sábado, 4 de julho de 2015

Grande Gala de Fado evocou Carlos Zel

            Depois de, na noite de 7 de Junho, das janelas dos Paços do Concelho de Cascais se terem ouvido fados a relembrar as décadas de 60 e 70, o período em que o fado por aqui morava «fora de portas», foi a vez de o Casino Estoril realizar, a 17 de Junho, a 14ª Grande Gala do Fado, numa sempre sentida evocação do fadista cascalense Carlos Zel (1950-2002).
            Pretexto para reencontro de habituais frequentadores das boas noites de espectáculo no Salão Preto e Prata, que, mais uma vez, esteve lotado, a Gala teve acompanhamento de José Manuel Neto à guitarra portuguesa, Carlos Manuel Proença (viola de fado) e Daniel Pinto (Didi) na viola baixo. Foram, aliás, os músicos, que, ainda não eram 23 horas, deram o mote, numa guitarrada que se aplaudiu. Como cenário, uma dúzia de guitarras penduradas, em sedução...
            Começou Ricardo Ribeiro, camisa branca caída, lenço a descansar sobre o peito: «Entrega» (da Amália); o seu «Não rias»; «Bairro Afamado» («Gente boa, gente honrada / Fadistas venham comigo / Ouvir o fado vadio. E cantar ao desafio»); «A Alma do ganhão» (dolente, a ressumar Alentejo…).
            Às 23.15, Gisela João. Minivestido carmesim, longos cabelos lisos, sapatos carmesim também, saltos altos, uma túnica pelas costas. «Meu amigo está longe», um dos seus grandes êxitos, voz dolorida, quente, arrepia!… «Vieste do fim do mundo». «(A casa da) Mariquinhas», como só ela sabe interpretar, quase numa conversa cantada. Depois, em homenagem a Manuel de Almeida, «Fado corrido» (como ainda ecoam pelos pinhais de Birre essa voz rouca do Manuel, e não deixávamos passar uma noite sem que ele nos brindasse com o corrido, como só ele sabia cantar – e Gisela João vai muito bem!...).
            Camané, fato azul, camisa branca, sem gravata, anunciado – como todo o espectáculo, como vem sendo habitual – por Branca Frazão, viúva de Carlos Zel, que evocou os tempos do Kopus Bar. «Sei de um rio… rio onde a própria mentira / tem o sabor da verdade», seguramente um dos seus trabalhos mais significativos e que melhor se ajusta à sua voz; «A correr» (“sem repararmos que a vida passa por nós a correr”… e é verdade, não reparamos!); «Lume» («… e acendeste-me o cigarro»). «Saudades trago comigo» foi o seu 4º fado («… é morrer cantando o fado nos braços de uma mulher»…).
            Carminho. Calças pretas, suspensórios sobre uma blusa branca, sapatos pretos de salto alto. Começou com o seu «Lágrimas do céu» (‘quando eu canto e a chuva cai”…). Evocou as ‘quartas de fado’ de Carlos Zel. «As pedras da minha rua». «Malva Rosa». A terminar, «Meu amor marinheiro»… tinha que ser! (Já reparáramos que o som estava demasiadamente alto, e o fado quer-se discreto e Carminho poderia ter cantado com menor volume, gostaríamos mais…).
            João Ferreira Rosa. Mãos nos bolsos, de negro a camisa. «Ando na vida à procura duma noite menos escura…» – o fado ‘Triste sorte’, de Alfredo Marceneiro. «Fragata» – o segundo fado, um êxito consolidado. «Arraial», que ora outros fadistas também incluem no seu repertório, mas ninguém o canta como o seu autor. Finalmente, não podia deixar de ser, o «Embuçado», inimitável!...
            Maria da Fé. Vestido preto comprido, longo colar branco e brilhante, túnica breve em vez de xaile. «É daqui da minha terra». Recorda que pisou este palco em 1971 e agrada-lhe voltar. «Valeu a pena» – a sua declaração de vida! «Divino fado», um fado corrido, minha mãe eu sou do tempo da força que a água tem!... E um final bonito: «Cantarei até que a voz me doa!».
            Ovação. Meia-noite e 26 minutos. O agradecimento sentido de Branca Frazão a quantos estiveram presentes nesta noite e, de modo muito especial, aos fadistas.
            E saímos. Carentes de algum aconchego, quiçá. No «Lounge D» (antigo jardim de inverno), havia fado também…

                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, 2015-07-02:

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Do teatro há cem anos… em Évora!

            Está patente no bem restaurado Palácio de D. Manuel, em Évora, a exposição «O Paço Real e a cidade», evocativa do que foi, ao longo dos séculos, a relação deste magnífico edifício pleno de história com a vida da cidade.
            Nele funcionou, por exemplo, a partir da 2ª metade do século XIX, o Theatro Eborense e, por isso, na exposição se mostram cartazes dessa altura. Respigo duas informações que reputo de interesse, porque correspondem no fundo, a iniciativas que noutros lugares na mesma época se levavam a efeito.
            Assim, anunciam-se bailes de máscaras para os dias 12, 16, 19, 20 e 21 de Fevereiro de 1882, a «preços e condições do costume». Achei curiosa esta anotação.
            Recordo que, ainda nas décadas de 50 e 60, se faziam «bailes de benefício», cujos proventos angariados eram entregues a quem, por inesperada desgraça, necessitava de ajuda, numa altura em que não havia Segurança Social e também já não estavam activas as confrarias medievais que amealhavam para auxílio dos seu membros necessitados. Chamou-me, por isso, a atenção, o anúncio de uma «récita extraordinária e de caridade», a realizar a 8 de Dezembro de 1913. Valerá a pena atentar no teor do anúncio, inclusive para se ver qual o sentir do Povo nessa época.
            A organização partiu de «um grupo de amigos e admiradores do distinto amador dramático o operário marceneiro Francisco Manuel de Andrade que há meses vem sofrendo duma doença na vista que o impossibilita de trabalhar, lançando-o em precárias circunstâncias». Por conseguinte, a récita será «em benefício do desditoso operário cego, e de sua desolada esposa». Repare-se na imensa carga afectiva que se desprende dos três adjectivos usados: desditoso, cego, desolada…
            Anuncia-se depois que «obsequiosamente» na récita «tomam parte as distintas amadoras» cujos nomes se indicam a seguir. E explicita-se que os preços a praticar serão os seguintes:
            Balcão: 31 centavos (310 réis)
            Plateia: 21 centavos (210 réis).
            Não deixa de ser, também esta, uma nota interessante, porque – situando-se num período de transição do valor da moeda (do real para o escudo) – houve o cuidado de assinalar a respectiva correspondência. Aliás, muitos de nós se lembrarão ainda de ter na mão uma nota de vinte mil réis, perdão, de vinte escudos; mas, na linguagem quotidiana, vinte mil réis ouvia-se com frequência…

                                                                         José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, 02-07-2015:

Orquestra Sinfónica de Cascais - O concerto deste Verão

             Longe de mim a ideia de fazer uma apreciação ‘técnica’ do que foi o Concerto de Verão da Orquestra Sinfónica de Cascais, realizado, com casa quase cheia, no passado dia 13 de Junho, no auditório Senhora da Boa Nova.
            Executaram-se, neste segundo concerto, duas obras que o programa anunciava com «emblemáticas» e de «popularidade incomparável» (e são-no!): a «Suite Alentejana nº 1» de Luís Freitas Branco, que preencheu a primeira parte; e a mui célebre «Suite Scheherazade Op. 35», criada, em 1888, pelo compositor russo Nikolai Rimski-Korsakov (1844-1908), sob inspiração dos contos das Mil e Uma Noites.
            Apreciei, na primeira, o final do prelúdio, com os arcos dos violinos a descerem lentamente depois de, momentos antes, haverem ensaiado uma corrida frenética. O prelúdio levara-nos, aliás, às planícies alentejanas, onde, de quando em quando, o som dolente do oboé ou o encantamento da flauta lembravam rebanhos a pascer… No 2º andamento – intermezzo – também ele mui sereno, os baixos já mais se fizeram sentir e os violinos ensaiavam uma daquelas repentinas tempestades... O final, que bem apetecia trautear de tanto nos estar no ouvido, quase andaluz nos pareceu aquele frenético fandango!...
            Scheherazade encanta-nos sempre, no seu sortilégio oriental: «O mar e o navio de Simbad», «A história do Príncipe Kalender», «O jovem príncipe e a jovem princesa» e, finalmente, a quarta parte, «Festa em Bagdad – Naufrágio do barco nas rochas». E se o diálogo entre a harpa e os violinos nos atraiu e é sempre de muito admirar o entusiasmo e a enorme competência do maestro Nikolay Lalov (bem navega ele no seu mar, sem naufrágio algum à vista!...), maravilha-nos a entrega de todos e cada um dos músicos, a vibrarem (nota-se bem!) com os sons magníficos que estão a produzir!
            Mais uma vez, saímos de alma cheia! Parabéns!
                                                           José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, 02-07-2015:

Cascais - Três apontamentos... culturais!


            Porventura não serão muitos os que saberão ser S. Pedro do Estoril o topónimo sucessor de Cai Água, nome que adveio à zona por lhe ser característico o rumorejar, estrepitoso por vezes, da água que, de uma azenha (e não só), caía arriba abaixo.
Cai-Água - postal reproduzido no livro
O Passado nunca Passa, de José Santos Fernandes

Cai-Água - óleo do Conde de Almedina
            Esse, pois, o nome escolhido pelo Núcleo de Amigos de S. Pedro do Estoril para o seu boletim. Tem o nº 28 o que se refere ao mês de Abril e valerá a pena assinalar que, no editorial, Manuela Duarte se faz eco da opinião (arriscaria afirmar que generalizada) da população local contra a lei «tão fria e cega quão nefasta, aplicada após as Eleições de 29 de Setembro de 2013» que fundiu a freguesia do Estoril à de Cascais, sob o pretexto, gizado por «incumbência do então Ministro Miguel Relvas» de se fazerem poupanças, hoje bem duvidosas, afinal. De resto, a nova União «é maior que muitos concelhos do País e, em número de habitantes, ultrapassa em vários milhares o máximo previsto», que era de 50 000 e… somos 62 000!
            Reitera Manuela Duarte o seu «repúdio a esta forma simplista, errática e apresada de se retalhar o território», sublinhando que a citada «Lei Relvas» «escamoteia as originalidades dos dois territórios antes autónomos, desvanece e dilui a história e a arquitectura de cada um deles, mistura tipicidades e, pior que tudo, não garante o melhor bem servir a causa pública nem promove ou agiliza um maior progresso».
            No interior do boletim, informação sobre a nova designação da escola EB1 de S. Pedro que passa a ostentar o nome da benemérita Profª Hortênsia Correia e notícias ilustradas sobre as actividades desenvolvidas, nomeadamente no Centro de Interpretação Ambiental da Pedra do Sal.
No Palácio da Cidadela
            Vale a pena visitar a exposição patente, até 30 de Agosto, nos baixos do Palácio da Cidadela de Cascais, intitulada «Pintores e Arquitectos nos Palcos Portugueses», uma bem curiosa panorâmica acera da actividade desenvolvida por arquitectos e pintores no âmbito da «construção e concepção plástica do Espectáculo, nas suas mais variadas formas: na ópera, na dança e no teatro musicado ou declamado», um «tributo àqueles que, não se tendo dedicado em exclusivo às artes do palco, a elas apenas consagraram uma parte da sua carreira artística e profissional», como refere José Carlos Alvarez no catálogo, que inclui um apontamento sobre cada um dos nomes representados.
            Uma organização do Museu da Presidência da República em parceria com o Museu Nacional do Teatro e da Dança. De quarta a domingo, das 14 às 20 horas.
No Condes de Castro Guimarães (Cascais)
            No piso superior do Museu Condes de Castro Guimarães, sob curadoria da Professora Raquel Henriques da Silva, está exposta, até 20 de Setembro, pintura naturalista que integra a colecção Millenium BCP. A entrada é gratuita, de terça a sexta, das 10 às 17 horas; aos sábados e domingos fecha à hora de almoço (das 13 às 14).
            Explica-se no sugestivo catálogo que, «para os naturalistas, o campo, as paisagens ribeirinhas ou marítimas detinham uma superioridade moral em relação à cidade» e que «ao longo de paisagens e narrativas do quotidiano o que mais apaixona os pintores é captar um momento».
            São 19 os pintores representados, entre os quais Carlos Reis, José Júlio de Sousa Pinto, José Malhoa, Henrique Pousão…
            A não perder!
                                                             José d’Encarnação


Pedro e o Lobo – bom pretexto para dançar!

            E resultou! A ideia pairava há tempo. Não se sentia, porém, coragem de ensaiar este arrojo: uma adaptação de Pedro e o Lobo, de Sergei Prokofiev, como pretexto para dar conta do trabalho de um ano inteiro! Mas resultou! E os meninos, sentindo-se personagens da história, esmeraram-se ainda mais e proporcionaram-nos um espectáculo que tivera tanto de arrojado à partida como de êxito pleno à chegada!... Nisso inclusive ajudou muito – estou certo! – o bem adequado guarda-roupa que todos ufanamente envergaram. Lindos!
            Em sincronia perfeita, em justa sintonia… deliciaram-nos!
            Refiro-me ao espectáculo de final d’ano da EDAM – Escola de Dança Ana Mangericão, que se realizou na tarde de domingo, 14 de Junho, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra. Hora e meia a titilar uma assistência embevecida – não fossem seus filhotes e familiares os desinibidos actores!...
            Tudo se passa na floresta. Na primeira parte, o retrato idílico de um bonito mundo onde apetece sorrir, bailar docemente, deixar-se enlevar… Na segunda parte, porém, o perigo espreita na figura estereotipada do lobo mau, sempre pronto a destruir maravilhas em seu próprio proveito. Desde pequeninos, de facto, há que ensinar cautelas. Trava-se a luta, engendram-se estratagemas de parte a parte – e é um encanto verificar como, em plena comunhão de gestos, movimentos, melodias e sons, assim se esparge beleza e se dá testemunho do longo treino adquirido, pautado agora pela narração serena de Teresa Côrte-Real, justamente homenageada no fim por Ana Mangericão, alma mater de um ambicioso projecto cujos resultados de excelência, mais uma vez, aqui, ficaram cabalmente demonstrados.
            Tudo parece bem simples. Facilmente esquecemos as longas horas a repetir, a repetir; e a pensar no trajo que será mais ajustado a cada naipe. Não deixa indiferente – nem pode deixar! – aquele palco final recheado, desde os mais pequeninos, de palmo e meio, às orgulhosas finalistas, bem cientes de quão foram excepcionais para elas (e uso agora o feminino, porque elas estão em maioria absoluta…) as horas passadas na EDAM.
            Toda a equipa foi, naturalmente, chamada e envolvida em longo e bem merecido aplauso.
            Apresentou, como vem sendo habitual, Adelaide Sousa. A coreografia resultou de ampla colaboração de Ana Mangericão com Alexandra Barbosa Silva, Caroline Chapman, Eduardo Ramos, Maria João Filipe, Sara Duarte e aprendizes, e Susana Rodrigues. Ana Rita Marques adaptou o texto. Pedro Rua encarregou-se do desenho e operação de luz, Rui Braga foi o operador de iluminação e Maria João teve a seu cargo o «make-up».
            Anote-se, ainda, que a edição nº 22 do boletim da EDAM constitui o guião do espectáculo, mas foi feito como livrinho, muito bem ilustrado com fotografias das cenas, de modo que se trata, afinal, de mais um delicioso livro para crianças.
            Parabéns, Ana! Parabéns a toda a equipa! Compreendemos perfeitamente – porque temos acompanhado o corajoso percurso da EDAM – o sentido profundo das palavras com que, no livrinho, termina a sua apresentação, «pedindo humildemente a Deus a coragem e saúde, para – com o amor e a Fé que, ao longo dos anos, me tem permitido levar de vencida as enormes dificuldades – continuar o projecto que implementei na valorização e saudável formação dos nossos alunos»! E Deus a ajudará!
                                                         José d’Encarnação


A celebração do 10 de Junho!

            Uma sensação estranha, de facto. Quando não há o papel que a gente agarra, tem-se a impressão de que tudo se esvai num ápice, alojado como está (dizem!) nessa quase inexplicável ‘nuvem’. Sabemos que fica lá, porque – por enquanto – vamos tendo as chaves para entrar; ocorre, por vezes, interrogar-nos: «E se eles mudarem a fechadura?». É que, na verdade, mesmo num mundo muito mais real como é o das cassetes de vídeo, nós temo-las, sabemos que há fados dentro, mas… já não há os instrumentos para de lá arrancarmos as vozes!...
            Assim, alguém me dizia: «Não há jornais em Cascais, nada se sabe, não há notícias!». O certo é que as há, minuto a minuto, nas chamadas ‘redes sociais’, inacessíveis, porém, a muito mais gente do que aquela que nos querem fazer crer.
            Vêm estas considerações a propósito das muitas iniciativas que por Cascais ocorrem e que ora passam para a posteridade apenas através das formais ‘informações à imprensa’. Quero, pois, hoje, evocar o que foram as celebrações do 10 de Junho.

Uma tradição da Propaganda
            «Foi no ano de 1980, faz agora 35 anos, que esta Sociedade iniciou a sua presença junto da estátua do Poeta, celebrando aquele dia com a deposição de coroas de flores e convidando para estarem ao nosso lado entidades oficiais e particulares, os nossos sócios e a população em geral», escreveu Joaquim Aguiar, presidente da Sociedade Propaganda de Cascais, no convite enviado.
            Um ritual. E, nessa qualidade, há que cumpri-lo.
            Acorreram ao chamamento, além do Povo, algumas entidades e foi significativo (não se pode pedir muito!...) o número de estandartes que emolduraram o quadro.

A cerimónia na Praça 5 de Outubro
            À Praça 5 de Outubro, onde se situam os Paços do Concelho, foram chegando as bandas: a da Sociedade Musical Sportiva Alvidense, a da Sociedade de Instrução e Recreio de Janes e Malveira, a da Sociedade Recreativa e Familiar da Malveira da Serra e a da Sociedade Recreativa e Musical de Carcavelos. Como que vieram dos quatro cantos da vila e foi emocionante a parada, nomeadamente porque chegaram e tocaram uma peça à sua escolha.
            Ao som do hino nacional, lá subiram as três bandeiras (a portuguesa, a do concelho e a da União Europeia) nos mastros do edifício camarário, cuidadosamente içadas pelo Sr. Presidente da Câmara, por uma senhora e por um senhor, cada um a sua. O Sr. Presidente, o Povo conhece; os outros dois ouvimos ao nosso lado perguntar quem eram. Eu explico: foi o senhor presidente da Assembleia Municipal, Jaime Roque de Pinho d'Almeida, do Grupo Municipal do CDS-PP (poucos cascalenses se terão apercebido que esse cargo já não é exercido por António Pires de Lima); e a senhora é Paula Alexandra Alves Mateus Ferreira Dias Gomes da Silva, vereadora pelo PPD/PSD.
            Melhor se andou (permita-se-me o comentário) na noite do dia 7, em que se evocou a ‘Cascais fadista’ de há 50 anos e tudo foi anunciado a preceito para se saber. Se calhar, para o próximo 10 de Junho, talvez não fosse mau dar trabalho aos nossos sempre atenciosos e mui eficazes elementos das Relações Públicas, que até têm boa voz para se fazerem entender, e eles explicavam tudo tintim por tintim.

A cerimónia no Largo Camões
            Fez-se caminhada depois, atrás da fanfarra dos Bombeiros da vila, para o Largo Camões, ora bem recheadinho de esplanadas…

            A bandeira já se içara noutro lado (dantes, era mesmo junto à estátua que se içava, porque a homenagem era a Camões); por isso, perfiladas as entidades e os estandartes, tocou a fanfarra um alerta (parece que é assim que se diz) e foi a ritual deposição de coroas de flores: avançou a senhora presidente da Freguesia de S. Domingos de Rana, a direcção da Propaganda e, por fim, o Sr. Presidente da Câmara.
            Verifiquei mais tarde que se fizera, de seguida, pequeno concerto no «largo da Câmara». Nunca sou previsto nestas andanças e perdi, inclusive, a oportunidade de saber quem tinha tocado, quanto mais o que tocara! Sei que houve música e assim se celebrou o nosso épico, que, reza a tradição, terá dito, ao morrer, a 10 de Junho de 1580, «ao menos morro com a Pátria», pois os Espanhóis invadiram-nos, precisamente desembarcados ali para as bandas da Guia e por cá ficaram 60 aninhos. Dizem os entendidos que a História se repete; não enxergo, porém, nenhuma perspectiva de virmos a ser dominados de novo pelos nossos vizinhos, ainda que, de facto, em muitos dos pacotes de géneros alimentícios que compro hajam pespegado rótulo em castelhano e o português em segundo lugar e eu nunca sei se é para português pôr o pezinho lá ou para espanhol manter o dele cá dentro. Logo se verá!
                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 99, 01-07-2015, p. 6.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

O colhedor de espinhos

            «Deixei os reis cobertos com os seus mantos; deixei de ir em seus cortejos. Converti-me, em Alcabideche, em colhedor de espinhos, com uma foice guarnecida e afiada. E, se me perguntam “Gostas?”, respondo-lhes: "O amor à liberdade faz parte do carácter nobre!"».
            Estava muito longe de começar assim a crónica desta quinzena. Motivou-me o inesperado falecimento, no passado dia 23, em Dalvares, do Doutor João Luís Vaz, meu ex-aluno de Coimbra, amigo e companheiro das lides pela Epigrafia romana, pela Arqueologia e História Antiga, desde há quase 40 anos… Uma vida!
            Claro, precisava de a dedicar à sua memória, não apenas porque ainda não estamos bem conscientes de que, de facto, partiu do nosso convívio e por ele elevamos uma prece, mas, de modo especial, por uma das suas mais recentes iniciativas em prol das ciências a que se entregava como investigador se ter concretizado em Mangualde, com o mais amplo apoio local: da Câmara, da ACAB – Associação Cultural de Azurara da Beira e de outras entidades. Refiro-me à VIII Mesa-redonda Internacional sobre a «Lusitânia Romana – Entre Romanos e Bárbaros», que, com enorme brio, aqui organizou em Maio de 2013 e cuja publicação das actas tinha entre mãos.
João L. da Inês Vaz, na sessão de abertura, a 10 de Maio de 2013,
da VIII Mesa-redonda Internacional sobre a Lusitânia Romana
            O texto transcrito está num poema de Ibne Mucana, poeta árabe do século XI; natural de Alcabideche, terra aonde se ‘refugiou’ após uma vida passada no bulício das cortes dos reinos de taifas pelo que é hoje a Andaluzia. Viveu também João Vaz uma vida intensa – de estudo, de investigação, de intervenção política… Contudo, se a aposentação o não libertou do gosto pela História Antiga e pela intransigente defesa do Património Cultural, certo é que na agricultura se refugiava e foi precisamente em meio de um labor agrícola que a morte o veio surpreender. Como Ibne Mucana.
            Ocorrem-me, naturalmente, todas aquelas frases mais ou menos feitas quando há um desenlace assim, tão repentino, tão brutal, tão… sem jeito! Escuso-me de as escrever. Recordam-se, porém, as lutas travadas por um ensino melhor, por uma sociedade mais humana, pelo reconhecimento e revitalização das memórias locais, fonte de um enraizamento populacional por que insistentemente se pugna. Fica-nos o exemplo do lutador com «amor à liberdade». Colheu espinhos onde, quiçá, apenas semeara ilusões; mas colheu frutos também. E sabemos que continuará a nosso lado!

                                                                                              José d’Encarnação    

Publicado no quinzenário Renascimento (Mangualde), nº 665, 01-07-2015, p. 12.