sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

«Respirar é preciso!»

            Com esta frase – «Respirar é preciso!» – terminou Mário Assis Ferreira a sua intervenção, no passado dia 17, por ocasião da entrega dos prémios literários instituídos pela Sociedade Estoril-Sol, pois, citando Thomas Mann, que escreveu «a cultura respira-se», sublinhou ser a promoção da Cultura um desígnio que preside à actividade da Estoril-Sol.
            Nesse desiderato se insere, disse, a criação dos prémios Fernando Namora (ora em 16ª edição) e Revelação Agustina Bessa-Luís (6ª edição). Mesmo em tempo de crise, não abdicou a Estoril-Sol de exercer, desta sorte, a sua missão de cidadania; de manter uma galeria de arte com espaço generoso; e de mostrar energia, criatividade e determinação, por exemplo, na manutenção da multipremiada revista Egoísta – mau grado o facto de, a partir de 2008, estarem a diminuir substancialmente as receitas do Jogo. Congratulou-se, pois, com o elevado número de concorrentes e, a propósito do júri qualificado que apreciou os trabalhos, salientou a enorme estatura intelectual e humana de Vasco Graça Moura, que presidiu a este júri, até que as forças lho permitiram (este concurso, relativo a 2013, ainda decorreu sob sua presidência). Por isso, justamente para lembrar a relevância da Cidadania, anunciou que a Estoril-Sol ora estatuía o Prémio Vasco Graça Moura para galardoar obras que pugnem pela Cidadania Cultural.
            Aliás, a personalidade de Graça Moura seria alvo de referências elogiosas por parte de todos os oradores desse final de tarde, no auditório do Casino Estoril. Referiram-se-lhe (o «grande Amigo que nunca perderemos!») Guilherme de Oliveira Martins, que ora preside ao júri, os dois premiados e o próprio Secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, que presidiu à sessão.
            O angolano José Eduardo Agualusa foi distinguido pelo romance Teoria Geral do Esquecimento e, na acta, o júri fundamentou essa atribuição, tendo em consideração «a escrita ágil de um autor que sabe realizar uma especial economia de efeitos, encontrando uma linguagem em que o português é falado em intercepção com outros modos». A história, plena de ironia e de humor, de uma aveirense em Luanda, na véspera da declaração da independência.
            Coube a Paula Cristina Rodrigues o prémio Revelação, com o romance Horizonte e Mar, que reflecte a vida genuína das gentes da costa atlântica (a autora, natural do Porto, vive em Matosinhos), o docinho da língua como realidade viva, numa «abordagem etnográfica pouco presente no panorama da actual ficção portuguesa, expressa numa narrativa bem conduzida, cuja frase é, no geral, vertebrada, sendo sentimentalmente envolvente e susceptível de atravessar diversos patamares de leitura», lê-se na acta.
            Ambos os contemplados, na brevíssima alocução de agradecimento que fizeram, não deixaram, como se disse, de salientar o grande amor de Vasco Graça Moura à língua portuguesa, em todas as suas variantes, sublinharia Agualusa, a variante brasileira, angolana, cabo-verdiana… pois era a língua o seu «instrumento de trabalho».
            A encerrar a sessão, Barreto Xavier evocaria a última viagem de Vasco Graça Moura a Bogotá, já debilitado mas numa vontade de promover a cultura portuguesa também além-fronteiras, e felicitou a Estoril-Sol por ter a Cultura sempre bem presente na sua actividade, numa contribuição sempre activa.
            Seguiu-se o jantar no Restaurante Estoril Mandarim, em homenagem aos premiados.

Publicado em Cyberjornal, edição de 18-12-2014:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&view=article&id=1124:respirar-e-preciso&catid=17&Itemid=30

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A (incrível) estória do Balhau

             Foi apresentado, ao final da tarde de domingo, 14 de Dezembro, pelo conhecido humorista Nilton, no Museu do Mar Rei D. Carlos, em Cascais, o livro A incrível estória do Balhau, da autoria de Filipe Desmet.
            Tinha o peixe o hábito – que partilha, aliás, com muitos de nós… – de comer as sílabas, designadamente aquelas mais saborosas, as do meio. Por isso, é chamado de Balhau e não de Bacalhau. E deu Nilton exemplos de inúmeras ocasiões do quotidiano em que, de facto, comemos as sílabas – e toda a gente percebe o que queremos dizer!...
            Ana Colaço, da RFM, leu depois algumas passagens do livro, para nos aliciar e os dois filhotes gémeos do autor, a Inês e o Guilherme, serviram… pastéis de balhau e sumos de… pêgo, laja, anás e mogo!
            Enfim, momentos deveras divertidos, como divertida é a estória (que não podia ser história!) do peixe que, um dia, vê uma mica, a come e… não é que ela (a minhoca…) estava presa num anzol? Mas, como só apanhara um peixe, o pescador dispunha-se a devolvê-lo ao mar, quando se apercebeu que este lhe piscara o olho! Não resistiu, ficou com ele, levou-o para casa e tornaram-se bons amigos. Imagine-se que até, um dia, foram a um jogo de futebol! E o Balhau também aplaudiu os golos, de barbatanas levantadas. Mas não sabia que só podia aplaudir os golos da equipa da bancada; enganou-se e «um adepto que estava perto dele, olhou-o com olhar de reprovação e disse:
            Ó baixinho, vê lá se queres que te convide para jantar peixe!».
            Aí ele percebeu.
            Cativou o Balhau o pescador pelo seu jeito de ver o mundo (por exemplo, a chuva a cair era uma novidade enorme!...). Por isso nos cativa a nós também, porque nos ensina a ver as coisas «insignificantes e pequenas», aqueles «grãozinhos de areia» que fazem o nosso dia-a-dia.
            No final da estória, sentimo-nos melhores, enlevados em estranha serenidade, deliciados com o saboroso olhar crítico que o Balhau – aquele que comia as sílabas do meio – acaba por nos transmitir.

Publicado em Cyberjornal, edição de 2014-12-15:

 

           

sábado, 13 de dezembro de 2014

Bichanos & companhia

            E as velhotas, no Centro de Saúde, lá continuaram na conversa em jeito de quem quer matar o tempo. Ouvi-lhes:
            Isto foi o cabo dos trabalhos!
            Imaginei logo que falariam de doenças, que é tema de velhos, pois claro.
            Faz-me a cabeça em água, o malandro!
            Supus netinho irrequieto, levado do diabo. Mas, quando me pareceu que soara a palavra bilharetas, mais ou menos assim pronunciada e que eu há tempos não ouvia, apurei o ouvido. Bilharetas: traquinices, partidas, fosquinhas, malandrices e atitudes do género... Podiam ser dum moço pequeno, podiam; afinal, porém, o Sebastião de que uma das senhoras falava era gato de luzidio e farto pêlo preto, a sua companhia, compreendi depois.
            E dei comigo a pensar na lei que ora se fez para punir quem maltratasse animais, designadamente animais de companhia. Aprovo. Gostaria, no entanto, de ter ouvido, na circunstância, falar mais do importante papel que gatos e cães detêm no equilíbrio de uma família, mormente crianças e velhos. E quantas vezes não vemos fotos de «sem-abrigo» em que a única e inseparável companhia é… um cão?! Gostaria que se dissesse quanto essa companhia contribui, mais do que os remédios, para segurar o equilíbrio mental. E que dessa consciencialização resultassem leis em conformidade, porque o sem-abrigo e o velhote podem passar fome, mas o seu cão… não!


Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 191, Dezembro de 2014, p. 10.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Na prateleira - 37

Temos campeões em badmington!
            Serenamente e sem grandes alardes, as colectividades lá vão prestando como podem (e lhes deixam…) os mais relevantes serviços à comunidade em que se inserem, nomeadamente contribuindo para cimentar imprescindíveis laços de vizinhança. Iniciativas da mais variada ordem preenchem o seu calendário anual e somos, de vez em quando, surpreendidos pela informação de que jovens atletas vieram medalhados de importantes competições internacionais.
            Soube, por exemplo, que tal acontecera no caraté, na Alemanha, numa prova europeia, em que jovens de Janes e Malveira arrebataram medalhas. E, a 23 de Novembro, por ocasião do 29º aniversário de Clube Desportivo da Costa do Estoril, sediado em Alapraia, ficámos a saber que, no badmington, modalidade desportiva em que o Clube agora aposta, se estava a ganhar grande relevo, inclusive com campeões a nível internacional.
            Regozijamo-nos!

Um estranho nome: Zyryab!
            Houve sessão comemorativa do 29º aniversário desse clube, a 23 de Novembro. Cabral de Sousa, o presidente, deu conta do que se procura fazer; Manuel Andrade, presidente da Mesa da Assembleia-Geral, saudou a presença de associados e amigos, realçando o facto de o senhor presidente da Câmara se ter feito representar por um dos directores municipais, Miguel Arrobas, que tem a seu cargo o pelouro das colectividades, educação e acção social e que, usando da palavra, se congratulou com as iniciativas levadas a cabo ao longo do ano.
            Na sala, ouviam-se sotaques vários, a indiciar quanto a colectividade constituía elemento congregador de uma população cosmopolita.
            Evocou-se Tito Iglésias, sócio recentemente falecido, poeta, homem de cultura, que legou ao Clube toda a sua biblioteca.
            Falou-se de música (aliás, uma das grandes actividades do clube, bem patente nos quadros que ornam as paredes do seu salão nobre); disse-se poesia; e ouviu-se o quarteto de guitarras Zyryab, que interpretou cinco temas da ‘Carmen’, de Bizet, e um trecho de Carlos Paredes.
            O quarteto foi fundado em 1999 por Luís Miguel Aveiro, que juntou a si Daniel Sousa, Ricardo Nogueira e Luís Roldão. Não é a primeira vez que actua no Clube e Zyryab – literalmente, «pássaro negro» em árabe – é o nome por que ficou conhecido Abu Al-Hasan Ali ibn Nafi (789-857), músico que, como referiu Paco de Lucía, «influenciou decisivamente a evolução da tradição musical árabe na Península Ibérica. Atribui-se-lhe a invenção do plectro (pua) utilizando a pluma dianteira da águia; também acrescentou uma quinta corda ao alaúde e criou uma escola musical sem precedentes. A tradição considerou-o o pai da música do Al Andalus». O quarteto quer, pois, seguir-lhe as pisadas – e vai muito bem!

Cocheiras Santos Jorge e… estufa!
            Não há meio de se salvaguardarem e reabilitarem as cocheiras de Santos Jorge, pérola arquitectónica do Estoril, que, pelo seu estado de abandono, a todos envergonham (se calhar, menos àqueles que deveriam envergonhar-se). No resto do edifício (demolido) foi autorizada a construção de um condomínio entre 1991 a 1993. Contudo, por informações que ora tivemos, «ainda se mantém na antiga propriedade uma lindíssima estufa que lamentavelmente está totalmente abandonada e em muito mau estado de conservação».
            Há, por conseguinte, que meter mãos à obra e… salvar também a estufa!

Cascais na Sociedade de Geografia de Lisboa
            Costa do Sol já teve ocasião de noticiar a sessão realizada, no passado dia 26 de Novembro, na Sociedade de Geografia de Lisboa, presidida pelo Engº Elias Gonçalves.
            Para além do presidente da edilidade, estiveram presentes técnicos camarários, que explicaram o que se pretende levar a cabo para minorar as agressões ambientais, e outros especialistas, entre os quais o Engº Miguel Azevedo Coutinho, filho do edil em cujo mandato se comemoraram com brilhantismo os 600 anos da elevação de Cascais a vila e um dos nossos peritos em questões hidráulicas, mormente no que concerne à prevenção de cheias e inundações.
            João Henriques, responsável pelo arquivo municipal, teve também ensejo de traçar uma panorâmica dos 650 anos da história cascalense. A este propósito, permita-se-me que mais uma vez me regozije pelos painéis sobre essa temática que ora se mostram nos baixos dos Paços do Concelho, idênticos aos que, mui acertadamente, estiveram patentes no paredão.

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 73, 10-12-2014, p. 6.

 

 

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Desenterrou-se o lagar e a memória floriu!

            Não foi sem um estremecimento de curiosidade que Pedro Mota Soares descerrou, no passado dia 1 de Dezembro, inesperada placa evocativa. Dizia, estranhamente, CASA DOS LAGARES e proclamava, em baixo, ser «um espaço de memória onde queremos que viva o futuro».
            Preparada no mais completo segredo, a casa ora recuperada no Centro de Apoio Social do Pisão (antiga «Mitra»), sita na freguesia de Alcabideche (Cascais), impõe-se-nos, desde logo, pelo majestoso portal – e só o facto de não estar ainda inteiramente ‘operacional’ é que impediu que o Ministro da Segurança Social tivesse usado a grande chave antiga para lhe abrir a porta. Lê-se no desdobrável «Uma casa… muitas histórias»:
            «O núcleo histórico “Casa dos Lagares”, com uma construção e traços de arquitectura típicos dos séculos XVII/XVIII, é composto por três salas complementares. A musealização do sítio e a exposição de objectos e de fotografias reportam-nos, sobretudo, aos anos 40 do século XX e permitem-nos viajar no tempo até à actualidade, contando a história de pessoas que contribuíram para a identidade do Centro de Apoio Social do Pisão».
            E, entrados, foi o deslumbramento. Sabiamente expostos, objectos do que fora aquela tenebrosa instituição até 1985, onde, para o Pavilhão da Psiquiatria, afastado dos demais, a comida era preparada em bidões levados para os utentes-presos em cima de uma desengonçada carroça que também se logrou recuperar. Lá estavam as fotografias a mostrar como era, rostos macerados, martirizados, dolorosamente tristes ou alheados do momento… Aquele ali, que parou para a fotografia, na altura em que dava de comer ao companheiro acamado. E as sentinas… E os frascos dos medicamentos, material médico e cirúrgico… Objectos litúrgicos da Capela da Sagrada Família. A cadeira do barbeiro (ou do dentista?). As formas do sapateiro. A velhinha central telefónica. E aquela foto como que «de família», em filas ou em formatura, os guardas à frente, tudo fardado e de bivaque na cabeça…
            Uma que outra parede de pedra e argamassa à mostra. O forno que se pôs a descoberto e, sobretudo, o lugar onde assentava a enorme seira do lagar de azeite. Pelas dimensões, um grande lagar, alimentado, sem dúvida, pelas oliveiras da extensa propriedade, que os internados sob escolta trabalhavam… E pensar que esta – agora, “Casa do Azeite” – «na época da Colónia Agrícola do Pisão, serviu de casa de castigos»!...
            A «Casa do Lagar» é “espaço de museu, onde ainda existe o lagar de pisar uvas e o vestígio da prensa; aqui estão expostas peças de madeira, ferro e folha usadas pelos ‘colonos’ e algumas confeccionadas pelos próprios”.
            Inigualável, o poder evocativo desses espaços, a levar-nos para um outro painel, polvilhado de rostos, de pessoas, de sorrisos e de lágrimas, e, por cima, o mote de tudo, haurido em Victor Hugo:
            «O futuro tem muitos nomes. Para os fracos, é o inalcançável. Para os temerosos, o desconhecido. Para os valentes é a oportunidade». Nem há necessidade de comentários!

As mensagens que ficaram
            Percorreram-se as instalações. Tomou-se um cafezinho noutra «casa» (a palavra ‘casa’ surge aqui e além – Casa do Lagar, Casa de ligação, Casa do Azeite –, nesta vontade de se ter acolhedor lar confortável…). Logrou-se fazer de um recanto a sala de informática. Num outro, a oficina de modelagem. Naquele ali, a marcenaria. Naqueloutro, senhoras preparam bolinhos… A cozinha quase industrial. O enorme e mui airoso refeitório. A farmácia com todos aqueles doseadores cheios de comprimidos para o pequeno-almoço, o almoço, o jantar, a ceia… Há quem tome quase vinte comprimidos por dia, senão mais! E tudo tem de estar devidamente arrumado…
            Pelo meio, agora serenas, murmurejam as águas da Ribeira do Pisão que acasalarão mais adiante com as da Ribeira da Penha Longa, formarão o Rio Marmeleiro e se metamorfosearão, a jusante, na conhecida Ribeira das Vinhas.
            Na Sala da Formação, sentámo-nos para os discursos, em jeito de partilha de emoções.
            Contou a Provedora, Isabel Miguéis: há 340 internados. Um chegou a ser capa da revista Exame! Um outro come tudo o que apanha: beatas, folhas… Mas o Pisão – dependente, como está, da Segurança Social, não pode ser um «caixote do lixo» para onde se atira tudo o que os outros ministérios (por exemplo, o da Justiça) não querem! Não há condições para se receberem pessoas violentas nem com determinado tipo de doença.
            E foram quatro os pedidos da Provedora:
            1 – Que as obras começadas acabem.
            2 – Que o compromisso entre a Santa Casa e a Segurança Social seja realmente prioritário (estava presente a Dra. Mariana Ribeiro Ferreira, presidente do Instituto da Segurança Social).
            3 – Que possamos ser dotados de mais recursos humanos qualificados (não são precisos muitos).
            4 – O pedido maior: que haja respeito pelas pessoas que trabalham na – Segurança Social.
            Em resposta, Pedro Mota Soares, depois de acentuar a necessidade de o Estado contratualizar a resposta social, deixando, porém, de querer ser «patrão» a impor um conjunto de regras nas instituições que ele não quis gerir, preconizou maior diálogo entre o Estado e as instituições, numa relação que se quer de confiança, não por palavras mas com actos, pois, neste domínio, qualquer pequena intervenção é sempre uma grande intervenção.

Publicado em Cyberjornal, edição de 9-12-2014:

domingo, 7 de dezembro de 2014

Comissão de Protecção de Maiores... precisa-se!

            Este grito de alerta foi lançado na passada terça-feira, 25 de Novembro, pela provedora da Santa Casa da Misericórdia de Cascais, no decurso da Assembleia-geral da instituição, presidida pelo Juiz Conselheiro Armando Leandro.
            A razão do apelo prende-se com a violência dos mais diversos tipos de que ora são alvos os idosos, dadas as inúmeras dificuldades que as famílias estão a sentir para os proteger. Dificuldades financeiras mas, sobretudo, disponibilidade para os acompanhar devidamente, quer em casa quer mesmo em centros de dia ou nos lares onde os possam pôr.
            Há toda uma nova dinâmica que se torna necessário adoptar perante a situação dramática que ora se vive, sublinhou a Dra. Isabel Miguéis Bouças, informando, por exemplo, que acabara de dar entrada num dos lares da Misericórdia um ancião com 99 anos, facto que, até há meia dúzia de anos, seria considerado inconcebível! As famílias, cada vez com menos recursos, aguardam, ansiosas, o momento dramático dessa caminhada: aquele em que o ancião, independentemente da idade que tiver, passa a estar dependente de terceiros!
            Um dos centros de dia da Misericórdia é, hoje, mais um «lar de dia», com inúmeros problemas de saúde mental, cujo tratamento ultrapassa as capacidades dos que lá estão a trabalhar. Tudo se processou muito rapidamente, sem que as estruturas e as pessoas estivessem preparadas para enfrentar esse novo paradigma que se instalou e para o qual há que adoptar soluções dignas. «O Estado», sublinhou a provedora, «não pode ficar em gabinetes: tem de enfrentar a realidade!».
            É sabido que, do ponto de vista político, as pessoas de idade não têm suficiente importância; contudo, essa ideia é bem provável que não corresponda inteiramente à verdade, porque os anciãos têm uma família e as suas dificuldades acabam por se tornar as dificuldades de todos. De facto, alguém escreveu: «A ‘coisa’ mais importante para os pais são os filhos; mas a ‘coisa’ mais importante para os filhos não são os pais!» – e há que ter consciência disso!
            No decorrer da troca de impressões, Graça Poças, membro da Associação para a Cooperação e Desenvolvimento – P & D Factor, referiu que, nesse âmbito, está a ser preparada para apresentação ao mais alto nível internacional, nas Nações Unidas, uma Carta da População Idosa, porque o paradigma mudou substancialmente: hoje temos «adolescentes de 40 e 50 anos», «jovens adultos» no que concerne à sua falta de autonomia! Os direitos humanos precisam de ser vistos em função do ciclo vital, não apenas atendendo aos velhos e às crianças, tal como eram encarados até há cinco-seis anos atrás. Urge pugnar pelo estabelecimento de uma Convenção Internacional dos Direitos Humanos da Pessoa Idosa! Urge gizar novas estratégias com base no quotidiano concreto. Carece-se de uma cultura de prevenção: que os pais comecem a estar sensibilizados para as transformações de que os filhos vão sentir as consequências.
            Como entidade que é confrontada, no dia-a-dia, com esta súbita mudança e suas trágicas consequências a todos os níveis, a Misericórdia de Cascais está, pois, ciente da necessidade de se falar deste tema – para que as soluções também celeremente se encontrem, uma vez que a celeridade é a característica primeira desta inexorável mudança social.

Publicado em Cyberjornal, edição de 07-12-2014:

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O catedrático e o canalizador

             Gerou-se alguma polémica quando se entendeu que a senhora Merkel teria dito que há licenciados a mais em Portugal. Logo se lançou mão das estatísticas, das comparações… para se concluir que não, senhora, não temos licenciados a mais, em relação ao que se passa nos outros países da União.
            Sucede, porém, veio alguém dizer depois, que não fora exactamente isso que a senhora afirmara; preconizara, sim, maior atenção para o ensino técnico-profissional. É uma ‘luta’ que travamos quase desde pouco depois do 25 de Abril, quando se optou por fechar as escolas comerciais e industriais e uniformizar tudo. Medida que gerou oposição por parte de quem já nisto andava há algum tempo, mas que corria então sério risco de ser apelidado de ‘reaccionário’ e… metemos a viola no saco!
            Parece que ora se torce a orelha, não deita sangue e arremedaram-se uns cursos à pressão, em jeito de forma de suavizar as estatísticas do desemprego. Não é, porém, a mesma coisa e continuamos a ter falta de mecânicos, electricistas, sapateiros, alfaiates, torneiros…
            E contava-me o meu amigo David, que é professor catedrático, a propósito desse dilema, relacionando-o com o ‘ganhar a vida’ e ser recompensado. Foi, a convite da comissão organizadora, fazer uma conferência, integrada numa jornada em honra de vulto importante da história nacional. Preparou cuidadosamente o seu PowerPoint e o texto, durante alguns dias; comprou o bilhete de comboio (a cidade fica a uns 150 km da residência); foram buscá-lo e levá-lo à estação. Ficou lá o dia, para ouvir os outros intervenientes na jornada. Antes do almoço, a senhora que presidia informou: «Pedimos desculpa, mas por imposições de orçamento nem sequer lhes podemos pagar a refeição». Passaram já uns quinze dias e ainda não foi reembolsado do magro custo da viagem. Repito: é catedrático, continua a queimar as pestanas para se manter actualizado, gastou horas e horas a preparar a conferência, por acaso até nem precisa já dela para o currículo e, claro, ninguém o obrigou a aceitar o convite…
            Vem de seguida o resto da história. Dias antes, o esquentador deixou de funcionar e ele não percebia porquê. Chamou o canalizador, que se deslocou de uns 5 km. Chegou e sentenciou (contou-me ele): «Isto é a pilha. Pode ir comprar uma como esta e fica bom. São 30 euros pela deslocação!».
            Não será infinitamente melhor tirar um curso profissional?

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 651, 01-12-2014, p. 12.