-antonio-feio&catid=37:varios-cultura&Itemid=30

Está manhoso

            ‒ Hum! O tempo, hoje, está manhoso, a ameaçar chuva da grossa. Se calhar, ele não vem!
            ‒ Nam acredito! Disse que vinha de tèmêdia e vem, que o miúdo é uma cegueira pelo avô e não descansa.
            ‒ Mas já viste? Numa jingajoga daquelas, caminhos maus, é capaz de desistir!
            Gostei de as ouvir.
            Primeiro, porque ‘manhoso’ é mesmo a palavra certa para dizer que ‘tem manha’, não se pode confiar nele! Aliás, em tempo de crise, é, se calhar, palavra bem ajustada, porque tudo agora está manhoso, não se pode confiar, que não há brio profissional como dantes! Nem no tempo!...
            Depois, aquele «tèmêdia» encheu-me as medidas. Forma sincopada de dizer «até ao meio-dia», expressão longa de mais para uma conversa rápida.
            Finalmente, jingajoga, que nem sei se a hei-de escrever como já vi por aí, jigajoga, com esse significado de engenhoca; se com g, a aparentá-la com o verbo gingar, porque, aplicada a um carro, uma pessoa pensa logo que aquilo baloiça tudo, tem-te não caias.
            Ah! E a cegueira pelo avô? Como quem está cego para tudo o mais!...
            Não sei como acabou a história. Se o filhote, que prometera trazer o garoto, sempre veio de tèmêdia; se a jingajoga (que comprara praí em 4ª mão!...) sempre aguentou o caminho; se o tempo desanuviou e o vento levou as nuvens cinzentas para o lado do mar. Tudo deve ter acabado em bem, acredito!

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 187-188, Agosto/Setembro de 2014, p. 10.

 

domingo, 3 de agosto de 2014

Ao rubro, a polémica sobre a avaliação da actividade científica

A situação
            A investigação científica, nomeadamente a ligada às universidades, faz-se em centros financeiramente dependentes da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
            São esses centros avaliados por comissões de peritos – nacionais e estrangeiros – e é essa avaliação que determina o montante do financiamento a atribuir.
            Na avaliação entram em linha de conta os projectos em curso e os propostos, ajuizando-se do seu interesse para o progresso da Ciência. A craveira dos investigadores é avaliada, de modo especial, pela repercussão que os seus escritos detêm a nível nacional e internacional. Para isso, criaram-se modelos importados do estrangeiro, que, por exemplo, só determinam validade aos escritos em língua inglesa e em publicações que tenham avaliadores a quem são previamente submetidos os trabalhos candidatos à publicação.

A minha opinião
            Adianto a minha opinião, antes de me fazer eco da polémica em curso.
            1º) Existe a língua portuguesa há 800 anos e é – dizem – uma das cinco mais faladas no mundo. Para a FCT isso não interessa nada e, em vez de privilegiar a nossa língua (que, diga-se, no menu do computador, só tem duas variantes, enquanto o Inglês tem… 18!...), dá-se absoluta prioridade ao inglês! Não se me afigura politica correcta. Estou contra.
            2º) Apressaram-se as revistas a criar um corpo credenciado de avaliadores, porque é essa uma condição sine qua non para serem tidas em consideração. Acho bem. Contudo, direi que até nem me estou a sentir mal como responsável de uma revista da minha especialidade, na área das Ciências Humanas, onde publico os textos que previamente analiso (e, se tenho dúvidas, consulto os meus colegas) e que se me afiguram de interesse, ainda que não esgotem o assunto, mas lançam pistas para serem discutidas – porque, reitero amiúde, o mais importante não é resolver os problemas, mas saber colocá-los. Só depois de um longo processo de creditação, uma revista consegue entrar no rol das revistas dignas de universal aceitação. A ‘minha’, digo-o desde já, foi considerada lixo, ainda que os artigos nela publicados sejam citados centenas de vezes, em Portugal e no estrangeiro! No quadro de avaliação da FCT… não existe!

A polémica
            Conhecidos os resultados da avaliação dos centros, rebentou a polémica um pouco por toda a parte, atendendo ao descontentamento generalizado, a que a direcção da FCT reagiu.
            Escreveu o Sindicato Nacional do Ensino Superior, em comunicado do passado dia 29:
            «Tal como anunciámos, foi hoje entregue no MEC o pedido de suspensão do processo de avaliação das Unidades de I&D, de forma a que possa ser desenvolvida uma reavaliação das Unidades. Este pedido foi entregue por uma delegação composta por diretores de unidades de investigação, docentes e investigadores.
            O pedido de suspensão foi também solicitado e entregue pelo SNESup, SPGL-FENPROF, SPN-FENPROF, SPRA-FENPROF, ABIC e Plataforma pela Ciência.
            A forma como todo este processo foi desenvolvido obriga a uma tomada de posição em defesa da ciência. […]
            A indignação da comunidade académica e científica, bem como da sociedade em geral, demonstra que este é um processo extremamente grave. É necessário que seja completamente reapreciado, de forma a garantir o cumprimento dos princípios elementares, sob pena de denegrir o próprio conceito de avaliação.»
            Respondeu a direcção da FCT, refutando as acusações feitas, nomeadamente as que se prendiam com a inexistência de avaliadores directamente ligados às áreas de investigação dos centros; e com a suspeita de que a baixa avaliação constituía forma de eveotar financiamentos. Recorto alguns desses pontos do «Esclarecimento da direção da fct sobre o exercício de avaliação das unidades de investigação» enviado, por correio electrónico, a 30 de Julho, a todos os investigadores inscritos.
            Depois de sublinhar que «os resultados de qualquer avaliação científica produzem desapontamento junto daqueles cuja classificação ficou aquém das suas expectativas», afirma a direcção:
            «Não podemos aceitar que subsistam dúvidas ou equívocos relativamente à robustez, rigor e isenção do processo de avaliação, que foi cuidadosamente desenhado e implementado, de forma profissional e no cumprimento das melhores práticas internacionais.» [o itálico é original].
            E mais adiante:
            «Não é verdade que as unidades não tenham sido avaliadas por especialistas na sua área científica. Cada unidade foi avaliada inicialmente por três avaliadores independentes, dos quais no mínimo dois são especialistas na área de investigação da unidade. Numa fase seguinte, e depois de ouvidas as unidades, cada candidatura foi avaliada por um painel coletivo no domínio científico da unidade composto por cientistas com experiência de gestão e de avaliação de Unidades. O resultado final da avaliação corresponde a uma decisão colegial e tomada por consenso.» [o realce a negro é do original]
            Logo no dia seguinte, no seu boletim informativo, o SNESup prometia responder ao comunicado da FCT, ironizando, desde logo, pelo facto de «um ministério da educação e ciência liderado por um matemático (eleito com um discurso sobre o rigor)» escrever que «66% corresponde a 7 em cada dez investigadores»: «Obviamente que os 4 investigadores em cada 100 que saem deste arredondamento (70-66) importam, até porque na realidade ela não se situa na ordem das centenas, mas sim na dos milhares».
            A polémica está, pois, para durar.

Voltando à ‘vaca fria’
            Um dos centros passou de ‘excelente’ para ‘suficiente’. E quando se viu em que documentos a comissão de avaliadores se baseara, verificou-se, por exemplo, que um dos catedráticos com maior renome na sua área em Portugal, altamente considerado no estrangeiro entre os seus pares, que publicara – em português! – uma série de livros e de artigos nos últimos anos, constava na lista com apenas uma publicação! E até publicara em revistas com os chamados avaliadores (referees, para se usar o estrangeirismo corrente!). Assim, pudera! Tinha que ir para ‘suficiente’ a sua unidade de investigação. Ora, entre os membros da comissão de avaliação estavam pessoas que conheciam muito bem o trabalho desse e doutros investigadores; mas certamente nada puderam fazer porque… regras são regras e esses livros e esses artigos só poderiam ser considerados se devidamente inscritos numa qualquer plataforma científica recentemente inventada por um grupo de luminares. Tens o teu trabalho lá inscrito? Serve! Não tens? – Azar o teu!
            Sucede, porém, que esse investigador, tal como eu, é da área das Ciências Humanas, também já está jubilado, mas ainda se sente com vontade de dar a conhecer o que investigou ao longo de décadas e nada se preocupa com currículo, porque já dele não carece (continuarão a cortar-lhe na mesma a pensão!...). E escreve em português!
            Não entro num outro campo deveras resvaladiço que é o dos avaliadores. Há-os deveras conscientes, mas – ainda que mal pergunte!... – não se está a correr o risco de criar conluios? É que já tenho exemplos de investigadores que não conseguem publicar em determinadas revistas, por terem opiniões não inteiramente coincidentes com as das respectivas direcções e, também, porque (sabes…) não interessa que fulano publique, porque, no concurso X, ele pode vir a fazer-me sombra!...
            Protestar? Para quê? Quando há antolhos que determinam que só numa direcção se enxergue, não há protesto que valha!
            O importante é que se lhes tirem os antolhos!

                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 03-08-2014: