quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Vamos adiar!

             Perdoar-me-á o leitor se partilho hoje sentimentos de septuagenário.
            É que estou numa fase em que, semana a semana, tenho felizmente conseguido, um após outro, dar caminho a assuntos que há anos estavam pendentes. E não imagina a consolação que é!... Como quem desfolha um calendário: “Este já passou, vamos a outro!”. Deve ser assim, porventura, na escusa cela duma cadeia, ou em tempo de guerra no campo de batalha, ou em atribulada viagem. Uma sensação de alívio!...
            Surgem-me, por isso, as frases de dois autores cujos livros estão (creio que já o disse) na minha mesinha de cabeceira.
            A primeira:

            «Pensas sempre que a vida é para amanhã:
            amanhã farei isto…
            amanhã terei aquilo…
            amanhã serei…
            Porque esperas por amanhã para viver? Um dia, para ti, não haverá mais amanhã e não terás vivido».
(Michel Quoist, Construir, Lisboa, 1965, p. 146).

            A segunda:

            «Tem-se o sentimento de que é preciso, por exemplo, escrever uma carta, e não se escreve essa carta. Os dias passam; conserva-se este pensamento como um remorso que se vai exasperando».
(Mário Gonçalves Viana, A Arte de Estudar, Porto, 1943, p. 255).

            Assim, passe a comparação, em clima eleitoral: o futuro, senhores, é que vai ser bom, porque nós vamos salvar o mundo! «Vamos»: o futuro. E… cadê o presente?
            Li numa tasca: «Tomorrow the beer is free!». Excelente ideia, pensei, amanhã, venho cá tomar um copo! E esquecia-me, naturalmente, da outra frase, mui sábia também: «Tomorrow never cames!»: o amanhã não existe, é sempre para o dia a seguir!...
            Nunca imaginei, confesso, que retirar, uma a uma, as folhas do calendário a marcar dias bem preenchidos pudesse trazer tamanha serenidade!

                                                                            José d’Encarnação

Publicado no quinzenário Renascimento (Mangualde), nº 671, 15-10-2015, p. 12.

sábado, 10 de outubro de 2015

Nervoso miudinho

             Era expressão que se ouve muita vez, em relação, sobretudo, a crianças ou idosos, uma vez que repentes desses são mais raros – ou deveriam sê-lo!... – em quem já bebeu da vida a experiência necessária para relativizar acontecimentos e reconhecer, serenamente, crente ou não, que nada, afinal, nos acontece por acaso.
            Pois o diacho do homem era assim. Não lhe fizessem a vontade, ficava logo cheio de nervoso miudinho e muita vez nos virava costas e saía de rabo alçado! De manhã, então, quando no dia anterior se combinara um trabalho…
            Já viste, Manel? O tempo não tá capaz, tá de fosquinhas!…
            … virava costas e abalava nunca se sabia bem para onde. Uma tristeza sem mezinha!...
            Gosto do «rabo alçado» – como gato ou cão que adivinha tempestade e foge enquanto é tempo! Gosto do «nervoso miudinho», para dar aquela ideia de que treme muito, não está quieto, sem mão em si; e a criação do substantivo a partir do qualificativo… óptima!
            De fosquinhas – negaças, caretas… – já falámos. Como se o céu e suas nuvens connosco brincassem aos palhaços.
            De mezinhas todos sabemos também; mas custa-nos muito quando a situação é de tal modo grave que só a podemos classificar de «tristeza sem mezinha»!…

                                                           José d’Encarnação

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 201, Outubro de 2015, p. 10.

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A tristeza do parque vazio

             Dá-me tristeza ver um parque vazio, porque penso, de imediato, que uma das primeiras lutas das comissões de moradores após o 25 de Abril foi criar espaços para as crianças (e todos!) poderem espairecer, conviver, comunicar, saindo, como estávamos a sair, dum longo período em que tudo isso fora bem difícil de ser realidade.
            Cada bairro lutou pelo seu parque e, hoje, na verdade, não haverá lugar no concelho de Cascais que não tenha o seu parque infantil. E, além disso, quando se começou a pensar também nos adultos, criaram-se circuitos de manutenção. Recordo, no que respeita à freguesia de Cascais (perdoar-me-ão os senhores políticos se continuo a não aceitar a junção artificial das duas freguesias…), a luta que foi, no Outeiro da Vela, para haver aí um circuito, de que, confesso, não tenho ouvido falar e nem sei como ora está. Bem perto, também nesse bairro, para o pinhal do outeiro propriamente dito muitas foram as propostas – por concretizar.

Circuitos de manutenção
            Saberão os responsáveis como estão os aparelhos do circuito em muito boa hora instalado no paredão? Tenho pena de só mui raramente os ver utilizados. Como gostaria também de ver mais pessoas no que fica sobranceiro ao mar (localização excelente!), ao fundo da Rua da Torre!...
            Havia um bom circuito no Parque Palmela. Das últimas vezes que por lá passei, verifiquei – posso estar errado – que se deu prioridade às propostas ‘radicais’ para os jovens por sobre o ribeiro que o atravessa. O espaço merece, porém, maior publicidade, por constituir um recanto deveras aprazível e ali há lugar para velhos e novos. As iniciativas da companhia teatral Palco 13 (e outras) têm dado vida ao Auditório Fernando Lopes Graça e podem contribuir, na verdade, para se apreciar mais o parque. Gostaríamos, já aqui o escrevi, que se mudasse o painel da entrada, que encobre a singular minifloresta de dragoeiros, uma pérola a valorizar.

A necessária manutenção
            Falemos doutra manutenção. Não a das pessoas, mas a dos parques em si. Creio que estão agora sob a alçada das juntas de freguesia. Perdoem-me, novamente, os senhores políticos se mantenho a designação de ‘juntas’, por discordar, do ponto de vista da expressão, com a sua – para mim, injustificada – supressão.
            Além de me custar ver parques vazios, pelo que isso significa de ausência de tempo das famílias para deles usufruírem, custa-me também verificar amiúde que a manutenção dos aparelhos, salvo mui honrosas excepções, se tem esquecido. Compreendo que haja tantas outras prioridades, porventura até mais vistosas. Penso, porém, que – também neste caso – a diminuição da sua ocupação faz com que não haja quem se disponibilize a chamar a atenção das entidades quando algo carece de arranjo. O papel dos tutores de bairro da Cascais Ambiente poderá ser, nesse aspecto, de primordial importância, veiculando eventuais anomalias.

Urbanizações
            Sei que um projecto de urbanização tem de implicar sempre esses espaços de lazer. Recordo que foi uma das premissas que pusemos quando gizámos o Plano de Pormenor para a villa romana de Freiria, para além das hortas comunitárias que, pioneiramente, propusemos para as margens bem irrigadas do sempre corrente ribeiro que lhe fica aos pés.
            Permita-se-me que recorde, nesse aspecto, um projecto, polémico para a época, mas hoje, decerto, visto já com um olhar diferente: o do chamado Bairro J. Pimenta, no Alto da Pampilheira. Muitos prédios em altura, é certo; contudo, ‘respiravam’, respiram, com as zonas ajardinadas que foram deixadas entre eles. Aliás, João Pimenta – cujo falecimento não vi noticiado com as palavras de encómio que, apesar de tudo, eu creio que bem merecia – teve a seu lado uma equipa que viu para além do seu tempo. Cumpre fazer-lhe uma referência de boa memória, sobretudo se pensarmos quanto acabou por penar nos meses a seguir ao 25 de Abril, na impetuosa e desregrada vaga de ‘revolucionárias’ ocupações.
            E termino com um sorriso. A poente do «J. Pimenta» (é assim que se diz no dia-a-dia…) está o Bairro da Assunção. Tem também um parque infantil, mas as linhas urbanísticas (disseram-me os entendidos) já não foram tão ordenadas quanto as do ‘vizinho’. Entre os dois, a (hoje designada) Avenida Eng.º Adelino Amaro da Costa. E já se reparou que se ajardinou e se puseram bancos num espaço que ia ficar vazio? Solitários bancos, que sofrem com a poluição automóvel, mas se alegram, estou certo, por saberem que estão disponíveis para o velhote que, numa tarde calma, neles se queira sentar!...

                                                                      José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 111, 07-10-2015, p. 6.
Dois aspectos do referido recanto junto ao Bairro da Assunção.
Com vista de serra e vegetação abundante a rodeá-los,
os bancos suspiram por quem de uma pausa boa deseje usufruir!

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

As tascas e o guilho

            Levou-me o então presidente da Câmara Municipal de Évora, Abílio Fernandes, a 16 de Novembro de 1996, a almoçar com ele numa das tascas da cidade. Bancos e mesas de pau; à entrada, pendurada, uma toalha de papel com a ementa escrita a marcador azul. Claro, aqueles pratos típicos: pezinhos de coentrada, sopa de cação, carne do alguidar…
            E comentou comigo a sua vontade de reabilitar as tabernas como locais de convívio, a lembrar os finais de tarde em que, após o calor da jornada, os trabalhadores nelas se ajuntavam para um copo, um naco de pão com queijo, quando não uma tira de toicinho. E, até, de quando em vez, lá saía, natural, uma modinha para alegrar o coração...
            Outros municípios tiveram a mesma ideia. Há em Coimbra uma rota das tabernas e conceituada marca de vinhos acaba de lançar, no passado mês de Junho, o livro Tascas, em edição bilingue (português – inglês), para dar a conhecer «as melhores tascas de Lisboa». Da autoria de Tiago Cruz e Marco Dias, assinala, de cada tasca, a sua história e características, tudo acompanhado de bem saborosas ilustrações. De abrir o apetite, pois então! E lá se esclarece (pasme-se!): «Locais de comer e beber, na sua grande maioria, as tascas lisboetas surgiram de carvoarias fundadas por galegos no início do século XX. Era habitual terem uma sala contígua em que se serviam vinhos e petiscos. Com o uso da electricidade e do gás, o negócio do carvão morreu»… e ficaram os comes!
            Comes que nós muito gostaríamos que continuassem a ser os nossos, com nomes à nossa maneira. Rio-me sempre, por exemplo, com a ementa que traz «gambas à la guilho». Guilho é a cunha de aço para rachar cantarias, um dos objectos mais usados por meu pai, que era cabouqueiro. Constitui, pois, pura anedota essa ‘tradução’ do castelhano «al ajillo», «ao alhinho»… mas que se lhes há-de fazer? E agora essa do «gourmet» por tudo e por nada!? Para dar um ar modernaço, e a gente anda à procura da truta em prato «gourmet» e… tem de fazer uma escavação arqueológica! Para além de que, para ser «gourmet», tem de vir empratado a preceito, que os olhos também comem e… o pessoal que espere!
            Em vez dessas modernices, preferi, pois, a tasca de Mérida, onde almocei no dia 18. Logo a ementa, um espectáculo! Só transcrevo dois dos («primeros») pratos e recuso-me a traduzir, que perderia a graça: «Fresco y apetecible gazpachito extremeño, con guarnición de la huerta de Doña Sole»; «Cremoso y original salmorejo cordobés con jamón ibérico y huevo de gallina de campo de los de Otilia, la mujer que vive en frente de la puerta falsa de mi madre».  Não é um mimo? E bem à espanhola se comeu, pois então!

                                                                       José d’Encarnação

Publicado no quinzenário Renascimento (Mangualde), nº 670, 01-10-2015, p. 12.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Um desafio aceite e realizado

             Mui oportuno, sem dúvida, o título dado a esta autobiografia contada na primeira pessoa: o Destino desafiou o David ou foi o David que nunca deixou de o desafiar e acabou por o vencer?
            Dois aspectos me seduziram – que, como decerto acontecerá ao leitor, não é leitura susceptível de ser deixada a meio nem para uma pausa de poucos minutos, tem de ler-se até final, de supetão! Por um lado, a imparável tenacidade de um Homem, herdeiro daquela estirpe dos Portugueses de antanho de «antes quebrar que torcer»! Depois, os apontamentos histórico-sociológicos que da sua narrativa se desprendem e que contribuem para, em pinceladas concretas, nos darem o retrato de toda uma época. Mui oportuna é, pois, a sua publicação. Para que conste!
            Na verdade, estamos perante uma singela história pessoal, de uma pessoa com um nome; mas essa foi, seguramente, a história de muitas outras, cujo nome se olvidou. Bem fez, portanto, David Martins em se ter disponibilizado para no-la contar.
            Uma história contada, de facto, em que, por conseguinte, a oralidade detém lugar de relevo – e os editores procuraram apenas adequar a essa oralidade a pontuação e uma que outra frase. Nada mais! «Um primo do meu pai tinha uma marcenaria, aqui no canto desta rua da Biblioteca Municipal» – estamos a ver!... O inesperado, mas bem sugestivo, uso do presente: «A minha situação não mudara em nada. Decido partir para Lisboa». A linguagem falada, bem ao jeito do homem do barrocal: «Ela estava a cramear lã, encarei com ela e ali fiquei encalhado».
            Perturbam-nos, quiçá, as peripécias da criança nesses já longínquos (pensamos nós…) anos 30 do século XX. A fome por que passou; a exploração; o desrespeito… «Aos treze anos, […] eu nunca conheci uma cama. Dormia ao pé das vacas, no palheiro, e as pulgas eram tantas que o meu corpo estava negro». Sabemos que hoje ainda é assim; mas queremos acreditar que será noutros horizontes, que não o europeu – e talvez não.
            Maravilha-nos, acima de tudo, a sua enorme vontade em, por exemplo, querer aprender a ler, porque, desde cedo, compreende quanto essa aprendizagem lhe é fundamental:
            «Queria saber ler e escrever como todo o mundo. Éramos cinco filhos, mas só eu não tive a sorte de ir à escola».
            Encanta-nos como David Martins, tantos anos passados, acaba por não guardar rancor algum e aceita – com alguma bonomia até – as agruras por que passou. A história do tempo das favas:
        «Quando chegava a altura das favas, comiam-se favas todos os dias. Favas e favas com favas. Chegava a um ponto que as favas estavam escuras e faziam um caldo muito negro. Tomei uma tal zanga às favas, até hoje».
            Dizia-me um saloio de Cascais que por aqui se reconhecia muito bem se o quintal era de um algarvio: tinha favas. Meu pai também nunca deixou de semear favas e eu, tal como David, fartava-me de favas e gritava: «Nunca mais nasce o fenacho nas favas!». Não sei se é assim que a palavra se escreve; apenas me recordo bem do que era: uma parasita de aspecto pegajoso e flor vistosa que nascia junto da raiz da faveira e que, dela se alimentando, acabava por rapidamente a secar, esse pé e os demais do faval, porque era uma… praga! E eu essa praga rogava!...
            «E, quando acabavam as favas, era o tempo das ervilhas e repetia-se o mesmo. Todos os dias ervilhas, até ao fim. Quando as ervilhas já tinham apanhado algum bicho, comíamos tudo, como se fosse ervilha com chouriço».
            Escreveu Pellegrino Artusi que «nem todos sabem ler, mas todos comem». E, de facto, as lembranças mais presentes de David Martins são também do que comia: as sardinhas amarelas – meia sardinha, aliás… O pão com toucinho cru, mais tarde – um hábito muito meridional, que se prolongará décadas afora e, hoje, neste retorno que se preconiza à gastronomia tradicional, acabamos por começar a ver, como aliciante, nas feiras…
            E lembranças do dia-a-dia, de uma realidade muito diferente da actual:
            «Com 13 anos nunca conheci um par de sapatos, nem botas, nem salário, nada desta vida. Só me davam de comer. Antigamente, andar a servir era em troca de comer, vestir e calçar. Mas era da roupa do marido que a patroa fazia roupa para mim. Nunca tive uma camisa nova, nem calças».
            «Nada desta vida»!...
            Valerá, pois, a pena tomarmos consciência da situação.
            Devido às dificuldades familiares, o menino não continua a escola e anda em bolandas, de casa em casa, onde o destratam. Corre para as campinas de Faro, cujas hortas, nesse tempo (e ainda durante muito…), constituíam símbolo de fartura; tenta incorporar-se na tropa para poder aprender a ler; foge com a namorada, porque os pais se opõem ao casamento; demanda o Alentejo e, daí, Almada, à vista da capital; quase por milagre, aceitam-no no Alfeite; entra para o Partido Comunista; ajuda a preparar a intentona de Beja; foge a salto para França… e é toda a odisseia dos que para lá foram na década de 60, um homem dos sete ofícios, pode dizer-se!
            Uma história singular – que poderá ser a de muitos! Homens e… mulheres! De facto, o papel da mulher não vem expressamente realçado por David Martins, mas ele não se esquece de referir a consorte, que o acompanha, com os filhos atrás, e não hesita, quase no final da estada em França, a pegar num carro e transportar pessoas!
            Há apontamentos de ordem laboral que merecerão reflexão maior: porque o admitem aqui, porque o rejeitam mais além… As atitudes incorrectas que levam à revolta da classe operária. Tópicos a desenvolver pelos estudiosos!...
            Cena a fazer pensar, a do encontro com o Engº Sousa Coutinho, do Arsenal do Alfeite. E quão elucidativa, na sua singeleza, essa descrição! Ora leia-se:
            «Para passar para a Secção da Soldadura, tinha de me apresentar ao senhor engenheiro da Construção Naval, que se chamava Sousa Coutinho. Quando o Sr. Engenheiro me recebeu e viu a prova positiva do meu exame, a resposta foi muito negativa e vergonhosa. Respondeu-me que tinha entrado para o Arsenal do Alfeite como servente e teria de ser sempre servente.
            Ora isto fez-me muito mal.»
            Não admira que, ainda hoje, ao relatar o que as leis o impediram de fazer, as repetições surjam, espontâneas. Por exemplo, o comentário à obrigação de comprar passagem de ida e volta se se queria ir para colono no Ultramar: «Tinha de pagar duas passagens, que era para, no caso de não me dar bem, já tinha a volta paga». Escreve:
            «Esta resposta deixou-me completamente desiludido. Na minha maneira de pensar, eu era uma pessoa que não servia para coisa alguma. Esta resposta deixou-me completamente revoltado, porque considerei que as colónias faziam parte do território português. Esta exigência era mesmo abusar de quem vivia na miséria, porque com o salário que eu ganhava na agricultura não me dava para apurar um centavo. Fiquei completamente desiludido com o governo».
            E desiludido haveria de ficar também, mais recentemente, quando se apercebeu que, para gozar, ele e a mulher, da sua «bem merecida» reforma, o melhor era voltarem para França, pois se negaram a reembolsá-lo das despesas de saúde feitas lá:
            «Quando cheguei ao meu país de origem, com todas as facturas para reembolsar, responderam-me que o que fiz em França podia fazer em Portugal e não me pagaram nada».
            E, assim, apesar da ‘nostalgia’ – que procura colmatar com regressos anuais à sua querida São Brás – «resolvi voltar de novo para França em 2010», confessa. «Comprei de novo uma casa e mudei outra vez de residência, recomecei a pagar os impostos como cidadão francês».
            Custa-nos ler esta frase. Mas, na sua aparente singeleza – «recomecei a pagar os impostos como cidadão francês» –, esconde, ou melhor, revela um murro enorme ao paradigma vigente numa Europa que se proclama «das pessoas», mas, na crua e nua realidade dos nossos dias, é, cada vez mais, a Europa dos dividendos!
            Bem haja, pois, David Martins, por esta extraordinária lição. E nem precisou, Amigo, de ter biblioteca – como a não teve o Jesus Cristo cantado pelo nosso portuguesíssimo Fernando Pessoa:

            Mais que isto
            É Jesus Cristo,
            Que não sabia nada de finanças
            Nem consta que tivesse biblioteca...

            O pior, Amigo, é que eles também não têm biblioteca e pensam que sabem de finanças!

                                                           Cascais, 14 de Julho de 2015

                                                                       José d’Encarnação

            Introdução ao livro Desafiando o Destino – a história da minha vida, de David Martins Dias, Câmara Municipal de S. Brás de Alportel, Setembro de 2015, p. 9-13. A obra foi apresentada em S. Brás de Alportel, a 4 de Setembro de 2015.
                                  

Apodrecem as traves e o telhado cai

             Para explicar por que jazem subterrâneos os vestígios arqueológicos, uso amiúde uma comparação: abandonada uma casa, as traves que sustentam as telhas vão apodrecendo, acabam por cair, entra terra, entram sementes, as ervas dão em crescer e… mais década menos década ali se mostra uma ruína sem préstimo.
            E um palacete? Não há meio de se lhe evitar a ruína? Sim, se os herdeiros se entenderem, se continuarem a dar-lhe préstimo, como casa-memória dos ancestrais ou, sobretudo, se um deles for suficientemente abastado e louco para concretizar rendível plano de utilização.
            Já viste, ali em pleno coração da vila? O palacete foi dado a uma instituição de benemerência. Há anos. E assim está. Abandonado.
            Abandonado não será, porventura, o termo apropriado, porque os responsáveis pela instituição bem darão voltas à cabeça para exorcizar pesadelos. Mas como? Ele é preciso um objectivo; ele é preciso um projecto viável e susceptível de se candidatar a apoio das entidades competentes!... E onde vai buscar-se a verba para o arranque do processo?
            Mais fácil será a recuperação dos casais que por essas terras se vão transformando em ruína. O PRID (Programa para Recuperação de Imóveis em Degradação), criado pelo decreto-lei nº 449/83, de 26 de Dezembro, ainda se manterá activo? É que não bastará a iniciativa privada, até porque a vivificação da paisagem indicia um ar sadio, acolhedor, «é tão bom viver aqui!»…
            Urge, pois, uma reflexão conjunta, um dinamismo comunitário – para que também alfarrobeiras, figueiras e amendoeiras se sintam mais acompanhadas!

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz nº 226, 20-09-2015, p. 11.

            Nota: Agradeço a Vítor Barros a gentileza de ceder a fotografia. Explica-me: «Situa-se na Fonte da Murta mesmo em frente à casa da minha mãe. Viu-me crescer e brinquei muito com as suas paredes que me serviam de baliza para os meus treinos futebolísticos. Outrora, e como era normal no campo, serviu também de casa de banho.»

 

Desejáveis estatísticas

           Proclamamos a cada passo «não somos números!»; contudo, essa afirmação não significa menosprezo pelos números, mas sim por verificarmos que, em política, se teima em ver numericamente as pessoas, sem um critério humanista.
            No oportuno livro «Contas x Contos x Cantos e que +», editado pela Gradiva (Setembro de 2012), organizado por Ana Paula Guimarães (com a colaboração de Adérito Araújo), pondera António Canas o equívoco em que se situa o facto de «a generalidade das pessoas que optaram por estudar letras geralmente “odiar” matemática» (p. 107).
            Trata-se, na verdade, de uma distracção, na medida em que o número – e o citado livro prova-o eficientemente – faz parte integrante do quotidiano:
            «O nosso mundo está inundado de números – dados económicos, horários de reuniões, classificações, impostos, preços, números de telemóvel, etc., etc.» (p. 85).
            Ocorreram-me estas considerações quando o Peter me contou:
            Hoje, pensei em matar saudades de Cascais e, claro, de bicicleta. Não quero perder a forma, apesar dos meus 77 anos! E isto de vir de Hamburgo passar aqui três dias obriga-me a revisitar os sítios que bem conheci quando, há trinta anos, aqui fixei residência em serviço.
            E então, não mataste saudades?
            Não consegui! Cheguei pouco depois das dez horas ao quiosque das bicas no largo da estação e… já não havia! Por isso, marcamos encontro para amanhã: eu vou logo às 9 buscar a bicicleta e entrego-a às 17.30; e tu vais lá ter.

A curiosidade
            Fiquei, pois, com imensa curiosidade e, um dia destes, vou vasculhar na página da Câmara, onde constarão certamente, de tempos a tempos, essas informações de números:
            quantas bicas se usam, em média, por dia, por semana, por mês?
            quantas há disponíveis?
            que nacionalidades se registam entre os seus utilizadores?
            que movimento de passageiros tem o buscas»? É um serviço público rendível?
            E os parques de estacionamento geridos pela Cascais Próxima quanto rendem ao erário municipal? Muito, decerto, e até, se calhar, haverá já informação acerca dos projectos a ser financiados pelas verbas que sobram após pagamento a funcionários e chefias e despesas deduzidas.

Parques públicos
            Equivoquei-me no horário de uma cerimónia religiosa na igreja da Boa Nova e não hesitei: fui saber da localização do Parque Urbano do Bosque dos Gaios, anunciado por várias placas que eu já vira. Não cheguei a entrar, mas foi o bastante para que possa louvar a oportunidade da sua criação ali.
            E gostava de saber se era muito frequentado (cá está a questão dos números…); se correspondia aos objectivos para que fora criado. Números, pronto!...
            Curiosidade que se aguçou dias depois, quando fui ver o que, afinal, haviam sofrido com o incêndio as estruturas das Penhas do Marmeleiro. Aliás, como é sabido, pouco tempo após o parque ter sido inaugurado, puxaram fogo ao forte; os painéis explicativos da sua inserção na Paisagem Protegida Sintra-Cascais há muito que desapareceram; os dois atraentes espelhos de água que nos davam as boas-vindas são uma ruína já… Ardeu agora parte de um passadiço. De quanto tempo se necessitará para uma recuperação? Há números? Quantas pessoas já visitaram as Penhas? Que atenção lhes é dada pelos serviços competentes?

Efeitos do incêndio junto do Parque das Penhas do Marmeleiro,
em que uma das passadeiras chegou a ser atingida pelas chamas.
Lumina
            Se outro interesse não tivera o magnificente «Lumina», constituiu, sem dúvida, objectivo bom dar a conhecer melhor o Parque Marechal Carmona.
            Tenho pugnado por que – atendendo à importante função social que esse parque desempenha junto da população da vila – Cascais Próxima venha a criar o conceito universalmente conhecido da «happy hour»: todos os dias, em horário determinado, ter-se-ia uma hora de estacionamento gratuito no parque adjacente, que, como se sabe, está ordinariamente em ocupação mínima. Essa «happy hour» ajudaria, decerto, a criar-se o hábito de o utilizarmos mais vezes – com ulterior maior proveito para a empresa municipal que o gere. Acho eu, que sou de Letras e de números pouco percebo!...

                                                       José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 109, 23-09-2015, p. 6.