domingo, 22 de fevereiro de 2015

Experiência em voluntariado é trunfo a usar!

            Acabo de receber o currículo de uma mestranda, onde, mui acertadamente, se incluem na experiência profissional as acções desempenhadas em regime de voluntariado.
            Por coincidência, recebera não há muito, da Agência Noticiosa Salesiana, a informação de que a Confederação dos Centros Juvenis Dom Bosco, da Espanha, apresentara, a 31 de Janeiro, o projecto “Reconoce” (Reconhece), uma iniciativa que visa chamar a atenção para as condições de trabalho dos jovens. Refere-se, de modo particular, a sua dificuldade de acesso a um trabalho digno e de qualidade, acompanhada pela preocupante taxa de desemprego juvenil, superior a 50%, em Espanha.
            Consciente do problema, a Confederação Dom Bosco começou por sublinhar quanto o trabalho feito por jovens voluntários, além de melhorar a vida de outros jovens e crianças, lhes proporciona também experiências que lhes aumentam as possibilidades de emprego.
            Vão nesse sentido as conclusões do estudo “A situação do voluntariado juvenil perante o emprego: habilitações e potencialidades de emprego”, ora divulgado em Madrid. Essa pesquisa, da iniciativa da Confederação dos Centros Juvenis Dom Bosco, da Federação Didania e dos Escoteiros “ASDE” da Espanha, foi realizada pela consultoria especializada “Voluntariado y Estrategia”, e faz parte do projeto “Reconoce”, que tem como objectivo valorizar justamente a experiência do voluntariado nas associações juvenis e no âmbito das ocupações de tempos livres e melhorar as potencialidades ocupacionais dos jovens.
            A rede “Reconoce” – www.reconoce.org – tem, por isso, o apoio do Instituto para a Juventude, de Espanha (Injuve), entidade que manifestou interesse em reconhecer o trabalho dos voluntários no contexto da educação não-formal, assim como do Conselho da Juventude espanhol.

                                                                                                          José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 20-02-2015:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&view=article&id=1293:experiencia-em-voluntariado-e-trunfo-a-usar&catid=121:saude-e-solidariedade&Itemid=85

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

As nossas fontes revisitadas

             Ainda me lembro: veio o senhor Governador Civil, a banda tocou à sua chegada e, quando abriu a torneira, estralejaram foguetes e bateram-se palmas. A aldeia passou a ter água ali à mão de semear, sem necessidade de ir além abaixo, ao pé da ribeira, tirar a água do poço. A cena passou-se no interior do concelho, nos princípios da década de 50, mas estou convicto que muitas idênticas houve, então, por todo o País.
            E o chafariz, singelo, em ferro forjado, ou mais imponente, de cantaria, com torneira para encher cântaros e infusas, donde escorria água para, do outro lado, o bebedouro dos animais e, daí, para os tanques de passar e de lavar do lavadouro vizinho – era o único monumento de que a aldeia doravante se poderia orgulhar.
            S. Brás de Alportel teve fontes, que de abundante nível freático se abastecem. As bicas dos Vilarinhos representam, porventura, o exemplar mais significativo. E se toda a atenção é pouca para que esse nível – devido, por exemplo, a uma urbanização excessiva, a acarretar impermeabilização do solo – não venha a sofrer graves prejuízos, as iniciativas levadas a cabo pela autarquia no sentido de renovar e alindar essas fontes, enquadrando-as devidamente em aconchegados recantos de lazer são, pois, de muito louvar. Importa, porém, que continue a inocular-se na população o hábito de a eles se achegar e de, efectivamente, os usar, para que sejam, de facto, motivo de usufruto e regalo. Não será mau, nomeadamente, que se proporcione às crianças das escolas a ida à Fonte Férrea ou à Fonte Velha (a que mais recentemente se renovou), pois assim se ganham costumes.
            E se a Fonte Velha recebeu duas estrofes de Bernardo de Passos, a da Fonte da Tareja ostenta uma outra, do mesmo poeta alportelense:
 
                                               Não sei se cantam, se choram
                                               As fontes, correndo ao mar;
                                               Se canto, sinto que cantam;
                                               Mas, se choro, oiço-as chorar!

                                                                                              José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz nº 219, 20-02-2015, p. 21.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Na galeria do Casino, Artis 2015 recorda artistas premiados

             Depois de o salão de exposições da Junta de Turismo da Costa do Estoril, nas Arcadas do Parque, ter fechado as portas às iniciativas culturais, porque os seus responsáveis – porventura formados em escolas turísticas do passado… – não se haverem consciencializado de que Arte continua a ser um bom chamariz turístico, acabaram também os incentivos aos artistas nacionais que anualmente concorriam aos salões da Primavera e do Outono. Era sempre um bom pretexto para se falar da Costa do Estoril e de se louvar a clarividência dos seus mentores turísticos.
            Fechadas essas portas, outras mui oportunamente se abriram e quem esteve à frente dos destinos da galeria de arte do Casino Estoril – com longo e mui reputado palmarés no horizonte artístico nacional – agarrou de imediato na ideia que os luminares dos baixos do Parque haviam deitado janela fora.
            E, a partir de 1981, os Salões de Primavera do Casino Estoril guindaram-se a elevado plano, nomeadamente porque tiveram como objectivo primeiro «divulgar e promover a Arte Jovem», tendo para isso sabiamente convocado estudantes finalistas das faculdades de Belas Artes das universidades de Lisboa e do Porto. Realizaram-se 27 salões, em que participaram 916 jovens, muitos dos quais – como assinala o director da galeria, Dr. Nuno Lima de Carvalho – «hoje são docentes das faculdades em que estudaram e outras escolas superiores» ou «artistas de referência» no panorama das nossas artes plásticas.
            A exposição Artis 2015, que ora ali está patente até 4 de Março, congrega, pois, artistas que «foram distinguidos com prémios e menções honrosas e que se apresentam agora com uma escrita definida, uma modalidade adoptada, uma temática preferida e uma carreira artística de sucesso»: Ana Teresa Vicente, Abreu Pessegueiro, Carolina Piteira, Daniel Curado, Diogo Navarro, Filipe Curado, Francisco Pinto, Gonçalo Gonçalves, Hugo Marques, Isabel Teixeira de Sousa, Joana Arez, Joana Hamrol, Jorge Francisco, Mara Costa, Maria Salgado, Marlene Teixeira, Paulo Pina, Rafaela Nunes, Susana Carvalho e Vítor Novo.
Participantes na exposição Artis 2015, com o director da galeria, Nuno Lima de Carvalho
            Louve-se a iniciativa. Só não é de louvar a abstrusa e dificilmente compreensível proibição de a galeria poder ser visitada por menores de 18 anos. Trata-se de uma lei parida pela Inspecção dos Jogos, sob pretexto de que os jovens não podem ver os adultos jogar nas máquinas, uma vez que estas são visíveis no acesso à galeria. Se acompanhados pelos pais ou por familiares, que – naturalmente – lhes explicariam o significado do jogo e os riscos a ele inerentes, qual a razão lógica para essa proibição? Aliás, não vêem os jovens – e sozinhos!... – outras ‘coisas’ bem piores no seu dia-a-dia?

                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 18-02-2015:

E contam-nos a vida toda!

            Ainda me lembro. Creio que se chamavam “interurbanos” e ainda não havia nem alfas nem intercidades. Eram, mesmo assim, os que, mais confortavelmente e num tempo então razoável, me levavam de Santa Apolónia a Coimbra B e me traziam de regresso. Em 2ª classe, comboios de compartimentos para oito passageiros. Quando calhava ter junto de mim velhotes (o que eu, na altura, chamava de ‘velhotes’…), era a viagem toda a ouvir as suas histórias vida afora.
            Ocorreu-me essa imagem, no almoço doutro dia, quando, a meu lado, se sentou um veterano da guerra no Ultramar. Foi todo o tempo a história das emboscadas, das baixas, do helicóptero a voar baixo, das ostras que à socapa se iam saborear para descontrair da tensão…
            Precisam os velhos de desabafar, de contarem o que foram e fizeram.
            Devias escrever isso em livro de memórias, Eugénio! – perorei eu.
            Que não tinha paciência.
            Dizia-me aquela vizinha a rondar os 60 anos, quando lhe sugeri a frequência do Centro de Dia, onde até estavam várias das suas amigas:
            Eu?! Para ao pé daquelas velhas que só sabem falar de doenças?!... Deus me livre!
            Assim João Roque, nas suas já citadas Digressões Interiores (p. 95):
            «Tempos difíceis para envelhecer. Por tudo e por nada, os velhos perturbam-nos e incomodam-nos. Nos cafés ou nos bancos de jardim quando, sem mais aquela, se sentam à nossa beira, metem conversa e desatam a contar-nos a vida toda. Nos restaurantes quando sôfregos comem a sopa e deixam cair o guardanapo e o talher. Nos sanitários onde molham o chão e nós molhamos os sapatos. Nos serviços públicos e nos supermercados onde empatam as filas ou nos tiram a vez».
            Retratos, enfim, que nos fazem pensar e nos ajudam a chupar até ao tutano o osso de cada dia.

                                                                     José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde) nº 656, 1-02-2015, p. 12.

 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Jogar à espada... é giro e não só!

            Influenciados, quiçá, pelos inúmeros filmes de capa e espada que nos era dado ver, «jogar à espada» foi sempre um dos nossos passatempos favoritos na infância. Qualquer pau servia às mil maravilhas ou uma simples cana e aí vai espadeirada da rija, com riscos enormes de nos aleijarmos a sério. Mas esgrima, senhores, é uma outra coisa e nunca suporíamos que aquelas espadeiradas que se viam nos filmes resultavam, afinal, de muito estudo e bem aturado treino durante horas e horas seguidas.
            Numa iniciativa da Federação Portuguesa de Esgrima, em colaboração com o Clube Duelo, realizaram-se no sábado, 14, no Pavilhão Desportivo de Murches, os torneios abertos em cadeira de rodas e para cegos, no âmbito do Encontro Internacional de Técnicos e Praticantes de Esgrima para cegos. Estiveram presentes atletas da Itália, da Suécia, da França e de Portugal. Ocorreu depois a 3ª etapa do circuito do Torneio Nacional de Juniores, com a presença de atletas pertencentes a diversas academias.

            Sobre os resultados obtidos, remete-se, naturalmente, para a página da Federação: www.fpe.pt/ . O que, de modo especial, importa aqui frisar é o eloquente significado da jornada: a esgrima revela-se como um desporto assaz completo e o facto de se haver conseguido adaptá-la de forma a poder ser praticada por atletas em cadeira de rodas e por cegos constitui valor acrescido e digno do maior valor. E foi essa a grande revelação que de novo tive, ao passar algum tempo, na tarde de sábado, num pavilhão onde, na verdade, ainda não tinha entrado e foi para mim boa surpresa. O que também vivamente me impressionou: o ambiente descontraído, a serena sequência dos combates nesta ou naquela das oito pistas, devidamente acompanhados por árbitros e treinadores; a tranquilidade responsável com que os atletas jovens faziam os seus exercícios de aquecimento…

A tranquilidade responsável dos exercícios de aquecimento…
            Não poderá olvidar-se que tudo isso se deve, por outro lado, à tenacidade enorme de Mestre Eugénio Roque, indefectível lutador pela divulgação e prática da modalidade, apostado igualmente a mostrar – por exemplo, nas aulas que dá na Escola Profissional de Teatro de Cascais – que ninguém pode ser actor sem estar bem por dentro dos movimentos que a esgrima exige, mesmo que não se trate propriamente do «jogar à espada» que nos deliciava na infância.
            Deliciaram-me agora esses largos momentos que tive oportunidade de viver no Pavilhão Desportivo de Murches. Cascais foi, mais uma vez, um palco excepcional e diferente.
 
                                                        José d’Encarnação
 
Publicado em Cyberjornal, 17-02-2015:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&view=article&id=1279:jogar-a-espada-e-giro-e-nao-so&catid=26:modalidades&Itemid=29




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Contos com a guerra em fundo…

            A sessão foi numa livraria, sim, mas tínhamos ao lado a entrada para o forno e, defronte, a velhinha máquina de transformar o grão em farinha. Um ambiente, à primeira vista, estranho mas acolhedor, até porque se escrevera, há longos anos, na parede junto à boca do forno, «Nem só de pão vive o homem», primeira parte da frase de Mateus (4, 4), que assim se completa «mas de toda a palavra que sai da boca de Deus». Bem apropriada, pois, para a apresentação de um livro, donde saem palavras que são – também elas – um alimento para o espírito. Fizeram bem os responsáveis pela Livraria Alêtheia, ali no Rua do Século e no coração do Bairro Alto, em manter o envolvimento antigo, panificador, alimentar, a isolar-nos, aliás, do burburinho da cidade, para – como que em cerimonia de iniciação – nos embrenharmos noutros mundos…
Apresentação com moenda ´por detrás

            Foi na quinta-feira, 12, ao final da tarde. Ângelo Rodrigues deu as boas-vindas, em nome da livraria e da Sinapis Editores. Disse do privilégio de se saudar o aparecimento de mais um livro, com esta qualidade. A apresentação de Os Olhos do Jacaré, de Rogério Pires de Carvalho, esteve a cargo do Dr. José Manuel de Vasconcelos, que tem acompanhado o percurso do escritor e sobre ele disse quanto os seus contos, breves, reflectiam uma linguagem tersa, adequada, por onde amiúde perpassava – como não podia deixar de ser – o fantasma de uma guerra vivida…
            Encheram a salinha companheiros de armas do autor (boa parte deles vindos do Porto expressamente para estarem presentes), familiares (a filha, Sara, deslocou-se de Londres, numa surpresa, ela que recentemente ali defendera tese de doutoramento) e amigos. Mais de meia centena.
            Do conteúdo do livro se dirá depois da leitura feita. Uma leitura que urge, pela curiosidade que os oradores souberam despertar.
                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 13-02-2015:

Terra Fria Terra Quente – um romance de costumes

            Em nota que publiquei a 7 de Janeiro de 2014, referi-me a este livro Terra Fria Terra Quente, da autoria de Maria José Corrêa Pinto, que fora editado por Exoterra, em Novembro de 2013. Salientei, então, que ainda o não lera e que era minha intenção lê-lo. Ora o li – e dessa leitura aqui peço licença para exarar as minhas anotações.

Um romance de costumes
            O facto de apresentar bibliografia no final leva-nos a supor que não terá sido apenas uma experiência real e concreta – se é que a houve, o livro não o denuncia expressamente – que esteve no cerne da narrativa, mas também o estudo haurido em obras da especialidade. Não é, porém, uma obra histórica, obediente às regras de citação, por exemplo, que um texto com essas características postularia.
            Dois livros estão, porém, presentes do princípio ao fim, para identificarem os capítulos (só três vezes, decerto por lapso tipográfico, os capítulos não são individualizados): Os Lusíadas, de Camões, e Só, de António Nobre. De ambos se transcrevem passagens em sintonia com o tom geral que o capítulo vai ter. Capítulos curtos, que começam frequentemente com o nascer do dia ou uma referência de tipo climatérico.
            Ousaria classificar a narrativa não como um romance histórico mas como um romance de costumes, uma vez que trata da história de uma família da classe média flaviense em plena II Grande Guerra. É todo esse ambiente que ali é descrito, em pormenor: os costumes, os hábitos quotidianos (das famílias, dos pais, das crianças…), o viver social e económico, a tensão que paira mesmo numa cidade de província sob o espectro velado do salazarismo omnipresente, as dificuldades que o racionamento dos géneros alimentícios acarretavam…
            Há, de modo especial, o retrato urbano de Chaves nos anos 40, abundantemente ilustrado pela oportuna inclusão de postais ilustrados (editados pela célebre Tipografia e Papelaria Mesquita, de Chaves), com vistas dos aspectos mais significativos da cidade: as ruas do comércio, o Jardim Público, a ponte romana, as poldras, as igrejas, os largos…
Chaves - as termas na década de 40
            Há, porém, especificamente, o retrato social: histórias de adultérios e mulheres da vida, miséria, as brincadeiras dos miúdos (o romisco, o pucarinho, os verdelhos…), os ditos populares, as rezas, o leituário, as palavras típicas («zerbada», as «sebas»…). E a rádio e os jornais que vão pondo a população ao corrente não apenas da guerra que na Europa se desenrola nessa primeira metade dos anos 40, mas também das tentativas de sublevação e greves, a manifestarem o descontentamento do Povo para com a política salazarista, a secreta vigilância dos agentes da PIDE… Aparece um jornalista a hospedar-se na pensão que a mãe da protagonista tem, destinada, sobretudo, a albergar quem vem às termas; a ideia é fazer a reportagem das inundações que afectaram a cidade (e lá está um postal a mostrá-las); contudo, ao serão, não se inibe de dar conta, a meia voz, do que sabe acerca do que se passa por esse País além, o trabalho de sapa dos comunistas...

As tradições de cá e de lá
            O enredo começa com a ida para Moçambique, mais propriamente para Nacala, terra de Macuas, do marido de Leonor, Miguel Afonso, em busca de melhor vida; assim pagaria as dívidas e, se tudo corresse de feição, em breve a família estaria lá com ele.
            É, pois, nestes anos de separação que reside o cerne da narrativa, a possibilitar a descrição, tanto de um lado como do outro, do que eram as tradições locais. Se assistimos, em Chaves e arredores, à descrição de como se ensinavam, na escola, as primeiras letras, às superstições (o miúdo de três anos que não fala e se põe num saco para curar-se… p. 244), às tradições natalícias e aos cantares do Dia de Reis, aos festejos do Entrudo, a um «Cortejo de Oferendas», à matança do porco, à romaria de S. Caetano ou da Senhora do Amparo, às comemorações do São Martinho… também do lado do marido, nomeadamente através da correspondência, ficamos a saber como se fazia a iniciação dos rapazes, como eram as caçadas (p. 193-194), o casamento macua, o cerimonial que envolvia o nascimento de uma criança, a figura do missionário que evoca a história da região, os feitiços a que se lançava mão para se obter a misericórdia divina, e até saboreamos, aqui e além, o linguajar indígena (p. 264-267, por exemplo)…
            Aliás, se, como atrás se disse, os capítulos têm epígrafe poética a abri-los, explicita-se no índice (p. 6 e 7) o seu conteúdo, de forma que o livro, depois de ‘devorada’ a história, pode servir de documentário acerca dessas cerimónias tradicionais. De resto, aproveita-se, inclusive, o facto de um mocinho negro ter sido deportado para S. Tomé, por brincar com uma menina branca, para também se fazer da vida nessa ilha circunstanciada descrição.
            E se são anotados os problemas económicos da protagonista (também!) e os socioeconómicos (a frequente morte de crianças à nascença, nessa época, por via das gastroenterites, os parcos rendimentos de uma agricultura dependente das contingências climatéricas…), procura fazer-se igualmente uma análise psicológica: que pensa uma mulher com filhos nos braços para sustentar, quando o marido está longe mais de cinco anos, a viver num meio para ela totalmente desconhecido, sabendo como são os homens e as mulheres? E, claro, como é a matreirice da vizinhança, sempre pronta a agudizar suspeições…
            Não poderia a autora deixar de mostrar, aqui e além, a sua veia poética. Maria Leonor faz sonetos, que surgem de vez em quando nas suas cartas; a «odisseia do povo macua» (p. 281-284) tem forma de poema quase heróico.

Quatro dados a salientar
            Para além do mais, quatro dados gostaria de salientar, pela sua oportunidade como memória de uma época:
            Era caseiro o fabrico do pão (p. 242). Cada família fazia a sua fornada, ainda não havia padarias e foi, aliás, para trabalharem na panificação que muitos portugueses emigraram para a Venezuela e para o Brasil.
            O lugar de destaque que tinha, no Norte, a Praia da Granja, como pólo de atracção do veraneio (p. 240), ainda hoje bem patente nas casas típicas dessa época, em arte nova, a mostrar o requinte da burguesia que as procurava ou mandara construir.
            Hoje, que há cursos de Jornalismo e de Comunicação Social, pode ter-se a impressão de que sempre assim foi. Impõe-se, por consequência, como inteligente reflexão o facto de se dizer do atrás referido jornalista: «Ele tinha tido a sorte de fazer alguns estudos no liceu e, como escrevia bem, arranjara emprego num jornal. Conseguia fazer face à vida, mas trabalhava muito» (p. 172).
            A referência às botijas como forma de se aquecerem os pés na cama (p. 246). Foi costume que perdurou até bem dentro da década de 50: as botijas eram as garrafas de grés da genebra, bem cilíndricas e estreitas, que vedavam bem e se mantinham quentes durante muito tempo. A genebra era uma aguardente muito em voga, feita nos Países Baixos a partir da destilação do zimbro (daí, a designação zinebra, que deu ‘genebra’).
 
A dúvida
            No final, confesso, ficou-me a dúvida – mormente agora que estão a surgir narrativas do tempo colonial, de antes, de durante e do após-conflitos – se algumas das páginas não são descrições do que a autora viveu.
            Escreve-se numa das badanas que se abordam aqui «aspectos do Portugal salazarista (Metrópole – colónia) que muito a intrigaram e impressionaram». Há, contudo, na pág. 192, a seguinte frase: «Assim que os deixámos de ver [os búfalos], um grupo de elegantes e delicadas gazelas debruaram as margens do lago». A narração é sempre feita na terceira pessoa e, aqui, inopinadamente, surge a primeira pessoa do plural, como se a autora estivesse a copiar um relato e se houvesse distraído na transcrição
            Claro, eu poderia perguntar-lhe, inclusive se as fotos das capas correspondem à família de que se conta a história. Aparentemente, sim: na da capa, há o pai, a mãe, as três filhas e o filho, mais pequenino; na quarta capa, um homem (é o mesmo da capa) mostra uma cria de leopardo, qual troféu de caça. Uma verificação se impõe: o facto de ter assinado com o nome de solteira denuncia a vontade, como já assinalei, de um retorno à infância, cujas memórias aqui mui minuciosamente se deixam exaradas. Se são de familiares seus ou de pessoas muito próximas ou se tudo não passa de mera ficção – cada um que pense como lhe parecer melhor.
            Certo é que Terra Fria Terra Quente constitui, sem pretensões literárias nem de estilo (nota-se, aqui e além, alguma dificuldade no uso da pontuação), o retrato de uma geração. No final, embarcados no paquete Angola, que zarpa da doca de Alcântara, Maria Leonor e os filhos demandam Moçambique. Fica-se a saber dos seus primeiros tempos lá e da adaptação (difícil) que lhes foi exigida. Imaginamos o resto: o sacrifício, aliado ao espírito compreensivo de ambos para com a população indígena, terá valido a pena – numa felicidade, enfim, bem merecida.
                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 13-02-2015: