terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Desenterrou-se o lagar e a memória floriu!

            Não foi sem um estremecimento de curiosidade que Pedro Mota Soares descerrou, no passado dia 1 de Dezembro, inesperada placa evocativa. Dizia, estranhamente, CASA DOS LAGARES e proclamava, em baixo, ser «um espaço de memória onde queremos que viva o futuro».
            Preparada no mais completo segredo, a casa ora recuperada no Centro de Apoio Social do Pisão (antiga «Mitra»), sita na freguesia de Alcabideche (Cascais), impõe-se-nos, desde logo, pelo majestoso portal – e só o facto de não estar ainda inteiramente ‘operacional’ é que impediu que o Ministro da Segurança Social tivesse usado a grande chave antiga para lhe abrir a porta. Lê-se no desdobrável «Uma casa… muitas histórias»:
            «O núcleo histórico “Casa dos Lagares”, com uma construção e traços de arquitectura típicos dos séculos XVII/XVIII, é composto por três salas complementares. A musealização do sítio e a exposição de objectos e de fotografias reportam-nos, sobretudo, aos anos 40 do século XX e permitem-nos viajar no tempo até à actualidade, contando a história de pessoas que contribuíram para a identidade do Centro de Apoio Social do Pisão».
            E, entrados, foi o deslumbramento. Sabiamente expostos, objectos do que fora aquela tenebrosa instituição até 1985, onde, para o Pavilhão da Psiquiatria, afastado dos demais, a comida era preparada em bidões levados para os utentes-presos em cima de uma desengonçada carroça que também se logrou recuperar. Lá estavam as fotografias a mostrar como era, rostos macerados, martirizados, dolorosamente tristes ou alheados do momento… Aquele ali, que parou para a fotografia, na altura em que dava de comer ao companheiro acamado. E as sentinas… E os frascos dos medicamentos, material médico e cirúrgico… Objectos litúrgicos da Capela da Sagrada Família. A cadeira do barbeiro (ou do dentista?). As formas do sapateiro. A velhinha central telefónica. E aquela foto como que «de família», em filas ou em formatura, os guardas à frente, tudo fardado e de bivaque na cabeça…
            Uma que outra parede de pedra e argamassa à mostra. O forno que se pôs a descoberto e, sobretudo, o lugar onde assentava a enorme seira do lagar de azeite. Pelas dimensões, um grande lagar, alimentado, sem dúvida, pelas oliveiras da extensa propriedade, que os internados sob escolta trabalhavam… E pensar que esta – agora, “Casa do Azeite” – «na época da Colónia Agrícola do Pisão, serviu de casa de castigos»!...
            A «Casa do Lagar» é “espaço de museu, onde ainda existe o lagar de pisar uvas e o vestígio da prensa; aqui estão expostas peças de madeira, ferro e folha usadas pelos ‘colonos’ e algumas confeccionadas pelos próprios”.
            Inigualável, o poder evocativo desses espaços, a levar-nos para um outro painel, polvilhado de rostos, de pessoas, de sorrisos e de lágrimas, e, por cima, o mote de tudo, haurido em Victor Hugo:
            «O futuro tem muitos nomes. Para os fracos, é o inalcançável. Para os temerosos, o desconhecido. Para os valentes é a oportunidade». Nem há necessidade de comentários!

As mensagens que ficaram
            Percorreram-se as instalações. Tomou-se um cafezinho noutra «casa» (a palavra ‘casa’ surge aqui e além – Casa do Lagar, Casa de ligação, Casa do Azeite –, nesta vontade de se ter acolhedor lar confortável…). Logrou-se fazer de um recanto a sala de informática. Num outro, a oficina de modelagem. Naquele ali, a marcenaria. Naqueloutro, senhoras preparam bolinhos… A cozinha quase industrial. O enorme e mui airoso refeitório. A farmácia com todos aqueles doseadores cheios de comprimidos para o pequeno-almoço, o almoço, o jantar, a ceia… Há quem tome quase vinte comprimidos por dia, senão mais! E tudo tem de estar devidamente arrumado…
            Pelo meio, agora serenas, murmurejam as águas da Ribeira do Pisão que acasalarão mais adiante com as da Ribeira da Penha Longa, formarão o Rio Marmeleiro e se metamorfosearão, a jusante, na conhecida Ribeira das Vinhas.
            Na Sala da Formação, sentámo-nos para os discursos, em jeito de partilha de emoções.
            Contou a Provedora, Isabel Miguéis: há 340 internados. Um chegou a ser capa da revista Exame! Um outro come tudo o que apanha: beatas, folhas… Mas o Pisão – dependente, como está, da Segurança Social, não pode ser um «caixote do lixo» para onde se atira tudo o que os outros ministérios (por exemplo, o da Justiça) não querem! Não há condições para se receberem pessoas violentas nem com determinado tipo de doença.
            E foram quatro os pedidos da Provedora:
            1 – Que as obras começadas acabem.
            2 – Que o compromisso entre a Santa Casa e a Segurança Social seja realmente prioritário (estava presente a Dra. Mariana Ribeiro Ferreira, presidente do Instituto da Segurança Social).
            3 – Que possamos ser dotados de mais recursos humanos qualificados (não são precisos muitos).
            4 – O pedido maior: que haja respeito pelas pessoas que trabalham na – Segurança Social.
            Em resposta, Pedro Mota Soares, depois de acentuar a necessidade de o Estado contratualizar a resposta social, deixando, porém, de querer ser «patrão» a impor um conjunto de regras nas instituições que ele não quis gerir, preconizou maior diálogo entre o Estado e as instituições, numa relação que se quer de confiança, não por palavras mas com actos, pois, neste domínio, qualquer pequena intervenção é sempre uma grande intervenção.

Publicado em Cyberjornal, edição de 9-12-2014:

domingo, 7 de dezembro de 2014

Comissão de Protecção de Maiores... precisa-se!

            Este grito de alerta foi lançado na passada terça-feira, 25 de Novembro, pela provedora da Santa Casa da Misericórdia de Cascais, no decurso da Assembleia-geral da instituição, presidida pelo Juiz Conselheiro Armando Leandro.
            A razão do apelo prende-se com a violência dos mais diversos tipos de que ora são alvos os idosos, dadas as inúmeras dificuldades que as famílias estão a sentir para os proteger. Dificuldades financeiras mas, sobretudo, disponibilidade para os acompanhar devidamente, quer em casa quer mesmo em centros de dia ou nos lares onde os possam pôr.
            Há toda uma nova dinâmica que se torna necessário adoptar perante a situação dramática que ora se vive, sublinhou a Dra. Isabel Miguéis Bouças, informando, por exemplo, que acabara de dar entrada num dos lares da Misericórdia um ancião com 99 anos, facto que, até há meia dúzia de anos, seria considerado inconcebível! As famílias, cada vez com menos recursos, aguardam, ansiosas, o momento dramático dessa caminhada: aquele em que o ancião, independentemente da idade que tiver, passa a estar dependente de terceiros!
            Um dos centros de dia da Misericórdia é, hoje, mais um «lar de dia», com inúmeros problemas de saúde mental, cujo tratamento ultrapassa as capacidades dos que lá estão a trabalhar. Tudo se processou muito rapidamente, sem que as estruturas e as pessoas estivessem preparadas para enfrentar esse novo paradigma que se instalou e para o qual há que adoptar soluções dignas. «O Estado», sublinhou a provedora, «não pode ficar em gabinetes: tem de enfrentar a realidade!».
            É sabido que, do ponto de vista político, as pessoas de idade não têm suficiente importância; contudo, essa ideia é bem provável que não corresponda inteiramente à verdade, porque os anciãos têm uma família e as suas dificuldades acabam por se tornar as dificuldades de todos. De facto, alguém escreveu: «A ‘coisa’ mais importante para os pais são os filhos; mas a ‘coisa’ mais importante para os filhos não são os pais!» – e há que ter consciência disso!
            No decorrer da troca de impressões, Graça Poças, membro da Associação para a Cooperação e Desenvolvimento – P & D Factor, referiu que, nesse âmbito, está a ser preparada para apresentação ao mais alto nível internacional, nas Nações Unidas, uma Carta da População Idosa, porque o paradigma mudou substancialmente: hoje temos «adolescentes de 40 e 50 anos», «jovens adultos» no que concerne à sua falta de autonomia! Os direitos humanos precisam de ser vistos em função do ciclo vital, não apenas atendendo aos velhos e às crianças, tal como eram encarados até há cinco-seis anos atrás. Urge pugnar pelo estabelecimento de uma Convenção Internacional dos Direitos Humanos da Pessoa Idosa! Urge gizar novas estratégias com base no quotidiano concreto. Carece-se de uma cultura de prevenção: que os pais comecem a estar sensibilizados para as transformações de que os filhos vão sentir as consequências.
            Como entidade que é confrontada, no dia-a-dia, com esta súbita mudança e suas trágicas consequências a todos os níveis, a Misericórdia de Cascais está, pois, ciente da necessidade de se falar deste tema – para que as soluções também celeremente se encontrem, uma vez que a celeridade é a característica primeira desta inexorável mudança social.

Publicado em Cyberjornal, edição de 07-12-2014:

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O catedrático e o canalizador

             Gerou-se alguma polémica quando se entendeu que a senhora Merkel teria dito que há licenciados a mais em Portugal. Logo se lançou mão das estatísticas, das comparações… para se concluir que não, senhora, não temos licenciados a mais, em relação ao que se passa nos outros países da União.
            Sucede, porém, veio alguém dizer depois, que não fora exactamente isso que a senhora afirmara; preconizara, sim, maior atenção para o ensino técnico-profissional. É uma ‘luta’ que travamos quase desde pouco depois do 25 de Abril, quando se optou por fechar as escolas comerciais e industriais e uniformizar tudo. Medida que gerou oposição por parte de quem já nisto andava há algum tempo, mas que corria então sério risco de ser apelidado de ‘reaccionário’ e… metemos a viola no saco!
            Parece que ora se torce a orelha, não deita sangue e arremedaram-se uns cursos à pressão, em jeito de forma de suavizar as estatísticas do desemprego. Não é, porém, a mesma coisa e continuamos a ter falta de mecânicos, electricistas, sapateiros, alfaiates, torneiros…
            E contava-me o meu amigo David, que é professor catedrático, a propósito desse dilema, relacionando-o com o ‘ganhar a vida’ e ser recompensado. Foi, a convite da comissão organizadora, fazer uma conferência, integrada numa jornada em honra de vulto importante da história nacional. Preparou cuidadosamente o seu PowerPoint e o texto, durante alguns dias; comprou o bilhete de comboio (a cidade fica a uns 150 km da residência); foram buscá-lo e levá-lo à estação. Ficou lá o dia, para ouvir os outros intervenientes na jornada. Antes do almoço, a senhora que presidia informou: «Pedimos desculpa, mas por imposições de orçamento nem sequer lhes podemos pagar a refeição». Passaram já uns quinze dias e ainda não foi reembolsado do magro custo da viagem. Repito: é catedrático, continua a queimar as pestanas para se manter actualizado, gastou horas e horas a preparar a conferência, por acaso até nem precisa já dela para o currículo e, claro, ninguém o obrigou a aceitar o convite…
            Vem de seguida o resto da história. Dias antes, o esquentador deixou de funcionar e ele não percebia porquê. Chamou o canalizador, que se deslocou de uns 5 km. Chegou e sentenciou (contou-me ele): «Isto é a pilha. Pode ir comprar uma como esta e fica bom. São 30 euros pela deslocação!».
            Não será infinitamente melhor tirar um curso profissional?

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 651, 01-12-2014, p. 12.

 

Saímos de alma lavada!

            Foi essa, a de sair de alma lavada, a sensação que tive, quando terminou o concerto que, na tarde de domingo, 30, se realizou no auditório do Centro Cultural de Cascais, em homenagem ao maestro Fernando Lopes-Graça, evocando os 20 anos passados sobre o seu falecimento. Não apenas por termos revivido a emoção de o cante alentejano ser, agora, património cultural imaterial da Humanidade e ali termos ouvido cantares do Alentejo, mas porque as canções de Lopes-Graça nos incitam a acreditar num amanhã mais promissor, em que a serenidade do povo que trabalha deverá ser a dominante!
            Maria Celestina Leão Gomes, da Associação Lopes-Graça, abriu a sessão, começando desde logo por salientar que passaram 20 anos da morte do Maestro exactamente no dia em que o cante alentejano foi galardoado. Subscreveu o «carácter nacional» das suas canções, que Mário Vieira de Carvalho lhe atribuíra; citou José Gomes Ferreira: «Lopes-Graça continuará vivo. A morte é para os mortos!».
            Referiu-se à pianista Madalena Sá Pessoa, que acompanhou ao piano a «voz etnográfica» (expressão de Mário Vieira de Carvalho) de Celeste Amorim, no CD/Livro Canções do 25 de Abril e 13 Canções Heróicas, que iria ser apresentado. Madalena Sá Pessoa, de 94 anos, fez questão em estar presente na cerimónia – e foi aplaudida.
            O Presidente da Câmara, Dr. Carlos Carreiras, disse do privilégio que era para Cascais ter Lopes-Graça há 50 anos (30 em vida e agora 20 anos depois) e ser o Município fiel depositário do seu espólio no Museu da M´suica Tradicional Portuguesa. Saudou o Dr. Arquimedes da Silva Santos, ali presente. (Arquimedes da Silva Santos, recorde-se, natural de Póvoa de Santa Iria (1921) acompanhou Fernando Lopes-Graça e foi o fundador da Escola Superior de Educação pela Arte). Aludiu à notável recolha de cantares do povo que Lopes-Graça e Michel Giacometti, que foi também este munícipe de Cascais (que igualmente preserva o seu espólio musical), fez por todo o País, «num tempo em que o tempo ainda passava devagar».
            A I parte da sessão seria completada com a intervenção do arquitecto Filipe Diniz. Lopes-Graça, disse, escreveu as canções expressamente para a voz «irrepetível» de Celeste Amorim e soube adaptar os textos às mãos da pianista. «Canções da resistência e da revolução», «politicamente empenhadas», profundamente imbuídas da «realidade comum alicerçada na raiz popular». Contrapôs essa atitude à dos tempos que ora se vivem, de rasura e asfixia cultural, da promoção de «uma cultura de massas desprovida de autenticidade». E exemplificou com o facto de as televisões, a propósito do cante alentejano, terem passado a Canção do Mineiro, sem se aperceberem de que esta canção é tanto dos mineiros de Aljustrel como dos mineiros das Astúrias ou do Chile!... A designação de «heróicas», acrescentou, não poderia ser mais ajustada, porque elas têm subjacente o sentimento de luta por um mundo melhor através da cultura. Aliás, Filipe Diniz começara por evocar a figura de José Casanova, afirmando que, em vez dele, quem deveria estar ali a apresentar o CD era precisamente José Casanova (membro do Comité Central do PCP que faleceu no passado dia 15).

Uma viagem pelo país
            Iniciou-se de seguida a prometida viagem «com a canção regional portuguesa de Norte a Sul», através da música de Lopes-Graça.
            Primeiro, o Coro de Câmara de Cascais, sob a direcção de Maria Repas Gonçalves. Um naipe de vozes de todas as idades, senhores e senhoras, de traje preto e longo cachecol vermelho.
            Depois, o Coro Lopes-Graça, da Academia de Amadores de Música de Lisboa, dirigido por José Robert. Também senhores a senhoras: elas de blusa branca a cair sobre saia preta, ostentando colares e gargantilhas; eles, de casaco escuro, calças cinzentas e laço grená.
            Ambos a interpretarem pequenos e mui melodiosos trechos, de sabor genuinamente popular. Recordo, a título de exemplo, «O ladrão do negro melro», qual hino à serenidade que se almeja!
            Na III parte ouviram-se quatro canções heróicas, acompanhadas ao piano por António Neves da Silva. Primeiro, a bem conhecida «Jornada», com letra de José Gomes Ferreira, pelo Coro Lopes-Graça; depois, «Rústica», também de J. G. Ferreira, pelo Coro de Câmara de Cascais. «Ronda» (de João José Cochofel), «Canto de Paz» (de Carlos de Oliveira) e «Acordai» (de J. G. Ferreira) foram interpretadas pelos dois coros em conjunto, sob direcção de José Robert. Em brinde extra à assistência, que encheu por completo o auditório, Maria Repas Gonçalves dirigiu os dois coros na versão do seu Coro para o «Canto da Paz».
            Foram, de facto, noventa minutos que nos reconfortaram o coração e nos lavaram a alma. E Cascais bem pode orgulhar-se do legado que teve e assim mostra que dele é merecedor!
                                                  
Publicado em Cyberjornal, edição de 1-12-2014:

domingo, 30 de novembro de 2014

Actualidade dos autos de Mestre Gil

           Autos? O Teatro Experimental de Cascais e Carlos Avilez têm em cena, no Mirita Casimiro, autos de Gil Vicente? Xaropada, só pode ser! Gil Vicente não é do século XVI? Passaram 500 anos, senhores! Muito se mudou! E a gente até teve de estudar isso na escola e rimos com a samicas de caganeira do parvo Joane. Parvo, sim, ele é. Por isso pode falar à vontade, que não lhe põem freio na boca. E não é que as verdades de há 500 anos são as mesmas d’agora? Com uma diferença, quiçá: há maior requinte na malandragem!...
            Portanto, actual, hemos de confessar. Tanto a vida folgada dos que não vão para a Índia como a prosápia dos que ambicionam a barca celestial e têm de seguir na outra.
            O gozo maior é, todavia, o de tudo vestir a pele de um musical. Tem-se a percepção nítida de que Carlos Avilez, Fernando Alvarez, Miguel Graça e os músicos Hugo Neves Reis e Pedro F. Sousa se divertiram à grande.
            Um divertimento contagiante! A não perder!

Publicado em Cyberjornal, edição de 27-11-2014:

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Teatro, lição de vida!

            Ao agradecer a homenagem que o TEC prestou a sua mãe, a filha de Mirita Casimiro realçou a importância que o Teatro detém na comunidade e incitou todos – novos e velhos – a frequentarem os teatros, não apenas para apreciarem uma Arte inigualável mas também para, dessa forma, ajudarem os actores e as companhias a prosseguir o seu trabalho.
            No Espaço TEC, em Cascais, inaugurou-se, no sábado, 22, a exposição evocativa da vida – curta mas bem preenchida – de Mirita Casimiro, cujo centenário do nascimento passou a 10 de Outubro. Maria Zulmira Casimiro de Almeida, de seu nome completo, viria a partir com apenas 55 anos, atormentada pelas sequelas de grave acidente de viação, que a incapacitara de prosseguir na sua brilhante carreira. Estreara-se em 1934, segundo uns, ou a 5 de Janeiro de 1935, segundo outros, na revista «Viva à Folia!», no Maria Vitória; Leitão de Barros escreveu expressamente para ela o guião do filme Maria Papoila (1937), uma criação imorredoira. De regresso do Brasil, onde se ‘refugiara’, foi acolhida pelo TEC, onde são inesquecíveis as suas interpretações em Mar, A Casa de Bernalda Alba e Maluquinha de Arroios (todas de 1966) e O Comissário de Polícia (1968), entre outras, sempre sob a direcção de Carlos Avilez.
            Muito participada, foi singela, mas emotiva – mormente para quantos tivemos a dita de viver esses esplendorosos e heróicos anos do TEC (sempre em luta com a Censura e não só…) – a abertura da exposição. Falou Carlos Avilez, a realçar o profissionalismo de Mirita; Fernando Alvarez (um dos responsáveis pela mostra) leu a mensagem que João Vasco (impossibilitado de estar presente devido à doença que o aflige) escreveu, numa evocação do que a Mirita ficáramos a dever; interveio a filha, sensibilizada e reconhecida, num apelo a que se não deixe morrer o Teatro; disse Norberto Barroca da biografia que está a escrever. Um grupo de alunos da Escola Profissional de Teatro de Cascais dançou, em alegre coreografia, a conhecida cantiga da Maria Papoila, «Adeus, ó terra!...».
            Reuniu-se ali muita documentação, mormente fotográfica, que vale a pena demoradamente apreciar. Uma carta manuscrita houve, porém, que significativamente me chamou a atenção. Não está datada. Assina-a a actriz, que escreve a Serra e Moura, na sua qualidade de “presidente da Assembleia-geral da Associação”:
            «Quero deixar bem vincado o meu reconhecimento pelas palavras que teve para comigo, que muito me sensibilizaram quer como actriz quer como mulher e mãe.
            Bem haja!».
            Nunca será de mais salientar o lúcido papel que Joaquim Miguel Serra e Moura teve como presidente da Junta de Turismo da Costa do Sol no apoio ao TEC e às manifestações culturais em geral, mesmo arriscando-se a ser mal visto pelo Poder, consciente da importância que as Artes – de todo o tipo – detêm para a comunidade. Um exemplo a não esquecer, nomeadamente nos tempos que correm, em que essa não parece ser uma prioridade política.

Eterno Gil Vicente!
            E essa reflexão leva-nos, necessariamente, aos dois autos de Gil Vicente que o Teatro Experimental de Cascais tem em cena: o Auto da Índia e o Auto da Barca do Inferno.
            Recorde-se que foram estas as peças que o então novinho TEC apresentou em Osaka, na Exposição Universal, no dia consagrado a Portugal, 24 de Agosto de 1970, com um elenco onde se integravam actores que davam os primeiros passos, digamos assim, nas suas carreiras: Maria do Céu Guerra, Rui Mendes, Mário Viegas, Zita Duarte, por exemplo.
            E a ‘eternidade’ da mensagem do consagrado autor quinhentista é agora realçada através de bem arrojada encenação: Carlos Avilez optou pelo… musical! Quem diria?!... Qualquer espectador imagina o ‘gozo’ que terá dado ao encenador e aos seus mais directos colaboradores (Fernando Alvarez na cenografia e figurinos, Miguel Graça na dramaturgia, Hugo Neves Reis e Pedro F. Sousa na música original no desenho de som, Natasha Tchitcherova na coreografia), a congeminarem na perpretação deste ‘crime’! Largas asas concederam à sua imaginação e o ‘crime’ aí está, pronto a ser venenosamente saboreado!
            Sim, escalpelizam-se os lúbricos devaneios das damas cujos maridos para a Índia se foram e por cá as deixam, jovens, sensuais e sozinhas; sim, rimo-nos com gosto dos que passaram a vida em esquemas de todo o tipo e pretendem, alfim, viajar na barca divinal e não têm mais remédio do que subir a prancha que a sedutora e azougada Vanessa, o Diabo em pessoa, lhes manda aprontar. Mas… quem há aí que não se desmanche quando o fidalgo (António Marques) se justifica, a cantar o fado; ou quando Teresa Côrte-Real se desdobra numa interpretação notável; e, sobretudo, quando o parvo, Joane, em «rap», atira as suas sarcásticas piadas: «Ó homens dos breviários, rapinastis coelhorum et pernis perdiguitorum e mijais nos campanários!». O máximo!...
            E, no final, bem divertidos, acabamos por dar inteira razão ao que se lê no texto de apresentação:
            «Obras em que se mantém vivo um retrato da Humanidade, com críticas que não poupam ninguém... se ontem foram fidalgos, padres ou magistrados mas também sapateiros e ladrões; hoje, podemos encontrar no texto paralelismos aos temas do nosso quotidiano
            Trata-se de uma reflexão sobre a contemporaneidade de temas como: a igreja, o tráfico humano, a corrupção, o desemprego, a pobreza ou a injustiça social... sustentando o que é a universalidade da obra de Gil Vicente.».
            Nem mais!

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 71, 26-11-2014, p. 6. Fotos retiradas, com a devida vénia, da página do TEC no Facebook, da autoria de Ricardo Rodrigues.

 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Está um lindo dia para sorrir!

             Para neutralizar a negritude dos noticiários que nos pintam o quotidiano de desgraças, multiplicam-se na Internet as saborosas mensagens a apelar a uma visão mais positiva do tempo que nos é dado viver! Frases lindas, sábias, profundas, integradas sempre nas mais lindas paisagens, nos ângulos mais inesperados e surpreendentes. É um lavar d’alma!
        Não esperava, porém, que, numa área como a da estratégia comercial turística, também a mentalidade estivesse voltada para esse lado emotivo do Homem. E foi o Prof. José Manuel Hernández Mogollón, da Universidade da Extremadura (Cáceres), quem no-lo salientou, na comunicação apresentada, a 1 de Novembro, em Lisboa, no âmbito da Conferência Internacional «Heritage and Cultural Tourism», organizada pelo Departamento de Turismo da Lusófona e pela Progestur.
         Intitulou a sua intervenção «A transformação da indústria do turismo em uma indústria dos viajantes: o turismoslow, a ‘implicação’ e o turismo de experiências como eixos da mudança».
          Referiu-se, claro, ao slowfood e às slowcities, o «comer devagar» e as «cidades desapressadas», um dos meus temas preferidos, até porque S. Brás de Alportel, minha terra natal, cedo aderiu a esse movimento. Motes como vivedespacio, «vive devagar», «o consumo te consome», «o tempo é uma nova ferramenta para a qualidade», «o turismo, uma actividade a consumir com o sorriso», porque, aliás, «dá gozo planear uma viagem!»… acabam por ser, de facto, boas palavras de ordem, consubstanciadas, por exemplo, naquele saco que ostenta o letreiro: «Está hoje um lindo dia para sorrir!».
       É o advento de uma nova mentalidade, baseada no facto, provado, de que o turista recordará vida afora 10% do que ouviu na sua viagem, 30% do que leu sobre os sítios que visitou, 50% do que viu e 90% do que lhe foi dado fazer!
         Palavras como surpresa, participação, brincadeira, gozo e paz de espírito constituem, doravante, verdadeiras pedras de toque a potenciar.
      Muitos de nós começam a recusar-se a ouvir e a ver os noticiários, dada a superior carga negativa a que as concepções actuais da ‘notícia’ obedecem, de acordo com directrizes diligentemente planeadas; e nunca será de mais salientar que, afinal, o que mais se vê e do que mais se fala acabam por ser aquelas cenas de ternura em que, nomeadamente, intervêm animais, a dar – eles, sim! – exemplos deveras cativantes!

             Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 650, 15-11-2014, p. 11.
 
                                                                               José d'Encarnação