sexta-feira, 1 de maio de 2015

A reflectir sobre a guerra colonial

            «A gramática dos sistemas humanos num cenário de guerra, a banalidade do mal (conceito forjado a Anna Arendt), os paradoxos e as contradições humanas insinuam-se nesta obra, como tópicos para meta-análise, reclamando do leitor a construção de um pensamento próprio, matizado pelo seu olhar» - escreve Ana Umbelino, vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Torres Vedras, no prefácio ao livro O Ar Cheirava a Pólvora, de Manuel Ponciano.
Declaro-me incapaz de fazer análises assim; mas aprecio deveras quem tão bem maneja a palavra.
Na dedicatória manuscrita que teve a gentileza de lavrar na página de rosto, formulou Manuel  Ponciano o voto de que «a liberdade seja uma marca dos nossos dias!». Na verdade, este seu livro de 261 páginas é – e vou exprimi-lo, perdoar-me-ão, em frases singelas – apelo à liberdade, tendo como pano de fundo o ambiente vivido em Portugal nos primeiros anos da década de 70, em plena «guerra colonial», onde liberdade não era, de facto, palavra permanente no vocabulário quotidiano.

A história de um mancebo
O ponto de partida? A experiência pessoal do autor que, se bem interpreto a frase da pág. 246, José Luís Peixoto o terá incitado a partilhar, qual «acto psicanalítico», para que não continuasse no sótão «encerrada a se5te chaves»: «faz-se a catarse emocional» (p. 177), também com o objectivo expresso de contribuir para que, doravante, «não mais se pronunciasse a célebre frase homo homini lupus», é ‘o homem lobo do homem’ (p. 172).
O enredo, o normal nesse tempo: saído de uma congregação religiosa, onde fizera os estudos, o mancebo vai para Mafra; aí se prepara para a guerra; tem grave acidente no decorrer de um exercício; é colocado como escriturário no RI 2 de Abrantes. Começa a pensar em organizar a vida, quando inesperadamente o mobilizam para Angola, em regime de substituição. Casamento aprazado é, porém, para se concretizar, apesar de tudo, antes de embarcar no Boeing 707 que o levará a Luanda, donde seguirá, num Nord-Atlas, para Santa Eulália, onde chefiará a secretaria de um Comando de Agrupamento.

Considerações acerca do desgoverno
Descreve Manuel Ponciano com alguma minúcia a vida em Mafra. A vida concreta e, sobretudo, a vida psíquica, os pensamentos que então o terão assaltado.
Esperar-se-ia – nomeadamente atendendo ao título – o relato da experiência militar africana, ainda que, como responsável por uma secretaria, Manuel Ponciano estivesse embrenhado mais em tarefas burocrático-administrativas que bélicas. Preferiu, no entanto, ou parece ter preferido anotar três ou quatro episódios para privilegiar a atmosfera emocional da presença da guerra no dia-a-dia dos Portugueses e da revolta latente prenunciadora do 25 de Abril, demorando-se em longas considerações acerca do desgoverno e da tirania e optando por verberar, pontualmente, as senhoras das altas patentes militares que (dizia-se!) viriam quinzenalmente a Lisboa à cabeleireira, a frase «um cavalo vale mais do que mil homens», os caixões que chegavam com pedras dentro em vez de corpos...
Perpassa, pois, pelo livro o clima de angústia perante uma guerra absurda, implacável ceifeira de vidas e de esperanças, em obediência a uma política cega. Uma evocação desagradada e, até, de incontida revolta. Uma visão quase apocalíptica, dir-se-ia, patente, por exemplo, nestas frases:
«Este povo voltou à estaca zero» (p. 183);
«Os terrenos estão secos, a lama desapareceu, mas os pedregulhos continuam a rolar por entre as silvas que se opõem à fertilização para que novo fruto brote e venha satisfazer as necessidades de quem luta por um simples prato de lentilhas» (p. 206).
            E, nesse aspecto, a obra revela-se mui significativa, ainda que o autor de certo modo reconheça que poderia ter sido mais sóbrio: na pág. 245, pede perdão ao leitor pela «maçada que teve Ao ler estas páginas» e, na pág. 249, dialoga mesmo com ele: «Caro leitor, só espero que não te tenha enfastiado».
Convirá referir, todavia, a opinião de Ana Umbelino, que escreve no final do prefácio:
«Longe de se reduzir a um mero exercício de catarse, consubstanciado numa narração espúria ou magoada de episódios longínquos, suspensos no tempo, longe de se afundar no patético, ou na desesperança, a presente obra abre um clarão para o futuro, corporizando um gesto de compromisso» (p. 7-8).

A falta de revisão, pecha dos nossos dias
Não posso concluir sem, mais uma vez, me insurgir contra uma pecha cada vez mais frequente: a falta de revisão, que não honra os autores nem os editores.
No exemplar que tenho, além de gralhas, de pontuação inadequada, de palavras amiúde repetidas (caso do advérbio ‘bem’, que é recorrente), de lapsos de concordância e de frases sem sentido, caso sejam analisadas à lupa (e um bom revisor o faria), há inclusive páginas com numeração trocada. De frases sem sentido (em meu entender, claro!), respigo só ipsis verbis duas passagens, para justificar a afirmação:
«Mas Mafra, como assistiria a estas desventuras? Como recebia todos estes militares aos quais gostaria de lhes dar um bom acolhimento?
Por agora, antes que um novo carro de quatro rodas, sem que olhasse para trás e cortasse com o fio da meada que a ligava a gerações desfeitas, viesse a retomar um reconhecimento dos seus antepassados, novo paradeiro militar se me oferecia» (p. 183-184).
«Chegando ao final é que havia algum final a esperar-me, não seria mais quem cadáver ambulante comandado por forças alheias à minha própria vontade» (p. 241).
Porventura, se me é permitido, esta última frase terá sido pensada assim:
«Chegando ao final, se é que havia algum final a esperar-me, não seria mais que um cadáver ambulante comandado por forças alheias à minha própria vontade.»
O Ar Cheirava a Pólvora foi publicado pela Chiado Editora (Novembro 2014), com o apoio da Câmara Municipal de Torres Vedras, cidade onde o autor reside. Teve apresentação pública, a 19 de Fevereiro de 2015, na Biblioteca Municipal. ISBN: 978-989-51-1679-9.

                                                  José d’Encarnação 
 

terça-feira, 28 de abril de 2015

Atamancar paparrioca

            Que tempo aborrecido este, de morrinha, embrulhado, não chove nem faz sol, que nos deixa a todos meio azamboados, tontos…
            E, depois, logo de manhã, pão fresco não o havia, o leite já nem tem aquele sabor d’outrora, quando uma pessoa descia ao estábulo e mungia a vaca, aquilo é que era uma delícia, quentinho e cremoso, ao natural!… A força daquele pequeno-almoço bom!...
            Até para as crianças, não havendo o que chamam de ‘cereais’, lá a velhota – os pais partiram cedo para o trabalho ou à procura dele!... – atamancava qualquer coisa, uma paparrioca qualquer para lhes aquecer o estômago…
            Fiquei a pensar no que o Ti Manel Zé me dissera, cofiando o bigode farto e tisnado, de queixo sobre as mãos que o luzidio cajado aguentava.
            ‘Atamancar’ percebi e gostei do significado: tamanco é calçado singelo, sem esquisitices… ‘Atamancar’ contém, pois, essa ideia de expediente a que se lança mão para resolver situação urgente. Logo se busca um calçadinho melhor!...
            Agora do que gostei mesmo foi da… ‘paparrioca’! Deturpação, sem dúvida, na oralidade quotidiana, de «paparoca», a implicar, porém, significativo pendor sarcástico, quase deliquescente… como se o pretenso acepipe tivesse recebido água a mais…

                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 196, Maio de 2015, p. 10.

domingo, 26 de abril de 2015

Ó bispo, o que é que te aquece o coração?

             D. Joaquim Mendes, bispo auxiliar de Lisboa, visitou, no passado dia 20, a Residência Sénior Prof. Dr Ofélia Leite Ribeiro, em Alcoitão, instituição gerida pela Santa Casa da Misericórdia de Cascais.
            Foi recebido pela Provedora, Dra. Isabel Miguéns, que se encontrava acompanhada por elementos dos corpos sociais da Santa Casa e dos responsáveis por aquele estabelecimento. Houve tempo para larga troca de impressões acerca da actividade que a Santa Casa tem entre mãos, sublinhando-se os objectivos atingidos e as dificuldades por que ora se está a passar devido, sobretudo, à cada vez maior falta de recursos das famílias e ao atraso verificado na entrega dos apoios oficiais.
            Juntaram-se ao informal grupo de trabalho Pedro Mota Soares, Ministro dos Ministro da Solidariedade, do Emprego e da Segurança Social, que mais uma vez se inteirou do trabalho que ali está a ser desenvolvido, assim como o prior de Alcabideche, Padre Luís Fialho de Almeida.
            Celebrou D. Joaquim Mendes a Santa Missa na capela da Residência, juntamente com o prior. E teve, à homilia, palavras de conforto e de esperança para quantos participaram na cerimónia. Registe-se, por exemplo, o seu apelo a que, no dia-a-dia, se dê maior atenção aos múltiplos sinais que a vida nos proporciona e a que, por andarmos sempre numa correria, acabamos amiúde por não ligar – e eles são bem importantes de todos os pontos de vista e não exclusivamente no âmbito religioso. «Urge fazer uma pedagogia dos sinais!», disse. Contou ainda que, numa das visitas pastorais em que mui gostosamente se desdobra pela diocese, uma criança lhe perguntou:
            Ó bispo, o que é que te aquece o coração?
            Não era fácil nem instantânea a resposta; mas D. Joaquim rapidamente a encontrou:
            O amor de Deus!
            Seguiu-se um almoço para confraternização e continuação de partilha de experiências, findo o qual se fez a visita às instalações.
            Como é sabido, as Misericórdias estão na directa dependência do Bispo da diocese em que se localizam, de modo que esta foi fundamentalmente uma visita de reconhecimento e de trabalho.

                                                                              José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 25-04-2015:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&amp%3Bview=article&amp%3Bid=1460%3Ao-bispo-o-que-e-que-te-aquece-o-coracao&amp%3Bcatid=89%3Asolidariedade&amp%3BItemid=85#.VTvv0val9DY.facebook

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A turbulência na Academia foi explicada!

            Na presença de meia centena de amigos do autor e no vetusto aconchego dos baixos abobadados da centenária Livraria Ferin (desde 1840, na Lisboa pombalina!...), foi apresentado, ao final da tarde de quinta-feira, 23, Dia Mundial do Livro, o mais recente romance de Júlio Conrado: Turbulência na Academia do Amor.
            João Paulo Dias Pinheiro, em nome desta livraria resistente numa Baixa «desertificada», deu as boas-vindas e regozijou-se por a apresentação coincidir com um dia em que, pela Baixa, se espalharam bancadas a incitar à leitura. Baptista Lopes, em nome da editora, Âncora, saudou os autores presentes e disse do seu agrado em poder continuar a ser editor em época de tamanhas resistências.
            A escritora Teolinda Gersão fez a apresentação. O leitor, sublinhou desde logo, ficará admirado com este livro-surpresa, pelas múltiplas pistas que sugere, pela multiplicidade de personagens (de repente, entra um de quem não estávamos à espera e ganha posição no palco…), pelo «muito que deixa à imaginação» de quem ler. Um retrato de muitas entidades nossas contemporâneas, amiúde ‘vespeiros de intrigas’: empresas, bancos, governos (as teias de que os governos se entretecem…), as reuniões dos ‘grupos de trabalho’ (p. 123-133)... A realidade de mãos dadas com a ficção. Mais do que um narrador e mais do que um estilo. No enredo, começa-se, por exemplo, a ler um livro e depois ele fica a meio. A ironia sempre presente, assim como o lado rocambolesco e até grotesco das histórias. Todas as histórias do livro são – como o próprio título preconiza – histórias de amor; o autor nunca é romântico, acredita no amor, mas…
            A apresentadora traçou uma panorâmica do enredo e mostrou, inclusive, o seu agrado por não ter sido escrito em obediência ao chamado «Novo Acordo Ortográfico» – o que lhe emprestou ainda maior encanto.
 
As personagens existem!
            Júlio Conrado não se limitou aos agradecimentos formais. Quis informar da existência real de três personagens cujas histórias de vida foram por ele incluídas nesta Turbulência: um juiz desembargador, que não pôde estar presente; Diana Duarte Gomes, nadadora que, aos 14 anos, bateu todos os recordes (que ainda mantém) e foi, nos Jogos Olímpicos de Atenas, a mais jovem atleta portuguesa olímpica de sempre, que ali se sentou, ao lado de Teolinda; João Orlando dos Santos Martinho, o contabilista que viveu no Brasil dos 18 aos 28 anos e que apertou a mão a Che Guevara, conviveu com o arquitecto Oscar Niemeyer, assistiu ao lançamento da 1ª pedra de Brasília… e o mais que se lerá! O Amigo também lá esteve!
            Explicou o Autor: homenagem minha, portanto, à Justiça e ao Direito, ao Desporto (através de uma notável figura da natação, hoje arquitecta e empresária), à odisseia da diáspora que foi – e é tributo a pagar por muitos portugueses.
            Terminou com palavras de reconhecimento ao editor, aos presentes, à família. E anunciou que, na abertura da temporada teatral, vai passar a ser também dramaturgo, pois o Teatro Experimental de Cascais tem na programação levar à cena o seu livro O Corno de Oiro.

            Bebi um cálice de porto; saboreei apropriado mil-folhas (era o Dia Mundial do Livro!...); deitei um olhar arqueológico às seculares arcarias pétreas; e, à saída, regalei-me com os letreiros em língua francesa (atelier de reliure, imagine-se!). E vim de alma lavada!
 
                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 24-04-2015:



 

O grande sentido da vida é vivê-la

             Confesso o meu fracasso: não consegui ler mais do que as duas primeiras páginas do ensaio «Estética do guardar-como», assinado por Domingo Hernández Sánchez, docente na Universidade de Salamanca, incluído a páginas 221-235 do número 11/12 (2012), da «revista de comunicação e cultura» Caleidoscópio, que é editada pelo Departamento de Ciências da Comunicação, Artes e Tecnologias da Informação, da Universidade Lusófona.
            Ao folhear a revista, especialmente dedicada a Carl Einstein (1885-1940), conhecido crítico de arte, chamou-me a atenção o inusitado do título do ensaio, decerto porque «guardar ou não guardar» constitui uma das questões mais frequentes no meu dia-a-dia e, por outro lado, optando eu por «guardar», importa sempre saber como o vou fazer, para que facilmente esteja disponível quando disso eu precisar. Criamos inúmeras «pastas» no computador, mas com frequência acabamos por não saber onde é que está isto ou aquilo e lá temos de lhe dar duas ou três pistas a fim de que o seu cérebro o encontre.
            Outro chamariz houve no texto: em itálico, frases e palavras como Dicionário das Ideias Feitas (um livro de Flaubert), copiar, ideias recebidas, a culminar, porventura, na afirmação «a nossa cultura actual é uma cultura da cópia». Já explico porquê, porque, antes, importa esclarecer porque fracassei: foi porque o texto do professor documenta às mil maravilhas o que, eventualmente, pretenderá criticar, pois não há parágrafo que não tenha a reprodução da frase de alguém. Mesmo a afirmação da «cultura da cópia» é retirada de La Cultura de la Copia. Parecidos sorprendentes, facsimiles insólitos, título de um livro de Henry Schwartz. Não resisti a estar constantemente a ter de ir ver as notas para saber donde é que a frase fora retirada e, além disso, acabei por não saber, três páginas lidas, que haveria de novo nessa enorme recolha de citações. Erro meu, claro, que sempre me considerei terra-a-terra, avesso a elucubrações – e peço desculpa por isso.
            Interessou-me, todavia, saber desse dicionário de Gustavo Flaubert, que se destinava, segundo o próprio autor, a reunir, por ordem alfabética, «tudo o que há que dizer em sociedade para se ser um homem decente e amável sobre todos os temas possíveis» (ibidem, p. 221). Boa ideia!
            E recordei de imediato duas das iniciativas de Celestino Costa, a que a editora Apenas Livros dera a mão: Dos Outros para mim (2014), colectânea de frases de homens célebres, livro de cabeceira a consultar «naqueles derradeiros minutos de vigília quotidiana», como tive ensejo de escrever, no prefácio; e Contos Recontados (2015), a recolha de casos divertidos retirados das biografias de ilustres, «que paulatinamente foi copiando, qual solitário monge em mui recatada cela…».
            Confidenciava-me o autor: estou mesmo no fim da vida, já nada faço de novo, limito-me a copiar o que outros fizeram…
            É curioso: longa caminhada feita, atingido o destino fixado, não deixa de ser aliciante olhar para trás, anotar o caminho percorrido, as peripécias passadas, os medos e as alegrias… «Experiência» assim cabalmente se designa o que a vida ensinou. E, ao que consta, será essa uma das grandes distinções a caracterizar o ser humano: a capacidade que tem de aprender e, sobretudo, de transmitir aos outros o que acaba de aprender.
            Frequentemente referia aos meus estudantes: Ora aí têm! Eu, com 40 anos, com 50 anos, com 60 anos, só agora é que tomei consciência desta situação e da forma mais correcta de a aproveitar; vocês têm 20 e já ficam com o meu testemunho; podem aproveitá-lo ou não, é decisão que lhes compete, a mim aquela de, como docente, a partilhar.
            Alguém, outro dia, referindo-se ao comentário jocoso de um veterano, escreveu ao amigo: «Eu fui ver e acho que a opinião está fora do contexto (sem comentários para quem se acha professor de todos)».
            Esse – suponho que jovem – ‘acha’ muito; oxalá continue a achar, porque significará que adoptou uma consciente atitude de pesquisa! Decerto, porém, não cairá na asneira de seguir carreira de professor, porque, se a seguisse por vocação, bem depressa compreenderia essa natural característica do homem para a partilha da experiência adquirida, sabe-se lá (quanta vez!) à custa de árdua procura e muita reflexão!
            Encanta-me recortar dos livros – mesmo dos de ficção – aquelas frases lapidares, diria que esculturalmente bem buriladas, que retratam um estado de alma e que pululam hoje nos sítios da Internet sob o título «as frases de…». Cristalizam uma ideia, um lema de acção, um sentimento único. Assim como o instantâneo captado pelo pintor ou pela objectiva do fotógrafo – e que, de seguida, o não guardam para si e no-lo disponibilizam. Do livro «O Segredo Perdido», de Júlia Nery, guardei, por exemplo, entre muitas outras: «Lisboa depressa odeia os que muito aclama»; e: «Aprendi que o grande sentido da vida é vivê-la».
            Esses, também, grandes segredos a partilhar!
                                                                            José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 89, 22-04-2015, p. 6.

 

 

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Faleceu padre salesiano, com a provecta idade de 103 anos!

            Encontrava-se na Residência B. Artémides Zatti, anexa à Escola Salesiana de Manique, o Padre Manuel Geraldo Gonçalves, que faleceu na passada terça-feira, 14, no Hospital de Cascais, com a provecta idade de 103 anos.
            Celebraram-se, no dia seguinte, na capela da escola, as exéquias fúnebres, com a presença de irmãos das várias comunidades salesianas, seguindo-se o funeral para o cemitério da Galiza.
            O Padre Manuel Geraldo fez a profissão religiosa em 1934, entrando assim para a Congregação Salesiana e foi ordenado sacerdote em 1943.
            Partiu em 1955, como missionário, para Moçambique, onde permaneceu até 1974, desenvolvendo aí intensa, variada e prestigiada actividade pastoral e organizativa, afirmando, dessa forma, a presença salesiana.
            Recorde-se que, além das escolas que asseguram no continente, os Salesianos alargaram a sua acção educativa e missionária à Madeira (Escola de Artes e Ofícios do Funchal), a Cabo Verde, a Moçambique, Goa, Macau e Timor. Neste último território realcem-se as figuras de D. Ximenes Belo, bispo salesiano, e Xanana Gusmão, antigo aluno. Em Moçambique, a actividade – a que esteve intimamente ligada a figura do Padre Geraldo ora falecido – foi (e continua a ser!) a todos os títulos meritória, mormente no apoio à juventude carenciada, bem como à população em geral. Seguindo as pisadas do seu fundador, S. João Bosco, os Salesianos foram pioneiros na criação e manutenção de escolas de ensino técnico-profissional.
            À família salesiana enlutada apresentam-se os mais sentidos pêsames, na certeza de que são exemplos de dedicação ao próximo como o que o Padre Geraldo legou que continuarão a ser fortes testemunhos para todas as gerações.
            As fotos que ilustram este apontamento foram gentilmente cedidas pelos serviços de Relações Públicas da Congregação. Bem hajam! Ilustram um instantâneo da vida missionária do venerando sacerdote e um outro da comemoração do seu centenário, na comunidade de Manique.

                                             José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 16-04-2015:

A pétala que na página se guarda

            Tempos houve em que pegávamos na perfumada pétala rosada e delicadamente a guardávamos no livro de cabeceira, na vontade de assim perpetuarmos doce lembrança. E quando, antes de adormecer, lemos mais umas linhas, daquelas que nos alimentam a alma, amiúde a pétala nos sorri.
            Essa, a primeira imagem que me ocorreu quando aceitei de bom grado o pedido da comissão organizadora da homenagem a Helena Frade para organizar este opúsculo e alinhavar sobre a Amiga um depoimento. Decerto muitos outros amigos quereriam estar aqui presentes; estes foram, porém, aqueles de que nos lembrámos agora – e peço desculpa pelos naturais esquecimentos. Assevero, porém, que tenho a mais funda convicção de que todos se irmanariam também não apenas em mostrar a pétala religiosamente guardada, mas, de modo especial, em prontamente colaborar na vistosa composição de mui sentido ramalhete que nestas páginas se ostenta.
            Quando nos apercebemos de que, embora lindas, as flores murcham, rápidas, sobre a terra fresca da sepultura, olhamos para o canteiro e pedimos-lhe que perpetue na pedra uma grinalda, um botão, uma coroa – que eternidade exigimos na dor e na ternura!... Um livrinho como este, ainda que de modestas proporções, é grinalda esculpida, botão sempre viçoso, precioso escaninho de saudade…
            Nunca chegaste a ser, oficialmente, minha aluna; contudo, ao recordar os meus primeiros tempos em que, na mesa grande do Instituto de Arqueologia, nos ‘fundos’ da Faculdade, todos nos sentávamos, docentes e estudantes, numa partilha de conhecimentos, de conversas, de vidas, a imagem da Lena Pequena e da Lena Grande surge de imediato.
            Não andarei longe da verdade se disser que, ali, nessa segunda metade da década de 70 do século XX, também encetámos uma revolução no relacionamento mais próximo entre docentes e estudantes. Aliás, tivera eu a dita de ir leccionar a alunos que eram quase da minha idade, alguns, já, como eu, pais de filhos e filhos da mesma idade dos meus. E o entusiasmo pela História Antiga, pela Arqueologia, pela Epigrafia (que então passara a ter, por mui lúcida proposta do Doutor Alarcão o estatuto de disciplina anual). E também tu, Leninha, ainda que não aluna, por essas ‘pedras com letras’ te acabarias por deixar seduzir e, assim que o Ficheiro Epigráfico surgiu, lá veio o teu artigo, em 1982, logo no nº 2, sobre uma estela funerária do Crato. Foi o teu primeiro artigo em letra de forma, não foi?
            Recordo o entusiasmo com que aí, no Crato, a terra natal do Zé Carlos, te entregaste à escavação da necrópole da Lage do Ouro, um trabalho modelar, a ombrear com o que, anos antes, a equipa do Instituto levara a cabo em Santo André (Montargil)… Lembro-me quanto admirei a minúcia como tudo nos apresentaram e as conclusões inovadoras que daí foi possível retirar. E logo o Zé Carlos se revelou aquele ‘menino’ de um rigor no desenho e no trabalho. Estavam, também nessa atitude científica, irmanados por completo. Tornaram-se autores de referência obrigatória no que concerne às práticas funerárias romanas.
            Como técnica do Serviço Regional de Arqueologia da Zona Centro, demandaste, com José Beleza Moreira, S. Pedro do Sul. As termas. E – como não podia deixar de ser – toda a problemática do aproveitamento das águas termais ao longo dos tempos te seduziu. E, mais uma vez, o teu nome passou a referência a nível peninsular (e não só), de modo que foste convidada a ser a representante portuguesa no grupo de peritos que por essas questões expressamente se interessava: o Grupo de Trabajo ATA – Atlas de Termalismo Antiguo, com sede em Madrid.
            Com Clara Portas foste para Bobadela – e correu mundo a descoberta do anfiteatro! E integraste, por via disso, o Réseau Européen des Lieux Antiques de Spectacle. Demandaste Centum Cellas – e as reflexões que o teu meticuloso labor determinou geraram mui proveitosa polémica. Ah! E o extraordinário altar erigido pela civitas Cobelcorum ao deus maior dos Romanos, que permitiu (além de a vossa cadela ter sido «Cobelca»…) fazer jorrar inesperada luz sobre o que se (des)conhecia acerca das organizações pré-romanas dessa Beira Interior?!... E o excitante lararium, ainda de Centum Cellas?!...
            Não hesitei, pois, em propor a Attilio Mastino que te convidasse a participar em Cartago, no XI Convegno Internazionale di Studi L’Africa Romana, cujo tema era "La scienza e le tecniche nel Mediterraneo classico", e tu apresentaste aí uma comunicação, que foi muito bem acolhida, sobre técnicas construtivas de monumentos da Lusitânia. Ana e eu e Catarina Leal bem recordamos esses dias de Dezembro de 1994 e as singulares peripécias nas lojas de Sidi-Bou-Saïd!...
            Entretanto, viera – muito antes!... – a experiência ímpar de S. Cucufate, a grande Escola que nos foi proporcionada no fim da década de 70 e primeira metade dos anos 80. Escola de Arqueologia, escola de Vida, alfobre de cumplicidades que fomos mantendo vida afora! S. Cucufate, também esses uns Verões que jamais se esquecem. E eu, que fazia de vez em quando o caderno de campo com Françoise Mayet, posso atestar quanto eras rigorosa na metodologia seguida, minuciosamente anotando tudo, mesmo que não fosse romano, porque sabias que um sítio tem um antes e tem um depois…. E viviam-se em comum praticamente as 24 horas do dia. Por vezes, após a quente jornada, a caneca de ‘saboroso néctar’ a escorrer das grandes talhas, na adega dos irmãos Parreira, em Vila de Frades, com um bom naco de queijo e aquele pão que não nos cansávamos de saborear! Ah! Fresquinho Vidigueira de tom levemente rosado!... Sabes, Lena, ainda guardo o papelito de rascunho em que o Chefe anotou a «Constituição da equipe portuguesa» em 1981: lá vem o teu nome, com a indicação «professora do ensino secundário»!
            Visitámos-te no hospital aquando da última operação a que tiveste de ser submetida. Desses momentos, recordo a tua vontade de aproveitar o tempo, de «dar a volta por cima». Senti que, vinda a forçada aposentação, haveria necessidade de maior ânimo ainda para reformulares o dia-a-dia, sem o aguilhão dos processos, dos pareceres, das reuniões, das ‘inspecções’ em que as horas se esgotavam e te esgotavam, impedindo a dedicação a uma investigação a que mais gostarias de te entregar.
            Assim não aconteceu, Lena! E partiste mais cedo do que todos esperávamos. Sugeriu Escrivá de Balaguer: «Que a tua vida não seja uma vida estéril. Sê útil. Deixa rasto». Descansa em paz, Lena: a tua vida não foi estéril! Foste útil, deixaste rasto! E nós vamos sempre recordar as tuas inconfundíveis gargalhadas, assim como – desculpa lá, mas isso também é bom!... – as alfinetadas que não hesitavas em dar! Alfinetadas e gargalhadas tudo fazia parte de uma vida, que foi curta, bem no sabemos, mas… deixou rasto!
José d'Encarnação
in ENCARNAÇÃO (José d') [coord.], Helena Frade, Sociedade dos Amigos do Museu de Francisco Tavares Proença Jr., Castelo Branco, 2015, p. 20-22.