sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Terra Fria Terra Quente – um romance de costumes

            Em nota que publiquei a 7 de Janeiro de 2014, referi-me a este livro Terra Fria Terra Quente, da autoria de Maria José Corrêa Pinto, que fora editado por Exoterra, em Novembro de 2013. Salientei, então, que ainda o não lera e que era minha intenção lê-lo. Ora o li – e dessa leitura aqui peço licença para exarar as minhas anotações.

Um romance de costumes
            O facto de apresentar bibliografia no final leva-nos a supor que não terá sido apenas uma experiência real e concreta – se é que a houve, o livro não o denuncia expressamente – que esteve no cerne da narrativa, mas também o estudo haurido em obras da especialidade. Não é, porém, uma obra histórica, obediente às regras de citação, por exemplo, que um texto com essas características postularia.
            Dois livros estão, porém, presentes do princípio ao fim, para identificarem os capítulos (só três vezes, decerto por lapso tipográfico, os capítulos não são individualizados): Os Lusíadas, de Camões, e Só, de António Nobre. De ambos se transcrevem passagens em sintonia com o tom geral que o capítulo vai ter. Capítulos curtos, que começam frequentemente com o nascer do dia ou uma referência de tipo climatérico.
            Ousaria classificar a narrativa não como um romance histórico mas como um romance de costumes, uma vez que trata da história de uma família da classe média flaviense em plena II Grande Guerra. É todo esse ambiente que ali é descrito, em pormenor: os costumes, os hábitos quotidianos (das famílias, dos pais, das crianças…), o viver social e económico, a tensão que paira mesmo numa cidade de província sob o espectro velado do salazarismo omnipresente, as dificuldades que o racionamento dos géneros alimentícios acarretavam…
            Há, de modo especial, o retrato urbano de Chaves nos anos 40, abundantemente ilustrado pela oportuna inclusão de postais ilustrados (editados pela célebre Tipografia e Papelaria Mesquita, de Chaves), com vistas dos aspectos mais significativos da cidade: as ruas do comércio, o Jardim Público, a ponte romana, as poldras, as igrejas, os largos…
Chaves - as termas na década de 40
            Há, porém, especificamente, o retrato social: histórias de adultérios e mulheres da vida, miséria, as brincadeiras dos miúdos (o romisco, o pucarinho, os verdelhos…), os ditos populares, as rezas, o leituário, as palavras típicas («zerbada», as «sebas»…). E a rádio e os jornais que vão pondo a população ao corrente não apenas da guerra que na Europa se desenrola nessa primeira metade dos anos 40, mas também das tentativas de sublevação e greves, a manifestarem o descontentamento do Povo para com a política salazarista, a secreta vigilância dos agentes da PIDE… Aparece um jornalista a hospedar-se na pensão que a mãe da protagonista tem, destinada, sobretudo, a albergar quem vem às termas; a ideia é fazer a reportagem das inundações que afectaram a cidade (e lá está um postal a mostrá-las); contudo, ao serão, não se inibe de dar conta, a meia voz, do que sabe acerca do que se passa por esse País além, o trabalho de sapa dos comunistas...

As tradições de cá e de lá
            O enredo começa com a ida para Moçambique, mais propriamente para Nacala, terra de Macuas, do marido de Leonor, Miguel Afonso, em busca de melhor vida; assim pagaria as dívidas e, se tudo corresse de feição, em breve a família estaria lá com ele.
            É, pois, nestes anos de separação que reside o cerne da narrativa, a possibilitar a descrição, tanto de um lado como do outro, do que eram as tradições locais. Se assistimos, em Chaves e arredores, à descrição de como se ensinavam, na escola, as primeiras letras, às superstições (o miúdo de três anos que não fala e se põe num saco para curar-se… p. 244), às tradições natalícias e aos cantares do Dia de Reis, aos festejos do Entrudo, a um «Cortejo de Oferendas», à matança do porco, à romaria de S. Caetano ou da Senhora do Amparo, às comemorações do São Martinho… também do lado do marido, nomeadamente através da correspondência, ficamos a saber como se fazia a iniciação dos rapazes, como eram as caçadas (p. 193-194), o casamento macua, o cerimonial que envolvia o nascimento de uma criança, a figura do missionário que evoca a história da região, os feitiços a que se lançava mão para se obter a misericórdia divina, e até saboreamos, aqui e além, o linguajar indígena (p. 264-267, por exemplo)…
            Aliás, se, como atrás se disse, os capítulos têm epígrafe poética a abri-los, explicita-se no índice (p. 6 e 7) o seu conteúdo, de forma que o livro, depois de ‘devorada’ a história, pode servir de documentário acerca dessas cerimónias tradicionais. De resto, aproveita-se, inclusive, o facto de um mocinho negro ter sido deportado para S. Tomé, por brincar com uma menina branca, para também se fazer da vida nessa ilha circunstanciada descrição.
            E se são anotados os problemas económicos da protagonista (também!) e os socioeconómicos (a frequente morte de crianças à nascença, nessa época, por via das gastroenterites, os parcos rendimentos de uma agricultura dependente das contingências climatéricas…), procura fazer-se igualmente uma análise psicológica: que pensa uma mulher com filhos nos braços para sustentar, quando o marido está longe mais de cinco anos, a viver num meio para ela totalmente desconhecido, sabendo como são os homens e as mulheres? E, claro, como é a matreirice da vizinhança, sempre pronta a agudizar suspeições…
            Não poderia a autora deixar de mostrar, aqui e além, a sua veia poética. Maria Leonor faz sonetos, que surgem de vez em quando nas suas cartas; a «odisseia do povo macua» (p. 281-284) tem forma de poema quase heróico.

Quatro dados a salientar
            Para além do mais, quatro dados gostaria de salientar, pela sua oportunidade como memória de uma época:
            Era caseiro o fabrico do pão (p. 242). Cada família fazia a sua fornada, ainda não havia padarias e foi, aliás, para trabalharem na panificação que muitos portugueses emigraram para a Venezuela e para o Brasil.
            O lugar de destaque que tinha, no Norte, a Praia da Granja, como pólo de atracção do veraneio (p. 240), ainda hoje bem patente nas casas típicas dessa época, em arte nova, a mostrar o requinte da burguesia que as procurava ou mandara construir.
            Hoje, que há cursos de Jornalismo e de Comunicação Social, pode ter-se a impressão de que sempre assim foi. Impõe-se, por consequência, como inteligente reflexão o facto de se dizer do atrás referido jornalista: «Ele tinha tido a sorte de fazer alguns estudos no liceu e, como escrevia bem, arranjara emprego num jornal. Conseguia fazer face à vida, mas trabalhava muito» (p. 172).
            A referência às botijas como forma de se aquecerem os pés na cama (p. 246). Foi costume que perdurou até bem dentro da década de 50: as botijas eram as garrafas de grés da genebra, bem cilíndricas e estreitas, que vedavam bem e se mantinham quentes durante muito tempo. A genebra era uma aguardente muito em voga, feita nos Países Baixos a partir da destilação do zimbro (daí, a designação zinebra, que deu ‘genebra’).
 
A dúvida
            No final, confesso, ficou-me a dúvida – mormente agora que estão a surgir narrativas do tempo colonial, de antes, de durante e do após-conflitos – se algumas das páginas não são descrições do que a autora viveu.
            Escreve-se numa das badanas que se abordam aqui «aspectos do Portugal salazarista (Metrópole – colónia) que muito a intrigaram e impressionaram». Há, contudo, na pág. 192, a seguinte frase: «Assim que os deixámos de ver [os búfalos], um grupo de elegantes e delicadas gazelas debruaram as margens do lago». A narração é sempre feita na terceira pessoa e, aqui, inopinadamente, surge a primeira pessoa do plural, como se a autora estivesse a copiar um relato e se houvesse distraído na transcrição
            Claro, eu poderia perguntar-lhe, inclusive se as fotos das capas correspondem à família de que se conta a história. Aparentemente, sim: na da capa, há o pai, a mãe, as três filhas e o filho, mais pequenino; na quarta capa, um homem (é o mesmo da capa) mostra uma cria de leopardo, qual troféu de caça. Uma verificação se impõe: o facto de ter assinado com o nome de solteira denuncia a vontade, como já assinalei, de um retorno à infância, cujas memórias aqui mui minuciosamente se deixam exaradas. Se são de familiares seus ou de pessoas muito próximas ou se tudo não passa de mera ficção – cada um que pense como lhe parecer melhor.
            Certo é que Terra Fria Terra Quente constitui, sem pretensões literárias nem de estilo (nota-se, aqui e além, alguma dificuldade no uso da pontuação), o retrato de uma geração. No final, embarcados no paquete Angola, que zarpa da doca de Alcântara, Maria Leonor e os filhos demandam Moçambique. Fica-se a saber dos seus primeiros tempos lá e da adaptação (difícil) que lhes foi exigida. Imaginamos o resto: o sacrifício, aliado ao espírito compreensivo de ambos para com a população indígena, terá valido a pena – numa felicidade, enfim, bem merecida.
                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 13-02-2015:

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Há gente muito mal intencionada!

             Mal intencionada e sempre descontente, de mal com a vida! Que diabo! Criam rugas na testa, dão azo a úlceras no estômago, insistentes dores de cabeça (cefaleias ou hemicranias, em linguagem técnica, que, de vez em quando, também a gente tem de mostrar que sabe dessas doenças…).
            Pois é. Lutou o pessoal por causa do caríssimo remédio para a hepatite C; luta longa, quase diária, mas… guerra vencida! E logo vieram os tais senhores: «Que sim, foi bom, mas podia ter-se evitado uma morte!». É como aquele pai a quem o filho diz «Podes assinar-me o ponto de matemática?». O puto apanhou 92 % e o pai, com voz de ameaço: «Para a outra vez, quero 100%, ouviste?». E o puto, que estava todo contente, até fora o melhor da turma, olhou para o pai «isto não vale mesmo a pena, velhos não percebem nada!».
            Pois é. «Olha, Manel, tá um lindo dia de sol!». E o homem remoca: «Mas prá tarde já dá chuva!».
            «Sol na eira, chuva no nabal» – proclama o adágio que é isso que o povo quer!
            Já começou o derrube do esqueleto arquitectónico no largo da estação de Cascais. «Já não era sem tempo, livra! Esta gente anda toda a dormir na forma! Se já se viu! O tempo que aquilo demorou!». Não era de deitar foguetes e de aplaudir? Não: há é que pô-los debaixo da canga, porque nunca se sabe o que vai sair dali e, se os louvamos, enchem-se como os balões e não há quem os agarre…
            Muita gente até é capaz de ir à missa dominical. Distraidamente, quiçá, lá ouve o sacerdote rezar, logo no começo do cânone: «Na verdade, é verdadeiramente justo, necessário e salutar dar-Vos graças, em todo o lugar e sempre, Senhor!». Agradecer – o contrário de estar, de contínuo, pronto ao remoque. Agradecer num sorriso distende os músculos, até à tez acaba por fazer bem!...

Essa história dos transportes
            Tenho um dossiê de 36 páginas intitulado «A verdade sobre a dívida das Empresas Públicas de Transporte – Origem, responsabilidades e os interesses que a mesma serve». Explicita-se concretamente:
            «E assim, ao longo de anos, foram os Governos fazendo obras através das empresas públicas mas sem as pagar, obrigando as empresas a recorrer crescentemente ao financiamento necessário, não só para pagar o investimento como também para pagar os juros desses empréstimos».
            Tudo uma embrulhada, está bem de ver.
            E o cascalense pergunta, a propósito do edifício da super-esquadra da PSP, ali sobre o passeio da Av. Adelino Amaro da Costa: «Está a obra parada, porquê?». E o vizinho explica: «O empreiteiro faliu». «E porque é que foi implantada às avessas, o alto para a rua e o baixo para as traseiras?». «Porque ninguém disso se apercebeu a tempo!». «Desculpa?!». «Sim, ninguém se apercebeu! Só muito mais tarde!». «Estás a mangar comigo e eu a ver!». «Não estou. Ninguém viu ou, se viu, assobiou para o lado». «Nem o senhor Arquitecto Troufa Real?». «Nem o senhor arquitecto».
            Assim essa das empresas de transportes. Ninguém vê. Ou se alguém vê…

 Houve um acordo de Londres
            Maledicências está visto. Não há gente que veja com olhos piedosos!...
            Por exemplo, essa de terem ido descobrir que, a 27 de Fevereiro de 1953, se celebrou em Londres um acordo acerca da dívida alemã de 32 biliões de marcos. Perdoou-se-lhe 50% (entre os que lhe perdoaram contam-se – pasme-se! – a Espanha, a Grécia e a Irlanda) e o restante foi escalonado em 30 anos; contudo, só em Outubro de 1990, o governo alemão emitiu obrigações para pagar; e foi estipulado (pasme-se de novo!) que o pagamento anual não poderia exceder a capacidade da economia.
            Tá visto: só um jornalista mal-intencionado era capaz de ir desenterrar os termos deste acordo. E agora, que a Alemanha está a ser tão condescendente!...

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 79, 11-02-2015, p. 6.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Contadores de histórias...

            Lembro-me como se fosse hoje. A tarde estava serena, nem brisa corria. Ali, sentados na terra, com seus albornozes grosseiros, castanhos, pretos, escutavam o ancião. De pé, contava-lhes coisas de outrora: lendas, feitiços, lutas, conquistas… sei lá! Imagino contos das mil e uma noites. Solene, penetrando no céu bem azul, o minarete da Koutoubia lembrava, também ele, tempos idos… Marraquexe e os seus contadores de histórias, nesse longínquo 1967!…
Sentados em redor do contador de histórias, em Marraquexe (1967)
            E recordei-os logo, assim que dei comigo a ler a História de Portugal de Natael Rianço. Sim, porque é a história dele. Como ele a estudou, como lha ensinaram em tempos de heróis e de santos e do Poeta que canta, quando se não dizia que, afinal, santos e heróis e poetas também eram homens de carne e osso – como se não houvesse Povo, mulheres e homens e crianças numa labuta pelo pão de cada dia, como se tudo se passasse só nas cidades, no amarinhar por aquela muralha acima…
A capa de «A Minha
História de Portugal»
            Há mitos, porém, a que, hoje ou amanhã, temos de nos agarrar. Mesmo que saibamos que o são, que não podem aguentar muito peso. Mas são… raízes! Dizem-nos que, antes de nós, outros houve e, antes desses, outros ainda, numa sucessão de gentes que pisaram este solo, que lhe deram cor, que lhe rasgaram as entranhas num frutificar de gerações…
. . .
O Sol apareceu, enfim, nesse final de tarde inexplicavelmente suave e tépido. Muitos vultos negros se haviam espalhado por entre os mármores trabalhados das campas. Era um céu azul claro; as nuvens em farrapos aconchegavam-se no tom alaranjado dum sol-pôr que se adivinhava para breve. Bem suave era a brisa, mal se sentia, a querer aninhar-se nos densos, esguios e altos ciprestes. Um silêncio…
            Por sobre os mármores iam-se depositando as coroas, as palmas, os ramos, os «corações»… Feitas as preces rituais, o ataúde desceu, lento, à cova. Numa emoção grande, dificilmente contida. Cobriu-o uma colcha de flores, depois a terra-mãe; por cima, o enorme comoroiço de mais flores. O Sol vai pôr-se. Já tocou a sineta a lembrar-nos que temos de abalar. E a aragem tornou-se fria, agora.
Perfumem as flores o Poeta, o Homem, o Lutador – que esperou pelo primeiro dia do milénio para, enfim, ir repousar!
            Antes, porém, muito antes, pelos serões, quis ser contador de histórias, da nossa História. E aqui estão. Sem o saber, reatava uma tradição antiga, dos Mouros e das Mouras Encantadas e de gloriosos feitos de antanho. Junto à lareira, ele; os outros, em plena praça pública, despertando sonhos, deixando-os voar…

NOTA: Permita-se-me que assim partilhe o prefácio que fiz para a obra póstuma, em versos, A Minha História de Portugal, do alentejano Natael Rianço, falecido a 1 de Janeiro do ano 2000. Publicou-a a Associação Cultural de Cascais, com o apoio da Junta de Freguesia de S. Domingos de Rana, em 2001 (ISBN: 972-9406-22-7). 

 

 


  

Romantismo ao cair da tarde…

            E deixamo-nos enlevar pelo mavioso som dos violinos. Vibramos com o timbre forte dos metais. Também os músicos não estão ali, totalmente embrenhados os vemos em soltarem os sons no momento certo. Encanta-nos o baloiçar da mão esquerda dos que apoiam o violoncelo ou o dos violinistas. E o maestro não descansa, também ele totalmente enfronhado na melodia que esvoaça, na serenidade imensa do auditório da Boa Nova…
            Excelente relaxar neste final de tarde, em que, fechados para o mundo exterior, acabamos por dali sair nas asas da imaginação que o concerto espicaça. E temos a sensação nítida de que todos os maviosos ecos da Natureza se congregaram ali, para nos deliciar e entreter… O maestro não descansa, os músicos não tiram o olhar da partitura, o senhor dos tímpanos aguarda tranquilamente a vez de sublinhar uma passagem mais forte… E o público deixa-se enlevar, numa catarse…
Nokolay Lolav apresenta o espectáculo
A assistência
Kim Yulla
            Foi assim. Ou melhor: foi muito mais do que isso o que se passou no final da tarde de domingo, 8 de Fevereiro, no auditório da Senhora da Boa Nova (Galiza, S. João do Estoril). A Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras, dirigida, na circunstância, pelo croata Berislav Skenderovic, começou por interpretar a abertura do bailado «As Criaturas de Prometeu», de Beethoven. A coreana Kim Yulla foi solista, ao violoncelo (que virtuosismo, senhores!...), no concerto para violoncelo em lá menor (opus 129) de Robert Schumann. Depois do intervalo, mantivemo-nos no Romantismo Alemão (esse era o tema do concerto), com a conhecida «A Italiana», a belíssima sinfonia nº 4 em lá maior (op. 90), do génio hamburguês  Félix Mendelssohn, que apenas viveu – pasme-se! – 38 anos (1809-1847).
O maestro
            Constitui para Cascais e Oeiras um privilégio ímpar terem uma orquestra residente que amiúde nos pode brindar com espectáculos de tão elevada craveira. Não saberei dizer – porque não sou músico – se tocaram bem, se a interpretação foi excepcional, se o maestro é o máximo; mas gostei muito e vi que, durante o concerto, os músicos estavam satisfeitos e que o público, no final, os aplaudiu longamente e de pé.
            A Orquestra de Câmara de Cascais e de Oeiras foi criada no ano 2000, por iniciativa do maestro Nikolay Lalov (o seu enorme mentor, cujo entusiasmo nunca é de mais realçar), que, na circunstância, apresentou o maestro e o programa, e é apoiada pelos dois municípios e pelo Ministério da Cultura, estando hoje sob a tutela da Fundação D. Luís I. Realiza uma média de 120 espectáculos por ano.

Publicado em Cyberjornal, edição de 10-02-2015:

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A história de Aljubarrota cativou em Cascais

A réplica de um elmo em voga
ao tempo da batalha
e o livro «Aljubarrota Revisitada»
            João Gouveia Monteiro, professor de História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, cativou a assistência que por completo encheu o espaço de eventos da FNAC, no CascaiSopping, na tarde de sábado, 7, ao falar, com enorme entusiasmo e muito saber, acerca da batalha de Aljubarrota. A conferência foi precedida pela projecção do documentário da ordem de vinte minutos, o primeiro que se mostrou ao visitante no Centro de Interpretação de Aljubarrota.

Um aspecto da assistência antes mesmo de a conferência se iniciar
            O professor, que acompanhou desde o seu mais recente início os trabalhos arqueológicos no campo de S. Jorge onde a batalha se travou e que se tem especializado em História Militar, explicou pormenorizadamente como é que a batalha se deu, a posição inicial e a segunda das tropas portuguesas, as causas do desaire castelhano, as estratégias do combate… Demorou-se na miúda descrição da táctica adoptada, que viria a permitir que poucos soldados portugueses, em comparação com o exército castelhano, mais dotado de homens, tivessem logrado rapidamente fazer bater o inimigo em retirada.
O professor troca impressões
com os responsáveis da loja da FNAC

            A batalha foi devidamente enquadrada no seu contexto nacional (a crise dinástica de 1383-1385) e no europeu (a Guerra dos Cem Anos) e houve oportunidade de resposta às questões postas pelo público que, deveras interessado, seguiu a explanação clara e bem fundamentada, sempre servida por uma linguagem acessível e cativante.
            Um dos aspectos interessantes terá sido, sem dúvida, a informação acerca do que os exames osteológicos, levados a efeito no Instituto de Antropologia de Coimbra pela antropóloga Eugénia Cunha, puderam documentar acerca da compleição e da  idade dos combatentes, das anomalias esqueléticas registadas, concluindo-se, por exemplo, que alguns deles já haviam sido feridos em combates anteriores, uma vez que as sequelas estavam cicatrizadas.
Instantâneo da intervenção
de João Gouveia Monteiro.

            Recorde-se que, em Julho de 2001, a Imprensa da Universidade de Coimbra editou a obra Aljubarrota Revisitada, cuja coordenação editorial coube a João Gouveia Monteiro, onde se dá conta das mais recentes descobertas feitas no campo.
            Comemoram-se este ano os 600 anos da tomada de Ceuta e o orador salientou que alguns dos combatentes de Aljubarrota não hesitaram em se alistar também nessa empresa.

Publicado em Cyberjornal, edição de 09-02-2015:

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Ai, os velhos!

            O facto de já o sermos ou de com eles convivermos no quotidiano não deixa ninguém indiferente. De modo especial, claro, os que para com os velhos têm obrigações, porque filhos, netos ou simples familiares.
            Não admira, pois, que escritores os escolham para protagonistas, As ânsias, as dificuldades, as manias, os hábitos enraizados, o viver em passados horizontes… Não é já o estafado tema do conflito geracional; é outro olhar, outra compreensão.
            No livro Cal, colectânea dos contos e outros escritos que foi publicando aqui e além, José Luís Peixoto embrenha-se nas vidas dos velhos perdidos numa aldeia alentejana – ele que nasceu em Galveias (Ponte de Sor) – e delas nos traça, em pinceladas negras de uma profunda tristeza, a enorme falta de horizontes, o recalcar de sentimentos, ódios ocultos… Angustiante!... A evasão do concreto, na senda de um realismo mágico, em que até os animais parece que falam, fuga mágica que, afinal, é capaz de não ser assim tão irreal como se suporia.
            João Lourenço Roque, por seu turno, nas saborosas crónicas publicadas mensalmente, de 2005 a 2010, no Reconquista de Castelo Branco, escritos que reuniu em Digressões Interiores (edição da Palimage, Coimbra, 2011, com patrocínio da Câmara Municipal de Castelo Branco e da Junta de Freguesia de Sarzedas), confessa-se aposentado regressado ao seu rincão natal, Calvos. Aí envelhece, bem consciente do que é envelhecer agora, ele que foi catedrático de História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra:
            «Vive-se mais. Espanta-me, por isso, que, em vez de permanecermos jovens até mais tarde, nos tornemos, ou nos tornem, velhos cada vez mais cedo».
            Uma delícia, essas crónicas, envoltas em denso lirismo, de constante diálogo com a pessoa amada. Olhar atento sobre os costumes da sua aldeia, as tradições, o saber os nomes de todos os vizinhos (são tão poucos!...) e o que fazem e o que deixaram de fazer. Quotidiano sereno, embalado na saudade de um tempo que era tempo a saborear.
            Revive a aldeia nestas páginas. Imortalizam-se as gentes, os rituais religiosos, o ciclo anual. Vive-se, mas… «chegou-se ao ponto, arrepiante, de transformar escolas primárias em “capelas mortuárias”»!
            Os velhos, as velhas aldeias… Temos de olhar por eles e por elas!
 
Publicado em Renascimento (Mangualde) nº 655, 01-02-2015, p. 12.

 

Pisão fez 30 anos!

            Não é verdade que a instituição situada no Pisão, no vale por onde passa a ribeira do mesmo nome, na freguesia de Alcabideche, aninhada nas faldas da Serra de Sintra, não é verdade que tenha apenas 30 anos. Vem desde bastantes mais décadas atrás, quando se chamava Mitra, na linguagem popular, e era ‘colónia’ em tempos que só se recordam para evitar que voltem a repetir-se.
            Mas é verdade que se completaram, no passado dia 2 (dia de Nossa Senhora das Candeias!... – que a Senhora nos ilumine!...), 30 anos sobre a entrega, pela Segurança Social, à Santa Casa da Misericórdia de Cascais desse estabelecimento quase prisional, com a finalidade de ser transformado no Centro de Apoio Social do Pisão, hoje com 340 utentes, homens e mulheres, sob o peso dos mais variados graus de… ‘diferenças’.
            A efeméride foi comemorada no dia 3, com a presença de muitas das entidades ligadas à Instituição, de que cumpre destacar – para além, naturalmente, dos corpos sociais da Misericórdia e seus técnicos, que fizeram as honras da casa – o Secretário de Estado da Segurança Social, Agostinho Branquinho; a Presidente do Instituto da Segurança Social, Mariana Ribeiro Ferreira; o presidente da União das Misericórdias Portuguesas, Manuel Lemos; o Presidente da Câmara Municipal de Cascais, Carlos Carreiras; o vereador que detém o pelouro da Segurança Social, Frederico Pinho de Almeida; representantes da Segurança Social a vários níveis (nacional, distrital e local); o Ten. Ferreira Costa (da GNR); órgãos de Comunicação Social local e regional…
            Quis a Santa casa reunir num almoço cerca de 200 pessoas, entre convidados e funcionários da instituição, na medida em que a intenção era manifestar – através da entrega de uma placa comemorativa – a sua gratidão pela colaboração incessante e mui dedicada de funcionários que têm 20 ou mais anos de serviço. Esse agradecimento explicitou a Senhora Provedora, Isabel Miguens, repetindo que a missão do Centro era tentar fazer destes utentes ‘cidadãos com nome próprio’. Manuel Lemos, afirmando – com os antigos «gaudemus cum gaudentes», importa estar alegre com quem se regozija, louvou a excelência da actividade desenvolvida e entregou à Santa Casa a placa de mérito da União das Misericórdias. O presidente da Câmara salientou que, nos 650 anos que Cascais leva de vila, a Misericórdia foi, sem dúvida, o parceiro maior, numa tónica constante de exercício de amor ao próximo.

A visita imprescindível
            A terminar a série de discurso e antes da entrega individual das placas de homenagem, o Secretário de Estado agradeceu o convite que lhe fora endereçado e que vinha ao encontro de um desejo seu, pois lhe haviam dito: «Não podes deixar de ser Secretário de Estado sem visitar o Pisão!». Sabia, disse, quanto era difícil dar satisfatória resposta aos desafios que uma instituição como o Centro diariamente apresenta, mas que é inexcedível a dedicação da equipa e, por isso, numa política de proximidade, que cada vez mais se preconiza, prometeu continuar a promover o diálogo, numa lógica não de tutela mas de parceria.
            Seguiu-se uma visita às instalações.
           Recorde-se que Mota Soares, Ministro da Solidariedade, também visitou o Pisão, a 1 de Dezembro, p. p., inaugurando, na circunstância, um espaço museológico de memória do que foi e ora pretende continuar a ser, noutros moldes e com outra filosofia, este Centro Social.
Pisão - memórias com futuro
            Na verdade, é outro mundo que ali se vive, ao passarmos por entre estes seres humanos de olhar curioso ou ausente, em que descortinamos, bem lá no fundo, dores infinitas, vozes caladas, anseios que a doença nunca deixou tornar realidade. Mas são homens e mulheres como nós. Apenas, a dado momento, algo de essencial lhes faltou – e hoje mui dificilmente se lhes consegue já dar. A não ser – e isso há-de alcançar-se! – a consciência de que… têm um nome e o sabem!

Publicado em Cyberjornal, edição de 04-02-2015: