segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O Fio das Harpas, de Fernando Miguel Bernardes


            José d'Encarnação[*]

            Resisto a passar as páginas, antes de me consciencializar do que vou ler.
            O Fio das Harpas.
            Harpas contém ressonância antiga, límpida, a desdobrar-se em ondas sonoras pelo espaço. Não um espaço qualquer! Harpa requer recolhimento, em pequena sala aconchegada, em casebre de pedra nua perdido na encosta num aninhar de lareira, sombra vasta de árvore a acolher rebanho em hora de acarro – pois seja: que o tilintar da guizalhada não se compadece com o vibrar das suas cordas…
            Fio – com fio se faz um tecido para aquecer mágoas e confortar rudezas; com fio se cortam maldades, se talham esconjuros… Por um fio se passa, se vive, se morre, se grita – que ele também são fios as nossas cordas vocais.
            O Fio das Harpas promete, pois, sossego, sim, a maviosa envolvência; mas também o gume que não hesite em cortar!
            Vamos ver!
            São quase 200 páginas de caminho. Deixar-nos-emos embalar!
            Olá!... A caminhada promete – que por ali andou o lápis azul, a confiscação compulsiva. E vozes do nosso actual – e eterno! – descontentamento. Baladas. O Zeca, o Zé Jorge, o Adriano… Estamos, pois, em boa companhia! Recorda-se a velha casa e os anciãos que a encheram. Os companheiros de viagem – idos ou ainda presentes, perdidos nunca!
            E cá está a árvore! As folhas são os fios das harpas que resistem, a cantar, mesmo que com vinagre insistam em lhes regar as raízes. Que elas sabem morrer de pé! E sempre haverá flores, mesmo que o chão seja sombrio! Sempre – porque nós, porque o poeta o quer!...
            «Fico contente se versos faço», se para isso ainda tenho liberdade, pois, no mar, «eu vejo clamores pela paz». No mar, nos guindastes de aço, nas chaminés fumegantes, nos bancos das escolas… Canto a terra – não pelo bem que ela tenha, mas pelo que eu para ela sonho; canto o povo:
 
            «Se poeta sou
            Sei a quem o devo»
 
            – estes são, seguramente, dois dos versos mais significativos de Fernando Bernardes, que acrescenta:
 
            «Ao povo a quem dou
            Os versos que escrevo».

                        Da sua vida rude
                        Colhi a poesia
                        Tentei quanto pude
                        Dar-lhe melodia (p. 26)

            Assume-se o poeta como um arauto, um elo de ligação. Não está sozinho, não, porque o que escreve é dele e das gentes com quem lida e luta, das terras em que se situa e, livre, quer criar raízes. Há, pois, este diálogo sempre! Não se perde em filosofias, em rodriguinhos de estilo, não. Pão pão queijo queijo – mas sempre de uma forma esbelta e, se possível, cantada, ritmada, prenhe de melopeia...
            Que se aprenda, que se baile, que se trauteie num ápice – porque apetece, qual rio que brinca por entre as pedras, pássaro que saltita de ramo em ramo, onda que desmaia na areia mas quer deixar rasto…
            E todo o Universo é convocado para a sinfonia, num conluio amoroso que não é só o da pessoa amada, porque, aqui, amada é a mulher (sim), no lirismo a que não há poeta português que, algum dia, consiga escapar, mas são as gentes, os irmãos…
 
            «Apeia-se o rei e o trono
            põe o pé ao pé do meu
            tu comigo somos dois
            quem ficou só já perdeu» (p. 110).

                        «Se estou ao pé de ti
                        foge-me o tempo entre os dedos…
                        Se longe alongam-se os dias
                        como em prisão, nos segredos» [1962] (p. 44).

                                               Esta noite choveu muito,
                                               de manhã fui ver o mar.
                                               Esta noite amei-te tanto,
                                               Sereno fiquei – de te amar… (p. 70).

            E, por falar em lirismo, sentir-se-ão bastas vezes os ecos das cantigas de amigo e de amor d’outrora e de sempre, que o poeta é trovador mesmo e sonha em ir de porta em porta, de corte em corte, de arraial em arraial, a dizer de sua justiça – «quero a paz do tempo conquistado» –, a colher cravos onde outrem teimou em semear abrolhos:
 
            Amarga-me a boca
            Do travo da vida
            – minha voz tão solta
            Onde foi perdida?

                        Menino de escola
                        Alegre e ridente
                        – onde foi perdida
                        Minha voz contente? (p. 31)

                                               Ai flores, ai flores do verde pino
                                               Se sabedes novas do meu amigo
                                               Ai Deus i o é?

                                                           Ai flores ai flores do verde prado
                                                           Se sabedes novas do meu amado
                                                           Ai Deus i o é?

            Uma delícia este ritmo de embalar:
 
                                   vi-te vi-te verde
                                    na pedra a cismar… (p. 84)

                        vermelho vermelho sangue…

            No Inverno bato o queixo
            – qualquer dia, qualquer dia!...

                        No Inverno aperto o cinto
                        – qualquer dia, qualquer dia!... (p. 34)

            Irmão camponês, acredita: qualquer dia, qualquer dia. E esse dia virá! «Que também na lama do Nilo vicejam as flores de lótus»… (digo eu). Que «um Homem mesmo longe mete medo» (p. 95).
            Ecos do nosso folclore, em que até a cana verde, algo de comezinho no nosso dia-a-dia actual – quem há aí que veja uma cana verde, que oiça o sussurrar do vento pelo canavial, que saiba, até, onde há canaviais?!... – até a cana verde é ponto de referência. Nela pousou a esperança, apesar do vento, ela aguentou-se lá. Por pouco tempo, parece, porque… pelo restolho se perdeu… (p. 89-90).
            E a mulher dos farrapos mexia e remexia no caixote. Tirou meio pão duro, tirou pente velho, tirou uma flor. Mirou-a, mirou-a e… sussurrou: «Bom dia!». (p. 50) – porque, nós queremos e proclamamos: «Hoje não há cifrões mas uma flor!» (p. 112).
            E relemos a história do Fio de Água – tem Alentejo fronteiras, terras largas vista grande… Alguém hoje se admira que Fio de Água por lá ande?» (p. 62)
            E ele há também por i poemas a partir de mote, quase à moda de além-Tejo:
 
            Papão negro ave torva
            Muito bonda o desatino
            Vai-te embora em má hora!
 
            Deixa dormir o menino…
                                                           Um soninho descansado. (p. 82)


            Pronto, já li. Já saboreei. A longos haustos. Num comboio cheio de ir e vir Cascais – Cais do Sodré – Cascais. E continuei no autocarro e assentei-me no banco do meu jardim, que, junto às brancas orquídeas, aos antúrios bem vermelhos, com o Maio ao colo, ronronando embora, tinha de acabá-lo já. Sem tardança, que apetecia ler, ler… até final.
            Acabei e apetece-me agora voltar atrás, a outras páginas que anotei para releitura serena.
            Que linda a história do buraquinho onde o menino depositou pedras de sal, um pirilampo, suor e esperança, antes de adormecer. De manhã, nada nascera. A avó enganara-o na esperança e ele perguntou: mas não há aí uns senhores que põem sal, pirilampos.... e não se preocupam nem com o suor nem com a esperança e… a coisa resulta?… Como é, avó?  (p. 83).
            Essa flor não nasceu, menino. Nem outras.

            «Renascer uma rosa, amigo Urbano, quando não há Primavera há tanto ano!...» (p. 101).

            E sabes porquê? Porque sob as frondosas faias se treinam cavalos, homens, cães-polícias, enquanto Pedro, na sua boa fé, vai construindo prédios… (p. 106). E quando soar a palavra pão, virão tiros, pegadas, baba – confusão! Porque… «Há o que diz que sim e diz que não / conforme a meia cara com que fala» (p. 115) e o importante senhor «viu escadas subiu escadas / ficou ao nível das gruas / e ao nível dos cifrões / Não ao nível das pessoas» (p. 130), embora alicie: «Come o milho, passarinho, vem cá abaixo à minha mão»; mas… «o passarinho tem asas: antes morto que no chão! (p. 124).
            Vem o título do livro de um poema (p. 138), breve como o são quase todos, de que me prendeu, de modo especial, a 1ª quadra, numa invocação às «doces aves» que – com esse fio das harpas – vão tecendo o tempo… São as andorinhas da capa, em revoada no azulejo, sedentas de insectos, em algazarra, não são, Fernando? Primavera após Primavera… Este, um poema de 1980, onde, se calhar, carecia haver em cima, ao jeito de José Gomes Ferreira, uma breve frase, em itálico, a contar do motivo da inspiração e da frase, porque, de seguida, há estranhas perguntas à mãe: sobre esse mesmo tempo, sobre açucenas por regar, sobre penas que se revivem. Este tempo que voa… tem doçuras, tem flores imaculadas, tem penas de doer…
            E quase nos apetece ficar no rochedo, à beira-mar, ouvindo o piar das aves, o marulhar das ondas… e as açucenas por regar…
            Poeta, que queres tu? Que o tempo não voe, que as flores nunca murchem, que as penas desapareçam? Não, poeta! Estás a querer o impossível, ainda que amor de mãe tudo suplante e saiba inventar melopeias e te ofereça os perfumes que inebriam as penas!...

            Disse amor e fez o gesto
            Disse amor e deu a mão

            Este é um daqueles momentos a eternizar, Fernando! E que bonito que é!

            «Disse amor e pensou homem
            disse homem pensou irmão». (p. 139)

            Nisto nos levam a palma os poetas, quando, com palavras simples, são do tamanho do mundo!
            Termina-se na «construção por vir». Diria eu, a construção que se faz, que se quer fazer, que urge fazer! Para que, na realidade, haja no topo as flores e, espraiando a vista por zimbórios e terraços, de uma vez por todas, dali se veja luz, muita luz e nunca, nunca, a terrível mordaça que silencia, que impõe negras vendas nos olhos, que castiga o grito e ameaça a revolta!
            Que, afinal, Amigos, é de fraternidade a mensagem, fraternidade em construção, uma construção difícil, sim, mas tremendamente consoladora:

            Pedra sobre pedra
            a mão
            o muro abraça!  (p. 154)

                                                           Abracemo-lo!


[*] O texto reproduz a apresentação feita, a 27 de Maio de 2009, no Palácio das Galveias, em Lisboa, do livro em epígrafe, editado por Mar da Palavra – Edições, Lda., Coimbra, Maio de 2009; ISBN: 978-972-8910-39-6.

domingo, 4 de janeiro de 2015

O continente e o conteúdo na passagem d’ano do Casino Estoril

            Acho sempre muita piada aos rótulos dos vinhos. «Um vinho macio, com alguma adstringência e corpo mediano e elegante». Bebo um copo e outro mais, e fico a pensar no tal ‘corpo mediano e elegante’…
            Lembrei-me disso, ao ler a ementa: «Lavagante da costa atlântica com emulsão balsâmica de toranja», «tornedó de novilho salteado com foie gras trufado e creme de morilles», «dôme de baunilha recheada com avelã»… A dôme era mesmo isso: uma cúpula, como a de S. Pedro, bonita de ver e gostosa de saborear; quanto ao trufado era o tornedó e não o delicioso foie gras, porque o rodeavam lascas de apetitosas trufas, a que não resisti; sobre o significado de ‘morilles’ interroguei os companheiros de mesa, que diligenciaram numa explicação que não entendi muito bem, pelo que ora fui investigar: são cogumelos muito especiais, cuja designação parece não ter uma tradução precisa para português; que o seu creme se recomenda, isso sim!
            Foi o jantar acompanhado pela actuação – nem sempre em fundo – dos Citizen’s Band, dos Cat Green & Strangle Fellas e dos Dynamite, assim como de um suave branco alentejano e de um encorpado tinto do Douro, que nos prepararam para o champanhe ‘brut imperial’, de cave bem famosa, com que, trincadas as doze sultanas ao bradar da meia-noite, brindámos ao novo ano, tchim-tchim, companheiros, saúde!...
            Repleto, o Salão Preto e Prata do Casino Estoril.

O espectáculo
            Encantou, claro, Carlos do Carmo. A partir da meia-noite e três quartos. Mui gostosamente o fomos acompanhando, em reportório de todos bem apreciado. Contudo, importa dizer que, se apreciámos os fados e até pedimos mais um, assim como se aplaudiu com calor os seus convidados Marco Rodrigues e Raquel Tavares, o virtuosismo de um José Manuel Neto, à guitarra portuguesa, é do melhor que se pode escutar, porque o guitarrista acompanha, sim, mas dá largas ao seu dedilhar, como que parte à desfilada por esses vales e montes além, trinando alegre, para, no momento exacto, voltar ali, à serenidade do acompanhamento puro. Um espectáculo dentro do espectáculo! E Camané foi (ou não…) apanhado de surpresa: se queria vir até ao Salão Preto e Prata tinha de… pagar! E desceu, a pedido, lá da patilha de cima onde se acoitara, discreto. E que bem que pagou! Não apenas a duo com Carlos do Carmo, como acontecera com os outros dois fadistas, mas – tal como eles – também a solo, na voz quente, sem adstringência (!), com que nos brindou.
            E continuando nesta onda de ‘continente’ e de ‘conteúdo’, acrescentar-se-á que era exíguo o continente para os pares que se decidiram por um pé de dança. O palco, desta feita, não recuou nem baixou, mas todo o espaço disponível, aqui e além, foi bem aproveitado para, num balançar ritmado, se afastarem pensamentos menos apropriados ao celebrar a alegria de um renascer de esperança! Que se viva em 2015!

Publicado em Cyberjornal, edição de 03-01-2015:

sábado, 3 de janeiro de 2015

As pradarias marinhas

             Aprendemos na escola que há na água do mar o plâncton, miríades de minúsculos seres vivos que alimentam os peixes e toda uma riqueza animal que tem no oceano o seu habitat. E é quando nos mostram imagens desse mundo que sentimos quanto ele detém, para todos, uma importância fundamental!...
            Compreendo, por isso, a lamentação de um antigo aluno meu, Miguel Lacerda, apaixonado pela arqueologia subaquática e incansável lutador pela defesa do ambiente marinho (escreveu, por exemplo, Cascais Atlântico - Fauna Marinha de Cascais, livro lançado a 11-12-2008, um guia ilustrado com 416 páginas e 700 fotos), ao enviar-me imagens do abundante lixo que, numa das habituais campanhas de limpeza do oceano Clean up the World), logravam apanhar! E, sobretudo, chamava-me a atenção para uma, com a bateria de um barco, que, já fora de uso, algum mestre de faina não hesitara em atirar para o fundo, sabendo perfeitamente o crime de leso ambiente que estava a cometer.
            Rejubilei, pois, quando o Prof. Jorge Paiva, na sua incansável campanha natalícia de há décadas em prol da biodiversidade, escolheu para tema do seu bilhete-postal deste ano a «biodiversidade das pradarias marinhas». A fotografia, tirada em 20 de Abril de 2011 em Cuiba, Pemba, na costa moçambicana, mostra uma estrela-do-mar e um ouriço «numa pradaria marinha de Thalassia hemprichii», uma alga.
            Vivem nessas pradarias algas e plantas vasculares, salienta o professor, fonte de alimentação para «miríades de pequenos seres vivos […] desde peixes herbívoros a imensos moluscos e seres microscópicos». Por isso, acrescenta: «São, pois, ecossistemas de elevada biodiversidade e a sua preservação é extraordinariamente relevante para a riqueza piscícola de qualquer país com litoral marinho, pois, tal como os sapais e os mangais, são relevantes “maternidades” e “berçários” da vida marinha».
            Apelando para que cada vez se conheçam melhor estes habitats, dado que até os que vivem da pesca «frequentemente as destroem com as suas redes de arrasto», o seu voto é: que se tome consciência clara desta importante realidade!
            Naturalmente, um voto que faço meu, neste dealbar de um novo ano!

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 653, 01-01-2015, p. 13.

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

E, afinal, a geringonça não caiu!...

             Sobejamente conhecido o autor! António Torrado (Lisboa, 1939) tem dedicado a sua vida, desde os 18 anos, à escrita, mormente à literatura infantil, em que magistralmente se revela a sua brilhante aura pedagógica! Mais de 120 livros escritos, uma actividade imparável, em que se assinala o facto de ser, agora, o professor responsável pela disciplina de Escrita Dramatúrgica na Escola Superior de Teatro e Cinema e dramaturgo residente na Comuna.
            Quando lhe pediram uma auto-biografia, respondeu ser essa uma tarefa difícil:    «Tenho passado a vida a dar voz, em mil histórias, a gentes e coisas tão autênticas e fantasiosas como eu sou e serei. Os meus livros que falem por mim».
            Enorme curiosidade, pois, a minha, na estreia, a 20 de Dezembro, no Mirita Casimiro, da peça Atirem-se ao Ar (escrita em 2003 e publicada em 2012 pelo Caminho), que Pedro Caeiro encenou, com versão cénica de Miguel Graça, cenografia de Fernando Alvarez, música e som de Gonçalo Alegria (que também está em cena como locutor de rádio) e direcção de montagem de Manuel Amorim. No elenco, jovens ligados ao Teatro Experimental de Cascais.
            Diga-se desde já que – como é habitual – houve adaptações ‘locais’ do texto e – ao que me consta – cenas da Escola Profissional de Teatro de Cascais, onde Miguel Graça também é docente, acabaram por ser transpostas para o palco. Não! Nada de conclusões precipitadas! Aquela algazarra de endiabrados alunos, aquela aparente bandalheira – ainda o público se está a sentar e já tudo parece andar numa fona!… - nada têm a ver com a seriedade suma das aulas reais! Quiçá alguns tiques professorais, aquele veemente «calou!» (do professor, tão ironicamente incarnado por David Esteves!) e a rígida disciplina que de imediato provoca… Tudo é, porém, altamente sadio e a brincadeira que se instala, estudantes de teatro a fazerem de conta que representam, com uma deliciosamente azougada Beatriz Costa (bem interpretada por Raquel Oliveira), é mero pretexto para dar corpo a uma contestação: a dos senhores dos dirigíveis contra a (para eles) impossível viagem aérea de Gago Coutinho e de Sacadura Cabral de Lisboa ao Rio de Janeiro, em 1922. E há, naturalmente, saborosas picadelas pelo meio: quando, na conferência de imprensa (tinha de haver uma conferência de imprensa, pois então, para tão grande feito!...), alguém os acusa de estarem a desbaratar dinheiros públicos, logo alguém segreda: «É jornalista, dá-lhe um desconto!»; ou a observação em rima: «Se tivéssemos dinheiro como tínhamos dantes, o palco estava a abarrotar de figurantes!»…
            «Uma brincadeira de crianças efectuada por adultos, talvez seja isso o teatro» – escreve Miguel Graça. Na verdade, a intenção didáctica de contar como foi essa extraordinária aventura de dois portugueses («É difícil para nós, hoje, tão habituados ao progresso científico, capazes de ter a informação do mundo na palma da mão - e com GPS, para não nos perdermos – imaginarmos o que seria atravessar o Atlântico Sul num pequeno hidroavião […] sem ver terra nem a luz do dia quando caía a noite», é ainda Miguel Graça), essa intenção didáctica parece revestir-se aqui de uma brincadeira de crianças, que só o génio de dois pedagogos, o de António Torrado e o de Miguel Graça, poderia arquitectar.
            Gostámos. Deliciámo-nos. Rimos. Por exemplo, quando todos param e olham para uma porta imaginária, donde poderá vir o professor para os pôr na ordem («Não é ninguém! A porta está fechada!». O professor só aparecerá mesmo no fim, é Miguel Graça e os espectadores não resistem a uma boa gargalhada também! Bruno Ambrósio, José Condessa, Marta Correia são alunos; mas, dentre eles, há quem se metamorfoseie em Patacho (Bruno Bernardo), companheiro do Dr. Hélio (João Cachola, ex-major, doutor engenheiro…!). Sérgio Silva é Gago Coutinho; Filipe Abreu, Sacadura Cabral.
            Parece fácil quando se vê; tudo, no entanto, é estudado ao pormenor, o gesto, os figurinos, o som…
                E aquilo dá mesmo a ideia de ser tudo uma geringonça danada. A questão é: «Como é que o avião, tão mais pesado do que o ar, pode vencer o balão, tão menos pesado que o ar, e conquistar o espaço aéreo, dantes apenas frequentado pelos passarinhos?».
                Pois é. O certo é que eles conseguiram. Eles, os dois cientistas, convencer-nos; eles, os actores, divertir-nos.
                E ficam as lições. A do hidroavião e uma outra, que Miguel Graça não hesita em sublinhar na folha que nos é distribuída: «As personagens deste Atirem-se ao Ar não têm para onde ir e, por isso, inventam uma nova realidade». Para concluir:
                «Quando a crise financeira e económica e os conflitos religiosos e políticos preenchem o nosso quotidiano, é bom recordarmos que existiram homens destes, não só exemplos de coragem, mas sobretudo um paradigma daquilo que o Homem, quando foi Homem, sempre quis ser, alguém capaz de controlar o próprio destino, inimigo do desconhecido, capaz de ir sempre mais longe».
                A peça continuará em cena de 3 a 18 de Janeiro, aos fins-de-semana, com sessões especiais para escolas.

Publicado em Cyberjornal, edição de 30-12-2014:

           







           

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A magia dos perfumes que esconde outros mistérios

           Telefonou-me uma amiga a desejar boas-festas. Perguntei-lhe pelo filho. Estava em missão das Nações Unidas num arquipélago do Oceano Índico, ao largo de Moçambique. E a fazer o quê? Contou-me a história e eu não resisto a não a partilhar, omitindo apenas – por uma questão de diplomacia – o nome do arquipélago.
            Para já, o filho relatou-lhe que anda em calções e t-shirt e os indígenas com que se encontra vestem calça e casaco e gravata, porque pretendem assim equiparar-se aos europeus que, durante séculos, os escravizaram. E de que vivem? É o que vamos ver!
            Cresce ali a ylang-ylang, árvore que chega a atingir 20 metros de altura. Chegavam a atingir se as deixassem, pois, na actualidade, elas são podadas, mantidas, 'traumatizadas' a menos de 2 metros de altura para facilitar a recolha das suas lindas flores amarelas.
            Tem nome científico Cananga odorata, porque cheira muito bem (está, aliás, na origem do nome dado, em 1989, a uma telenovela da Manchete que passou entre nós: Kananga do Japão). E dela vivem os indígenas, porque a cortam, põem-na a destilar e obtêm assim um óleo deveras apreciado desde longa data, não apenas pela fragrância que exala mas porque é a matéria-prima para um dos perfumes mais cobiçados pelos Europeus e de que, nesta época natalícia, muita publicidade se faz, por ser caro e bem cobiçado pelo seu aroma forte e inconfundível. E o óleo essencial que da ylang-ylang também se extrai detém, reza a propaganda, outras magníficas e deveras importantes propriedades: é antidepressivo, antisséptico, afrodisíaco, hipotensor e pode ser usado como sedativo. Uma maravilha!
            Cada frasco obtido por destilação no alambique rende bem e contribui eficazmente para o indígena… dar nas vistas!
            E que está lá o filho da minha amiga a fazer? Facilmente se compreenderá: a estudar os meios de evitar a sangria da floresta, meio caminho andado para uma desertificação a breve trecho, se não forem tomadas medidas urgentes.
            Quem diria, pois, que aquele perfume tão propagandeado era originário lá bem de ilhas perdidas no Índico e que, para o obter, se estava a pôr em risco uma outra riqueza maior, que é o equilíbrio ambiental?

 
Publicado em Cyberjornal, edição de 25-12-2014:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&view=article&id=1136:a-magia-dos-perfumes-que-esconde-outros-misterios&catid=30:colunistas&Itemid=90

Coreografias para seniores

             É sabido quanto, num quotidiano em que quase tudo pode fazer-se sentado diante de um computador e nossas vidas se tornam cada vez mais sedentárias, o movimento assume importância capital, quer para manter os músculos activos quer para facilitar a oxigenação de todo o organismo.
            Nem sempre, porém, o ginásio nos serve nem as lições de dança. Foi isso que pensou Teresa Meira, dando corpo, entre nós, ao que já se vai fazendo por esse mundo fora: criar coreografias para seniores. Não é dança propriamente dita, não é ginástica: é movimentação em conjunto, ao som da música, num sorriso.
            No auditório do Centro Cultural de Cascais houve, no começo da tarde do passado dia 18, aquando  da Festa de Natal do Centro Engº Álvaro de Sousa, a apresentação do grupo que Teresa ali, com o maior agrado, tem preparado.
            Dez jovens, com idades compreendidas entre os 57 e os 86 anos mostraram como se consegue ser ágil, jovial e capaz de invejável sincronismo. Mui agradável de ver-se «Aleluia» e «Last Christmas», por exemplo.
            Parabéns!

Publicado em Cyberjornal, edição de 25-12-2014:

sábado, 20 de dezembro de 2014

E o esqueleto ressuscitou!

            Estamos habituados, nós, os arqueólogos, a lidar com os esqueletos exumados das escavações. Esqueletos de todas as épocas, desde a Pré-história à Época Moderna, em razoável estado de conservação muitas vezes, de modo que os antropólogos acabam por, inclusive, estudar eventuais doenças com que faleceram e deformações que tiveram, congénitas ou resultantes de traumas ocorridos durante a vida. Conseguimos identificar a idade, o sexo e, pelos materiais que os acompanham (amiúde uma moeda, supostamente para pagar a viagem para o Além…) e por outros vestígios, logramos determinar a época em que foram enterrados.
            Mui raramente encontramos cadáveres. E ainda recordo a emoção que tivemos, aquando das escavações prévias à construção da cripta, em 1978-1979, na igreja de S. Bartolomeu, em Coimbra, ao verificarmos que uma das jovens ali enterradas estava praticamente incorrupta…
            Uma emoção estranha, que se tem igualmente quando abraçamos alguém que é apenas pele e osso. Foi essa, de facto, a sensação angustiante que tive quando abracei meu tio Lázaro, no Centro de Medicina e Reabilitação do Sul. Pensei, naturalmente, o pior. Mas não! Mercê da excelência de cuidados que ali lhe foram prestados, meu tio renasceu, o esqueleto ganhou carne e, embora mantenha o aspecto franzino sobre que Vítor Barros já aqui escreveu («O Lázaro sempre foi pequenino»…), este Lázaro ressuscitou!
            Escusado será, pois, dizer que me insurjo contra esta mania de se querer acabar com as instituições que mantêm elevado grau de excelência nos serviços que prestam. E estou inteiramente do lado do nosso presidente da Câmara nas preocupações manifestadas perante a Administração Regional de Saúde do Algarve, a 10 de Novembro passado, de que Noticias de S. Braz se fez eco na pág. 8 da edição desse mês, e sobre que o nosso Director teceu mui sábias considerações no editorial, sob o título «Regredir».
            Urge, por conseguinte, que todos nos unamos numa luta que é, afinal, de todos, pela manutenção, em óptimas condições de funcionamento, de uma estrutura de saúde que honra S. Brás, o Algarve e o País!
        
Publicado em Noticias de S. Braz nº 216, 20-12-2014, p. 17.