quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Dá-me um abraço!

              Beijara-a, com a grande Amizade de há longos anos. Partilháramos projectos em prol da juventude para que vivesse melhor e em comunidade. Revivêramos, numa viagem, percursos antigos… Agora, encontrava-a ali, no corredor de saída do hipermercado, em época natalícia.
            Como estás?
             Estou. Fui operada, estou de baixa. Não tem sido fácil!
             E já arranjaste casa?
             Uma amiga deixa-me viver num dos quartos lá de casa. Não consegui encontrar nada. Tudo muito caro para as minhas posses.
            Que fazes?
            Olhou-me fixamente. Espreitaram-lhe nos olhos duas lágrimas furtivas. Senti que iria chorar. Peguei-lhe na mão, que apertou a minha – e pediu-me, voz trémula:
            Dá-me um abraço!
            Apertei-a contra o peito, numa ternura, indiferentes ambos a quem passava opor nos, gente atafulhada de compras natalícias na expectativa de confortável ceia em família. Beijámo-nos. A lágrima rolara-lhe mesmo face abaixo. Baixou o olhar, desejou-me bom ano, abalou.
            Fiquei pregado no chão, a tomar consciência do que efectivamente se passara. Não conseguira perguntar-lhe pelo marido, pela enteada a quem eu, aliás, enviara os parabéns há poucos dias, porque faz anos perto da minha data e eu não esqueço.
            Não tenho o número do seu telemóvel, só o endereço electrónico; mas, egoísta, não ouso agora perguntar-lhe como vai, como foi o Natal, que perspectivas 2015 lhe vai trazer.
            Dá-me um abraço!
            Por tudo e por nada, enviamos beijinhos. Somos capazes de dizer «Beijinhos!» para a pessoa a quem acabámos de beijar à despedida. Estereotipado beijinhos!... Nada que se compare à ternura do abraço amigo, num calor partilhado, numa presença que nos dois corpos se sente. Preciso urgentemente de voltar a dar-lhe um abraço! Precisamos mesmo!

            Publicado em Renascimento (Mangualde) nº 654, 15-01-2015, p. 12.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Histórias sobre a amizade

             Para além do tema em si, pleno de actualidade, o que decerto levou a que, de Outubro de 2012 a Fevereiro de 2013, o livro tivesse seis edições, é, a meu ver, a amenidade da forma da escrita do padre José Tolentino Mendonça. Nenhum Caminho Será Longo (Paulinas Editora, Lisboa, ISBN: 978-989-673-260-8, 240 páginas que se lêem num fôlego!) assume aquele jeito bíblico de entremear a explanação teórica com histórias breves, muitas da Bíblia, é certo, mas muitas outras retiradas do nosso quotidiano vivido.
            Gostei do livro, da sua estruturação em curtos subcapítulos. Inclusive da sua textura, do formato, do tipo de letra, do papel!… Um daqueles livros físicos que nos faz pensar quanto é penoso imaginar que, daqui a uns tempos quiçá, só haverá livros digitais!...
            Inspira-se o título num provérbio japonês, que constitui, de resto, a epígrafe do volume: «Ao lado do teu amigo, nenhum caminho será longo». Poderá ‘assustar’ o subtítulo «Para uma teologia da amizade», na presunção de que estaremos logo perante dissertações estranhas, alheias ao nosso dia-a-dia. Muito ao contrário! Acabamos por verificar que, afinal, nos importa cada vez mais fazer silêncio, e olhar com outros olhos o que habitualmente fazemos. Cita-se, por exemplo, Claude Lévy-Strauss: «A cozinha assinala a passagem da natureza para a cultura», para se afirmar que «a cozinha é o lugar da criatividade e da recomposição», na sequência de uma estranha frase de Santa Teresa, «Deus move-se por entre os púcaros» (p. 81)! Isto é, gestos comuns, maquinalmente executados, poderão vir a ser ‘outros’, se forem devidamente integrados em maior atenção.

Onde deixaste os sapatos?
            E, nesse aspecto, conta José Tolentino Mendonça uma história deliciosa. Adestrado numa filosofia zen, o discípulo prepara-se arduamente pois vai ser examinado pelo mestre. E, quando chega diante dele, «o mestre pergunta-lhe apenas: “Ao entrares agora, onde deixaste os sapatos? À direita ou à esquerda do armário?» (p. 86).
            Uma exortação à alegria, à celebração, «bem-aventurados aqueles que vivem uma história e a podem contar» (p. 145), porque, na verdade, se «o alaúde foi construído à navalha», o certo é que «depois solta uma música incrível». Um hino à liberdade de sermos nós próprios: «Uma pessoa que dominou a sua vida vale mais do que mil pessoas que dominaram somente o conteúdo de livros», é citação de Mestre Eckhart, que determina, de seguida, perspicaz observação: «Parece que temos de viver sete vidas num dia só, ofegantes, ansiosos, desencontrados e meio insones» (p. 221).
            Curiosa, nesse âmbito, a análise acerca do que nos rouba o tempo: «Os telefonemas que chovem e se prolongam por coisa nenhuma; os compromissos e obrigações sociais de mero artificialismo; as reuniões sem uma agenda preparada em vista de objectivos…» (p. 221).
            Alimentava-me eu, desde há mais de 30 anos, em textos de pensadores como os irlandeses Joseph Murphy e Emmet Fox ou o americano Merlin R. Carothers, meus livros de cabeceira. E tenho agora, em português, quem vai no mesmo sentido de nos mostrar que… vale a pena viver!

Publicado em Cyberjornal, edição de 2015-01-13:

Um «Corpo de Luz» encheu o Olga Cadaval!

            Foram três as sessões que encheram, na tarde e noite de sábado, 10 de Janeiro, o Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, para apresentação das classes de dança das Academias Ai! A Dança de Sintra I e II, Loures I e II, Santa Iria I e II, Pontinha, assim como de escolas com quem as academias celebraram protocolos e, também, outras escolas convidadas. «Corpo de Luz» foi o título dado ao espectáculo, tema que serviu, adiante-se desde já, para breve rábula cómica, destinada a descontrair e com o qual se celebrou a luz «fonte de inspiração divina e de respiração humana».
            Ao todo, mais de 700 pessoas (entre alunos e professores, vários até mais do que uma vez) estiveram em palco e, na verdade, impressiona o ‘quadro’ final, nos agradecimentos, em que, desde os mais pequenininhos de três anos (que deliciaram familiares e espectadores) aos que, de idade mais ‘entradota’ (70 anos), também consideram ser a dança uma actividade a que com muitas vantagens podem dedicar-se nos tempos livres, dadas as inúmeras potencialidades que representa como formação total da personalidade, tanto física como psiquicamente. Só quem não compreende o quanto a dança contribui para desanuviar da tensão quotidiana e para uma educação total de crianças, de jovens e de adultos é que se interrogará acerca da sua utilidade prática nos tempos escalavradamente positivistas em que estamos envolvidos. Bem anda, pois, o dinâmico entusiasmo de Lucília Bahleixo e seus directos colaboradores para levarem a bom porto este barco, contra ventos e adversas marés.
            Esse é, sem dúvida, o primordial aspecto a salientar: o da educação pela integração, desde mui tenra idade, mesmo para quem se julgue trôpego ou seja diferente – porque, também aqui, na diferença reside a riqueza!...
            Valsas, bailados clássicos em pontas, salsa, pontapeado, o sempre azougado hip hop, as sevilhanas vistosas, o orgulhoso flamenco, a sensual dança do ventre… tudo acompanhado por bem adequada banda sonora e ajustadas projecções visuais preencheram as duas horas de um espectáculo (assisti à 1ª sessão, das 15.30 h.) que teve Cristina Pereira como directora de cena, Pedro Rua como director técnico, Rui Braga na luz, para além, obviamente das maquilhadoras e das figurinistas.
            Apreciei de modo especial o quadro de abertura, dedicado ao enternecedor mistério da maternidade, protagonizado por uma mãe verdadeira quase no termo da gravidez, que, assim, em tocante realidade, nos manifestou, dançando, a doçura de trazer no ventre quem, porventura daqui a uns anos, acabará por pisar o palco também.
            Foram duas horas, num espectáculo em que os quadros se encadeavam uns nos outros, sem hiatos nem compassos de espera. Doutra forma não poderia ser, para possibilitar a todos a oportunidade de mostrarem quanto tinham aprendido. E talvez aqui resida uma reflexão que peço licença para sugerir, atendendo ao enorme êxito que as Academias Ai! A Dança estão, felizmente, a ter. É que, sobretudo se pensarmos nos mais pequeninos, duas horas é muito. E como em todos os ‘núcleos’ há as mesmas modalidades, os espectadores vêem-nas repetidas, se bem que com outros dançarinos (há, sobretudo, dançarinas – e seria interessante uma campanha para que os jovens do sexo masculino acorressem também…) e com diferentes figurinos e coreografias. A possibilidade de, em vez de um só espectáculo, em três sessões (bem sei que têm alinhamento distinto), se pensar em mais é capaz de ser uma hipótese não descabida.
            Mas que um espectáculo assim ainda merece um aplauso maior isso é que bem no merece! E é, na verdade, um encanto demorar, por exemplo, o olhar naquela pequenina além, toda entusiasmada, balançando-se, numa delícia… Pode não seguir exactamente os gestos e os passos que a professora faz e ela, observando-os, tenta imitar; pode, a dado momento – tal como o guitarrista que acompanha um fado parte por montes e vales a ensaiar outros ritmos… –, ir por aí além, em nova desenvoltura… Mas tenho a certeza de que estar ali lhe deu um gozo enorme, lhe encheu o peito de orgulho e, nessa noite, dormiu muito melhor e teve sonhos de bailar!...

Publicado em Cyberjornal, 2015-01-13:

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O Fio das Harpas, de Fernando Miguel Bernardes


            José d'Encarnação[*]

            Resisto a passar as páginas, antes de me consciencializar do que vou ler.
            O Fio das Harpas.
            Harpas contém ressonância antiga, límpida, a desdobrar-se em ondas sonoras pelo espaço. Não um espaço qualquer! Harpa requer recolhimento, em pequena sala aconchegada, em casebre de pedra nua perdido na encosta num aninhar de lareira, sombra vasta de árvore a acolher rebanho em hora de acarro – pois seja: que o tilintar da guizalhada não se compadece com o vibrar das suas cordas…
            Fio – com fio se faz um tecido para aquecer mágoas e confortar rudezas; com fio se cortam maldades, se talham esconjuros… Por um fio se passa, se vive, se morre, se grita – que ele também são fios as nossas cordas vocais.
            O Fio das Harpas promete, pois, sossego, sim, a maviosa envolvência; mas também o gume que não hesite em cortar!
            Vamos ver!
            São quase 200 páginas de caminho. Deixar-nos-emos embalar!
            Olá!... A caminhada promete – que por ali andou o lápis azul, a confiscação compulsiva. E vozes do nosso actual – e eterno! – descontentamento. Baladas. O Zeca, o Zé Jorge, o Adriano… Estamos, pois, em boa companhia! Recorda-se a velha casa e os anciãos que a encheram. Os companheiros de viagem – idos ou ainda presentes, perdidos nunca!
            E cá está a árvore! As folhas são os fios das harpas que resistem, a cantar, mesmo que com vinagre insistam em lhes regar as raízes. Que elas sabem morrer de pé! E sempre haverá flores, mesmo que o chão seja sombrio! Sempre – porque nós, porque o poeta o quer!...
            «Fico contente se versos faço», se para isso ainda tenho liberdade, pois, no mar, «eu vejo clamores pela paz». No mar, nos guindastes de aço, nas chaminés fumegantes, nos bancos das escolas… Canto a terra – não pelo bem que ela tenha, mas pelo que eu para ela sonho; canto o povo:
 
            «Se poeta sou
            Sei a quem o devo»
 
            – estes são, seguramente, dois dos versos mais significativos de Fernando Bernardes, que acrescenta:
 
            «Ao povo a quem dou
            Os versos que escrevo».

                        Da sua vida rude
                        Colhi a poesia
                        Tentei quanto pude
                        Dar-lhe melodia (p. 26)

            Assume-se o poeta como um arauto, um elo de ligação. Não está sozinho, não, porque o que escreve é dele e das gentes com quem lida e luta, das terras em que se situa e, livre, quer criar raízes. Há, pois, este diálogo sempre! Não se perde em filosofias, em rodriguinhos de estilo, não. Pão pão queijo queijo – mas sempre de uma forma esbelta e, se possível, cantada, ritmada, prenhe de melopeia...
            Que se aprenda, que se baile, que se trauteie num ápice – porque apetece, qual rio que brinca por entre as pedras, pássaro que saltita de ramo em ramo, onda que desmaia na areia mas quer deixar rasto…
            E todo o Universo é convocado para a sinfonia, num conluio amoroso que não é só o da pessoa amada, porque, aqui, amada é a mulher (sim), no lirismo a que não há poeta português que, algum dia, consiga escapar, mas são as gentes, os irmãos…
 
            «Apeia-se o rei e o trono
            põe o pé ao pé do meu
            tu comigo somos dois
            quem ficou só já perdeu» (p. 110).

                        «Se estou ao pé de ti
                        foge-me o tempo entre os dedos…
                        Se longe alongam-se os dias
                        como em prisão, nos segredos» [1962] (p. 44).

                                               Esta noite choveu muito,
                                               de manhã fui ver o mar.
                                               Esta noite amei-te tanto,
                                               Sereno fiquei – de te amar… (p. 70).

            E, por falar em lirismo, sentir-se-ão bastas vezes os ecos das cantigas de amigo e de amor d’outrora e de sempre, que o poeta é trovador mesmo e sonha em ir de porta em porta, de corte em corte, de arraial em arraial, a dizer de sua justiça – «quero a paz do tempo conquistado» –, a colher cravos onde outrem teimou em semear abrolhos:
 
            Amarga-me a boca
            Do travo da vida
            – minha voz tão solta
            Onde foi perdida?

                        Menino de escola
                        Alegre e ridente
                        – onde foi perdida
                        Minha voz contente? (p. 31)

                                               Ai flores, ai flores do verde pino
                                               Se sabedes novas do meu amigo
                                               Ai Deus i o é?

                                                           Ai flores ai flores do verde prado
                                                           Se sabedes novas do meu amado
                                                           Ai Deus i o é?

            Uma delícia este ritmo de embalar:
 
                                   vi-te vi-te verde
                                    na pedra a cismar… (p. 84)

                        vermelho vermelho sangue…

            No Inverno bato o queixo
            – qualquer dia, qualquer dia!...

                        No Inverno aperto o cinto
                        – qualquer dia, qualquer dia!... (p. 34)

            Irmão camponês, acredita: qualquer dia, qualquer dia. E esse dia virá! «Que também na lama do Nilo vicejam as flores de lótus»… (digo eu). Que «um Homem mesmo longe mete medo» (p. 95).
            Ecos do nosso folclore, em que até a cana verde, algo de comezinho no nosso dia-a-dia actual – quem há aí que veja uma cana verde, que oiça o sussurrar do vento pelo canavial, que saiba, até, onde há canaviais?!... – até a cana verde é ponto de referência. Nela pousou a esperança, apesar do vento, ela aguentou-se lá. Por pouco tempo, parece, porque… pelo restolho se perdeu… (p. 89-90).
            E a mulher dos farrapos mexia e remexia no caixote. Tirou meio pão duro, tirou pente velho, tirou uma flor. Mirou-a, mirou-a e… sussurrou: «Bom dia!». (p. 50) – porque, nós queremos e proclamamos: «Hoje não há cifrões mas uma flor!» (p. 112).
            E relemos a história do Fio de Água – tem Alentejo fronteiras, terras largas vista grande… Alguém hoje se admira que Fio de Água por lá ande?» (p. 62)
            E ele há também por i poemas a partir de mote, quase à moda de além-Tejo:
 
            Papão negro ave torva
            Muito bonda o desatino
            Vai-te embora em má hora!
 
            Deixa dormir o menino…
                                                           Um soninho descansado. (p. 82)


            Pronto, já li. Já saboreei. A longos haustos. Num comboio cheio de ir e vir Cascais – Cais do Sodré – Cascais. E continuei no autocarro e assentei-me no banco do meu jardim, que, junto às brancas orquídeas, aos antúrios bem vermelhos, com o Maio ao colo, ronronando embora, tinha de acabá-lo já. Sem tardança, que apetecia ler, ler… até final.
            Acabei e apetece-me agora voltar atrás, a outras páginas que anotei para releitura serena.
            Que linda a história do buraquinho onde o menino depositou pedras de sal, um pirilampo, suor e esperança, antes de adormecer. De manhã, nada nascera. A avó enganara-o na esperança e ele perguntou: mas não há aí uns senhores que põem sal, pirilampos.... e não se preocupam nem com o suor nem com a esperança e… a coisa resulta?… Como é, avó?  (p. 83).
            Essa flor não nasceu, menino. Nem outras.

            «Renascer uma rosa, amigo Urbano, quando não há Primavera há tanto ano!...» (p. 101).

            E sabes porquê? Porque sob as frondosas faias se treinam cavalos, homens, cães-polícias, enquanto Pedro, na sua boa fé, vai construindo prédios… (p. 106). E quando soar a palavra pão, virão tiros, pegadas, baba – confusão! Porque… «Há o que diz que sim e diz que não / conforme a meia cara com que fala» (p. 115) e o importante senhor «viu escadas subiu escadas / ficou ao nível das gruas / e ao nível dos cifrões / Não ao nível das pessoas» (p. 130), embora alicie: «Come o milho, passarinho, vem cá abaixo à minha mão»; mas… «o passarinho tem asas: antes morto que no chão! (p. 124).
            Vem o título do livro de um poema (p. 138), breve como o são quase todos, de que me prendeu, de modo especial, a 1ª quadra, numa invocação às «doces aves» que – com esse fio das harpas – vão tecendo o tempo… São as andorinhas da capa, em revoada no azulejo, sedentas de insectos, em algazarra, não são, Fernando? Primavera após Primavera… Este, um poema de 1980, onde, se calhar, carecia haver em cima, ao jeito de José Gomes Ferreira, uma breve frase, em itálico, a contar do motivo da inspiração e da frase, porque, de seguida, há estranhas perguntas à mãe: sobre esse mesmo tempo, sobre açucenas por regar, sobre penas que se revivem. Este tempo que voa… tem doçuras, tem flores imaculadas, tem penas de doer…
            E quase nos apetece ficar no rochedo, à beira-mar, ouvindo o piar das aves, o marulhar das ondas… e as açucenas por regar…
            Poeta, que queres tu? Que o tempo não voe, que as flores nunca murchem, que as penas desapareçam? Não, poeta! Estás a querer o impossível, ainda que amor de mãe tudo suplante e saiba inventar melopeias e te ofereça os perfumes que inebriam as penas!...

            Disse amor e fez o gesto
            Disse amor e deu a mão

            Este é um daqueles momentos a eternizar, Fernando! E que bonito que é!

            «Disse amor e pensou homem
            disse homem pensou irmão». (p. 139)

            Nisto nos levam a palma os poetas, quando, com palavras simples, são do tamanho do mundo!
            Termina-se na «construção por vir». Diria eu, a construção que se faz, que se quer fazer, que urge fazer! Para que, na realidade, haja no topo as flores e, espraiando a vista por zimbórios e terraços, de uma vez por todas, dali se veja luz, muita luz e nunca, nunca, a terrível mordaça que silencia, que impõe negras vendas nos olhos, que castiga o grito e ameaça a revolta!
            Que, afinal, Amigos, é de fraternidade a mensagem, fraternidade em construção, uma construção difícil, sim, mas tremendamente consoladora:

            Pedra sobre pedra
            a mão
            o muro abraça!  (p. 154)

                                                           Abracemo-lo!


[*] O texto reproduz a apresentação feita, a 27 de Maio de 2009, no Palácio das Galveias, em Lisboa, do livro em epígrafe, editado por Mar da Palavra – Edições, Lda., Coimbra, Maio de 2009; ISBN: 978-972-8910-39-6.

domingo, 4 de janeiro de 2015

O continente e o conteúdo na passagem d’ano do Casino Estoril

            Acho sempre muita piada aos rótulos dos vinhos. «Um vinho macio, com alguma adstringência e corpo mediano e elegante». Bebo um copo e outro mais, e fico a pensar no tal ‘corpo mediano e elegante’…
            Lembrei-me disso, ao ler a ementa: «Lavagante da costa atlântica com emulsão balsâmica de toranja», «tornedó de novilho salteado com foie gras trufado e creme de morilles», «dôme de baunilha recheada com avelã»… A dôme era mesmo isso: uma cúpula, como a de S. Pedro, bonita de ver e gostosa de saborear; quanto ao trufado era o tornedó e não o delicioso foie gras, porque o rodeavam lascas de apetitosas trufas, a que não resisti; sobre o significado de ‘morilles’ interroguei os companheiros de mesa, que diligenciaram numa explicação que não entendi muito bem, pelo que ora fui investigar: são cogumelos muito especiais, cuja designação parece não ter uma tradução precisa para português; que o seu creme se recomenda, isso sim!
            Foi o jantar acompanhado pela actuação – nem sempre em fundo – dos Citizen’s Band, dos Cat Green & Strangle Fellas e dos Dynamite, assim como de um suave branco alentejano e de um encorpado tinto do Douro, que nos prepararam para o champanhe ‘brut imperial’, de cave bem famosa, com que, trincadas as doze sultanas ao bradar da meia-noite, brindámos ao novo ano, tchim-tchim, companheiros, saúde!...
            Repleto, o Salão Preto e Prata do Casino Estoril.

O espectáculo
            Encantou, claro, Carlos do Carmo. A partir da meia-noite e três quartos. Mui gostosamente o fomos acompanhando, em reportório de todos bem apreciado. Contudo, importa dizer que, se apreciámos os fados e até pedimos mais um, assim como se aplaudiu com calor os seus convidados Marco Rodrigues e Raquel Tavares, o virtuosismo de um José Manuel Neto, à guitarra portuguesa, é do melhor que se pode escutar, porque o guitarrista acompanha, sim, mas dá largas ao seu dedilhar, como que parte à desfilada por esses vales e montes além, trinando alegre, para, no momento exacto, voltar ali, à serenidade do acompanhamento puro. Um espectáculo dentro do espectáculo! E Camané foi (ou não…) apanhado de surpresa: se queria vir até ao Salão Preto e Prata tinha de… pagar! E desceu, a pedido, lá da patilha de cima onde se acoitara, discreto. E que bem que pagou! Não apenas a duo com Carlos do Carmo, como acontecera com os outros dois fadistas, mas – tal como eles – também a solo, na voz quente, sem adstringência (!), com que nos brindou.
            E continuando nesta onda de ‘continente’ e de ‘conteúdo’, acrescentar-se-á que era exíguo o continente para os pares que se decidiram por um pé de dança. O palco, desta feita, não recuou nem baixou, mas todo o espaço disponível, aqui e além, foi bem aproveitado para, num balançar ritmado, se afastarem pensamentos menos apropriados ao celebrar a alegria de um renascer de esperança! Que se viva em 2015!

Publicado em Cyberjornal, edição de 03-01-2015:

sábado, 3 de janeiro de 2015

As pradarias marinhas

             Aprendemos na escola que há na água do mar o plâncton, miríades de minúsculos seres vivos que alimentam os peixes e toda uma riqueza animal que tem no oceano o seu habitat. E é quando nos mostram imagens desse mundo que sentimos quanto ele detém, para todos, uma importância fundamental!...
            Compreendo, por isso, a lamentação de um antigo aluno meu, Miguel Lacerda, apaixonado pela arqueologia subaquática e incansável lutador pela defesa do ambiente marinho (escreveu, por exemplo, Cascais Atlântico - Fauna Marinha de Cascais, livro lançado a 11-12-2008, um guia ilustrado com 416 páginas e 700 fotos), ao enviar-me imagens do abundante lixo que, numa das habituais campanhas de limpeza do oceano Clean up the World), logravam apanhar! E, sobretudo, chamava-me a atenção para uma, com a bateria de um barco, que, já fora de uso, algum mestre de faina não hesitara em atirar para o fundo, sabendo perfeitamente o crime de leso ambiente que estava a cometer.
            Rejubilei, pois, quando o Prof. Jorge Paiva, na sua incansável campanha natalícia de há décadas em prol da biodiversidade, escolheu para tema do seu bilhete-postal deste ano a «biodiversidade das pradarias marinhas». A fotografia, tirada em 20 de Abril de 2011 em Cuiba, Pemba, na costa moçambicana, mostra uma estrela-do-mar e um ouriço «numa pradaria marinha de Thalassia hemprichii», uma alga.
            Vivem nessas pradarias algas e plantas vasculares, salienta o professor, fonte de alimentação para «miríades de pequenos seres vivos […] desde peixes herbívoros a imensos moluscos e seres microscópicos». Por isso, acrescenta: «São, pois, ecossistemas de elevada biodiversidade e a sua preservação é extraordinariamente relevante para a riqueza piscícola de qualquer país com litoral marinho, pois, tal como os sapais e os mangais, são relevantes “maternidades” e “berçários” da vida marinha».
            Apelando para que cada vez se conheçam melhor estes habitats, dado que até os que vivem da pesca «frequentemente as destroem com as suas redes de arrasto», o seu voto é: que se tome consciência clara desta importante realidade!
            Naturalmente, um voto que faço meu, neste dealbar de um novo ano!

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 653, 01-01-2015, p. 13.

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

E, afinal, a geringonça não caiu!...

             Sobejamente conhecido o autor! António Torrado (Lisboa, 1939) tem dedicado a sua vida, desde os 18 anos, à escrita, mormente à literatura infantil, em que magistralmente se revela a sua brilhante aura pedagógica! Mais de 120 livros escritos, uma actividade imparável, em que se assinala o facto de ser, agora, o professor responsável pela disciplina de Escrita Dramatúrgica na Escola Superior de Teatro e Cinema e dramaturgo residente na Comuna.
            Quando lhe pediram uma auto-biografia, respondeu ser essa uma tarefa difícil:    «Tenho passado a vida a dar voz, em mil histórias, a gentes e coisas tão autênticas e fantasiosas como eu sou e serei. Os meus livros que falem por mim».
            Enorme curiosidade, pois, a minha, na estreia, a 20 de Dezembro, no Mirita Casimiro, da peça Atirem-se ao Ar (escrita em 2003 e publicada em 2012 pelo Caminho), que Pedro Caeiro encenou, com versão cénica de Miguel Graça, cenografia de Fernando Alvarez, música e som de Gonçalo Alegria (que também está em cena como locutor de rádio) e direcção de montagem de Manuel Amorim. No elenco, jovens ligados ao Teatro Experimental de Cascais.
            Diga-se desde já que – como é habitual – houve adaptações ‘locais’ do texto e – ao que me consta – cenas da Escola Profissional de Teatro de Cascais, onde Miguel Graça também é docente, acabaram por ser transpostas para o palco. Não! Nada de conclusões precipitadas! Aquela algazarra de endiabrados alunos, aquela aparente bandalheira – ainda o público se está a sentar e já tudo parece andar numa fona!… - nada têm a ver com a seriedade suma das aulas reais! Quiçá alguns tiques professorais, aquele veemente «calou!» (do professor, tão ironicamente incarnado por David Esteves!) e a rígida disciplina que de imediato provoca… Tudo é, porém, altamente sadio e a brincadeira que se instala, estudantes de teatro a fazerem de conta que representam, com uma deliciosamente azougada Beatriz Costa (bem interpretada por Raquel Oliveira), é mero pretexto para dar corpo a uma contestação: a dos senhores dos dirigíveis contra a (para eles) impossível viagem aérea de Gago Coutinho e de Sacadura Cabral de Lisboa ao Rio de Janeiro, em 1922. E há, naturalmente, saborosas picadelas pelo meio: quando, na conferência de imprensa (tinha de haver uma conferência de imprensa, pois então, para tão grande feito!...), alguém os acusa de estarem a desbaratar dinheiros públicos, logo alguém segreda: «É jornalista, dá-lhe um desconto!»; ou a observação em rima: «Se tivéssemos dinheiro como tínhamos dantes, o palco estava a abarrotar de figurantes!»…
            «Uma brincadeira de crianças efectuada por adultos, talvez seja isso o teatro» – escreve Miguel Graça. Na verdade, a intenção didáctica de contar como foi essa extraordinária aventura de dois portugueses («É difícil para nós, hoje, tão habituados ao progresso científico, capazes de ter a informação do mundo na palma da mão - e com GPS, para não nos perdermos – imaginarmos o que seria atravessar o Atlântico Sul num pequeno hidroavião […] sem ver terra nem a luz do dia quando caía a noite», é ainda Miguel Graça), essa intenção didáctica parece revestir-se aqui de uma brincadeira de crianças, que só o génio de dois pedagogos, o de António Torrado e o de Miguel Graça, poderia arquitectar.
            Gostámos. Deliciámo-nos. Rimos. Por exemplo, quando todos param e olham para uma porta imaginária, donde poderá vir o professor para os pôr na ordem («Não é ninguém! A porta está fechada!». O professor só aparecerá mesmo no fim, é Miguel Graça e os espectadores não resistem a uma boa gargalhada também! Bruno Ambrósio, José Condessa, Marta Correia são alunos; mas, dentre eles, há quem se metamorfoseie em Patacho (Bruno Bernardo), companheiro do Dr. Hélio (João Cachola, ex-major, doutor engenheiro…!). Sérgio Silva é Gago Coutinho; Filipe Abreu, Sacadura Cabral.
            Parece fácil quando se vê; tudo, no entanto, é estudado ao pormenor, o gesto, os figurinos, o som…
                E aquilo dá mesmo a ideia de ser tudo uma geringonça danada. A questão é: «Como é que o avião, tão mais pesado do que o ar, pode vencer o balão, tão menos pesado que o ar, e conquistar o espaço aéreo, dantes apenas frequentado pelos passarinhos?».
                Pois é. O certo é que eles conseguiram. Eles, os dois cientistas, convencer-nos; eles, os actores, divertir-nos.
                E ficam as lições. A do hidroavião e uma outra, que Miguel Graça não hesita em sublinhar na folha que nos é distribuída: «As personagens deste Atirem-se ao Ar não têm para onde ir e, por isso, inventam uma nova realidade». Para concluir:
                «Quando a crise financeira e económica e os conflitos religiosos e políticos preenchem o nosso quotidiano, é bom recordarmos que existiram homens destes, não só exemplos de coragem, mas sobretudo um paradigma daquilo que o Homem, quando foi Homem, sempre quis ser, alguém capaz de controlar o próprio destino, inimigo do desconhecido, capaz de ir sempre mais longe».
                A peça continuará em cena de 3 a 18 de Janeiro, aos fins-de-semana, com sessões especiais para escolas.

Publicado em Cyberjornal, edição de 30-12-2014: